Porque o cavalo de Faraó, com os seus carros e os seus cavaleiros, entrou no mar, e o SENHOR fez voltar sobre eles as águas do mar; mas os filhos de Israel caminharam em terra seca pelo meio do mar.
1. Introdução
O cântico acabou em "o SENHOR reinará para todo o sempre", e o texto volta à prosa para contar de novo, em uma frase, o que o capítulo 14 contou em trinta e um versículos.
A linha levanta uma pergunta antiga: ela fecha o cântico ou abre a cena de Miriã, que vem logo depois?
Os comentaristas judeus da Idade Média deram quatro respostas, e os copistas dos rolos deram a sua com o próprio desenho da página.
A repetição também não é neutra: ela devolve aos egípcios um verbo que o poema lhes tirou, põe o SENHOR onde o capítulo 14 punha as águas e Moisés, e diz o que o poema inteiro calou — que Israel atravessou em terra seca.
2. Contexto Histórico e Cultural
Uma nota em prosa colada a um poema: cabeçalho ou rodapé?
A dúvida sobre Êxodo 15:19 aparece sempre que um texto antigo junta a um poema uma linha de prosa sobre a ocasião em que foi cantado. O caso mais estudado está nos Salmos.
Treze salmos trazem no título uma nota histórica tirada da vida de Davi, como o Salmo 3, "quando fugia de Absalão, seu filho", e o Salmo 51, "quando o profeta Natã veio a ele". O Salmo 18 é o exemplo mais claro, porque o mesmo poema existe duas vezes na Bíblia. Em 2 Samuel 22:1 ele vem anunciado por uma frase de narrativa — "Davi falou ao SENHOR as palavras deste cântico no dia em que o SENHOR o livrou da mão de todos os seus inimigos e da mão de Saul". No saltério, essa frase de prosa virou o título do salmo.
Brevard Childs (biblista norte-americano do século XX), num artigo de 1971 sobre os títulos dos salmos, mostrou como essas notas foram feitas: os escribas procuravam na história de Davi um episódio que combinasse com o vocabulário do salmo e prendiam o poema a ele. Para Childs, os títulos são uma das formas mais antigas de comentário bíblico — alguém lendo um texto à luz de outro. A nota de ocasião não é parte do canto original; é a primeira leitura que se fez dele.
O problema da ponta: a tese de Thirtle
Em 1904, James William Thirtle (estudioso inglês dos títulos dos salmos) levantou a mesma pergunta que os rabinos fizeram sobre Êxodo 15:19, só que para o saltério: e se parte do que lemos como título de um salmo for, na verdade, o rodapé do salmo anterior? O modelo dele era o capítulo 3 de Habacuque, um poema que traz nota técnica nas duas pontas — um título no versículo 1 ("oração do profeta Habacuque") e uma nota musical no fim do versículo 19 ("ao mestre de canto, com os meus instrumentos de corda"). Se Habacuque guarda a nota no fim, argumentou Thirtle, os salmos podem ter tido notas finais que os copistas depois juntaram ao começo do poema seguinte.
A tese nunca virou consenso (Bruce Waltke a retomou em 1991), mas deixou uma lição que vale para o Êxodo: uma linha de prosa entre dois blocos pode pertencer ao que vem antes ou ao que vem depois, e a pista mais segura é o modo como os copistas a dispuseram na página.
Como os copistas e a sinagoga trataram este versículo
No Êxodo, essa pista existe e aponta numa direção só. Logo depois deste versículo, o texto hebraico tradicional abre uma divisão de parágrafo do tipo mais forte, a "aberta", que deixa em branco o resto da linha (o sistema de divisões está explicado no estudo de Êxodo 6:30). A cena de Miriã começa, portanto, em parágrafo novo, separada de Êxodo 15:19 por uma linha vazia.
