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Êxodo 19:12

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✍️ Por Alberto Adriano·5 de outubro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 12 acessos
Marque limites para o povo ao redor, dizendo: ‘Guardem-se de subir ao monte e de tocar a sua extremidade. Todo aquele que tocar o monte certamente será morto.
Ao pé de uma montanha rochosa no deserto, uma fileira de pedras empilhadas forma uma linha contínua no chão, separando a encosta da planície; do lado de fora da linha, homens, mulheres e crianças em túnicas simples olham para o monte a poucos passos, sem atravessar.

Estudo


Marque limites para o povo ao redor, dizendo: ‘Guardem-se de subir ao monte e de tocar a sua extremidade. Todo aquele que tocar o monte certamente será morto.

1. Introdução

Deus manda Moisés traçar uma linha em volta do monte e avisar o povo: quem subir, ou só encostar na beira da montanha, morre. É a primeira vez que a Torá impõe a Israel a fórmula "certamente será morto", e o crime que ela pune não é matar nem roubar: é atravessar um limite de espaço. O versículo transforma o Sinai, por alguns dias, num santuário a céu aberto, com uma fronteira e um lado de dentro, desenho que o tabernáculo vai repetir depois em pano e madeira. Os comentaristas discutiram se a linha cercava o povo ou o monte, se a "extremidade" era o pé ou o cume, e o que, afinal, havia de tão perigoso num monte de pedra.

2. Contexto Histórico e Cultural

O recinto cortado

Separar um pedaço de terra para um deus e marcar a borda era prática comum no Mediterrâneo antigo. Os gregos chamavam esse espaço de témenos, palavra que vem do verbo témnein, "cortar": o recinto sagrado é, literalmente, o "recorte", o pedaço tirado do uso comum. Dentro dele ficavam o altar e, às vezes, um templo; a borda podia ser um muro, uma cerca ou apenas uma fila de pedras.

Quando não havia muro, havia o marco. Os gregos fincavam no chão pedras de limite, chamadas hóroi ("limites"), e algumas delas falam em primeira pessoa. Nas escavações da ágora de Atenas, a praça pública da cidade, apareceram marcos do fim do século VI antes de Cristo com a inscrição "sou o limite da ágora". A pedra não descreve o limite; ela é o limite e diz isso a quem passa.

Rashi (rabino francês do século XI) lê a palavra "dizendo" do nosso versículo de modo surpreendentemente parecido. Para ele, quem "diz" não é só Moisés: são os próprios marcos, que dizem ao povo "guardem-se de subir daqui em diante". A leitura não depende dos gregos, mas descreve a mesma coisa que eles faziam: um sinal no chão que fala por si e não precisa de guarda.

A diferença está no que fica do lado de dentro. O témenos grego era permanente e servia ao culto diário; o povo entrava nele para sacrificar e rezar. O limite do Sinai existe para que ninguém entre, e não tem culto nenhum do lado de dentro; marca um lugar onde Deus vai estar, não um lugar onde os homens o servem. A forma mais próxima, em Israel, só virá séculos depois, na balaustrada do Templo de Herodes com as suas placas de advertência, descritas no estudo de Êxodo 12:43.

As dez santidades da Mishná

A ideia de um espaço sagrado em camadas, que o Sinai inaugura, foi levada ao extremo na Mishná, a compilação da lei oral judaica fechada por volta do ano 200. O tratado Kelim (sobre a impureza dos objetos), no capítulo 1, parágrafos 6 a 9, anuncia "dez graus de santidade" — e a lista, curiosamente, tem onze lugares —, cada um mais santo que o anterior, cada um definido por quem não pode entrar nele.

A terra de Israel é mais santa que as outras terras; dentro dela, as cidades muradas; dentro destas, Jerusalém; dentro de Jerusalém, o monte do Templo, onde não entram mulheres e homens em certos estados de impureza; depois, a faixa em volta dos pátios, onde não entram os não judeus nem quem tocou um morto; depois, o pátio das mulheres; o pátio de Israel; o pátio dos sacerdotes, onde o israelita só entra para o sacrifício; o espaço entre o pórtico e o altar, vedado aos sacerdotes com defeito físico ou com o cabelo desgrenhado; o santuário, onde ninguém entra sem lavar mãos e pés; e o Santo dos Santos, onde só o sumo sacerdote entra, uma vez por ano, no Dia do Perdão.

