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Êxodo 19:13

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✍️ Por Alberto Adriano·5 de outubro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 15 acessos
Nenhuma mão tocará nele, mas será certamente apedrejado ou flechado; seja animal, seja homem, não viverá.’ Quando o chifre de carneiro soar longamente, eles subirão ao monte.”
Ao pé de uma montanha rochosa do deserto, uma fileira de homens em túnicas simples segura pedras e arcos junto a uma linha de pedras marcada no chão; adiante deles, na encosta proibida, uma ovelha desgarrada sobe atrás de um tufo de capim, enquanto uma nuvem escura cobre o alto do monte.

Estudo


Nenhuma mão tocará nele, mas será certamente apedrejado ou flechado; seja animal, seja homem, não viverá.’ Quando o chifre de carneiro soar longamente, eles subirão ao monte.”

1. Introdução

Quem cruzar a linha ao redor do Sinai morre, e ninguém pode ir buscá-lo: a pena é aplicada de longe, com pedras ou flechas, e vale igualmente para o animal que se desgarrar do rebanho. O versículo levanta três perguntas que a tradição discute há dois mil anos — quem é o "nele" em que nenhuma mão tocará, quem executa a sentença e por que um animal, que não tem culpa, morre como o homem. Na última frase entra um instrumento que não tinha aparecido no livro, o chifre de carneiro, e com ele uma permissão: quando o som se alongar, "eles subirão ao monte". A proibição tem, portanto, prazo, e o texto não diz quando o prazo termina nem quem são "eles".

2. Contexto Histórico e Cultural

Uma sentença que se executa sem encostar no condenado

Em Israel, a pena de apedrejamento era um ato da comunidade. As testemunhas lançavam a primeira pedra e o povo vinha depois (Deuteronômio 17:7); o condenado era levado para fora do acampamento ou da cidade (Levítico 24:14; Números 15:36; 1 Reis 21:13). O sentido prático era que ninguém fosse, sozinho, o matador. O procedimento detalhado, com a altura da queda e a ordem das pedras, foi registrado pela Mishná muito depois e está exposto no estudo de Êxodo 17:4.

Êxodo 19:13 acrescenta duas coisas que nenhuma outra lei da Torá repete. A primeira é a proibição de tocar no condenado: a execução tem de acontecer sem que o executor cruze a linha. A segunda é a flecha. Em nenhum outro lugar a Bíblia hebraica prescreve a morte a flechadas como pena judicial. Ela aparece aqui porque o problema é de distância: quem está perto é alcançado por uma pedra; quem já subiu um trecho da encosta só pode ser alcançado por um arco. É assim que Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) e Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista francês do século XII) leem a alternativa "apedrejado ou flechado": a pedra para o próximo, a flecha para o distante. Rashbam acrescenta a razão: se os guardas fossem até o transgressor para matá-lo, eles mesmos ficariam sujeitos à morte.

O sagrado que passa por contato

A ideia por trás da proibição é que a santidade se transmite pelo toque, como uma carga. A Torá diz isso de alguns objetos do santuário: "tudo o que tocar nelas ficará santo" (Levítico 6:18 e 6:27, sobre as ofertas). Ezequiel tira a consequência prática: os sacerdotes devem trocar de roupa antes de sair ao pátio do povo, "para não santificarem o povo com as suas vestes" (Ezequiel 44:19; o mesmo em 46:20). A santidade, nesses textos, não é virtude; é uma condição perigosa para quem não está preparado para ela, e se espalha.

Jacob Milgrom (estudioso judeu norte-americano do século XX, autor do comentário mais extenso ao Levítico) chamou isso de "santidade contagiosa" e mostrou que os textos divergem sobre o alcance dela: o Levítico a limita ao altar e a alguns objetos; Ezequiel ainda a estende às roupas. O Sinai do versículo 13 é o caso extremo: um monte inteiro, e o contato passa do monte ao transgressor e do transgressor a quem o tocar.

