O SENHOR desceu sobre o monte Sinai, ao alto do monte; e o SENHOR chamou Moisés ao alto do monte, e Moisés subiu.
1. Introdução
O SENHOR desce sobre o monte Sinai, ao alto do monte, chama Moisés para lá, e Moisés sobe. Três verbos de movimento, um em cada direção, numa frase sem fala nenhuma. O versículo 18 já tinha dito que o SENHOR "tinha descido", e a repetição da descida levanta a pergunta sobre a ordem do relato. A outra pergunta é mais antiga: como pode descer quem está em toda parte? O Talmude respondeu com uma regra curiosa — Deus desceu, mas parou a dez palmos do chão —, e a resposta foi parar na lei sobre a altura mínima da cabana da festa de Sucot.
2. Contexto Histórico e Cultural
Na festa de Sucot (a festa das Cabanas, celebrada no outono), as famílias judaicas comem e, quando possível, dormem durante sete dias numa cabana provisória coberta de ramos. A primeira regra do tratado do Talmude dedicado a essa festa é a da altura: a cabana não pode ter mais de vinte côvados nem menos de dez palmos. Um palmo, na medida rabínica, é a largura de quatro dedos, cerca de oito a dez centímetros; dez palmos dão perto de um metro. É nessa discussão de medidas que Êxodo 19:20 aparece.
Sukkah 5a: os dez palmos
No Talmude Babilônico (a grande compilação de debates dos mestres judeus da Babilônia, fechada por volta do ano 500), tratado Sukkah, folha 5a, os mestres procuram de onde vem o mínimo de dez palmos. Uma das respostas cita um ensinamento de Rabi Yossi, mestre do século II: "A presença divina nunca desceu aqui embaixo, e Moisés e Elias nunca subiram ao alto, como está dito: 'Os céus são os céus do SENHOR, e a terra ele a deu aos filhos do homem' (Salmo 115:16)." Céu e terra são dois domínios. E onde começa o domínio de cima? A dez palmos do chão. Uma cabana mais baixa que isso não chega a formar um espaço próprio.
O Talmude não deixa a afirmação passar sem objeção, e a primeira objeção é o nosso versículo: "Mas não está escrito: 'O SENHOR desceu sobre o monte Sinai'?" Resposta: desceu, mas ficou dez palmos acima. E "os pés dele se porão naquele dia sobre o monte das Oliveiras" (Zacarias 14:4)? Também dez palmos acima. E Moisés, que "subiu a Deus" (Êxodo 19:3)? Ficou dez palmos abaixo. E Elias, que "subiu num redemoinho ao céu" (2 Reis 2:11)? Também abaixo da linha.
A solução é estranha à primeira vista e muito precisa. O Talmude não nega o versículo: aceita que houve descida e subida. Mas fixa entre o divino e o humano uma faixa que nenhum dos dois atravessa. O encontro do Sinai acontece numa distância mínima, e essa distância tem medida. A lei da cabana de Sucot carrega desde então, para quem a estuda, a memória de que Deus e Moisés se aproximaram sem se tocar.
A Mekhilta: o céu estendido como colcha
A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, por volta do século III), tratado Bachodesh, seção 4, guarda duas respostas para a mesma pergunta. A primeira começa por uma aparente contradição dentro do Êxodo: aqui o SENHOR "desce sobre o monte"; em Êxodo 20:22 ele diz "vocês viram que eu falei com vocês do céu". Como as duas coisas são verdadeiras? A Mekhilta responde que Deus inclinou os céus — os de baixo e os mais altos — e os estendeu sobre o cume do monte, "como quem estende uma colcha sobre a cama", e a glória desceu sobre eles. Deus falou do céu, e o céu estava sobre o monte. A imagem é doméstica, como a do barril no versículo 17: a colcha posta sobre a cama, o céu posto sobre a montanha. A Mekhilta apoia a leitura em Isaías 64:1: "Ah, se você rasgasse os céus e descesse, e os montes tremessem diante de você!"
A segunda resposta é a de Rabi Yossi, a mesma do Talmude: nem a glória desceu, nem Moisés subiu ao céu. O que o versículo diz, para ele, é que Deus chamou Moisés do alto do monte, e Moisés subiu até onde podia.
