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Êxodo 16:7

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 16 acessos
e de manhã verão a glória do SENHOR, porque ele ouviu as murmurações de vocês contra o SENHOR. E nós, que somos, para que murmurem contra nós?”
Ao entardecer no deserto, Moisés e Arão de pé diante de uma multidão abatida, com as mãos abertas em gesto de quem recusa algo, enquanto no horizonte a primeira claridade do céu anuncia a manhã.

Estudo


e de manhã verão a glória do SENHOR, porque ele ouviu as murmurações de vocês contra o SENHOR. E nós, que somos, para que murmurem contra nós?”

1. Introdução

Diante de um povo com fome, Moisés e Arão prometem que, de manhã, todos verão a glória do SENHOR — e é a primeira vez que a Bíblia usa essa expressão. Que glória é essa se discute desde a Antiguidade: o pão que cairia na manhã seguinte, ou a nuvem luminosa que aparece ainda no mesmo dia, poucos versículos adiante? A promessa traz um motivo, "ele ouviu as murmurações", e uma correção de endereço: a queixa, dizem os dois, foi feita contra o SENHOR. O versículo fecha com uma pergunta curta, "E nós, que somos?", que o Talmude leu como a frase mais humilde da Bíblia e o gramático medieval Ibn Ezra leu como simples descrição de cargo. E no fim há uma palavra que o texto escrito e a leitura tradicional não pronunciam do mesmo jeito — e a diferença muda quem estava murmurando.

2. Contexto Histórico e Cultural

A manhã como hora da resposta

A promessa tem um horário, e o horário não é neutro. Em 1950, o biblista alemão Joseph Ziegler reuniu num estudo os textos do Antigo Testamento que situam a ajuda de Deus "pela manhã", e mostrou que eles formam uma série. Quatro décadas depois, Bernd Janowski, também alemão, retomou o tema num livro inteiro (1989) e o comparou com o Oriente antigo, onde o deus-sol que nasce era invocado como juiz que vê tudo. A tese dos dois, hoje bastante aceita, é que a manhã funcionava em Israel como a hora em que a causa de quem clamou é decidida.

Os textos que sustentam a tese são concretos e vêm da vida judicial. Jeremias manda à casa real: "Julguem pela manhã" (Jeremias 21:12). Absalão, para ganhar o povo, levanta-se cedo e se põe junto à porta da cidade, por onde passavam os que tinham alguma causa para levar ao rei (2 Samuel 15:2). Sofonias diz de Deus que "cada manhã ele traz o seu juízo à luz" (Sofonias 3:5). E o Salmo 5:3 junta as duas palavras deste versículo: "SENHOR, de manhã você ouve a minha voz; de manhã apresento a minha causa e fico à espera".

O Êxodo 16 tem o mesmo desenho. A queixa foi apresentada; Deus "ouviu"; a resposta vem com a luz. O texto não chama a cena de julgamento, e seria ir além dele dizer que é. O que se pode afirmar é que um leitor israelita ouvia, em "de manhã verão", o horário em que um caso pendente se resolve.

A fórmula de humildade dita de cima para baixo

A segunda frase do versículo usa uma linguagem que, no mundo antigo, tinha direção fixa: ia de baixo para cima. Quem se reduzia a nada era o vassalo escrevendo ao rei, o servo falando ao senhor, o súdito diante de quem podia decidir a sua sorte. O governante, quando falava ao povo, fazia o contrário: listava o que tinha feito. As autobiografias de funcionários egípcios, gravadas nos túmulos, repetem há séculos a mesma frase de mérito: "dei pão ao faminto, roupa ao nu".

Moisés e Arão estão exatamente na posição de quem poderia dizer isso. O povo acabou de atribuir a eles a saída do Egito ("vocês nos trouxeram a este deserto", Êxodo 16:3), e o pão está para chegar. Em vez de reclamar o crédito, os dois usam diante dos próprios liderados a fórmula que os inferiores usavam diante dos superiores. A inversão não tem paralelo fácil nos textos de governantes antigos, e é ela que faz a pergunta soar estranha. A fórmula egípcia do pão dado ao faminto foi apresentada no estudo de Gênesis 41:56.

