Então veio Amaleque e lutou contra Israel em Refidim.
1. Introdução
Uma linha só: Amaleque chega e ataca, no mesmo lugar onde o povo acabara de perguntar se Deus estava no meio dele. É a primeira guerra de Israel depois do Egito, e o texto não diz de onde Amaleque veio nem por quê. A tradição judaica leu a sequência como resposta à pergunta de Massá, e uma parábola sobre um menino nos ombros do pai ficou famosa por isso. O povo que vai protagonizar a inimizade mais longa da Bíblia entra em cena sem nenhuma apresentação, e fora da Bíblia não deixou rastro seguro. A pergunta que o versículo deixa é se a ordem das cenas quer dizer causa, ou só sequência.
2. Contexto Histórico e Cultural
Um inimigo que só a Bíblia conhece
Amaleque é um dos povos mais citados da Bíblia hebraica, e nenhum documento antigo fora dela o menciona. Não há o nome numa inscrição egípcia, assíria ou babilônica, nem num óstraco cananeu, nem num selo. Os vizinhos de Israel aparecem: Edom, Moabe e os filisteus estão em listas egípcias e em anais assírios. Amaleque, não. Tudo o que se sabe dele — e o seu modo de vida está descrito no estudo de Gênesis 36:12 — vem dos textos bíblicos.
O silêncio tem uma explicação provável. Os textos do Egito e da Mesopotâmia registram cidades, reis e tributos. Um povo de pastores e saqueadores, sem cidade murada, sem rei que pagasse tributo e sem escrita própria conhecida, quase não deixa marca nesse tipo de arquivo. Mas a explicação não substitui a prova, e o resultado é que a existência histórica de Amaleque, como povo distinto, não pode ser confirmada por fonte independente.
As tentativas de achá-lo
Primeira: os nômades dos textos egípcios. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) sugere que os amalequitas sejam os Mentiu, nome que os egípcios davam aos nômades asiáticos do Sinai, contra os quais reis do Império Antigo se fizeram retratar em relevos de vitória. Outros pensaram nos shasu, termo egípcio do Império Novo para os pastores de Seir e do Neguebe — a região que a genealogia liga a Esaú e, por ele, a Amaleque. O preço é o mesmo nos dois casos: são nomes genéricos, que cobrem qualquer grupo nômade da fronteira leste ao longo de séculos. Dizer que Amaleque estava entre eles é provável; dizer que eram ele não tem apoio.
Segunda: um sítio arqueológico. 1 Samuel 15:5 fala de uma "cidade de Amaleque". O arqueólogo israelense Moshe Kochavi propôs identificá-la com Tel Masos (Khirbet el-Meshash), um povoado grande do começo da Idade do Ferro, uns doze quilômetros a leste de Berseba. Os escavadores do sítio, Aharon Kempinski e Volkmar Fritz (campanhas de 1972 a 1975), discordaram: para Kempinski, Tel Masos era a Hormá bíblica e um povoado israelita. Nenhum objeto achado lá traz o nome de um povo, e o debate continua sem decisão.
Terceira: a memória árabe. Os historiadores árabes medievais, al-Tabari (Bagdá, século X) entre eles, contam os Amaliq entre os povos antigos e extintos da Arábia, e parte dessa tradição chega a fazer do faraó de José um rei amalequita. É material tardio, formado em diálogo com a própria Bíblia e com os comentários ao Corão, e não pode servir de testemunho independente. Mostra apenas que o nome sobreviveu como lenda de povo antigo muito depois de ter sumido da história.
O que resta
Resta o retrato bíblico, que é coerente: um povo do sul, do Neguebe até a fronteira do Egito, que aparece aliado a Midiã e aos "filhos do oriente" nas incursões de Juízes 6:3, e cujo território inclui gente amiga de Israel, os queneus de 1 Samuel 15:6. Quem lê Êxodo 17:8 lê sobre um povo que a arqueologia ainda não encontrou. Isso não prova que ele não existiu; prova que o leitor depende do texto para saber quem era.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então veio Amaleque"
Um versículo antes, o povo perguntava: "Está o SENHOR no meio de nós, ou não?". Agora chega um inimigo. A ordem das cenas é o primeiro dado do versículo, e quase todos os leitores antigos a leram como resposta.
