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Êxodo 15:1

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 40 acessos
Então cantou Moisés, e os filhos de Israel, este cântico ao SENHOR, e disseram: “Cantarei ao SENHOR, porque se elevou em majestade; o cavalo e o seu cavaleiro ele lançou ao mar.
Moisés de pé na margem do mar ao amanhecer, braços erguidos, com uma multidão de israelitas atrás dele cantando, e destroços de carros egípcios na água ao fundo.

Estudo


Então cantou Moisés, e os filhos de Israel, este cântico ao SENHOR, e disseram: “Cantarei ao SENHOR, porque se elevou em majestade; o cavalo e o seu cavaleiro ele lançou ao mar.

1. Introdução

O povo acabou de ver os egípcios mortos na praia, e a primeira coisa que faz, do outro lado do mar, é cantar.

O verbo "cantar" aparece aqui pela primeira vez na Bíblia, e chega estranho: no singular, com dois sujeitos, e numa forma que em hebraico costuma indicar futuro.

A tradição judaica tirou dessas duas estranhezas leituras que vão do modo como o canto foi distribuído entre Moisés e o povo até a ressurreição dos mortos.

O motivo do canto é dito numa palavra rara, a do que sobe e incha, e a imagem que o resume é a de um cavalo e um cavaleiro arremessados juntos.

E o texto não é só cantado: é o primeiro trecho da Torá que os copistas eram obrigados a escrever com um desenho próprio no rolo.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um texto que se reconhece de longe

Abra um rolo da Torá no meio do Êxodo, e você vê o Cântico do Mar antes de ler uma palavra dele. No resto do rolo o texto corre em blocos compactos. Aqui a coluna se abre: trechos curtos de escrita separados por espaços em branco, cada linha deslocada em relação à de cima. Não é gosto de copista. É regra, e uma das mais antigas sobre a forma física do texto bíblico.

"Meio tijolo sobre tijolo inteiro": o Talmude

O Talmude da Babilônia, no tratado Meguilá 16b, transmite em nome de Rabi Sheila, da aldeia de Timarta, a fórmula: todos os cânticos da Bíblia se escrevem como "meio tijolo sobre tijolo inteiro, e tijolo inteiro sobre meio tijolo". O "meio tijolo" é o trecho escrito; o "tijolo inteiro" é o espaço em branco. Como numa parede bem assentada, nenhuma junta cai sobre outra.

O mesmo trecho registra a exceção, e ela explica a regra. Duas listas também são escritas em forma de cântico, mas com os tijolos empilhados sem amarração: a dos dez filhos de Hamã (Ester 9:7-9) e a dos reis de Canaã derrotados (Josué 12:9-24). O motivo: para que "não se levantem da sua queda", porque parede assim não fica em pé. O cântico de vitória é escrito como parede que dura; a lista dos inimigos caídos, como parede que desaba.

Quantas linhas: o tratado Soferim

O tratado Soferim ("dos escribas", compilação de regras de cópia posterior ao Talmude) dá os números. No capítulo 12, o Cântico do Mar ocupa trinta linhas, e o tratado lista a palavra que abre cada uma, para conferência: a primeira começa em "Então", a segunda em "dizendo", a terceira em "e o seu cavaleiro" — e a lista só termina dentro de Êxodo 15:19. No capítulo 1, a sanção: o rolo em que o cântico de Deuteronômio 32, escrito em duas colunas, foi copiado no desenho do Cântico do Mar, ou o inverso, não serve para a leitura pública.

Maimônides e o códice que se perdeu

No século XII, Maimônides (Moisés ben Maimon, filósofo e jurista judeu nascido em Córdoba e radicado no Egito) fixou a regra nas suas "Leis do rolo da Torá" (capítulo 8): trinta linhas; a primeira normal; nas seguintes, alternadamente, um espaço no meio e depois dois espaços, de modo que fique "o espaço em frente à escrita e a escrita em frente ao espaço". Transcreve o cântico inteiro nessa forma, terminando, como Soferim, no fim de Êxodo 15:19.

