“E chamou Deus à porção seca Terra; e ao ajuntamento das águas chamou Mares. E viu Deus que era bom.”
1. Introdução
Depois de mandar as águas se ajuntarem e fazer aparecer a terra seca, Deus dá nomes ao que acabou de organizar: chama à porção seca "Terra" e à reunião das águas "Mares". E, pela primeira vez desde a criação da luz, o relato registra de novo o veredito divino: "e viu Deus que era bom". O terceiro dia, que ainda vai render mais uma obra, tem aqui o seu primeiro selo de aprovação.
O gesto de nomear pode passar despercebido, mas é carregado de sentido. No mundo antigo, dar nome a algo era um ato de autoridade — quem nomeia, domina; quem batiza, governa. Ao nomear a terra e os mares, Deus declara que ambos lhe pertencem e estão sob o seu comando. O mar, temido pelos vizinhos de Israel como uma força divina e caótica, aqui recebe seu nome das mãos de Deus, como um servo que se apresenta ao seu senhor.
E há a palavra "bom". Não é apenas um elogio estético. É a constatação de que a criação corresponde exatamente ao propósito de Deus: cada coisa no seu lugar, cumprindo aquilo para que foi feita. O mundo que sai das mãos de Deus não é neutro nem indiferente — é bom, e essa bondade é uma das afirmações mais importantes de toda a Bíblia.
2. Contexto Histórico e Cultural
Para entender a força deste versículo, é preciso lembrar o que o mar significava para os povos ao redor de Israel. Nas culturas do antigo Oriente Próximo, as águas do mar eram frequentemente vistas como caóticas, perigosas e até divinas. O poema babilônico Enuma Elish personifica as águas primordiais na deusa Tiamat, uma potência a ser vencida. Entre os cananeus, o "Mar" (Iam) era um deus que o poderoso Baal precisava subjugar. O mar era o território do imprevisível, do monstro, da ameaça — algo diante do qual o ser humano se sentia pequeno e desprotegido.
Gênesis desmonta esse medo com uma simplicidade desconcertante. Aqui, o mar não é deus, nem monstro, nem inimigo: é apenas água reunida, à qual Deus tranquilamente dá um nome. O que os outros povos temiam e adoravam, o texto bíblico trata como criatura obediente. Nomear os mares é, no fundo, uma declaração polêmica: aquilo que vocês chamam de deus é, na verdade, obra das mãos do único Deus, e está inteiramente sob o seu domínio.
O ato de nomear também dialoga com a mentalidade antiga sobre a linguagem. Nomear era exercer poder e estabelecer identidade. Reis nomeavam cidades conquistadas; senhores nomeavam servos. Ao chamar a terra de "Terra" e as águas de "Mares", Deus não está apenas rotulando: está afirmando soberania. E, ao repetir "era bom", o relato contrasta ainda mais com as visões vizinhas, em que a criação nascia de violência e desordem. No mundo de Gênesis, o resultado da criação não é um campo de batalha, mas um mundo aprovado pelo próprio Criador.
3. Análise Teológica do Versículo
"E chamou Deus à porção seca Terra,"
Esta frase indica o ato de nomear por parte de Deus, o que significa autoridade e domínio. No contexto do antigo Oriente Próximo, dar nome era um ato de poder e controle. O termo "Terra" aqui se refere ao solo firme, distinguindo-o das águas. Essa separação entre terra e água é fundamental para a criação da vida, pois oferece um habitat para as criaturas terrestres e para as plantas. Teologicamente, esse ato de nomear reflete a soberania de Deus sobre a criação, um tema que percorre toda a Escritura, como se vê no Salmo 24:1: "Do SENHOR é a terra e a sua plenitude".
"e à reunião das águas chamou Mares."
O fato de a "reunião das águas" ser chamada de "Mares" destaca a organização e a ordem que Deus traz à criação. No mundo antigo, os mares eram muitas vezes vistos como caóticos e perigosos; aqui, porém, são domados e nomeados por Deus, indicando o seu controle sobre o caos. Isso ecoa a narrativa de Jó 38:8-11, onde Deus estabelece limites para o mar. Os mares também têm peso na profecia e na escatologia bíblicas, como se vê em Apocalipse 21:1, onde a ausência do mar simboliza a remoção do caos e do mal na nova criação.
"E viu Deus que era bom."