A oração da manhã da sinagoga confirma o mesmo uso. O cântico é recitado ali todos os dias, e a recitação não para no "o SENHOR reinará para todo o sempre": segue até "mas os filhos de Israel caminharam em terra seca pelo meio do mar", e só então passa a outros versículos sobre o reinado de Deus. Quem reza o cântico reza também este versículo. Para a prática judaica, a linha de prosa é o rodapé do cântico, não o cabeçalho da cena das mulheres.
3. Análise Teológica do Versículo
"Porque"
A primeira palavra decide o versículo. Em hebraico ela serve tanto para "porque" quanto para "quando", e cada tradução amarra a frase a um lado diferente. Com "porque", a linha explica o que veio antes. Com "quando", ela prepara o que vem depois. Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI) registra só isto sobre o versículo: aqui a palavra quer dizer "quando". A ABC escolheu "porque". A pergunta de fundo é a mesma em todas as leituras: esta linha pertence ao cântico ou à cena de Miriã?
Primeira leitura: é a razão do último verso do cântico. A Mekhilta (a mais antiga coletânea de comentário rabínico ao Êxodo, com material dos séculos II e III), no tratado do Cântico, capítulo 10, cita "o SENHOR reinará para todo o sempre" e pergunta: "Por quê?" A resposta é Êxodo 15:19 — "porque o cavalo de Faraó entrou no mar". O reinado eterno, cantado como promessa, fica apoiado num fato de ontem. Nessa leitura, o versículo é o fecho lógico do poema: Deus reina porque fez isto.
Segunda leitura: o versículo é parte do cântico, mesmo sendo prosa. É a posição de Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII): "na minha opinião, também este versículo é do cântico", e a função dele é lembrar "o milagre dentro do milagre" — os egípcios se afogando no mesmo instante em que Israel andava a seco.
Terceira leitura: é uma nota que data o cântico. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) recusa Ibn Ezra com um argumento de ouvido: "este versículo não está escrito no estilo do cântico, nem no estilo das profecias". Para ele, a linha completa o "então" de Êxodo 15:1: Moisés cantou quando o cavalo de Faraó entrou no mar, naquele mesmo dia, e não no dia seguinte. E arrisca mais: talvez cantassem enquanto ainda caminhavam pelo meio do mar. Sforno (Obadias Sforno, rabino italiano do século XVI) adota essa imagem — o canto começou antes que todos tivessem saído para a margem.
Quarta leitura: é o começo da cena seguinte. Rashbam (Shmuel ben Meir, rabino francês do século XII, neto de Rashi) lê o versículo como a primeira metade de uma frase que só termina em Êxodo 15:20: "quando o cavalo de Faraó entrou no mar… e os filhos de Israel já tinham andado em terra seca… então Miriã, a profetisa, tomou o tamborim". Para mostrar que o hebraico abre frases assim, ele cita Êxodo 16:34, que começa por "como o SENHOR ordenou a Moisés", e Jeremias 37:16-17, que começa por "quando Jeremias entrou na cisterna" e só chega ao verbo principal no versículo seguinte. Chizkuni (compilação de comentário judaico do século XIII) segue Rashbam.
A de Rashbam é a mais elegante como gramática; a de Nachmânides, a que melhor responde ao fato de a linha não soar como poema. Mas há um dado material que pesa mais, e ele vem dos copistas.
O desenho do rolo decide
O tratado Soferim ("dos escribas", compilação de regras de cópia posterior ao Talmude), no capítulo 12, lista a palavra que abre cada uma das trinta linhas do cântico no rolo da Torá. As três últimas começam em "as tuas mãos", "entrou" e "as águas". Quer dizer: a linha 29 começa no meio de Êxodo 15:19, e a 30 termina com "pelo meio do mar". O versículo ocupa as duas últimas linhas do desenho. E a palavra "porque", que não está na lista, fica forçosamente no fim da linha 28 — na mesma linha de "o SENHOR reinará para todo o sempre". No rolo, o "porque" está colado ao reinado eterno, exatamente como na leitura da Mekhilta. Maimônides, nas suas "Leis do rolo da Torá" (capítulo 8), transcreve o cântico inteiro e o encerra no fim deste versículo.