Executado por homens ou pelo céu

O Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) lembra dois casos em que alguém tocou o que não podia e não foi julgado por tribunal nenhum: Nadabe e Abiú, devorados por fogo que saiu de diante do SENHOR (Levítico 10:1-2), e o rei Uzias, que entrou no templo para queimar incenso e saiu leproso (2 Crônicas 26:16-21). Daí ele tira uma segunda leitura do versículo: "apedrejado" pelo granizo e "flechado" pelos raios, como no Egito (Êxodo 9:23). A leitura não convence a maioria — quando o verbo "apedrejar" tem sujeito expresso na Torá, o sujeito são pessoas —, mas mostra que a forma passiva do versículo não diz quem atira.

O chifre de carneiro e a palavra que veio da Arábia

O instrumento do fim do versículo não é o mesmo que soará no versículo 16. Aqui o hebraico diz yovel (o carneiro, e por extensão o chifre dele), palavra rara cujo sentido os próprios rabinos precisaram descobrir. O Talmude da Babilônia (a grande compilação de discussões rabínicas, fechada por volta do ano 500), no tratado Rosh Hashaná 26a, guarda a explicação: Rabi Aquiba (mestre da terra de Israel, morto por volta do ano 135) contou que, numa viagem à Arábia, ouviu chamarem o carneiro de yovla. Na mesma passagem ele conta que na Gália ouviu outra palavra rara e na África uma terceira — o rabino lia o hebraico da Bíblia com a ajuda das línguas vizinhas, como faz ainda hoje um dicionário.

A palavra liga o Sinai a duas outras cenas. Em Jericó, os sacerdotes levam "trombetas de carneiro" (shofrot ha-yovelim, Josué 6:4), e quando o chifre soa longamente o povo sobe à cidade (Josué 6:5). E é do toque desse chifre que vem o nome do ano do jubileu, anunciado "com o toque da trombeta" no Dia da Expiação (Levítico 25:9-10), explicação que Ibn Ezra registra. "Jubileu", em português, guarda o chifre de carneiro dentro da palavra.

3. Análise Teológica do Versículo

"Nenhuma mão tocará nele"

Em quem? O hebraico diz "nele" sem dizer o quê, e o português da ABC conserva a dúvida, porque "monte" também é masculino. A Septuaginta (a tradução grega feita no Egito nos séculos III e II a.C.) e a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) também a conservam, porque em grego e em latim o pronome serve igualmente para o monte e para o homem.

Primeira leitura: nele, o monte. A frase repetiria o que o versículo 12 acabou de dizer, com uma palavra a mais — a mão. A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado na terra de Israel por volta do século III) lê assim e tira daí uma consequência de lei: o pronome restringe a proibição a este monte, e ela não vale para Siló, nem para a Tenda do Encontro, nem para o Templo. Nenhum outro lugar santo de Israel seria intocável como o Sinai naqueles dias.

Segunda leitura: nele, o transgressor. É a de Ibn Ezra, de Rashbam, do Chizkuni e da maioria dos comentaristas cristãos, como Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX, editor de um comentário bíblico em vários volumes). A frase traz então uma informação nova: quem cruzou a linha não pode ser agarrado, porque, como diz Ellicott, para detê-lo outra pessoa teria de transgredir. O Comentário do Púlpito ("Pulpit Commentary", obra coletiva inglesa do século XIX) acrescenta que a prisão repetiria a ofensa na pessoa de quem prende.

A segunda leitura explica por que o versículo continua com "mas": nenhuma mão tocará nele, mas será apedrejado. A conjunção opõe dois modos de matar — com a mão e à distância —, e isso só faz sentido se o "nele" for uma pessoa. A primeira leitura, por sua vez, explica melhor a palavra "mão", que no versículo 12 não estava. As duas são defensáveis, e a ABC, ao não decidir, deixa o leitor diante do texto como ele é.