3. Análise Teológica do Versículo

"e de manhã verão a glória do SENHOR"

A expressão "a glória do SENHOR" estreia aqui. Até este versículo, a Bíblia falou da glória de pessoas — a riqueza de Jacó, a posição de José no Egito — e, no capítulo 14, Deus disse que seria "glorificado" em Faraó. O substantivo ligado ao nome divino aparece pela primeira vez na boca de dois homens que prometem pão a um povo com fome.

E a pergunta que os comentaristas fazem desde a Antiguidade é simples: o que exatamente o povo veria de manhã? O problema nasce da sequência do capítulo. Três versículos adiante, ainda no mesmo dia, "a glória do SENHOR apareceu na nuvem" (Êxodo 16:10). E na manhã seguinte o que aparece no chão é o maná. A promessa fala de manhã; a única aparição da glória que o capítulo descreve acontece antes dela.

Primeira leitura: a glória é o próprio maná. É a mais antiga. A Mekhilta de Rabi Ishmael (a mais antiga coletânea de comentários rabínicos ao Êxodo, com material dos séculos II e III) diz que o maná foi dado "com rosto luminoso" e as codornizes "com rosto escuro". O povo pediu o pão por necessidade e a carne por desejo, tendo ainda gado; por isso o pão veio de manhã, com tempo para preparar, e a carne ao cair da tarde. Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) segue essa linha e explica que este versículo não fala da nuvem: a "glória" é o modo afetuoso como o pão seria dado. Rashbam, neto de Rashi, é mais seco: verão a glória "quando ele fizer chover pão de manhã".

Segunda leitura: a glória é a nuvem de Êxodo 16:10. Albert Barnes (comentarista norte-americano do século XIX) e John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) leem assim, e a vantagem é óbvia: o capítulo usa a mesma expressão logo adiante, e a usa para algo que se vê. O preço também é óbvio: a nuvem não aparece de manhã. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, Espanha, século XII) aceita a nuvem e paga o preço reorganizando a frase: "e de manhã" pertenceria ao versículo anterior. Moisés teria dito "à tarde e de manhã vocês saberão que foi o SENHOR quem os tirou do Egito", e "verão a glória" seria uma promessa à parte, cumprida naquele mesmo dia. A solução resolve a cronologia e desmancha a frase como ela está escrita.

Terceira leitura: a glória é o tamanho do milagre. Ramban (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) recusa as duas anteriores. Contra Rashi, pergunta que glória haveria em dar o pão cedo, e como isso se ligaria ao motivo da frase, "porque ele ouviu". Contra Ibn Ezra, observa que o texto não está escrito na ordem que ele propõe. A saída de Ramban é distinguir as duas provisões. As codornizes vieram do mar trazidas por um vento, de modo natural; o maná foi coisa criada naquele momento, "como na criação do mundo". Pelo primeiro sinal o povo saberia quem o tirou do Egito; pelo segundo veria a glória, no sentido em que Isaías fala de nações que "verão a minha glória": o poder de Deus mostrado num feito que só ele faria.

Quarta leitura: o problema está na ordem dos versículos. A crítica moderna olhou para o mesmo incômodo e propôs outra causa. S. R. Driver, na Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa), observa que, como o capítulo está, Moisés transmite ao povo nos versículos 6 a 8 uma mensagem que Deus só lhe dá nos versículos 11 e 12; os versículos 9 a 12 teriam saído do lugar. Nessa leitura, a glória da nuvem viria antes do discurso, e a promessa "de manhã verão" falaria do maná. É uma hipótese sobre a história do texto, não uma leitura dele.

