Os carros de Faraó e o seu exército ele arremessou ao mar; a elite dos seus oficiais foi afundada no mar dos Juncos.
1. Introdução
O cântico volta ao afogamento e o conta de novo, agora com dois verbos que não se parecem: no primeiro o SENHOR arremessa; no segundo ninguém faz nada, e a elite "foi afundada".
É a única vez em todo o poema que aparece o nome de Faraó — e o Egito, como país, não é nomeado uma vez sequer.
Quem morre não tem nome: tem posto. O verso fala de carros, de exército e da "elite dos seus oficiais", a camada de cima de uma máquina de guerra.
Os leitores antigos leram nas palavras deste verso uma contabilidade moral, ponto por ponto, entre o que o Egito fez e o que o Egito sofreu.
E o mar, que no verso 1 era só "o mar", ganha aqui o seu nome: mar dos Juncos.
2. Contexto Histórico e Cultural
Uma elite de carro, com nome próprio
No Oriente da Idade do Bronze tardia, o carro de guerra não era só uma arma: era uma classe social. Quem lutava de carro precisava de cavalos caros, de um veículo feito com madeira importada, de anos de treino e de uma equipe de tratadores. Isso não se improvisa com recrutas. Em quase todos os reinos da região, a gente do carro formava uma camada à parte.
Essa camada tinha nome, e o nome era estrangeiro em quase todos os lugares onde aparece: maryannu ("jovens guerreiros", termo dos textos do norte da Síria para a nobreza que combatia de carro). A palavra nasceu em Mitani, o reino hurrita (povo do norte da Síria e da Alta Mesopotâmia) que dominou a região entre os séculos XVI e XIV antes de Cristo. A raiz não é hurrita: é indo-ariana, a mesma família de línguas do sânscrito, de márya, "homem jovem, guerreiro", com um sufixo hurrita colado no fim. A palavra veio de fora junto com a técnica do carro e dos cavalos.
O mesmo rastro aparece num manual: o tratado de treinamento de cavalos de carro de Kikkuli, "treinador da terra de Mitani", achado nos arquivos dos hititas, está em hitita, mas conta as voltas da pista com números indo-arianos. Saber correr de carro era saber estrangeiro, passado por especialistas.
Nas cidades da costa síria a palavra deixou de nomear um povo e passou a nomear uma condição. Em Alalakh, as listas de moradores separam os maryannu das outras camadas da população. Em Ugarite, documentos do palácio mostram que o rei podia elevar alguém a essa condição, e que ela passava aos filhos.
O que o Egito fazia com essa gente
O Egito aprendeu o carro com os vizinhos do norte e conheceu a palavra pelos inimigos. Amenotep II, faraó do século XV antes de Cristo, deixou duas estelas — uma em Mênfis, outra em Karnak — com a lista do que trouxe de uma campanha na Síria: ouro, cobre, cavalos, carros e, numa linha própria, 550 maryannu capturados. A elite de carro do inimigo era contada à parte, como bem de valor. Nas gerações seguintes o termo entrou no vocabulário egípcio, e há textos do período raméssida que mostram maryannu servindo nas forças do próprio Egito.
O cântico não usa essa palavra; diz "a elite dos seus oficiais". Mas o fundo é este: quem afunda no verso é a camada que custava mais caro formar e que nenhum reino da época sabia repor depressa.
O rei que atirava do carro
O mesmo Amenotep II mandou erguer junto à Esfinge de Gizé uma estela que é, no fundo, propaganda esportiva. Ela conta que o rei, de pé no carro em movimento, atirou flechas contra alvos de cobre da grossura de um palmo e os atravessou, coisa que nenhum outro arqueiro conseguia. O faraó que dispara do carro em movimento é um lugar-comum da arte real egípcia do Império Novo.
O verbo hebraico deste verso para "arremessou" é, no seu uso comum, o verbo de atirar flecha. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático e comentarista espanhol do século XII) viu nisso uma inversão de peso: Deus lançou os carros pesados e os homens deles como quem dispara uma flecha leve. Lida contra o fundo da estela, a imagem fica mais aguda — no Egito o rei atira do carro; no cântico o carro é a coisa atirada. O poema não cita nenhum texto egípcio, e afirmar que ele responde de propósito à propaganda dos faraós seria ir além do que se pode provar. O que se pode dizer é que a imagem fazia sentido num mundo em que o carro e o arco eram o retrato oficial do poder.