A leitura dos filósofos
Mil anos depois, a mesma pergunta foi respondida em outro vocabulário. Maimônides (Moisés ben Maimon, filósofo e rabino nascido em Córdova, 1138-1204), no Guia dos Perplexos, parte I, capítulo 10, dedica um capítulo aos verbos "subir" e "descer". Quando aplicados a Deus, diz ele, não indicam deslocamento, e sim manifestação: Deus "desce" quando a sua presença se faz conhecer num lugar, e "sobe" quando ela se retira. Entre os exemplos que ele dá está este versículo, ao lado de Êxodo 19:11. É a solução que o Talmude e a Mekhilta tinham procurado com imagens — os dez palmos, a colcha —, agora dita como regra de linguagem.
3. Análise Teológica do Versículo
"O SENHOR desceu sobre o monte Sinai"
O leitor atento estranha a frase. Dois versículos antes, o texto já dizia que o monte fumegava "porque o SENHOR tinha descido sobre ele em fogo" (Êxodo 19:18). Como ele desce de novo?
Primeira leitura: não é uma segunda descida, é a retomada da narrativa. O versículo 18 começou com o sujeito na frente, o que no hebraico interrompe a sequência e descreve um estado; o 19 também. O 20 volta à forma narrativa e conta o acontecimento que os dois anteriores descreviam. É assim que Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) leem: um único movimento, primeiro descrito pelo efeito, depois narrado pelo fato.
Segunda leitura: houve duas etapas. O Or ha-Chaim (“A luz da vida”, comentário de Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII), que aceita a regra dos dez palmos do Talmude, entende que a primeira descida foi "sobre o monte", até a distância mínima, e a segunda precisa onde: "ao alto do monte". E arrisca uma imagem: quando Deus começou a descer, a montanha começou a tremer e a se erguer na direção dele, "como o servo que corre ao encontro do senhor quando este se aproxima". A montanha teria subido antes que Deus chegasse ao seu antigo cume.
Terceira leitura: a frase está fora do lugar, ou vem de outro relato. A Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa), citando o alemão Bruno Baentsch, sugere que o versículo 18 tenha estado originalmente depois da primeira metade do 20; outros estudiosos veem aqui o ponto de encontro de duas narrativas da mesma cena. Essa leitura, com o seu preço, pertence ao estudo das idas e vindas de Moisés no capítulo, em Êxodo 19:24.
As três leituras não se excluem inteiramente, e nenhuma é imposta pelo texto. A primeira é a que menos acrescenta: pede só que se aceite um modo hebraico de contar, em que a descrição vem antes do fato que a produz.
"ao alto do monte"
No versículo 18, a fumaça cobria "todo o monte". Aqui o SENHOR desce "ao alto do monte", ao cume, literalmente "à cabeça do monte". A presença que envolvia a montanha inteira se concentra num ponto. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) distingue os lugares: a glória está no alto; Moisés, até aqui, estava num lugar mais baixo, reservado para ele; o povo, embaixo. A expressão se repete na mesma frase — Deus desce "ao alto do monte", chama Moisés "ao alto do monte" —, e a repetição marca o ponto exato onde os dois vão se encontrar.
O cume é também o lugar mais exposto da cena. O povo vê a montanha inteira, mas o alto fica perdido na nuvem. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII) lê o chamado justamente por isso: para que Israel visse a que altura Moisés chegava, "até o alto do monte, onde estava a glória de Deus".
"e o SENHOR chamou Moisés"
É o segundo chamado do capítulo. No primeiro, "o SENHOR o chamou do monte" (Êxodo 19:3): a voz vinha de lá até Moisés. Agora, chama Moisés "ao alto do monte": a voz o puxa para cima. Entre um e outro estão os limites do versículo 12, que proíbem o povo de subir e de tocar o monte. O chamado abre uma exceção pessoal à proibição coletiva, e só Deus pode abri-la.
Ainda não há palavra. O SENHOR chama, mas o texto não diz o que ele disse ao chamar. A primeira frase registrada depois da subida será, no versículo seguinte, a ordem de descer.
