E o SENHOR disse a Moisés: “Passe adiante do povo e leve com você alguns dos anciãos de Israel; leve também na mão o seu cajado, com o qual você feriu o Nilo, e vá.
1. Introdução
Moisés disse que ia ser apedrejado, e Deus responde mandando-o andar na frente do povo, exatamente onde as pedras o alcançariam. A ordem tem quatro partes: passar adiante, levar alguns anciãos, levar o cajado e ir. O cajado é identificado por um único feito, o golpe no Nilo, e não pela abertura do mar, que era o feito mais recente e mais lembrado. Os anciãos vão como testemunhas de algo que o povo não vai ver. E a resposta de Deus não menciona as pedras, nem a briga, nem a culpa de ninguém.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem vai na frente, no deserto
Numa marcha pelo deserto, ir à frente não é honra: é função. Quem vai adiante procura o caminho, o lugar de acampar e, acima de tudo, a água. A própria Torá conserva esse costume em duas cenas. Em Números 10:31, Moisés pede a Hobabe, o parente midianita que conhecia a região: "Não nos deixe, porque você sabe onde devemos acampar no deserto, e será os nossos olhos". O guia do deserto é quem sabe onde há água e pasto. E em Deuteronômio 1:33 o papel é atribuído ao próprio Deus, "que ia adiante de vocês pelo caminho, para procurar o lugar onde deviam acampar".
A ordem "passe adiante do povo" põe Moisés nesse lugar. A multidão que o acusou de levá-la para morrer de sede vê o líder sair à frente, com alguns anciãos, na direção da água que ainda ninguém viu. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) calculou a distância: a rocha ficava em Horebe, a uma parasanga (a légua persa, cerca de cinco quilômetros) ou mais do acampamento em Refidim. Se ele tem razão, Moisés e os anciãos fizeram uma caminhada de uma hora ou mais antes do golpe, e a água teve de vir até o povo. O cálculo depende da localização dos dois lugares, que é discutida.
Testemunhas para o que não se pode repetir
No direito de Israel, um fato só se estabelece com mais de uma testemunha: "pela boca de duas ou três testemunhas se estabelecerá o fato" (Deuteronômio 19:15). Quando o fato é público e solene, as testemunhas são os anciãos. Em Rute 4:9-11, Boaz compra o campo de Noemi diante de dez anciãos à porta de Belém e lhes diz: "Vocês são hoje testemunhas"; e eles respondem: "Somos testemunhas". O ancião é a memória oficial da comunidade, aquele cuja palavra vale como registro quando não há documento escrito.
A ordem de levar anciãos aplica esse costume a um acontecimento que não se pode repetir em juízo. Ninguém poderá voltar à rocha e refazer o golpe para provar o que houve. A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) diz qual era o risco: os anciãos vão "como testemunho de que não havia água ali", para que não se diga depois que "talvez houvesse fontes naquele lugar". Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) repete a explicação. A tradição já previa a pergunta que leitores modernos fariam: e se a água estava ali o tempo todo?
3. Análise Teológica do Versículo
"E o SENHOR disse a Moisés"
Moisés acabou de dizer que vai morrer apedrejado. Deus responde sem tocar no assunto. Não diz "não tenha medo", não diz "eu o protegerei", não comenta a raiva do povo nem a de Moisés. Também não há repreensão a ninguém: nenhuma ira, nenhum "até quando", como haverá em Êxodo 16:28 e em Números 14:11. A resposta inteira é uma sequência de ordens. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII), que já lera a ameaça das pedras como exagero, encontra aqui a confirmação: Deus responde ao problema real, a sede, e deixa de lado o medo.
"Passe adiante do povo"
O que Deus quer dizer com essa ordem? O verbo hebraico é o de atravessar, passar por, passar além, e a frase admite leituras muito diferentes. A tradição conservou pelo menos quatro.
Primeira leitura: é uma prova para Moisés. Rashi, seguindo o Midrash Tanchuma (coleção de sermões rabínicos sobre a Torá, organizada entre os séculos V e IX), lê: "passe diante do povo e veja se eles o apedrejam. Por que você falou mal dos meus filhos?". Nessa leitura Deus toma o partido do povo contra a acusação de Moisés. O Tanchuma completa a cena: Moisés passou, e todo Israel se levantou e o tratou com honra. E põe na boca de Deus a lição: "Quantas vezes eu lhe disse que não perdesse a paciência com eles, e que os conduzisse como o pastor conduz o rebanho".
