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Êxodo 16:6

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 12 acessos
Moisés e Arão disseram a todos os filhos de Israel: “À tarde vocês saberão que foi o SENHOR quem os tirou da terra do Egito,
Moisés e Arão de pé diante de uma multidão no deserto, à luz do fim da tarde, Moisés com o braço erguido apontando para o horizonte enquanto o povo os escuta em silêncio.

Estudo


Moisés e Arão disseram a todos os filhos de Israel: “À tarde vocês saberão que foi o SENHOR quem os tirou da terra do Egito,

1. Introdução

Moisés e Arão respondem juntos à queixa que foi feita aos dois, e respondem com uma promessa de conhecimento: à tarde o povo saberá que foi o SENHOR quem o tirou do Egito. A frase corrige a acusação de Êxodo 16:3, em que o povo atribuiu a saída aos dois líderes, e o faz com o mesmo verbo, "tirar". O que eles anunciam não é o que Deus acabou de dizer a Moisés — não há regra diária nem sexto dia —, mas um sinal marcado para a mesma tarde. E a ordem é curiosa: primeiro se saberá, à tarde; só depois se verá, de manhã. O versículo pergunta, sem dizer, como se reconhece o autor de um acontecimento que todos viveram.

2. Contexto Histórico e Cultural

Comer na hora certa: a refeição como marca de gente livre

O versículo põe a primeira prova da libertação numa hora do dia — a tarde — e, como se verá nos versículos seguintes, numa refeição. Para entender o peso disso é preciso lembrar como se comia.

No Israel antigo, as fontes sugerem duas refeições por dia: uma leve de manhã e a principal ao fim da tarde, quando o trabalho do campo acabava. Os corvos de Elias levam-lhe "pão e carne de manhã, e pão e carne à tarde" (1 Reis 17:6), o que dá o ritmo normal de uma pessoa sustentada. Boaz oferece pão a Rute no meio do dia de colheita (Rute 2:14), mas é refeição de trabalho, no campo. A refeição da tarde era a da casa, da família reunida, e a carne, quando havia, aparecia nela.

Quem não era dono do próprio tempo não tinha esse ritmo. O trabalhador de corveia, o escravo, o soldado em marcha comiam quando a ração chegava e quando o capataz deixava. O Talmude guardou uma frase que liga exatamente essa diferença ao Êxodo 16. No tratado Yoma (75b), Rabi Acha bar Yaakov diz: "No começo, Israel era como galinhas ciscando no lixo, até que veio Moisés e lhes fixou horas de refeição". As horas que Moisés fixou são as deste capítulo: carne à tarde, pão de manhã.

Obadias Sforno (comentarista italiano do século XVI), comentando justamente este versículo, faz da frase do Talmude uma leitura da libertação. Vocês ficavam junto à panela de carne no Egito, diz ele, mas nunca tinham tempo de comer dela; eram tratados como animais, que não têm hora certa para comer. Quando à tarde receberem comida suficiente para aquela tarde, saberão que saíram do Egito de verdade — e que saíram também do domínio dos que mandavam no seu tempo. Para Sforno, o sinal não é só a codorniz; é a refeição com hora marcada.

A leitura é de um comentarista do século XVI, e o texto não fala em horários de escravos. Mas ela toca um dado real: a resposta ao "quem dera tivéssemos morrido junto à panela de carne" (Êxodo 16:3) não é só carne. É carne na hora em que gente livre come.

O sinal com prazo

No mundo antigo, um sinal anunciado com hora marcada era a forma mais forte de prova que um porta-voz podia oferecer. O Êxodo já tinha usado o recurso contra o Egito: "amanhã acontecerá este sinal" (Êxodo 8:23), "amanhã, a esta hora" (Êxodo 9:18). Era o prazo que separava o acontecimento comum do acontecimento atribuível a alguém. Agora o mesmo recurso é usado para Israel, e a prova não é uma praga, é comida.