A palavra hebraica traduzida por "oficiais", com as suas dezessete ocorrências e a disputa sobre "terceiro homem do carro", está examinada no estudo de Êxodo 14:7.
3. Análise Teológica do Versículo
"Os carros de Faraó e o seu exército"
A frase começa pelo objeto, e o objeto é material: carros. Antes de dizer quem agiu, o poema mostra o que foi destruído.
A palavra para "carros" também mudou. O capítulo 14 contou a perseguição com um substantivo coletivo, "o carro", que designa a força inteira como bloco. O cântico usa o plural de outra palavra, a do veículo individual — a mesma que aparece uma única vez no capítulo 14, em Êxodo 14:25, quando o SENHOR "tirou-lhes as rodas dos carros". O poema escolhe o vocabulário do momento em que a máquina começou a se desmontar: não uma força, mas veículos, um a um.
Depois vem o dono. É a única vez em todo o cântico que Faraó é nomeado, e ele aparece como proprietário. O poema não usa a palavra "Egito" nenhuma vez; o adversário, nos versos seguintes, será "o inimigo" (Êxodo 15:6 e 15:9) — um papel, não um povo. O cântico guarda o nome do rei e apaga o nome do país, e isso combina com o que ele celebra: não a ruína de uma nação, mas a queda de um poder que tinha dono. Se o dono afundou com os carros, o verso não diz; as três respostas antigas estão no estudo de Êxodo 14:28.
"ele arremessou ao mar"
O sujeito é um pronome que aponta para o verso anterior: "o SENHOR é homem de guerra".
O verbo não é o do verso 1. Lá o cavalo e o cavaleiro foram "lançados"; aqui os carros são "arremessados", com o verbo de atirar flecha ou pedra. Por que o poema trocou de verbo? Há três respostas.
Primeira leitura: os dois verbos descrevem dois movimentos. É a da Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado na terra de Israel nos primeiros séculos da era cristã): um verbo diz que desciam ao abismo, o outro que subiam às alturas. Os corpos eram jogados para cima e para baixo, e os dois versos descrevem juntos uma cena de tumulto.
Segunda leitura: o verbo inverte o peso das coisas. É a de Ibn Ezra, exposta no item 2: carros pesados lançados como flecha leve.
Terceira leitura: é só um sinônimo forte. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista francês do século XII) diz que o verbo equivale a "jogar com força", como em 2 Samuel 11:24, onde os arqueiros atiram do alto da muralha. Poesia variando o vocabulário, nada mais.
O texto não permite decidir. A terceira é a mais econômica; as duas primeiras dizem o que um leitor atento sente diante da troca.
O que o Egito tinha jogado na água
A Mekhilta lê o verso inteiro pelo princípio de que cada um é medido com a medida que usou. A leitura mais forte recorre a Êxodo 1:22: "Todo filho que nascer, joguem no Nilo". O Egito começou a história jogando meninos na água; o exército do Egito a termina jogado na água. O livro não faz a ligação em palavras — o verbo de Êxodo 1:22 é outro —, e por isso ela é leitura, não texto. Mas o desenho está no livro: o primeiro decreto contra Israel é de afogamento, e o último ato contra o Egito é um afogamento.
"a elite dos seus oficiais"
O verso desce na hierarquia, do mais geral ao mais seleto: carros, exército, flor do comando. Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês do fim do século XVIII) chamou a sequência de gradação, e ela é.
A Mekhilta volta à sua contabilidade: em Êxodo 14:7 Faraó "tomou seiscentos carros escolhidos"; aqui o escolhido é o que afunda. A seleção que o rei fez para garantir a vitória vira a lista dos mortos. A ligação entre as palavras é verificável; a moral tirada dela é leitura. Sforno (Obadias Sforno, rabino italiano do século XVI) acrescenta uma observação de soldado: aqueles homens eram a espinha do exército. Um exército que perde o comando de uma vez não perde só gente; perde a capacidade de se refazer.
"foi afundada"
A primeira metade tinha sujeito, verbo e objeto. A segunda tem só o paciente e o que lhe aconteceu. Quem afundou a elite? O verso não diz.
