Então Moisés clamou ao SENHOR, dizendo: “Que farei com este povo? Mais um pouco e me apedrejarão.”
1. Introdução
O povo acabou de acusar Moisés de tê-lo tirado do Egito para matá-lo de sede, e Moisés leva a acusação a Deus em forma de pergunta: "Que farei com este povo?". Pela primeira vez no livro ele se queixa do povo, e não de Deus, como fizera depois do fracasso diante de Faraó. A frase seguinte diz o medo em quatro palavras hebraicas: mais um pouco, e me apedrejarão. É também a primeira vez que a pena que a lei vai reservar à comunidade aparece apontada contra o próprio líder. E o clamor não pede água: pede uma saída para quem está no meio.
2. Contexto Histórico e Cultural
Uma pena sem carrasco
Apedrejar é a forma de matar em que ninguém é o matador. Não exige espada, nem oficial, nem ofício: exige pedras, que no deserto estão em toda parte, e gente em número suficiente. Cada um atira a sua, e nenhuma pedra sozinha é a que matou. É por isso que, na lei de Israel, o apedrejamento é a pena executada pela comunidade inteira. No caso do homem que amaldiçoou o nome de Deus, a ordem é que "toda a comunidade o apedreje" (Levítico 24:14); no do homem que recolheu lenha no sábado, "toda a congregação o apedrejou fora do acampamento" (Números 15:36).
O Deuteronômio dá a ordem dos gestos: "A mão das testemunhas será a primeira contra ele, para matá-lo, e depois a mão de todo o povo" (Deuteronômio 17:7). A Mishná (a coletânea de leis judaicas redigida por volta do ano 200 depois de Cristo) transformou essa frase em procedimento, no tratado Sanhedrin 6:4. O condenado era levado a uma plataforma com o dobro da altura de um homem; a primeira testemunha o empurrava; se ele não morresse da queda, a segunda testemunha lançava uma pedra preparada sobre o peito dele; e só se ainda vivesse "todo Israel" completava a execução. A Mishná descreve um ideal de tribunal, redigido quando os mestres já não tinham poder de executar ninguém, mas guarda a lógica antiga: a morte começa por quem acusou e termina no povo.
Quem a lei mandava apedrejar
A lista da Mishná Sanhedrin 7:4 reúne os crimes punidos com pedras. Ao lado de uniões proibidas, da blasfêmia, da idolatria, do sacrifício de filhos a Moloque, da feitiçaria, da profanação do sábado e da maldição contra pai e mãe, aparecem duas figuras que interessam a este versículo: o mesit ("o que instiga", quem convence alguém, em particular, a servir outros deuses) e o maddiach ("o que desvia", quem arrasta uma cidade inteira). A base é Deuteronômio 13:10: o que tenta afastar o povo do seu Deus será apedrejado "porque procurou afastar você do SENHOR, seu Deus, que o tirou da terra do Egito".
A ironia está no cruzamento das frases. Em Êxodo 17:3, a acusação do povo foi justamente esta: "Por que é que você nos fez subir do Egito?". O líder acusado de tirar o povo do Egito para a morte está a um passo de receber a pena que a lei vai reservar a quem afasta o povo do Deus que o tirou do Egito. Nenhum dos dois textos cita o outro; a coincidência é do vocabulário, e o leitor que conhece a lei a percebe.
Quando as pedras saem da lei
A Bíblia registra também o apedrejamento sem sentença, como explosão da multidão contra quem a comanda. Em 1 Samuel 30:6, depois do saque de Ziclague, "o povo falava em apedrejar" Davi, "porque a alma de todo o povo estava amargurada". Em 1 Reis 12:18, todo Israel apedreja Adorão, o encarregado dos trabalhos forçados. Em 2 Crônicas 24:21, o profeta Zacarias, filho de Joiada, é apedrejado no pátio do templo "por ordem do rei". O padrão se repete: a pena da comunidade, apanhada pela comunidade sem tribunal, contra alguém que fala em nome de Deus ou do poder.