3. Análise Teológica do Versículo

"Moisés e Arão disseram a todos os filhos de Israel"

A queixa de Êxodo 16:2-3 foi feita contra os dois, e agora os dois respondem juntos. É a primeira vez desde o mar que Arão fala com Moisés diante do povo. A resposta tem a forma de quem foi acusado em dupla e se defende em dupla — mas, como se verá, a defesa não é deles.

E o que eles dizem não é o que Deus acabou de dizer. Nos versículos 4 e 5 Deus falou a Moisés de pão do céu, de porção diária, de prova e de sexto dia. Nada disso aparece aqui. Moisés e Arão falam de uma tarde e de uma manhã, de saber e de ver. A carne da tarde, que eles vão anunciar no versículo 8, Deus só mencionará em Êxodo 16:12. O texto, como está, põe os mensageiros dizendo mais cedo o que o remetente diz mais tarde. A questão da ordem é tratada no estudo de Êxodo 16:11.

"À tarde"

O hebraico diz só "tarde", sem preposição — e Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) esclarece que vale por "à tarde". Que tarde? Abraão ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) responde: a deste mesmo dia. O sinal não fica para um futuro indefinido; tem prazo de horas.

Há uma inversão de ordem que só se percebe juntando este versículo ao seguinte: "à tarde vocês saberão… de manhã verão". Normalmente se vê primeiro e se sabe depois. Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) estranhou isso: soa invertido, porque em geral a gente vê uma coisa antes de conhecê-la. Ele resolve dizendo que as duas frases valem para as duas provisões — saber e ver tanto a carne quanto o pão —, e compara com Zacarias 9:17, onde o trigo vai com os rapazes e o vinho com as moças, mas a bênção é dos dois.

Há outra saída. O que se "sabe" à tarde não é algo que se veja: é uma autoria. A carne pode ser vista; quem a mandou não. O versículo 6 promete o conhecimento de uma coisa invisível, e o versículo 7 promete a visão de outra. A ordem não está invertida se cada verbo tem o seu objeto próprio.

"vocês saberão"

A frase lembra a fórmula que o Êxodo repete desde Êxodo 6:7: "vocês saberão que eu sou o SENHOR". Mas aqui ela vem com três diferenças.

A primeira é quem fala. Na fórmula, é Deus em primeira pessoa: "eu sou". Aqui são Moisés e Arão, falando de Deus em terceira pessoa. A fórmula passa da boca de Deus para a dos seus porta-vozes.

A segunda é o que se saberá. A fórmula ensina uma identidade: "que eu sou o SENHOR". Este versículo ensina uma autoria: "que foi o SENHOR quem os tirou". Não se trata de saber quem Deus é, mas de saber quem fez uma coisa que já aconteceu.

A terceira é para quem. Nas pragas, a fórmula visava sobretudo os egípcios e o rei (Êxodo 7:5, 14:4, 14:18). Aqui ela visa Israel — o povo que, junto ao mar, "creu no SENHOR e em Moisés, seu servo" (Êxodo 14:31). Trinta dias depois, quem tinha crido precisa saber. A fé do mar não dispensou o conhecimento do deserto.

"que foi o SENHOR quem os tirou da terra do Egito"

No hebraico, o nome divino vem antes do verbo, em posição de destaque: "que o SENHOR — ele — os tirou". A Bíblia de Cambridge (série de comentários da universidade inglesa) marca o efeito: é a resposta direta a Êxodo 16:3, onde o povo disse a Moisés e Arão "vocês nos trouxeram a este deserto". Rashi, Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, século XII) e Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) leem todos assim: não fomos nós, foi o SENHOR.

O verbo é o mesmo nas duas frases. O povo disse "vocês nos fizeram sair"; Moisés e Arão respondem "o SENHOR os fez sair". A ABC traduziu o primeiro por "trouxeram", por causa do "a este deserto" que vem em seguida, e o segundo por "tirou", por causa do "da terra do Egito". Em português a resposta perde o eco; em hebraico ela pega a palavra da acusação e troca o sujeito.