Uma resposta é de forma: a poesia hebraica diz a mesma coisa duas vezes e varia a construção na segunda, e o agente oculto é o mesmo da primeira metade. Mas a Septuaginta (a tradução grega feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) não ficou tranquila com o vazio: transformou o passivo em ativo e pôs Deus como sujeito. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica antiga da Torá) e a Vulgata (a latina de Jerônimo) mantiveram o passivo.
O passivo não precisa esconder nada para significar alguma coisa. A primeira metade do verso olha para o SENHOR; a segunda olha para os oficiais, de dentro da água. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) observa que o verbo descreve o ato de afundar, não o estado de quem já está no fundo: é o momento da descida, não o cadáver.
Afundar na lama?
Rashi (rabino francês do século XI, o comentarista judaico mais lido), seguindo a Mekhilta, afirma que este verbo sempre indica afundar em lama, e conclui que o mar virou lodo para os egípcios — pagamento por terem feito Israel trabalhar com argamassa e tijolo (Êxodo 1:14).
Só metade disso se sustenta. O verbo aparece de fato com lama em vários lugares, e carros atolados combinam com as rodas soltas de Êxodo 14:25. Mas "sempre" é forte demais: o mesmo verbo serve para montes "assentados" antes da criação, onde não há lama nenhuma (item 10). O núcleo do sentido é afundar até ficar preso. A ponte entre a argamassa do Egito e o lodo do mar é homilia, e boa homilia; não é o que o verbo obriga.
"no mar dos Juncos"
A primeira metade dizia "ao mar"; a segunda diz o nome. A segunda linha repete a primeira e acrescenta um grau de precisão: o mar vira o mar dos Juncos, os carros e o exército viram a elite, o gesto de arremessar vira o fato de afundar. É o mesmo acontecimento visto de longe e de perto — e é a única vez que o cântico nomeia o lugar.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O SENHOR
Não é nomeado neste verso. Está no pronome de "ele arremessou", que aponta para o verso anterior. Na primeira metade é sujeito ativo; na segunda some da gramática, e o que sobra é o efeito.
Faraó
Aparece só como possuidor: os carros são dele, o exército é dele, os oficiais são dele. Em toda a parte poética do capítulo (Êxodo 15:1-18) este é o único lugar em que o título do rei é escrito. O nome do país que ele governa não aparece nenhuma vez no cântico.
O exército
A mesma palavra de Êxodo 14:28, "todo o exército de Faraó". No cântico ela fica entre os carros e a elite, como termo do meio entre a máquina e o comando.
A elite dos oficiais
O grupo humano mais preciso do verso, e o único descrito por seleção: não "os oficiais", mas o que havia de melhor entre eles. Não se diz quantos eram, nem se ia um em cada carro. O mesmo termo para "oficiais" só aparece mais uma vez em toda a Torá, em Êxodo 14:7.
O mar dos Juncos
O lugar recebe nome aqui e em nenhum outro verso do poema. O nome hebraico quer dizer "mar de juncos" — o "Vermelho" das traduções tradicionais entrou pela Septuaginta. A identificação geográfica e a história do nome estão no estudo de Êxodo 10:19.
O acontecimento
É o afogamento contado pela segunda vez no cântico, depois do verso 1. O verso 1 o resumiu em uma imagem — cavalo e cavaleiro; este o desdobra numa lista com hierarquia. No verso seguinte a primeira parte do poema termina, com os mortos já no fundo.
5. Pontos de Ensino
O poema guarda o nome do rei e cala o nome do país
Faraó aparece uma vez; o Egito, nenhuma. O cântico não celebra a ruína de um povo inteiro, e quem o lê como canto contra os egípcios em geral está lendo mais do que ele diz. O que ele derruba é um poder com dono: carros, exército e comando que pertenciam a alguém.
A voz passiva também diz alguma coisa
Na primeira metade há um agente; na segunda, só o resultado. A Septuaginta achou necessário preencher o vazio e pôs Deus como sujeito. Quem ensina não precisa fazer o mesmo: as duas perspectivas, a de quem age e a de quem sofre, cabem na mesma linha.
"Medida por medida" é leitura, e é preciso dizer isso
A ligação entre os meninos jogados no Nilo e o exército jogado no mar é poderosa e está no desenho do livro. Mas o livro não a escreve com as mesmas palavras, e a ponte entre a argamassa e a lama é homilia rabínica. Usar essas leituras é legítimo; apresentá-las como o que o verso diz não é.