E diz de onde tirou o modelo: de um códice famoso no Egito, que estivera em Jerusalém e fora corrigido por Ben Asher (Aarão ben Asher, mestre de Tiberíades do século X, o mais respeitado dos massoretas, os copistas que fixaram as vogais do texto). É o manuscrito hoje chamado Códice de Alepo.

A história deixou aí uma ironia. O Códice de Alepo atravessou mil anos e foi danificado em 1947, nos tumultos de Alepo, na Síria. Quando chegou a Israel, em 1957, faltavam quase duzentas folhas, entre elas toda a Torá, salvo as últimas páginas de Deuteronômio. A página do Cântico do Mar que serviu de modelo a Maimônides, e por ele aos rolos copiados depois, está entre as perdidas. O desenho sobrevive pela descrição dele e por outros manuscritos da mesma escola, como o Códice de Leningrado, de 1008.

O cântico na sinagoga

A forma visual acompanha um uso. Soferim registra que o Cântico do Mar está entre os poucos trechos lidos com bênção própria antes e depois. Pelo costume, a congregação o ouve de pé no sábado em que cai a porção de Beshalach, chamado por isso "sábado do cântico", e no sétimo dia da Páscoa, data que a tradição rabínica atribui à travessia. E a oração da manhã o inclui inteiro, todos os dias. Desenho próprio na página, bênção própria e lugar na oração diária: até onde se pode documentar, nenhum outro trecho da Torá reúne as três coisas.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então cantou Moisés, e os filhos de Israel"

A frase tem duas irregularidades, e a ABC preserva as duas. O verbo está no singular, embora os sujeitos sejam dois. E está na forma que o hebraico usa para o que ainda vai acontecer: ao pé da letra, "então cantará Moisés".

Por que um canto já cantado aparece com verbo de futuro? A tradição deu quatro respostas.

Primeira leitura: é só um jeito do hebraico. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) mostra que depois de "então" a língua usa essa forma para o passado — "então falou Josué" (Josué 10:12), "então separou Moisés" (Deuteronômio 4:41) — e acrescenta que o árabe, língua irmã, faz o mesmo.

Segunda leitura: o verbo descreve a intenção antes do ato. Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI): quando Moisés viu o milagre, "veio-lhe ao coração que cantaria" — e cantou.

Terceira leitura: quem conta se coloca dentro da cena. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) derruba a explicação de Rashi com o Salmo 78, que narra todo o deserto nessa forma verbal sem que ninguém leia intenção ali. Para ele, quem relata às vezes se põe depois do fato e diz "foi feito"; às vezes se põe no instante e diz "Israel está cantando", como quem assiste.

Quarta leitura: é futuro mesmo. O Talmude, no tratado Sanhedrin 91b, guarda o ensino de Rabi Meir: "Não está dito 'cantou', mas 'cantará' — daqui se tira da Torá a ressurreição dos mortos." Moisés voltará a cantar este cântico.

O próprio Talmude testa o argumento, e o teste é honesto. Se a forma prova futuro, 1 Reis 11:7 — "então edificará Salomão um altar para Camos" — diria que Salomão ainda vai construir um altar a um ídolo. A resposta é que ali o texto lhe atribui a culpa como se tivesse construído, porque não impediu as mulheres. A leitura sobrevive, mas ficou exposto onde ela é frágil: o mesmo recurso que sustenta a ressurreição num versículo precisa ser desarmado no outro.

O que se pode afirmar é mais estreito. A gramática não obriga a ler futuro; obriga apenas a reconhecer que o verbo escolhido não é o de uma ação fechada. As quatro leituras disputam o que fazer com essa abertura, e o texto não permite decidir entre elas.

