E aconteceu que no sétimo dia alguns do povo saíram para recolher, e não acharam.
1. Introdução
No sétimo dia, apesar do aviso de Moisés, alguns do povo saem para recolher maná e voltam de mãos vazias. O texto não diz quantos eram, nem quem, nem por que saíram, e a tradição preencheu cada uma dessas lacunas — incrédulos, ímpios, gente que queria testar Moisés, gente a quem ninguém tinha dito que era proibido. Também não há castigo: o campo vazio é a única resposta, e a fala de Deus só vem no versículo seguinte. O "não acharam" cumpre ao pé da letra a previsão de Êxodo 16:25 e repete as palavras da primeira falta do deserto, quando o povo andou três dias sem achar água. O Talmude viu ali o primeiro sábado quebrado e ligou a ele a guerra com Amaleque.
2. Contexto Histórico e Cultural
Sair no sábado para ganhar o pão: o que a história de Israel registra
O versículo é a primeira transgressão do sábado contada na Bíblia, e o motivo é o mais simples de todos: ir buscar comida. Os textos posteriores mostram que esse motivo continuou sendo o principal adversário do dia de descanso, e que ele mudou de forma conforme a economia mudava.
No século VIII antes de Cristo, Amós põe na boca dos comerciantes de Israel uma pergunta impaciente: "Quando passará a lua nova, para vendermos o trigo? E o sábado, para abrirmos os celeiros?" (Amós 8:5). Eles guardam o sábado — mas contam as horas. O dia não é violado; é suportado como prejuízo.
Neemias e os portões de Jerusalém
O retrato mais detalhado vem do século V antes de Cristo, quando Neemias, governador persa da província de Judá, volta a Jerusalém e encontra o sábado tratado como dia útil. A lista que ele faz é de inspetor: gente pisando uvas no lagar em pleno sábado, trazendo feixes de grão, carregando jumentos com vinho, uvas, figos e toda espécie de carga para dentro da cidade. E mercadores de Tiro, estabelecidos em Jerusalém, vendendo peixe aos judeus no sétimo dia (Neemias 13:15-16).
A resposta de Neemias é administrativa. Ele manda fechar as portas da cidade ao escurecer da véspera, antes de começar o sábado, e só reabri-las depois de terminado; põe homens seus de guarda para que nenhuma carga entre. Os mercadores passam uma ou duas noites acampados do lado de fora dos muros, à espera de que alguém saia para comprar. Neemias os ameaça de prisão, e eles param de vir (Neemias 13:19-21).
A cena é o espelho urbano de Êxodo 16:27. No deserto, quem quer garantir mais sai do acampamento para o campo; em Jerusalém, o campo é que tenta entrar pela porta. Nos dois casos, o sábado só se sustenta porque há um limite físico — o chão vazio, num caso; o portão trancado, no outro.
O extremo oposto: os que não saíram nem para salvar a vida
Três séculos depois, a pergunta se inverteu. No começo da revolta dos Macabeus, contra o rei selêucida Antíoco IV, muitos judeus que queriam viver segundo a lei desceram ao deserto com as mulheres, os filhos e o gado, e se esconderam em cavernas. Atacados pelos soldados num sábado, não responderam, não atiraram uma pedra, não fecharam a entrada dos esconderijos. "Morramos todos na nossa inocência", disseram, e morreram cerca de mil pessoas (1 Macabeus 2:29-38).
Matatias, o pai dos Macabeus, ao saber do massacre, tomou com os seus companheiros a decisão contrária: se alguém os atacasse em dia de sábado, lutariam, para não serem todos exterminados (1 Macabeus 2:39-41).
O episódio é útil para medir o versículo do maná. Os do deserto dos Macabeus ficaram onde estavam mesmo diante da morte. Os do deserto do Êxodo saíram com comida em casa. Entre os dois extremos, a tradição judaica construiria toda a casuística do sábado — o que se pode fazer para salvar uma vida, o que não se pode fazer para ganhar um pão.