Em Êxodo 8:26, era Moisés quem temia ser apedrejado pelos egípcios, e o estudo daquele versículo mostra que no Egito as pedras eram reação de multidão, não pena de tribunal. Aqui o medo é o mesmo, e a multidão é Israel.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então Moisés clamou ao SENHOR"
O verbo é o do grito de socorro, o mesmo de Mara (Êxodo 15:25), e não o da oração calma. Nas vezes anteriores em que Moisés clamou, o grito foi por outros: em Êxodo 8:12, pelas rãs que atormentavam Faraó; em Êxodo 15:25, pela água amarga que o povo não podia beber. Mais tarde, em Números 12:13, ele clamará pela irmã leprosa. Aqui, pela primeira vez, o conteúdo do grito inclui a própria pele.
E o grito não pede água. Em Mara, o texto não registra as palavras de Moisés, mas a resposta foi um lenho para as águas. Em Refidim, as palavras estão registradas, e nenhuma delas fala da sede. Moisés pergunta o que fazer com o povo e diz que vai morrer. A necessidade concreta, que era o motivo da briga, desaparece da boca do líder; quem vai lembrá-la é Deus, no versículo 6: "e o povo beberá".
A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) leu o mesmo dado pelo lado oposto e fez dele um elogio. O texto mostra a grandeza de Moisés, diz o comentário, porque ele não pensou: "já que brigam comigo, não vou pedir misericórdia por eles"; clamou assim mesmo. Onkelos (a tradução aramaica da Torá usada na sinagoga desde a Antiguidade) trocou "clamou" por "orou diante do SENHOR", e o Targum atribuído a Jônatas, outra tradução aramaica, fez o mesmo. As duas versões tiraram do verbo o grito e deixaram a oração.
"Que farei com este povo?"
A pergunta admite duas leituras, e o hebraico não decide entre elas. A preposição pode querer dizer "para" ou "a". Primeira leitura: "que farei por este povo?", a pergunta de quem não sabe como ajudar. Segunda leitura: "que farei com este povo?", a pergunta de quem não sabe mais o que fazer com gente que o ameaça. O tom do resto da frase puxa para a segunda.
A mesma pergunta aparece na Bíblia na boca de quem tem autoridade e perdeu os meios. Isaque a faz a Esaú depois de entregar a bênção a Jacó: "Que posso fazer por você agora, meu filho?" (Gênesis 27:37). Labão a faz diante de Jacó, ao reconhecer que as filhas e os netos estão perdidos para ele (Gênesis 31:43). E Deus a faz sobre o próprio povo, em Oseias 6:4: "Que farei a você, Efraim? Que farei a você, Judá? O amor de vocês é como a nuvem da manhã." Em Oseias, quem não sabe o que fazer com Israel é Deus. Em Refidim, é Moisés, e a pergunta é dirigida a quem, um dia, vai fazê-la também.
"Este povo" mede distância. Moisés não diz "o teu povo" nem "o meu povo". É a expressão que ele já usara ao acusar Deus depois do fracasso diante de Faraó, e o estudo de Êxodo 5:22 acompanha o percurso do possessivo na boca dele. A diferença está no alvo. Lá a pergunta era "por que trouxeste mal a este povo?", e o culpado era Deus. Aqui o problema é o próprio povo. É a primeira queixa de Moisés contra Israel feita a Deus.
A Mekhilta põe na boca de Moisés um desabafo que desenvolve a pergunta: "Senhor do mundo, entre ti e eles eu vou ser morto". E cita Números 11:12, onde Moisés lembra que Deus lhe mandou carregar o povo no colo "como a ama carrega a criança de peito". O sentido é: tu me pedes paciência de ama, e eles querem me matar. O líder se vê preso entre duas exigências, a de Deus e a do povo, e nenhuma das duas o protege.
O mesmo comentário acrescenta uma observação sobre os papéis. Aqui, diz a Mekhilta, Deus abaixa e Moisés se eleva: Deus não se irrita com o povo, e quem se exalta é o líder. No episódio do bezerro de ouro os papéis se invertem: Deus diz "deixe-me, para que a minha ira se acenda contra eles" (Êxodo 32:10), e é Moisés quem acalma Deus (Êxodo 32:11). Refidim e o Sinai formam um par. Num, Moisés perde a paciência e Deus a guarda; no outro, Deus perde a paciência e Moisés a guarda.
"Mais um pouco e me apedrejarão"
O povo murmurou e brigou, mas em nenhum lugar do capítulo o texto mostra alguém pegando uma pedra. A ameaça existe na boca de Moisés, e só ali. Os comentaristas se dividiram sobre o quanto ela era real.