O desenho em si já foi descrito no estudo de Êxodo 15:1. O que importa aqui é o ponto final: para quem copiava o rolo, Êxodo 15:19 era o último tijolo do cântico. A leitura de Rashbam, que faz da linha o começo da cena de Miriã, contraria a página que os copistas tinham diante dos olhos. A de Nachmânides não é desmentida pelo rolo, mas tem de admitir que os copistas desenharam como poema uma linha que ele julgava não ser poema.
"o cavalo de Faraó, com os seus carros e os seus cavaleiros, entrou no mar"
O cântico falou do "cavalo" (Êxodo 15:1) e falou de "Faraó" (Êxodo 15:4), mas nunca juntou as duas palavras. A prosa junta. "O cavalo de Faraó" é o resumo de tudo o que o poema disse do inimigo, posto numa expressão só.
E o verbo mudou de dono. No cântico, os egípcios nunca agem sobre o mar: são "lançados", "arremessados", "afundados", "cobertos"; o único momento em que falam é para planejar o que não farão (Êxodo 15:9). Aqui eles voltam a ser sujeito: o cavalo de Faraó "entrou". A linha de prosa devolve aos perseguidores a decisão que o poema tinha apagado. Foram eles que entraram. O texto põe lado a lado as duas verdades sobre o afogamento — Deus lançou, e eles entraram — e não escolhe entre elas.
"e o SENHOR fez voltar sobre eles as águas do mar"
No capítulo 14, a volta das águas foi contada com as águas por sujeito: Deus manda Moisés estender a mão "para que as águas voltem" (Êxodo 14:26); Moisés estende, e "o mar voltou ao seu leito" (Êxodo 14:27); "as águas voltaram e cobriram os carros" (Êxodo 14:28). Aqui o mesmo acontecimento ganha outro sujeito: é o SENHOR quem faz as águas voltarem (item 10). E a mão de Moisés desapareceu.
Essa ausência acompanha o cântico inteiro. Moisés canta o poema, mas não está dentro dele: nenhum verso menciona o cajado, a mão estendida ou o homem que a estendeu. A prosa de Êxodo 15:19 conta o fato do capítulo 14 com a teologia do capítulo 15. Quem repete não é o relato antigo; é o relato depois de ter passado pelo canto.
"mas os filhos de Israel caminharam em terra seca pelo meio do mar"
Esta é a metade que o poema não tem. Em dezoito versos, o Cântico do Mar descreve cavalos, carros, oficiais, abismos, ventos, águas amontoadas e terra que engole. O nome Israel não aparece no poema; o povo surge só duas vezes, e nunca dentro do mar: como "o povo que resgataste", conduzido a uma morada futura (Êxodo 15:13), e como o povo que ainda vai passar diante das nações (Êxodo 15:16). A travessia a pé enxuto, que é o centro do capítulo 14, não está no cântico.
Aí está a função da repetição neste lugar. O poema cantou o que Deus fez ao inimigo; a linha de prosa acrescenta o que aconteceu ao povo, no mesmo instante e no mesmo mar. Sem ela, o cântico ficaria como canto de vitória sobre um exército. Com ela, volta a ser o relato de uma passagem. A frase é copiada palavra por palavra de Êxodo 14:29, na mesma ordem, e o valor da forma verbal está no estudo daquele versículo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Faraó
Aparece como dono: "o cavalo de Faraó". É a segunda vez que o nome entra no Êxodo 15, e de novo sem verbo próprio — quem entra no mar é o cavalo dele. Se ele mesmo morreu nas águas é questão do estudo de Êxodo 14:28, e este versículo não acrescenta nada que a resolva.
Os carros e os cavaleiros
A força de carros que perseguiu Israel desde Êxodo 14:6-7. A lista é a mesma de quem entrou atrás de Israel em Êxodo 14:23 — cavalos, carros, cavaleiros —, sem a palavra "exército" e sem infantaria. Em Êxodo 14:23 o texto dizia "todos os cavalos de Faraó"; aqui o "todos" caiu.