A leitura mais conhecida é de Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI), que a tomou do Midrash Tanchuma (coleção de homilias rabínicas sobre a Torá, de redação medieval), no trecho dedicado ao capítulo 18, seção 3. Lá ela é atribuída a Rabi Levi. Um homem leva o filho nos ombros numa viagem. O menino vê uma coisa e pede: "Pai, pegue aquilo para mim". O pai pega. Uma vez, duas, três. Então passa um desconhecido, e o menino pergunta a ele: "Você viu o meu pai?". O pai responde: "Você não sabe onde eu estou?" — e o põe no chão. Vem um cão e morde o menino. Na versão de Rashi, Deus diz: "Estou sempre no meio de vocês, pronto para tudo de que precisam, e vocês perguntam se estou. Por vida de vocês, o cão virá e os morderá, e vocês gritarão por mim, e então saberão onde estou".
A parábola diz duas coisas ao mesmo tempo, e as duas pesam. Diz que a pergunta de Massá foi ingratidão, feita por quem estava sendo carregado. E diz que a resposta de Deus foi deixar o povo sentir a ausência que ele mesmo sugeriu: o pai não manda o cão; só deixa de proteger. No mesmo trecho do Tanchuma, Rabi Berechiah dá a versão mais dura: "Vocês perguntaram se o SENHOR está no meio de vocês? Eu lhes farei saber". E veio Amaleque.
A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III), no tratado Amaleque, seção 1, liga o ataque a outra falha. Cita Jó 8:11 — "pode o papiro crescer sem pântano? pode o junco subir sem água?" — e aplica: assim é Israel sem a Torá. "O inimigo só vem por causa de pecado e transgressão." O nome Refidim, lido como "mãos frouxas", sustenta a mesma ideia, e essa leitura do nome está no estudo de Êxodo 17:1. Chayim ibn Attar, o Or ha-Chayim (comentarista marroquino do século XVIII), fecha o círculo: a Torá é comparada à água e ao fogo; quem a largou foi castigado com sede e com o fogo da guerra.
Há uma leitura que não moraliza. Obadia Sforno (comentarista italiano do século XVI) diz que Amaleque veio "ao som da briga e da sede". Quando Deuteronômio 25:18 lembra que Amaleque atacou "quando você estava cansado e exausto", a palavra para "cansado" é a mesma que Jó 22:7 usa para quem tem sede e Isaías 32:2 para a "terra sedenta". O povo de Refidim estava exausto de sede e dividido por uma briga. Para Sforno, a ligação entre as cenas é tática: um acampamento enfraquecido e em discórdia atrai quem vive de saque.
O Êxodo não escolhe. Não diz que Amaleque veio por causa da pergunta, nem do pecado, nem da sede; diz "então veio". Toda leitura causal é do leitor. E o Deuteronômio, que é a única passagem da Torá que comenta o ataque, culpa Amaleque e não Israel: ele "não temeu a Deus" (Deuteronômio 25:18). Há, porém, um texto da própria Torá que liga as duas coisas com todas as letras. Em Números 14:42-43, quando o povo quer subir para a terra contra a ordem de Deus, Moisés avisa: "não subam, porque o SENHOR não está no meio de vocês… os amalequitas e os cananeus estarão ali diante de vocês". Ali a ausência de Deus e a vitória de Amaleque estão na mesma frase, e é Moisés quem as junta. A leitura rabínica de Êxodo 17:8 tem, portanto, um apoio dentro do Pentateuco — num outro episódio.
