Os abismos os cobriram; desceram às profundezas como pedra.
1. Introdução
Este verso fecha a primeira parte do cântico com os mortos já no fundo: os abismos os cobrem, e eles descem "como pedra".
O poema fala em abismos, no plural, onde a prosa do capítulo 14 tinha falado de chão seco — e os leitores antigos repararam na diferença.
"Como pedra" é a primeira de três comparações com que o cântico descreve o afogamento; as outras são o restolho e o chumbo, e a tradição rabínica leu as três como três graus de culpa.
Os mortos não têm nome nem número neste verso: são um pronome, "os".
E a frase ficou na memória de Israel: séculos depois, uma oração pública em Jerusalém a repete quase palavra por palavra.
2. Contexto Histórico e Cultural
Eles afundaram por causa da armadura?
Os comentaristas do século XIX acharam uma explicação material para o "como pedra". Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa da mesma época) escrevem que os guerreiros de carro aparecem nos monumentos com pesadas cotas de escamas de bronze, cobrindo o corpo até perto do joelho, e que quem vestia uma delas tinha de ir ao fundo de uma vez, sem luta, como pedra. A explicação é engenhosa. Os achados do último século permitem pesá-la.
O que se sabe da armadura egípcia
Existe uma única couraça egípcia quase inteira, e ela saiu do túmulo de Tutancâmon. Foi reestudada em 2020-2021 por André Veldmeijer, Thomas Hulit, Lucy-Anne Skinner e Salima Ikram, num artigo do anuário holandês de estudos do Oriente antigo. Ela não é de bronze. É feita de seis camadas de linho, uma folha de couro por cima e mais de quatro mil escamas de couro cru, cortadas, polidas e costuradas uma a uma. É justa ao corpo, flexível e leve — mais um colete do que uma carapaça.
Escamas de bronze também existem. Apareceram soltas em sítios egípcios do Império Novo — Lisht, Malqata e Qantir, a antiga Pi-Ramessés, onde havia oficinas de carros e de armas — e, fora do Egito, em Meguido, Ugarite, Nuzi e Micenas. O padrão dos furos de amarração é quase o mesmo em toda a região, o que mostra uma técnica comum. Mas o que se acha são escamas isoladas, não couraças, e em pequena quantidade. Os autores do estudo concluem que a armadura de escamas era usada quase só pelos arqueiros de carro — homens que, de pé no veículo, não podiam segurar escudo — e que se escolhia entre bronze e couro conforme o custo, a proteção e o peso desejados.
Para ter uma escala do que seria uma couraça de bronze pesada, a própria Bíblia dá um número. A cota de escamas de Golias pesava cinco mil siclos de bronze (1 Samuel 17:5) — algo entre cinquenta e sessenta quilos. Mas Golias é um campeão de infantaria filisteu, descrito justamente como exceção monstruosa. Um arqueiro de carro com uma couraça daquelas não conseguiria trabalhar.
O saldo é este: é provável que parte da elite de carros usasse algum tipo de couraça, e qualquer couraça, molhada, pesa. A imagem do século XIX — cada oficial em bronze da cabeça aos joelhos — exagera o que os achados mostram. O "como pedra" do cântico não precisa de armadura para fazer sentido, e o poema não pretende dar laudo de afogamento.
Os soldados antigos sabiam nadar?
A pergunta não é ociosa, porque o verso supõe que ninguém voltou à tona. Os relevos do palácio de Assurnasirpal II, rei da Assíria no século IX antes de Cristo, em Nimrud, mostram soldados atravessando um rio a nado, agarrados a odres de pele inflados de ar, que funcionavam como boia. Os exércitos sabiam que água funda era obstáculo, e tinham técnica para ela. Atravessar um rio de propósito, com boia, é outra coisa que ser apanhado por água revolta preso a um carro e a uma parelha de cavalos.