Primeira leitura: o perigo era iminente. É a de Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI): "se eu esperar mais um pouco, eles me apedrejarão". A expressão marca um prazo curto, e o Targum de Jônatas o encurta ainda mais: "ainda um pouquinho".
Segunda leitura: é hipérbole. Abraão ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) diz que Moisés não estava em perigo real de ser apedrejado: a frase quer dizer que o povo brigava e se enfurecia contra ele, e que, se pudesse, o apedrejaria. O exagero mede a raiva, não os fatos.
Terceira leitura: o medo diz mais sobre Moisés do que sobre o povo. A resposta de Deus, no versículo seguinte, manda Moisés andar à frente da multidão, exatamente onde as pedras o alcançariam. O Midrash Tanchuma (coleção de sermões rabínicos sobre a Torá, organizada entre os séculos V e IX) conta que ele foi, e que ninguém atirou nada. Se for assim, o versículo registra uma avaliação que a sequência desmente.
Não é possível decidir. O que o texto garante é a palavra que Moisés escolhe. O povo nunca falou em matar Moisés; falou em ser morto por ele ("para matar de sede a mim, os meus filhos e o meu gado", Êxodo 17:3). Moisés devolve a acusação no mesmo registro: vocês dizem que eu os trouxe para morrer, e quem está para morrer sou eu.
Há um eco mais antigo na vida dele. A primeira palavra que Moisés ouviu de um hebreu foi uma ameaça: "Você pretende me matar como matou o egípcio?" (Êxodo 2:14). Naquela vez ele teve medo e fugiu para Midiã. Aqui ele tem medo outra vez, e não foge. Fica, e grita para cima. Entre um medo e outro está a diferença entre o homem que fugiu do próprio povo e o homem que foi mandado de volta para conduzi-lo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés
Está sozinho. É o dado mais visível da cena e o mais fácil de não ver. Em Êxodo 16:2 a murmuração foi "contra Moisés e contra Arão", e Arão falou à congregação em Êxodo 16:10. Em Refidim o povo briga só com Moisés (Êxodo 17:2), murmura só contra Moisés (Êxodo 17:3), e Moisés diz "me apedrejarão", no singular. Arão desaparece de Êxodo 17:1-7 e só volta em Êxodo 17:10, já no alto da colina, na batalha contra Amaleque. Quando a mesma crise de água se repetir em Números 20, os dois estarão juntos diante da rocha e os dois serão punidos. Aqui o peso cai em um homem.
É também o Moisés que já tem atrás de si as pragas, o mar e o maná. A autoridade dele foi confirmada em público em Êxodo 14:31, quando o texto diz que "creram no SENHOR e em Moisés, seu servo". Poucas semanas depois, essa mesma confiança está a ponto de virar pedra.
O povo
O capítulo abre com "toda a congregação dos filhos de Israel" (Êxodo 17:1) e passa a dizer só "o povo" quando a briga começa. Na boca de Moisés, vira "este povo". Ninguém é nomeado. Não há líder da revolta, porta-voz ou grupo; é a massa que fala, como em todas as murmurações do deserto até Corá, em Números 16, onde pela primeira vez a revolta terá nome e sobrenome.
O SENHOR
É o destinatário do grito, e não é acusado de nada. A resposta dele, no versículo seguinte, não menciona as pedras nem consola Moisés: dá ordens. Também não repreende o povo. Nenhuma ira, nenhum castigo, nenhuma nuvem de glória aparece em Refidim.
Refidim
O acampamento sem água, onde o povo chegou "segundo a ordem do SENHOR". A localização e as propostas de identificação são assunto do estudo de Êxodo 17:1.
O que ainda vai acontecer
A ameaça desta cena volta muito mais concreta no deserto de Parã. Depois do relatório dos espiões, "toda a congregação falou em apedrejá-los", a Josué e Calebe (Números 14:10), e ali sim a glória do SENHOR aparece para impedir. Entre Refidim e Parã, o medo de Moisés vira projeto do povo.
5. Pontos de Ensino
1. Moisés para de discutir com a multidão. No versículo 2 ele ainda respondia ao povo com perguntas. No versículo 4 ele se vira para Deus. O líder que tenta ganhar a discussão com uma multidão sedenta perde; Moisés leva a crise a quem pode resolvê-la. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) e John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) apontam esse reflexo como o traço mais constante do personagem.