E aqui a acusação do povo não era absurda. O próprio Êxodo tinha dado a Moisés o papel de quem tira. "Vá: eu o envio a Faraó, para que você tire do Egito o meu povo" (Êxodo 3:10). "Quando você tirar o povo do Egito" (Êxodo 3:12). E, depois da genealogia: "São eles que falaram a Faraó para tirar do Egito os filhos de Israel: estes mesmos, Moisés e Arão" (Êxodo 6:27). O povo só repetiu, com raiva, o que o texto já dizia com honra.

A autoria da saída oscila no livro inteiro. No bezerro de ouro, Deus dirá a Moisés: "o seu povo, que você tirou da terra do Egito" (Êxodo 32:7), e Moisés devolverá: "o teu povo, que tiraste da terra do Egito" (Êxodo 32:11). Cada um atribui o povo e a saída ao outro. Êxodo 16:6 é o primeiro lugar em que a disputa aparece, e Moisés a resolve sem hesitar: o autor é Deus.

Por que isso precisava ser sabido de novo, se o povo já tinha visto as pragas e o mar? A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) responde com uma regra: daqui se aprende que a saída do Egito equivale a todos os milagres e feitos que Deus fez por Israel. Saber quem tirou é saber o principal. As outras provas vêm depois e dependem desta.

O versículo não diz como o povo saberá. Não diz que a carne virá, nem que virá do céu, nem que será suficiente. Diz só a hora e o resultado. O que vai acontecer à tarde fica em aberto até Êxodo 16:13. A promessa é feita sobre o efeito no entendimento do povo, não sobre o fenômeno.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés e Arão — falam juntos, como dupla acusada. É a dupla que o Êxodo apresentou formalmente depois da genealogia: "estes mesmos, Moisés e Arão" (Êxodo 6:26-27). Desde então, falaram juntos a Faraó; aqui, pela primeira vez no deserto, falam juntos ao povo. No versículo seguinte a fala continua no plural ("nós, que somos?"); no versículo 8, Moisés fala sozinho.

Todos os filhos de Israel — o destinatário é o povo inteiro, não os anciãos nem um grupo de representantes. A Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) escreveu "toda a congregação dos filhos de Israel", aproximando este versículo do versículo 2.

O SENHOR — o sujeito do verbo "tirar", posto em destaque na frase. Ele não fala neste versículo; é falado.

A terra do Egito — o ponto de partida, nomeado por quem responde. O povo, em Êxodo 16:3, tinha nomeado o ponto de chegada: "este deserto". Uma frase mede a saída pelo que se deixou; a outra, pelo lugar onde se chegou.

A tarde — a deste mesmo dia, segundo Ibn Ezra. É a hora em que, no versículo 13, as codornizes cobrirão o acampamento. O dia em questão é, pela data do versículo 1, o décimo quinto do segundo mês, ou o seguinte.

5. Pontos de Ensino

1. A resposta à acusação não é autodefesa. Moisés e Arão foram acusados de levar o povo à morte. Não dizem "não fizemos isso"; dizem "não fomos nós". A defesa que oferecem é tirar a si mesmos da cena.

2. Crer não dispensa saber. O povo que creu junto ao mar precisa, um mês depois, de um sinal para saber quem o tirou do Egito. O texto não trata isso como falta de fé; trata como algo que precisa ser renovado pela experiência.

3. O agente visível não é o autor. O próprio Êxodo tinha chamado Moisés e Arão de "os que tiraram" o povo. O versículo não nega o papel deles; nega que o papel seja autoria. Instrumento e autor não se confundem.

4. O sinal tem hora. "À tarde" não é imagem nem promessa vaga: é prazo. O que se pode verificar no mesmo dia tem outra força do que o que se promete para um futuro indefinido.

5. A libertação se reconhece também na mesa. A primeira prova de que o povo saiu do Egito não é uma vitória nem uma lei: é uma refeição na hora certa. A leitura de Sforno, que liga o versículo às horas fixas de comer, mostra como algo tão comum pode carregar o sentido de liberdade.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo promete que um acontecimento — algo que vai aparecer à tarde — fará o povo saber quem foi o autor de outro acontecimento, a saída do Egito. Como se passa de um fato visível para o conhecimento de um autor invisível? E como se distingue o autor do instrumento, quando o instrumento é o que todo mundo viu?

