📖 Navegar na Bíblia:
‹

Êxodo 12:6

›
✍️ Por Alberto Adriano·25 de setembro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 31 acessos
Vocês o guardarão até o décimo quarto dia deste mês, e toda a assembleia da congregação de Israel o imolará ao entardecer.
Pátio de uma casa no fim da tarde, com o sol baixo no horizonte e um cordeiro amarrado junto à entrada.

Estudo


Vocês o guardarão até o décimo quarto dia deste mês, e toda a assembleia da congregação de Israel o imolará ao entardecer.

1. Introdução

O animal fica guardado quatro dias, e depois é morto numa hora que o texto não sabe dizer com precisão.

"Ao entardecer" traduz uma expressão hebraica que significa, ao pé da letra, "entre as duas tardes" — e ninguém, nos três mil anos seguintes, conseguiu provar quais são essas duas tardes.

Fariseus, samaritanos e caraítas responderam de modos incompatíveis, e a diferença não é acadêmica: ela desloca a hora do abate em várias horas.

Antes disso, o versículo empilha três palavras para dizer quem mata o animal — assembleia, congregação, Israel —, e nenhuma delas é sacerdote.

É o versículo que transforma a ordenança em ato simultâneo de um povo inteiro, sem templo, sem altar e sem hora certa.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um mundo sem relógio

Marcar a hora do abate parece trivial hoje e não era. Ninguém no Egito do século XIII antes da era comum, e ninguém em Israel por mais de mil anos depois, olhava para um mostrador.

O dia era medido pelo sol: nascer, meio-dia pela sombra mais curta, pôr do sol. O sistema que depois virou padrão dividia a luz do dia em doze partes iguais — de modo que a "hora" do verão é mais longa que a do inverno, porque o que se divide em doze é a duração da luz, e ela muda com a estação. O cômputo da Mishná trabalha assim: quando ela diz "oito horas e meia", está dizendo "passados oito doze avos e meio do dia claro", e não "oito e meia da manhã".

Some-se a isso que o dia hebraico começa ao anoitecer, não à meia-noite. O entardecer não fecha o dia: abre o seguinte. Uma ordem que marque um ato "ao entardecer do dia catorze" já é, por construção, ambígua quanto a de que lado da virada ela cai.

O que a frase produziu quando houve templo

Séculos depois deste capítulo, a Páscoa deixou de ser feita em casa e passou a ser feita no templo de Jerusalém. A Mishná, no tratado Pesachim, registra o procedimento — e é onde se vê a expressão do versículo virando cronograma.

A oferta diária da tarde, diz Pesachim 5:1, era abatida às oito horas e meia e posta no altar às nove e meia. Na véspera da Páscoa era antecipada para sete e meia, porque o cordeiro pascal tinha de vir depois dela. E se a véspera caísse numa sexta-feira, antecipava-se de novo, para seis e meia, para que houvesse tempo de assar tudo antes de entrar o sábado.

Pesachim 5:3 fixa o limite do outro lado, e cita este versículo para isso: abatido antes do meio-dia, o animal é inválido.

Pesachim 5:5 descreve a multidão. O abate era feito em três turmas. A primeira entrava, o pátio enchia, e as portas eram fechadas com a gente dentro. Soavam as trombetas. Os sacerdotes ficavam em fila, do lugar do abate até o altar, com bacias na mão — uma fila inteira de bacias de prata, outra inteira de bacias de ouro, sem misturar. As bacias não tinham fundo chato. Foram feitas de propósito sem base, para que ninguém pudesse pousá-las, esquecê-las e deixar o sangue coagular.

O sangue passava de mão em mão pela fila até o sacerdote mais próximo do altar, e voltava a bacia vazia no sentido contrário. É uma linha de montagem, montada porque o número de animais e o tamanho da janela de tempo não permitiam outra coisa.

Nada disso está em Êxodo 12. A Mishná descreve uma instituição que aqui não existe, mais de mil anos depois. Serve para mostrar o que a frase "toda a assembleia da congregação de Israel o imolará" exige, na prática, quando um povo inteiro tenta cumpri-la no mesmo lugar e no mesmo dia.