A lista é uma escada de acessos, e cada degrau é definido por uma proibição de entrada. É o Sinai do versículo 12 multiplicado por dez e fixado em pedra. A Mishná não cita o Sinai nesse capítulo, mas o princípio é o mesmo: a santidade se mede pela distância que exige.

3. Análise Teológica do Versículo

"Marque limites para o povo ao redor"

O verbo vem da palavra hebraica para fronteira, e quer dizer "pôr fronteira". O objeto, no hebraico, é "o povo": Moisés deve pôr limites ao povo, em volta. Quatro versículos adiante, quando Moisés repetir a ordem a Deus, o objeto será outro: "marque limites ao redor do monte" (Êxodo 19:23). A linha cerca o povo ou o monte?

A pergunta já incomodava no século XII. Abraão ibn Ezra (rabino espanhol) conta, irritado, que um autor anterior, a quem chama de "o louco", resolveu a diferença dizendo que Moisés se enganou ao falar em Êxodo 19:23: queria dizer "o povo" e saiu "o monte". Ibn Ezra rejeita a ideia de um Moisés que erra a citação e lê as duas frases como a mesma ordem: põe-se a fronteira no monte, para que o povo não a ultrapasse. Quem seria esse autor é discutido; os estudiosos de Ibn Ezra propõem mais de um nome, entre eles o gramático Jonah ibn Janach, da Espanha muçulmana do século XI.

O Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) dá uma solução geográfica: a cerca separaria só o lado leste do acampamento, voltado para o monte. A Mekhilta (o comentário rabínico antigo ao Êxodo) já tinha fechado essa saída com a palavra "ao redor": não só a leste, mas em volta inteira.

Seja qual for a solução, o versículo 12 põe o povo como objeto: a primeira coisa que a fronteira faz é dizer até onde cada um pode ir.

O monte como santuário

A linha do versículo 12 é só a primeira. O capítulo e os seguintes vão desenhar, em torno do monte, uma estrutura de três níveis. O povo fica embaixo, "ao pé do monte" (Êxodo 19:17). Um grupo intermediário sobe um trecho: "subam ao SENHOR, você e Arão, Nadabe e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel, e adorem de longe; só Moisés se aproximará do SENHOR" (Êxodo 24:1-2). E Moisés sozinho vai ao alto, entra na nuvem e fica quarenta dias (Êxodo 24:18).

É a planta do tabernáculo antes do tabernáculo. No santuário que Israel vai construir, o povo fica no pátio; os sacerdotes entram no lugar santo; e no Santo dos Santos só entra o sumo sacerdote, uma vez por ano (Levítico 16:2). Três zonas, três graus de acesso, e uma pena para quem atravessa a linha que não é sua.

Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII, também chamado Ramban) formulou a ligação numa frase que ficou clássica, no começo do seu comentário à construção do tabernáculo (Êxodo 25): "o segredo do tabernáculo é que a glória que pousou abertamente sobre o monte Sinai pousasse sobre ele de modo escondido". O tabernáculo seria um Sinai portátil: a mesma presença, os mesmos limites, a mesma voz que fala a Moisés — agora dentro de cortinas e levada pelo deserto. Ramban aponta o paralelo verbal: a glória "pousou sobre o monte Sinai" (Êxodo 24:16), e a glória "encheu o tabernáculo" (Êxodo 40:34).

A leitura é teológica, e é das mais fecundas que o versículo recebeu. Ela explica por que as regras de acesso do santuário são tão parecidas com as do Sinai, e por que tantos estudiosos modernos, judeus e cristãos, descrevem o Sinai como o primeiro santuário de Israel. O Êxodo não diz isso com palavras; mostra pelo desenho.

"dizendo: 'Guardem-se'"

A Mekhilta lê o "dizendo" como encargo de repetir: o aviso não é só de Moisés para o povo, mas de cada um para o vizinho. Rashi, como se viu no item 2, faz falar os próprios marcos. As duas leituras transformam a fronteira em algo que o povo inteiro mantém, e não só um homem.

"Guardem-se" é uma fórmula de advertência solene, a mesma que o Deuteronômio usará contra o esquecimento, cujo alcance foi desenvolvido no estudo de Gênesis 24:6. A Mekhilta tira dela uma consequência jurídica: a frase constitui uma proibição formal, um "não farás", com a pena dita em seguida.