"mas será certamente apedrejado ou flechado"

Os dois verbos estão dobrados no hebraico, o modo de dar ênfase que a ABC traduz por "certamente". E os dois estão na forma passiva. O versículo diz o que vai acontecer ao transgressor, não quem o fará — e a pergunta pelo executor, que o item 2 apresentou, nasce dessa forma verbal.

Rashi (Salomão ben Isaque, comentarista judeu francês do século XI) lê o segundo verbo de outro modo. Para ele, não é "flechado", mas "lançado para baixo", como os carros de Faraó foram "arremessados" ao mar. Daí sai uma regra sobre o apedrejamento em geral: o condenado era primeiro empurrado de uma altura e só depois apedrejado. A regra está no Talmude (Sanhedrin 45a), e Rashi a pendura neste versículo. A leitura dele transforma uma alternativa ("ou pedra ou flecha") numa sequência ("queda e pedra") e exige um penhasco onde o transgressor estivesse. No Sinai, ao menos, ele existia.

A Mekhilta estende a frase seguinte: "homem" inclui a mulher, e "animal" inclui o bicho selvagem. E Rabi Aquiba, lendo o "não viverá" deste versículo junto com o "não deixarás viver" da feiticeira (Êxodo 22:18), conclui que a feiticeira também morre apedrejada. O versículo do Sinai virou fonte de lei para casos que nada têm a ver com o monte.

"seja animal, seja homem, não viverá"

O animal vem primeiro, e o leitor encontra a pena aplicada a quem não tem culpa antes de encontrá-la aplicada a quem tem. O perigo do monte é medido pelo toque, não pela intenção (a pergunta ética está no item 6).

Ibn Ezra registra a ausência das aves, com uma razão prática: não se pode pegar o que voa. Ellicott tenta explicar a morte do animal como castigo do dono que o deixou ir — hipótese moral para um texto que não fala de dono.

"Quando o chifre de carneiro soar longamente"

O versículo muda de assunto sem aviso: da pena passa ao sinal. E o sinal não é de perigo, é de licença. A Mekhilta e Rashi o leem assim: o toque longo marca a retirada da Presença de Deus do monte, e a partir daí o monte volta a ser um monte. Rabi Yossi, na Mekhilta, tira disso uma frase que ficou célebre: não é o lugar que honra o homem, é o homem que honra o lugar. Enquanto a Presença estava no Sinai, quem o tocasse morria; quando ela saiu, qualquer um podia subir. A santidade do Sinai, nessa leitura, é emprestada e temporária. O monte não tem nada em si.

Ibn Ezra combate uma leitura que circulava no seu tempo: a de que este chifre seria a mesma "trombeta" dos versículos 16 e 19. Para ele, aquela trombeta "não era de chifre de carneiro", e o chifre deste versículo é outro. Ibn Ezra relata a solução do Gaon (Saadia ben José, chefe da academia de Sura, na Babilônia, morto em 942): quem o tocou foi Moisés, muito depois, quando a Tenda do Encontro já estava pronta e a glória passou do monte para ela (Êxodo 40:34). O Chizkuni repete a solução e acrescenta outra leitura do verbo: "quando o chifre for retirado", isto é, quando o som parar.

Rashi traz ainda uma tradição do Pirquê de Rabi Eliezer (obra narrativa rabínica dos séculos VIII ou IX): o chifre era o do carneiro que Abraão ofereceu no lugar de Isaque (Gênesis 22:13). Nachmânides (Moisés ben Nachman, comentarista catalão do século XIII) objeta com a própria lei: no holocausto queima-se tudo, chifres inclusive — talvez, diz ele, Deus tenha refeito o chifre das cinzas. Rashi recolhe a tradição pelo que ela diz sobre o monte de Isaque e o monte da Lei; Nachmânides a lê como afirmação de fato e vê que ela não fecha.