Um verbo para Moisés e um povo

Se Moisés e Israel cantaram, como cantaram? O Talmude, no tratado Sotá 30b, registra três modelos, cada um copiado de um costume da sinagoga. Para Rabi Aqiba, foi como um adulto que recita pela congregação o Hallel ("louvor", os Salmos 113 a 118): Moisés dizia cada frase, e o povo respondia sempre "Cantarei ao SENHOR", como refrão. Para Rabi Eliezer, filho de Rabi Yosei, o galileu, foi como um menino que recita o Hallel: o povo repetia palavra por palavra. Para Rabi Neemias, foi como o Shemá (a confissão "Ouça, Israel", de Deuteronômio 6:4): Moisés começava, e todos seguiam juntos.

A diferença entre o adulto e o menino não foi inventada para o caso. A Mishná, no tratado Sucá 3:10, prescreve exatamente isso: quem ouve o Hallel de um menino repete cada palavra; quem o ouve de um adulto responde apenas "Aleluia". Os rabinos projetaram no primeiro cântico da Bíblia as formas de canto que praticavam.

Ibn Ezra acrescenta o dado mais concreto: um povo inteiro não canta ao mesmo tempo um poema que não conhece. Moisés compôs e ensinou, e depois cada um disse "Cantarei". O singular, na leitura dele, registra a ordem dos fatos.

Nenhum desses modelos está escrito. O que está escrito é o singular, e ele basta para afastar a imagem de um coro espontâneo e indiferenciado. Quem respondeu a quem, e se Moisés cantou antes ou depois de Miriã, é a pergunta do estudo de Êxodo 15:21.

"este cântico ao SENHOR"

A Mekhilta (a mais antiga coletânea de comentário rabínico ao Êxodo, com material dos séculos II e III) lê o "ao SENHOR" por contraste com 1 Samuel 18:6-7, em que as mulheres saem a cantar "Saul feriu os seus milhares, e Davi, os seus dez milhares". Aquele canto de vitória tinha homens por destinatário; este não nomeia nenhum guerreiro de Israel, porque nenhum lutou.

"e disseram: 'Cantarei ao SENHOR'"

O verbo de dizer está no plural, e o que dizem está no singular. Todos falam, e cada um diz "eu".

Os tradutores antigos estranharam. A Septuaginta (tradução judaica da Bíblia para o grego, feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) põe "cantemos ao Senhor", e a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV) segue com cantemus. O plural alisa a frase e apaga o traço mais forte dela. O hebraico mantém a primeira pessoa, e o poema inteiro segue assim: "a minha força", "o meu Deus", "eu o exaltarei". É um cântico de multidão na voz de um indivíduo.

"porque se elevou em majestade"

A razão do canto vem numa palavra repetida em duas formas, recurso hebraico de intensidade, e tirada do vocabulário do que sobe e se avoluma (item 10). "Triunfou gloriosamente" diz o resultado; a palavra diz o movimento. Os leitores tiraram dela duas teologias.

Primeira leitura: é a altura de Deus acima de todo louvor. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica que se tornou a oficial na sinagoga) parafraseia: ele "se exaltou sobre os exaltados, e a exaltação é dele". Rashi, com a Mekhilta, lê o "porque" como "embora": canto ao SENHOR embora ele esteja acima de todo canto. A Mekhilta dá a imagem: o rei humano entra na cidade e todos o chamam de forte, sábio e misericordioso, e ele não é nada disso; com Deus, o elogio fica sempre aquém.

Segunda leitura: é a resposta ao orgulho do inimigo. Nachmânides lê um confronto entre dois orgulhos: Deus se elevou acima do cavalo que vai soberbo à batalha com o seu cavaleiro. A Mekhilta faz disso um princípio — "com aquilo de que se orgulharam diante dele, com isso ele os castigou" —, aplicado ao dilúvio, a Babel, a Sodoma e ao Egito: os seiscentos carros escolhidos de Êxodo 14:7 são exatamente o que afunda em Êxodo 15:4.

"o cavalo e o seu cavaleiro ele lançou ao mar"

Um cavalo e um cavaleiro para um exército inteiro. A Mekhilta lê no singular uma cena: amarrados um ao outro, sobem e descem nas águas sem se separar — quem atira dois objetos no mar os vê se afastarem; estes foram juntos.