"e Moisés subiu"
Duas palavras no hebraico, nenhuma reação. Moisés não responde, não pergunta, não hesita; sobe. É o mesmo Moisés que, diante da sarça, cobriu o rosto com medo de olhar (Êxodo 3:6), e que levantou cinco objeções, entre os capítulos 3 e 4, antes de aceitar a missão. No Sinai, chamado ao alto, ele obedece sem uma palavra.
E logo terá de descer. O SENHOR o chama ao cume e, na frase seguinte, manda que volte ao povo para repetir uma advertência. O texto não mede a altura que ele alcançou nem diz quanto tempo ficou; diz só que estava lá em cima quando recebeu a ordem de voltar.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O SENHOR
Sujeito de dois dos três verbos do versículo, e nomeado duas vezes pelo nome próprio. Depois do "Deus" que respondia no versículo 19, o texto volta ao nome. Ele desce e chama; não fala ainda.
Moisés
Objeto do chamado e sujeito do último verbo. Sobe sozinho; Arão só será incluído na subida em Êxodo 19:24. A partir deste versículo, Moisés passa a ocupar o lugar mais alto a que um ser humano chega no capítulo.
O monte Sinai e o seu cume
"O alto do monte", em hebraico "a cabeça do monte", é o ponto onde a presença se concentra. Na tradição que identifica o Sinai com o Jebel Musa, o cume tem uma pequena capela cristã e uma pequena mesquita, lado a lado, ambas reconstruídas sobre construções antigas; Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII), citando um viajante do século XVI, diz que o topo mal tinha trinta pés de circunferência, cerca de nove metros. A Bíblia não dá nenhuma dessas medidas.
O povo
Ausente da frase. Continua ao pé do monte, onde tomou posição no versículo 17, e não vê o que acontece no alto, coberto pela nuvem. O próximo versículo é sobre ele.
O acontecimento
A descida anunciada para o terceiro dia (Êxodo 19:11) narrada como fato, seguida da primeira subida de Moisés ao cume no dia da teofania. Para o Talmude, em Sukkah 5a, é também o lugar em que se mede a menor distância possível entre o céu e a terra.
5. Pontos de Ensino
1. Os dois se movem. Deus desce, Moisés sobe. O encontro do Sinai não acontece num lugar onde um dos dois já estava; acontece no meio do caminho de ambos, no alto do monte.
2. O texto fala de Deus com verbos de corpo, e a tradição não os apagou. O Talmude, a Mekhilta e Maimônides explicaram "descer" cada um a seu modo, mas nenhum corrigiu o texto. Ônquelos trocou a palavra na tradução; o hebraico continua dizendo "desceu".
3. A proximidade tem limite. Na leitura de Sukkah 5a, Deus parou a dez palmos e Moisés ficou abaixo da linha. A ideia de que até o encontro mais íntimo da Bíblia guarda uma distância vale mais do que a medida exata.
4. A ordem do relato nem sempre é a ordem dos fatos. O versículo 18 descreve o efeito da descida antes de o versículo 20 a narrar. Ler bem a narrativa hebraica é saber reconhecer quando ela para para descrever e quando retoma para contar.
5. Quem é chamado ao alto é mandado de volta. Moisés sobe sem uma palavra e, logo em seguida, recebe ordem de descer até o povo. A subida não o separa do povo; prepara a volta.
6. Aspectos Filosóficos
Se Deus não tem corpo nem lugar, o que quer dizer "o SENHOR desceu"? A resposta clássica — o verbo é figura, indica manifestação e não movimento — resolve o versículo. Mas deixa uma pergunta maior atrás de si: se tudo o que se diz de Deus em palavras humanas é figura, o que sobra de verdadeiro para dizer? Um judeu lituano do século XVIII levou essa pergunta até o fim.
Salomon Maimon (1753-1800) nasceu numa aldeia da Lituânia, recebeu a formação tradicional do Talmude, foi casado aos onze anos e, adolescente, descobriu o Guia dos Perplexos de Maimônides. A admiração foi tanta que, mais tarde, adotou o sobrenome "Maimon" em homenagem a ele. Deixou a família, chegou a Berlim quase mendigando, e em poucos anos se tornou um dos leitores mais agudos de Kant: o próprio Kant escreveu que nenhum dos seus críticos o tinha entendido tão bem quanto "o senhor Maimon". Publicou em 1791 um comentário em hebraico à primeira parte do Guia, chamado Givat ha-Moreh (“A colina do Mestre”), e em 1792-1793 uma autobiografia em alemão que é um dos grandes documentos da passagem do mundo judaico tradicional para a filosofia europeia. A primeira parte do Guia, que ele comentou, é exatamente a que trata dos verbos de corpo aplicados a Deus — entre eles "subir" e "descer".