O fato mais simples é que o toque nunca é narrado. O capítulo 19 termina com o povo ainda proibido de subir (Êxodo 19:21-24), e o capítulo 34 repete a proibição com os animais incluídos (Êxodo 34:3).

"eles subirão ao monte"

O pronome está escrito, e em hebraico isso o destaca: "eles subirão". Quem?

Primeira leitura: o povo, todos. É a de Rashi, que lê a frase como permissão e não como ordem — poderão subir. Ela combina com o sentido da santidade temporária, mas esbarra no resto do livro, onde o povo nunca sobe.

Segunda leitura: alguns. Ibn Ezra cita Samuel ben Hofni (gaon de Sura, morto em 1013), para quem "eles" são Arão, os filhos dele e os setenta anciãos, os únicos que de fato sobem em Êxodo 24:1 e 24:9. O pronome enfático serviria para excluir os demais: eles, e não outros. Ibn Ezra declara que essas palavras são "boas aos meus olhos". Ellicott e o Comentário do Púlpito chegam à mesma conclusão por outro caminho, notando que o destaque do pronome não combina com "o povo".

Terceira leitura: o povo, mas só até o pé do monte, onde ele de fato para no versículo 17. É uma leitura possível, que reconcilia o versículo com o resto do capítulo, e tem contra si o fato de o versículo 12 usar a mesma expressão para o que é proibido. Os limites e o que eles fazem do monte estão no estudo de Êxodo 19:12.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os guardas sem nome

O versículo pressupõe gente postada junto à linha, com pedras e arcos. O texto não diz quem eram. A Mekhilta, comentando o versículo anterior, diz que o povo se advertia uns aos outros — a vigilância seria de todos; o Chizkuni imagina um enviado do tribunal ao pé do monte. As duas cenas tentam preencher o que o texto deixa aberto.

Os animais do acampamento

Israel saiu do Egito com "rebanhos e gado, muitíssimo numerosos" (Êxodo 12:38). Ao pé de uma montanha do deserto, o risco era concreto: ovelhas e cabras sobem as encostas atrás do pouco pasto que há. A menção aos animais aqui e em Êxodo 34:3 mostra que o texto conhece essa paisagem.

O carneiro de Isaque

A tradição que Rashi recolhe liga este chifre ao carneiro de Gênesis 22:13, no monte Moriá. O Pirquê de Rabi Eliezer especifica: o chifre esquerdo soou no Sinai; o direito, maior, soará no fim dos tempos, quando "se tocará uma grande trombeta" (Isaías 27:13).

Os comentaristas

Rabi Aquiba (c. 50-135), que trouxe da Arábia o sentido de yovel, morreu executado pelos romanos depois da revolta de Bar Kochba; Rabi Yossi ben Halafta, discípulo dele, é o autor da frase sobre o lugar e o homem. Saadia Gaon (882-942), nascido no Egito, chefiou a academia de Sura, na Babilônia, e traduziu a Torá para o árabe. Samuel ben Hofni (morto em 1013), também gaon de Sura, deixou comentários dos quais restam fragmentos; a leitura dele sobre "eles" sobreviveu porque Ibn Ezra a citou.

5. Pontos de Ensino

O perigo do monte não depende da intenção. O animal que sobe atrás de capim morre como o homem que sobe por curiosidade. A santidade do Sinai, neste versículo, não é prêmio para os bons nem castigo para os maus; é uma condição do lugar naqueles dias. Ler aqui uma lição sobre o pecado é acrescentar ao texto.

O limite vale para quem o guarda. Ninguém pode usar a perseguição como pretexto para cruzar a linha. A regra não tem exceção nem para quem a faz cumprir.

A lei conta com a própria violação, e serve de aviso. O versículo fixa a pena para um crime que, até onde o texto informa, nunca aconteceu. Ninguém é apedrejado no Sinai.

