“Ouvi as murmurações dos filhos de Israel. Fale-lhes, dizendo: ‘Ao entardecer vocês comerão carne, e de manhã se fartarão de pão; e saberão que eu sou o SENHOR, o seu Deus.’”
1. Introdução
Deus diz em primeira pessoa o que Moisés vinha dizendo em terceira: "ouvi as murmurações". A resposta tem duas comidas e duas horas — carne ao entardecer, pão de manhã — e um detalhe que os comentaristas não deixaram passar: só o pão vem com fartura. A hora da carne é dita com a mesma expressão que marca a hora do cordeiro da Páscoa. O fecho troca o Egito, que Moisés tinha mencionado, por uma fórmula de conhecimento ligada, pela primeira vez, a uma refeição. E a frase de abertura voltará, quase igual, em Números 14:27, com desfecho oposto.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quantas refeições se faziam por dia
O versículo dá ao povo um horário: comida ao entardecer e comida de manhã. Para um leitor de hoje isso soa banal. Para os rabinos, era a origem de um costume.
A frase talmúdica de Rabi Acha bar Yaakov sobre as horas de refeição fixadas por Moisés, tirada deste trecho, está no estudo de Êxodo 16:6. O Chizkuni (comentário judeu francês do século XIII) diz o mesmo de modo seco, comentando este versículo: daqui se aprende a regra de duas refeições por dia, à tarde e de manhã.
O tratado Yoma 75b tira daqui uma regra de etiqueta: carne se come à noite. E logo esbarra numa objeção — Abaye ensinava que quem faz refeição deve fazê-la de dia —, resolvida com uma distinção prática: "à noite" quer dizer com luz bastante para ver o que se come. A discussão mostra o problema real por trás do texto: comer carne no escuro, num acampamento, era comer sem enxergar ossos e espinhos.
Os rabinos também discutiram a hora da refeição principal, e a lista que deixaram é um retrato social. Na versão de Shabbat 10a, que aparece também em Pesachim 12b, a primeira hora do dia é a hora em que comem os ludim (um povo tido por voraz), a segunda a dos ladrões (que passaram a noite em claro), a terceira a dos herdeiros ricos, que não têm o que fazer; a quarta é a hora de todo mundo, a quinta a dos trabalhadores que não puderam parar antes, e a sexta a dos estudiosos, que só comem quando o tribunal encerra a sessão. Comer cedo demais é sinal de desocupação; comer tarde, de trabalho. Nesse quadro, o "de manhã" do versículo é a refeição que abre o dia de quem vai trabalhar, e a da tarde é a que o encerra.
A carne como comida de desejo
No mundo do Antigo Testamento, carne não era comida de todo dia. Um rebanho era patrimônio, e quem matava um animal comia o capital — por isso a carne se comia na festa, no sacrifício, na chegada de hóspede. Matar um animal e oferecê-lo a Deus eram, de início, quase o mesmo ato.
O vocabulário bíblico confirma a posição da carne. Quando a lei de Deuteronômio 12:20 permite o abate fora do santuário, ela o descreve assim: "quando disseres: 'Comerei carne', porque a tua alma deseja comer carne, comerás carne segundo todo o desejo da tua alma". A carne entra na lei pela porta do desejo. E é com a mesma palavra que Números 11:4 descreve a segunda queixa pelas codornizes — o povo "foi tomado de desejo" — e que o lugar ganha o nome de Quibrote-Hataavá, "sepulturas do desejo" (Números 11:34). O pão, ao contrário, é a palavra da comida em geral: em hebraico, "comer pão" pode significar simplesmente fazer uma refeição.
O povo que tinha rebanhos (Êxodo 12:38) e mesmo assim pediu carne pedia, nesse quadro, o alimento da festa, não o da sobrevivência. É a distinção que a Mekhilta faz ao comentar este versículo: o pão eles pediram porque sem pão ninguém vive; a carne, "para encher a barriga".
3. Análise Teológica do Versículo
"Ouvi as murmurações dos filhos de Israel."
Moisés tinha dito três vezes que Deus ouvira: "ele ouviu as murmurações de vocês" (Êxodo 16:7), "o SENHOR ouviu as murmurações" (Êxodo 16:8), "ele ouviu" (Êxodo 16:9). Agora a frase é dita por quem ouviu, e muda de pessoa. O que era informação de segunda mão vira declaração.
