📖 Navegar na Bíblia:
‹

Êxodo 6:23

›
✍️ Por Alberto Adriano·13 de setembro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 28 acessos
Arão tomou por mulher Eliseba, filha de Aminadabe e irmã de Naassom, e ela lhe deu à luz Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar.
Casal de pé diante de duas famílias reunidas, num pátio de terra batida, com quatro meninos ao lado.

Estudo


Arão tomou por mulher Eliseba, filha de Aminadabe e irmã de Naassom, e ela lhe deu à luz Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar.

1. Introdução

Depois de dois versículos de nomes secos, a lista volta a registrar um casamento — e este é o casamento mais informativo do capítulo.

Arão casa com Eliseba, e o texto a apresenta de um jeito que não usa com mais ninguém: pelo pai e pelo irmão. O irmão é Naassom, e Naassom não é um nome qualquer. Ele será o chefe da tribo de Judá na travessia do deserto, e a mesma linha dele desembocará em Davi e reaparecerá, séculos depois, na abertura do evangelho de Mateus.

Ou seja: a casa que vai ficar com o sacerdócio acaba de se ligar por casamento à casa que vai ficar com o trono. O Êxodo registra isso em meia linha e não faz nenhum comentário.

O versículo traz ainda quatro filhos, em ordem, e um silêncio que salta aos olhos assim que se repara nele: a lista dá quatro filhos a Arão e nenhum a Moisés, embora Moisés tenha filhos e o próprio Êxodo já os tenha nomeado.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quem era Naassom, e por que o nome dele está aqui

Para medir o que este casamento significa, é preciso saber quem é o cunhado.

Naassom aparece no livro de Números como chefe da tribo de Judá durante a travessia do deserto. Números 1:7 o nomeia entre os doze homens escolhidos para o recenseamento; Números 2:3 o põe à frente do acampamento do lado leste, a posição de honra; Números 7:12 registra que foi o primeiro dos doze a apresentar a oferta na dedicação do santuário; Números 10:14 o mostra abrindo a marcha. Judá era a maior das tribos pelos números daquele censo, e ele estava à frente dela.

Fora do deserto, a linha dele é a mais consequente do Antigo Testamento: Rute 4:18-22 a segue de Perez até Davi, passando por Aminadabe, Naassom, Salmom, Boaz, Obede e Jessé. E é essa mesma sequência que abre o evangelho de Mateus, em Mateus 1:4, onde os dois nomes deste versículo reaparecem — o estudo daquele versículo trata da linha do lado de Judá.

O que um casamento fazia entre duas casas

No mundo em que este texto se move, casar não era assunto de duas pessoas: era assunto de duas casas. O vínculo criava obrigação recíproca, acesso, apoio em disputa e herança de aliança para a geração seguinte. Era o instrumento mais barato e mais durável de que uma família dispunha para se ligar a outra.

Daí a importância do que este versículo registra. A casa de Levi de onde sairá o sacerdócio e a casa de Judá de onde sairá a monarquia não são, aqui, duas instituições — são duas famílias que se casaram entre si antes de qualquer uma das duas ter o que viria a ter. O arranjo é anterior às funções.

Vale a ressalva: o Êxodo não comenta nada disso. Quem diz que o casamento "une o sacerdócio e o trono" está lendo o texto de trás para a frente, a partir de tudo o que veio depois. O que o versículo faz é registrar um casamento e identificar a mulher pela família dela.

Por que identificar pelo irmão

Aqui está um detalhe de costume que costuma escapar.

O normal, num registro antigo, é identificar alguém pelo pai. É assim em contrato mesopotâmico, em selo hebraico, em óstraco: fulano filho de sicrano. Acrescentar o irmão é excepcional, e acontece por um motivo prático: quando o irmão é o homem que o leitor reconhece.

A Bíblia faz isso outra vez, e com a mesma lógica. Gênesis 25:20 apresenta Rebeca como "filha de Betuel, o arameu de Padã-Arã, irmã de Labão, o arameu" — e Labão é quem o leitor vai reencontrar em cena, não Betuel.