William Paley e o relógio na charneca

William Paley (1743-1805), clérigo e filósofo inglês, escreveu dois livros que foram leitura obrigatória em Cambridge por gerações: Uma visão das evidências do cristianismo (1794) e Teologia Natural (1802). O segundo começa com a imagem mais famosa da filosofia da religião.

Suponha, diz Paley, que eu atravesse uma charneca e tropece numa pedra. Se me perguntarem como ela foi parar ali, posso responder que sempre esteve ali, e ninguém achará a resposta absurda. Mas suponha que eu ache no chão um relógio. A mesma resposta não serve. As peças do relógio estão arranjadas para um fim — marcar as horas —, e esse arranjo exige alguém que o tenha arranjado. Não preciso ter visto o relojoeiro, nem saber como se fabrica um relógio, nem mesmo que o relógio funcione perfeitamente, para concluir que ele teve um autor.

O passo seguinte do argumento, no capítulo 2, é o que mais interessa aqui. Paley imagina que o relógio encontrado tivesse dentro de si um mecanismo capaz de produzir outro relógio. Isso eliminaria a necessidade de um relojoeiro? Não, responde ele. O primeiro relógio seria apenas a causa intermediária do segundo, não o seu autor — tão autor quanto um moinho é autor da farinha. O mecanismo que transmite o arranjo não explica o arranjo. A presença de um intermediário visível, por mais engenhoso, não dispensa a pergunta pelo autor; ela a torna mais urgente.

Moisés como relógio que produz relógio

Êxodo 16:6 faz a mesma distinção, em outra escala. O povo viu Moisés e Arão diante de Faraó, viu o cajado, viu as ordens dadas e cumpridas. O agente visível da saída foram eles, e o próprio Êxodo os chamou assim. A acusação de Êxodo 16:3 não erra o que viu; erra a inferência. Toma o intermediário pelo autor.

A resposta de Moisés e Arão é, em forma, a de Paley: nós somos o mecanismo; o autor é outro. E o que eles oferecem como prova também se parece com o argumento do relógio. Não pedem que o povo veja Deus; pedem que observe um arranjo — uma provisão que chega na hora anunciada, para aquela gente, naquele lugar sem comida — e infira dele um autor. A tarde é a charneca; o que vai cair no acampamento é o relógio.

Onde a comparação para

O argumento de Paley foi duramente criticado. David Hume, nos Diálogos sobre a religião natural (publicados em 1779, antes do livro de Paley), já tinha objetado que a analogia entre o universo e uma máquina é fraca, e que, mesmo aceita, ela não prova um autor único, bom ou ainda vivo. Meio século depois, Charles Darwin, que leu Paley com admiração quando estudante, ofereceu um mecanismo — a seleção natural — capaz de produzir arranjo sem relojoeiro. A discussão de Hume sobre milagres e testemunho, a outra frente do debate, já está no estudo de Mateus 16:1.

Mas a comparação com o Êxodo não depende de Paley ter ganho essa discussão. Há três diferenças que a limitam. A primeira é que Paley raciocina sobre a natureza inteira, e o versículo sobre um acontecimento datado. A segunda é que no Êxodo a inferência é anunciada antes do fato, por quem diz conhecer o autor; em Paley, o observador chega sozinho à conclusão. A terceira é a mais importante: Paley quer provar que existe um autor; Moisés e Arão não discutem se Deus existe — ninguém no deserto duvida disso. Discutem quem fez. É uma pergunta de atribuição, não de existência.

É nessa forma mais modesta que a ideia de Paley ilumina o versículo. Saber quem tirou o povo do Egito não é ver um rosto; é perceber, num arranjo que chega na hora certa, a marca de alguém que não é o mensageiro. Se isso vale como prova, é discutido desde Hume. Que o versículo pede exatamente esse tipo de inferência, o texto mostra.