Esta declaração de bondade ressalta a perfeição e a harmonia da criação de Deus. Cada etapa da criação é marcada por essa aprovação divina, enfatizando que tudo o que Deus cria cumpre o propósito para o qual foi feito. A expressão "era bom" se repete ao longo de Gênesis 1, reforçando o valor e a ordem inerentes à criação. Essa bondade é depois estragada pelo pecado, como descrito em Gênesis 3, mas é por fim restaurada por meio de Cristo, que reconcilia todas as coisas consigo (Colossenses 1:20). A bondade da criação também aponta para o caráter de Deus, que é a fonte de tudo o que é bom (Tiago 1:17).
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Deus — o Criador, que está ativamente envolvido na formação e no nomear da terra e dos mares.
Lugares
A Terra — a porção seca que Deus chamou à existência, representando o mundo físico que mais tarde seria habitado por criaturas vivas.
Os Mares — a reunião das águas, que Deus também nomeou, assinalando os limites e a ordem que Ele estabeleceu na criação.
Eventos
A nomeação e a aprovação — o momento em que Deus dá nome ao que criou e declara que era bom, selando esta etapa do terceiro dia como conforme ao seu propósito.
5. Pontos de Ensino
A soberania de Deus na criação
Deus nomeia a terra e os mares, demonstrando a sua autoridade e a sua intencionalidade na criação. Isso nos lembra do seu controle supremo sobre o universo.
Ordem e propósito
A separação entre terra e mar mostra o desígnio de Deus em favor da ordem e do propósito na criação. Podemos confiar que Deus também tem um propósito para a ordem nas nossas vidas.
A bondade da criação
Deus viu que era bom, afirmando a bondade inerente da sua criação. Isso nos encoraja a valorizar e a cuidar do mundo natural de maneira responsável.
Identidade e nome
Ao nomear a terra e os mares, Deus estabelece a identidade de cada um. De modo semelhante, a nossa identidade se encontra naquilo que Deus nos chama, e não nos rótulos que o mundo nos dá.
6. Aspectos Filosóficos
Há uma pergunta antiga por trás deste versículo: nomear é apenas rotular, ou é dar sentido? Na mentalidade bíblica, o nome não é um adesivo arbitrário colado sobre a coisa; ele expressa a natureza e o lugar daquilo que se nomeia. Quando Deus chama a terra de "Terra" e as águas de "Mares", Ele não inventa palavras ao acaso — Ele reconhece e fixa a identidade de cada domínio. Nomear é, aqui, um ato de conhecimento e de ordem: é dizer o que cada coisa é e onde ela pertence.
Esse gesto tem uma consequência interessante. Mais adiante, será o próprio ser humano quem dará nome aos animais (Gênesis 2:19). O poder de nomear, que aqui pertence a Deus, será em parte delegado ao homem — sinal de que a humanidade participa, à sua medida, da tarefa de compreender e ordenar o mundo. O ser humano não cria as coisas, mas é chamado a nomeá-las, isto é, a entendê-las e a dar-lhes lugar no seu pensamento. A linguagem, nesse sentido, é um eco criado do Deus que fala.
Mais funda ainda é a questão do "bom". Ao declarar boa a criação, Gênesis rejeita duas visões extremas: a de que a matéria é má ou desprezível, e a de que o mundo é moralmente neutro, sem valor próprio. A bondade não é algo que projetamos sobre as coisas; ela está inscrita nelas, porque procede de quem as fez. O mundo tem valor antes de ter utilidade para nós. Essa convicção — a de que a realidade é, na sua raiz, boa — sustenta boa parte da esperança bíblica: um mundo bom por origem pode ser estragado, mas também pode ser resgatado.
7. Aplicações Práticas
Deixe Deus definir a sua identidade. Assim como Deus nomeia a terra e os mares e fixa o que cada um é, a sua verdadeira identidade vem daquilo que Deus diz sobre você, não dos rótulos que o mundo, ou o seu próprio medo, tentam colar. Saber de quem você é muda como você se enxerga.
Enxergue a bondade do mundo. Antes de ser útil, o mundo é bom. Cultivar o olhar que reconhece bondade na criação — no alimento, na paisagem, no corpo — é uma forma de concordar com o veredito de Deus e resistir ao cinismo que só vê defeito.
Confie em Quem domina o caos. O mar, símbolo de tudo o que ameaça, aqui apenas obedece e recebe nome. Aquilo que hoje parece incontrolável na sua vida também tem um dono. Nomear diante de Deus os seus medos é o começo de submetê-los a Ele.
Cuide do que Deus chamou de bom. Se a criação é boa aos olhos de Deus, tratá-la com descuido é discordar dele. O cuidado com a terra e com as águas não é modismo, mas coerência com o Criador que os declarou bons.