Não é possível decidir entre as quatro. Cada uma resolve um pedaço do problema e deixa outro aberto. O que o texto garante é menos e é mais interessante: a primeira vez que a Bíblia fala da glória do SENHOR, ela está ligada a comida. Não a um monte, não a um templo, não a uma visão de profeta — a pão no chão de manhã, ou a uma nuvem que aparece para responder a uma queixa sobre comida.

"porque ele ouviu as murmurações de vocês contra o SENHOR"

O motivo da glória é a queixa. Não é a fé do povo, não é o mérito dos líderes, não é a promessa aos patriarcas: é ter ouvido a murmuração. A Bíblia de Genebra (a Bíblia comentada dos reformadores ingleses exilados em Genebra, 1560) se incomodou com isso e escreveu na margem que Deus deu o maná não porque reclamaram, mas por causa da promessa. A nota protege a teologia e contradiz a frase, que diz "porque ele ouviu".

Ibn Ezra liga essa oração a "verão a glória", e não a "de manhã": a glória é vista por causa da escuta, não por causa da hora.

E há o endereço: "contra o SENHOR". O povo falou contra Moisés e Arão (Êxodo 16:2-3) e nunca mencionou Deus, a não ser para dizer que preferia ter morrido "pela mão do SENHOR" no Egito. São os líderes que mudam o destinatário, antes de qualquer palavra de Deus sobre o assunto.

"E nós, que somos"

A pergunta usa "que", e não "quem". Não é "quem somos nós?", como dizem várias traduções, mas "o que somos nós?". O hebraico pergunta pela coisa, não pela pessoa. É o mesmo pronome do Salmo 8: "que é o homem, para que você se lembre dele?".

Ibn Ezra lê a frase como descrição de função: "que podemos fazer? Só fizemos o que nos mandaram". Os dois seriam executores, e a queixa erra o alvo porque mira em quem não decide. Ramban rejeita expressamente essa leitura e cita o Salmo 8 e o Salmo 144: a frase é de humildade, não de organograma. "Que somos nós, para que vocês nos atribuam a saída do Egito? Não somos nada." A Mekhilta apoia Ramban com uma pergunta retórica: "Somos assim tão importantes, para que vocês se levantem e se queixem de nós?".

O Talmude levou a frase mais longe. No tratado Chulin (folha 89a), Rabi Eliezer, filho de Rabi Yossi, o galileu, põe lado a lado três respostas à grandeza: Abraão, que diz "eu sou pó e cinza" (Gênesis 18:27); Moisés e Arão, que dizem "nós, que somos"; e Davi, "eu sou verme, e não homem" (Salmo 22:6). Em seguida, Rava (ou, segundo outros, Rabi Yochanan) compara: o que se diz de Moisés e Arão é maior do que o que se diz de Abraão, porque Abraão ainda se reconhece pó e cinza, e eles se reconhecem nada. E acrescenta que o mundo se sustenta pelo mérito dos dois, porque Jó 26:7 diz que Deus "suspende a terra sobre o nada" — e o "nada" de Jó é, em hebraico, belimah, literalmente "sem-quê", o mesmo pronome da frase de Moisés. O mesmo trecho do Talmude contrasta os humildes com os que se exaltam, e o primeiro exemplo do lado oposto vem do mesmo livro: Faraó, que perguntou "Quem é o SENHOR?" (Êxodo 5:2). O Êxodo, lido assim, tem duas perguntas: o rei pergunta quem é Deus; os servos de Deus perguntam o que são eles.

"para que murmurem contra nós?"

No final do versículo, o texto escrito e a leitura em voz alta divergem numa letra (a questão gramatical está no estudo de Êxodo 15:24). A forma que se lê na sinagoga é a do verbo causativo: não "para que vocês murmurem", mas "para que vocês façam murmurar".

Rashi tira daí uma consequência de sentido, e confessa que o faz contra a vontade: a gramática o obriga. Se a forma é causativa, a acusação de Moisés e Arão é que os que falam estão levando outros a falar — "seus filhos, suas mulheres, suas filhas e a mistura de gente" que saiu com Israel. A murmuração não seria só uma reação de cada um à fome; seria uma coisa que se espalha, com quem começa e quem é arrastado. Rashi lembra que é exatamente o que o texto dirá dos espias em Números 14:36, que "fizeram toda a comunidade murmurar".