A conclusão razoável é que, para quem primeiro leu esta lista, Naassom era mais conhecido que Aminadabe. O texto identifica a mulher pelo parente que o público situa. É leitura plausível, e não é demonstrável.

Duas listas que não contam as gerações do mesmo jeito

Há aqui um dado que merece ser posto na mesa, porque qualquer leitor atento acaba tropeçando nele.

Conte a linha de Levi como este capítulo a dá: Jacó, Levi, Coate, Anrão, Arão. Arão é o quarto depois de Jacó.

Agora conte a linha de Judá como Rute 4:18-20 e 1 Crônicas 2 a dão: Jacó, Judá, Perez, Hezrom, Rão, Aminadabe, Naassom. Naassom é o sexto.

E os dois homens são cunhados — da mesma geração, portanto, pelo casamento que este versículo registra. As duas listas atravessam o mesmo intervalo de tempo com número diferente de degraus.

Isso não é erro nem contradição; é como as genealogias antigas funcionam. Elas podem saltar gerações, podem conservar todas, e raramente informam qual das duas coisas estão fazendo. O problema maior que essa liberdade cria neste capítulo — o número de gerações contra a duração da permanência no Egito — tem tratamento próprio no estudo de Êxodo 6:16, e não se reabre aqui. O que este versículo acrescenta é uma segunda medida do mesmo intervalo, tomada por outra tribo, e ela não bate com a primeira.

As mulheres deste capítulo

Um último dado, e ele é de contagem. A lista inteira nomeia quatro mulheres, contando a que não tem nome.

Uma é "a cananeia", mãe de um filho de Simeão, registrada em Êxodo 6:15 sem nome próprio. Outra é Joquebede, no versículo 20, apresentada como tia do marido. A terceira é Eliseba, aqui, com pai e irmão. A quarta é "uma das filhas de Putiel", no versículo 25, sem nome e sem número.

Eliseba é a única identificada por dois parentes, e a única cuja família recebe nome próprio completo. Numa lista em que as mulheres entram quando entram, essa diferença de tratamento é o próprio comentário do texto sobre a importância do parentesco que ela traz.

3. Análise Teológica do Versículo

"Arão tomou por mulher Eliseba"

O verbo é o mesmo do versículo 20, e a repetição é deliberada: "Anrão tomou por mulher Joquebede", "Arão tomou por mulher Eliseba". Pai e filho, duas linhas de distância, a mesma fórmula.

E é aí que aparece o contraste, que o texto não sublinha e que fica visível a quem lê os dois versículos seguidos. O pai casou para dentro; o filho casou para fora. Anrão casou com uma parenta da própria tribo, tão próxima que o assunto tem tratamento à parte no estudo do versículo 20. Arão casou com uma mulher de outra tribo, e da tribo que mais tarde será a maior de todas.

Uma geração separa as duas escolhas. O Êxodo registra as duas com a mesma frase e não avalia nenhuma — nem defende a primeira, nem elogia a segunda.

"filha de Aminadabe e irmã de Naassom"

É a identificação mais completa que qualquer pessoa recebe neste capítulo, homem ou mulher.

Repare no que isso significa dentro de uma lista que vem economizando palavras há dez versículos. Corá, Nefegue e Zicri receberam só o nome. Sitri recebeu só o nome. Eliseba recebe nome, pai e irmão — e o irmão, num registro antigo, é informação de luxo.

O motivo prático está no item 2: identifica-se alguém pelo parente que o leitor reconhece. O efeito, porém, é maior do que o motivo. Ao nomear Naassom, o versículo puxa para dentro da genealogia levítica uma linha inteira que não é levítica. Quem lê esta lista até aqui está lendo Levi, Coate, Anrão, Izar, Uziel — e de repente aparece um nome de Judá, com sobrenome de família e tudo.

A lista, portanto, não é tão fechada quanto parece. Ela guarda também por onde a casa sacerdotal se ligou ao resto de Israel.

"e ela lhe deu à luz Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar"

Quatro filhos, na ordem em que nasceram, e os quatro serão sacerdotes.