A santidade está na Presença, não na pedra. É a lição que a tradição rabínica tirou da última frase: quando a Presença saísse, o monte voltaria a ser monte. Por isso o Sinai não ganhou culto próprio em Israel.

6. Aspectos Filosóficos

Pode um animal merecer a morte?

O versículo põe lado a lado o homem que sobe o monte e o animal que sobe atrás de pasto, e dá aos dois a mesma pena. Para o homem, é possível falar em culpa: ele foi avisado. Para o animal, não. Então o que a pena é?

A pergunta tem nome na filosofia moral: é a pergunta pelo fundamento da punição. Henry Sidgwick (filósofo inglês, 1838-1900, professor em Cambridge) a tratou com mais rigor do que quase todos os do seu século em Os métodos da ética (1874), o livro em que examinou, uma por uma, as regras da moral comum para ver quais sobreviviam a um exame cuidadoso.

Sidgwick distinguiu duas maneiras de justificar a pena. A primeira é a retributiva: o culpado merece sofrer na proporção do mal que fez, e a pena é justa porque devolve esse mal. A segunda olha para a frente: a pena se justifica pelo que evita — o crime que não se repete, o exemplo que dissuade os outros. Sidgwick reconheceu que a moral comum sente a força da primeira. Mas mostrou que ela depende de uma ideia frágil de mérito: só merece quem poderia ter agido de outro modo, e essa condição, examinada a fundo, é difícil de estabelecer. Já a segunda justificação não depende disso, e por isso ele a achava a mais sólida.

Aplicado ao Sinai, o critério de Sidgwick separa os dois casos do versículo. A morte do homem pode ser lida das duas maneiras: ele mereceu, e o exemplo dele protege os outros. A morte do animal só pode ser lida da segunda. Um carneiro não merece nada. Se a pena tem sentido, é o de manter a linha absoluta — nenhuma exceção, nem para o inocente, porque uma exceção abriria espaço para todas as outras. O animal morto ensina ao acampamento inteiro que o limite não negocia.

O texto, porém, não fala a língua de Sidgwick. Ele não chama a morte de castigo; diz apenas que quem toca "não viverá", como quem descreve uma consequência física. Nessa leitura, nem retribuição nem prevenção: o toque contamina, e a contaminação tem de ser removida com o corpo que a carrega (item 2). Sidgwick deixou regras assim fora do seu exame. Os métodos da ética trata do que a razão pode estabelecer por si mesma sobre o que se deve fazer; uma regra cuja única autoridade é um mandamento revelado, para um lugar e um tempo determinados, não entra no método dele.

A distinção de Sidgwick obriga a uma escolha. Ou a santidade do Sinai é moral, e a morte do animal é escandalosa; ou não é, e o versículo fala de um lugar onde, por alguns dias, as categorias da ética não se aplicam. A tradição judaica tendeu à segunda resposta: o perigo era da Presença e acabaria com ela. Sidgwick, que não comentou este texto, provavelmente veria aí uma regra fora da ética, e não um problema dela.

7. Aplicações Práticas

O versículo trata de uma situação única — um monte, alguns dias, uma Presença — e não se transforma em regra de conduta. Duas coisas, ainda assim, têm relação real com ele.

A primeira é o limite que vale também para quem o defende. Quem guarda uma regra costuma se dar o direito de passar por cima dela para punir quem a quebrou. O Sinai proíbe exatamente isso: o guarda não cruza, nem para prender. Em qualquer função de vigilância — de quem fiscaliza, de quem educa, de quem julga —, a pergunta do versículo continua útil: para fazer valer a regra, eu mesmo estou disposto a quebrá-la?

A segunda é a separação entre perigo e culpa. O animal morre sem culpa porque o perigo não pergunta pela intenção. Há situações assim fora do Sinai: um risco real não fica menor porque quem se expõe a ele está distraído ou tem boa vontade. Avisar com clareza, como o versículo avisa, é a parte que cabe a quem conhece o risco.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Alguém chegou a ser apedrejado no Sinai?