E daí tira um julgamento. Deus chama os dois ao tribunal. O cavalo diz que o egípcio o esporeou contra a vontade; o egípcio diz que foi o cavalo que o arrastou. O juiz põe o homem de volta na sela e julga os dois juntos. A Mekhilta liga a cena à parábola que o Talmude atribui a Rabi Judá, o Príncipe, em Sanhedrin 91a-b, sobre o corpo e a alma que se acusam um ao outro no juízo. A imagem de guerra virou, nas mãos dos rabinos, uma pergunta sobre responsabilidade partilhada — e o versículo, que só diz "juntos", não a desautoriza.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés

Até aqui Moisés falou, estendeu a mão, intercedeu, discutiu com Faraó. Nunca cantou. Este é o primeiro texto poético posto na boca dele, e o Pentateuco só lhe atribui outro do mesmo porte no fim da vida, o cântico de Deuteronômio 32, que Deuteronômio 31:30 introduz dizendo que Moisés o "falou" aos ouvidos de toda a assembleia. Os dois cânticos longos o emolduram: um na saída do Egito, outro na entrada da terra que ele não vai pisar.

Os filhos de Israel

O grupo é o mesmo que na véspera estava encurralado entre o exército e a água e acusava Moisés de tê-lo trazido para morrer no deserto (Êxodo 14:11-12). A mudança de um extremo ao outro acontece em uma noite, e o texto não a comenta. As mulheres aparecem em separado poucos versículos adiante, com Miriã à frente, cantando a primeira linha deste mesmo cântico.

O cavalo e o cavaleiro

São o corpo de carros de guerra de Faraó, a força de elite que Êxodo 14:7 descreveu: seiscentos carros escolhidos e todos os outros carros do Egito. O poema não nomeia oficial nenhum nesta linha.

O momento e o lugar

O "então" amarra o cântico ao fim do capítulo anterior: o mar voltou "ao amanhecer" (Êxodo 14:27), Israel viu os mortos "naquele dia" na praia (Êxodo 14:30), e a última frase do capítulo é que o povo temeu ao SENHOR e creu nele e em Moisés. O cântico é cantado na margem, de manhã, diante dos corpos. A tradição que liga a fé de Êxodo 14:31 ao canto está exposta no estudo daquele versículo.

5. Pontos de Ensino

1. O primeiro canto da Bíblia nasce depois do perigo, não durante. Ninguém canta no capítulo 14; lá se grita e se reclama. O cântico vem quando o mar já fechou. O texto não o apresenta como recurso para atravessar o medo, mas como resposta ao que foi visto.

2. O canto tem destinatário. "Ao SENHOR", e a nenhum guerreiro. Diante dos cantos de vitória que exaltavam o rei ou o herói, inclusive dentro da própria Bíblia, o Cântico do Mar se distingue pelo que não diz: nenhum israelita é elogiado nele, nem Moisés.

3. Uma multidão canta na primeira pessoa do singular. A experiência coletiva não dissolve o indivíduo; cada um assume o cântico como seu.

4. A forma do texto também é transmissão. A regra de escrevê-lo em "tijolos" mostra que, para os copistas, o modo de dispor as palavras na página fazia parte do que se entregava à geração seguinte. Quem lê a Bíblia só em prosa numerada perde uma camada que os antigos consideravam obrigatória.

5. A leitura antiga propunha e objetava. A tradição judaica tirou a ressurreição de uma forma verbal e, no mesmo lugar, registrou o versículo que enfraquece o argumento. Ensinar o texto com essa honestidade — a leitura e o seu limite lado a lado — é seguir o método dos próprios rabinos.

6. O motivo do canto é a altura de Deus, não a desgraça do inimigo. A frase diz "porque se elevou em majestade"; o afogamento vem depois, como a forma que essa elevação tomou. A ordem das duas metades do verso é a ordem das razões.