Chaim ibn Attar (rabino marroquino do século XVIII, autor do comentário Or ha-Chaim, "Luz da vida") lê numa das palavras deste verso uma alusão justamente aos bons nadadores: os que tentaram subir à força de braço foram levados ao mais fundo. É leitura, e das mais livres; mas mostra que a pergunta sobre quem sabia nadar também ocorreu a leitores de outros séculos.
3. Análise Teológica do Versículo
"Os abismos os cobriram"
O capítulo 14 contou a travessia por um leito exposto: o mar foi tornado "terra seca" (Êxodo 14:21) e as águas voltaram sobre quem estava nele. O poema fala de outra coisa: abismos, no plural, a palavra das águas profundas que estão na abertura da Bíblia, em Gênesis 1:2. Um leito raso que acabou de ser pisado não tem abismo nenhum.
A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado na terra de Israel nos primeiros séculos da era cristã) faz exatamente essa objeção: "Há abismos ali? Não era chão duro?" E responde com uma imagem cósmica. O abismo de baixo subiu sobre o abismo de cima, cobriu o firmamento sobre os egípcios e escureceu as estrelas; o Grande Mar irrompeu para dentro do mar dos Juncos. Para resolver a distância entre a prosa e o poema, a Mekhilta abre as comportas do dilúvio — o par "abismo de baixo, céu de cima" é o de Gênesis 7:11.
Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático e comentarista espanhol do século XII) resolve de outro modo: "abismos" são as profundezas da terra, e o verso diz o mesmo que dirá Êxodo 15:12, "a terra os engoliu". Nos dois casos os comentaristas perceberam que o poema não descreve o fundo do mar de Êxodo 14. Ele descreve o que aquele fundo significou: o mundo de baixo, as águas primeiras, o lugar de onde não se volta.
O plural também foi lido. A Mekhilta compara com Jonas: Jonas desceu a um abismo ("o abismo me cercou", Jonas 2:5) e a um redemoinho; os egípcios desceram a dois abismos e a dois redemoinhos, porque o verso usa as duas palavras no plural. É homilia montada sobre a gramática, mas aponta para algo verdadeiro: Jonas é o único outro personagem da Bíblia que desce a esse lugar com essas palavras, e ele sobe de volta. Os egípcios, não.
O verbo "cobrir" é o mesmo das águas do dilúvio e das rãs sobre o Egito; o seu campo está no estudo de Êxodo 8:6.
"desceram às profundezas"
O verso tem dois sujeitos, e eles trocam de lugar. Na primeira metade os abismos agem e os egípcios sofrem: são "os", um pronome no fim do verbo. Na segunda os egípcios voltam a ser sujeito, mas o verbo é "descer" — a única ação que lhes resta no cântico.
O verbo de descer, aplicado a uma multidão que vai ao fundo, tem uma história depois deste verso. Ezequiel o usa para o próprio Egito: "faça descer a multidão do Egito... às profundezas da terra" (Ezequiel 32:18), e no capítulo anterior faz descer ao mundo dos mortos as árvores mais nobres do jardim, imagem de Faraó e da sua grandeza (Ezequiel 31:16-18). O profeta escreve séculos depois e fala de outra derrota; mas a gramática da queda do Egito — descer, fundo, multidão sem nome — é a que este verso fixou.
"como pedra"
É a primeira de três comparações com que o cântico descreve a morte no mar. As outras duas vêm adiante: "envias o teu furor, que os devora como restolho" (Êxodo 15:7) e "afundaram como chumbo nas águas magníficas" (Êxodo 15:10).
As três têm lugar marcado no poema. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano e organizador de um comentário inglês do século XIX) observa que a primeira estrofe do cântico termina aqui. Na divisão em três estrofes que muitos estudiosos adotam, a segunda termina no verso 10, com o chumbo, e a terceira termina no verso 16 com outra pedra: os povos de Canaã "ficam mudos como pedra" até Israel passar. O cântico fecha cada uma das suas três partes com uma imagem de peso, de coisa que não se move. A pedra deste verso não é enfeite solto: é o tijolo do fim de uma estrofe.