O verbo tem uma história no próprio livro. A primeira vez que Deus diz "ouvi" a respeito de Israel é na sarça: "ouvi o grito dele diante dos seus feitores" (Êxodo 3:7). Lá o objeto era o grito de gente escravizada; aqui é a queixa de gente libertada. O verbo é o mesmo, e a escuta também: nos dois casos, o que se segue é ação a favor de quem foi ouvido. O texto não distingue a escuta de um clamor justo da escuta de uma murmuração — distingue as palavras, mas responde às duas.
Deus não cita o que o povo disse. Não repete as panelas de carne nem o desejo de ter morrido no Egito. Dá nome à fala: "as murmurações". Nomear a fala alheia já é avaliá-la, e a avaliação está no substantivo escolhido.
A Mekhilta de Rabi Ismael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo) lê na frase uma escuta mais larga que a do momento: "está revelado diante de mim o que a congregação de Israel disse e o que ainda vai dizer" — e aponta Números 11:4, a segunda queixa pela carne. O Haamek Davar (comentário do rabino Naftali Tsvi Yehuda Berlin, Lituânia, século XIX) parte de um detalhe de grafia do substantivo, que Ibn Ezra já tinha chamado de irregular (item 10), para dizer que Deus ouviu não só as queixas contra ele, mas também as que se dirigiam a Moisés e a Arão — e que reclamar do líder é reclamar da presença divina.
Ramban (Moisés ben Nachman, comentador catalão do século XIII) vê nessas palavras a razão de toda a fala. Na primeira promessa, em Êxodo 16:4, o pão vinha como bondade. Agora a murmuração é registrada, e passa a contar como falta. Mesmo assim, Deus dará — e a frase mostra que a resposta não depende de a queixa ter sido justa.
A mesma frase volta, quase palavra por palavra, em Números 14:27: "ouvi as murmurações que os filhos de Israel murmuram contra mim". Lá ela é seguida de uma sentença: a geração inteira morrerá no deserto. Aqui é seguida de comida. As palavras de Deus são as mesmas nos dois lugares; o que muda é o que vem depois delas.
"Fale-lhes, dizendo:"
A ordem de transmitir muda a pessoa gramatical da fala. Até aqui, Deus falou dos "filhos de Israel" em terceira pessoa; a partir daqui, a fala que Moisés deve levar trata o povo por "vocês". Deus fala sobre o povo com Moisés e fala ao povo por meio de Moisés, e a frase marca a passagem de um registro para o outro.
"Ao entardecer vocês comerão carne"
Moisés tinha dito "à tarde" (Êxodo 16:8). Deus diz "ao entardecer", com a expressão hebraica que, em Êxodo 12:6, marca a hora de imolar o cordeiro da Páscoa — ao pé da letra, "entre as duas tardes". Ibn Ezra usa justamente essa troca de palavras entre Êxodo 16:8 e este versículo como argumento sobre a hora da Páscoa. O que este versículo acrescenta é o encontro: a hora da carne do deserto é a hora da carne da Páscoa, e as duas são refeições noturnas de carne num livro em que comer carne é raro. A coincidência está no texto; a intenção, não se pode provar.
A carne é a novidade da fala de Deus. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) registra que, em Êxodo 16:4, a promessa era só de pão; aqui a carne aparece ao lado. Quanto ela durou, os comentaristas não concordam. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) diz que as codornizes foram ocasionais — aqui e em Números 11 —, um agrado e não uma necessidade. Ramban registra a opinião rabínica oposta, de que as codornizes passaram a vir todos os dias desde então, como o maná, e argumenta: o povo tinha pedido duas coisas, carne e pão, e Deus atendeu às duas; que sentido teria dar carne por um ou dois dias? Mas ele mesmo admite que, pelo sentido simples do texto, a carne veio de tempos em tempos, e o pão sempre.
O verbo da carne é só "comer". A Mekhilta, ao comentar esta frase, põe na boca de Deus um raciocínio de duas partes: o pão, vocês pediram porque ninguém vive sem pão, e eu dou; a carne, vocês pediram para encher a barriga, e eu também dou, para que não digam que não posso dar — mas no fim cobrarei. A segunda queixa pela carne, em Números 11:31-34, terminou em praga, e a Mekhilta lê este versículo à luz dela.
