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Êxodo 15:24

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 16 acessos
E o povo murmurou contra Moisés, dizendo: “Que beberemos?”
Multidão sedenta no deserto, em volta de uma fonte, com homens erguendo os braços e apontando para Moisés, que está de pé, em silêncio, olhando para o céu.

Estudo


E o povo murmurou contra Moisés, dizendo: “Que beberemos?”

1. Introdução

Diante da água que não se pode beber, o povo faz uma pergunta de duas palavras: "Que beberemos?". O texto chama isso de murmurar, e é a primeira vez que esse verbo aparece na Bíblia; dali até o fim do livro de Números ele vai voltar a cada crise do deserto. Aqui a queixa é a mais curta e a mais justificável de todas: não acusa Moisés de ter tirado o povo do Egito, não pede para voltar, só pergunta pelo que beber. E o texto não a repreende — não há ira, não há castigo. Ainda assim, a tradição a contou entre as dez vezes em que Israel pôs Deus à prova no deserto.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um tema com nome próprio

Para os estudiosos modernos do Pentateuco, as queixas do povo no deserto não são episódios soltos. Formam um tema reconhecível, com vocabulário, enredo e destino próprios, e o estudo que lhe deu forma é o de George W. Coats (estudioso norte-americano do Antigo Testamento): Rebellion in the Wilderness: The Murmuring Motif in the Wilderness Traditions of the Old Testament ("Rebelião no deserto: o tema da murmuração nas tradições do deserto do Antigo Testamento"), publicado em 1968.

Três ideias de Coats ficaram na discussão.

A primeira é a forma. As histórias de murmuração repetem um desenho: o povo se volta "contra" Moisés (ou contra Moisés e Arão), e a fala que segue costuma conter uma pergunta acusatória sobre a saída do Egito — "por que nos fez subir do Egito?". A queixa não é dirigida à situação; é dirigida a quem conduziu o povo até ela.

A segunda é o sentido. Para Coats, murmurar não é lamentar uma necessidade; é rebelar-se. A fala que pergunta por que o povo saiu do Egito contesta a liderança de Moisés e, no limite, o próprio êxodo: propõe desfazê-lo. Por isso o título do livro fala em rebelião, e não em reclamação.

A terceira é a origem. Coats sustenta que o tema da murmuração entrou nas histórias do deserto num momento posterior, em ambiente ligado a Judá, e que várias delas contavam, na forma mais antiga, apenas a ajuda de Deus num momento de falta. Os salmos que recontam o deserto como uma série de rebeldias, sobretudo o Salmo 78 e o Salmo 106, seriam testemunhas dessa releitura, que tinha também um uso polêmico: mostrar a infidelidade dos antepassados para justificar uma escolha presente. Essa terceira tese é a mais discutida.

Dois tipos de história

Brevard Childs (professor de Antigo Testamento em Yale), no seu comentário ao Êxodo de 1974, aceitou o problema e refinou a resposta. Ele observou que o tema não aparece em todas as histórias do deserto, mas se tornou, aos poucos, a chave sob a qual todas passaram a ser lidas. E distinguiu dois desenhos. No primeiro, há uma necessidade real — água, comida —, o povo se queixa, Moisés intercede, e Deus provê, sem castigo. No segundo, a queixa não tem motivo justo, a ira divina se acende, há punição, e só depois vem a intercessão.

Mara é o exemplo mais limpo do primeiro desenho. A necessidade é real (três dias sem água, e a única água achada é amarga), a queixa é curta, Moisés clama, Deus mostra o lenho, e ninguém é punido. É também a história que menos se encaixa na tese de Coats: a pergunta "que beberemos?" não contesta o êxodo nem pede a volta. Se murmurar é rebelar-se contra a saída do Egito, a primeira murmuração da Bíblia é a que menos se parece com rebelião.

O que essa discussão acrescenta à leitura

Ela explica por que o leitor tende a ler este versículo com mais severidade do que o próprio versículo pede. O verbo é o mesmo das grandes revoltas de Números, e quem conhece o fim da história ouve aqui o começo dela. Mas o Êxodo, neste ponto, ainda não tinha contado as revoltas. O que ele conta é uma pergunta e a resposta de Deus a ela.