Quem ainda faz, e a que horas

A discussão sobre "entre as duas tardes" não é só de livro. Os samaritanos celebram a Páscoa no monte Gerizim até hoje, com abate de animais ao ar livre, e o serviço começa perto do pôr do sol — a leitura que faz das duas tardes o intervalo entre o sol sumir e a luz acabar. Os caraítas leem do mesmo modo. A leitura rabínica, que prevaleceu no judaísmo majoritário, põe o abate muito antes, a partir do momento em que o sol passa do meio do céu.

3. Análise Teológica do Versículo

"Vocês o guardarão até o décimo quarto dia deste mês"

O animal foi escolhido no dia dez e só morre no dia catorze: passa quatro dias guardado. O verbo hebraico é o de guardar, vigiar, ter sob custódia — e as leituras divergem sobre o que exatamente se faz nesses quatro dias.

Primeira leitura, registrada por Rashi, o comentarista francês do século XI, e apoiada na Mekhilta (a coletânea rabínica de comentário a Êxodo): guardar aqui é examinar. Os quatro dias existem para conferir se o animal tem defeito, exigência do versículo anterior. A vantagem é ligar os dois versículos; a desvantagem é que o texto não diz "examinem".

Segunda leitura: guardar é separar. O animal sai do rebanho, entra na casa e deixa de ser um animal qualquer. Quatro dias com o bicho dentro de casa é tempo suficiente para que a família inteira, e a vizinhança, saibam o que vai acontecer.

Terceira leitura, também na Mekhilta, atribuída a Rabi Matia ben Charash: os quatro dias existem porque aquele povo não tinha mandamento nenhum a cumprir, e um resgate precisava de um ato. Ele lê Ezequiel 16:6-8 — a passagem em que Deus encontra a criança revolvendo-se no seu sangue — como referência a dois sangues, o do cordeiro e o da circuncisão, praticados na mesma noite.

Essa terceira leitura nasce de uma constatação que o texto bíblico permite fazer: a regra dos quatro dias não se repetiu. A Mishná, em Pesachim 9:5, lista as diferenças entre a Páscoa feita no Egito e a de todas as gerações seguintes, e a primeira da lista é esta. Os rabinos sentiram que uma exigência feita uma vez só pedia explicação; Êxodo não dá nenhuma.

"e toda a assembleia da congregação de Israel o imolará"

Três palavras empilhadas para dizer o mesmo sujeito: assembleia, congregação, Israel. E uma impossibilidade prática na frase: um povo inteiro não mata um animal.

Três leituras respondem a isso.

Primeira leitura: é ênfase. O acúmulo de termos serve para dizer que ninguém fica de fora — não é um grupo, não é uma tribo, não é uma elite. Todos.

Segunda leitura, rabínica: cada palavra conta. Como o texto usa três termos onde um bastaria, a Mishná deriva daí que o abate se fazia em três turmas sucessivas. É leitura que só faz sentido dentro de um sistema de templo, e é assumidamente dedução.

Terceira leitura, também da Mekhilta: se está escrito que todos imolam, e na prática um só imola, então o ato de um vale pelos outros. Daí os rabinos extraíram um princípio jurídico de alcance geral — o enviado de uma pessoa equivale à própria pessoa.

Há um dado que nenhuma das três discute e que salta aos olhos: não aparece sacerdote nenhum. Quem segura a faca, neste capítulo, é o chefe de casa. Arão está na cena, mas como ouvinte da ordem, não como oficiante.

Isso mudou, e a mudança está registrada. Em 2 Crônicas 30:17, na Páscoa de Ezequias, os levitas tiveram de abater os animais de quem não estava em condição de fazê-lo; em 2 Crônicas 35:11, na de Josias, os levitas esfolam e os sacerdotes aspergem o sangue. O rito passou das mãos das famílias para as mãos de uma classe — e o versículo, aqui, ainda está do lado de cá.

"ao entardecer"

A pergunta é simples de enunciar e nunca foi resolvida: que horas são "entre as duas tardes"?