Por que pedra, e o que ela diz sobre os que afundaram? Os comentaristas antigos deram três respostas.
Primeira leitura: pedra porque o Egito tinha usado pedras contra Israel. É a da Mekhilta, pelo princípio da medida por medida. Faraó mandou as parteiras olharem os recém-nascidos "sobre o assento de parto" (Êxodo 1:16), e a palavra hebraica para esse assento é, ao pé da letra, "as duas pedras". As pedras do parto, onde os meninos deviam morrer, voltam como pedras no mar. A ligação depende de um trocadilho e de um sentido discutido daquela palavra; é homilia, e a Mekhilta não pretende outra coisa.
Segunda leitura: as três comparações medem três graus de culpa. É a mais famosa, e foi Rashi (rabino francês do século XI, o comentarista judaico mais lido) quem a popularizou, citando a Mekhilta. Se num verso eles afundam como pedra, noutro como chumbo e noutro são consumidos como restolho, os três não podem descrever a mesma gente. Os perversos foram como restolho, jogados para cima e para baixo, sofrendo mais tempo; os medianos, como pedra; os melhores, como chumbo, que vai ao fundo de uma vez e "descansou logo".
A leitura tem dois traços que merecem ser ditos com clareza. O primeiro é um ajuste de palavra: na Mekhilta o terceiro grupo são "os sensatos" entre eles; Rashi escreve "os decentes". Entre a fonte e o comentário, o critério mudou de inteligência para conduta. O segundo é um ajuste de imagem: em Êxodo 15:7 o restolho não está na água — está no fogo, devorado pelo furor. Para encaixar as três comparações numa escala de afogamento, a leitura tira o restolho do fogo e a põe nas ondas. É uma harmonização, e das engenhosas; não é o que o verso 7 descreve.
O que essa leitura recusa, porém, tem valor próprio. Ela não aceita que os mortos do mar tenham sido uma massa só. Mesmo dentro de um castigo coletivo, havia perversos, medianos e decentes, e a morte não foi igual para todos: os decentes sofreram menos. É um modo de pensar a justiça dentro do desastre, e ele é dos rabinos, não do poema.
Terceira leitura: pedra porque os corações eram de pedra. Também está na Mekhilta: afundaram como pedra porque endureceram o coração como pedra. A leitura liga a imagem final ao tema que atravessa as pragas, o coração de Faraó. A Bíblia conhece a expressão "coração de pedra" (Ezequiel 11:19 e 36:26), mas o Êxodo descreve o endurecimento com outros verbos — tornar firme, tornar pesado, tornar duro — e nunca com a pedra. A ponte é do comentário.
O que a pedra diz sem comentário
Tiradas as leituras, o que a comparação afirma é pouco e preciso: eles desceram em linha reta, sem resistência, e não voltaram. Sobre a culpa de quem desceu, o verso não diz nada.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os afogados
Não são nomeados, nem contados, nem descritos. São um pronome colado ao verbo: "os cobriram". No verso anterior ainda havia carros, exército e oficiais; neste já não há equipamento nem posto, só gente que desce. Para o texto, os egípcios terminam o primeiro movimento do cântico sem rosto e sem lista.
Os abismos
São o único agente do verso. Não é o SENHOR quem age, como na primeira metade do verso anterior; são as águas profundas, tratadas como quem age. O cântico não faz delas personagens nem deuses, mas lhes dá o verbo. A palavra traz para a cena o mundo de baixo: as águas de antes da criação e as fontes que se romperam no dilúvio.
As profundezas
O lugar para onde eles descem. É outra palavra, diferente de "abismos": designa o fundo turbulento, o redemoinho — a mesma que Jonas usa para o lugar onde foi jogado (Jonas 2:3).