2. A Bíblia registra a queixa sem censurá-la. "Que farei com este povo?" não é oração piedosa: é desabafo de quem está no limite. O texto não comenta, e Deus não repreende Moisés pela frase. A queixa franca dirigida a Deus é uma forma de oração que a Bíblia hebraica conserva em muitos lugares, dos salmos de lamento a Jeremias.
3. O medo do líder faz parte do relato. O Êxodo não esconde que Moisés teve medo de morrer pelas mãos do próprio povo. Não há heroísmo de fachada. A autoridade que o capítulo 14 confirmou não blindou o homem contra o pânico.
4. A pergunta de Moisés recebe tarefa, não explicação. Moisés pergunta "que farei?", e a resposta do versículo seguinte é uma lista de ordens: passe adiante, leve os anciãos, leve o cajado, vá. Deus não discute o comportamento do povo nem tranquiliza Moisés sobre as pedras. A saída vem pelo caminho de fazer alguma coisa.
5. O mediador fica no meio, e o meio é perigoso. A Mekhilta põe na boca de Moisés: "entre ti e eles eu vou ser morto". Quem representa Deus diante do povo e o povo diante de Deus recebe a pressão dos dois lados. A frase não é queixa de um dia; volta em Números 11:11-15, quando Moisés pede para morrer em vez de continuar carregando o povo.
6. A crise sobe um degrau. Em Mara houve uma pergunta ("Que beberemos?"); em Refidim, uma acusação e o medo das pedras; em Parã, a proposta de escolher outro chefe e voltar ao Egito; com Corá, a revolta organizada. O estudo de Êxodo 15:24 descreve essa escada inteira. Refidim é o degrau em que a violência física entra pela primeira vez no vocabulário da relação entre Israel e o seu líder.
6. Aspectos Filosóficos
O que não tem justificativa
Em Refidim há um sofrimento sem culpado à vista. O povo acampou onde Deus mandou, e ali não havia água. A sede é real, e ninguém a causou por maldade. Mesmo assim, a multidão procura um responsável e o encontra no homem que a conduziu. E o homem, ameaçado, também procura uma saída e a dirige a Deus. Cada um empurra para outro o peso de uma situação que ninguém consegue justificar.
O filósofo que pensou esse tipo de situação com mais cuidado foi Jean Nabert (francês, 1881-1960, um dos nomes da chamada filosofia reflexiva, que parte da consciência que examina os próprios atos). No Ensaio sobre o mal (1955), Nabert distingue duas coisas que o vocabulário comum mistura. Uma é o injusto: o que contraria uma norma, e que por isso pode ser julgado, condenado, reparado. A outra é o que ele chama de "injustificável": o mal que excede toda norma, que nenhuma regra conseguiria ter previsto e que nenhuma explicação consegue absolver. Diante dele, diz Nabert, a consciência não sente só reprovação. Sente um desejo de justificação que não encontra onde se apoiar.
Duas respostas ao injustificável
Nabert observa que o injustificável costuma produzir duas reações. A primeira é procurar uma explicação que o dissolva, mostrando que no fundo havia uma razão, um plano ou um culpado. É o caminho das teodiceias (as tentativas de justificar Deus diante do mal) e também o caminho mais rasteiro de achar alguém em quem descarregar. A segunda é recusar a explicação e responder com um ato: um gesto que não apaga o mal, mas impede que ele tenha a última palavra.
O versículo põe as duas reações lado a lado. O povo escolhe a primeira, na forma mais rasteira: se há sede, alguém é culpado, e o culpado é Moisés. As pedras são a conclusão lógica dessa busca. Moisés, por sua vez, não oferece explicação nenhuma. Não diz por que Deus mandou acampar num lugar sem água, não defende o próprio comando. Pergunta "que farei?". A pergunta pertence à segunda reação: não procura o porquê, procura o que fazer. E a resposta de Deus, no versículo seguinte, também não explica nada. Dá uma tarefa.
O rompimento entre as pessoas
Para Nabert, a marca mais profunda do injustificável é o rompimento entre as consciências: o momento em que as pessoas deixam de se reconhecer umas às outras e passam a se tratar como obstáculo. O apedrejamento é a imagem extrema desse rompimento. O povo e o líder que, semanas antes, cantavam juntos à beira do mar estão agora um diante do outro como acusador e acusado.