De onde Amaleque veio
O verbo é "veio", e não "saiu" nem "estava": Amaleque se desloca até Israel. A Mekhilta mede a distância. Rabi Natan diz que ele veio dos montes de Seir, a terra de Esaú, e saltou quatrocentas parasangas (a parasanga era uma medida persa de uns cinco quilômetros) para lutar — o número é exagero de propósito, para dizer "de muito longe". Rabi Yehudah observa que, pela lista de Números 13:29, Amaleque morava no Neguebe, e para chegar a Israel passou por cima de cinco povos que estavam mais perto. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) aplica Provérbios 26:17: Amaleque é "o passante que se mete em briga alheia". Israel não ia na direção da terra dele.
Se o ataque não era defesa de território, era o quê? O texto não dá motivo. Os leitores deram vários. Ezequias ben Manoah, o Chizkuni (comentarista francês do século XIII), propõe uma rixa de família: os descendentes de Esaú teriam esperado o fim dos quatrocentos anos de servidão anunciados a Abraão para disputar a herança perdida com a venda da primogenitura. Comentaristas modernos, como Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) e Albert Barnes (comentarista norte-americano do século XIX), pensam no calendário dos pastores: no começo do verão os beduínos sobem das planícies secas para as pastagens altas, e uma multidão com rebanhos acampada junto à água ameaçava o pasto do ano. A primeira explicação é midrash; a segunda é plausível, mas não está no texto.
Outra tensão vem do próprio relato. A Mekhilta registra que, para Rabi Eliezer, aqui Amaleque "veio de rosto descoberto", numa guerra aberta, enquanto em Deuteronômio 25:18 ele "encontrou você no caminho" e atacou os que ficavam para trás. O Êxodo descreve uma batalha campal com um exército escolhido; o Deuteronômio, uma emboscada contra retardatários. Rabi Elazar de Modiin junta as duas: Amaleque se esgueirava sob a borda da nuvem e arrancava gente do acampamento antes do combate. São duas memórias do mesmo ataque, e a tradição preferiu somá-las a escolher.
"e lutou contra Israel"
É a primeira guerra que Israel trava. No mar, a ordem era outra: "O SENHOR pelejará por vocês, e vocês ficarão calados" (Êxodo 14:14). Agora Israel vai ter de lutar com as próprias mãos, sob o comando de Josué, como mostram os versículos seguintes. E a guerra veio pelo caminho que devia evitá-la: em Êxodo 13:17 Deus desviou o povo da estrada dos filisteus "para que o povo não se arrependa ao ver guerra". Pelo deserto, a guerra encontrou o povo do mesmo jeito. Nachmânides lembra o dado ao comentar o capítulo: os israelitas não estavam acostumados à guerra e nunca a tinham visto.
Há também uma troca de nome. Nos versículos da água, quem briga é "o povo". Aqui quem é atacado é "Israel". O texto que registrou a briga com o nome mais comum usa, para a vítima do ataque, o nome da nação.
"em Refidim"
O lugar não muda. O inimigo vem até a água, e Israel ainda não se moveu. Rabi Chanina, na Mekhilta, conta que perguntou a Rabi Elazar o que queria dizer "Refidim", e ouviu: "é o nome do lugar, e só". A resposta seca é a mais rara no texto rabínico, e a mais prudente.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Amaleque
No versículo, o nome de um homem usado para um povo inteiro: o verbo está no singular, sem rei, sem chefe, sem número de soldados. Na genealogia, Amaleque é neto de Esaú, filho de Elifaz com a concubina Timna, e a história do povo ao longo da Bíblia está no estudo de Gênesis 36:12. Abraão ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) só precisa de uma linha para identificá-lo: é "o povo de Amaleque, que habita na terra do Neguebe", conforme Números 13:29. Aqui ele aparece pela primeira vez como agente na história de Israel, e pela primeira vez a Bíblia o põe em contato direto com os descendentes de Jacó.
Israel
A multidão que saiu do Egito uns dois meses antes, ainda sem lei dada no Sinai, sem exército formado e sem experiência de combate. É o primeiro inimigo humano que eles enfrentam com armas; o Egito foi vencido sem que Israel lutasse.