Segunda leitura: o verbo quer dizer "passar por cima", relevar. A Mekhilta registra várias versões dessa ideia. Uma diz: "passe por cima das palavras deles". Rabi Neemias diz: "perdoe o pecado deles". Shemot Rabá (comentário rabínico ao Êxodo, de redação medieval com material antigo) põe na boca de Rabi Meir a forma mais forte: "Imite-me. Assim como eu pago o mal com o bem, pague você também o mal com o bem". O apoio é Miqueias 7:18, onde Deus é aquele que "perdoa a iniquidade e passa por cima da transgressão", com o mesmo verbo. Nessa leitura, a ordem não é de direção, é de atitude.
Terceira leitura: é uma ordem de deslocamento, no sentido mais literal. Nachmânides lê "afaste-se deles e vá a outro lugar", porque a rocha estava em Horebe, longe do acampamento, e Moisés precisava ir à frente para chegar lá. A leitura liga este versículo ao seguinte e não lhe dá sentido moral nenhum.
Quarta leitura: é um gesto que o povo precisa ver. Sforno (Ovadia Sforno, rabino e médico italiano do século XVI) diz que as queixas cessariam quando o povo visse Moisés se esforçando para atender à necessidade deles. Or ha-Chayim (Chayim ibn Attar, comentarista marroquino do século XVIII) acrescenta um detalhe: Moisés devia ir por um caminho visível, para que todos soubessem que ele ia buscar água, e não se isolar para rezar. O Targum atribuído a Jônatas (tradução aramaica da Torá com muitos acréscimos) diz simplesmente: "vá para longe das murmurações deles".
As quatro leituras não se excluem, e o hebraico não decide entre elas. Todas concordam num ponto: Moisés não fica parado esperando a pedra. Ele anda, e anda na frente de quem o ameaçava.
"e leve com você alguns dos anciãos de Israel"
"Alguns": a preposição hebraica tira uma parte do grupo. Não são todos os anciãos, nem os setenta de Números 11, que ainda não existem. O texto não diz quantos nem quem. Diz para quê, no versículo seguinte: o golpe será dado "diante dos olhos dos anciãos de Israel".
O dado tem consequência. O milagre de Refidim não acontece diante do povo. Acontece diante de uma pequena delegação, longe do acampamento, e o povo recebe a água e o relato. É o contrário do mar, onde "Israel viu a grande mão" (Êxodo 14:31). Em Refidim Israel não vê nada; bebe, e ouve o relato dos anciãos. Desde o primeiro dia, a fé de Israel nesse episódio foi fé em testemunho. E logo em seguida o povo perguntará se o SENHOR está no meio dele ou não.
"leve também na mão o seu cajado, com o qual você feriu o Nilo"
Por que o cajado é lembrado pelo Nilo? Ele tinha feito muito mais: virado cobra diante de Faraó, trazido granizo e gafanhotos, aberto o mar havia poucas semanas. A identificação escolhe o primeiro golpe das pragas, e a escolha pede explicação. A tradição deu quatro.
Primeira explicação: o povo via o cajado como instrumento de castigo. A Mekhilta diz que Israel desconfiava de três objetos, "o incenso, a arca e o cajado", porque todos tinham matado: o incenso matou Nadabe e Abiú (Levítico 10:1-2), a arca feriu os homens de Bete-Semes e Uzá (1 Samuel 6:19; 2 Samuel 6:7), o cajado trouxe as pragas sobre o Egito. E a Torá mostrou os três dando vida: o incenso deteve a praga (Números 16:47-48, onde Arão "fez expiação pelo povo"), a arca abençoou a casa de Obede-Edom (2 Samuel 6:11), e o cajado que feriu o Nilo tirou água da rocha. O Tanchuma resume numa frase: o homem fere com a faca e cura com o curativo; Deus cura com aquilo mesmo com que feriu.
Segunda explicação: o efeito é o inverso exato. Nachmânides observa que Deus não disse "o cajado que virou cobra" nem "o cajado com que você fez os sinais", e sim o do Nilo, "para chamar a atenção para a maravilha": naquela vez o cajado tirou da água a sua natureza, transformando-a em sangue; agora vai fazer sair água da pedra. Sforno diz o mesmo pelo lado humano: o cajado que fez os egípcios desistirem de beber, a ponto de cavarem ao redor do rio atrás de água (Êxodo 7:24), agora vai dar de beber a Israel.