O acontecimento
É o fim da primeira estrofe do cântico (Êxodo 15:1-5). O poema começou com cavalo e cavaleiro lançados ao mar e termina esta parte com os corpos no fundo. A próxima estrofe, a partir do verso 6, volta-se para a mão do SENHOR e conta o afogamento outra vez, com mais detalhe.
5. Pontos de Ensino
O poema não é o relatório da prosa
A prosa fala de terra seca; o poema fala de abismos. Não é contradição a resolver com engenharia, como a Mekhilta tentou ao fazer subir os abismos de baixo. É a diferença entre descrever o que se viu e dizer o que aquilo foi. Ensinar o cântico como segunda reportagem do capítulo 14 obriga a escolher entre os dois textos; lê-lo como poema dispensa a escolha.
Um morto sem nome não é um morto sem importância — mas o verso não diz o contrário
O verso reduz os egípcios a um pronome. É tentação comum tirar disso que o texto despreza os mortos, ou que os celebra. O verso não faz nem uma coisa nem outra: registra a descida e encerra a estrofe. Juízo moral sobre isso é tarefa de quem lê, e precisa ser declarado como tal.
Um verso que virou fórmula
Neemias 9:11 repete este verso séculos depois, numa oração pública. A frase saiu do cântico e entrou no vocabulário de Israel para dizer "foram ao fundo e não voltaram". Ensinar o cântico é também ensinar de onde vêm frases que o resto da Bíblia usa sem citar a fonte.
Explicar a imagem pela técnica empobrece as duas
A armadura de bronze dos comentaristas do século XIX transformou "como pedra" num laudo: afundaram porque pesavam. Os achados mostram uma couraça de couro leve, e a explicação perde a força. Mas o problema era anterior aos achados. Quando se dá a uma comparação poética uma causa física, ela deixa de dizer o que dizia — o fim sem volta — e passa a dizer só o que a física diria. Dados técnicos ajudam a ver a cena; não substituem a leitura.
6. Aspectos Filosóficos
Um poema de guerra termina uma estrofe com os inimigos indo ao fundo como pedra. Não há nome, não há pai que os espere, não há lamento. A pergunta que isso levanta é sobre o próprio gênero: o que um poema de vitória faz com a morte de quem perdeu?
Bespaloff: Homero chora pelos dois lados
Rachel Bespaloff (1895-1949) foi uma ensaísta judia de língua francesa, nascida na Bulgária e criada em Genebra. Escreveu De l'Iliade (Da Ilíada) na França, terminando as primeiras páginas meses antes da invasão alemã de 1940, e o publicou no exílio, nos Estados Unidos, em 1943. É uma leitura do poema de Homero feita por alguém que via a guerra chegar.
A tese mais conhecida do livro é sobre a equidade de Homero. Na Ilíada, diz ela, não há bons e maus: o poeta grego conta a guerra de gregos contra troianos e dá aos troianos o mesmo peso humano que aos gregos. O herói que Bespaloff prefere é Heitor, o troiano que defende a cidade, a mulher e o filho — o guardião das alegrias frágeis da vida. Homero canta a força, mas não a confunde com a justiça; a força derruba os dois lados, e o poema chora os dois.
O procedimento que sustenta essa equidade é visível em qualquer página do poema. Quando um guerreiro menor morre, Homero para e dá a ele uma pequena biografia: de onde veio, quem era o pai, por que não chegou a pagar aos pais o cuidado que recebeu. O jovem Simoésio, morto por Ájax no canto IV, cai "como um álamo" que cresceu à beira d'água e foi cortado para virar roda de carro. A comparação dá ao morto uma vida antes da morte.
E Bespaloff faz a comparação que interessa aqui. Ela contrapõe essa equidade de Homero à guerra da Bíblia. Quando a guerra é vista como duelo entre a verdade e o erro — o Eterno contra o ídolo, deuses verdadeiros contra deuses falsos —, escreve ela, a estima recíproca entre os combatentes se torna impossível. Não há trégua num combate desses: ele é total, e só termina com o fim do ídolo.