Refidim
A última etapa antes do Sinai, segundo Números 33:14-15, o mesmo acampamento da água da rocha e dos nomes Massá e Meribá. O inimigo chega antes que o povo levante acampamento.
O acontecimento
A primeira guerra de Israel como povo livre. Fica entre dois episódios de deserto com estrangeiros: antes, nenhum; depois, a visita de Jetro, o sacerdote de Midiã, sogro de Moisés, que "ouviu tudo o que Deus tinha feito" (Êxodo 18:1). A sequência põe lado a lado o primeiro povo do deserto que ataca Israel e o primeiro estrangeiro do deserto que se alegra com ele. O Midrash Tanchuma liga as duas cenas com Provérbios 19:25: "bata no zombador, e o simples ficará prudente" — o zombador é Amaleque; o que aprende é Jetro.
5. Pontos de Ensino
1. Sequência não é causa. O texto põe a pergunta de Massá e o ataque de Amaleque um depois do outro, sem ligá-los. As leituras que fazem do ataque um castigo são antigas e respeitáveis, mas são leituras. O leitor tem o direito de vê-las como tais.
2. O agressor é quem responde pelo ataque. O único texto da Torá que avalia Amaleque, Deuteronômio 25:18, culpa o agressor e não a vítima. Uma leitura que transforma todo infortúnio em sinal de pecado da vítima vai além do que a própria Torá disse sobre este episódio.
3. Fraqueza visível convida ataque. Pela leitura de Sforno, o acampamento sedento e dividido pela briga era alvo fácil. A discórdia interna da cena anterior tem consequência externa na cena seguinte, mesmo sem que o texto fale em castigo.
4. O inimigo não precisa de apresentação para ser real. Amaleque entra sem genealogia, sem motivo e sem rei. O texto não perde tempo explicando quem ele é antes de mostrar o que ele faz. Para Israel, naquele dia, a identidade do agressor importava menos do que o fato do ataque.
6. Aspectos Filosóficos
Quem escolhe o inimigo?
O versículo tem um sujeito só: Amaleque. Ele vem, ele luta. Israel não escolheu a guerra, não provocou, não estava indo na direção dele. O inimigo se apresentou sozinho. É exatamente o ponto que tornou célebre um filósofo francês.
O que Julien Freund sustenta
Julien Freund (1921-1993), filósofo e sociólogo de Estrasburgo, defendeu na Sorbonne, em junho de 1965, a tese publicada no mesmo ano como A essência do político. Nela, a política repousa sobre três pares que existem em qualquer sociedade: comando e obediência, público e privado, amigo e inimigo. O último par, recebido de um jurista alemão e desenvolvido por Freund, foi o que escandalizou a banca.
Um dos examinadores, o filósofo Jean Hyppolite, disse que, se Freund estivesse certo, só lhe restaria ir cultivar o seu jardim. Freund respondeu com a frase que ficou: "O senhor pensa, como todos os pacifistas, que é o senhor quem designa o inimigo. Mas é o inimigo que designa o senhor." Querer a paz não basta para não ter inimigo; basta que outro grupo decida que você é o inimigo dele.
A segunda tese importa tanto quanto a primeira. Para Freund, o inimigo político não é alguém que se odeia, nem alguém moralmente mau. É o grupo que ameaça a existência do seu grupo, e a hostilidade é pública, não pessoal. O latim tinha duas palavras para isso: hostis (o inimigo público, em guerra) e inimicus (o desafeto particular). E Freund advertia que, quando o inimigo político é transformado em encarnação do mal, a guerra perde o limite: ninguém negocia com o mal absoluto.
A terceira tese é a finalidade da política. Para Freund, o bem comum tem duas faces: a segurança contra o de fora e a concórdia entre os de dentro.
Onde o versículo e o filósofo se encontram
Êxodo 17:8 é a frase de Freund em forma de narrativa: Israel não designou Amaleque; Amaleque designou Israel. O povo que tinha passado o capítulo inteiro brigando consigo mesmo descobre, de um versículo para o outro, que alguém de fora o tomou por inimigo.