"de subir ao monte e de tocar a sua extremidade"

Duas proibições, em ordem decrescente de ousadia: subir, e nem sequer encostar. A Mekhilta, com o gosto rabínico pela exaustão, pergunta se seria permitido subir carregado numa liteira, sem pôr os pés no monte; e responde que não, porque "subir" proíbe qualquer modo de subida.

Que "extremidade" é essa? A palavra hebraica quer dizer ponta, fim, borda. Pode ser o cume, que é a ponta de cima, ou o pé, que é a borda de baixo. Rashi lê "até a borda": nem a parte mais baixa. A Septuaginta (a tradução grega, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) resolve com "qualquer parte dele"; a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, século IV), com "os seus limites". Todas as versões antigas entendem o mesmo: o que se proíbe não é chegar ao alto, é chegar ao monte. O primeiro centímetro da encosta já está do lado de dentro.

Ibn Ezra acrescenta que o toque proibido é o de qualquer parte do corpo, e não só da mão. A precisão importa porque o versículo seguinte vai falar de "mão".

"Todo aquele que tocar o monte certamente será morto"

A fórmula é a das leis capitais da Torá: "certamente será morto". Ela vai aparecer para quem fere alguém e o mata (Êxodo 21:12), para quem amaldiçoa pai ou mãe (Êxodo 21:17), e para quem trabalha no sábado: "todo aquele que fizer nele alguma obra certamente será morto" (Êxodo 31:14-15). No Êxodo, a primeira vez que ela é dirigida a Israel é aqui — antes do homicídio, antes do sábado — e o crime é tocar um lugar.

A sequência diz algo sobre como a Torá pensa o sagrado. A santidade no espaço (o monte) e a santidade no tempo (o sábado) recebem a mesma fórmula de morte que a vida humana. Não porque uma pedra valha uma vida, mas porque as três coisas são tratadas como intocáveis.

A forma verbal é passiva: "será morto", e não "morrerá". Isso supõe execução humana, e o versículo seguinte dirá como. Se a morte viria das mãos dos homens ou de outro lugar, e por que tocar o monte matava, são perguntas que a forma do verbo abre e que o capítulo responde de mais de uma maneira.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés — encarregado de traçar a linha e de anunciar a regra. É ele quem decide, na prática, onde passa a fronteira; o texto não dá medidas.

O povo — objeto da ordem ("marque limites para o povo") e destinatário do aviso. A regra vale para "todo aquele", e o versículo seguinte estende a pena aos animais.

O monte — chamado só de "o monte" neste versículo, logo depois de ter recebido o nome de monte Sinai. Não é sagrado por natureza: o texto o trata como lugar que se torna intocável enquanto Deus estiver sobre ele.

Os limites — o versículo não diz de que eram feitos. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, século XII) fala de sinais bem visíveis; Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) imagina uma linha traçada no chão, uma vala ou montes de pedras; Benson (Joseph Benson, metodista inglês do século XVIII), uma vala em volta do sopé. São suposições razoáveis para um acampamento no deserto, e nenhuma está no texto. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) lembra que, no monte que a tradição aponta, a encosta sobe abruptamente da planície, e o pé do monte já seria um limite visível.

A extremidade — a borda do monte, o ponto em que a planície acaba e a encosta começa. É ali que passa a proibição de tocar.

5. Pontos de Ensino

1. A santidade, aqui, se expressa como distância. O versículo não descreve o que há dentro do limite; descreve onde ele passa. Saber até onde se pode ir é a primeira coisa que o povo aprende do Sinai.

2. O limite protege o povo antes de proteger o monte. A ordem é "marque limites para o povo". O sagrado do Sinai é perigoso para quem se aproxima sem ser chamado, e a linha existe para que ninguém morra.

3. O Sinai é o primeiro santuário de Israel. Povo embaixo, alguns no meio, Moisés no alto: o desenho do tabernáculo e do Templo nasce aqui, num monte, antes de qualquer construção.

4. A primeira lei capital dirigida a Israel no Êxodo protege um espaço. Antes do homicídio e do sábado, a fórmula "certamente será morto" aparece para quem toca o monte. A Torá trata o sagrado com a mesma gravidade que a vida.

5. O limite é provisório. A proibição vale enquanto Deus está sobre o monte; o sinal que a suspende e o que isso diz sobre a santidade do lugar estão no estudo de Êxodo 19:13.

6. Aspectos Filosóficos

Por que o sagrado não se toca?