6. Aspectos Filosóficos

O que fica de um acontecimento

A travessia já foi contada em prosa, no capítulo 14, com hora, vento e rodas que emperram. E no entanto o texto que a comunidade passou a repetir todos os dias não é aquele relato: é este poema. O versículo levanta, sem formulá-la, uma pergunta antiga: por que um acontecimento só se torna duradouro quando vira canto?

Hölderlin: "o que permanece, fundam-no os poetas"

Friedrich Hölderlin (1770-1843), poeta alemão formado no seminário teológico de Tübingen, fechou o poema Andenken ("Lembrança", de 1803) com um verso que se tornou quase uma definição da poesia: Was bleibet aber, stiften die Dichter — "o que permanece, porém, fundam-no os poetas".

O verbo é forte. Stiften não é registrar nem guardar; é instituir, fundar, como quem funda uma ordem ou uma instituição. Para Hölderlin, o poeta não preserva algo que duraria sem ele: é a palavra poética que dá a certas coisas a capacidade de durar.

O Cântico do Mar ilustra a tese de um modo que a história do texto confirma. A prosa do capítulo 14 informa; o poema é o que entrou na oração diária, ganhou desenho próprio no rolo e é ouvido de pé. E a leitura rabínica do "cantará" — o canto que Moisés voltará a cantar — diz em linguagem de fé algo próximo do que Hölderlin diz em linguagem de poeta: este canto não pertence a um dia só.

Onde a aproximação deixa de servir

Há dois limites, e eles importam.

O primeiro: para Hölderlin, quem funda é o poeta. No Êxodo, o cântico não funda o acontecimento; responde a ele. A causa está fora do canto — "porque se elevou em majestade". Quem lê o cântico com Hölderlin na cabeça corre o risco de transferir para a poesia o que o texto atribui a Deus. E o mundo religioso de Hölderlin, em que os deuses gregos e Cristo convivem e se ausentam, não é o do Êxodo: em Pão e vinho ele pergunta "para que poetas em tempo de penúria?", e o tempo do Cântico do Mar é o contrário de um tempo de penúria do divino.

O segundo limite é mais incômodo, e a própria tese de Hölderlin ajuda a vê-lo. Se o que permanece é o que o poeta funda, permanece também o que ele escolhe. O poema conserva o cavalo e o cavaleiro, a majestade, a vitória. Não conserva o medo do povo nem o "melhor nos seria servir aos egípcios" de Êxodo 14:12. A memória fundada pelo canto é seletiva por natureza. A Torá, porém, guarda as duas coisas lado a lado — o relato com as queixas e o poema sem elas. O livro não confiou só no canto para lembrar.

7. Aplicações Práticas

Agradecer depois, e não só pedir antes. O capítulo 14 está cheio de clamor; o 15 abre com canto. A maior parte da oração que conhecemos é feita na véspera, sob pressão. O versículo registra o outro movimento, mais raro: voltar, depois que a coisa passou, para dizer o que aconteceu e a quem se deve. Quem só ora no aperto tem um capítulo 14 sem capítulo 15.

Dizer "eu" dentro do "nós". O povo inteiro canta, e cada um diz "cantarei". Em celebrações coletivas, de uma igreja, de uma família, de uma comunidade, é fácil cantar no plural sem que a gratidão passe por ninguém em particular. O texto pede as duas coisas ao mesmo tempo: o canto é comum, e a voz é pessoal.

Não pôr o próprio nome no canto. O cântico não elogia nenhum israelita, nem Moisés, que o compôs e o puxou. Quem conta a própria vitória costuma reservar para si algum papel na história. Aqui não há nenhum, e o texto não faz disso uma virtude: simplesmente o dá como o modo de cantar "ao SENHOR".

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Moisés compôs o cântico ali mesmo, na margem?

O texto diz que ele cantou "então", e não diz quando compôs. A tradição se dividiu: a Mekhilta fala do espírito de Deus repousando sobre o povo, o que sugere inspiração no momento; Ibn Ezra supõe uma composição seguida de ensino. As duas leituras respondem a uma pergunta de fé sobre a origem do poema; a pergunta histórica, sobre a idade do texto que temos, é outra, e o versículo não oferece nada para resolvê-la.