E as duas faces do bem comum aparecem em cenas vizinhas. Em Êxodo 17:1-7 o que falta é a concórdia: o povo briga com o líder e quase o apedreja. Em Êxodo 17:8 o que falta é a segurança. O capítulo põe uma crise de dentro e uma crise de fora uma atrás da outra, com o mesmo líder no centro das duas.
A terceira tese de Freund serve de alerta para a leitura do restante do capítulo. No versículo 8, Amaleque é um inimigo político no sentido estrito: um grupo que ataca outro, sem nenhum julgamento moral. O julgamento vem depois, em outros textos: "não temeu a Deus" (Deuteronômio 25:18), a ordem de apagar a memória (Êxodo 17:14), a guerra "de geração em geração" (Êxodo 17:16). A passagem do inimigo político ao inimigo absoluto, que Freund via como a porta da guerra sem limite, acontece dentro da própria Bíblia, e a recepção desse processo é examinada no estudo de Êxodo 17:16.
Onde a aproximação não vale
Freund pensa no Estado moderno e nas guerras do século XX. Israel no deserto não é Estado, e Amaleque não é uma potência com política externa. A categoria "político" de Freund se aplica aqui por analogia.
E o texto bíblico não é neutro como a análise de Freund pretende ser. Para o Êxodo, a guerra contra Amaleque é assunto de Deus, não só de segurança. O que Freund ajuda a ver é a estrutura do versículo 8 — o inimigo que se apresenta sozinho —, não o juízo que o resto do capítulo faz dele.
7. Aplicações Práticas
Desgraça não é sentença
A leitura de que "o inimigo só vem por causa do pecado" é antiga, e quem passa por uma crise costuma aplicá-la a si mesmo: "o que eu fiz para merecer isto?". O versículo não autoriza essa conta. O Êxodo põe o ataque depois da briga sem dizer que um causou o outro, e o Deuteronômio, quando julga o episódio, culpa o agressor. Quem consola alguém atingido por uma desgraça tem aqui uma razão textual para não procurar culpa na vítima.
A briga de dentro tem preço fora
Ao mesmo tempo, a leitura de Sforno tem aplicação concreta. Um grupo — família, empresa, comunidade — que gasta as forças numa disputa interna fica exposto ao que vem de fora. Não como castigo, mas como consequência prática: atenção, energia e confiança são limitadas. Em Refidim a sede e a briga vieram primeiro, e o ataque encontrou o acampamento nesse estado.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Quantos eram?
Nenhum número é dado, nem para Amaleque nem para os homens que Josué vai escolher. A batalha dura um dia inteiro, até o pôr do sol (Êxodo 17:12), o que sugere forças comparáveis. Qualquer estimativa vai além do texto.
Por que o Êxodo não dá motivo para o ataque?
Talvez porque o motivo fosse óbvio para os primeiros leitores — água e pasto num deserto onde as duas coisas são raras. Talvez porque o texto queira concentrar a atenção no que Israel faz, e não no que Amaleque pensa. O fato é que o único motivo dado na Torá é moral e vem muito depois: ele "não temeu a Deus" (Deuteronômio 25:18).
O Amaleque de Refidim é o mesmo que Saul combateu?
Para o texto bíblico, sim: 1 Samuel 15:2 justifica a guerra de Saul com "o que Amaleque fez a Israel quando subia do Egito". Os séculos entre as duas cenas, e o fato de Amaleque ser um nome de povo nômade e não de cidade, deixam espaço para que o nome tenha coberto grupos diferentes ao longo do tempo. O texto não discute isso.
Se a ordem das cenas não é causa, por que a pergunta de Massá vem logo antes?
Porque as duas histórias acontecem no mesmo lugar, e o livro conta por lugar. É a explicação mais simples. Mas o texto que as costurou deixou a pergunta "está o SENHOR no meio de nós?" imediatamente antes de "então veio Amaleque", e é difícil que um leitor atento não as leia juntas. A justaposição pode ser de quem organizou o texto; a conclusão, de quem lê.