7. Aplicações Práticas

Separar quem fez de quem apareceu. Em toda organização — família, empresa, igreja — o crédito e a culpa costumam cair sobre quem está à frente. O versículo mostra um líder recusando as duas coisas pelo mesmo motivo: não foi ele o autor. Quem lidera pode usar a pergunta "quem, de fato, fez isto?" tanto para não aceitar uma culpa indevida quanto para não aceitar um elogio que não é seu.

Responder a uma acusação sem contra-atacar. Moisés e Arão foram acusados de querer matar o povo de fome. A resposta não devolve a acusação nem ofende ninguém: corrige o fato e marca um prazo para a verificação. Diante de uma acusação injusta, a resposta mais forte costuma ser a que pode ser conferida — e logo.

Refazer o conhecimento depois de uma crise. O povo já tinha visto o mar se abrir, e um mês depois duvidava de quem o tinha tirado do Egito. A memória das grandes experiências se desgasta com a fome do dia a dia. Não é sinal de fraqueza precisar ser lembrado; é condição humana, e o versículo não a condena.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Moisés e Arão falaram por conta própria?

O texto não registra uma ordem de Deus para este anúncio. Deus falou de pão e de prova (Êxodo 16:4-5), não de tarde e de carne. Há quem leia que Moisés recebeu mais do que o texto conta, e que a narrativa abrevia uma das duas falas, como Nachmânides diz que ela faz com frequência. Há quem leia que os versículos foram reorganizados quando o capítulo foi composto. Não é possível decidir; o que o texto mostra é que, no versículo 12, Deus confirma o que os dois anunciaram.

O povo duvidava mesmo de que Deus o tinha tirado do Egito?

Provavelmente não em termos de doutrina. A frase de Êxodo 16:3 é uma acusação feita na fome, e quem acusa os líderes não está fazendo teologia. O versículo 6 responde mais à acusação do que a uma dúvida formal. Mas a resposta trata a acusação como erro de conhecimento — algo que um fato pode corrigir.

Se o sinal da tarde falhasse, o que aconteceria?

O texto não considera a hipótese. Mas a forma do anúncio, com prazo de horas, é a mesma que o Deuteronômio usará para distinguir o profeta verdadeiro do falso: se a palavra anunciada não acontecer, ela não veio do SENHOR (Deuteronômio 18:22). Moisés e Arão se expõem a esse teste diante do povo inteiro.

Por que a tarde vem antes da manhã?

Porque o sinal é para o mesmo dia, e o dia em que se fala já está em curso; a manhã seguinte é o primeiro momento possível para o segundo sinal. Há quem veja também a ordem de Gênesis 1, "houve tarde e manhã", em que o dia começa à tarde. O texto não faz a ligação.

9. Conexão com Outros Textos

A acusação que a frase corrige

Êxodo 16:3 — "Os filhos de Israel lhes disseram: 'Quem dera tivéssemos morrido pela mão do SENHOR na terra do Egito, quando nos sentávamos junto à panela de carne, quando comíamos pão até nos fartar! Pois vocês nos trouxeram a este deserto para matar de fome toda esta assembleia.'"

O "vocês nos trouxeram" e o "o SENHOR os tirou" são o mesmo verbo hebraico. O versículo 6 devolve a palavra com outro sujeito.

Êxodo 14:11 — "E disseram a Moisés: 'Foi por não haver sepulturas no Egito que você nos tirou de lá para morrermos no deserto? Que foi isso que você fez conosco, tirando-nos do Egito?'"

A mesma acusação, junto ao mar, dirigida só a Moisés. Lá a resposta foi "o SENHOR pelejará por vocês" (Êxodo 14:14); aqui é "vocês saberão".

Moisés como quem tira

Êxodo 3:10 — "Vá agora: eu o envio a Faraó, para que você tire do Egito o meu povo, os filhos de Israel."