O hebraico diz isso literalmente, no plural — duas tardes, com o abate no meio. O que o texto não diz é onde começa e onde acaba cada uma delas. Quatro respostas concorrem, e elas não são compatíveis.

Primeira resposta, a rabínica: a primeira tarde começa quando o sol passa do meio do céu e começa a descer; a segunda é o pôr do sol. O abate acontece entre as duas, ou seja, na segunda metade da tarde. Rashi defende essa posição e a explica pelo escurecimento: o dia começa a escurecer depois do meio-dia, a noite começa a escurecer no anoitecer, e "entre as duas tardes" é o intervalo entre esses dois escurecimentos. Foi a leitura que prevaleceu, e é a que a Mishná opera ao invalidar o animal abatido antes do meio-dia.

Segunda resposta, de Ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII, e a mesma dos samaritanos e dos caraítas: a primeira tarde é o pôr do sol; a segunda é o momento em que a luz se apaga nas nuvens, cerca de uma hora e vinte minutos depois. "Entre as duas tardes" é essa faixa estreita, já no fim do crepúsculo. Ibn Ezra sustenta a leitura com outros usos da mesma expressão: Êxodo 30:8 manda Arão acender as lâmpadas "entre as duas tardes", e Êxodo 27:21 diz que elas ardem "desde a tarde até a manhã" — ninguém acende lâmpada às três da tarde. E Deuteronômio 16:6 manda sacrificar a Páscoa "ao pôr do sol".

Terceira resposta, mais antiga que as duas: o Livro dos Jubileus, obra judaica do século II antes da era comum, define a janela de modo próprio. Manda abater "desde a terça parte do dia até a terça parte da noite", e explica por quê: duas partes do dia pertencem à luz, e a terceira pertence ao entardecer. Não é a faixa estreita de Ibn Ezra nem a meia tarde dos rabinos — é o último terço da luz. E o texto acrescenta que não é lícito abater durante nenhum outro período da luz.

Quarta resposta, de Ramban, comentarista espanhol do século XIII: a palavra traduzida por "entre" não significa "entre", e sim "no meio de". O abate se faz no meio do período que o hebraico chama de tardes, do fim do meio-dia até o começo do pôr do sol. Ele defende a janela de Rashi por outro caminho gramatical, e acrescenta uma observação contra a leitura simples: a Bíblia usa "tarde" para o fim do dia em cenas que não podem ser noturnas, como a chegada dos anjos a Sodoma em Gênesis 19:1, com Ló sentado à porta da cidade.

Há ainda uma posição extrema, registrada na Mekhilta em nome de Rabi Natan: "entre as duas tardes" seria o meio-dia. Ele próprio admite que não tem prova, e apoia a sugestão em Jeremias 6:4, onde subir ao meio-dia e a queda das sombras da tarde aparecem lado a lado.

Não é possível decidir pela letra. A expressão pressupõe uma divisão do dia que quem escreveu considerava óbvia, e que por isso não explicou. O que se pode afirmar com segurança é que a ambiguidade é do texto, e não de quem o lê — e que ela nunca foi inofensiva, porque de resolvê-la depende a hora de um rito que um povo inteiro fazia ao mesmo tempo.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A assembleia

As duas palavras empilhadas no versículo — que a ABC traduz por "assembleia" e "congregação" — designam o povo reunido como corpo que age. Não são sinônimos perfeitos: uma tende a nomear a reunião convocada, a outra o conjunto permanente. Aqui aparecem coladas, e o efeito é de totalidade sem brecha.

Onde a cena acontece, e onde passou a acontecer

Em cada casa, no Egito. Não há lugar de culto, não há pátio, não há altar: o abate é doméstico e simultâneo, milhares de atos privados fazendo juntos um ato nacional.

Depois, no templo de Jerusalém. Deuteronômio 16:5-6 proíbe expressamente fazer a Páscoa "em qualquer das suas cidades" e manda fazê-la no lugar escolhido. As duas Páscoas que o Antigo Testamento descreve em detalhe — a de Ezequias, em 2 Crônicas 30, e a de Josias, em 2 Crônicas 35 — já são assim.