A leitura depende de uma vogal e de um ponto, e a tradição escrita ficou com a outra forma. É uma leitura possível, e foi a de Rashi.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés e Arão

Os dois falam juntos. O versículo anterior diz "Moisés e Arão disseram", e este continua a mesma fala; o "nós" da pergunta são os dois irmãos. É a primeira vez no livro que os dois se dirigem ao povo numa única fala, sem que Arão apenas repita as palavras de Moisés. No versículo seguinte, Moisés retoma sozinho.

O SENHOR

Aparece três vezes neste versículo e não fala nenhuma. Ele é aquele cuja glória se verá, aquele que ouviu e aquele contra quem a queixa foi feita. A fala de Deus só vem em Êxodo 16:11-12.

A manhã seguinte

O tempo do versículo. Pela sequência do capítulo, é a manhã em que o orvalho sobe e deixa no chão uma coisa miúda, que ninguém sabe o que é (Êxodo 16:13-15).

A glória do SENHOR

O acontecimento prometido. A Bíblia vai usar a expressão dali em diante para a nuvem que cobre o Sinai (Êxodo 24:16-17), para a presença que enche o santuário quando ele fica pronto (Êxodo 40:34-35) e para as aparições que respondem às crises do deserto em Números.

5. Pontos de Ensino

1. A primeira glória do SENHOR na Bíblia é uma resposta à fome. A expressão estreia ligada a comida, não a culto, monte ou visão. Seja o maná, seja a nuvem, ela aparece porque um povo reclamou de não ter o que comer.

2. O texto dá como motivo a escuta, não o merecimento. "Porque ele ouviu as murmurações" é a razão declarada. A frase não condiciona a provisão a nenhuma mudança de atitude do povo.

3. Quem lidera pode recusar o crédito sem recusar a responsabilidade. Moisés e Arão não deixam de conduzir o povo; recusam a ideia de que a saída do Egito tenha sido obra deles. As duas coisas são diferentes, e o versículo mantém as duas.

4. A mesma frase admite humildade e descrição de cargo. Ibn Ezra e Ramban leem "que somos nós?" de modos opostos, e ambos encontram apoio no texto. Ler a Bíblia com seriedade inclui saber quando uma frase sustenta duas leituras.

5. Uma queixa pode ser contagiosa. Na leitura de Rashi, a acusação recai sobre quem faz outros murmurarem. O versículo distingue, então, quem sofre a fome de quem organiza a reclamação.

6. A resposta tem hora marcada. "À tarde" e "de manhã" dão ao povo um prazo concreto. A promessa não é vaga; tem calendário, e o capítulo a cumpre no prazo.

6. Aspectos Filosóficos

O que, quem e qual: Bernardo de Claraval e a pergunta de Moisés

Em 1145, um monge cisterciense de Pisa foi eleito papa com o nome de Eugênio III. Tinha sido discípulo de Bernardo, abade de Claraval (Clairvaux, na França), o homem mais influente da Igreja daquela geração. O antigo mestre escreveu ao antigo discípulo uma obra em cinco livros, Da consideração, escrita entre 1148 e 1153. É um tratado sobre como um homem investido de poder deve olhar para si mesmo.

No segundo livro, Bernardo propõe que essa consideração de si tenha três perguntas: quid, quis, qualis — o que você é, quem você é, e como você é. A primeira se refere à natureza: você é um homem, nasceu como todos, vai morrer como todos. A segunda se refere à pessoa e ao cargo: você é o bispo de Roma. A terceira se refere ao caráter: que tipo de homem você tem sido no cargo. O conselho de Bernardo é que a segunda pergunta não apague a primeira. Mais adiante, no quarto livro, ele escreve a frase que ficou mais conhecida da obra: que o papa considere a Igreja romana como mãe, e não como senhora, e a si mesmo não como senhor dos bispos, mas como um deles.