Êxodo 6:27 — "São eles que falaram a Faraó, rei do Egito, para tirar do Egito os filhos de Israel: estes mesmos, Moisés e Arão."

O próprio Êxodo deu a Moisés e Arão o verbo que o povo usa contra eles. Êxodo 16:6 não desmente esses textos; põe-nos em ordem: eles tiraram como enviados, o SENHOR tirou como autor.

A autoria disputada no bezerro de ouro

Êxodo 32:7 — "Então o SENHOR disse a Moisés: 'Vá, desça, porque o seu povo, que você tirou da terra do Egito, se corrompeu.'"

Êxodo 32:11 — "Moisés, porém, suplicou ao SENHOR, seu Deus, e disse: 'Por que, SENHOR, se acende a tua ira contra o teu povo, que tiraste da terra do Egito com grande poder e mão forte?'"

Dezesseis capítulos depois, Deus e Moisés empurram um para o outro a autoria da saída. Em Êxodo 16:6 Moisés já tinha escolhido a resposta que dará em 32:11.

Crer e saber

Êxodo 14:31 — "E Israel viu a grande mão com que o SENHOR agiu contra os egípcios; e o povo temeu ao SENHOR, e creram no SENHOR e em Moisés, seu servo."

A fé do mar incluía Moisés, e foi justamente a parte de Moisés que a fome transformou em acusação. O deserto pede que se saiba de novo o que se tinha crido.

O sinal com prazo, como critério

Deuteronômio 18:22 — "Quando o profeta falar em nome do SENHOR e a palavra não se cumprir nem acontecer, essa é a palavra que o SENHOR não falou; com presunção a falou o profeta."

A lei do profeta transforma em critério o que Moisés e Arão fazem aqui: anunciar com prazo e deixar o fato julgar.

A fórmula de reconhecimento

Êxodo 6:7 — "Eu os tomarei para mim como povo e serei o Deus de vocês; e vocês saberão que eu sou o SENHOR, o Deus de vocês, que os tira de debaixo das cargas do Egito."

A promessa que abre a série do "vocês saberão" já ligava o conhecimento à saída do Egito. Êxodo 16:6 é o seu primeiro cumprimento depois da saída, e na boca dos mensageiros; o estudo de Êxodo 6:7 descreve a fórmula.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Moisés e Arão disseram a todos os filhos de Israel: “À tarde vocês saberão que foi o SENHOR quem os tirou da terra do Egito,

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן אֶל־כָּל־בְּנֵי יִשְׂרָאֵל עֶרֶב וִידַעְתֶּם כִּי יְהוָה הוֹצִיא אֶתְכֶם מֵאֶרֶץ מִצְרָיִם׃

Transliteração

va-yómer Moshé ve-Aharón el-kol-benéi Yisraél: érev vi-ydatém ki YHWH hotsí etkhém me-érets Mitsráyim.

Análise palavra por palavra

וַיֹּאמֶר — va-yómer, "e disse".

Qal — a forma simples do verbo hebraico —, na forma que encadeia a narrativa, terceira pessoa do masculino singular, embora o sujeito seja duplo. O hebraico costuma concordar o verbo com o primeiro sujeito quando o verbo vem antes: "e disse Moisés, e Arão". A gramática põe Moisés em primeiro plano e Arão como acompanhante, mesmo numa fala conjunta.

מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן — Moshé ve-Aharón, "Moisés e Arão". Êxodo 6:26 põe Arão primeiro ("o Arão e o Moisés"); Êxodo 6:27 volta a pôr Moisés na frente, e é essa a ordem daqui.

אֶל־כָּל־בְּנֵי יִשְׂרָאֵל — el-kol-benéi Yisraél, "a todos os filhos de Israel". Preposição el, "a, para"; kol, "todo"; benéi, forma ligada de baním, "filhos". O versículo 2 tinha dito "toda a congregação dos filhos de Israel"; aqui a palavra "congregação" falta no hebraico, e a Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) a repõe: pâsan synagōgḗn, "toda a congregação".

עֶרֶב — érev, "tarde".