3. Análise Teológica do Versículo

"E o povo murmurou"

Este é o primeiro uso, em toda a Bíblia, do verbo hebraico que as traduções vertem por "murmurar". E ele tem uma distribuição que poucas palavras têm: quase todas as suas ocorrências estão entre este versículo e o capítulo 17 de Números. O verbo e o substantivo correspondente, "murmurações", somam pouco mais de vinte aparições; fora desse bloco, só Josué 9:18 o usa, quando a comunidade murmura contra os chefes que tinham feito aliança com os gibeonitas (item 10).

O bloco tem começo e fim. Começa aqui, em Mara, com uma pergunta por água. Termina em Números 17:25, depois da revolta de Corá, quando Deus manda guardar o cajado florido de Arão diante do testemunho "como sinal para os rebeldes", para que "cessem as murmurações deles contra mim, e não morram". O vocabulário da murmuração nasce numa fonte amarga e é encerrado por um objeto guardado no santuário. Depois disso, o povo continuará a se queixar — em Meribá (Números 20) e no episódio das serpentes (Números 21) —, mas o texto usa outros verbos: "reuniram-se contra", "contenderam", "falaram contra".

A palavra não aparece na primeira queixa do povo, a de junto ao mar. Ali o texto diz apenas "disseram a Moisés" (Êxodo 14:11), e a diferença de vocabulário foi analisada no estudo daquele versículo. O verbo próprio entra aqui, no primeiro episódio do deserto.

O ciclo que começa em Mara

Postas em ordem, as queixas do deserto formam uma série com um desenho visível.

Antes do Sinai, há três: Mara, por água (este versículo); o deserto de Sim, por pão e carne (Êxodo 16:2-3); Refidim, de novo por água (Êxodo 17:2-3). Nas três, Deus provê — o lenho, o maná e as codornizes, a água da rocha — e ninguém é castigado. A única repreensão é de Moisés, em Refidim: "Por que brigam comigo? Por que põem o SENHOR à prova?".

Depois do Sinai, o desenho muda. Em Taberá, o fogo do SENHOR queima a extremidade do acampamento (Números 11:1-3). Em Quibrote-Hataavá, a carne vem, e com ela uma praga (Números 11:4-34). Depois dos espias, a geração inteira é condenada a morrer no deserto "por ter murmurado" (Números 14:2, 14:27-29). Na revolta de Corá, a terra se abre (Números 16). No episódio das serpentes, morrem muitos (Números 21:5-6).

Entre um bloco e outro está a lei. A explicação mais comum é essa: antes do Sinai, o povo ainda não tinha recebido a aliança, e a queixa é tratada como fraqueza de quem não sabe; depois, ela é tratada como quebra de compromisso. A explicação é dos comentaristas, mas a diferença de tratamento está no texto. Mara abre a série pelo lado mais brando.

Como os rabinos leram a primeira queixa

A Mekhilta (a mais antiga coletânea de comentário rabínico ao Êxodo, com material dos séculos II e III) tem duas opiniões, e elas medem a queixa de modos diferentes.

Rabi Josué critica a forma, não o conteúdo: o povo deveria ter ido primeiro ao maior entre eles e perguntado "que beberemos?" como quem pede conselho. Em vez disso, levantou-se e disse palavras de queixa contra Moisés. A pergunta era legítima; o tom não era.

Rabi Eleazar de Modiim é mais duro: Israel "estava acostumado" a dizer palavras de queixa contra Moisés — e não só contra Moisés, mas contra Deus. A palavra que ele usa é a do aluno que já aprendeu a lição: a queixa, para ele, já era hábito no primeiro registro.

O Or HaChaim (Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII) segue Rabi Josué: a Torá não nega que pedir água fosse justo; critica o modo de pedir. O Haamek Davar (comentário do rabino Naftali Tsvi Yehuda Berlin, Lituânia, século XIX) observa que aqui o texto diz só "o povo", e não "toda a comunidade", como dirá na queixa pelo pão (Êxodo 16:2) — sinal, para ele, de que nem todos murmuraram.