O vocabulário de Bernardo encaixa com precisão na frase do Êxodo. Moisés e Arão não perguntam "quem somos nós?" — que seria a pergunta pelo cargo, pela pessoa que ocupa a função. Perguntam "o que somos nós?", a pergunta pela natureza. No momento em que o povo os trata pelo cargo — vocês nos tiraram do Egito, vocês nos trouxeram aqui para morrer —, eles respondem pela natureza.

E a distinção de Bernardo ajuda a ver por que as duas leituras rabínicas do versículo se opõem. Ibn Ezra lê a frase como resposta sobre o quis: somos executores, o cargo não decide nada. Ramban a lê como resposta sobre o quid: somos nada diante de quem fez a obra. São duas perguntas diferentes, e a frase hebraica, por usar "que", se alinha mais com a de Ramban — sem que isso torne errada a de Ibn Ezra, que descreve com exatidão a posição de quem só transmite ordens.

Bernardo, porém, conhecia o risco do outro lado. Num tratado da juventude, Os graus da humildade e da soberba, ele lista doze degraus pelos quais o monge desce da humildade ao orgulho, e um deles é a confissão fingida: falar mal de si para ser elogiado, acusar-se para parecer humilde. A autodepreciação de quem tem poder pode ser a forma mais refinada de exercê-lo. Nada no texto do Êxodo indica que Moisés e Arão falem assim — e a prova é que a frase não pede nada ao povo: não pede reconhecimento, não pede silêncio, não pede obediência. Mas a advertência de Bernardo vale para quem cita a frase depois deles, e é por ela que o versículo seguinte precisa ser lido com cuidado.

O limite do paralelo deve ficar claro. Bernardo escrevia a um papa, dentro de uma teologia cristã do ofício; Moisés e Arão falam a um povo com fome, num texto que não conhece papas nem bispos. O que se aproveita da leitura de Bernardo é a distinção entre o que alguém é e o lugar que ele ocupa. Essa distinção não é invenção do comentarista: está na escolha de um pronome.

7. Aplicações Práticas

Responder pela natureza quando atacado pelo cargo

Quem ocupa uma função — chefe de equipe, pastor, síndico, diretor de escola — recebe queixas que são dirigidas ao lugar, e não à pessoa. A falta de recursos, a decisão de cima, a situação ruim: tudo chega ao rosto que está à frente. O versículo mostra uma resposta possível que não é nem defesa nem contra-ataque: lembrar, a si mesmo antes de aos outros, que o cargo não faz de quem o ocupa a causa de tudo. Moisés e Arão não fogem da queixa; recusam a responsabilidade por uma obra que não foi deles.

Recusar o crédito que não é seu

O mesmo princípio vale no sentido contrário, e talvez seja mais difícil. Os dois estavam prestes a ser vistos como os homens que trouxeram pão ao deserto. Recusam esse crédito antes que ele chegue. Em qualquer trabalho coletivo, é comum que o resultado seja atribuído a quem aparece, e não a quem fez; a frase "que somos nós?" é uma forma de corrigir essa atribuição antes que ela se instale.

Distinguir quem sofre de quem espalha

Na leitura de Rashi, a pergunta mira quem leva outros a reclamar. Em grupos que atravessam dificuldade, há quem sinta a falta e há quem transforme a falta em campanha. Tratar os dois do mesmo modo é injusto com o primeiro e ineficaz com o segundo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Deus atende a uma queixa que o próprio texto trata como falta?

O versículo não resolve, só registra: ele ouviu, e por isso dará. Em Números 11, uma queixa parecida por carne trará castigo junto com a carne. A diferença de tratamento entre as queixas de antes e de depois do Sinai é um fato do texto; a explicação dela — o povo ainda não tinha recebido a lei, segundo a leitura mais comum — é dos intérpretes.