Substantivo masculino, sem preposição e sem artigo, usado como advérbio de tempo: "à tarde". Rashi lê como se fosse la-érev, com a preposição. É a palavra simples da tarde, a de Gênesis 1:5 ("houve tarde e manhã"). Em Êxodo 16:8 vem com preposição, ba-érev, e em Êxodo 16:12 aparece a expressão técnica bein ha-arbáyim, "entre as duas tardes", a do sacrifício pascal. Três formas para a mesma hora em seis versículos.

A palavra abre a fala sem verbo antes dela. O efeito, em hebraico, é de anúncio cortado: "Tarde — e vocês saberão".

וִידַעְתֶּם — vi-ydatém, "e vocês saberão".

Qal perfeito, segunda pessoa do masculino plural, da raiz y-d-', conhecer, saber, com a conjunção "e" que dá ao perfeito valor de futuro. O "e" liga o saber à tarde como consequência: chegada a tarde, segue-se o saber. É a mesma forma de "vocês saberão" em Êxodo 6:7, mas aqui sem o "que eu sou o SENHOR" que costuma vir depois.

כִּי — ki, "que". Conjunção que introduz o conteúdo do que se saberá.

יְהוָה — YHWH, "o SENHOR".

O nome divino vem antes do verbo, o que não é a ordem normal da oração hebraica. A inversão põe o sujeito em destaque: "que o SENHOR — e não outro — os tirou". A ABC traduz o efeito com "que foi o SENHOR quem os tirou".

הוֹצִיא — hotsí, "tirou, fez sair".

Hifil — a forma causativa do verbo hebraico — perfeito, terceira pessoa do masculino singular, da raiz y-ts-', sair. No Hifil, fazer sair. É o verbo técnico da saída do Egito em todo o Pentateuco ("eu sou o SENHOR, o seu Deus, que o tirei da terra do Egito", no início do Decálogo).

É também, exatamente, o verbo de Êxodo 16:3: hotsetém otánu el-ha-midbár ha-zé, "vocês nos fizeram sair para este deserto". Ali o sujeito é "vocês" e o destino é o deserto; aqui o sujeito é o SENHOR e o ponto de partida é o Egito. A ABC traduziu o mesmo verbo por "trouxeram" no versículo 3 e por "tirou" aqui, porque em português "tirar para este deserto" soaria estranho; o leitor do português perde, com isso, a resposta palavra por palavra que o hebraico dá à acusação.

אֶתְכֶם — etkhém, "vocês" (objeto). A partícula de objeto direto com sufixo de segunda pessoa do plural. No versículo 3 o povo disse "nos" (otánu); aqui os líderes dizem "vocês". Não se incluem: falam de fora, como quem não é parte interessada na autoria.

מֵאֶרֶץ מִצְרָיִם — me-érets Mitsráyim, "da terra do Egito". Preposição min, "de", contraída, e a expressão fixa "terra do Egito". O Pseudo-Jônatas (paráfrase aramaica livre da Torá) acrescenta "livres": "que o SENHOR os tirou libertos da terra do Egito".

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que a resposta de Moisés e Arão à acusação não é uma defesa pessoal, mas uma correção de autoria. Eles não dizem que agiram bem; dizem que não foram eles. O Êxodo, que em outros lugares lhes dá o papel de "quem tira", aqui distingue o instrumento do autor, e é o instrumento que faz a distinção.

A segunda é que o conhecimento prometido tem objeto e prazo. Não se promete uma visão de Deus nem uma revelação interior: promete-se que, ao fim da tarde, um fato permitirá atribuir a saída do Egito a quem a fez. A fé do mar não bastou para isso; o deserto pede um saber renovado, conferível no mesmo dia.

A terceira é que o sinal escolhido para dar esse saber é uma refeição. Quem acusou os líderes de trazê-lo para morrer de fome recebe a prova de quem o libertou em forma de comida na hora certa. A libertação, no Êxodo 16, se reconhece primeiro na mesa — e só depois, de manhã, na glória.

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