3. Análise Teológica do Versículo
"E aconteceu que no sétimo dia"
O texto não escreve "no sábado". A palavra tinha acabado de ser dita três vezes por Moisés, mas a narração data o fato pelo número: o sétimo dia. Abraão ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) explica que é o sétimo da série do maná, que começou num domingo; Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) diz o mesmo e acrescenta que o dia coincidia com o sábado da contagem que vinha desde o primeiro mês. O texto não faz essa conta.
O sétimo dia é o mesmo do versículo 25. A cena não acontece numa semana posterior: é a mesma manhã em que Moisés acabou de dizer "hoje vocês não o acharão no campo".
"alguns do povo saíram"
O hebraico diz literalmente "saíram do povo": uma parte, sem número e sem nome. Em Êxodo 16:20, o hebraico chama os que guardaram resto de "homens" (a ABC traduz "alguns"); aqui nem essa palavra aparece. O Midrash Shemot Rabá (comentário rabínico ao Êxodo, de redação medieval) se apoiou justamente na palavra "homens" para dizer que os do versículo 20 eram Datã e Abirão, os rebeldes de Números 16. No versículo 27 a palavra não está, e a identificação não tem onde se apoiar.
Quem eram, então? A tradição respondeu de quatro maneiras.
Primeira resposta: eram incrédulos. A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) diz numa frase: "esses eram os de pouca fé de Israel". O Pseudo-Jônatas (tradução aramaica livre e tardia da Torá) escreve "alguns dos ímpios do povo". A Bíblia de Genebra (a Bíblia comentada dos protestantes ingleses exilados em Genebra, 1560) diz que a infidelidade deles era tão grande que fizeram exatamente o contrário do mandamento.
Segunda resposta: queriam testar Moisés. Ibn Ezra diz que saíram "para ver se as palavras de Moisés se cumpririam". John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) junta a curiosidade à prova: queriam saber se a previsão estava certa. Na leitura de Obadias Sforno (comentarista italiano do século XVI), apresentada no estudo de Êxodo 16:26, a culpa é dividida: Moisés anunciou uma falta em vez de proibir uma saída, e o povo foi conferir a informação.
Terceira resposta: foram mais longe do que de costume. Sforno ainda observa que eles saíram do acampamento para a área onde o maná caía durante a semana, e talvez além dela, imaginando que o maná pudesse estar em outro lugar. Não duvidavam do maná; duvidavam de que a falta fosse total.
Quarta resposta: eram gente que levava recipientes. Chizkuni e Sforno lembram que quem sai para recolher sai com cestos e vasilhas, e que só levar a vasilha de um lugar para outro já seria, pela lei posterior, uma transgressão do sábado. A saída em si, antes de qualquer coleta, já era o problema.
Nenhuma das quatro está no texto, que não julga nem identifica. Mas o texto dá uma pista que limita as leituras.
"para recolher"
O texto diz para que eles saíram: para recolher. Não diz "para ver" nem "para conferir". A intenção registrada não é a de quem testa uma previsão, é a de quem pretende trazer maná para casa.
Isso enfraquece a leitura da curiosidade. Or ha-Chayim (Chayim ibn Attar, comentarista marroquino do século XVIII) tira a consequência em uma frase: o texto quer dizer que eles teriam recolhido, se tivessem achado. O pecado, nessa leitura, não ficou só na dúvida; estava pronto para virar ato.
E esses homens tinham o que comer. O sexto dia tinha dado em dobro, e o pão guardado amanheceu bom (Êxodo 16:24). Quem sai no sétimo dia não sai por fome. Sai porque não consegue deixar de sair — ou porque não acredita que o que tem em casa vá bastar.
"e não acharam"
A frase final cumpre a previsão de Moisés com o mesmo verbo: ele disse "não o acharão", e o texto diz "não acharam". Não há comentário, nem castigo, nem queixa. O campo vazio fala sozinho.
Albert Barnes (comentarista norte-americano do século XIX) chama a cena de primeira violação de uma ordem expressa e se espanta com a ausência de punição: nenhum castigo exemplar, nenhuma ira que perturbasse o descanso do primeiro sábado. A comparação inevitável é com Números 15:32-36, onde um homem é achado recolhendo lenha no sábado e é apedrejado. Lá a lei já tinha sido dada no Sinai, com sanção. Aqui a regra ainda estava se formando, e a única consequência foi voltar de mãos vazias.