"e de manhã se fartarão de pão"
A fartura é só do pão. Ramban aponta a assimetria: o texto diz "carne para comer" e "pão até se fartarem" (Êxodo 16:8), e repete aqui "comerão carne" e "se fartarão de pão"; daí ele conclui que pão houve em abundância, e carne não. A frase devolve ao povo a palavra que ele mesmo usou em Êxodo 16:3 — "pão até nos fartar" — e a devolve para o pão, não para a carne. O povo pediu as panelas e a fartura; a fala de Deus dá a fartura ao alimento de todo dia.
"e saberão que eu sou o SENHOR, o seu Deus."
A fórmula "saberão que eu sou o SENHOR" e o modo como ela funciona — primeiro o acontecimento, depois o saber — estão no estudo de Êxodo 6:7. O que é deste versículo são três diferenças.
A primeira é com a versão de Moisés. Em Êxodo 16:6 ele tinha dito: "à tarde vocês saberão que foi o SENHOR quem os tirou da terra do Egito" — resposta direta à acusação de Êxodo 16:3, "vocês nos trouxeram a este deserto". A fala de Deus tira o Egito da frase. O povo vai saber quem Deus é, e não quem o tirou de lá. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentador francês do século XII) sente falta do complemento e o repõe ao comentar: "que os tirei do Egito". O texto não o traz.
A segunda é o possessivo. Quando a fórmula é dita sobre os egípcios, em Êxodo 7:5, eles saberão "que eu sou o SENHOR". Aqui é "o SENHOR, o seu Deus". Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) resume o contraste: pelas pragas, os egípcios souberam que ele era o SENHOR; pela provisão, Israel saberia que ele era o Deus deles.
A terceira é o meio. Até aqui, na boca de Deus, o saber vinha de atos de força: pragas, o mar. Aqui vem de uma refeição. Moisés já tinha ligado o saber à comida em Êxodo 16:6; agora é Deus quem promete que "eu sou o SENHOR" será conhecido à mesa.
E há a leitura que a Mekhilta e o Haamek Davar fazem da palavra "Deus", Elohim: na regra rabínica, ela designa o juiz. "Saberão que eu sou o SENHOR, o seu Deus" quereria dizer, então, "saberão que sou o juiz que cobrará de vocês". É a mesma tradição que lê ameaça na carne. A leitura existe e é antiga; o versículo, sozinho, não a impõe.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O SENHOR
Fala em primeira pessoa do começo ao fim: "ouvi", "eu sou".
Moisés
Destinatário e mensageiro. Recebe a ordem "fale-lhes" e, com ela, a confirmação do que já tinha anunciado.
Os filhos de Israel
Primeiro são assunto ("as murmurações dos filhos de Israel"), depois destinatários ("vocês comerão"). São os mesmos que, em Êxodo 16:3, disseram preferir ter morrido no Egito junto às panelas de carne.
A carne e o pão
A carne, pelo versículo seguinte, são as codornizes que chegam naquela mesma tarde. O pão é o maná da manhã seguinte, que o povo ainda não conhece e que só ganhará nome adiante no capítulo. Nenhum dos dois é identificado neste versículo: Deus promete "carne" e "pão", palavras comuns, sem dizer de onde virão.
As duas horas
O entardecer do dia da queixa e a manhã do dia seguinte. O versículo organiza o tempo do povo em duas refeições — e, na leitura rabínica, é a primeira vez que Israel tem horário para comer.
O Egito, ausente
Presente na queixa (Êxodo 16:3) e na resposta de Moisés (Êxodo 16:6), o Egito não aparece na fala de Deus. É a única das três falas do trecho em que ele não é mencionado.
5. Pontos de Ensino
A escuta não depende da justiça da queixa
O mesmo verbo que ouviu o grito dos escravos ouve a murmuração dos libertos, e nos dois casos a resposta é ação. O versículo não diz que a murmuração era boa; diz que foi ouvida.
Dar não é aprovar
A carne vem, mas sem a palavra "fartura". A tradição rabínica leu nisso uma reserva; o texto, pelo menos, distingue o que dá em abundância do que só dá.