Quem discutiu a hora

Rashi, na França do século XI; Ibn Ezra, viajando pela Europa cristã no século XII e escrevendo contra Rashi; Ramban, na Espanha do século XIII, defendendo Rashi por outro caminho. Antes de todos eles, o autor anônimo do Livro dos Jubileus, no século II antes da era comum, e os compiladores da Mekhilta e da Mishná.

Fora do debate rabínico, os samaritanos — comunidade que se separou do judaísmo da Judeia e mantém o seu próprio texto da Torá — e os caraítas, que no século VIII passaram a recusar a autoridade da tradição oral. As duas correntes chegaram à mesma leitura, e ela é a oposta da que venceu.

A data

Dia catorze do primeiro mês, contado a partir do dia dez fixado em Êxodo 12:3. É a única vez que a Bíblia manda separar o animal com quatro dias de antecedência.

5. Pontos de Ensino

Um ato marcado no tempo vale mais do que um ato marcado no lugar

A ordenança não define onde cada família deve estar. Define quando todas devem agir. Num povo sem território, sem templo e prestes a se mover, a única coordenada disponível é a hora — e é sobre ela que o rito é construído.

Quatro dias entre a decisão e a execução

O animal é escolhido no dia dez e morto no dia catorze. O intervalo não é descrito como espera passiva: é custódia. Alguma coisa foi decidida e precisa ser mantida decidida por quatro dias, à vista de todos os que moram na casa.

A imprecisão de uma regra aparece quando ela precisa ser cumprida

Enquanto ninguém executa, "ao entardecer" parece claro. Bastou um povo tentar fazer a mesma coisa no mesmo instante para que a frase se revelasse insuficiente — e para que fossem necessários séculos de discussão e, por fim, um cronograma em horas.

Todos fazem, mas as mãos são de um

A frase diz que a assembleia inteira imola. Na prática, alguém imola por ela. A distância entre esses dois modos de descrever a mesma ação é a matéria-prima de toda representação — e foi dela que os rabinos tiraram um princípio jurídico.

O rito começa sem classe especializada

Não há sacerdote na cena. Quem executa é quem mora na casa. A profissionalização do culto veio depois, e o texto permite ver o antes.

6. Aspectos Filosóficos

Onde exatamente acaba a tarde?

A pergunta parece infantil e é uma das mais difíceis da filosofia.

Todo mundo sabe o que é tarde e o que é noite. Ninguém consegue apontar o segundo em que uma vira a outra. Entre a tarde indiscutível e a noite indiscutível existe uma faixa em que as duas descrições parecem meio certas e meio erradas — e é precisamente dentro dessa faixa que o versículo manda agir.

Eubulides e o problema do limite

Eubulides de Mileto (filósofo grego do século IV antes da era comum, da escola de Mégara) formulou o problema num enigma que ficou conhecido como o do monte de areia. Um grão de areia não é um monte. Acrescentar um grão a algo que não é monte não transforma aquilo em monte. Logo, por mais grãos que se acrescentem, nunca haverá monte — o que é obviamente falso, já que montes existem.

O enigma não é brincadeira com palavras. Mostra que termos perfeitamente úteis — monte, careca, alto, tarde — funcionam sem ter fronteira definida: classificam bem os casos claros e falham nos de borda, e a falha não é defeito de quem fala.

Max Black e a franja das palavras

Max Black (filósofo anglo-americano, 1909-1988) retomou o problema num ensaio de 1937, Vagueza: um exercício de análise lógica, e propôs uma imagem que descreve bem o que acontece aqui.

Toda palavra vaga tem, segundo ele, um núcleo e uma franja. No núcleo, quem fala a língua concorda sem hesitar: meio-dia não é tarde, meia-noite não é tarde. Na franja, falantes igualmente competentes aplicam a palavra de modos diferentes — e a divergência não vem de nenhum deles saber menos. Vem de a palavra não ter, ali, resposta a dar.