Terceira explicação: o verbo. O cajado nunca "feriu" o mar. Diante do mar a ordem foi "levante o seu cajado, estenda a mão" (Êxodo 14:16), e a execução fala só da mão estendida (Êxodo 14:21). O único golpe anterior do cajado sobre água é o do Nilo. E o versículo seguinte usa o mesmo verbo: "você ferirá a rocha". O cajado é lembrado pelo gesto que vai repetir.
Quarta explicação: é a vez de o povo ver o lado bom do instrumento. Or ha-Chayim lê a frase como apologética: o mesmo bastão que estragou a água do Nilo agora a produz, e isso calaria quem negasse que o cajado de Moisés tivesse poder.
Há ainda uma dificuldade. Quem feriu o Nilo? Em Êxodo 7:19 a ordem foi dada a Arão; em Êxodo 7:20 o hebraico diz só "ele levantou o cajado", sem nome. Aqui Deus diz a Moisés "você feriu". Ibn Ezra resolve dizendo que Moisés feriu "por ordem", isto é, mandou Arão ferir. O Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) diz que o que Arão fazia no Egito ele fazia como discípulo do mestre, e por isso conta como feito de Moisés. O estudo de Êxodo 7:20 mostra que aquele versículo não escolhe entre os dois irmãos; este escolhe, e escolhe Moisés.
Repare também no possessivo: "o seu cajado". Em Êxodo 4:20 e em Êxodo 17:9 o objeto se chama "o cajado de Deus". Aqui, na boca de Deus, é o cajado de Moisés. O bastão de pastor que Moisés tinha na mão no Horebe (Êxodo 4:2) volta a ser dele no momento em que vai voltar ao Horebe.
"e vá"
A ordem termina sem destino. "Vá", e só no versículo seguinte se sabe para onde. É a forma das grandes partidas da Bíblia: Abrão sai "para a terra que eu lhe mostrarei" (Gênesis 12:1), Abraão vai a Moriá, "sobre um dos montes que eu lhe indicarei" (Gênesis 22:2). Nachmânides lê assim: "vá até ver-me de pé diante de você sobre a rocha".
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O cajado
É o objeto mais presente da história de Moisés, e este versículo faz dele quase um personagem, com biografia resumida numa frase. O percurso inteiro, até aqui:
Em Êxodo 4:2 é o bastão comum de um pastor: "O que é isso na sua mão?" "Um cajado." No mesmo capítulo vira cobra e volta a ser bastão (Êxodo 4:3-4), recebe a função de fazer os sinais (Êxodo 4:17) e passa a se chamar "o cajado de Deus" (Êxodo 4:20). No Egito vira cobra diante de Faraó (Êxodo 7:10, 15), fere o Nilo (Êxodo 7:20), se estende para o céu e traz o granizo (Êxodo 9:23), se estende sobre a terra e traz os gafanhotos (Êxodo 10:13). No mar é levantado (Êxodo 14:16). Depois de Refidim, sobe a colina na batalha contra Amaleque (Êxodo 17:9) e, quarenta anos mais tarde, volta a uma rocha em Números 20.
Ao lado dele existe outro cajado, o de Arão, que engole os cajados dos magos (Êxodo 7:12) e floresce em Números 17. O texto nem sempre separa os dois. Rabbeinu Bahya (Bahya ben Asher, comentarista espanhol do século XIII) observa que ninguém além de Moisés fez milagre com o cajado dele; nem Josué, que herdou o comando, o usou.
Os anciãos
Não são nomeados nem contados. São "alguns dos anciãos de Israel", tirados de um grupo que já existia antes da saída do Egito. Aqui recebem a função de testemunhas. O estudo de Êxodo 3:16 acompanha o grupo por todo o livro e repara que, em nenhuma cena, o texto registra uma frase dita por eles; Refidim não é exceção.
O Nilo
Aparece aqui pela última vez no livro do Êxodo. É lembrado não como o rio que dava vida ao Egito, mas como o rio que o cajado feriu. A memória que Israel leva do Egito para o deserto, nesta frase, é a de um rio que virou sangue e de que ninguém conseguia beber.
Arão
Ausente. Foi a ele que Deus mandou estender o cajado sobre as águas do Egito (Êxodo 7:19), e aqui o feito é atribuído a Moisés, enquanto Arão não aparece na cena da água. Só volta em Êxodo 17:10, no alto da colina.