O essencial antes do desejado
O pão, alimento de todo dia, vem com fartura e de manhã; a carne, alimento da festa, vem ao entardecer e sem medida declarada. O versículo hierarquiza sem comentar.
Conhecer Deus pela mesa
A fórmula de reconhecimento, que até aqui acompanhava pragas e o mar, passa a acompanhar uma refeição. O versículo põe a comida no mesmo plano dos grandes sinais.
A mesma frase pode terminar de dois modos
"Ouvi as murmurações" abre aqui uma promessa e, em Números 14:27, uma sentença. O leitor não pode tirar da frase, sozinha, o que vem depois dela.
6. Aspectos Filosóficos
Uma gramática de duas palavras
O versículo não promete simplesmente comida. Promete uma ordem: dois alimentos, duas horas, dois verbos. Carne ao entardecer, para comer; pão de manhã, para se fartar. Quem organiza assim o que se come — o quê, quando, em que quantidade — está fazendo mais do que alimentar. Está dando forma a uma vida. A pergunta filosófica é esta: em que momento a comida deixa de ser só necessidade do corpo e passa a ser cultura, isto é, um sistema de sentidos partilhado por um grupo?
Massimo Montanari: a comida é cultura
Massimo Montanari (nascido em 1949, historiador italiano, professor de história medieval na Universidade de Bolonha e um dos fundadores da história da alimentação como disciplina) respondeu a essa pergunta num livro curto que ficou de referência: Il cibo come cultura (2004), publicado no Brasil como Comida como cultura.
A tese é que a comida é cultura em todo o percurso até a boca. É cultura quando é produzida, porque o ser humano não come o que encontra na natureza: cria o próprio alimento, com agricultura e criação. É cultura quando é preparada, porque cozinhar transforma o produto por técnicas que uma comunidade inventa e transmite. E é cultura quando é consumida, porque cada grupo escolhe o que come segundo critérios econômicos, religiosos, de prestígio e de identidade.
Montanari leva a ideia a uma comparação que estrutura o livro: a cozinha funciona como uma língua. Tem vocabulário — os produtos, os ingredientes. Tem gramática — as receitas, que dão sentido aos ingredientes combinando-os. Tem sintaxe — a refeição, a ordem dos pratos, a hora de cada coisa. E tem retórica — o modo de servir e de comer. Como uma língua, a cozinha guarda a memória e a identidade de quem a fala.
Nos trabalhos de história medieval, ele mostrou como dois alimentos carregaram duas visões de mundo. No mundo romano e mediterrâneo, o pão (com o vinho e o azeite) era sinal de civilização: era alimento produzido, cultivado, transformado. A carne, associada à caça e à floresta, era o alimento dos povos germânicos e, na Idade Média, virou sinal de força e de poder — a mesa dos senhores se mede pela carne, a do camponês pelo pão. O cristianismo pôs o pão no centro do culto, e o jejum passou a ser, antes de tudo, abstenção de carne.
O que isso mostra em Êxodo 16:12
Lido com Montanari, o versículo tem uma sintaxe. Não diz apenas "vocês terão comida"; diz em que ordem e a que hora, e marca o pão com a fartura e a carne sem ela. É uma refeição antes de ser um milagre. O que o Talmude diz em linguagem rabínica — antes de Moisés o povo comia a qualquer hora, como galinhas no monturo — é, em linguagem de Montanari, a passagem da necessidade para a cultura: comer a horas certas é já comer como povo.
E mostra a hierarquia entre os dois alimentos. A queixa de Êxodo 16:3 punha a carne em primeiro lugar — "a panela de carne" — e o pão em segundo. A resposta inverte o peso: a carne vem primeiro na ordem do dia, mas é o pão que recebe a fartura e a regularidade. É a mesma polaridade que Montanari descreve na Europa medieval, com o pão do lado do sustento e a carne do lado do desejo. O vocabulário bíblico da carne, como o item 2 mostra, também é o vocabulário do desejo.
Onde o versículo resiste
Primeiro, no ponto central da tese. Para Montanari, o alimento se torna cultura porque é produzido: o pão é civilização porque é cultivado, colhido, moído, assado. O pão deste versículo não é cultivado por ninguém. Ninguém semeia, ninguém colhe, ninguém cria as aves. Das três etapas que fazem da comida uma cultura, o deserto suprime a primeira — sobra só a preparação, que o capítulo mencionará adiante, e o consumo, que o versículo regula. A cultura alimentar que nasce aqui é a de um povo que come o que não produziu, e isso Montanari não previu.