Por que justamente este cântico e o de Débora são escritos em "tijolos", e o de Deuteronômio 32 em duas colunas?

As fontes antigas prescrevem as duas formas e não explicam a diferença. O Talmude só dá razão para o caso oposto, o das listas de inimigos escritas para "não se levantar". Explicações posteriores, como a de que o desenho imitaria ondas ou muralhas de água, não têm apoio nas fontes antigas e devem ser lidas como devoção, não como história. O que se pode afirmar é que os dois desenhos eram conhecidos, distintos e obrigatórios.

É legítimo cantar sobre a morte de um exército?

O versículo põe a razão do canto na elevação de Deus e só depois diz o que aconteceu ao inimigo; não há nele nenhuma expressão de prazer com a morte. Mas a pergunta é real, e a tradição rabínica a enfrentou com textos próprios, que o estudo de Êxodo 14:17 expõe.

O "Cantarei" é de Moisés ou de cada israelita?

O hebraico admite as duas leituras, e é provavelmente intencional que admita. Se a frase é só de Moisés, o povo repete o que ele canta; se é de cada um, o singular é o modo de uma multidão confessar sem perder o rosto de ninguém. Os modelos do Talmude sobre como se cantou escolhem entre essas opções, mas o versículo não as separa.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma abertura, em outro cântico do deserto

Números 21:17 — "Então Israel cantou este cântico: 'Brote, ó poço! Cantem para ele.'"

As mesmas palavras iniciais, agora com Israel por sujeito e sem Moisés. É o único outro cântico do Pentateuco aberto assim.

O verbo de futuro que obrigou o Talmude a recuar

1 Reis 11:7 — "Então Salomão edificou um altar para Camos, a abominação de Moabe, no monte que fica diante de Jerusalém."

A mesma construção que sustenta a leitura da ressurreição em Êxodo 15:1. Lida como futuro, faria Salomão construir ainda hoje um altar a um ídolo.

Um cântico de mulher, também na primeira pessoa

Juízes 5:3 — "Ouçam, reis; prestem atenção, príncipes: eu, ao SENHOR, eu cantarei; tocarei ao SENHOR, o Deus de Israel."

O cântico de Débora, o outro poema que os copistas escreviam em "tijolos", abre com o mesmo verbo na mesma forma, e com o "eu" dito duas vezes.

Um eco do motivo do canto, em Isaías

Isaías 12:5 — "Cantem ao SENHOR, porque fez coisas majestosas; que isto seja conhecido em toda a terra."

"Coisas majestosas" é um substantivo da mesma raiz de "se elevou em majestade". O capítulo 12 de Isaías é um pequeno cântico de libertados que retoma o do Mar em mais de um ponto.

O canto "a uma só voz", numa releitura judaica de Alexandria

Sabedoria de Salomão 10:20 — "Por isso os justos despojaram os ímpios, e cantaram, Senhor, o teu santo nome, e louvaram a uma só voz a tua mão que lutou por eles."

O livro da Sabedoria, escrito em grego provavelmente no século I antes de Cristo, resolve numa palavra a questão de como se cantou: unânimes. É uma das leituras mais antigas do versículo fora da Bíblia hebraica.

O "cântico de Moisés" no fim da Bíblia cristã

Apocalipse 15:2-3 — "Vi também como que um mar de vidro misturado com fogo, e os que tinham vencido a besta, em pé junto ao mar de vidro, com harpas de Deus. E cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: 'Grandes e maravilhosas são as tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso; justos e verdadeiros são os teus caminhos, Rei das nações.'"