5. Pontos de Ensino
1. Deus responde ao problema, não ao desabafo. Moisés falou de pedras; Deus fala de água. A resposta não alimenta a briga entre o líder e o povo, nem dá razão a um dos lados. Vai direto à necessidade que tinha provocado tudo.
2. O líder vai à frente justamente quando tem medo do povo. A ordem põe Moisés no lugar mais exposto. Se a ameaça era real, a ordem a enfrenta; se era exagero, a ordem o desmente. Nas duas hipóteses, a saída para o medo é a presença, e não o afastamento.
3. Um milagre que precisa de testemunhas. A água vai sair longe do acampamento, diante de poucos. O texto se preocupa em garantir que alguém de confiança possa dizer ao povo o que aconteceu. A fé que nasce desse episódio é fé no relato de outros, como quase toda fé depois dele.
4. O mesmo instrumento pode servir ao castigo e à vida. O cajado que deixou o Nilo imbebível vai fazer brotar água da pedra. Os rabinos tiraram daí um princípio sobre o modo de agir de Deus, que cura com aquilo mesmo com que feriu, e uma correção ao povo, que via no cajado só um objeto de desgraça. Um objeto não é definido pelo pior uso que teve.
5. A memória escolhida diz qual é a lição. Entre todos os feitos do cajado, Deus lembra o do Nilo, aquele em que a água deixou de servir. É a lembrança que, ao lado do golpe na rocha, mostra o contraste com mais força. O texto escolhe o passado que ilumina o presente.
6. A ordem vem antes do mapa. "E vá" termina a frase sem destino. Moisés recebe primeiro a ordem de partir, e só depois o lugar. É a forma de todas as grandes partidas da Bíblia, de Abraão em diante.
6. Aspectos Filosóficos
Remédio e veneno no mesmo bastão
O versículo traz um objeto com fama. Para o povo, segundo a Mekhilta, o cajado era instrumento de castigo: com ele vieram as pragas. Deus manda levá-lo justamente para dar água. A pergunta que fica é filosófica: um instrumento tem natureza própria, boa ou má, ou é só um meio neutro nas mãos de quem o usa?
Os comentaristas judeus já davam duas respostas. Para o povo da Mekhilta, o objeto carrega a marca do que fez: quem matou com ele torna-o objeto de morte. Para Sforno (Ovadia Sforno, rabino italiano do século XVI), é o contrário: o cajado "não é um instrumento que realiza certas funções por natureza", mas um instrumento que executa a vontade do seu dono, e por isso pode servir a efeitos opostos. A primeira resposta dá ao objeto um caráter fixo. A segunda o torna neutro.
O pharmakon de Stiegler
Uma terceira resposta vem de Bernard Stiegler (filósofo francês, 1952-2020, que dedicou a obra à relação entre o ser humano e as técnicas, a começar por A técnica e o tempo, 1994). Stiegler retomou uma palavra grega, pharmakon ("remédio" e "veneno" ao mesmo tempo, a palavra de onde vem "fármaco"), e fez dela a chave para pensar qualquer técnica. No livro O que faz a vida valer a pena: da farmacologia (2010), ele sustenta que todo instrumento humano é um pharmakon: não é bom nem mau, e também não é neutro. É as duas coisas de uma vez, e o que decide qual lado prevalece é o cuidado com que se lida com ele.
Para Stiegler, a neutralidade é uma ilusão. O instrumento sempre transforma quem o usa, e o mesmo gesto que cura pode envenenar se for feito sem atenção, por automatismo. Daí o nome que ele dá à tarefa de pensar as técnicas: "farmacologia", a arte de fazer o pharmakon pender para o lado do remédio. Não basta ter boa intenção; é preciso saber usar, na hora certa e do modo certo.
O que essa ideia ilumina no versículo
Lido assim, o cajado de Refidim não confirma nem a visão do povo nem a de Sforno. O povo errava ao achar que o objeto era só castigo: o cajado é remédio também, e o versículo seguinte o prova. Sforno simplifica ao dizer que o objeto é neutro: o cajado não é qualquer bastão, carrega uma história, e é justamente essa história, "com o qual você feriu o Nilo", que Deus invoca. O instrumento é lembrado pelo veneno no momento em que vai servir de remédio.