Poesia que repete a prosa não acrescenta fatos — acrescenta verbos
Nada neste verso é informação nova em relação ao capítulo 14. O que é novo é o vocabulário: o verbo de atirar flecha, o verbo de afundar até prender, o nome do mar, o plural do carro individual. A diferença entre contar e cantar está aí, e é a melhor porta para ensinar a ler o cântico sem repetir a travessia.
6. Aspectos Filosóficos
Um povo que não lutou canta a destruição de um exército, e descreve os mortos por equipamento e por patente: carros, exército, elite dos oficiais. Nenhum rosto. A pergunta filosófica que isso levanta é antiga e tem um tratamento moderno preciso: o que acontece com quem olha a guerra e transforma o inimigo em categoria?
Gray: o que o soldado vê no inimigo
J. Glenn Gray (1913-1977) foi um filósofo norte-americano que recebeu o doutorado e, no mesmo ano, foi convocado para a Segunda Guerra Mundial. Passou quatro anos no exército, a maior parte no serviço de contraespionagem, da África do Norte à Alemanha. Em 1959 publicou The Warriors (Os guerreiros: reflexões sobre homens em batalha), escrito a partir dos diários de guerra — um dos raros livros de filosofia sobre o combate escritos por quem esteve nele.
Duas teses do livro tocam este verso.
A primeira: as imagens do inimigo. Gray descreve os modos como o combatente enxerga quem está do outro lado. Há o inimigo como profissional, alguém que se combate com toda a força mas a quem se reconhece o ofício. Há o inimigo como encarnação do mal, contra quem a guerra vira cruzada. Há o inimigo como bicho, que se pode matar sem remorso. E há o inimigo como um homem decente igual a mim, enganado ou forçado a estar ali. O ponto de Gray é que essas imagens não brotam do contato: brotam da distância. Quanto mais longe da linha de frente, mais abstrato e mais absoluto o ódio. O soldado que viu o inimigo de perto tende a ter imagens mais misturadas do que o civil que só leu sobre ele.
A segunda: os prazeres da guerra. Gray tem a honestidade rara de admitir que a guerra atrai, e enumera três atrações: o prazer de ver, porque a guerra é espetáculo; o prazer da camaradagem; e o prazer de destruir, a exaltação diante de uma coisa grande que cai. Não as aprova; registra-as, porque quem as nega não entende por que os homens voltam à guerra.
O que o verso mostra, nos termos de Gray
O cântico é cantado por quem não combateu. No capítulo anterior, a ordem a Israel foi ficar calado enquanto o SENHOR pelejava (Êxodo 14:14). Pela tese de Gray, seria o lugar perfeito para o ódio abstrato, o do civil que não viu o rosto de ninguém.
E o verso de fato abstrai: os mortos são carros, exército e elite. Mas a abstração dele não é nenhuma das quatro imagens. O cântico não pinta o egípcio como monstro, nem como bicho, nem como cruzado do mal; não diz uma palavra sobre o caráter de ninguém. O inimigo deste verso é uma máquina, descrita do mais pesado ao mais seleto, e a celebração é a de quem vê uma máquina de guerra desmontada.
Isso aproxima o verso do terceiro prazer de Gray, o de ver ruir uma coisa grande. O cântico é, entre outras coisas, júbilo de destruição, e não adianta disfarçar. A diferença está no sujeito: Gray fala de quem destrói; o cântico canta uma destruição feita por outro. Israel ocupa a posição de espectador, que Gray põe no primeiro dos prazeres — o de ver —, e não a de executor.
O limite da comparação
Duas ressalvas. Gray escreve sobre soldados modernos, com doutrinas, propaganda e a guerra industrial por trás; o cântico pertence a outro mundo, em que a vitória de um deus sobre o exército de um rei era gênero poético reconhecido. E a tradição judaica não deixou o júbilo sem contrapeso — as leituras que tratam desse incômodo estão ligadas ao estudo de Êxodo 14:17.
O que a comparação mostra é a natureza da abstração do verso. Ele não odeia; ele inventaria. E inventário, como Gray sabia, é a forma mais tranquila de não ver as pessoas.