9. Conexão com Outros Textos
A pergunta e o ataque, juntos numa frase de Moisés
Números 14:42-43 — "Não subam, porque o SENHOR não está no meio de vocês, para que vocês não sejam derrotados diante dos seus inimigos. Porque os amalequitas e os cananeus estarão ali diante de vocês, e vocês cairão à espada."
O segundo encontro com Amaleque, e o único em que a Torá liga expressamente a ausência de Deus e a vitória do inimigo. O povo sobe assim mesmo e é derrotado até Hormá (Números 14:45). É o texto que dá base bíblica à leitura rabínica de Êxodo 17:8.
A memória do ataque
Deuteronômio 25:17-18 — "Lembre-se do que Amaleque fez a você no caminho, quando vocês saíam do Egito: como ele o encontrou no caminho e atacou pela retaguarda todos os que iam enfraquecidos atrás de você, quando você estava cansado e exausto; e ele não temeu a Deus."
A versão do Deuteronômio acrescenta a retaguarda, o cansaço e o juízo moral. A tática de cortar a cauda da coluna está explicada no estudo de Êxodo 14:19; aqui interessa que "cansado" é a palavra da sede, segundo Sforno.
O inimigo e o amigo do deserto
Êxodo 18:1 — "Jetro, sacerdote de Midiã, sogro de Moisés, ouviu tudo o que Deus tinha feito por Moisés e por Israel, seu povo: que o SENHOR tinha tirado Israel do Egito."
1 Samuel 15:6 — "Saul disse aos queneus: 'Vão, retirem-se, saiam do meio dos amalequitas, para que eu não os destrua junto com eles; porque vocês mostraram bondade a todos os filhos de Israel quando subiam do Egito.'"
Os queneus eram a família do sogro de Moisés (Juízes 1:16), e viviam no meio de Amaleque. Os dois capítulos vizinhos do Êxodo — o ataque de Amaleque e a visita de Jetro — reaparecem séculos depois na mesma cena de guerra: os aliados do deserto são separados dos inimigos do deserto, pela lembrança do que cada um fez na saída do Egito.
Amaleque entre os vizinhos
Juízes 6:3 — "Sempre que Israel semeava, subiam Midiã, Amaleque e os filhos do oriente, e subiam contra ele."
Amaleque como parte de uma aliança de povos do deserto que saqueava as colheitas. É o retrato mais concreto do modo de guerra amalequita depois de Refidim: incursão de temporada, e não conquista.
Números 24:20 — "Viu Amaleque, e proferiu o seu oráculo: 'Amaleque é o primeiro das nações, mas o seu fim será a destruição.'"
Balaão chama Amaleque de "primeiro". Uma das leituras antigas é cronológica: o primeiro povo a atacar Israel, em Êxodo 17:8.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então veio Amaleque e lutou contra Israel em Refidim.
Texto hebraico
וַיָּבֹא עֲמָלֵק וַיִּלָּחֶם עִם־יִשְׂרָאֵל בִּרְפִידִם׃
Transliteração
va-yavó Amaléq va-yillachém im-Yisra'él bi-Refidím.
Análise palavra por palavra
וַיָּבֹא — va-yavó, "e veio". Raiz b-w-', vir, entrar, chegar, na forma verbal que encadeia a narrativa, terceira pessoa do masculino singular. É um dos verbos mais comuns da Bíblia, e por isso mesmo os rabinos o leram com atenção: para Rabi Eliezer, na Mekhilta, "veio" aqui quer dizer chegada aberta, "de rosto descoberto", em contraste com o "encontrou você no caminho" de Deuteronômio 25:18. O "então" da tradução corresponde ao "e" que liga esta forma verbal à anterior; o hebraico não marca intervalo de tempo entre o nome de Massá e a chegada de Amaleque.