E o Pentateuco tem a sequência que Stiegler chamaria de farmacológica. O mesmo cajado, o mesmo gesto de ferir uma rocha, o mesmo problema de água voltam em Números 20, e ali o golpe vira a falta que impede Moisés de entrar na terra. O instrumento não mudou; mudou o modo de usá-lo. O estudo de Êxodo 17:6 compara as duas cenas.
Onde a aproximação para
Stiegler pensa as técnicas humanas, da escrita às redes digitais, e as pensa sem Deus. O cajado de Moisés, no Êxodo, não age por si: quem fere o Nilo, em Êxodo 7:25, é "o SENHOR", e quem tira água da rocha também. O texto bíblico põe a decisão sobre o lado do pharmakon numa vontade que não é a de quem segura o bastão. A aproximação vale para o objeto e para quem o carrega; não vale para a fonte do poder, que o Êxodo põe fora do instrumento e fora do homem.
7. Aplicações Práticas
Não definir uma coisa, ou uma pessoa, pelo pior momento dela
O povo olhava para o cajado e via as pragas. Deus manda usá-lo para dar de beber. A aplicação mais direta do versículo é sobre o modo como julgamos instrumentos, instituições e pessoas pela memória do dano que causaram. Um remédio que já fez mal, uma autoridade que já puniu, alguém que já errou com outros: o versículo não diz que o passado não conta, porque é o próprio Deus quem lembra o Nilo. Diz que o passado não esgota o que o instrumento pode fazer.
Ir à frente quando se tem medo
Para quem lidera, a ordem "passe adiante do povo" vem logo depois de uma confissão de medo. Ela não manda o líder se esconder até a raiva passar. Manda que ele seja visto indo atrás da solução. Em muitas crises de grupo, a presença de quem responde pelo grupo, caminhando na direção do problema, desarma mais do que qualquer explicação.
Ter testemunhas
Moisés não vai sozinho à rocha. Quem toma uma decisão que outros vão precisar aceitar sem ver faz bem em levar junto pessoas de confiança da comunidade. A prudência dos anciãos de Refidim vale para qualquer gestão de recursos de um grupo: o que se faz longe dos olhos de todos precisa de quem possa contar depois.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O povo sabia o que Moisés ia fazer?
O texto não diz. A ordem é dada só a Moisés, e nada indica que ele a tenha anunciado. É uma diferença em relação ao maná, quando Moisés e Arão avisaram o povo do que aconteceria à tarde e de manhã (Êxodo 16:6-8). Ibn Ezra registra a opinião de alguns intérpretes de que "passe adiante do povo" queria dizer "vá e diga a eles que agora vai dar-lhes água", mas é leitura, não texto. Pelo que está escrito, a multidão viu o líder sair à frente com alguns anciãos e um bastão, sem saber para quê.
Há no Êxodo algum sinal de que o povo tivesse medo do cajado?
Não. A explicação da Mekhilta, de que Israel via o cajado como instrumento de desgraça, é deduzida da própria frase "com o qual você feriu o Nilo": se Deus lembrou o castigo, deve ser porque era assim que o povo o via. O raciocínio vai do versículo para a suposição, e não de um dado para o versículo. Nenhuma passagem do Êxodo mostra o povo temendo o bastão. A leitura é engenhosa e tem valor como reflexão, mas não deve ser apresentada como informação histórica.
Os anciãos cumpriram o papel de testemunhas?
O Êxodo não conta que eles tenham dito nada ao voltar. Mas a memória do episódio sobreviveu, e de modo muito forte. Os salmos a cantam várias vezes: "fendeu rochas no deserto e lhes deu de beber como de grandes abismos" (Salmo 78:15); "abriu a rocha, e dela brotaram águas" (Salmo 105:41). Deuteronômio 8:15 a inclui entre os feitos que Israel não pode esquecer. O que os anciãos viram virou, com o tempo, patrimônio de todo o povo. Se foi por eles, o texto não diz.
Moisés obedeceu sem discutir?
Sim, e isso é novo na história dele. Nos capítulos 3 e 4, cada ordem recebeu uma objeção. Aqui Moisés tinha acabado de dizer que temia ser morto, e recebe a ordem de andar na frente da multidão. O versículo 6 termina com "E Moisés fez assim", sem uma palavra a mais. O homem que discutiu cinco vezes na sarça agora não discute nenhuma.