O texto não registra nenhum caso. O capítulo conta a advertência, os limites e a repetição da advertência (Êxodo 19:21-24), mas nenhuma execução. Não é possível saber se a lei nunca foi aplicada ou se o texto não se interessou por isso. O silêncio, num livro que registra com cuidado as revoltas do povo, inclina para a primeira hipótese, sem prová-la.

O que se fazia com o corpo?

Se ninguém podia tocar o transgressor vivo, também não podia tocá-lo morto. O corpo ficaria na encosta, dentro da área proibida, até que o chifre soasse. O versículo não trata disso, e nenhum dos comentaristas consultados enfrenta a pergunta diretamente; o Chizkuni chega perto quando lembra que o cadáver contamina o lugar onde cai.

Uma criança que se desgarrasse seria apedrejada?

O versículo diz "homem", e a Mekhilta estende a palavra à mulher; das crianças ninguém fala. Pela lógica do animal — morto sem culpa —, a idade não faria diferença. Pela lógica do resto da Torá, que não pune quem não tem idade para responder, faria. A pergunta mostra o quanto esta lei foi escrita para uma situação única, e não para a casuística de um tribunal.

A permissão de subir valia para mulheres?

Se "eles" é o povo inteiro, sim. Se "eles" são Arão, os filhos e os anciãos, como queria Samuel ben Hofni, a subida foi só de homens, e de alguns homens. A resposta depende da leitura do pronome, que o texto não fixa.

9. Conexão com Outros Textos

O chifre que soa longamente e o povo que sobe

Josué 6:5 — "Quando tocarem longamente o chifre de carneiro, e vocês ouvirem o som da trombeta, todo o povo dará um grande grito; o muro da cidade cairá, e o povo subirá, cada um em frente de si."

O único outro lugar da Bíblia com as três palavras deste versículo juntas: o chifre de carneiro, o toque prolongado e o verbo "subir". Em Jericó o povo sobe a uma cidade; no Sinai, a um monte. "Soar longamente o chifre e subir" parece ser uma fórmula para o sinal que libera o avanço.

A proibição repetida, com os animais

Êxodo 34:3 — "Ninguém suba com você, e ninguém seja visto em todo o monte; nem ovelhas nem bois pastem diante desse monte."

Na segunda vez em que Moisés sobe para receber as tábuas, a regra volta, e os animais com ela. O "seja animal, seja homem" do versículo 13 não era detalhe.

Os que sobem

Êxodo 24:1 — "E disse a Moisés: 'Subam ao SENHOR, você e Arão, Nadabe e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel, e adorem de longe.'"

O texto em que Samuel ben Hofni apoiou a leitura de "eles". Mesmo os escolhidos adoram "de longe".

O estranho que se aproxima

Números 1:51 — "Quando o tabernáculo tiver de partir, os levitas o desmontarão; quando tiver de acampar, os levitas o montarão. O estranho que se aproximar será morto."

A lógica do Sinai passa para o santuário portátil, com uma diferença: lá a regra é permanente; no Sinai tinha prazo.

Os que se aproximaram e morreram sem julgamento

Levítico 10:1-2 — "Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, puseram fogo neles e incenso por cima, e ofereceram diante do SENHOR um fogo estranho, que ele não lhes tinha ordenado. Então saiu fogo de diante do SENHOR e os devorou, e morreram diante do SENHOR."

Um dos dois casos (o outro é o rei Uzias, em 2 Crônicas 26) que o Chizkuni usa para perguntar se o "apedrejado ou flechado" do Sinai não seria uma execução vinda do alto.

O outro animal apedrejado

Êxodo 21:28 — "Se um boi chifrar um homem ou uma mulher, e a pessoa morrer, o boi certamente será apedrejado, e não se comerá a sua carne; mas o dono do boi será inocente."