Valorize a ordem e os limites. Terra e mar são bons porque cada um tem o seu lugar. Também na vida, definir fronteiras claras — no trabalho, nas relações, no uso do tempo — não é rigidez, mas participação na ordem que Deus considera boa.
Aprenda a dizer que algo "é bom". Deus não teve pressa de passar adiante; parou para reconhecer a bondade do que fez. Nomear em voz alta o que há de bom no seu dia, no seu trabalho e nas pessoas ao redor é um exercício de gratidão que imita o Criador.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Qual é o significado de Gênesis 1:10?
É o versículo em que Deus dá nome à terra e aos mares e declara que a sua obra era boa. Significa que Deus tem autoridade sobre tudo o que criou — inclusive sobre o mar temido pelos antigos — e que a criação, saída das suas mãos, corresponde plenamente ao seu propósito.
2. Como Gênesis 1:10 demonstra a autoridade de Deus sobre a criação e sobre o ato de nomear?
No mundo antigo, dar nome era exercer poder. Ao nomear a terra e os mares, Deus mostra que ambos lhe pertencem e estão sob o seu comando. O mar, que outros povos adoravam como deus, aqui recebe seu nome das mãos do Criador, como criatura submissa.
3. Que significado tem a separação entre "terra" e "mares" em Gênesis 1:10?
Marca a passagem do caos das águas para um mundo ordenado, com domínios distintos. A separação torna a terra habitável e prepara o lugar para a vida. É a ordem de Deus tomando forma visível: cada coisa no seu lugar, com nome próprio.
4. Como podemos ver a ordem de Deus na criação refletida na nossa vida diária?
Da mesma forma que Deus deu lugar e nome a cada domínio, somos chamados a dar ordem ao que nos foi confiado — tempo, relações, responsabilidades. Uma vida com limites claros e prioridades bem postas reflete, em pequena escala, o Deus que separou terra e mar e chamou o resultado de bom.
5. Como Gênesis 1:10 se conecta à soberania de Deus vista no Salmo 95:5?
O Salmo 95:5 diz: "Dele também é o mar, pois ele o fez; e suas mãos formaram a terra seca". É quase um comentário direto deste versículo: tanto o mar quanto a terra são obra das mãos de Deus e lhe pertencem. Nomear é a expressão dessa posse.
6. Que passos práticos podemos dar para cuidar da "terra" e dos "mares" hoje?
Reconhecer que ambos são bons aos olhos de Deus muda a forma como os tratamos: evitar o desperdício, respeitar os ecossistemas, não poluir as águas nem esgotar o solo. O cuidado responsável com o ambiente é uma resposta concreta ao Criador que declarou boa a sua obra.
7. Como Gênesis 1:10 se relaciona com a compreensão científica da formação da Terra?
O versículo afirma que a distinção entre continentes e oceanos é obra e desígnio de Deus, mas não descreve o processo geológico. A ciência estuda como as bacias oceânicas e as massas de terra se formaram ao longo de eras; o texto diz de quem é a autoria e o propósito por trás disso. As duas perguntas — "como" e "por quem" — não se anulam.
8. O que Gênesis 1:10 revela sobre a autoridade de Deus sobre a criação?
Revela uma autoridade serena e total. Deus não luta contra o mar; Ele o nomeia, como um senhor nomeia o que é seu. E, ao ver que era bom, mostra que a sua autoridade não é apenas poder, mas cuidado: Ele avalia, aprova e se importa com a qualidade daquilo que faz.
9. Conexão com Outros Textos
"Dele também é o mar, pois ele o fez; e suas mãos formaram a terra seca." (Salmo 95:5)
É quase uma paráfrase de Gênesis 1:10. Tanto o mar quanto a terra seca são obra das mãos de Deus e lhe pertencem. Nomeá-los é afirmar essa posse.
"Ele junta as águas do mar como se estivessem empilhadas; aos abismos ele põe como depósitos de tesouros." (Salmo 33:7)
Retoma o ajuntamento das águas do terceiro dia e o transforma em louvor: o mar, longe de ser caos ameaçador, é como um tesouro guardado por Deus no seu devido lugar.
"Quando colocava ao mar o seu limite, para que as águas não ultrapassassem seu mandado; quando estabelecia os fundamentos da terra." (Provérbios 8:29)
Mostra o mesmo Deus que dá nome aos mares fixando também os seus limites. Nomear e delimitar são dois lados do mesmo domínio soberano sobre as águas.