Moisés e Arão estão sendo humildes ou estão se protegendo?

As duas coisas são possíveis, e a frase não permite separar. Dizer "não somos nada" desloca a queixa para longe de quem fala. Mas o versículo não usa a humildade para pedir nada em troca, e no versículo seguinte Moisés não se retira da cena: toma a queixa e a leva mais alto.

Ver a glória mudou o povo?

O capítulo responde que não, pelo menos não de imediato. Na manhã do maná, alguns guardam pão contra a ordem e ele apodrece (Êxodo 16:20); no sétimo dia, alguns saem para recolher e não acham nada (Êxodo 16:27). A glória prometida aparece, e a desobediência continua. O texto não apresenta a visão como coisa que converte quem a vê.

Se a queixa era contra Deus, por que o povo nunca o mencionou?

Porque, para o povo, quem tinha tirado Israel do Egito eram Moisés e Arão: "vocês nos trouxeram a este deserto". É essa atribuição que os dois corrigem. Se a obra foi de Deus, a queixa sobre a obra também é sobre ele — mesmo que ninguém tenha dito o nome dele. É uma leitura dos líderes, e o texto a deixa de pé: em Êxodo 16:12 é o próprio Deus quem diz que ouviu.

9. Conexão com Outros Textos

A glória que responde às crises do deserto

Números 14:10 — "Mas toda a congregação falou em apedrejá-los; e a glória do SENHOR apareceu na tenda do encontro a todos os filhos de Israel."

Números 16:19 — "Corá reuniu contra eles toda a congregação à entrada da tenda do encontro; e a glória do SENHOR apareceu a toda a congregação."

Números 20:6 — "Moisés e Arão saíram de diante da assembleia, foram à entrada da tenda do encontro e caíram sobre o rosto; e a glória do SENHOR lhes apareceu."

Contadas as ocorrências da expressão "a glória do SENHOR" na Torá, quase todas caem em três cenários: o Sinai, o santuário recém-erguido e as crises de murmuração. As de Números são todas crises — os espias, Corá, as águas de Meribá —, e em todas a glória aparece no meio da revolta. Êxodo 16:7 é o começo da série: a primeira vez que alguém fala da glória do SENHOR, há uma queixa sobre a mesa. A diferença é que em Números a aparição precede castigo; aqui, precede pão.

"Que é o homem"

Salmo 8:4 — "que é o homem, para que você se lembre dele, e o filho do homem, para que você o visite?"

Salmo 144:3 — "SENHOR, que é o homem, para que você o conheça, e o filho do homem, para que você pense nele?"

Os dois textos que Ramban cita para ler "que somos nós?" como humildade. Nos salmos, quem pergunta "que é" fala a Deus; no Êxodo, Moisés e Arão fazem a mesma pergunta diante do povo.

As outras perguntas sobre si mesmo

Êxodo 3:11 — "Mas Moisés disse a Deus: 'Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel?'"

Na sarça, Moisés pergunta "quem sou eu" — a pergunta pela pessoa — e a faz a Deus, para recusar a missão. Aqui, já com a missão cumprida, pergunta "que somos nós" ao povo, para recusar o crédito por ela.

Êxodo 5:2 — "Mas Faraó respondeu: 'Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir.'"

O Talmude, no tratado Chulin, põe esta pergunta como o oposto da de Moisés e Arão. O rei pergunta quem é Deus para lhe pedir alguma coisa; os servos perguntam o que são eles para que lhes atribuam alguma coisa.

A glória pedida

Êxodo 33:18 — "Então Moisés disse: 'Mostre-me a sua glória.'"

O homem que aqui promete ao povo que ele verá a glória do SENHOR pedirá, dezessete capítulos depois, para vê-la ele mesmo — e ouvirá que não pode ver o rosto de Deus, só as costas.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

e de manhã verão a glória do SENHOR, porque ele ouviu as murmurações de vocês contra o SENHOR. E nós, que somos, para que murmurem contra nós?”