Há um detalhe na forma da frase em hebraico que merece registro, e a análise dele está no item 10: os quatro nomes não estão escritos em fila, e sim em dois pares. O primeiro e o terceiro entram sem conjunção; o segundo e o quarto entram com ela. O resultado é "Nadabe e Abiú" de um lado, "Eleazar e Itamar" de outro.

O dado é real e é do texto. O que fazer com ele exige cuidado, porque a divisão coincide exatamente com o que acontecerá a esses quatro homens — os dois primeiros morrerão juntos, diante do santuário, e os dois últimos levarão o sacerdócio adiante. A coincidência é impressionante e não é demonstrável como intenção: o hebraico agrupa nomes em pares por ritmo com alguma frequência, e o próprio capítulo faz isso em outros lugares sem consequência nenhuma. Registre-se o fato e deixe-se a interpretação em aberto.

O silêncio sobre os filhos de Moisés

Este é o achado mais forte do versículo, e ele está no que não foi escrito.

A lista dá a Arão quatro filhos, com nome e ordem. A Moisés não dá nenhum. E não é por falta de material: o próprio Êxodo já registrou um filho de Moisés, em Êxodo 2:22, com direito à explicação do nome, e registrará o segundo adiante. Eles existem, o livro sabe deles, e a genealogia os ignora.

Duas leituras se apresentam, e convém expor as duas.

A primeira é de finalidade: esta lista está seguindo o sacerdócio, não a liderança. Ela para onde para porque chegou ao que queria — os homens que servirão ao altar e os descendentes deles. Os filhos de Moisés nunca foram sacerdotes; por essa régua, não têm por que constar.

A segunda é de origem: um documento que registra com este cuidado a descendência de Arão e nenhuma linha da descendência de Moisés provavelmente foi guardado por gente interessada na primeira. Não é acusação e não implica invenção: registros antigos guardam o que importa a quem os guarda, e isso vale para qualquer arquivo de qualquer povo.

As duas leituras são compatíveis entre si e nenhuma delas se prova com o que está escrito aqui. O que se pode afirmar é o fato: numa lista que o capítulo montou para apresentar Moisés e Arão, só um dos dois tem descendência registrada — e é o irmão mais velho.

O que o versículo não faz

Não diz que o casamento foi arranjado, não diz que foi bem-visto, não explica por que Arão casou fora da tribo e não comenta o parentesco com Judá. Também não diz nada sobre Eliseba depois do parto: ela não volta ao texto, nem quando dois dos seus filhos morrem.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Eliseba

Mulher de Arão e mãe dos quatro primeiros sacerdotes de Israel. É a terceira mulher nomeada neste capítulo e a única apresentada por dois parentes.

Não há nenhuma cena com Eliseba. Ela não fala, não aparece em episódio nenhum e não é mencionada outra vez em toda a Bíblia hebraica. A forma grega do nome dela, no entanto, teve longa vida: é a mesma de Isabel, a mãe de João Batista, que Lucas 1:5 apresenta como sendo "das filhas de Arão" — uma descendente, portanto, desta mesma casa, com o nome da antepassada.

Aminadabe

Pai de Eliseba e de Naassom, da tribo de Judá. Fora das genealogias, não há notícia dele. Aparece em Rute 4:19-20, em 1 Crônicas 2:10 e em Mateus 1:4, sempre como elo entre Rão e Naassom.

Naassom

Irmão de Eliseba e cunhado de Arão. Chefe da tribo de Judá no deserto: nomeado no recenseamento de Números 1:7, posto à frente do acampamento do lado leste em Números 2:3, primeiro a apresentar a oferta da dedicação em Números 7:12 e à frente da marcha em Números 10:14.

É antepassado de Davi pela linha de Rute 4:20 e figura na genealogia que abre o evangelho de Mateus. ⚠️ Uma advertência de leitura: nas traduções portuguesas de Mateus 1:3-4, o nome do avô de Aminadabe aparece como "Arão" — mas aquele Arão é um homem de Judá, e não o irmão de Moisés. São nomes diferentes no original que a tradição portuguesa acabou grafando igual.