O princípio de Maimônides — a Torá fala na linguagem dos homens, e os verbos de percepção e de movimento aplicados a Deus são figuras — já está exposto no estudo de Êxodo 12:13. O que Maimon acrescenta é o passo seguinte.
Para Maimon, a diferença entre o intelecto humano e o divino não é de natureza, e sim de grau. Um intelecto infinito produziria por si mesmo tudo o que conhece: nada lhe seria dado de fora. O intelecto humano é uma versão limitada desse intelecto, e por isso recebe de fora uma parte do que conhece — as sensações, o mundo, o que não escolheu. O conhecimento humano cresce na medida em que transforma o dado em compreendido, sem nunca chegar ao fim.
Lido a partir disso, o problema da "descida" muda de lugar. Não se trata de saber se Deus se deslocou, mas de como o infinito se faz presente ao finito. E a resposta de Maimon é cética: nós sabemos que o finito recebe alguma coisa do infinito, mas não sabemos como — da mesma forma que, na crítica que ele dirigiu a Kant, não sabemos com que direito aplicamos as nossas categorias àquilo que nos é dado. A ligação entre os dois lados existe e não se deixa demonstrar.
As leituras rabínicas do versículo, no item 2, chegam por outro caminho a um lugar parecido. O Talmude afirma a descida e, ao mesmo tempo, mantém dez palmos entre Deus e o chão: há contato e há uma faixa que não se atravessa. A Mekhilta estende os céus sobre o monte como uma colcha: Deus fala do céu, e o céu foi trazido para baixo. Nas duas imagens, a presença chega, mas o modo como chega fica protegido por uma figura. Maimon diria que a figura é honesta justamente porque não finge explicar.
O limite precisa ficar claro. Maimon não escreveu sobre Êxodo 19:20 nos textos aqui citados, e a sua filosofia é sobre o conhecimento, não sobre a leitura da Bíblia; a aproximação é leitura do comentarista. O versículo, além disso, não é filosofia: diz que o SENHOR desceu, chamou e que Moisés subiu, e não se preocupa com o que isso exige de uma teoria do conhecimento. Mas a pergunta de Maimon — o que resta quando se reconhece que toda palavra sobre Deus é figura — é a mesma que os mestres judeus enfrentavam quando liam "desceu" e se recusavam tanto a apagar o verbo quanto a tomá-lo ao pé da letra.
7. Aplicações Práticas
Responda ao chamado e volte
Moisés é chamado ao alto e, logo depois, mandado de volta ao povo com uma tarefa. Quem recebe um lugar de destaque — uma promoção, um convite, uma posição de confiança — costuma tratar a subida como chegada. O versículo mostra a subida como passagem: o alto do monte é o lugar onde Moisés recebe o que precisa levar para baixo.
Proximidade com distância
A leitura do Talmude — o encontro mais próximo, mas com dez palmos entre um e outro — vale para as relações humanas mais intensas. Pais e filhos, mestres e alunos, casais: a proximidade que respeita uma distância mínima dura mais do que a que pretende eliminar toda diferença.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se Deus "desceu", ele estava antes em algum lugar mais alto?
O texto usa a linguagem de quem imagina Deus no céu, acima do mundo, e essa linguagem é constante na Bíblia hebraica. Mas o próprio Êxodo a tensiona: Deus desce sobre o monte e, no capítulo seguinte, diz que falou "do céu" (Êxodo 20:22). A Mekhilta viu a tensão e a resolveu com a imagem dos céus estendidos sobre o monte. O texto não oferece uma doutrina do lugar de Deus; usa a de "em cima" e "embaixo" porque é a que o ouvinte entende.
Por que o Talmude usou este versículo para uma lei sobre cabanas?