Texto hebraico

וּבֹקֶר וּרְאִיתֶם אֶת־כְּבוֹד יְהוָה בְּשָׁמְעוֹ אֶת־תְּלֻנֹּתֵיכֶם עַל־יְהוָה וְנַחְנוּ מָה כִּי תלונו [תַלִּינוּ] עָלֵינוּ׃

Transliteração

u-voqer u-re'item et-kevod YHWH be-shom'o et-telunnoteikhem al-YHWH, ve-nachnu mah ki talinu aleinu.

Análise palavra por palavra

וּבֹקֶר — u-voqer, "e de manhã".

O substantivo boqer, "manhã", com a conjunção "e" e sem preposição nem artigo: literalmente, "e manhã". O hebraico usa o substantivo nu como advérbio de tempo, como fez com "tarde" no versículo anterior (erev, também sem preposição). No versículo seguinte, Moisés repete a promessa com preposição e artigo, ba-boqer, "na manhã". A forma nua daqui é mais solene e mais seca: tarde, e manhã.

A conjunção que abre o versículo é o ponto em que Ibn Ezra se apoia para ligar "e de manhã" ao versículo anterior, e não ao verbo que vem depois. A pontuação da tradição massorética (o sistema de vogais e acentos fixado entre os séculos VII e X) põe sobre "e de manhã" um acento de pausa, que a separa do verbo seguinte — um pequeno apoio a Ibn Ezra —, mas mantém a palavra dentro deste versículo, e o ponto final do versículo 6 continua onde está.

וּרְאִיתֶם — u-re'item, "e verão".

Verbo ra'ah, "ver", no Qal (a forma simples do verbo hebraico), perfeito com a conjunção que lhe dá valor de futuro, segunda pessoa do masculino plural. É o mesmo encadeamento de "e vocês saberão" no versículo anterior.

אֶת־כְּבוֹד יְהוָה — et-kevod YHWH, "a glória do SENHOR".

Et marca o objeto direto. Kevod é a forma de ligação de kavod, "glória", palavra da raiz do peso. O que é novo é a combinação: esta é a primeira ocorrência, em toda a Bíblia hebraica, de kevod YHWH, "a glória do SENHOR". A expressão voltará em Êxodo 16:10, 24:16-17 e 40:34-35, em Levítico 9:6 e 9:23, e em Números 14:10, 16:19, 17:7 e 20:6, antes de passar aos Salmos, a Isaías e a Ezequiel.

O Targum de Ônquelos traduz por yeqara da-YHWH, "a honra do SENHOR", e mantém o verbo ver na forma ativa.

בְּשָׁמְעוֹ — be-shom'o, "porque ele ouviu", literalmente "no ouvir dele".

Infinitivo do verbo shama, "ouvir", com a preposição be-, "em", e o sufixo de terceira pessoa. A construção é muito comum em hebraico e não tem tempo próprio: pode ser lida como temporal ("quando ele ouvir", "ao ouvir") ou como causal ("por ter ouvido"). A ABC escolheu a causal, e a Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) também lê assim, com o infinitivo grego precedido de preposição.

אֶת־תְּלֻנֹּתֵיכֶם — et-telunnoteikhem, "as murmurações de vocês".

Substantivo feminino plural telunnot, "murmurações", com o sufixo de segunda pessoa do plural. É a primeira vez que o substantivo aparece na Bíblia; o verbo já tinha estreado em Mara. O substantivo tem só oito ocorrências: cinco em Êxodo 16 (versículos 7, 8 duas vezes, 9 e 12) e três em Números (14:27; 17:20 e 17:25). Nunca aparece no singular.

עַל־יְהוָה — al-YHWH, "contra o SENHOR".

A preposição al, "sobre", que com verbos de hostilidade significa "contra". A Septuaginta escreve aqui "contra Deus", e não "contra o Senhor", embora mantenha "Senhor" em "a glória do Senhor" no começo do mesmo versículo. Ônquelos põe "contra a Memra do SENHOR" (Memra, "palavra", o recurso dos Targumim para não colocar Deus diretamente como objeto de ações humanas).