O verso diante da tese
À primeira vista, o verso confirma Bespaloff. Os mortos não ganham biografia; ganham uma pedra. Onde Homero compara o morto a um álamo — uma coisa viva, com raízes e história —, o cântico o compara ao que não tem vida nenhuma. O Êxodo enquadrou este combate exatamente como ela descreve: "contra todos os deuses do Egito executarei juízos" (Êxodo 12:12). É uma guerra entre o SENHOR e o que o livro trata como falso, e nela o inimigo não tem rosto.
Mas a tese precisa de duas correções, e as duas vêm de dentro da tradição que leu o cântico.
A primeira: a comparação com a pedra não é desprezo, é gênero. O cântico não humilha os mortos, não os chama de nada, não descreve corpos; fecha a estrofe e passa. O silêncio sobre quem eram não é o mesmo que o escárnio — e Homero também tem os seus guerreiros anônimos, mortos às dezenas numa linha.
A segunda é mais interessante. Os leitores rabínicos sentiram a falta que Bespaloff aponta e tentaram supri-la. A leitura das três comparações como três graus — perversos, medianos, decentes — é uma recusa de tratar os afogados como massa: entre eles havia gente decente, e a morte deles foi mais curta. Não é a equidade de Homero, que não julga ninguém; é uma tentativa de justiça dentro do julgamento. Mas mostra que a "guerra total" que Bespaloff atribui à Bíblia não foi aceita sem resistência pelos seus próprios leitores.
O limite
Bespaloff compara uma epopeia longa, escrita para contar a guerra por dentro, com um hino curto, escrito para louvar quem a venceu. Os gêneros pedem coisas diferentes: o hino de vitória do Oriente antigo raramente dá voz ao derrotado. Ela própria, no fim do livro, aproxima Homero e os profetas como respostas à mesma sede de justiça. O que este verso mostra é a parte da Bíblia em que essa sede ainda não olhou para o outro lado — e o que a tradição judaica fez com ele mostra que o olhar veio depois.
7. Aplicações Práticas
Quando você fecha um capítulo da própria vida
O verso termina uma estrofe com algo que não volta à tona. Há fases que terminam assim — uma ameaça que acabou, um perigo que passou de vez. O cântico não fica remoendo o adversário depois de ele afundar: nomeia o fim e passa para a parte seguinte, que olha para quem salvou. Se você atravessou alguma coisa dura, o verso sugere uma ordem: reconhecer que acabou, e depois mudar o foco do que caiu para o que sustentou você.
Cuidado com a escala de culpa feita por você
A leitura dos três graus — os piores sofreram mais, os decentes morreram rápido — é engenhosa, e é tentadora fora do texto. Diante de uma tragédia coletiva, há sempre quem queira explicar quem mereceu mais e quem mereceu menos. A leitura rabínica fez isso com um texto que já falava de castigo. Transportar o raciocínio para desastres reais, em que ninguém disse que houve castigo, é passar do comentário à crueldade. O verso não autoriza isso.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O cântico conhece o mar como monstro, como em outros textos antigos?
Não neste verso. Os abismos agem, mas não falam, não lutam e não são vencidos: são o instrumento. A pergunta sobre como o cântico trata o mar, contra o fundo dos poemas de Ugarite em que o Mar é um deus, pertence ao estudo de Êxodo 15:8, onde o poema descreve as águas paradas de pé.
Os egípcios afundaram com os cavalos e os carros?
O verso não distingue: "os" cobre tudo o que o verso anterior listou. O cântico abriu com "o cavalo e o seu cavaleiro" e, aqui, já não separa homens de animais nem de veículos. É o mesmo modo de dizer "tudo" que a prosa usou em Êxodo 14:28.