O versículo não explica por que tocar o monte mata. Diz apenas que mata. Para o leitor moderno, a regra parece pertencer a um mundo de tabus, sem relação com a experiência de hoje. Um filósofo inglês do fim do século XX dedicou boa parte da obra a mostrar o contrário: que a ideia de algo intocável continua no centro da vida humana, mesmo de quem não crê.

Roger Scruton (1944-2020), professor em Londres e em Boston, autor de dezenas de livros sobre estética, política e religião, tratou do tema sobretudo em O rosto de Deus (2012, a partir de conferências dadas na Escócia em 2010) e em A alma do mundo (2014). A tese central é que o sagrado não é, antes de tudo, uma crença sobre o além; é uma experiência que temos aqui, diante de certas coisas, lugares e pessoas que se recusam a ser tratados como objetos de uso.

Para Scruton, o mundo pode ser visto de dois modos. No primeiro, tudo é objeto: coisas que se medem, se usam, se trocam. No segundo, algumas coisas nos olham de volta — o rosto de uma pessoa é o exemplo dele — e exigem ser tratadas como alguém, não como algo. O sagrado é o que pertence a esse segundo modo de modo extremo: aquilo que não pode ser usado, apropriado ou consumido sem que alguma coisa se quebre. E Scruton insiste num fenômeno correlato: a profanação. Há, no ser humano, um impulso de rebaixar o que está acima, de pôr a mão justamente no que não deve ser tocado, de reduzir a coisa ao corpo e o rosto à carne. A fronteira do sagrado existe contra esse impulso.

O que isso ilumina no versículo

O versículo proíbe precisamente o gesto de apropriação: subir, tocar. Não proíbe olhar o monte — o povo vai olhar o tempo todo —, mas pôr a mão nele. Na linguagem de Scruton, o monte, enquanto Deus está sobre ele, deixa de ser objeto: não pode ser escalado como um monte qualquer, nem tocado como uma pedra qualquer. A proibição de tocar é o modo de dizer que o monte, naqueles dias, não está disponível.

E Scruton ajuda a entender por que a regra precisa existir. Se o sagrado inspirasse só reverência, bastaria anunciá-lo. Mas o Sinai, como o próprio capítulo vai mostrar, desperta também o desejo de avançar "para ver" (Êxodo 19:21). A fronteira é desenhada contra a curiosidade e contra a ousadia, as duas formas do impulso que Scruton chama de profanação.

Há ainda um ponto em que o versículo confirma a intuição dele com uma precisão curiosa. Para Scruton, o sagrado não é uma propriedade física da coisa: um altar é feito de pedra comum, e o que o torna sagrado é a relação em que está. O Sinai é exatamente isso: um monte de pedra comum, que se torna intocável por alguns dias e volta a ser um monte depois.

Onde o modelo não alcança

A filosofia de Scruton é, em boa parte, uma estética do sagrado: ele escreve sobre igrejas, música, paisagens e rostos, sobre o sentimento de reverência que essas coisas despertam. O versículo não fala de sentimento; fala de pena de morte. O perigo do Sinai não é estragar uma experiência — é morrer. Há no texto uma violência do sagrado que a filosofia de Scruton, conservadora e reverente, suaviza: o que o Êxodo descreve não é só algo que não se deve tocar, mas algo que destrói quem toca.

E há o limite de sempre: o versículo não diz por que tocar o monte mata. A leitura que vê na fronteira uma defesa contra o impulso de profanar é filosofia sobre o texto, plausível e iluminadora, e não o que o texto afirma.

7. Aplicações Práticas

Nem tudo está disponível. O versículo põe um limite ao que se pode alcançar, tocar, possuir. Numa cultura que trata quase tudo como acessível — informações, lugares, pessoas —, a ideia de que algumas coisas não são para ser tomadas tem aplicação direta: a intimidade de alguém, o luto de outra família, um lugar de memória.

Limites claros protegem. A ordem é marcar a linha de modo visível e avisar todos. Regras que valem para todos e que todos conhecem — numa casa, numa escola, numa igreja — evitam que alguém se machuque por não saber até onde podia ir.

Os limites também se mantêm entre vizinhos. Na leitura da Mekhilta, cada um avisava o outro. Preservar o que é respeitável numa comunidade não é tarefa só de quem a dirige.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se o limite era para proteger, por que a pena é a morte, e não apenas o afastamento?