וְנַחְנוּ — ve-nachnu, "e nós".

A forma curta e rara do pronome de primeira pessoa do plural, sem o primeiro som; a forma comum é anachnu. Ibn Ezra observa só que "falta o alef". Das cinco ocorrências dessa forma na Bíblia, duas estão neste versículo e no seguinte, sempre na boca de Moisés e Arão falando de si.

מָה — mah, "que", "o quê".

O pronome interrogativo das coisas. Para pessoas, o hebraico usa normalmente mi, "quem", como Moisés fez na sarça (mi anokhi, "quem sou eu?", Êxodo 3:11) e Faraó diante dele (mi YHWH, "quem é o SENHOR?", Êxodo 5:2). Mah aplicado a pessoas é marca de rebaixamento: "que é o homem" (Salmo 8:5 no hebraico), "que é o seu servo, um cão morto?" (2 Samuel 9:8). A frase hebraica não tem verbo: "e nós — quê?".

כִּי — ki, "para que". Conjunção de muitos usos; aqui introduz a consequência que tornaria a pergunta descabida: "o que somos, que vocês murmurem contra nós?".

תלונו / תַלִּינוּ — talinu (lido), "murmurem" ou "façam murmurar".

Aqui o texto escrito e a leitura tradicional divergem: as letras permitem ler talonu, e a tradição manda ler talinu, com outra vogal, outro tronco verbal e um ponto dentro do lamed. O que interessa a este versículo é a consequência que Rashi tira da forma lida: Hifil (o tronco causativo), "fazer murmurar", como em Números 14:36.

עָלֵינוּ — aleinu, "contra nós".

A preposição al com o sufixo de primeira pessoa do plural. O versículo começa com a queixa "contra o SENHOR" e termina com a queixa "contra nós": a mesma preposição, dois destinatários. A Septuaginta traduz por kath' hēmōn, com a preposição grega da acusação, e o verbo no presente contínuo: "vocês continuam murmurando contra nós".

Três pontos deste versículo têm análise completa em outros estudos: a raiz de kavod (Êxodo 14:4), as cinco ocorrências de nachnu (Gênesis 42:11) e as quatro divergências entre escrita e leitura no verbo de murmurar (Êxodo 15:24).

11. Conclusão

Com base no que foi examinado, o versículo leva a três conclusões.

A glória do SENHOR entra na Bíblia como resposta a uma necessidade física. Seja qual for a leitura — o pão da manhã, a nuvem do mesmo dia, o milagre que mostra quem é Deus —, a primeira vez que a expressão aparece ela está a serviço de um povo que não tinha o que comer. A Bíblia vai depois levar essa glória ao monte e ao santuário; mas ela começou no chão do acampamento.

O motivo declarado é a escuta, e não o mérito. O texto não diz que o povo melhorou, que pediu do jeito certo ou que os líderes intercederam. Diz que Deus ouviu a murmuração — a mesma que os líderes acabam de chamar de queixa contra ele — e que por isso haverá glória. A nota de margem que tentou corrigir isso na Bíblia de Genebra mostra quanto a frase incomoda.

A pergunta "que somos nós?" separa o lugar de quem fala da obra que se discute. Lida como cargo, ela diz que os executores não decidem; lida como humildade, diz que diante da obra eles não são nada. Nas duas leituras, o efeito é o mesmo: a saída do Egito e o pão do deserto são retirados das mãos de Moisés e Arão. E se a forma que a tradição manda ler estiver certa, a pergunta aponta ainda para quem estava fazendo os outros murmurarem.

Conclui-se que o versículo junta, em poucas palavras, o primeiro anúncio da glória divina e a primeira recusa de crédito por um líder bíblico. As duas coisas vêm juntas, e não por acaso: a glória só pode ser do SENHOR se os dois homens à frente do povo disserem que ela não é deles.

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Êxodo 16:7

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