As mesmas palavras, "e não acharam", fecham a primeira crise do deserto: em Êxodo 15:22, o povo andou três dias "e não acharam água". Ali a falta era real e levou à queixa. Aqui a falta é anunciada, inofensiva — quem saiu tinha pão em casa — e não leva a queixa nenhuma. O deserto que antes negava o necessário agora só nega o supérfluo.
O texto massorético (o texto hebraico padrão, fixado pelos escribas da Idade Média) marca um fim de parágrafo depois deste versículo. A cena se fecha no campo vazio, e a reação de Deus, no versículo 28, abre uma seção nova.
Rav e a guerra com Amaleque
O Talmude (Shabbat 118b) guarda uma leitura que olha para a frente. Rav Yehuda diz em nome de Rav: se Israel tivesse guardado o primeiro sábado, nenhum povo nem nenhuma língua o teria dominado. A prova é a ordem do texto: está escrito "alguns do povo saíram para recolher", e pouco depois está escrito "então veio Amaleque e lutou contra Israel" (Êxodo 17:8).
A leitura toma a sequência das histórias como causa e efeito. O texto bíblico não faz essa ligação: entre o versículo 27 e a guerra há a repreensão, o jarro, os quarenta anos e a água de Meribá, e o próprio Êxodo dá outra razão para a guerra — Amaleque ataca. O Deuteronômio dirá que ele feriu os retardatários do povo, quando estavam cansados (Deuteronômio 25:18). Mas a frase de Rav mostra o peso que a tradição deu a este versículo curto: o primeiro sábado quebrado foi lido como a primeira brecha na história do povo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Alguns do povo — um grupo anônimo, sem número. A Mekhilta os chama de "pouca fé", o Pseudo-Jônatas de "ímpios". O texto só lhes atribui duas ações: saíram e não acharam.
Moisés — ausente da cena. É a palavra dele, dita na mesma manhã, que o versículo confirma.
O SENHOR — também ausente. Não há reação divina dentro do versículo; ela vem, dirigida a Moisés, em Êxodo 16:28.
Lugares
O campo — a área fora do acampamento onde o maná caía nos dias comuns. Sforno supõe que alguns foram além dela.
O acampamento — o lugar de onde se sai. O versículo 29 vai mandar justamente que cada um fique no seu lugar.
Eventos
A primeira transgressão do sábado narrada na Bíblia — uma saída para buscar comida, num dia em que havia comida em casa.
A previsão cumprida — o "não o acharão" de Êxodo 16:25 vira, no mesmo dia, "não acharam".
5. Pontos de Ensino
A primeira transgressão do sábado foi sair para buscar sustento. Não foi festa, nem comércio, nem idolatria: foi o gesto de ir garantir comida. O texto mostra que o adversário mais antigo do descanso é a necessidade, ou a impressão de necessidade.
Quem saiu tinha o que comer. O dobro do sexto dia estava nas tendas. A saída não nasce de fome, mas da dificuldade de confiar no que já se tem.
A intenção conta. O texto diz "para recolher", não "para ver". A leitura mais benigna — a curiosidade — encontra pouco apoio na frase.
A consequência é o vazio, não o castigo. Antes da lei com sanção, a resposta à transgressão é o próprio campo, que não dá nada. A realidade confirma a palavra sem que ninguém precise punir.
O texto não identifica culpados. Os que saíram ficaram sem nome. A tradição os chamou de incrédulos e ímpios, mas o versículo não os separa do povo: são "do povo".
6. Aspectos Filosóficos
Os que saíram no sétimo dia tinham comida em casa. O sexto dia tinha dado o dobro, e o pão guardado estava bom. Mesmo assim, saíram para recolher mais. O versículo põe uma pergunta que não é só religiosa: por que é tão difícil parar quando já se tem o suficiente?