A pedra do verso 5 e a pedra do verso 16 são a mesma imagem?
São a mesma palavra e duas imagens. Aqui a pedra é o que afunda; no verso 16 é o que fica parado, mudo, enquanto Israel passa. A primeira estrofe termina com os inimigos que caíram como pedra; a última, com os povos que, sem cair, ficam como pedra. O cântico usa o mesmo objeto para os dois desfechos que imagina: o inimigo destruído e o inimigo paralisado.
"Afundar como pedra" era imagem corrente, ou é invenção do cântico?
A pedra como garantia de que algo não volta reaparece na Bíblia num gesto de profeta. Jeremias manda Seraías ler contra Babilônia um rolo de oráculos, amarrar nele uma pedra e jogá-lo no meio do Eufrates, dizendo: "Assim afundará Babilônia, e não se levantará" (Jeremias 51:63-64). Ali a pedra não é comparação, é peso real posto para que o rolo não boie. O cântico usa a mesma lógica em forma de imagem: o que afunda como pedra não sobe. Não há como saber se Jeremias pensava no cântico; o que se vê é que a pedra na água era, em Israel, o sinal visível de um fim sem volta.
9. Conexão com Outros Textos
A oração que cita este verso, e o que ela junta
Neemias 9:11 — "Você dividiu o mar diante deles, e eles o atravessaram em terra seca; e lançou nas profundezas os que os perseguiam, como pedra em águas violentas."
O versículo já foi lido neste comentário pela terra seca e pelo nome que dá aos perseguidores. O que interessa aqui são as palavras do fim. "Nas profundezas" e "como pedra" são as duas expressões deste verso, a mesma palavra hebraica e a mesma comparação. "Águas violentas" vem de outro lugar do cântico: ecoa as "águas magníficas" do verso 10. Neemias funde o fim da primeira estrofe com o fim da segunda. E a Mekhilta usa justamente este versículo de Neemias para definir a palavra "profundezas": são "águas violentas".
O único outro homem que desceu às mesmas águas
Jonas 2:3 — "Pois me lançaste nas profundezas, no coração dos mares, e a corrente me cercou; todas as tuas ondas e as tuas vagas passaram sobre mim."
Jonas 2:5 — "As águas me cercaram até a alma, o abismo me envolveu, as algas se enrolaram na minha cabeça."
As duas palavras deste verso — profundezas e abismo — estão na oração de Jonas, e é com ela que a Mekhilta faz a comparação. Mas a oração de Jonas é dita de dentro e termina com a subida: "fizeste subir da cova a minha vida" (Jonas 2:6). É o mesmo lugar visto por quem voltou.
Os abismos nos poemas sobre a travessia
Salmo 106:9 — "Repreendeu o mar dos Juncos, e ele secou; e os conduziu pelos abismos como por um deserto."
Isaías 63:13 — "Ele os conduziu pelos abismos, como um cavalo no deserto, e eles não tropeçaram."
Nos dois, a palavra plural deste verso volta — mas aplicada a Israel, que passa pelos abismos, e não aos egípcios, que afundam neles. O mesmo lugar é caminho para uns e túmulo para outros.
O lugar onde os pecados afundam
Miqueias 7:19 — "Ele voltará a ter compaixão de nós e pisará as nossas culpas; tu lançarás nas profundezas do mar todos os pecados deles."
A mesma palavra, as "profundezas", agora como depósito de pecados. É desse versículo que vem o costume judaico do tashlich ("lançarás"), a oração junto à água no Ano Novo. O lugar onde o Egito afundou vira, num profeta posterior, o lugar onde se joga o que não deve voltar.
As outras duas comparações
Êxodo 15:7 — "Na grandeza da tua majestade derrubas os que se levantam contra ti; envias o teu furor, que os devora como restolho."
Êxodo 15:10 — "Sopraste com o teu vento, e o mar os cobriu; afundaram como chumbo nas águas magníficas."