Onde a aproximação para
Nabert escreve sobre o mal humano, sobre a crueldade e a injustiça que as pessoas cometem. A sede de Refidim não é crueldade de ninguém, e o Êxodo não a trata como mal: no versículo 1 ela acontece "segundo a ordem do SENHOR", e no versículo 7 vira prova. O texto bíblico tem uma resposta que Nabert não admite, a de que a situação tinha sentido desde o começo. A aproximação ilumina o comportamento das pessoas na cena, e só isso. Ela mostra por que a falta de água virou ameaça de morte: um sofrimento sem justificativa à vista pede um culpado, e a multidão escolhe o que está mais perto.
7. Aplicações Práticas
Para quem está no lugar de Moisés
Quem coordena um grupo numa crise conhece a cena: as pessoas não têm o que precisam, e a irritação procura um rosto. O versículo mostra um líder que, nesse ponto, para de responder à multidão e leva o problema para outro lugar. Não negocia com quem está furioso, não faz discurso, não se justifica. Na prática, isso significa reconhecer quando a conversa com o grupo deixou de produzir solução, e buscar ajuda fora dela: um superior, um conselho, e, para quem crê, a oração.
O versículo também autoriza a franqueza. Moisés não disfarça o medo nem a irritação. Diz "este povo" e diz que vai morrer. A oração dele não é bonita, e é atendida. Quem acha que precisa se apresentar a Deus já calmo e resignado encontra aqui um modelo diferente.
Para quem está no lugar do povo
A outra metade da cena serve a quem está na multidão. Diante de uma falta que ninguém causou por maldade, a tentação é encontrar um culpado próximo e concentrar nele a raiva. Antes de engrossar uma acusação coletiva, pergunte-se se a pessoa acusada fez de fato o que se diz, ou se apenas é a que está mais à mão. Em Refidim, a resposta era a segunda.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que Arão some justamente nesta cena?
O texto não diz, e as respostas são hipóteses. A mais citada vem do estudo das fontes do Pentateuco: muitos estudiosos atribuem a cena do maná, onde Arão fala à congregação, a uma camada de texto ligada aos sacerdotes, que valoriza Arão; e atribuem Refidim a uma camada mais antiga, em que Arão quase não aparece e Moisés age sozinho. Se for assim, a ausência é efeito da costura de dois materiais. Outra leitura, sem recorrer às fontes, nota que a acusação do povo é pessoal ("você nos fez subir") e só Moisés podia responder por ela. As duas explicações não se excluem, e nenhuma é demonstrável.
Só Moisés chama Israel de "este povo"?
Não. Mais adiante, quem usa a expressão com a mesma distância é Deus. Depois do bezerro de ouro: "Tenho visto este povo, e eis que é povo de dura cerviz" (Êxodo 32:9). Depois dos espiões: "Até quando este povo me desprezará?" (Números 14:11). O cansaço que Moisés exprime em Refidim vai aparecer na boca de Deus. E aí é Moisés quem intercede, nos dois casos. A relação de papéis que a Mekhilta apontava se confirma ao longo do Pentateuco: quando um dos dois perde a paciência com o povo, o outro a guarda.
Alguma vez Israel chegou a atirar pedras em Moisés?
Não. Em todo o Pentateuco nenhum israelita toca em Moisés. Há ameaças e ajuntamentos contra ele: a congregação fala em apedrejar Josué e Calebe (Números 14:10), e o grupo de Corá se reúne "contra Moisés e contra Arão" (Números 16:3). Mas a violência física contra o líder nunca se consuma. O texto deixa a ameaça sempre no ar, e a resolve por intervenção de Deus antes que uma pedra seja lançada. A primeira autoridade de Israel morta a pedradas pelo próprio povo, na narrativa bíblica, será Adorão, já na divisão do reino.
A pergunta "que farei?" chegou a ter resposta?
Teve uma resposta imediata e prática, a ordem do versículo 5. Mas a pergunta, como pergunta sobre o que fazer com um povo que se revolta, não foi resolvida em Refidim. Volta em Números 11, quando Moisés pede ajuda e recebe setenta anciãos para dividir o peso. A solução de Refidim foi água; a solução de Números foi repartir a liderança. A primeira tirou a causa da crise; a segunda mudou a estrutura que a fazia recair sobre um homem só.
9. Conexão com Outros Textos
Os outros clamores de Moisés
Êxodo 15:25 — "Ele clamou ao SENHOR, e o SENHOR lhe mostrou um lenho; ele o jogou nas águas, e as águas ficaram doces. Ali lhe pôs estatuto e direito, e ali o pôs à prova."