E a tradição acabou pondo Mara na contabilidade das faltas. No Talmude, tratado Arakhin 15a, Rabi Judá enumera as dez vezes em que os pais "puseram à prova o Santo, bendito seja", a partir de Números 14:22: duas no mar, duas com a água, duas com o maná, duas com as codornizes, uma com o bezerro de ouro e uma no deserto de Parã. As duas da água são Mara e Refidim, e o Talmude cita como prova este versículo e o anterior. O texto do Êxodo não chama a queixa de Mara de prova a Deus; quem a soma à lista é a leitura de Números 14:22, que fala em "dez vezes".

"contra Moisés"

O povo não murmura contra Deus; murmura contra Moisés. A preposição é a de oposição, "sobre", "contra", e o alvo é o homem que os fez partir três dias antes. Nas queixas seguintes, o alvo será quase sempre o mesmo: Moisés, ou Moisés e Arão, ou, em Josué, os chefes da comunidade. O verbo tem sempre por objeto quem lidera.

Mas o texto não deixa o alvo humano sozinho por muito tempo. Na queixa seguinte, Moisés redireciona: "as suas murmurações não são contra nós, mas contra o SENHOR" (Êxodo 16:8). E em Números 14:27 é o próprio Deus que diz: "esta comunidade má, que murmura contra mim". A queixa que se dirige ao líder é lida, pelo líder e por Deus, como dirigida a Deus. Em Mara isso ainda não foi dito. O alvo é Moisés, e Moisés não se defende: no versículo seguinte, ele clama ao SENHOR. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) citam aqui uma frase de Lutero: quando falta o suprimento, a fé logo vai embora.

"dizendo: 'Que beberemos?'"

No hebraico são duas palavras. É a queixa mais curta de todo o ciclo, e a única sem acusação. Compare com as outras. Junto ao mar: "Foi por não haver sepulturas no Egito que você nos tirou de lá para morrermos no deserto?" (Êxodo 14:11). No deserto de Sim: "Quem dera tivéssemos morrido pela mão do SENHOR na terra do Egito" (Êxodo 16:3). Em Refidim, pela mesma água: "Por que é que você nos fez subir do Egito, para matar de sede a mim, os meus filhos e o meu gado?" (Êxodo 17:3). Em Mara não há Egito, não há morte, não há "por quê". Há só o futuro: o que vamos beber?

A pergunta também fecha um fio de palavras. O verbo "beber" é o do versículo anterior — "não podiam beber" —, e a queixa o devolve na primeira pessoa do plural. Quem não pôde beber pergunta o que beberá.

O que torna a pergunta "murmuração", então? Pelo texto, só o verbo que a introduz e a direção que ela toma: o povo não pergunta a Deus, nem pergunta entre si; fala contra o homem que o conduziu. A queixa é justa no conteúdo e já tem o formato que as outras terão. É por isso que ela abre o ciclo: não pelo que pede, mas pelo modo como pede.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O povo

O sujeito da queixa. Dois versículos antes, quem partiu e andou três dias foi "Israel"; quem murmura agora é "o povo". Nachmânides construiu sobre essa alternância uma regra — "povo" quando há reprovação, "Israel" quando há louvor —, e o estudo de Êxodo 14:10 já mostrou onde ela funciona e onde falha. Basta lembrar que o mesmo livro diz, uma página antes, que "o povo temeu ao SENHOR" e creu (Êxodo 14:31).

Moisés

O alvo. É a primeira vez que uma queixa é dirigida só a ele. Junto ao mar, o povo também lhe falou (Êxodo 14:11), mas o texto não usou este verbo; no deserto de Sim, a queixa será contra ele e Arão (Êxodo 16:2). Moisés não responde ao povo neste episódio. A única reação dele, no versículo seguinte, é clamar ao SENHOR.

Arão

Ausente. Ele só passa a dividir com Moisés o alvo das queixas a partir do capítulo 16.

Mara

O lugar da primeira murmuração, uma fonte de água amarga no deserto de Sur, de localização discutida.