Êxodo 15:16 — "Cai sobre eles espanto e pavor; pela grandeza do teu braço ficam mudos como pedra, até que passe o teu povo, SENHOR, até que passe o povo que adquiriste."
O restolho está no fogo, não na água; o chumbo afunda no fim da segunda estrofe; a pedra volta no fim da terceira. São estes os versos que a Mekhilta e Rashi juntaram numa escala.
A descida do Egito em Ezequiel
Ezequiel 32:18 — "Filho do homem, pranteie a multidão do Egito e faça-a descer, a ela e às filhas das nações poderosas, às profundezas da terra, com os que descem à cova."
O verbo de descer, aplicado ao Egito inteiro, numa lamentação que o profeta escreve contra outro faraó, séculos depois.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Os abismos os cobriram; desceram às profundezas como pedra.
Texto hebraico
תְּהֹמֹת יְכַסְיֻמוּ יָרְדוּ בִמְצוֹלֹת כְּמוֹ־אָבֶן׃
Transliteração
tehomot yekhasyumu; yaredu vi-metsolot kemo-aven.
Análise palavra por palavra
תְּהֹמֹת — tehomot, "os abismos".
Plural de tehom, a massa de água profunda — oceano e lençol subterrâneo. Duas peculiaridades. A primeira: está sem artigo, como quase sempre. A palavra se comporta quase como nome próprio, e é assim desde Gênesis 1:2 ("a face do abismo", sem artigo também no hebraico). A segunda: o plural é raro e concentrado na poesia, e boa parte dele fala justamente da travessia — aqui, em Êxodo 15:8 ("os abismos coalharam"), no Salmo 106:9, no Salmo 77:16 e em Isaías 63:13. A Septuaginta (a tradução grega antiga) não traduziu por "abismos": escreveu pontos, "o mar aberto", e pôs Deus como sujeito: "com o mar os cobriu". O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica antiga da Torá) manteve a palavra. A etimologia e o debate sobre o parentesco com a deusa babilônica Tiamat estão no estudo de Gênesis 49:25.
יְכַסְיֻמוּ — yekhasyumu, "os cobriram".
Piel — a forma intensiva do verbo hebraico — da raiz kasah, cobrir, terceira pessoa masculina do plural, com o sufixo de objeto "-mu", "eles".
A forma é estranha por dois motivos, e os gramáticos antigos repararam nos dois. Primeiro, o meio da palavra: o esperado seria yekhassumu, e há um y a mais, que preserva a última letra da raiz. Rashi (rabino francês do século XI) diz que essa letra é supérflua, como em outros verbos de poesia (Deuteronômio 8:13, Salmo 36:9), e acrescenta que, com estes sinais vocálicos, a palavra não tem igual na Bíblia. Segundo, o fim: o sufixo "-mu" em vez do comum "-em". É uma forma arcaica de "eles", rara na prosa, e o cântico a usa com insistência — "os devora" (verso 7), "se fartará deles" e "os desapossará" (verso 9), "os engoliu" (verso 12), "os levarás e os plantarás" (verso 17). Ibn Ezra e Rashbam discutem até a vogal desse sufixo. A concentração dessa forma é um dos argumentos usados para tomar o cântico como poesia antiga.
Há ainda o tempo. O verbo está na forma que costuma indicar ação não acabada ("cobrem", "cobrirão"), enquanto o seguinte, "desceram", está na de ação acabada. Três explicações são defensáveis. Rashi lê finalidade: afundaram para que os abismos os cobrissem. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) vê o modo vivo de narrar, como o imperfeito grego, que descreve a cena enquanto ela acontece. E os estudiosos da poesia hebraica arcaica lembram que, nos textos mais antigos, essa forma também servia para o passado simples. A ABC traduz "cobriram", em harmonia com "desceram".
יָרְדוּ — yaredu, "desceram".