A Torá apedreja um animal em mais um caso, e a comparação marca a diferença: o boi matou alguém; o animal do Sinai só pisou onde não podia.

O carneiro do monte Moriá

Gênesis 22:13 — "Abraão ergueu os olhos e viu atrás de si um carneiro preso pelos chifres num arbusto. Foi, pegou o carneiro e o ofereceu em holocausto no lugar de seu filho."

A tradição que Rashi recolhe faz deste chifre o chifre do Sinai.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Nenhuma mão tocará nele, mas será certamente apedrejado ou flechado; seja animal, seja homem, não viverá.’ Quando o chifre de carneiro soar longamente, eles subirão ao monte.”

Texto hebraico

לֹא־תִגַּע בּוֹ יָד כִּי־סָקוֹל יִסָּקֵל אוֹ־יָרֹה יִיָּרֶה אִם־בְּהֵמָה אִם־אִישׁ לֹא יִחְיֶה בִּמְשֹׁךְ הַיֹּבֵל הֵמָּה יַעֲלוּ בָהָר׃

Transliteração

lo-tigga bo yad, ki-saqol yissaqel o-yaroh yiyyareh; im-behemah im-ish lo yichyeh. bi-meshokh ha-yovel, hemmah ya'alu va-har.

Análise palavra por palavra

לֹא־תִגַּע — lo-tigga, "não tocará". O verbo naga, "tocar", no futuro, terceira pessoa do feminino, porque o sujeito, "mão", é feminino em hebraico. A negação lo com o futuro é a forma das proibições permanentes da lei ("não matarás"); aqui ela proíbe por alguns dias.

בּוֹ — bo, "nele". A preposição be, "em", com o sufixo da terceira pessoa do masculino singular. O hebraico tem dois candidatos masculinos no contexto, ha-har ("o monte") e o transgressor implícito no "todo aquele que tocar" do versículo anterior. A gramática não decide.

יָד — yad, "mão". Vem por último na frase, o que a destaca: nem uma mão.

כִּי־סָקוֹל יִסָּקֵל — ki-saqol yissaqel, "mas será certamente apedrejado". Ki, aqui, depois de uma negação, tem valor de oposição: "mas, ao contrário". O verbo saqal aparece duas vezes: primeiro no infinitivo, depois no Nifal (a forma passiva do verbo hebraico), futuro, terceira pessoa do masculino. O infinitivo posto antes do verbo conjugado é o modo hebraico de reforçar a ação — "apedrejar, será apedrejado" —, que o português traduz por um advérbio.

A raiz saqal tem uma particularidade: na forma intensiva, quer dizer o contrário, "tirar as pedras", "limpar um terreno de pedras". "Preparem o caminho, tirem as pedras" (Isaías 62:10) usa a mesma raiz. O hebraico diz com o mesmo verbo jogar pedras em alguém e limpá-las de um caminho.

אוֹ־יָרֹה יִיָּרֶה — o-yaroh yiyyareh, "ou flechado". O, "ou". O verbo yarah, "atirar, lançar", na mesma construção dobrada do anterior, também no Nifal. Ibn Ezra comenta a forma: o normal, nos verbos que começam por yod, seria trocar essa letra por vav no Nifal, e aqui ela se mantém. A explicação dele é que a troca deixaria a palavra igual a uma forma do verbo "temer" (a do Salmo 130:4, "para que sejas temido"). Os dois verbos de lançar do versículo, o deste e o do toque prolongado, já foram analisados no estudo de Êxodo 15:4 (yarah) e no de Gênesis 37:28 (mashakh).

אִם־בְּהֵמָה אִם־אִישׁ — im-behemah im-ish, "seja animal, seja homem". Im é "se"; repetido, forma o par "seja… seja", que abarca os dois extremos. Behemah é o animal de criação, o gado grande e pequeno, distinto de chayyah, o bicho do campo — distinção que a Mekhilta apaga ao estender a lei a ambos. Ish é "homem", o indivíduo.