Black acrescenta o ponto decisivo: nenhuma quantidade de informação adicional resolve um caso de franja. Saber a posição exata do sol, o ângulo da luz e o grau de escuridão não decide se aquilo ainda é tarde, porque a dúvida nunca foi sobre o sol. Era sobre a palavra.

É exatamente o que acontece aqui

Enquanto "entardecer" servir para combinar um encontro, a imprecisão é irrelevante. No momento em que uma nação inteira tem de abater animais ao mesmo tempo, e em que um animal abatido fora da hora é inválido, a fronteira precisa existir — e a linguagem não a fornece.

A solução encontrada foi a mesma que o direito usa até hoje: substituir a palavra vaga por um número. A Mishná não discute o sentido de "tarde"; decreta o meio-dia como começo da janela e fixa o abate em horas contadas. O número não descobre a fronteira — inventa uma, e a torna obrigatória. Comunidades que recusaram aquela convenção, como os samaritanos e os caraítas, continuaram lendo a mesma frase e chegando a outra hora, e não estão lendo errado: estão usando outra convenção.

O guarda-corpo

Nem Eubulides nem Black têm relação com Êxodo. O que eles oferecem é o nome do problema que o versículo produziu sem querer, e a explicação de por que ele nunca foi resolvido por mais leitura do hebraico: não há no hebraico o que procurar. O texto não escondeu a hora — usou uma palavra que não tem hora dentro.

7. Aplicações Práticas

Prazo sem hora é prazo pela metade

"Ao entardecer" foi suficiente enquanto ninguém precisou agir junto. Combinações do tipo "no fim da tarde", "no começo do mês", "assim que der" funcionam entre duas pessoas de boa vontade e desmoronam quando muita gente depende delas. O versículo mostra o custo de descobrir isso tarde.

O intervalo entre decidir e executar

Quatro dias separam a escolha do animal do uso dele. Não é hesitação: é custódia de uma decisão já tomada. Decisões que precisam sobreviver a um intervalo costumam exigir alguma forma de guarda — algo que impeça que se desfaçam sozinhas enquanto o tempo passa.

Delegar não é deixar de fazer

A frase diz que a assembleia imola, e um só imola. A leitura rabínica que sai daí — o enviado equivale a quem o enviou — descreve bem o que se espera de qualquer delegação séria: quem delega continua sendo o autor do ato, e não pode tratá-lo como ato alheio quando ele dá errado.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Afinal, a que horas era o abate?

Não se sabe. A expressão hebraica significa "entre as duas tardes" e não define nenhuma das duas. A tradição rabínica pôs a janela na segunda metade da tarde, a partir do meio-dia; Ibn Ezra, os samaritanos e os caraítas puseram-na no crepúsculo, depois do sol se pôr; o Livro dos Jubileus pôs no último terço da luz do dia. As três leituras são defensáveis a partir do texto, e nenhuma o esgota.

Por que quatro dias de espera?

O texto não diz. A explicação mais repetida — inspecionar o animal em busca de defeito — é dedução rabínica, ancorada no versículo anterior. O que se pode verificar é que a exigência não se repetiu: a própria tradição judaica registra os quatro dias como peculiaridade da Páscoa do Egito.

Como "toda a assembleia" pode imolar um animal?

Não pode, literalmente, e é isso que torna a frase interessante. A saída clássica é ler o ato de um como ato de todos. Outra saída, igualmente antiga, é ler o acúmulo de palavras como ênfase, sem consequência prática.

Quem matava o animal era sacerdote?

Aqui, não. O versículo não menciona sacerdote, e o capítulo inteiro passa a ordenança às famílias. A presença de sacerdotes e levitas no abate aparece nos relatos tardios de 2 Crônicas 30 e 35, quando a Páscoa já era feita no templo.

Se a hora é incerta, o rito ficou inválido?