Qal — a forma simples e ativa do verbo — da raiz yarad, descer, perfeito, terceira pessoa do plural. É o verbo geral de descer: de um monte, para o Egito, para o mundo dos mortos. Na linguagem da morte ele forma uma expressão fixa, "os que descem à cova" (Salmo 28:1, Ezequiel 32:18). A Septuaginta usa aqui um verbo de mergulhar, "afundaram".
בִמְצוֹלֹת — vi-metsolot, "às profundezas".
Preposição be com o plural de metsulah (também escrita metsolah), feminino. A raiz é ts-w-l, que aparece em outro substantivo de Isaías 44:27: "que diz à profundeza: seque-se". Designa o fundo das águas, mas com movimento — o lugar da correnteza, do redemoinho. A Mekhilta (o comentário rabínico antigo ao Êxodo) a define como "águas violentas"; Ibn Ezra, como "as águas fundas", "nas profundezas das ondas".
Ocorre cerca de uma dúzia de vezes. Em Jonas 2:3, o lugar para onde o profeta é lançado. Em Miqueias 7:19, onde Deus lança os pecados. No Salmo 69:2 e 69:15, a água funda que ameaça o orante. No Salmo 88:6, a cova. No Salmo 107:24, as maravilhas que os marinheiros veem "nas profundezas". Em Jó 41:31, o mar fervente agitado pelo monstro marinho. Em Neemias 9:11, a citação deste verso. Em Zacarias 10:11, as profundezas do Nilo que secam. Em Zacarias 1:8 o sentido é outro: um vale fundo, onde crescem murtas.
כְּמוֹ־אָבֶן — kemo-aven, "como pedra".
Kemo é a forma longa da preposição "como", própria da poesia; o mesmo cântico a usa em Êxodo 15:8 ("como um dique"). Even (aqui com a vogal alongada pela pausa do fim do verso, aven) é pedra, substantivo feminino. É a palavra das pedras de Betel (Gênesis 28:18), das tábuas da lei e da funda de Davi.
No fim do cântico ela volta, em Êxodo 15:16, com a preposição curta: ka-aven, "como pedra". As duas pedras fecham a primeira e a última estrofe.
A palavra do "assento de parto" de Êxodo 1:16, em que a Mekhilta apoia uma das suas leituras deste verso, é o dual de even: ovnayim, "as duas pedras". O sentido exato daquela palavra é discutido, e a ligação entre os dois versos é jogo de palavras da homilia, não da gramática.
11. Conclusão
O que foi examinado leva a quatro conclusões.
O verso não descreve o fundo do mar de Êxodo 14; descreve o que aquele fundo significou. A prosa fala de terra seca e águas que voltam; o poema fala dos abismos das origens e de um redemoinho. Os comentaristas antigos que tentaram ajustar uma coisa à outra — abismos que sobem, o Grande Mar que irrompe — mostram que a distância é real. Ela se resolve lendo o cântico como poema, e não como segundo relatório.
A pedra é, antes de tudo, o fecho de uma estrofe. O cântico encerra as suas três partes com imagens de peso imóvel — pedra, chumbo, pedra —, e este verso é o primeiro desses fechos. O que a comparação afirma é como foi a descida: reta, sem resistência, sem volta.
A escala de culpa das três comparações é obra dos leitores, e uma obra significativa. Para montá-la foi preciso tirar o restolho do fogo do verso 7 e pô-la na água. O resultado não é o que o poema diz, mas é uma recusa de tratar os afogados como massa indistinta — uma correção moral feita dentro da tradição que guardou o cântico.
O verso virou vocabulário de Israel. Neemias o repete numa oração, Jonas desce às mesmas águas e sobe delas, Miqueias faz delas o lugar onde se jogam os pecados. A frase que fechava a primeira estrofe passou a ser, no resto da Bíblia, a fórmula do que vai ao fundo e não volta.