O SENHOR
Único agente do versículo. No relato do capítulo 14 ele age por meio do vento e da mão de Moisés; aqui age sozinho sobre as águas.
Os filhos de Israel
O povo que no capítulo 14 entrou no mar com medo, e que acaba de cantar. É a primeira vez desde Êxodo 15:1 que o texto o chama pelo nome.
O mar
Nomeado três vezes no versículo, sempre só como "o mar". O nome "mar dos Juncos" ficou no cântico, em Êxodo 15:4, e volta em Êxodo 15:22, quando Moisés faz o povo partir dali.
5. Pontos de Ensino
1. O mesmo acontecimento cabe em dois registros, e a Bíblia guarda os dois. O capítulo 14 conta; o 15 canta; e Êxodo 15:19 mostra o canto voltando a contar. Nenhuma das formas substitui a outra.
2. A forma da página também é interpretação. A pergunta "onde termina o cântico?" foi respondida pelos copistas antes dos comentaristas: escreveram este versículo dentro do desenho do poema. Ler o texto sem saber como ele era copiado é perder uma leitura antiga.
3. Repetir pode acrescentar. A linha parece cópia do capítulo 14, mas traz o que o poema calou — a passagem de Israel — e o que o capítulo 14 não dizia assim: o SENHOR como sujeito da volta das águas.
4. O afogamento tem duas verdades. O cântico diz que Deus lançou os egípcios; a prosa diz que eles entraram. O texto não resolve uma pela outra, e quem ensina o episódio não deveria resolver.
5. O louvor fica preso ao fato. Se o "porque" responde ao "reinará para todo o sempre", como lê a Mekhilta, a promessa sobre o futuro se apoia num acontecimento já visto. O cântico não pede confiança no vazio.
6. Aspectos Filosóficos
Por que contar de novo o que acabou de ser cantado?
Êxodo 15:19 diz em prosa o que o cântico disse em verso. Se as duas formas dissessem a mesma coisa, uma delas sobraria. O fato de o texto guardar as duas, coladas, levanta uma pergunta filosófica de verdade: o poema e o relato são duas maneiras de transmitir o mesmo conteúdo, ou cada um sabe uma coisa que o outro não sabe?
Susanne Langer e os dois tipos de símbolo
Susanne Langer (1895-1985), filósofa norte-americana, propôs uma resposta em Filosofia em nova chave (1942). Ela distinguiu duas formas de simbolizar.
A primeira é a discursiva: a da linguagem comum e da prosa. Ela funciona em fila, uma palavra depois da outra, com vocabulário fixo e regras de combinação. O que diz pode ser traduzido, resumido, dito com outras palavras. É ótima para estabelecer fatos, sequências, quem fez o quê.
A segunda é a apresentativa: a da música, da pintura, do rito. Ela não se lê em fila; se apreende como um todo. Não tem vocabulário fixo, não se resume sem perda e não se traduz. O que ela transmite, segundo Langer, é a forma da vida sentida — o ritmo da tensão e do alívio, do medo e da exaltação — que a prosa só consegue descrever de fora. Em Sentimento e forma (1953), Langer aplicou a distinção à poesia: o poema usa palavras, mas não para informar; usa-as para construir uma experiência.
O versículo lido com Langer
O Cântico do Mar é forma apresentativa no sentido dela. Não tem cronologia — os verbos de passado e futuro se misturam, o mar fica de pé, a terra engole. Não tem relação de causa e efeito na ordem dos fatos. O que ele entrega é a experiência de quem viu o perseguidor desaparecer.
Êxodo 15:19 é o símbolo discursivo pousado ao lado. Diz quem entrou, quem fez voltar as águas e quem caminhou a seco, nessa ordem, com sujeito e verbo. É exatamente o que a forma apresentativa não faz, e é por isso que a linha precisa existir. O poema sozinho deixaria o leitor com a emoção sem o fato; o relato sozinho, com o fato sem a forma da emoção.