9. Conexão com Outros Textos
O golpe no Nilo que o versículo lembra
Êxodo 7:20 — "Moisés e Arão fizeram como o SENHOR havia ordenado: ele levantou o cajado e feriu as águas do Nilo, diante de Faraó e dos seus servos, e todas as águas do Nilo viraram sangue."
O verso não diz qual dos dois irmãos levantou o cajado. Êxodo 17:5 diz: "você".
Êxodo 7:24 — "E todos os egípcios cavaram ao redor do Nilo em busca de água para beber, porque não podiam beber da água do rio."
A sede que o cajado causou no Egito, agora do outro lado.
Êxodo 14:16 — "E você, levante o seu cajado, estenda a mão sobre o mar e divida-o, para que os filhos de Israel passem pelo meio do mar em terra seca."
No mar, o cajado é levantado, não fere. Por isso não é por ele que o cajado é lembrado em Refidim.
O "passar" que é perdão
Miqueias 7:18 — "Quem é Deus como tu, que perdoa a iniquidade e passa por cima da transgressão do resto da sua herança? Ele não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer no amor fiel."
O versículo em que Rabi Meir apoia a leitura de "passe adiante do povo" como "faça como eu: passe por cima".
Os três objetos que matavam e davam vida
Levítico 10:1-2 — "Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, puseram nele fogo e sobre ele incenso, e ofereceram diante do SENHOR fogo estranho, que ele não lhes tinha ordenado. Então saiu fogo de diante do SENHOR e os consumiu."
Números 16:47-48 — "Arão tomou o incensário, como Moisés tinha dito, e correu para o meio da assembleia; e eis que a praga já tinha começado no povo. Ele pôs o incenso e fez expiação pelo povo. Pôs-se entre os mortos e os vivos, e a praga cessou."
2 Samuel 6:11 — "A arca do SENHOR ficou três meses na casa de Obede-Edom, o geteu, e o SENHOR abençoou Obede-Edom e toda a sua casa."
As três passagens que a Mekhilta junta ao cajado: o incenso que matou e o que salvou, a arca que feriu e a que abençoou.
Quem vai adiante no deserto
Números 10:31 — "Moisés disse: 'Não nos deixe, porque você sabe onde devemos acampar no deserto, e será os nossos olhos.'"
Gênesis 33:3 — "Ele mesmo passou à frente deles e curvou-se até o chão sete vezes, ao aproximar-se do seu irmão."
Jacó vai à frente da família ao encontro de Esaú, de quem tinha medo. Nachmânides cita o verso para mostrar o sentido de "passar adiante": ir na frente do grupo, e ir na frente do perigo.
As testemunhas
Deuteronômio 19:15 — "Uma só testemunha não bastará contra ninguém, em qualquer culpa ou pecado; pela boca de duas ou três testemunhas se estabelecerá o fato."
Rute 4:11 — "Todo o povo que estava à porta, e os anciãos, disseram: 'Somos testemunhas.'"
O cajado de pastor
Gênesis 32:10 — "não sou digno de todas as tuas bondades e de toda a fidelidade que mostraste ao teu servo; pois atravessei este Jordão levando apenas o meu cajado, e agora me tornei dois grupos."
O cajado como o único bem de quem anda pelo deserto. O de Jacó marca a pobreza da partida; o de Moisés, que também era só um bastão de pastor, carrega agora a memória do Egito.
A partida sem destino
Gênesis 12:1 — "O SENHOR disse a Abrão: 'Saia da sua terra, da sua parentela e da casa de seu pai, para a terra que eu lhe mostrarei.'"
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E o SENHOR disse a Moisés: “Passe adiante do povo e leve com você alguns dos anciãos de Israel; leve também na mão o seu cajado, com o qual você feriu o Nilo, e vá.
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר יְהוָה אֶל־מֹשֶׁה עֲבֹר לִפְנֵי הָעָם וְקַח אִתְּךָ מִזִּקְנֵי יִשְׂרָאֵל וּמַטְּךָ אֲשֶׁר הִכִּיתָ בּוֹ אֶת־הַיְאֹר קַח בְּיָדְךָ וְהָלָכְתָּ׃
Transliteração
va-yómer YHWH el-Moshé: avór lifnéi ha-am, ve-qách ittekhá mi-ziqnéi Yisra'él; u-mattekhá asher hikkíta bo et-ha-ye'ór qach be-yadekhá, ve-halákhta.