É a leitura cristã antiga deste versículo, e a única que este estudo registra. A cena repete a de Êxodo 15 — vencedores em pé junto a um mar, cantando —, e o título "servo de Deus" é o de Êxodo 14:31. Mas as palavras que o Apocalipse põe na boca dos cantores não vêm do Êxodo 15: são frases dos Salmos, de Jeremias e de Deuteronômio 32:4, o outro cântico de Moisés. O Apocalipse evoca a cena do mar, e não cita o poema. Comentaristas como Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) leram no Cântico do Mar uma figura da vitória final; é leitura de dentro da fé cristã, e o texto do Êxodo não a contém.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então cantou Moisés, e os filhos de Israel, este cântico ao SENHOR, e disseram: “Cantarei ao SENHOR, porque se elevou em majestade; o cavalo e o seu cavaleiro ele lançou ao mar.

Texto hebraico

אָז יָשִׁיר־מֹשֶׁה וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל אֶת־הַשִּׁירָה הַזֹּאת לַיהוָה וַיֹּאמְרוּ לֵאמֹר אָשִׁירָה לַיהוָה כִּי־גָאֹה גָּאָה סוּס וְרֹכְבוֹ רָמָה בַיָּם׃

Transliteração

az yashir-Mosheh u-venei Yisra'el et-ha-shirah ha-zot la-YHWH, va-yomeru lemor: ashirah la-YHWH ki-ga'oh ga'ah, sus ve-rokhevo ramah va-yam.

Análise palavra por palavra

אָז — az, "então".

Advérbio de tempo. Seguido da forma verbal de ação inacabada, como aqui, é construção conhecida do hebraico antigo para narrar o passado: Josué 10:12, Números 21:17, Deuteronômio 4:41 e 1 Reis 11:7 trazem a mesma combinação. A palavra volta no próprio cântico, em Êxodo 15:15, e é a única outra vez em que o poema marca o tempo com ela.

יָשִׁיר — yashir, "cantou" (ao pé da letra, "cantará").

Raiz shir, cantar, na forma simples do verbo hebraico (o Qal), na conjugação de ação inacabada (o imperfeito), terceira pessoa masculina do singular. É a primeira ocorrência do verbo "cantar" na Bíblia. Antes dele só existia o substantivo: em Gênesis 31:27 Labão reclama que Jacó fugiu sem deixar que ele o despedisse "com alegria e cânticos". O verbo, quando entra, entra com Deus por destinatário.

O singular diante de dois sujeitos não é erro: o hebraico costuma concordar o verbo com o sujeito que vem logo depois dele, e aqui o primeiro é Moisés.

אֶת־הַשִּׁירָה הַזֹּאת — et-ha-shirah ha-zot, "este cântico".

Et marca o objeto direto. Shirah é a forma feminina do substantivo "cântico", ao lado da masculina shir; o demonstrativo zot concorda no feminino. A expressão exata, "este cântico", volta em Números 21:17, no cântico do poço, e quatro vezes em Deuteronômio 31 (versículos 19, 21, 22 e 30) para designar o cântico de Deuteronômio 32. Funciona como etiqueta de peça fechada, feita para ser repetida.

לַיהוָה — la-YHWH, "ao SENHOR".

Preposição le, "a, para", com o nome divino; duas vezes no versículo, na prosa e na primeira linha do poema.

וַיֹּאמְרוּ לֵאמֹר — va-yomeru lemor, "e disseram, dizendo".

Raiz amar, dizer. O primeiro verbo está no plural, na forma que encadeia a narrativa; o segundo é o infinitivo que o hebraico usa como dois-pontos, para introduzir uma fala.

אָשִׁירָה — ashirah, "cantarei".

A mesma raiz shir, primeira pessoa do singular, com a terminação -ah que dá ao verbo um tom de decisão: "quero cantar", "vou cantar". Juízes 5:3, no cântico de Débora, traz a mesma palavra na mesma forma.

גָאֹה גָּאָה — ga'oh ga'ah, "se elevou em majestade".

A raiz g-'-h duas vezes: primeiro no infinitivo absoluto (ga'oh), depois no perfeito, terceira pessoa masculina do singular (ga'ah). A combinação do infinitivo com o verbo da mesma raiz é o modo hebraico de intensificar: "elevar-se, elevou-se".