Os lugares que vêm depois

O deserto de Sim (Êxodo 16), Refidim (Êxodo 17), Taberá e Quibrote-Hataavá (Números 11), o deserto de Parã e Cades (Números 13-14), o acampamento da revolta de Corá (Números 16-17), Meribá (Números 20) e o caminho em volta de Edom (Números 21). Quase todas as estações da murmuração são estações de falta: água, pão, carne, ou a terra que parecia inalcançável.

O evento

A primeira murmuração do deserto, três dias depois do cântico. O texto a registra sem comentário e a resolve no versículo seguinte. Na contagem rabínica, é a terceira das dez "provas" que Israel fez a Deus, depois das duas junto ao mar.

5. Pontos de Ensino

1. Uma pergunta justa pode vir no formato errado. O povo precisava de água, e perguntar por ela não era pecado. O que o verbo marca é a direção: a pergunta foi feita contra alguém, e não a alguém. A leitura de Rabi Josué na Mekhilta separa as duas coisas com precisão.

2. O texto trata a primeira queixa com paciência. Não há ira, não há castigo, não há sequer repreensão de Moisés. A resposta à murmuração de Mara é um lenho que adoça a água. O Êxodo começa o ciclo das queixas pelo lado da provisão.

3. Quem lidera recebe a queixa que é dirigida à situação. O povo não murmura contra o deserto nem contra a água; murmura contra Moisés. O líder é o rosto visível de tudo o que falta.

4. O ciclo tem começo, meio e fim. O vocabulário da murmuração nasce em Mara e é encerrado no capítulo 17 de Números, com o cajado de Arão guardado como sinal. Ler este versículo é ler o primeiro capítulo de uma história que a Torá conta até o fim.

5. Três dias bastam entre o canto e a queixa. O mesmo povo que cantou "a minha força e o meu cântico é o SENHOR" (Êxodo 15:2) pergunta agora o que vai beber. O texto não chama isso de hipocrisia; registra a distância curta entre os dois.

6. Aspectos Filosóficos

Por que o povo se queixa agora, e não no Egito?

No Egito, Israel sofreu trabalho forçado, a morte dos filhos, a palha retirada e a cota mantida. O texto diz que o povo gemia e clamava (Êxodo 2:23), e em certo momento diz que já nem ouvia, "por falta de fôlego e por causa da dura escravidão" (Êxodo 6:9). Não diz que murmurou. A primeira murmuração vem três dias depois da liberdade, por causa de água. Por que gente que aguentou séculos de escravidão protesta contra três dias de sede?

A pergunta pertence a um campo da filosofia social que trata de quando as pessoas aceitam o sofrimento e quando se revoltam contra ele. O estudo mais influente sobre isso é de Barrington Moore Jr. (sociólogo norte-americano, 1913-2005, professor em Harvard, autor de um livro clássico sobre as origens sociais das ditaduras e das democracias): Injustice: The Social Bases of Obedience and Revolt ("Injustiça: as bases sociais da obediência e da revolta", 1978).

O contrato que ninguém escreveu

A tese de Moore parte de uma observação histórica: a miséria, por si só, não produz revolta. Os mais oprimidos muitas vezes aguentam sem protestar, e as revoltas costumam nascer não no ponto mais baixo, mas quando alguma coisa muda. O que transforma o sofrimento em indignação, diz ele, é a percepção de que uma regra foi quebrada.

Moore chama essa regra de contrato social implícito. Entre quem manda e quem obedece há sempre um acordo não escrito: a autoridade garante proteção, sustento mínimo, ordem; os governados dão obediência e trabalho. Enquanto a autoridade cumpre a sua parte, mesmo uma vida dura é suportada. Quando ela falha no que prometeu, nasce o que Moore chama de indignação moral — a sensação de injustiça, que é diferente da simples dor.

E há uma segunda condição: o sofrimento precisa deixar de parecer inevitável. Um dos capítulos do livro trata justamente disso, da "inevitabilidade e o sentido de injustiça". Quem acredita que a sua desgraça é natural, ou divina, ou eterna, não se revolta; aguenta. A indignação começa quando se percebe que as coisas poderiam ser diferentes e que alguém é responsável por elas não serem.