Porque o raciocínio jurídico precisava de uma fronteira entre dois espaços, e a fronteira mais alta que se podia imaginar era a que separa o céu da terra. Se até no Sinai Deus parou a dez palmos, dez palmos é a medida em que um espaço se separa de outro. O argumento é mais engenhoso do que convincente, e o próprio Talmude, na mesma página, deriva a mesma medida também da altura da arca da aliança com a sua tampa: nove palmos mais um.
Moisés subiu até o cume naquele momento?
O versículo diz que sim. Nachmânides, porém, entende que Moisés só chegou ao alto, à "escuridão espessa onde estava Deus", depois da entrega dos mandamentos (Êxodo 20:21), e que antes disso ficava num lugar intermediário da encosta, reservado a ele. A leitura dele não sai deste versículo; sai da tentativa de harmonizar a sequência dos capítulos 19, 20 e 24.
9. Conexão com Outros Textos
A série das descidas
Gênesis 11:5 — "O SENHOR desceu para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens estavam construindo."
A primeira descida de Deus na Bíblia, para ver uma torre construída para chegar ao céu. Lá os homens querem subir e Deus desce para dispersá-los; no Sinai, Deus desce e chama um homem para subir.
Gênesis 18:21 — "Descerei agora para ver se de fato agiram conforme o clamor que chegou até mim; e, se não, eu o saberei."
A descida para verificar. O estudo de Gênesis 18:21 reúne a série inteira das descidas divinas e a leitura dos tradutores antigos que trocaram "descer" por "revelar-se".
Êxodo 3:8 — "Por isso desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, a uma terra que mana leite e mel — ao lugar do cananeu, do heteu, do amorreu, do perizeu, do heveu e do jebuseu."
No mesmo monte, na sarça, Deus anuncia a descida para libertar. A promessa de que o povo serviria a Deus "neste monte" (Êxodo 3:12) se cumpre na descida do versículo 20.
Êxodo 34:5 — "O SENHOR desceu na nuvem, ficou ali com ele e proclamou o nome do SENHOR."
A outra descida sobre o Sinai, depois do bezerro de ouro, para renovar a aliança. Lá ele desce "na nuvem" e fica com Moisés; o povo já não está ao pé do monte.
Números 11:25 — "Então o SENHOR desceu na nuvem e lhe falou; tirou do espírito que estava sobre ele e o pôs sobre os setenta anciãos."
A descida que reparte. No Sinai, a descida separa Moisés do povo; no deserto, ela estende aos anciãos uma parte do espírito de Moisés.
O desejo de que Deus desça de novo
Isaías 64:1 — "Ah, se você rasgasse os céus e descesse, e os montes tremessem diante de você!"
O versículo que a Mekhilta cita ao comentar Êxodo 19:20. O profeta pede uma repetição do Sinai: céus abertos, descida, montes que tremem.
Salmo 144:5 — "SENHOR, incline os seus céus e desça; toque os montes, e eles fumegarão."
O salmo usa o verbo de "inclinar os céus", o mesmo da imagem da Mekhilta, e junta a descida à fumaça do monte. Um resumo poético de Êxodo 19:18-20.
Os dois domínios
Salmo 115:16 — "Os céus são os céus do SENHOR, mas a terra ele a deu aos filhos dos homens."
O versículo de Rabi Yossi, na Mekhilta e no Talmude: céu e terra são domínios distintos, e nem a descida de Deus nem a subida de Moisés os confundem.
Moisés sobe de novo
Êxodo 24:15-18 — "Moisés subiu ao monte, e a nuvem cobriu o monte. A glória do SENHOR pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu por seis dias; no sétimo dia, chamou Moisés do meio da nuvem. O aspecto da glória do SENHOR era como fogo devorador no alto do monte, aos olhos dos filhos de Israel. Moisés entrou no meio da nuvem e subiu ao monte; e Moisés ficou no monte quarenta dias e quarenta noites."
A subida que o versículo 20 apenas começa. O vocabulário é o mesmo — glória, fogo, alto do monte, chamado —, e agora Moisés entra na nuvem e fica.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
O SENHOR desceu sobre o monte Sinai, ao alto do monte; e o SENHOR chamou Moisés ao alto do monte, e Moisés subiu.