O verbo é raro. Fora deste versículo e da repetição de Miriã em Êxodo 15:21, aparece apenas em três lugares, e os três descrevem algo que sobe ou cresce: em Jó 8:11, o papiro que "cresce" no brejo; em Jó 10:16, um homem que "se levanta" altivo; em Ezequiel 47:5, as águas do rio que saem do templo e "tinham subido" até ser preciso nadar. O sentido de base é físico: subir, avolumar-se, crescer para o alto.

Os substantivos da mesma raiz levam o sentido para o terreno da grandeza e, em gente, do orgulho. Ge'on é a "majestade" de Êxodo 15:7, e também a "soberba" que precede a queda em Provérbios 16:18. Ge'ut é a "majestade" de que o SENHOR se veste no Salmo 93:1.

E há um padrão que liga a raiz ao mar. Em Jó 38:11, Deus põe limite às ondas: "aqui se deterá o orgulho das suas ondas" — ge'on. No Salmo 89:9, "tu dominas a soberba do mar" — ge'ut. No Salmo 46:3, os montes tremem com a fúria do mar, que é ga'avah. A palavra que descreve o mar inchado e as ondas que sobem é a mesma que este versículo usa para Deus. O cântico diz que, diante de um mar que se avoluma, quem se elevou foi o SENHOR.

Daí a escolha da ABC, "se elevou em majestade": "triunfou gloriosamente" perde o movimento de subida e o elo com a "majestade" de Êxodo 15:7.

סוּס וְרֹכְבוֹ — sus ve-rokhevo, "o cavalo e o seu cavaleiro".

Sus, cavalo, no singular que vale pela classe inteira, recurso comum do hebraico para equipamento e animais. Rokhevo é o particípio do verbo rakhav, "montar, ir sobre", com o sufixo "dele": "o que vai sobre ele". O mesmo verbo serve para quem monta o animal e para quem vai no carro — em Gênesis 41:43, é com ele que se diz que Faraó fez José subir no seu segundo carro. O texto não obriga a pensar em cavalaria montada.

רָמָה — ramah, "lançou".

Verbo na forma simples, perfeito, terceira pessoa masculina do singular. O sentido é arremessar, e o uso mais característico é o de atirar com arco: Jeremias 4:29 e Salmo 78:9 chamam os arqueiros de "os que lançam com o arco". A imagem é a de um tiro, não a de um empurrão. Os léxicos registram, numa forma intensiva do verbo, o sentido de "enganar", e a relação entre os dois sentidos foi examinada no estudo de Gênesis 29:25.

Êxodo 15:4 conta o mesmo afogamento com outro verbo de arremesso, e é dessa dupla que a Mekhilta tira a sua sequência de subida e descida.

בַיָּם — va-yam, "ao mar".

Preposição be, "em", com artigo e yam, mar. O nome "mar dos Juncos" só entra no cântico em Êxodo 15:4.

11. Conclusão

Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que o Êxodo não deixou o canto como um coro anônimo. O verbo no singular e a primeira pessoa de "cantarei" fazem de Moisés o que puxa e de cada israelita alguém que fala por si. As tradições que discutiram como o canto foi distribuído divergem sobre o modo, mas nenhuma conseguiu ler ali uma multidão sem rosto.

A segunda é que a razão do canto está em Deus e não no inimigo. A palavra escolhida é a do que sobe acima do que se avoluma — o vocabulário que a Bíblia usa para o mar inchado e para o orgulho humano —, e o afogamento entra como a forma que essa elevação tomou, não como o objeto da festa.

A terceira é que o texto foi recebido como peça destinada a durar além do dia. O verbo que admite futuro, a forma gráfica obrigatória no rolo, a bênção própria e a recitação diária apontam na mesma direção: a comunidade que guardou este versículo o tratou como algo a ser cantado de novo, e não só lembrado.

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Êxodo 15:1

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