Cada comunidade fixou a sua e passou a considerar válida a própria prática. É o que samaritanos e judeus rabínicos fazem até hoje, em horas diferentes, com o mesmo versículo. O texto não arbitra, e nenhuma das duas leituras pode ser acusada de ignorar o que está escrito.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma expressão em outros contextos

Êxodo 16:12 — "Ao entardecer vocês comerão carne, e de manhã se fartarão de pão; e saberão que eu sou o SENHOR, o seu Deus."

É a passagem das codornizes, e o hebraico usa aqui a mesma expressão deste versículo. Três versos antes, Êxodo 16:8 descreve o mesmo momento com a palavra simples para "tarde" — o que Ibn Ezra usa como prova de que as duas coisas são a mesma, e que o momento é o do pôr do sol.

Êxodo 30:8 — "e, quando Arão acender as lâmpadas ao entardecer, queimará o incenso."

O argumento mais forte contra a leitura rabínica: acender lâmpadas no meio da tarde não faz sentido, e Êxodo 27:21 diz que elas ardem "desde a tarde até a manhã".

A mesma hora, na lei do sacrifício diário

Êxodo 29:39 — "Um cordeiro oferecerá pela manhã, e o outro cordeiro oferecerá ao entardecer."

A expressão deste versículo também governa a oferta diária, e é por isso que a Mishná precisou encaixar a Páscoa e o sacrifício da tarde na mesma janela, antecipando um para caber o outro.

A data, repetida na legislação

Levítico 23:5 — "No primeiro mês, no dia catorze do mês, ao entardecer, é a Páscoa do SENHOR."

Números 9:3 — "No dia catorze deste mês, ao entardecer, a celebrarão no seu tempo determinado, conforme todos os seus estatutos e preceitos."

As duas repetem a fórmula sem esclarecê-la, sinal de que a expressão era tratada como suficiente por quem escrevia.

A passagem que puxa para o outro lado

Deuteronômio 16:6 — "mas no lugar que o SENHOR, seu Deus, escolher para fazer habitar ali o seu nome, ali sacrificará a Páscoa, à tarde, ao pôr do sol, no tempo em que saiu do Egito."

É o texto que Ibn Ezra usa para derrubar a leitura rabínica, e que Ramban responde dividindo a frase: "à tarde" seria a hora do abate, "ao pôr do sol" a hora de comer.

Quando o abate saiu das mãos das famílias

2 Crônicas 30:17 — "Porque muitos na assembleia não se haviam santificado; por isso os levitas ficaram encarregados de imolar os cordeiros da Páscoa por todo aquele que não estava puro, para os santificar ao SENHOR."

2 Crônicas 35:11 — "E imolaram a Páscoa; os sacerdotes aspergiam o sangue recebido das mãos deles, e os levitas esfolavam os animais."

As duas cenas mostram a distância percorrida desde Êxodo 12:6. A frase continuava a mesma; quem a executava, não.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Vocês o guardarão até o décimo quarto dia deste mês, e toda a assembleia da congregação de Israel o imolará ao entardecer.

Texto hebraico

וְהָיָה לָכֶם לְמִשְׁמֶרֶת עַד אַרְבָּעָה עָשָׂר יוֹם לַחֹדֶשׁ הַזֶּה וְשָׁחֲטוּ אֹתוֹ כֹּל קְהַל עֲדַת־יִשְׂרָאֵל בֵּין הָעַרְבָּיִם׃

Transliteração

we-hayah lakhem le-mishmeret ad arba'ah asar yom la-chodesh ha-zeh; we-shachatu oto kol qehal adat-Yisrael bein ha-arbayim.

Análise palavra por palavra

לְמִשְׁמֶרֶת — le-mishmeret, "sob guarda".

Substantivo da raiz shamar, guardar, vigiar, conservar. A forma designa o encargo de guardar, e não o ato de olhar: é a palavra do turno de serviço dos sacerdotes, do posto do sentinela e do que fica reservado em depósito. Números 17:25 usa o mesmo termo para a vara de Arão, guardada como sinal.

Traduzir "vocês o guardarão" é correto e perde um matiz: o hebraico não diz que eles vigiem o animal, diz que o animal passa a ser um encargo deles. A leitura de Rashi, que entende aí um exame contra defeitos, é acréscimo interpretativo — legítimo, e não exigido pela palavra.