7. Aplicações Práticas
Como você conta a derrota de quem esteve contra você
O verso fala de um adversário real, que perseguia um povo em fuga, e mesmo assim não o descreve com adjetivos. Não há "cruéis", "malditos", "ímpios". Há carros, exército, oficiais. Quando você relata o desfecho de um conflito — uma disputa de trabalho, uma briga de família, um processo —, o verso oferece um modelo sóbrio: dizer o que caiu, sem gastar palavras pintando o outro como monstro. A vitória não precisa do retrato do inimigo para ser vitória.
A voz passiva nas suas próprias histórias
"Foi afundada" não diz quem afundou. Em conversa comum, a voz passiva costuma servir para esconder o agente — "erros foram cometidos". O verso usa a mesma construção para o efeito contrário: o agente já foi dito na primeira metade, e a segunda pode olhar só para o resultado. Vale perceber a diferença quando você mesmo narra algo: o passivo honesto é o que vem depois de você ter dito quem fez.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se o verbo de "arremessar" é o mesmo de "ensinar", o verso tem algo a ver com a Torá?
A raiz é a mesma: no uso simples ela é atirar; numa forma causativa, apontar a direção e daí ensinar, e dela vem a palavra torah ("instrução"). O próprio capítulo usa a forma de ensinar no seu trecho final, quando o SENHOR "mostra" a Moisés um lenho em Mara. Mas aqui o sentido é só o físico, e nenhum comentarista antigo de peso leu "ensino" neste verso. A ligação é de dicionário, não de sentido.
O cântico teria sido composto ali mesmo, na praia, como o capítulo dá a entender?
O texto apresenta o cântico como resposta imediata ("então cantou Moisés"), e o verso usa vocabulário arcaico. Isso não resolve a data da composição, que é uma das questões mais discutidas sobre o poema. Há quem o coloque entre os textos mais antigos da Bíblia e há quem veja nele marcas de época posterior. A discussão, com o argumento de cada lado, está no estudo de Êxodo 15:17.
Por que o cântico fala de "oficiais" e não de "soldados"?
Porque o verso olha para a força de carros, e nela o soldado comum quase não existia: cada veículo levava dois especialistas treinados por anos. O verso escolhe a camada que define aquela força — a de comando e de elite — e a nomeia. Quem lê "os soldados de Faraó" traz para a cena a imagem de uma infantaria que o capítulo 14 quase não menciona.
O verso fala da morte de todo o exército ou só de uma parte?
A primeira metade fala dos carros e do exército; a segunda, só da elite. Pode ser paralelismo — a mesma coisa dita duas vezes —, e então "a elite" é um modo de dizer "até a elite". Pode ser gradação — primeiro o conjunto, depois o que mais doía perder. As duas leituras dão o mesmo saldo: o poema não deixa ninguém de fora da água.
9. Conexão com Outros Textos
As duas frases da prosa que o verso recolhe
Êxodo 14:7 — "Tomou seiscentos carros escolhidos e todos os carros do Egito, com oficiais sobre todos eles."
Êxodo 14:25 — "Tirou-lhes as rodas dos carros, e eles os conduziam com dificuldade. Então os egípcios disseram: 'Fujamos de diante de Israel, porque o SENHOR peleja por eles contra o Egito.'"
Do primeiro vêm "escolhidos" e "oficiais", que o cântico funde em "a elite dos seus oficiais". Do segundo vem a palavra para "carros" no plural — a única vez em que o capítulo 14 a usou, justamente no momento em que os veículos começam a falhar.
Os dois versos que a Mekhilta põe na balança
Êxodo 1:22 — "Então Faraó ordenou a todo o seu povo: 'Todo filho que nascer, joguem no Nilo; mas toda filha, deixem viver.'"
Êxodo 1:14 — "e amarguraram a vida deles com trabalho pesado: a argamassa, os tijolos e todo o serviço do campo. Todo o trabalho que lhes impunham era com brutalidade."
O primeiro é a água como arma contra Israel; o segundo, a argamassa. A Mekhilta devolve as duas: o exército jogado na água, e a água virada lama.
A elite que desce ao matadouro
Jeremias 48:15 — "Moabe foi devastado, e as suas cidades foram invadidas; a elite dos seus jovens desceu ao matadouro, diz o Rei, cujo nome é o SENHOR dos Exércitos."
A mesma palavra hebraica para "elite", e o verbo de descer que o cântico usa no verso seguinte. Jeremias aplica a Moabe a forma de dizer que Êxodo 15 tinha aplicado ao Egito: a flor de um exército não morre, desce.