Segundo, no lugar da carne. Na Europa que ele estuda, a carne é sinal de poder e de prestígio. Em Israel, matar um animal era quase sempre um ato religioso, e a carne pertencia à festa e ao sacrifício mais do que ao poder do senhor. A polaridade pão/carne existe nos dois mundos, mas o eixo não é o mesmo.
Montanari é historiador da Idade Média europeia, e não escreveu sobre este versículo; trazê-lo aqui é escolha nossa. O que a aproximação mostra é que Êxodo 16:12 já é, antes de qualquer outra coisa, a descrição de uma refeição organizada — e que o milagre do capítulo não está só no que cai do céu, mas na forma de comer que vem com ele.
7. Aplicações Práticas
Comer a horas certas
O versículo marca duas horas para comer, e a tradição rabínica viu nisso a origem do horário fixo de refeições. Em tempos de escassez ou de desordem, manter horário de refeição é um dos primeiros modos de devolver forma a uma casa. O texto deu ao povo duas horas antes de lhe dar qualquer lei.
Distinguir o que sustenta do que se deseja
O versículo dá as duas coisas, mas marca a diferença: o pão vem com fartura, a carne vem sem medida. Quem decide gastos numa família apertada faz essa distinção todos os dias. O versículo não condena o desejo — a carne é dada —, mas não o põe no mesmo lugar do sustento.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
A carne foi castigo ou presente?
No versículo, presente: é promessa, sem ameaça escrita. A leitura de castigo vem da Mekhilta, que lê "o seu Deus" como "o seu juiz", e de Números 11, onde a segunda vinda das codornizes termina em praga. Não há consenso, e o texto do Êxodo, sozinho, não traz o castigo.
Por que a carne à tarde e o pão de manhã, e não o contrário?
O texto não explica. Os comentaristas deram três razões. Uma é prática: as codornizes, aves migratórias, pousam exaustas ao fim do dia — o assunto é do versículo seguinte. Outra é a de Rashi e da Mekhilta: o pão, pedido com razão, foi dado de manhã, com tempo para prepará-lo; a carne, pedida sem necessidade, foi dada à tarde, com pressa. A terceira é a de Yoma 75b: carne se come à noite por regra de etiqueta. As três são leituras; nenhuma está no versículo.
O povo comeu carne todos os dias depois disso?
É discutido. Ramban registra a opinião de que sim, e ele próprio reconhece que o sentido simples é o contrário. Números 11, em que o povo chora por carne como se não a tivesse, pesa contra a leitura diária.
"Saberão" o quê, exatamente, que já não soubessem?
O povo tinha visto as pragas e o mar. O versículo não diz que não sabiam; diz que saberão de outro modo — pela comida, e com o possessivo "o seu Deus". O saber de que fala a fórmula não é uma informação nova, é um reconhecimento ligado a um acontecimento.
9. Conexão com Outros Textos
O primeiro "ouvi"
Êxodo 3:7 — "E o SENHOR disse: 'Eu vi, sim, a aflição do meu povo que está no Egito, e ouvi o grito dele diante dos seus feitores; pois conheço as dores dele.'"
O mesmo verbo, na boca de Deus, sobre o mesmo povo. Lá, o grito da escravidão; aqui, a murmuração da liberdade.
As mesmas palavras, com sentença
Números 14:27-29 — "Até quando suportarei esta congregação má, que murmura contra mim? Ouvi as murmurações que os filhos de Israel murmuram contra mim. Diga-lhes: 'Por minha vida, diz o SENHOR, farei a vocês conforme o que falaram aos meus ouvidos: neste deserto cairão os cadáveres de vocês.'"
A frase de Êxodo 16:12, invertida na ordem e seguida da condenação de uma geração.
A segunda carne
Números 11:18-20 — "Vocês comerão carne… não comerão um dia, nem dois, nem cinco, nem dez, nem vinte; mas um mês inteiro, até que lhes saia pelo nariz e lhes seja nojo."