Nadabe e Abiú

Os dois filhos mais velhos de Arão. Serão sacerdotes e morrerão juntos diante do santuário, num episódio que o livro de Levítico narra e ao qual pertence — Levítico 10:1-2. Não deixaram filhos, conforme Números 3:4.

Eleazar

Terceiro filho. Sucederá o pai como sacerdote principal e aparece com frequência nos livros de Números e de Josué. É dele que trata o versículo seguinte deste capítulo, e é por ele que a linha sacerdotal continua.

Itamar

Quarto filho. Também sacerdote, encarregado em Números 4:28 e 4:33 da supervisão de parte do serviço levítico. A linha dele reaparece muito mais tarde: 1 Crônicas 24 divide as turmas sacerdotais entre descendentes de Eleazar e de Itamar.

5. Pontos de Ensino

O que se conta de uma pessoa depende de quem conta

Esta lista dá quatro filhos a Arão e nenhum a Moisés, embora Moisés tenha filhos e o mesmo livro já os tenha nomeado.

É um ponto de método, e vale ensiná-lo sem escândalo: todo registro é feito por alguém com um interesse, e o interesse aparece no que o registro guarda. Reconhecer isso não enfraquece o texto — ajuda a lê-lo pelo que ele é, que aqui é um documento de sucessão sacerdotal.

Um casamento liga o que as instituições ainda não ligaram

Quando Arão casou com Eliseba, não havia sacerdócio organizado nem monarquia em Israel. Havia duas famílias. O que veio depois cresceu sobre um vínculo que já estava feito.

Vale reparar na ordem das coisas: primeiro o parentesco, depois a instituição. É quase sempre assim no Antigo Testamento, e explica muita disputa posterior que parece política e é de família.

Identificar alguém é situá-lo

O texto não diz que Eliseba era boa nem piedosa. Diz de quem ela era filha e de quem era irmã — e, naquele mundo, isso dizia quase tudo o que era preciso saber.

Não é um valor que se possa importar inteiro para hoje, e seria falso fingir que sim. Mas há nele uma verdade que sobrevive: ninguém se apresenta no vazio, e a rede a que uma pessoa pertence é parte do que ela é.

Quatro nomes, e o texto não avisa nada

Dois destes quatro filhos terão um fim terrível e dois levarão o sacerdócio adiante. O versículo os alinha com o mesmo tratamento, sem sinal nenhum.

É a mesma lição do versículo 21, e ela se confirma: a lista registra antes de julgar. Quem procura aqui um aviso está procurando o que não foi escrito.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe diante do leitor uma pergunta antiga: como uma função se transmite?

Há duas respostas possíveis, e as sociedades humanas oscilam entre elas. Numa, transmite-se por competência: escolhe-se quem sabe fazer. Noutra, transmite-se por nascimento: recebe quem pertence.

O sacerdócio de Israel se organizou pela segunda, e este versículo é o registro do momento em que isso se decide na prática — não por lei, não por proclamação, mas por um casamento e quatro nascimentos. A partir daqui, quem serve ao altar serve porque nasceu naquela casa.

O arranjo tem um custo e uma vantagem, e o texto não discute nem um nem outro. O custo é evidente: o cargo fica à mercê de quem calhar de nascer. A vantagem é menos óbvia e explica a persistência do modelo — uma função herdada não depende de quem a julga. Ninguém precisa aprovar o sacerdote; ele já é.

Fica a observação, e o seu limite: o Êxodo não apresenta isso como escolha entre alternativas. Para o texto, é assim que as coisas são.

7. Aplicações Práticas

Quem entra na família traz a família inteira

O versículo trata um casamento como o que ele era: a ligação de duas casas. É uma correção útil à ideia de que a escolha de um cônjuge diz respeito apenas a duas pessoas.

Não se trata de voltar a casamentos arranjados. Trata-se de reconhecer o óbvio que o texto registra sem rodeio: junto com a pessoa vêm pais, irmãos, histórias e obrigações, e isso continua sendo verdade.