O verbo de atirar
2 Samuel 11:24 — "Os atiradores atiraram contra os seus servos do alto do muro, e morreram alguns dos servos do rei; e morreu também o seu servo Urias, o heteu."
O verso que Rashbam lembra para mostrar o verbo como "atirar com força".
A palavra que a Septuaginta escolheu, e onde ela volta
Mateus 14:30 — "Mas, ao ver o vento forte, teve medo e, começando a afundar, gritou: 'Senhor, salva-me!'"
Mateus 18:6 — "Mas quem levar ao pecado um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria que lhe pendurassem no pescoço uma grande pedra de moinho e o afundassem nas profundezas do mar."
Para "foi afundada", a tradução grega de Alexandria usou um verbo composto de "mar aberto" que quer dizer "mandar ao fundo". É o verbo que Mateus usa nas suas duas únicas ocorrências do Novo Testamento. Não há aqui leitura cristã do cântico, só vocabulário: o grego que os judeus de língua grega liam neste verso era o grego disponível para dizer "afundar no mar".
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Os carros de Faraó e o seu exército ele arremessou ao mar; a elite dos seus oficiais foi afundada no mar dos Juncos.
Texto hebraico
מַרְכְּבֹת פַּרְעֹה וְחֵילוֹ יָרָה בַיָּם וּמִבְחַר שָׁלִשָׁיו טֻבְּעוּ בְיַם־סוּף׃
Transliteração
markevot Par'oh ve-cheilo yarah va-yam; u-mivchar shalishav tubbe'u ve-yam-Suf.
Análise palavra por palavra
מַרְכְּבֹת — markevot, "os carros de".
Plural de merkavah, carro, na forma ligada ao nome seguinte. A raiz é rakhav, montar, cavalgar, andar de veículo. O hebraico tem duas palavras para carro, e elas não são equivalentes. Rekhev é coletivo: designa a força de carros como conjunto, e é a palavra dominante do capítulo 14 (Êxodo 14:6, 14:7, 14:9, 14:17, 14:23, 14:26, 14:28). Merkavah designa o veículo individual, contável. É a palavra do "segundo carro" em que José desfila em Gênesis 41:43 e a do carro que ele atrela em Gênesis 46:29.
No capítulo 14 ela aparece uma única vez, em Êxodo 14:25, na frase das rodas que se soltam. O cântico a retoma no plural e a põe na abertura do verso.
פַּרְעֹה — Par'oh, "Faraó".
Título, não nome: vem do egípcio per-aa, "casa grande", o palácio, que passou a designar o próprio rei. Única ocorrência nos versos 1 a 18.
וְחֵילוֹ — ve-cheilo, "e o seu exército".
Conjunção, o substantivo chayil e o sufixo de terceira pessoa masculina do singular. Chayil é força, capacidade, riqueza, tropa — o mesmo termo de "todo o exército de Faraó" em Êxodo 14:28.
יָרָה — yarah, "arremessou".
Qal — a forma simples e ativa do verbo hebraico —, perfeito, terceira pessoa masculina do singular, da raiz y-r-h. O sentido concreto é atirar: flecha (1 Samuel 20:36), dardo, pedra. Em Êxodo 19:13 o mesmo verbo, duplicado, descreve quem toca o monte e deve ser "flechado". É uma palavra de pontaria, e não de despejo.
A ABC traduz "arremessou" para manter distinto o verbo de Êxodo 15:1, "lançou", que é outra raiz (ramah).
A mesma raiz, numa forma causativa, significa "ensinar", e é dela que vem torah. O capítulo volta a ela no fim, em Mara, com esse outro sentido (Êxodo 15:25).
בַיָּם — va-yam, "ao mar".
Preposição be ("em, para dentro de") com artigo e yam, mar. Ao pé da letra, "no mar": o hebraico usa a mesma preposição para o lugar onde algo está e para onde algo vai.
וּמִבְחַר — u-mivchar, "e a elite de".
Conjunção e um substantivo formado com o prefixo mi- sobre a raiz bachar, escolher. Rashi o classifica como substantivo do mesmo tipo de merkav ("assento de carro") e mishkav ("leito"). Designa o melhor de um conjunto, o que foi separado por ser melhor.