O que isso ilumina no versículo

Lido com essas duas condições, o versículo faz sentido. No Egito, a escravidão parecia o estado normal das coisas, e o povo gemia sem acusar ninguém dentro do seu próprio grupo. Agora houve uma promessa — sair, ser conduzido, chegar a uma terra boa — e há um responsável com nome: o homem que os "fez partir". A falta de água deixou de ser destino e virou falha de quem conduz. A pergunta "que beberemos?" dirigida "contra Moisés" é exatamente a forma inicial da indignação de Moore: a cobrança de uma parte do contrato que não foi entregue.

Moore também mostra que a indignação pode crescer até a revolta, ou ser contida. O ciclo do deserto percorre esse caminho inteiro. Em Mara, uma pergunta. Em Refidim, a acusação de querer matar o povo e quase o apedrejamento (Êxodo 17:4). Em Números 14:4, o projeto de escolher outro chefe e voltar ao Egito. Em Números 16, a revolta organizada de Corá. A primeira murmuração é o primeiro degrau de uma escada que leva, se não for interrompida, a uma tentativa de derrubar a autoridade.

Onde a aproximação para

Para Moore, a indignação moral é muitas vezes justa: é o modo como os oprimidos percebem que estão sendo enganados. O texto bíblico, no conjunto do ciclo, avalia as murmurações de outro modo: como falta de confiança, e a partir do Sinai como pecado. As duas perspectivas não coincidem.

Mas em Mara elas se aproximam mais do que em qualquer outro ponto. O texto não condena a pergunta, e responde a ela com água. A primeira cobrança do contrato é tratada como legítima. É depois, quando a cobrança se repete diante de provisões já recebidas, que o texto passa a chamá-la de rebeldia. Moore ajuda a entender por que o povo se queixou; o Êxodo acrescenta a pergunta que a sociologia não faz — se a confiança já deveria ter mudado o modo de perguntar.

7. Aplicações Práticas

Separar o pedido do ataque

A pergunta do povo era necessária; o que o texto marca é que ela foi feita contra alguém. Em qualquer grupo — família, equipe de trabalho, comunidade —, uma necessidade real pode ser apresentada como pedido ou como acusação. A leitura de Rabi Josué propõe o primeiro caminho: procurar quem pode resolver e perguntar a ele, em vez de falar contra ele. A diferença não muda a necessidade; muda o que acontece com a relação depois.

Para quem lidera: não responder à queixa com queixa

Moisés não discute com o povo neste episódio. Não se defende, não lembra o mar, não acusa ninguém de ingratidão. Vai buscar a solução. Quem ocupa lugar de responsabilidade e recebe a primeira reclamação de uma situação nova tem neste versículo, e no seguinte, um modelo simples: a queixa sobre a água se resolve com água.

Reconhecer a distância entre o canto e a queixa

Três dias depois do maior livramento do livro, a gratidão não impediu a reclamação. Isso não é exclusivo daquela geração. Saber que a memória de um bem recente pesa pouco diante de uma falta presente ajuda a não se surpreender consigo mesmo — e a não se julgar com dureza excessiva quando acontece.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A murmuração de Mara foi pecado?

O Êxodo não diz. Não há ira divina, nem castigo, nem repreensão. A tradição rabínica a contou entre as dez provas, mas essa contagem vem de Números 14:22, não deste capítulo. O mais que se pode afirmar pelo texto é que a queixa tinha motivo real e foi atendida.

Por que Moisés não respondeu ao povo?

O texto passa direto da queixa ao clamor de Moisés (Êxodo 15:25). Pode ser concisão do relato; pode ser que Moisés não tivesse o que responder, porque também não sabia onde haveria água. Em Refidim, ele responde com duas perguntas; aqui, só ora. Não é possível decidir o motivo.

"Murmurar" é a melhor tradução?

É a tradicional, vinda do latim da Vulgata, murmuravit. Ela sugere voz baixa, resmungo. O hebraico não diz se a queixa foi dita baixo ou alto; diz que foi dirigida "contra" Moisés. Traduções modernas usam "reclamar", "queixar-se", "protestar". "Murmurar" tem a vantagem de ser a palavra que a tradição de língua portuguesa associa a este ciclo inteiro, e a desvantagem de sugerir uma discrição que o texto não afirma.