Apresentar alguém é um ato de generosidade

O Êxodo não precisava nomear Naassom. Nomeou — e com isso deu a Eliseba um lugar reconhecível para quem lia.

Situar uma pessoa diante dos outros, dizer de onde ela vem e com quem, é uma cortesia pequena e de efeito real. Quem faz isso por alguém está lhe dando algo que a pessoa sozinha não consegue tomar.

Não ler os próprios filhos pelo que ainda não aconteceu

Quatro nomes, o mesmo tratamento, nenhum sinal. Quem os escreveu não sabia o que viria.

Vale para quem cria: o histórico de um filho não é um roteiro, e o irmão que hoje parece encaminhado e o que parece perdido estão ambos, neste momento, apenas na lista.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a lista registra os filhos de Arão e não os de Moisés?

O texto não explica. A leitura mais econômica é que o trecho segue a linha sacerdotal, e os filhos de Moisés nunca foram sacerdotes. Há também a leitura de que o documento foi guardado por gente da casa de Arão, o que é plausível e não se demonstra. As duas explicações convivem.

Eliseba era israelita?

Era, e da tribo de Judá. O casamento é entre tribos de Israel, não com estrangeira — o que o distingue do caso registrado em Êxodo 6:15, onde a mãe é apresentada como cananeia.

Por que o texto nomeia o irmão dela, se o pai já foi nomeado?

Porque o irmão era o homem conhecido. É o mesmo procedimento de Gênesis 25:20 com Rebeca, apresentada como irmã de Labão. Identifica-se pelo parente que o leitor situa.

Esse casamento uniu o sacerdócio e a realeza?

Uniu duas famílias. As duas instituições ainda não existiam quando ele foi feito, e ler nele um símbolo das duas juntas é interpretação posterior — legítima como leitura, desde que apresentada como tal. O Êxodo não diz nada disso.

Por que os quatro nomes aparecem em dois pares no hebraico?

A forma é essa, e a divisão coincide com o destino dos quatro. Se a coincidência é intencional, não é possível decidir: o hebraico agrupa nomes por ritmo com frequência, sem que isso signifique alguma coisa.

Eliseba aparece outra vez na Bíblia?

Não. Este é o único versículo em que ela é mencionada. A forma grega do nome, porém, reaparece no Novo Testamento em Isabel, que Lucas 1:5 apresenta como descendente desta mesma casa.

O "Arão" que aparece em Mateus 1:3-4 é este Arão?

Não. É outro homem, de Judá, cujo nome original é diferente e que a tradição portuguesa acabou grafando igual. Ele é bisavô de Naassom, não irmão de Moisés.

9. Conexão com Outros Textos

O casamento da geração anterior, com a mesma fórmula

Êxodo 6:20 — "Anrão tomou por mulher Joquebede, sua tia, e ela lhe deu à luz Arão e Moisés. E os anos da vida de Anrão foram cento e trinta e sete."

O mesmo verbo, a mesma construção, e uma escolha oposta: para dentro da tribo ali, para fora da tribo aqui.

O cunhado à frente de Judá

Números 1:7 — "De Judá, Naassom, filho de Aminadabe."

Números 2:3 — "Os que acamparem do lado leste, para o nascente, serão os do estandarte do arraial de Judá, segundo os seus exércitos; e o chefe dos filhos de Judá será Naassom, filho de Aminadabe."

O irmão de Eliseba com posto e estandarte. A expressão "segundo os seus exércitos" é a mesma que aparecerá três versículos adiante, em Êxodo 6:26.

A linha de Judá até Davi

Rute 4:20 — "Aminadabe gerou a Naassom, e Naassom gerou a Salmom."

É o trecho da lista de Rute que contém os dois nomes deste versículo, e é por ele que a linha segue até Davi.

Os mesmos dois nomes na abertura de Mateus

Mateus 1:4 — "Arão gerou Aminadabe; Aminadabe gerou Naassom; Naassom gerou Salmom;"

A genealogia de Jesus atravessa a família da mulher de Arão. O "Arão" citado ali é um homem de Judá, e não o irmão de Moisés.