André Gorz e a categoria do suficiente
André Gorz (1923-2007), nascido Gerhard Hirsch em Viena e radicado na França, foi jornalista e filósofo, um dos fundadores da ecologia política. Em Métamorphoses du travail ("Metamorfoses do trabalho", 1988), cujo subtítulo é "crítica da razão econômica", ele examina como a lógica econômica tomou conta de áreas da vida que antes lhe escapavam.
O ponto central do livro, para este versículo, é o que Gorz chama de categoria do suficiente. Durante a maior parte da história, diz ele, as pessoas trabalhavam até ter o bastante, e paravam. O camponês, o artesão, o trabalhador por jornada tinham uma ideia clara de quanto era preciso para viver, e essa ideia limitava o esforço. Os primeiros industriais europeus se queixavam exatamente disso: o operário que ganhava em quatro dias o que precisava para a semana não voltava no quinto.
Para Gorz, o suficiente não é uma categoria econômica. É uma categoria cultural, ou existencial: depende de uma ideia do que é viver bem, e não de um cálculo. A racionalidade econômica, por sua vez, não conhece o suficiente. Para ela, mais é sempre melhor, e nenhuma quantidade justifica parar. A expansão do capitalismo, nessa leitura, foi também a destruição da norma do suficiente, que tinha de ser desmontada para que as pessoas trabalhassem sempre mais.
Em obras anteriores, como Adeus ao proletariado (1980), Gorz já defendia que a libertação não viria de mais trabalho, mas de mais tempo livre: tempo subtraído à produção e devolvido a atividades que cada um escolhe.
O maná como norma do suficiente
O regime do maná, tal como o capítulo o descreve, é uma norma do suficiente imposta de fora. Cada um recolhe conforme o que come (Êxodo 16:18); o excesso apodrece (Êxodo 16:20); o sexto dia dá o dobro para que o sétimo não precise de nada. A quantidade certa não é decidida pelo cálculo de cada um: é dada.
Os que saem no sétimo dia são exatamente o que Gorz descreve. Já têm o bastante, e saem assim mesmo. Não por necessidade, mas porque a ideia de bastar não os convence. O campo vazio funciona como a norma que eles não têm por dentro: ele diz, sem palavras, que já era suficiente.
Onde a aproximação para
Gorz escreve sobre a economia industrial e sobre a liberdade do trabalhador; o versículo fala de um grupo nômade e de um pão que cai do céu. No deserto, o limite não vem de uma cultura do suficiente que as pessoas tenham construído: vem de Deus, e alguns resistem a ele. Para Gorz, a norma do suficiente era coisa do povo, destruída de cima; no Êxodo, ela é dada de cima, e parte do povo a recusa.
Mas a aproximação acerta num ponto que o texto deixa claro. O problema dos que saíram não era falta. Era a incapacidade de reconhecer que o que tinham bastava.
7. Aplicações Práticas
Perguntar se a saída é por necessidade. Os do versículo tinham pão em casa. Antes de sair para "garantir mais" num dia de descanso, a pergunta que o versículo sugere é se o que já existe não basta.
Acreditar no aviso antes de conferir. Moisés tinha dito, naquela mesma manhã, que não haveria nada. Alguns precisaram ir ver. Há verdades que só se aprendem pelo vazio, mas o versículo mostra que essa aprendizagem custou um sábado.
Não identificar culpados que o texto não nomeia. A tradição chamou os que saíram de ímpios. O texto os chama de "do povo". Ao ler o episódio, é mais honesto reconhecer nele um impulso comum do que procurar vilões.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os que saíram foram punidos?
Não no texto. A única consequência narrada é não achar nada. A repreensão do versículo 28 é dirigida a Moisés e fala de "vocês", sem nomear os que saíram. A punição com morte para quem trabalha no sábado só aparece nas leis dadas depois do Sinai.
Era pecado sair, se a ordem "ninguém saia do seu lugar" só vem no versículo 29?
A ordem explícita de não sair é posterior. Por isso Sforno atribui parte da culpa a Moisés, e Or ha-Chayim procura a proibição no versículo 25. O que o texto mostra é que a lei sobre sair no sábado foi formulada depois da primeira transgressão, e por causa dela.