Por que o verbo desaparece depois de Números 17?

Não há resposta segura. É plausível que o episódio do cajado de Arão, que manda "cessar as murmurações", tenha sido sentido como o fecho do tema, e que as queixas seguintes tenham sido contadas com outro vocabulário de propósito. Também é possível que as partes do Pentateuco que contam as queixas de Números 20 e 21 tenham simplesmente outro estilo. As duas explicações são hipóteses.

O povo tinha alternativa?

Pelo texto, sim: podia ter clamado a Deus, como Moisés fez, ou pedido a Moisés que clamasse. Junto ao mar, o povo tinha clamado ao SENHOR antes de falar contra Moisés (Êxodo 14:10). Aqui, só a segunda coisa aparece.

9. Conexão com Outros Textos

As murmurações seguintes

Êxodo 16:2 — "E toda a congregação dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e contra Arão no deserto."

A segunda ocorrência. Agora é "toda a congregação", e Arão entra no alvo.

Êxodo 16:8 — "E Moisés disse: … porque o SENHOR ouviu as murmurações com que vocês murmuram contra ele. E nós, que somos? As murmurações de vocês não são contra nós, mas contra o SENHOR."

A primeira vez que alguém diz contra quem, de fato, a murmuração se dirige.

Êxodo 17:3 — "Ali o povo teve sede de água, e o povo murmurou contra Moisés e disse: ‘Por que é que você nos fez subir do Egito, para matar de sede a mim, os meus filhos e o meu gado?’"

A mesma falta de Mara, a mesma direção, e agora a acusação que em Mara não houve.

Números 14:2 — "Todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e contra Arão, e toda a comunidade lhes disse: 'Quem dera tivéssemos morrido na terra do Egito, ou neste deserto!'"

Números 14:27 — "Até quando suportarei esta comunidade má, que murmura contra mim? Ouvi as murmurações que os filhos de Israel fazem contra mim."

O ponto em que Deus toma a murmuração como dirigida a ele, e a sentença da geração do deserto.

Números 16:11 — "Por isso, você e toda a sua turma estão reunidos contra o SENHOR. Quem é Arão, para que vocês murmurem contra ele?"

Na revolta de Corá, Moisés repete o argumento de Êxodo 16:8, agora em favor de Arão.

O fim do vocabulário

Números 17:25 — "O SENHOR disse a Moisés: 'Torne a pôr o cajado de Arão diante do testemunho, para ser guardado como sinal para os rebeldes; assim você fará cessar as murmurações deles contra mim, e eles não morrerão.'"

A última vez que o substantivo aparece na Torá. O ciclo aberto em Mara termina num objeto guardado. E a palavra "rebeldes", aqui, é da raiz de "rebelar-se" que soa quase igual a Mara.

Josué 9:18 — "Os filhos de Israel não os feriram, porque os chefes da comunidade lhes tinham jurado pelo SENHOR, o Deus de Israel; e toda a comunidade murmurou contra os chefes."

A única ocorrência fora do bloco do deserto, e a única em que o alvo não é Moisés nem Arão.

Como os salmos lembraram

Salmo 106:12-13 — "Então creram nas palavras dele e cantaram o seu louvor. Depressa se esqueceram das suas obras; não esperaram o seu conselho."

O salmo põe o cântico e a queixa em versículos seguidos, e escolhe a palavra "depressa". Em Mara, foram três dias.

Salmo 106:25 — "Murmuraram nas suas tendas e não ouviram a voz do SENHOR."

Outro verbo hebraico, também traduzido por "murmurar", que o Deuteronômio usa para a mesma geração (Deuteronômio 1:27). A memória do deserto ganhou um segundo vocabulário para a queixa.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E o povo murmurou contra Moisés, dizendo: “Que beberemos?”

Texto hebraico

וַיִּלֹּנוּ הָעָם עַל־מֹשֶׁה לֵּאמֹר מַה־נִּשְׁתֶּה׃

Transliteração

vayyillonu ha'am al-Moshe lemor: mah-nishteh?

Análise palavra por palavra

וַיִּלֹּנוּ — vayyillonu, "e murmuraram".