אַרְבָּעָה עָשָׂר — arba'ah asar, "catorze".

Numeral composto, literalmente "quatro dez". Fixa a data que a Bíblia repetirá em Levítico 23:5, Números 9:3 e Números 28:16.

וְשָׁחֲטוּ — we-shachatu, "e imolará".

Verbo shachat, degolar, abater. É o verbo técnico do abate de animais, usado tanto para o sacrifício quanto para o abate comum, e é a raiz da palavra que designa, no judaísmo posterior, o abatedor ritual.

Está no plural: literalmente, "e eles o imolarão", embora o núcleo do sujeito que vem depois seja singular. A discordância entre verbo plural e sujeito coletivo é comum no hebraico, e é aqui o gancho gramatical de toda a discussão sobre quem segura a faca.

כֹּל קְהַל עֲדַת־יִשְׂרָאֵל — kol qehal adat-Yisrael, "toda a assembleia da congregação de Israel".

Três substantivos encadeados. Qahal designa a reunião, o ajuntamento convocado. Edah designa o corpo constituído, a comunidade como entidade permanente, e é o termo mais usado no Pentateuco para Israel enquanto sujeito de deveres.

A construção é pesada. O Pentateuco usa os dois termos separadamente muitas vezes; empilhá-los com "todo" na frente e "Israel" no fim é reunir, numa expressão só, todos os modos disponíveis de dizer "o povo inteiro". Foi esse excesso que autorizou a leitura rabínica das três turmas: onde o texto gasta três palavras, o método supõe três conteúdos.

בֵּין הָעַרְבָּיִם — bein ha-arbayim, "ao entardecer".

Literalmente "entre as duas tardes". A palavra erev significa tarde, anoitecer, e está aqui numa forma que o hebraico reserva para pares naturais — as duas mãos, os dois olhos, os dois céus. A forma indica dois, e não um plural indefinido.

O sentido da raiz ajuda e não resolve. Erev está ligado à ideia de escurecimento, e Isaías 24:11 usa o verbo correspondente para dizer que toda a alegria se escureceu. Rashi apoia nisso a sua leitura: as duas tardes seriam os dois escurecimentos, o do dia e o da noite.

A preposição bein normalmente significa "entre". Ramban contesta esse uso aqui e propõe "no meio de", apoiado em passagens como Gênesis 26:28 e Ezequiel 10:6, onde a mesma palavra tem esse valor. A tradução aramaica de Ônquelos verte a expressão por "entre os sóis", o que mantém a ambiguidade intacta em outra língua.

A expressão aparece onze vezes na Bíblia hebraica, sempre em contexto de culto ou de refeição marcada, e em nenhuma delas o texto explica o que são as duas tardes.

11. Conclusão

Do que foi exposto decorrem três conclusões.

A primeira: a ambiguidade é do texto. A hora do abate não ficou obscura por perda de tradição nem por erro de cópia. A expressão escolhida nomeia um intervalo sem fixar as suas bordas, e quem a escreveu não achou necessário explicá-la. Toda a discussão posterior — rabinos, Jubileus, Ibn Ezra, Ramban, samaritanos, caraítas — é tentativa de suprir uma informação que nunca esteve ali.

A segunda: a precisão é produto da execução coletiva. Enquanto o rito coube a cada casa, "ao entardecer" bastou. Quando um povo inteiro passou a fazê-lo no mesmo pátio, foi preciso inventar um cronograma em horas, filas de sacerdotes e bacias sem fundo chato. A exigência de exatidão não nasceu de devoção maior; nasceu do número de pessoas.

A terceira: o versículo registra um rito antes da especialização. Assembleia, congregação, Israel — e nenhum sacerdote. Quem mata o animal é quem vai comê-lo. As Páscoas de Ezequias e de Josias, séculos depois, já têm levitas esfolando e sacerdotes aspergindo. Ler este versículo é ver o estado anterior de uma instituição que ainda não tinha profissionais.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Êxodo 12:6

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%