לֹא יִחְיֶה — lo yichyeh, "não viverá". O verbo chayah, "viver", no Qal (a forma simples e ativa), futuro. Não é a fórmula jurídica habitual da pena de morte, mot yumat ("certamente será morto"), que o versículo 12 usou; é a constatação de que a vida não continuará. É esta expressão que Rabi Aquiba liga ao "não deixarás viver" de Êxodo 22:18, onde o mesmo verbo aparece na forma causativa.

בִּמְשֹׁךְ — bi-meshokh, "quando soar longamente". A preposição be, "em, quando", com o infinitivo de mashakh, "puxar, estender". O som é "puxado", esticado no tempo. A expressão completa reaparece em Josué 6:5, com a palavra "chifre" explícita.

הַיֹּבֵל — ha-yovel, "o chifre de carneiro". A palavra designa o carneiro e, por extensão, o chifre dele usado como instrumento. Ocorre poucas vezes com esse sentido: aqui, em Josué 6 (cinco vezes, sempre ligada a shofar ou qeren, "chifre") e, como nome do ano do jubileu, em Levítico 25 e 27 e em Números 36:4. A origem foi discutida desde a Antiguidade. A explicação do Talmude (Rosh Hashaná 26a) é a palavra árabe que Rabi Aquiba ouviu para "carneiro". Outra hipótese, moderna, liga yovel à raiz yaval, "conduzir, trazer" (Isaías 18:7; Salmo 68:29), como se o carneiro fosse o que conduz o rebanho; é plausível e não demonstrável.

A ABC traduz yovel por "chifre de carneiro" e o shofar dos versículos 16 e 19 por "trombeta", para que o leitor veja que o hebraico usa duas palavras.

הֵמָּה — hemmah, "eles". Pronome pessoal da terceira pessoa do plural, na forma longa. O verbo hebraico já traz a pessoa dentro dele; quando o pronome vem escrito, ele dá destaque: "eles, e não outros". É desse destaque que nasce a leitura de Samuel ben Hofni.

יַעֲלוּ — ya'alu, "subirão". O verbo alah, "subir", no futuro, terceira pessoa do plural. O futuro hebraico serve tanto para o que vai acontecer quanto para o que é permitido; Rashi o lê no segundo sentido, "poderão subir".

בָהָר — va-har, "ao monte". A preposição be, "em", com o artigo e har, "monte". Literalmente "no monte". A mesma preposição, no versículo 12, aparece no "guardem-se de subir ao monte" — a proibição e a permissão usam exatamente as mesmas palavras.

11. Conclusão

Com base no que foi exposto, Êxodo 19:13 leva a três conclusões.

A primeira: o perigo do Sinai, como o versículo o descreve, não é moral. Um animal que não entende nada morre como o homem que desobedece, e quem guarda a linha não pode cruzá-la nem para fazer justiça. O texto trata a santidade do monte como uma condição do lugar, não como uma avaliação de quem se aproxima — e quem ler o versículo como lição sobre o castigo do pecado precisa acrescentar o que ele não tem.

A segunda: essa condição tem fim. O versículo que proíbe é o mesmo que anuncia a licença, e a tradição rabínica tirou daí a ideia de que a santidade estava na Presença e não na pedra. Por isso a Mekhilta pôde negar que a proibição valesse para Siló ou para Jerusalém: o que vale no Sinai vale enquanto Deus está ali.

A terceira: o versículo deixa abertas as duas perguntas que mais importariam a quem estava ao pé do monte — quem pode subir, e quando. O chifre que daria a resposta não é ouvido no Êxodo, e o "eles" pode ser todos ou só alguns. As leituras de Rashi e de Samuel ben Hofni são ambas defensáveis; o texto, sozinho, não permite decidir.

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Êxodo 19:13

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Novo Testamento774 / 7.957 9,73%