Langer ajuda também a entender a escolha dos copistas. Ao desenhar a linha de prosa dentro do poema, eles a puseram sob a forma apresentativa: o fato passou a ser lido com os olhos do canto. Os comentaristas que discutiram se a linha "é" ou "não é" do cântico estavam, sem o vocabulário de Langer, discutindo de que lado da fronteira entre os dois modos de simbolizar ela fica.
Onde a distinção deixa de servir
Há um limite claro. Para Langer, a forma discursiva é a da verdade verificável, e a apresentativa, a do sentimento. O Êxodo não aceita essa divisão de trabalho. O cântico afirma fatos — "o cavalo e o seu cavaleiro ele lançou ao mar" — e a linha de prosa carrega teologia, com o SENHOR como sujeito no lugar das águas. Na Bíblia, o poema também testemunha, e a prosa também confessa.
E há um segundo limite: Langer pensava em obras que se oferecem à contemplação. O cântico foi feito para ser cantado — por quem esteve lá e depois por quem não esteve. Aqui a forma apresentativa é o meio pelo qual uma comunidade assume como seu um acontecimento que a prosa apenas registra.
7. Aplicações Práticas
Depois da celebração, voltar ao fato. O versículo vem logo depois do ponto mais alto do cântico e retoma, em linguagem seca, o que aconteceu. Quem passou por um livramento costuma contá-lo de dois modos: no calor da gratidão e, depois, com calma, reconstruindo a sequência. As duas versões fazem bem uma à outra. A emoção sem o fato vira exagero; o fato sem a emoção vira relatório.
Não esquecer a própria travessia. O cântico se ocupou do inimigo que caiu; a linha final lembrou que o povo atravessou a pé. Na lembrança de uma crise vencida, é fácil guardar só a derrota do que ameaçava. O versículo põe ao lado o outro dado: houve um caminho, e alguém andou por ele.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Israel cantou ainda dentro do mar?
É a imagem que Nachmânides propõe e Sforno adota. O capítulo 14 não a sustenta bem: Êxodo 14:30 diz que Israel "viu os egípcios mortos na praia do mar", o que supõe o povo já na margem, e o cântico começa com "então", depois disso. A leitura deles nasce de levar ao pé da letra o tempo dos verbos de Êxodo 15:19, e o próprio Nachmânides a oferece como possibilidade, não como certeza.
O versículo foi acrescentado depois ao cântico?
Comentaristas modernos pensam que sim. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) chama a linha de parêntese que não faz parte do cântico; a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) a atribui provavelmente a quem reuniu o material. Pelo estilo, a observação de Nachmânides vai na mesma direção: a linha não é poesia. O que se sabe com segurança é que, quando o rolo ganhou o seu desenho tradicional, ela já estava dentro do cântico. Quando entrou, não há como provar.
Por que Moisés não aparece numa frase que resume o capítulo em que ele estende a mão duas vezes?
O texto não explica. A explicação mais simples é que a linha fecha o cântico, e o cântico não fala de Moisés. Dizer que o texto quis diminuir Moisés seria ir além do que ele permite: o mesmo Êxodo terminou o capítulo 14 dizendo que o povo creu "no SENHOR e em Moisés, seu servo" (Êxodo 14:31).
9. Conexão com Outros Textos
O outro cântico de vitória que termina em prosa
Juízes 5:31 — "Assim pereçam todos os teus inimigos, SENHOR! Mas os que te amam sejam como o sol quando sai na sua força. E a terra ficou em paz quarenta anos."
O cântico de Débora, que os copistas também escreviam em "tijolos", fecha com uma linha de narrativa que não pertence ao poema. A mesma vitória, aliás, já tinha sido contada em prosa no capítulo 4 de Juízes: relato, poema e nota final, como no Êxodo 14-15.
A nota que diz quando o poema foi cantado
2 Samuel 22:1 — "Davi falou ao SENHOR as palavras deste cântico no dia em que o SENHOR o livrou da mão de todos os seus inimigos e da mão de Saul."