O texto não justifica. Uma leitura é que a morte não é castigo, mas consequência: quem atravessa a linha fica exposto a um perigo que ele mesmo escolheu. Outra é que a pena é dissuasiva e existe para que ninguém a aplique. O capítulo mostra o perigo de aproximar-se do sagrado sem preparo, tema que a Bíblia retoma em casos como o de Uzá, desenvolvido no estudo de Gênesis 28:17. O versículo, sozinho, não decide entre castigo e consequência.

Os limites valiam também à noite?

O versículo não fala de horário. Se a linha fosse só um traço no chão, seria difícil enxergá-la no escuro de um acampamento no deserto. É uma das razões pelas quais comentaristas imaginaram valas ou montes de pedra, mas o texto não diz.

Moisés podia atravessar a linha. Por que ele não morria?

Porque era chamado. O capítulo inteiro distingue quem sobe por iniciativa própria de quem sobe porque Deus o chama (Êxodo 19:20). O limite não separa pessoas santas de pessoas impuras; separa quem foi chamado de quem não foi.

A proibição incluía os anciãos e os que depois seriam sacerdotes?

No versículo 12, sim: a regra é para "todo aquele". As exceções — quem pode subir, até onde, e quando — vão sendo abertas ao longo do capítulo e do capítulo 24. O versículo 12 traça a linha para todos antes de abrir qualquer porta.

9. Conexão com Outros Textos

A primeira fronteira no mesmo monte

Êxodo 3:5 — "E Deus disse: 'Não se aproxime daqui. Tire as sandálias dos pés, porque o lugar em que você está é terra santa.'"

Junto à sarça, o limite foi dito a um homem só. No Sinai, vira linha no chão para um povo inteiro. A relação entre as duas cenas foi comentada no estudo de Êxodo 3:5.

A ordem repetida

Êxodo 19:23 — "Moisés disse ao SENHOR: 'O povo não poderá subir ao monte Sinai, porque tu mesmo nos advertiste, dizendo: Marque limites ao redor do monte e santifique-o.'"

A mesma ordem citada por Moisés, com o monte no lugar do povo — a diferença que Ibn Ezra discutiu.

As três zonas, de novo

Êxodo 40:35 — "Moisés não podia entrar na tenda do encontro, porque a nuvem pousava sobre ela, e a glória do SENHOR enchia o tabernáculo."

No fim do Êxodo, o próprio Moisés fica do lado de fora do novo Sinai, como o povo ficou do lado de fora do monte. É o versículo que sustenta a leitura de Ramban.

O monte do templo, todo santo

Ezequiel 43:12 — "Esta é a lei do templo: sobre o cume do monte, todo o seu território ao redor será santíssimo. Esta é a lei do templo."

Ezequiel usa as duas palavras do nosso versículo, "território" (a palavra de fronteira) e "ao redor", para o monte do templo futuro. Ali, porém, a santidade não fica dentro de um limite: cobre o monte inteiro, e é declarada como lei permanente.

A mesma fórmula, para o tempo

Êxodo 31:14 — "Guardem o sábado, porque é santo para vocês; quem o profanar certamente será morto; porque qualquer que nele fizer alguma obra será eliminado do meio do seu povo."

O que o Sinai faz com um espaço, o sábado faz com um dia: torna intocável, com a mesma pena.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Marque limites para o povo ao redor, dizendo: ‘Guardem-se de subir ao monte e de tocar a sua extremidade. Todo aquele que tocar o monte certamente será morto.

Texto hebraico

וְהִגְבַּלְתָּ אֶת־הָעָם סָבִיב לֵאמֹר הִשָּׁמְרוּ לָכֶם עֲלוֹת בָּהָר וּנְגֹעַ בְּקָצֵהוּ כׇּל־הַנֹּגֵעַ בָּהָר מוֹת יוּמָת׃

Transliteração

ve-higbalta et-ha-am saviv lemor: hishamru lakhem alot ba-har u-negoa be-qatsehu; kol-ha-noge'a ba-har mot yumat.

Análise palavra por palavra

וְהִגְבַּלְתָּ — ve-higbalta, "e marque limites". Verbo gaval, aqui na forma causativa Hifil (a forma do verbo hebraico que significa "fazer acontecer"), com o "e" de continuação que mantém o tom de ordem. O verbo é formado a partir do substantivo gevul, "fronteira, território": higbil é "pôr fronteira". Na forma causativa, só aparece aqui e em Êxodo 19:23; na forma simples, "fazer divisa", aparece poucas vezes, como em Josué 18:20. A palavra de fronteira, gevul, é das mais comuns; o verbo "pôr fronteira" é praticamente exclusivo do Sinai.