O mesmo verbo, a mesma falta de água, três dias depois do mar. Em Mara as palavras do clamor não são registradas; em Refidim, são, e falam do povo e do medo.
Números 12:13 — "Moisés clamou ao SENHOR, dizendo: 'Ó Deus, cura-a, eu te peço.'"
O clamor por Miriã, leprosa depois de falar contra ele. É o clamor em favor de quem o atacou, o contrário exato do de Refidim.
As queixas de Moisés a Deus
Êxodo 5:22 — "Então Moisés voltou ao SENHOR e disse: 'Senhor, por que trouxeste mal a este povo? Por que me enviaste?'"
A primeira queixa: o culpado é Deus. Em Refidim, o problema passa a ser o povo.
Números 11:14-15 — "Eu sozinho não posso carregar todo este povo, porque é pesado demais para mim. Se assim me tratas, mata-me de uma vez, se achei graça aos teus olhos, e que eu não veja a minha desgraça."
O ponto final da série. Em Refidim Moisés tem medo de ser morto pelo povo; em Números ele pede para morrer por causa do povo.
A mesma pergunta em outras bocas
Gênesis 27:37 — "Isaque respondeu a Esaú: 'Já o constituí senhor sobre você e lhe dei todos os seus irmãos por servos; sustentei-o com trigo e vinho. Que posso fazer por você agora, meu filho?'"
O pai que tinha autoridade e já não tem o que dar.
Oseias 6:4 — "Que farei a você, Efraim? Que farei a você, Judá? O amor de vocês é como a nuvem da manhã, como o orvalho que cedo passa."
Deus diante do mesmo povo, com a mesma pergunta. A exasperação de Moisés tem paralelo no próprio Deus dos profetas.
As pedras
Êxodo 8:26 — "Mas Moisés disse: 'Não é certo fazer assim, porque o que sacrificamos ao SENHOR, o nosso Deus, é abominação para os egípcios. Se sacrificarmos diante dos olhos deles o que lhes é abominação, não nos apedrejarão?'"
A primeira vez que a palavra aparece na Bíblia, e o perigo vinha dos egípcios. A segunda é esta, e o perigo vem de Israel.
1 Samuel 30:6 — "Davi ficou muito angustiado, porque o povo falava em apedrejá-lo, pois todo o povo estava amargurado, cada um por causa dos seus filhos e das suas filhas; mas Davi se fortaleceu no SENHOR, seu Deus."
A cena de Refidim repetida com outro líder: a perda dos filhos, a raiva que procura o chefe, e o chefe que se volta para Deus.
Deuteronômio 17:7 — "A mão das testemunhas será a primeira contra ele, para matá-lo, e depois a mão de todo o povo; assim você eliminará o mal do meio de você."
A lei que organiza a pena que Moisés teme.
O par Refidim e Sinai
Êxodo 32:10-11 — "'Agora, pois, deixe-me, para que a minha ira se acenda contra eles e eu os consuma; e de você farei uma grande nação.' Moisés, porém, suplicou ao SENHOR, seu Deus."
O texto que a Mekhilta põe ao lado deste versículo: lá a ira é de Deus e a calma de Moisés, ao contrário de Refidim.
Êxodo 2:14 — "E o homem respondeu: 'Quem o pôs como chefe e juiz sobre nós? Você pretende me matar como matou o egípcio?' Então Moisés teve medo e pensou: 'Sem dúvida a coisa se sabe.'"
O primeiro medo de Moisés diante de um hebreu. Daquela vez ele fugiu.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então Moisés clamou ao SENHOR, dizendo: “Que farei com este povo? Mais um pouco e me apedrejarão.”
Texto hebraico
וַיִּצְעַק מֹשֶׁה אֶל־יְהוָה לֵאמֹר מָה אֶעֱשֶׂה לָעָם הַזֶּה עוֹד מְעַט וּסְקָלֻנִי׃
Transliteração
va-yits'áq Moshé el-YHWH lemór: mah e'esé la-am ha-zé? od me'át u-seqalúni.