עֲמָלֵק — Amaléq, "Amaleque". Nome próprio masculino singular, usado sem artigo e sem "filhos de", como nome de povo. Em outros lugares aparece a forma de nome de povo, ha-Amaleqí, "o amalequita" (Números 14:43, 45; 1 Samuel 15:6). A etimologia é desconhecida: o nome não tem raiz hebraica clara, e as tentativas de explicá-lo pelo som são tardias e não convencem. Na pontuação dos massoretas (os copistas que fixaram as vogais e os acentos do texto hebraico entre os séculos VII e X), o acento principal de pausa do versículo cai sobre Amaléq: a frase se divide em "então veio Amaleque" e "lutou contra Israel em Refidim". A chegada ocupa sozinha a primeira metade.
וַיִּלָּחֶם — va-yillachém, "e lutou". Raiz l-ch-m, no Nifal — aqui não a forma passiva, mas a forma que indica ação de duas partes uma contra a outra: lutar, guerrear. A primeira ocorrência do verbo no Êxodo está em Êxodo 1:10, no medo de Faraó de que Israel "lute contra nós". Em Êxodo 14:14 e 14:25 o sujeito é o SENHOR, e a ABC traduz ali por "pelejar"; aqui o sujeito é um povo humano, e a tradução fica com "lutar". Do mesmo campo vem milchamáh, "guerra", a palavra de Êxodo 13:17 e 15:3.
As consoantes l-ch-m são as mesmas de léchem, "pão", a palavra central do capítulo anterior. Os dicionários tratam as duas como raízes diferentes que coincidem na forma, e as tentativas de ligá-las por um sentido comum ("apertar", "devorar") são hipóteses sem prova. A coincidência, porém, está no texto: o capítulo 16 é sobre léchem, e a primeira guerra do capítulo 17 começa com va-yillachém.
עִם־יִשְׂרָאֵל — im-Yisra'él, "contra Israel". A preposição im quer dizer "com", e com verbos de luta indica o adversário: "lutar com" no sentido de "lutar contra". O hebraico também usa be ("em") para o mesmo fim, como em Números 21:1 e 21:23. Yisra'él sem "filhos de": o povo como unidade, o nome da nação.
בִּרְפִידִם — bi-Refidím, "em Refidim". Preposição be com o nome do lugar. A forma termina como um plural masculino, e o sentido do nome é discutido.
As versões antigas
A Septuaginta escreve Elthen de Amalek kai epolémei Israel en Raphidin. O verbo de luta está no imperfeito, o tempo grego da ação que dura: "e ficou lutando contra Israel". A escolha antecipa a batalha que vai até o pôr do sol. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo) faz o mesmo: Venit autem Amalec et pugnabat contra Israel in Raphidim, com pugnabat, também imperfeito.
O Targum de Ônquelos (tradução aramaica da Torá, usada nas sinagogas desde a Antiguidade) amplia o verbo: va-agach qeravá, "e travou combate", uma expressão aramaica de guerra declarada, que tira de "lutar" qualquer sentido de briga menor.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a ligação entre a pergunta de Massá e o ataque de Amaleque é feita pela posição das cenas, e não por uma frase do texto. A tradição judaica tem bons motivos para lê-la como resposta — inclusive um apoio em Números 14 —, mas o Êxodo deixa a ligação para o leitor, e o Deuteronômio põe a culpa no agressor.
A segunda é que Israel entra aqui numa fase nova. Até Refidim, Deus lutou sozinho; a partir de Refidim, o povo terá de lutar, e o inimigo apareceu sem ser procurado. O que o capítulo vai fazer com essa guerra — as mãos de Moisés, o livro, a bandeira — depende deste começo seco: alguém veio e atacou.
A terceira é que o povo que se tornará o inimigo por excelência da Bíblia entra na história sem motivo declarado, sem rosto e sem nenhum rastro fora do texto. Tudo o que Amaleque virá a significar depois foi construído sobre uma linha que só diz que ele chegou e lutou.