Uma linha de prosa que prende o poema a um dia. É a função que Nachmânides atribui a Êxodo 15:19.
Uma nota técnica no fim de um poema
Habacuque 3:19 — "O SENHOR Deus é a minha força; ele faz os meus pés como os das corças e me faz andar sobre os meus lugares altos. Ao mestre de canto, com os meus instrumentos de corda."
A última frase não é do poema: é uma nota de uso posta no fim, depois da última linha. Prova de que um texto poético podia levar um rodapé.
As duas metades do versículo, juntas num profeta
Isaías 43:16-17 — "Assim diz o SENHOR, que abre caminho no mar e vereda nas águas impetuosas; que faz sair o carro e o cavalo, o exército e o guerreiro: juntos se deitam e não se levantam; apagaram-se, como um pavio se extinguiram."
O caminho de um lado, o carro e o cavalo do outro, no mesmo mar. Isaías faz da lembrança do Êxodo um título de Deus, e mantém as duas metades que Êxodo 15:19 tinha posto lado a lado.
A "terra seca" na memória de Israel
Neemias 9:11 — "Fendeste o mar diante deles, e passaram pelo meio do mar em terra seca; e lançaste os seus perseguidores nas profundezas, como pedra em águas impetuosas."
A oração dos levitas repete a expressão deste versículo e a põe ao lado da imagem da pedra, tirada do próprio cântico (Êxodo 15:5): relato e poema lembrados juntos, como no Êxodo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Porque o cavalo de Faraó, com os seus carros e os seus cavaleiros, entrou no mar, e o SENHOR fez voltar sobre eles as águas do mar; mas os filhos de Israel caminharam em terra seca pelo meio do mar.
Texto hebraico
כִּי בָא סוּס פַּרְעֹה בְּרִכְבּוֹ וּבְפָרָשָׁיו בַּיָּם וַיָּשֶׁב יְהוָה עֲלֵהֶם אֶת־מֵי הַיָּם וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל הָלְכוּ בַיַּבָּשָׁה בְּתוֹךְ הַיָּם׃
Transliteração
ki va sus Par'oh be-rikhbo u-ve-farashav ba-yam, va-yashev YHWH alehem et-mei ha-yam; u-venei Yisra'el halekhu va-yabbashah be-tokh ha-yam.
Análise palavra por palavra
כִּי — ki, "porque".
Conjunção de uso muito largo: "porque", "quando", "que", "pois", e às vezes um simples reforço, "certamente". Em começo de frase, as duas leituras mais comuns são a causal e a temporal, e é entre elas que os comentaristas se dividem (item 3). O Targum de Ônquelos (arei, "pois") e a Septuaginta (hoti) leram a causa, como a ABC.
בָא — va, "entrou".
Raiz bo', entrar, vir. A forma escrita aqui, com a primeira consoante suavizada pela palavra anterior, pode ser lida de dois modos, porque nos verbos desse tipo o passado ("entrou") e o particípio ("está entrando") têm exatamente a mesma grafia e a mesma vocalização. O texto não decide. O passado combina com o resumo de um fato concluído; o particípio daria "quando o cavalo de Faraó estava entrando", e é essa simultaneidade que Nachmânides e Sforno puxam ao imaginar Israel cantando ainda dentro do mar.
É o mesmo verbo de Êxodo 14:22 e 14:23, onde os dois grupos "entraram" no mar.
סוּס פַּרְעֹה — sus Par'oh, "o cavalo de Faraó".
Sus no singular coletivo, na forma ligada ao nome seguinte. Êxodo 14:23 diz kol sus Par'oh, "todos os cavalos de Faraó"; aqui o kol, "todos", não aparece.
בְּרִכְבּוֹ וּבְפָרָשָׁיו — be-rikhbo u-ve-farashav, "com os seus carros e os seus cavaleiros".