Números 11:33 — "A carne ainda estava entre os dentes deles, antes de ser mastigada, quando a ira do SENHOR se acendeu contra o povo, e o SENHOR feriu o povo com uma praga muito grande."
A carne que aqui é promessa, lá é excesso e castigo. É à luz desta cena que a Mekhilta lê "no fim cobrarei".
Como os salmos lembraram as duas carnes
Salmo 78:27-31 — "Fez chover carne sobre eles como pó, aves de asa como a areia do mar… Comeram e se fartaram muito, e ele lhes deu o que desejavam. Ainda não tinham saciado o desejo, a comida ainda estava na boca deles, quando a ira de Deus subiu contra eles."
Salmo 106:14-15 — "Entregaram-se ao desejo no deserto e puseram Deus à prova no ermo. Ele lhes deu o que pediram, mas mandou a magreza às suas almas."
Os dois salmos fundem a carne do Êxodo e a de Números numa só memória, e nos dois a fartura de carne é o prelúdio do castigo — exatamente o que Êxodo 16:12 não diz.
A outra carne comida à noite
Êxodo 12:8 — "Naquela noite comerão a carne assada no fogo; com pães sem fermento e com ervas amargas a comerão."
A carne da Páscoa, comida na hora marcada pela mesma expressão "ao entardecer", também vem acompanhada de pão.
A fórmula sobre os egípcios
Êxodo 7:5 — "E os egípcios saberão que eu sou o SENHOR, quando eu estender a minha mão sobre o Egito e tirar os filhos de Israel do meio deles."
Sem o possessivo. Para Israel, em Êxodo 16:12, é "o seu Deus".
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
“Ouvi as murmurações dos filhos de Israel. Fale-lhes, dizendo: ‘Ao entardecer vocês comerão carne, e de manhã se fartarão de pão; e saberão que eu sou o SENHOR, o seu Deus.’”
Texto hebraico
שָׁמַעְתִּי אֶת־תְּלוּנֹּת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל דַּבֵּר אֲלֵהֶם לֵאמֹר בֵּין הָעַרְבַּיִם תֹּאכְלוּ בָשָׂר וּבַבֹּקֶר תִּשְׂבְּעוּ־לָחֶם וִידַעְתֶּם כִּי אֲנִי יְהוָה אֱלֹהֵיכֶם׃
Transliteração
shama'ti et-telunnot benei Yisrael; dabber alehem lemor: bein ha-arbayim tokhlu vasar, u-va-boqer tisbe'u-lachem, wi-yda'tem ki ani YHWH Eloheikhem.
Análise palavra por palavra
שָׁמַעְתִּי — shama'ti, "ouvi". Verbo shama, "ouvir", no tronco simples, perfeito, primeira pessoa do singular. O perfeito marca a ação concluída: a escuta já aconteceu antes de a fala começar. É o verbo de Êxodo 3:7, também em primeira pessoa e também na boca de Deus. A palavra abre o versículo, e por isso tem peso: a primeira coisa que Deus diz é que ouviu.
אֶת־תְּלוּנֹּת — et-telunnot, "as murmurações".
Et marca o objeto direto. Telunnot é o plural do substantivo da raiz da murmuração. A grafia aqui é irregular, e Ibn Ezra a registra: a vogal "u" vem escrita com a letra vav, e logo depois dela a consoante seguinte leva o ponto de reforço — combinação que as regras de vocalização normalmente não admitem. O Haamek Davar tira dessa grafia a lição de que Deus ouviu também as queixas contra Moisés e Arão. Há um detalhe que confirma que a grafia é variável: em Números 14:27, na mesma frase, a palavra é escrita ao contrário — o "u" sem vav e o "o" com vav. As duas passagens que dizem "ouvi as murmurações" grafam a palavra de modo espelhado.
בְּנֵי יִשְׂרָאֵל — benei Yisrael, "dos filhos de Israel". Ligado a "murmurações" pela forma de posse: as murmurações pertencem a eles.
דַּבֵּר אֲלֵהֶם לֵאמֹר — dabber alehem lemor, "fale-lhes, dizendo". Imperativo do Piel de davar, "falar", a preposição el com o pronome "eles" e a palavra que abre citação. É o mesmo par de verbos do versículo anterior, agora em forma de ordem.