Quantos saíram?
O texto não diz. A expressão hebraica indica uma parte do povo, sem tamanho. A Mekhilta não arrisca número.
Eles realmente esperavam achar maná?
Se a intenção era "recolher", sim. Sforno sugere que esperavam achá-lo mais longe, fora da área habitual, supondo que a falta fosse local e não total. A leitura é plausível, mas o texto não diz onde procuraram.
Por que o texto conta o episódio, se nada aconteceu?
Porque ele prepara os dois versículos seguintes: a repreensão de Deus (Êxodo 16:28) e a primeira proibição explícita de sair no sábado (Êxodo 16:29). Sem a saída, não haveria a lei. E porque registra, para quem lê, a confirmação da palavra de Moisés: o que ele disse de manhã se cumpriu no mesmo dia.
9. Conexão com Outros Textos
A primeira falta do deserto
Êxodo 15:22 — “Moisés fez Israel partir do mar dos Juncos, e eles saíram para o deserto de Sur; andaram três dias no deserto e não acharam água.”
As mesmas palavras, "e não acharam", em situação oposta. Lá a falta era de água, real, e o povo murmurou; aqui é de maná, anunciada, e o povo tinha o que comer em casa.
O resto que apodreceu
Êxodo 16:20 — “Mas não ouviram Moisés; alguns deixaram resto dele até a manhã, e criou vermes e fedeu; e Moisés se indignou contra eles.”
A primeira desobediência do maná, quatro versículos antes. Lá alguns quiseram guardar quando não deviam; aqui alguns quiseram recolher quando não deviam. Nos dois casos, a coisa que se buscava estragou ou não existia.
O homem da lenha
Números 15:32 — "Estando os filhos de Israel no deserto, acharam um homem que recolhia lenha no dia de sábado."
O mesmo cenário, o deserto, e o mesmo gesto, recolher no sábado. Mas o desfecho é o oposto: o homem é levado a Moisés e apedrejado fora do acampamento. Entre um episódio e outro está o Sinai, com a lei e a sanção.
O sábado que atrapalha o negócio
Amós 8:5 — "Quando passará a lua nova, para vendermos o trigo? E o sábado, para abrirmos os celeiros?"
Os comerciantes de Amós não saem no sábado; esperam que ele acabe. É a mesma impaciência dos que saíram no deserto, domesticada pela lei.
Buscar e não achar
Amós 8:12 — "Andarão errantes de mar a mar, e do norte até o oriente correrão de uma parte a outra, procurando a palavra do SENHOR, e não a acharão."
No mesmo capítulo que denuncia os que contam as horas do sábado, a ameaça usa o par de verbos de Êxodo 16:27: sair à procura e não achar. O que falta já não é o maná, é a palavra. A leitura de Amós 8:11, a fome de ouvir as palavras do SENHOR, está no estudo de Êxodo 15:22.
Amaleque, logo depois
Êxodo 17:8 — "Então veio Amaleque e lutou contra Israel em Refidim."
O versículo que o Talmude (Shabbat 118b) liga a Êxodo 16:27: se o primeiro sábado tivesse sido guardado, nenhum povo teria dominado Israel. A ligação é da tradição, não do texto.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E aconteceu que no sétimo dia alguns do povo saíram para recolher, e não acharam.
Texto hebraico
וַיְהִי בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי יָצְאוּ מִן־הָעָם לִלְקֹט וְלֹא מָצָאוּ׃
Transliteração
va-yehí ba-yom ha-shevi'í yats'ú min-ha-am lilqót, ve-lo matsá'u.
Análise palavra por palavra
וַיְהִי — va-yehí, "e aconteceu".
A forma narrativa do verbo "ser", terceira pessoa do masculino singular. Abre uma cena nova depois de um discurso e anuncia que o que vem é ação. É a mesma palavra que abre Êxodo 16:13, a chegada das codornizes, e Êxodo 16:22, a coleta em dobro.
בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי — ba-yom ha-shevi'í, "no sétimo dia".