Raiz l-w-n, na forma narrativa que encadeia os fatos, terceira pessoa do masculino plural (o sujeito "povo" é coletivo). A forma é Nifal (o tronco que costuma ter valor passivo ou reflexivo). Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático espanhol do século XII) demonstra pela vogal e pelo ponto dentro do lamed que a raiz tem uma letra do meio fraca, que some na conjugação, e compara com yikkonu, "serão firmados" (Provérbios 16:3).

Rashi (Salomão ben Isaac, França, século XI) explica por que o verbo vem nessa forma: a queixa é uma ação que volta para quem a faz. Em hebraico, diz ele, ninguém "murmura" no tronco simples; a pessoa "se queixa". E lembra que o francês antigo fazia o mesmo, com o pronome "se". O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) traduz com um verbo reflexivo aramaico, de uma raiz que, em hebraico, é a de trovejar.

O verbo aparece em dois troncos. Em Êxodo 15:24, 16:2, Números 14:2, 17:6 e Josué 9:18, no Nifal, como aqui. Em Êxodo 16:7-8, 17:3, Números 14:27-29, 14:36, 16:11 e 17:20, no Hifil (o tronco causativo, que aqui tem valor de "fazer queixa", ou, em Números 14:36, de "fazer o povo murmurar"). E em quatro lugares — Êxodo 16:2, 16:7, Números 14:36 e 16:11 — o texto escrito e a leitura tradicional não concordam: os copistas grafaram um tronco e a tradição de leitura pronuncia o outro. Este versículo, o primeiro, não tem essa divergência.

Há em hebraico um verbo de grafia igual, lun, "pernoitar", sem relação de sentido com este; os dicionários os tratam como raízes diferentes.

A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) traduz com diegongyzen, forma reforçada, com o prefixo dia-, do verbo grego do resmungo — a palavra que passaria ao Novo Testamento, e cuja história está no estudo de Mateus 20:11. A Vulgata escreve murmuravit, de onde vem o "murmurar" das línguas latinas.

הָעָם — ha'am, "o povo".

Substantivo masculino singular, com o artigo. Coletivo, com verbo no plural.

עַל־מֹשֶׁה — al-Moshe, "contra Moisés".

A preposição al quer dizer, de base, "sobre"; com verbos de hostilidade, "contra". É a preposição de todo o ciclo: murmuram al Moisés, al Arão, al os chefes. Com Deus por alvo, ela aparece na boca de Moisés (Êxodo 16:8) e de Deus (Números 14:27).

לֵּאמֹר — lemor, "dizendo".

Infinitivo de amar, "dizer", com a preposição le-: a fórmula que introduz a fala. A Mekhilta lê a palavra como sinal de que o povo falou também contra Deus, e não só contra Moisés.

מַה־נִּשְׁתֶּה — mah-nishteh, "que beberemos?".

Mah, "que", e nishteh, Qal imperfeito, primeira pessoa do plural, de shatah, "beber" — o mesmo verbo do versículo anterior, "não podiam beber". O imperfeito olha para a frente: não "o que bebemos", mas "o que vamos beber". Duas palavras, sem pronome, sem nome, sem acusação.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que a Bíblia dá nome à queixa do deserto num caso em que a queixa tinha toda razão de existir. Três dias sem água e uma fonte amarga justificam a pergunta. O que o verbo registra não é a injustiça do pedido, mas a sua direção: contra o homem que conduziu, e não ao Deus que tinha acabado de salvar.

A segunda é que o Êxodo abre o ciclo da murmuração pelo lado da paciência. A primeira queixa não recebe castigo nem repreensão; recebe água. A severidade que o leitor associa ao tema vem depois — nas repetições, e sobretudo depois da aliança do Sinai. Ler Mara com a dureza de Números é ler o começo pelo fim.

A terceira é que a primeira murmuração já contém a forma de todas as outras. Não pede a volta ao Egito nem acusa ninguém de querer matar o povo, mas fala contra o líder em vez de falar com ele. É por isso que a tradição a pôs na lista das provas: não pelo que pediu, e sim pelo modo, que as queixas seguintes iriam repetir com palavras cada vez mais duras.

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