אֶת־הָעָם — et-ha-am, "o povo". A partícula et marca o objeto direto: o povo é o objeto do verbo "pôr fronteira". Em Êxodo 19:23, o objeto será "o monte" (item 3).

סָבִיב — saviv, "ao redor". Advérbio da raiz savav, "girar, cercar". Indica um círculo completo; é a palavra que a Mekhilta usa para recusar a ideia de uma cerca só de um lado.

לֵאמֹר — lemor, "dizendo". Infinitivo de amar, "dizer", com a preposição le. Normalmente só introduz uma fala; aqui, por estar logo depois dos limites, permitiu a leitura de Rashi em que os marcos "dizem".

הִשָּׁמְרוּ לָכֶם — hishamru lakhem, "guardem-se". Imperativo plural do verbo shamar, "guardar, vigiar", na forma Nifal (a forma passiva ou reflexiva), seguido de lakhem, "para vocês", que reforça o reflexivo. A fórmula foi analisada no estudo de Gênesis 24:6.

עֲלוֹת בָּהָר — alot ba-har, "de subir ao monte". Infinitivo de alah, "subir". A preposição é be, "em", e não el, "para": literalmente "subir no monte", pôr-se sobre a encosta. A proibição não é ir em direção ao monte, mas estar nele.

וּנְגֹעַ — u-negoa, "e de tocar". Infinitivo do verbo naga, "tocar, alcançar", cujo campo — do toque físico ao contato sexual — foi estudado em Gênesis 26:11.

בְּקָצֵהוּ — be-qatsehu, "a sua extremidade". Qatseh, "ponta, fim, borda", com o sufixo "dele" e a preposição be, que com o verbo "tocar" indica o ponto tocado. A palavra serve para as duas pontas de qualquer coisa: a ponta do cajado (Juízes 6:21), a extremidade da terra (Deuteronômio 28:49), o limite de um território. Daí a dúvida entre pé e cume.

כׇּל־הַנֹּגֵעַ בָּהָר — kol-ha-noge'a ba-har, "todo aquele que tocar o monte". Ha-noge'a é particípio com artigo: "o que toca", "quem quer que toque". Kol, "todo", universaliza: sem exceção de pessoa.

מוֹת יוּמָת — mot yumat, "certamente será morto". O verbo mut, "morrer", aparece duas vezes: primeiro na forma de infinitivo, que no hebraico intensifica (daí "certamente"), e depois na forma Hofal, passiva da causativa: "será feito morrer", "será executado". Não é "morrerá", mas "será morto" por alguém. É a fórmula das leis capitais de Êxodo 21 e 31.

As versões antigas

A Septuaginta (a tradução grega feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) traduz "marque limites" por aphorieîs, "separarás", verbo grego formado a partir de hóros, "limite" — a mesma palavra das pedras de fronteira gregas. Traduz "tocar a sua extremidade" por "tocar alguma parte dele", e "certamente será morto" por "terminará em morte", fórmula que deixa de dizer quem executa. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, século IV) escreve constitues terminos, "estabelecerás limites" — terminus, em latim, era também o nome do deus romano dos marcos de fronteira.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, a primeira conclusão é que o Sinai, nos dias da revelação, funciona como um santuário: tem uma linha, um lado de dentro, graus de acesso e uma pena para quem entra sem ser chamado. O tabernáculo e o Templo vão herdar esse desenho, e a leitura de Ramban, que vê no tabernáculo um Sinai levado pelo caminho, tem no versículo 12 o seu ponto de partida.

A segunda é que o limite é traçado primeiro em função do povo. A ordem é "marque limites para o povo", e a pergunta que ela responde não é "o que há no monte?", mas "até onde vocês podem ir?". A fronteira é aviso antes de ser castigo.

A terceira é que a Torá começa as suas leis capitais dirigidas a Israel por um espaço, e não por um crime contra alguém. Tocar o monte, profanar o sábado e matar recebem a mesma fórmula. O versículo não explica por que tocar mata; o que ele estabelece é que há coisas que não se tocam, e que o povo precisa aprender isso antes de ouvir qualquer mandamento.

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