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמֶר יְהוָה אֶל־מֹשֶׁה — va-yómer YHWH el-Moshé, "e disse o SENHOR a Moisés". A forma verbal que encadeia a narrativa, da raiz '-m-r, dizer. Responde ao "dizendo" do versículo anterior sem nenhuma partícula de consolo.
עֲבֹר — avór, "passe". Imperativo Qal — a forma simples do verbo hebraico — da raiz '-v-r, cujo sentido básico é atravessar: um rio, uma fronteira, um território. Daí saem os outros sentidos: passar por alguém, passar à frente, ir além, e, com a palavra "transgressão", passar por cima de uma falta, isto é, perdoá-la (Miqueias 7:18; e, ao contrário, Amós 7:8, "não passarei mais por ele", quer dizer "não o perdoarei mais"). Todas as leituras do item 3 saem deste leque de sentidos. Nachmânides compara a forma causativa do mesmo verbo em Gênesis 47:21, onde José "fez o povo passar" para as cidades.
לִפְנֵי הָעָם — lifnéi ha-am, "adiante do povo". Literalmente "para a face do povo": a preposição le e penei, forma ligada de panim, "rosto". A expressão serve para "diante de" (no espaço, à vista de alguém) e para "à frente de" (na marcha). Onkelos manteve a ambiguidade com o aramaico qodam.
וְקַח אִתְּךָ — ve-qách ittekhá, "e leve com você". Imperativo Qal da raiz l-q-ch, tomar, levar, e a preposição et, "com", com o sufixo da segunda pessoa. O verbo volta adiante na mesma frase, aplicado ao cajado.
מִזִּקְנֵי יִשְׂרָאֵל — mi-ziqnéi Yisra'él, "alguns dos anciãos de Israel". A preposição min, "de", aqui com valor de parte: "dentre os anciãos". O substantivo é zeqenim, os "velhos", os "barbados", na forma ligada ao nome que vem depois. A tradução "alguns" vem da preposição; o número não é dado.
וּמַטְּךָ — u-mattekhá, "e o seu cajado". O substantivo matteh com o sufixo da segunda pessoa. Em Êxodo 4:20 e em Êxodo 17:9 a mesma palavra vem ligada a "Deus"; aqui, ao dono humano. O campo da palavra, que vai do bastão ao cetro e à tribo, está no estudo de Êxodo 4:2.
אֲשֶׁר הִכִּיתָ בּוֹ — asher hikkíta bo, "com o qual você feriu". O relativo asher, o verbo nakah no Hiphil — a forma causativa do verbo hebraico —, perfeito, segunda pessoa do masculino singular, e bo, "com ele", a preposição de instrumento. O verbo é o do golpe, e é exatamente o que o versículo seguinte repete para a rocha.
אֶת־הַיְאֹר — et-ha-ye'ór, "o Nilo". Ye'or é palavra emprestada do egípcio itrw, "rio", e na Bíblia designa quase sempre o Nilo. É a última vez que a palavra aparece no livro do Êxodo.
קַח בְּיָדְךָ — qach be-yadekhá, "leve na sua mão". O mesmo imperativo de antes, e yad, "mão", com a preposição be. A expressão "na mão" volta em Êxodo 17:9, "com o cajado de Deus na mão".
וְהָלָכְתָּ — ve-halákhta, "e vá". O perfeito com o "e" que, no hebraico bíblico, faz a forma valer como ordem ou futuro; raiz h-l-k, andar, ir. A ordem fecha sem complemento de lugar.
11. Conclusão
Com base no que o versículo diz e cala, a primeira conclusão é que Deus tratou a crise de Refidim como problema de água, e não como problema de disciplina. Não houve sentença contra o povo nem consolo para Moisés: houve um caminho, uma delegação e um instrumento. Qualquer que seja o sentido de "passe adiante", e a tradição encontrou nele desde uma prova para o líder até um convite a perdoar, o resultado é o mesmo: Moisés sai da posição de acuado e vai à frente.
A segunda conclusão é sobre o cajado. Deus o identifica pelo golpe que deixou o Nilo imbebível, e esse é o único golpe anterior sobre água que o texto registra. O versículo amarra a sede do Egito à água do deserto com o mesmo objeto e o mesmo verbo. A leitura de que o povo temia o cajado é dedução dos rabinos, não dado do texto; o que o texto garante é que o instrumento lembrado pelo castigo é o escolhido para a vida, e que esse milagre, feito longe do povo, chegaria a Israel pelo relato de quem o viu.