Análise palavra por palavra
וַיִּצְעַק — va-yits'áq, "e clamou". Qal — a forma simples e ativa do verbo hebraico —, na forma verbal que encadeia a narrativa, terceira pessoa do masculino singular, da raiz ts-'-q. O hebraico tem duas grafias para o grito de socorro, tsa'áq e za'áq, com o mesmo sentido; Êxodo 2:23 usa a segunda para o clamor de Israel no Egito, e este versículo usa a primeira. O verbo pede ajuda a quem pode dá-la: é o grito do oprimido ao juiz, do sitiado ao rei. Onkelos o traduziu por tsalli, "orou", e a escolha apaga o volume da voz.
מֹשֶׁה אֶל־יְהוָה — Moshé el-YHWH, "Moisés ao SENHOR". A preposição el marca direção: o grito vai para cima, e não para o povo.
לֵאמֹר — lemór, "dizendo". Infinitivo da raiz '-m-r, dizer, que introduz a fala direta. Shemot Rabá (comentário rabínico ao Êxodo, de redação medieval com material antigo) aproveitou a palavra para fazer Moisés pedir uma resposta: "Senhor do mundo, diz-me se vão me matar ou não".
מָה אֶעֱשֶׂה — mah e'esé, "que farei?". O interrogativo mah, "que", e o Qal imperfeito, primeira pessoa do singular, da raiz '-s-h, fazer. É o imperfeito de deliberação, o de quem pergunta o que deve fazer, e não o que vai fazer. A mesma forma está em Gênesis 27:37, na boca de Isaque, e em Oseias 6:4, na boca de Deus.
לָעָם הַזֶּה — la-am ha-zé, "com este povo", "para este povo". A preposição le fundida ao artigo, o substantivo am, "povo", e o demonstrativo ha-zé, "este". A preposição é a fonte da ambiguidade analisada no item 3: le serve tanto ao benefício ("fazer por") quanto ao alvo ("fazer a"). O demonstrativo aponta: é o povo que está ali, diante de Moisés.
עוֹד מְעַט — od me'át, "ainda um pouco". Od, "ainda", e me'át, "pouco". Usada para o tempo, a expressão quer dizer "daqui a pouco", "falta pouco". Os profetas a empregam para o juízo iminente de Deus: "ainda um pouco, e visitarei o sangue de Jezreel" (Oseias 1:4); "ainda um pouco, e o ímpio não existirá" (Salmo 37:10); "ainda um pouquinho, e a minha indignação acabará" (Isaías 10:25). Aqui o prazo curto não é de Deus: é o da paciência do povo.
וּסְקָלֻנִי — u-seqalúni, "e me apedrejarão". O verbo no perfeito com o "e" que, no hebraico bíblico, vira o tempo para o futuro; terceira pessoa do plural, com o sufixo -ni, "me". O sujeito não é nomeado: "eles", o povo inteiro. A raiz s-q-l no Qal é apedrejar; no Piel — a forma intensiva do verbo hebraico —, quer dizer o contrário, tirar as pedras de um terreno: "tirem as pedras do caminho" (Isaías 62:10). A mesma raiz serve para atirar pedras em alguém e para limpar o chão delas. Onkelos verteu a frase com um acréscimo: od ze'ér pon ve-yirgemunani, "ainda um pouco, e quem sabe me apedrejarão". A partícula pon, "quem sabe", "senão", transforma a certeza de Moisés em possibilidade, e o verbo aramaico escolhido é o da outra raiz do apedrejamento. O estudo de Êxodo 8:26 compara este verbo com o outro que o hebraico tem para o apedrejamento.
11. Conclusão
Com base no que o versículo mostra, a primeira conclusão é que a crise de Refidim mudou de natureza antes de qualquer milagre. O que começou como falta de água virou, em três versículos, uma ameaça de morte contra o líder, e a pena que a comunidade reservaria aos que a desviam de Deus apareceu apontada contra quem a tirou do Egito. A sede não foi o pior do episódio; o pior foi o que a sede fez com a relação entre o povo e Moisés.
A segunda conclusão é sobre Moisés. O versículo não o mostra como herói sereno, e sim como alguém que tem medo, sente o povo como um peso estranho e diz isso a Deus sem rodeios. A tradição se dividiu sobre o tamanho do perigo, e o texto não permite decidir se as pedras estavam de fato nas mãos de alguém. O que ele permite afirmar é que Moisés não fugiu, como fizera na juventude, e que a queixa franca foi recebida como clamor legítimo: a resposta veio em forma de ordem, e com ela a água que o próprio Moisés tinha esquecido de pedir.