A preposição be aqui é de companhia, "com". Rikhbo é rekhev, o substantivo coletivo da força de carros, com o sufixo "dele" — a palavra do capítulo 14, e não a do cântico em Êxodo 15:4, que usa o plural do veículo individual. Parashav é o plural de parash, "cavaleiro", com o mesmo sufixo. A prosa volta, portanto, ao vocabulário da prosa.
בַּיָּם — ba-yam, "no mar".
Preposição, artigo e yam; o mar é nomeado três vezes no versículo, sem o nome "dos Juncos".
וַיָּשֶׁב — va-yashev, "e fez voltar".
Raiz shuv, voltar, no Hifil (a forma causativa do verbo hebraico, que acrescenta a ideia de "fazer"), na forma verbal que encadeia a narrativa, terceira pessoa masculina do singular. "Voltar" passa a "fazer voltar", e o verbo ganha um sujeito que age sobre outra coisa.
A diferença em relação ao capítulo 14 é toda gramatical. Ali a raiz aparece três vezes na forma simples, intransitiva, com a água por sujeito: ve-yashuvu ha-mayim, "e voltem as águas" (Êxodo 14:26); va-yashov ha-yam, "e o mar voltou" (Êxodo 14:27); va-yashuvu ha-mayim, "e as águas voltaram" (Êxodo 14:28). Aqui a mesma raiz passa à forma causativa, com YHWH por sujeito e as águas por objeto. A Septuaginta escolheu outro verbo, "trouxe sobre eles", e perdeu a ideia de volta.
עֲלֵהֶם — alehem, "sobre eles".
Preposição al, "sobre", com o sufixo de terceira pessoa masculina do plural. O texto tradicional a escreve aqui na grafia curta, sem a letra yod que a forma comum traz; a diferença é de ortografia e não muda o sentido. O pronome cobre o cavalo, os carros e os cavaleiros.
אֶת־מֵי הַיָּם — et-mei ha-yam, "as águas do mar".
Et marca o objeto direto; mei é a forma ligada de mayim, águas.
וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל הָלְכוּ — u-venei Yisra'el halekhu, "mas os filhos de Israel caminharam".
O sujeito vem antes do verbo, e o verbo está no perfeito simples, fora da corrente narrativa. É a construção exata de Êxodo 14:29, e o que ela faz com o tempo da frase — "tinham caminhado" — é examinado no estudo daquele versículo. O "mas" da ABC traduz a troca de foco que essa ordem marca.
בַיַּבָּשָׁה בְּתוֹךְ הַיָּם — va-yabbashah be-tokh ha-yam, "em terra seca pelo meio do mar".
Yabbashah, o chão firme, a metade seca do mundo, com preposição e artigo; be-tokh, "no meio de". A ordem é a de Êxodo 14:29, "terra seca" antes de "meio do mar", e não a de Êxodo 14:22, que diz o contrário. O versículo copia, letra por letra, a segunda das duas formulações do capítulo 14.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que, para quem transmitiu o texto, Êxodo 15:19 fecha o cântico. O desenho do rolo, que estende as trinta linhas até "pelo meio do mar", a divisão de parágrafo que vem logo depois e a oração diária que recita a linha junto com o poema concordam entre si. A leitura que faz dela o começo da cena de Miriã é engenhosa, mas contraria a página que os copistas fixaram.
A segunda é que a repetição, aqui, corrige o foco do poema. O cântico deu ao inimigo todos os verbos de sofrer e nenhum de agir, e não disse uma palavra sobre o povo atravessando. A linha de prosa recoloca as duas coisas — os egípcios que entraram e Israel que caminhou a seco — e assim impede que o canto fique reduzido à celebração de um afogamento.
A terceira é que a prosa que volta não é mais a do capítulo 14. Ela fala do acontecimento com a gramática do cântico: o SENHOR faz voltar as águas, e a mão de Moisés não aparece. O relato e o canto ficaram encostados, e cada um passou a ser lido à luz do outro.