Aparece cerca de uma dúzia de vezes. Em Gênesis 23:6 os heteus oferecem a Abraão "a melhor das nossas sepulturas". Em Deuteronômio 12:11, "o melhor dos votos". Em Jeremias 48:15, "a elite dos seus jovens desceu ao matadouro". Em Ezequiel 31:16, "o escolhido e o melhor do Líbano", árvores do Éden que descem ao mundo dos mortos. Um padrão aparece: quando a palavra se aplica a gente ou a seres vivos, com frequência é para dizer que o melhor foi destruído.
A ligação com Êxodo 14:7 é de raiz: lá os carros eram bachur, "escolhidos", particípio do mesmo verbo.
שָׁלִשָׁיו — shalishav, "dos seus oficiais".
Plural de shalish com sufixo de terceira pessoa masculina do singular. A palavra, as suas dezessete ocorrências e as duas explicações ("terceiro homem do carro" × "terceiro grau abaixo do rei") estão no item 10 de Êxodo 14:7. As traduções antigas hesitaram: a Septuaginta escreveu "os que ficam em terceiro"; o Targum de Ônquelos desistiu do posto e escreveu "os seus guerreiros".
טֻבְּעוּ — tubbe'u, "foi afundada".
Pual — a forma passiva da conjugação intensiva —, perfeito, terceira pessoa do plural, da raiz t-b-', afundar. O verbo concorda com o sentido, não com a gramática: "a elite" é singular em hebraico, mas os afundados são muitos, e o verbo vai ao plural. A ABC manteve o singular em português ("foi afundada") para concordar com "elite".
Esta é a única vez em toda a Bíblia hebraica em que a raiz aparece no Pual. Nas outras formas ela tem dois usos. No simples, afundar em algo que prende: o lamaçal do Salmo 69:2 e 69:14, a lama da cisterna de Jeremias 38:6 e 38:22, a pedra que se crava na testa de Golias em 1 Samuel 17:49, as portas de Jerusalém "afundadas na terra" em Lamentações 2:9. No passivo de outra forma, ser assentado, fincado: os montes antes da criação em Provérbios 8:25, as bases da terra em Jó 38:6. O núcleo comum é "afundar até ficar preso", e não só "submergir".
Da mesma raiz vem tabba'at, o anel de sinete — a peça que se afunda no barro mole para deixar a marca. O anel que Faraó tira do dedo para pôr no de José, em Gênesis 41:42, e o verbo que leva a elite de Faraó para o fundo são parentes de palavra.
בְיַם־סוּף — ve-yam-Suf, "no mar dos Juncos".
Yam na forma ligada e suf, junco, a planta de beira d'água — a mesma palavra do cesto de Moisés posto "entre os juncos" em Êxodo 2:3. Ibn Ezra registra duas explicações do nome: a de Yefet ben Ali (comentarista caraíta do século X), para quem o mar se chama assim pelos juncos das margens, e a de outro mestre que o tomava por nome de cidade, como o mar da Galileia se chamou de Quinerete e de Tiberíades por causa das cidades. A primeira é a corrente.
11. Conclusão
Do que foi examinado saem quatro conclusões.
O cântico derruba um poder, não um povo. Ao nomear Faraó uma única vez, como dono de carros e de exército, e ao nunca escrever a palavra "Egito", o poema dirige a celebração contra uma máquina de guerra com proprietário. Quem o canta como hino contra os egípcios em geral está pondo no texto um alvo mais largo do que o que ele escolheu.
As duas metades do verso olham de lugares diferentes, e as duas são necessárias. A primeira vê de cima, a partir de quem age; a segunda vê de dentro da água, a partir de quem afunda. O agente omitido na segunda não é um enigma a resolver — a Septuaginta resolveu e perdeu a mudança de ponto de vista.
A leitura moral antiga é fecunda, mas tem de ser marcada como leitura. O desenho que vai dos meninos jogados no Nilo ao exército jogado no mar está no livro; a ponte entre a argamassa e a lama, e a tese de que o verbo "sempre" indica lodo, são construções dos comentaristas. Usá-las sem dizer de onde vêm é atribuir ao verso o que ele não escreveu.
O verso não acrescenta fatos à travessia; acrescenta o modo de vê-la. O verbo de pontaria, o carro contado um a um, a elite como último termo e o nome do mar dado uma única vez transformam um relato já conhecido em retrato de um poder que se desfaz de cima para baixo. É isso que o cântico tem e a prosa não tinha.