בֵּין הָעַרְבַּיִם — bein ha-arbayim, "ao entardecer", literalmente "entre as duas tardes". A expressão, as suas onze ocorrências e as leituras sobre a hora que ela marca estão no estudo de Êxodo 12:6. Aqui basta o dado: é a forma do hebraico para pares (como "as duas mãos"), e o texto a usa no lugar do simples erev, "tarde", que Moisés usara em Êxodo 16:8.
תֹּאכְלוּ בָשָׂר — tokhlu vasar, "comerão carne". Verbo akhal, "comer", imperfeito, segunda pessoa do plural, sem nenhum complemento de quantidade. Basar é carne no sentido amplo — a de comer, o corpo, e por extensão o parentesco, "a minha carne". A primeira consoante perde o ponto de reforço por vir logo depois de uma vogal, e soa "v": vasar.
וּבַבֹּקֶר — u-va-boqer, "e de manhã". Conjunção, preposição e artigo: "e na manhã", a do dia seguinte.
תִּשְׂבְּעוּ־לָחֶם — tisbe'u-lachem, "se fartarão de pão". Verbo sava, "estar saciado", imperfeito, segunda pessoa do plural, ligado ao objeto pelo traço de união. O hebraico não usa preposição: o pão é objeto direto da saciedade, "fartar-se pão". Lechem é o pão e também a comida em geral; Ramban, comentando Êxodo 16:4, insiste em "pão" no sentido próprio, porque o maná seria moído e assado — o que Ibn Ezra, que entendia "comida", contestava.
וִידַעְתֶּם — wi-yda'tem, "e saberão". Verbo yada, "saber, conhecer", na forma que, depois de uma ordem ou de um futuro, continua o futuro: é consequência, não ordem nova.
כִּי אֲנִי יְהוָה אֱלֹהֵיכֶם — ki ani YHWH Eloheikhem, "que eu sou o SENHOR, o seu Deus". Ki introduz o conteúdo do saber; ani é o pronome "eu"; o nome próprio; e Elohim com o sufixo "de vocês". A frase não tem verbo "ser": o hebraico justapõe o pronome e o nome.
As versões antigas
A Septuaginta traduz eisakekoa ton gongysmon ton huion Israel… to pros hesperan edesthe krea kai to proi plesthesesthe arton. Três mudanças. O verbo é eisakouo, "ouvir com atenção", o mesmo que o grego usa para "atender" uma oração. As murmurações viram singular: "a murmuração". E "entre as duas tardes" vira "pela tarde", sem a forma dupla. O Targum de Ônquelos escreve shemia qodamai, "foi ouvido diante de mim": em vez de dizer que Deus ouviu, diz que a queixa chegou à presença dele — o cuidado habitual da tradução aramaica de não atribuir a Deus ações de órgãos humanos. E a Vulgata põe vespere comedetis carnes et mane saturabimini panibus, no plural: "carnes" e "pães".
11. Conclusão
Com base no que foi dito, a primeira conclusão é que a resposta de Deus não espera a queixa ficar justa. A frase começa por "ouvi", e o que foi ouvido é chamado pelo nome menos favorável — murmuração. Mesmo assim, o que vem em seguida é comida. O verbo que atendeu o grito dos escravos no Egito atende agora a reclamação dos libertos, e o texto não condiciona uma coisa à outra.
A segunda conclusão é que a resposta tem forma. O versículo não despeja alimento: estabelece horas, separa o sustento do desejo e dá a um a fartura que nega ao outro. Antes de haver lei no Sinai, há uma ordem da mesa — e a tradição rabínica tirou daqui o horário das refeições.
A terceira é que o conhecimento de Deus, neste ponto do livro, muda de lugar. Ele deixa de depender de pragas e de mar e passa a depender do que se come ao entardecer e de manhã. E muda de tom: não é "eu sou o SENHOR" dito a inimigos, é "o seu Deus" dito a quem reclamava.
A última é uma advertência de leitura. As mesmas palavras — "ouvi as murmurações dos filhos de Israel" — abrem aqui uma promessa e, em Números 14:27, uma condenação. A tradição que leu ameaça neste versículo leu-o à luz do que veio depois. O versículo, na ordem em que o Êxodo o põe, termina em pão.