Preposição be, "em", com artigo, o substantivo "dia" e o ordinal "sétimo", também com artigo. A expressão é idêntica à de Êxodo 16:26 e Êxodo 16:29. A narração usa o número, não o nome "sábado".
יָצְאוּ — yats'ú, "saíram".
Perfeito do Qal (a forma simples do verbo hebraico) de yatsa, "sair", terceira pessoa do plural. Depois de va-yehí e da indicação de tempo, a narrativa hebraica costuma continuar com a forma encadeada (va-yets'ú). Aqui o texto usa o perfeito simples, sem o "e", logo depois da data. A construção põe o tempo em destaque: "no sétimo dia — saíram". É um jeito de marcar que o fato aconteceu justamente naquele dia.
O verbo é o mesmo de Êxodo 16:4 ("o povo sairá e recolherá") e será o da proibição de Êxodo 16:29 ("ninguém saia do seu lugar"). O versículo 27 fica entre a permissão e a proibição: a saída que era rotina vira transgressão.
מִן־הָעָם — min-ha-am, "alguns do povo".
A preposição min, "de", com sentido de parte de um todo, e ha-am, "o povo". O hebraico dispensa o pronome "alguns": a preposição sozinha diz "uma parte do povo". A construção não traz sujeito explícito e não indica quantidade. Em Êxodo 16:20 o sujeito era anashim, "homens", que a ABC traduz por "alguns"; aqui não há substantivo nenhum.
A palavra "povo" (am), e não "congregação" (edah), que o capítulo usa para a comunidade organizada em Êxodo 16:1, 2, 9, 10 e 22. Os que saem são do povo, a massa, e não da congregação, o corpo reunido diante dos líderes. A distinção é sutil e não deve ser forçada, mas acompanha a de Êxodo 16:4 ("o povo sairá").
לִלְקֹט — lilqót, "para recolher".
Infinitivo do Qal de laqat, "recolher, catar do chão", com a preposição le, "para", que marca finalidade. O texto registra a intenção, não só o movimento.
וְלֹא מָצָאוּ — ve-lo matsá'u, "e não acharam".
A conjunção "e", a negação lo e o perfeito do Qal de matsa, "achar", terceira pessoa do plural. O verbo não tem objeto expresso: não acharam — nada. A frase repete, no passado, o "não o acharão" de Êxodo 16:25, e as mesmas duas palavras, ve-lo matsá'u, fecham Êxodo 15:22 ("e não acharam água").
O fim de parágrafo
Depois deste versículo o texto massorético (o texto hebraico padrão, fixado pelos escribas da Idade Média) traz a marca de um parágrafo fechado, a setumah ("fechada", em hebraico): um espaço em branco dentro da linha. A divisão separa a cena do campo vazio da fala de Deus que começa no versículo 28.
As versões antigas
A Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) torna o partitivo explícito: "saíram alguns do povo para recolher, e não acharam". O Targum de Ônquelos (tradução aramaica da Torá usada nas sinagogas da Antiguidade) segue o hebraico palavra por palavra. O Pseudo-Jônatas acrescenta o juízo moral ("alguns dos ímpios do povo") e o objeto que o hebraico subentende ("para recolher maná").
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a primeira transgressão do sábado contada na Bíblia não nasce da fome. Quem saiu tinha pão em casa, guardado do dia anterior, e saiu assim mesmo. O que o versículo mostra é a dificuldade de reconhecer o suficiente, e não a pressão da necessidade.
A segunda é que a resposta foi o vazio, e não o castigo. A realidade confirmou a palavra de Moisés sem intervenção de ninguém, e a lei explícita veio depois do erro. O sábado se formou assim: primeiro o aviso, depois a desobediência, só então a ordem.
A terceira é que o texto se recusa a fazer dos que saíram uma categoria à parte. Eles são "do povo", sem nome e sem número. Incrédulos, ímpios, curiosos, gente mal informada: as leituras da tradição dizem mais sobre quem as fez do que sobre o versículo, que guarda um silêncio deliberado e deixa o campo vazio como único comentário.