"Não vos assombrareis perante mim, que pus a areia por limite ao mar por ordenança eterna, a qual não passará?" (Jeremias 5:22)
O mar, que os antigos temiam, é aqui mantido em seu lugar por uma simples ordem de Deus — até a frágil areia da praia lhe serve de fronteira. O caos está sob controle absoluto do Criador.
"Pois toda criatura de Deus é boa, e não há nada a rejeitar, se for recebida com gratidão." (1 Timóteo 4:4)
Ecoa o "era bom" deste versículo e o estende: tudo o que Deus fez é bom por origem. A resposta certa diante da criação boa é a gratidão, não o desprezo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português: À parte seca Deus chamou "terra", e às águas reunidas chamou "mares". E Deus viu que era bom.
Texto hebraico: וַיִּקְרָא אֱלֹהִים לַיַּבָּשָׁה אֶרֶץ וּלְמִקְוֵה הַמַּיִם קָרָא יַמִּים וַיַּרְא אֱלֹהִים כִּי־טוֹב׃
Transliteração: vayyiqrá Elohim layyabbashá érets ulmiqvé hammáyim qará yammím vayyár Elohim ki-tóv.
Análise palavra por palavra:
vayyiqrá (וַיִּקְרָא) — "e chamou": da raiz qará, "chamar, nomear, proclamar". Nomear, na Bíblia, é ato de autoridade: quem dá o nome exerce domínio sobre o nomeado. Deus não sugere um nome; Ele o impõe, como senhor sobre a sua obra.
layyabbashá érets (לַיַּבָּשָׁה אֶרֶץ) — "à terra seca, Terra": yabbashá é o chão enxuto do versículo anterior; érets é o nome que agora recebe — "terra", "país", "solo". A criatura descoberta pela retirada das águas ganha identidade e lugar próprio.
ulmiqvé hammáyim (וּלְמִקְוֵה הַמַּיִם) — "e à reunião das águas": miqvé vem da mesma raiz qavá, "ajuntar", usada no versículo 9. É a "coleção", o "ajuntamento" das águas. A palavra guarda o eco do mandado anterior: o que foi mandado reunir agora é nomeado.
qará yammím (קָרָא יַמִּים) — "chamou Mares": yammím é o plural de yam, "mar". O mar, que outros povos divinizavam e temiam, recebe aqui um nome comum, como qualquer criatura. Não é deus; é apenas "os mares".
vayyár Elohim ki-tóv (וַיַּרְא אֱלֹהִים כִּי־טוֹב) — "e viu Deus que era bom": vayyár, "e viu", da raiz ra'á; tóv, "bom". Não é um bom apenas estético, mas um bom que significa "conforme ao propósito", "como devia ser". Deus contempla a sua obra e a aprova.
Nota teológica: os dois gestos do versículo — nomear e aprovar — dizem muito sobre o Deus da Bíblia. Ao nomear a terra e os mares, Ele afirma domínio sobre aquilo que os vizinhos de Israel temiam como forças divinas; ao declarar "bom", revela que a criação tem valor em si mesma, porque corresponde à vontade do Criador. O mundo não é neutro nem hostil na sua raiz: é obra boa de um Deus bom. Essa afirmação, repetida sete vezes ao longo do capítulo, é um dos fundamentos da esperança bíblica — pois um mundo bom por origem, ainda que estragado depois, pode ser restaurado.
11. Conclusão
Gênesis 1:10 fecha a primeira parte do terceiro dia com dois gestos simples e profundos: Deus nomeia e Deus aprova. Ao chamar a terra de "Terra" e as águas de "Mares", Ele declara que ambos lhe pertencem e estão sob o seu comando. Ao ver que era bom, Ele imprime na criação o selo do seu propósito.
Diante de um mundo antigo que temia o mar como deus caótico, a mensagem é libertadora. Aquilo que aterrorizava os povos vizinhos aqui recebe, tranquilamente, um nome das mãos do Criador. Não há força na natureza que rivalize com Deus; tudo é criatura, tudo lhe obedece, tudo tem lugar.
E fica, sobretudo, a palavra "bom". Num tempo marcado pelo cinismo e pela suspeita de que o mundo não presta, Gênesis afirma o contrário na própria origem das coisas: a realidade é, na sua raiz, boa, porque procede de um Deus bom. Reconhecer essa bondade — na terra, nos mares e na própria vida — é aprender a ver o mundo com os olhos de Quem o fez e o chamou de bom.