Texto hebraico
וַיֵּ֧רֶד יְהֹוָ֛ה עַל־הַ֥ר סִינַ֖י אֶל־רֹ֣אשׁ הָהָ֑ר וַיִּקְרָ֨א יְהֹוָ֧ה לְמֹשֶׁ֛ה אֶל־רֹ֥אשׁ הָהָ֖ר וַיַּ֥עַל מֹשֶֽׁה׃
Transliteração
va-yered YHWH al-har Sinai el-rosh ha-har, va-yiqra YHWH le-Moshe el-rosh ha-har, va-ya'al Moshe.
Análise palavra por palavra
וַיֵּרֶד יְהוָה — va-yered YHWH, "e desceu o SENHOR".
O verbo yarad, "descer", na forma que encadeia a narrativa. É aqui que está o dado gramatical da discussão sobre as duas descidas. No versículo 18, o mesmo verbo vinha no perfeito, depois de "porque", numa frase descritiva: "tinha descido". Aqui vem na forma de ação narrada, que faz a história avançar. O hebraico distingue o pano de fundo (versículo 18) do acontecimento (versículo 20), e o português marca a diferença com "tinha descido" e "desceu". Ônquelos troca o verbo por itgeli, "revelou-se", como faz nas outras descidas de Deus.
עַל־הַר סִינַי — al-har Sinai, "sobre o monte Sinai".
Al, "sobre", a preposição de posição em cima de alguma coisa. É a mesma de Êxodo 19:11 ("descerá… sobre o monte Sinai") e de 19:18 ("descido sobre ele").
אֶל־רֹאשׁ הָהָר — el-rosh ha-har, "ao alto do monte".
El, "para", "até", é preposição de direção; rosh, "cabeça", é a palavra comum para o topo de uma montanha, como em português se diz "cabeceira" de um rio. O versículo combina as duas preposições: desce "sobre" o Sinai e "até" a cabeça dele. A primeira dá o lugar; a segunda, o ponto de chegada. A expressão inteira, "ao alto do monte", aparece duas vezes no versículo, uma para Deus e outra para Moisés.
וַיִּקְרָא יְהוָה לְמֹשֶׁה — va-yiqra YHWH le-Moshe, "e chamou o SENHOR a Moisés".
Qara, "chamar", com a preposição le-, "a", "para". A diferença entre "chamar a" alguém e "chamar até" alguém, e o uso dessa diferença pelo comentarista Malbim, estão no estudo de Êxodo 12:31. Aqui o chamado tem destino explícito: "ao alto do monte".
וַיַּעַל מֹשֶׁה — va-ya'al Moshe, "e subiu Moisés".
Alah, "subir", na forma narrativa. É o verbo de Êxodo 19:3, "Moisés subiu a Deus", e o oposto exato de yarad. O versículo abre com o SENHOR descendo e fecha com Moisés subindo: os dois verbos opostos estão nas pontas da frase, e no meio fica o chamado, duas vezes com "ao alto do monte". É uma estrutura em espelho: descer — o alto — o alto — subir. A frase final não tem complemento: o texto não repete "ao alto do monte", e o leitor sabe para onde Moisés foi.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva primeiro a uma conclusão sobre a ordem do relato. A descida que o versículo 18 já pressupunha é narrada aqui, e a gramática hebraica distingue as duas frases: lá, pano de fundo; aqui, acontecimento. Ler a repetição como prova de duas descidas, ou de dois relatos costurados, é possível, mas não é exigido pelo texto.
Leva também a uma conclusão sobre o encontro. Deus desce, chama, e Moisés sobe: o versículo se fecha em espelho, com os dois verbos opostos nas pontas e "o alto do monte" no meio, duas vezes. O ponto de encontro é o cume, e é um ponto ao qual só um homem tem acesso. O povo, ao pé do monte, fica fora da frase.
E leva, por fim, a uma conclusão sobre o verbo "descer". Os mestres e os filósofos não o apagaram nem o tomaram ao pé da letra. O Talmude manteve a descida e fixou dez palmos de distância; a Mekhilta trouxe os céus até o monte; Maimônides fez do verbo uma regra de linguagem. Em todos os casos o versículo continuou dizendo o que diz — "o SENHOR desceu" —, e o trabalho da leitura foi entender o que essa frase afirma sem pedir a ela mais do que pode dar.