O nome de Eliseba no Novo Testamento

Lucas 1:5 — "Houve, nos dias de Herodes, rei da Judeia, um sacerdote chamado Zacarias, da turma de Abias, e a mulher dele era das filhas de Arão, e o nome dela era Isabel."

Uma descendente desta casa, com o nome da antepassada e casada com um sacerdote — a mesma combinação deste versículo, muitos séculos depois.

Os dois pares de filhos, separados

Números 3:4 — "Mas Nadabe e Abiú morreram diante do SENHOR quando ofereceram fogo estranho perante o SENHOR no deserto do Sinai, e não tiveram filhos; e Eleazar e Itamar exerceram o sacerdócio diante de Arão, seu pai."

O versículo que confirma, em outro livro, a divisão que o hebraico deste já desenha: dois de um lado, dois do outro.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português (ABC)

Arão tomou por mulher Eliseba, filha de Aminadabe e irmã de Naassom, e ela lhe deu à luz Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar.

Texto hebraico

וַיִּקַּח אַהֲרֹן אֶת־אֱלִישֶׁבַע בַּת־עַמִּינָדָב אֲחוֹת נַחְשׁוֹן לוֹ לְאִשָּׁה וַתֵּלֶד לוֹ אֶת־נָדָב וְאֶת־אֲבִיהוּא אֶת־אֶלְעָזָר וְאֶת־אִיתָמָר׃

Transliteração

wa-yiqqach Aharon et-Elisheva bat-Amminadav achot Nachshon lo le-ishah, wa-teled lo et-Nadav we-et-Avihu, et-El'azar we-et-Itamar.

Análise palavra por palavra

וַיִּקַּח … לוֹ לְאִשָּׁה — wa-yiqqach … lo le-ishah, "e tomou … para si por mulher". É a fórmula normal do casamento em hebraico: o verbo laqach, "tomar", com a preposição dupla no fim da frase. Não há verbo próprio para "casar-se"; a língua diz a coisa com "tomar para si por mulher", exatamente como diz a adoção com "ser para alguém por filho".

O sujeito da frase é o homem, e isso é gramática do hebraico, não avaliação do Êxodo. Mais adiante, no versículo 25, a mesma fórmula será usada com o verbo na ordem invertida, e o comentário cabe ali.

אֱלִישֶׁבַע — Elisheva, Eliseba. Nome composto de Eli, "o meu Deus", e do elemento sheva, que admite duas leituras e não se decide entre elas.

Pela primeira, sheva vem da raiz de jurar, e o nome significa "o meu Deus é juramento" — ou seja, aquele por quem se jura, o garante. Pela segunda, é o numeral sete, e o nome diria "o meu Deus é plenitude", já que sete é o número da completude em hebraico. As duas raízes se escrevem com as mesmas consoantes e estão ligadas na própria língua — jurar, em hebraico, é literalmente "sete-ar", provavelmente pelo costume de repetir sete vezes ou de apresentar sete animais. Não é possível decidir qual sentido pesava no nome.

Na Septuaginta, a tradução grega, o nome vira Elisabet, e é dali que chega ao português como Isabel.

בַּת־עַמִּינָדָב — bat-Amminadav, "filha de Aminadabe". Bat é "filha", em forma construta.

O nome do pai é composto de ammi e nadav. Am significa "povo", e com o sufixo dá "o meu povo"; mas em nomes próprios a palavra costuma ter o sentido mais antigo de parente, o clã de sangue — de modo que a leitura provável é "o meu parente é generoso". Nadav é a raiz da liberalidade: dar de vontade própria, oferecer sem ser obrigado. É dela que vem a palavra da oferta voluntária no Pentateuco.

אֲחוֹת נַחְשׁוֹן — achot Nachshon, "irmã de Naassom". Achot é o feminino de ach, "irmão", também em forma construta.

Nachshon é formado sobre nachash, "serpente", com uma terminação que em hebraico costuma dar ideia de aumento — algo como "serpente grande". As mesmas consoantes carregam um segundo sentido, ligado a presságio e adivinhação, que tem tratamento próprio no estudo de Gênesis 30:27 e que não é a leitura corrente deste nome. Nomes de animais eram comuns na região, e não indicam culto nem caráter.

וַתֵּלֶד לוֹ — wa-teled lo, "e deu à luz para ele". O verbo yalad, "dar à luz", com o sujeito feminino subentendido. A preposição "para ele" é fórmula de registro: marca a quem os filhos pertencem na contabilidade da casa, e aparece igual no versículo 20 e no versículo 25.

אֶת־נָדָב וְאֶת־אֲבִיהוּא אֶת־אֶלְעָזָר וְאֶת־אִיתָמָר — aqui está o detalhe de forma que o item 3 anuncia.

A partícula et marca o objeto direto e não se traduz. O que importa é onde a conjunção "e" aparece e onde não aparece:

et-Nadabe · we-et-Abiú · et-Eleazar · we-et-Itamar.

O primeiro e o terceiro nome entram sem conjunção; o segundo e o quarto entram com ela. O efeito é agrupar os quatro em dois pares, e não numa fila de quatro. Um leitor de hebraico ouve "Nadabe e Abiú, Eleazar e Itamar".

O dado é do texto e é verificável. A cautela é sobre o que se conclui dele: o hebraico usa esse agrupamento por ritmo em muitas listas sem intenção nenhuma, e não se pode transformar uma forma corrente em mensagem. Registre-se a coincidência com o que virá a acontecer aos dois pares, e deixe-se em aberto.

נָדָב — Nadav, Nadabe. Da mesma raiz do nome do avô materno: "generoso", "voluntário". O primeiro neto recebe a raiz do nome do pai de Eliseba, o que é praxe comum e vale registrar sem forçar conclusão.

אֲבִיהוּא — Avihu, Abiú. Composto de avi, "meu pai", e do pronome hu, "ele": "o meu pai é ele". Nomes deste tipo, com "pai" como elemento, costumam referir-se a Deus e não ao pai humano — como em Abiel, Abias, Abimeleque.

אֶלְעָזָר — El'azar, Eleazar. De El, Deus, e do verbo azar, "ajudar", "socorrer": "Deus ajudou". É o mesmo nome que chega ao grego como Lázaro, por encurtamento.

אִיתָמָר — Itamar, Itamar. O nome mais discutido dos quatro. A leitura mais repetida o divide em i, "ilha" ou "costa", e tamar, "palmeira" — "ilha de palmeiras". Outra propõe ler o primeiro elemento como partícula de lugar, dando algo como "onde está a palmeira". Há ainda quem sugira influência egípcia na forma, assunto que o versículo 25 retoma a propósito de outros nomes desta família. Não há consenso, e a palmeira é a única parte segura.

11. Conclusão

Deste versículo saem três conclusões, e a terceira é a mais desconfortável.

A casa sacerdotal não se formou isolada. O homem que vai ficar com o altar casou-se com a irmã do chefe da maior tribo de Israel, e a lista guardou o nome do cunhado. A genealogia de Levi, que até aqui só falava de Levi, abre aqui uma porta para Judá — e a porta continuará aberta, porque é por essa mesma linha que a Bíblia chegará a Davi e, no Novo Testamento, à abertura de Mateus.

O texto dá o dado e não dá a leitura. Quem vê neste casamento um sinal da união futura entre sacerdócio e trono está fazendo uma leitura respeitável, e ela é antiga; mas é leitura, e o Êxodo não a autoriza nem a proíbe. A diferença entre dizer "o texto registra" e dizer "o texto ensina" é toda a diferença entre estudo e pregação, e vale conservá-la.

E a lista mostra o que lhe interessa. Arão recebe quatro filhos com nome e ordem; Moisés não recebe nenhum, embora tenha filhos e o próprio livro já os tenha nomeado. Esse desequilíbrio é a informação mais clara que o trecho dá sobre si mesmo: o documento segue o sacerdócio. Ele não foi montado para exaltar Moisés — foi montado para estabelecer de onde vêm os sacerdotes, e cumpre essa função com exatidão de cartório.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Êxodo 6:23

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%