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Êxodo 15:15

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 12 acessos
Então os chefes de Edom se apavoraram; dos poderosos de Moabe apoderou-se o tremor; derreteram-se todos os que habitam Canaã.
Chefes de um povo do deserto reunidos numa tenda, à noite, ouvindo em silêncio um mensageiro, com rostos tensos à luz de uma lamparina.

Estudo


Então os chefes de Edom se apavoraram; dos poderosos de Moabe apoderou-se o tremor; derreteram-se todos os que habitam Canaã.

1. Introdução

A notícia do mar chega aos vizinhos, e o cântico os nomeia um por um: os chefes de Edom se apavoram, os poderosos de Moabe tremem, os habitantes de Canaã se derretem. Os três verbos sobem de intensidade à medida que o povo nomeado está mais perto de perder a terra. A frase final — "derreteram-se todos os que habitam" — reaparece quase intacta, quarenta anos depois, na boca de uma cananeia de Jericó, Raabe. E a pergunta que os rabinos fizeram ao versículo continua aberta: por que temeriam Edom e Moabe, se Israel estava proibido de tomar as suas terras?

2. Contexto Histórico e Cultural

Moabe antes da pedra de Mesa

Quase tudo o que se sabe de Moabe fora da Bíblia vem do século IX a.C. em diante. Para o tempo que o Êxodo descreve, a documentação é pouca, e ela é egípcia.

Em 1964, o egiptólogo britânico Kenneth Kitchen publicou, numa revista britânica de egiptologia, um conjunto de relevos de Ramsés II (que reinou de cerca de 1279 a 1213 a.C.) descobertos na parede leste do grande pátio do templo de Luxor, no Egito. Numa das cenas, o exército do faraó saqueia uma cidade cuja legenda diz pertencer "à terra de Moabe" — em egípcio, algo como Mu-i-bu. A cidade se chama Butartu, e não foi identificada com segurança. Kitchen propôs ainda ler em outra legenda do mesmo conjunto o nome de Dibom, a futura capital moabita, mas essa leitura é discutida.

É a menção mais antiga do nome de Moabe fora da Bíblia, e ela é do século XIII a.C. — a época em que muitos situam o êxodo. O que ela mostra é modesto e importante: os egípcios conheciam uma "terra de Moabe" e a tratavam como alvo de campanha militar. Não mostra um reino com rei, nem a extensão do território.

A própria inscrição tem uma história atribulada. Os egiptólogos John Darnell e Richard Jasnow, num estudo de 1993 sobre as inscrições moabitas de Luxor, examinaram o fato de que parte das legendas foi depois coberta de reboco e regravada com outro nome — o de uma cidade da Síria. O relevo foi, portanto, reaproveitado, e há quem pergunte se Ramsés II chegou mesmo a fazer campanha em Moabe ou se o escultor misturou cenas. O debate continua; o nome de Moabe na parede, esse, ninguém contesta.

Uma estela de estilo egípcio no planalto

Em 1930, em Khirbet el-Balu', no norte do planalto de Kerak, apareceu uma laje de basalto de quase dois metros de altura, hoje no museu de Amã. Ela mostra três figuras em estilo egípcio: um governante local entre um deus e uma deusa, numa cena de investidura. Acima, algumas linhas de inscrição tão gastas que ninguém conseguiu ler. Não se sabe a data nem a língua, mas a maioria dos estudiosos a põe na segunda metade do segundo milênio a.C. A estela de Balu' é o retrato mais antigo de um chefe da região que se tornaria Moabe, e mostra um poder local que se vestia à moda do Egito.

Quantos moabitas havia?

Esta é a pergunta que mais pesa sobre o versículo. Nas décadas de 1930 e 1940, o arqueólogo norte-americano Nelson Glueck percorreu a Transjordânia a pé e a cavalo recolhendo cacos de cerâmica na superfície dos sítios, e concluiu que a região de Edom e de Moabe ficou quase sem povoados fixos durante boa parte do segundo milênio, até por volta do século XIII a.C. Levantamentos posteriores, mais minuciosos, como o do planalto de Kerak dirigido por J. Maxwell Miller e publicado em 1991, encontraram mais sítios da Idade do Bronze do que Glueck supunha — mas ainda poucos e pequenos.

O quadro que resulta, com as cautelas de sempre, é o de uma população em boa parte pastoril, com chefes locais e alguns pontos fortificados, e não o de um reino organizado. Esse quadro combina com a palavra do versículo. O cântico não fala do "rei de Moabe"; fala dos "poderosos de Moabe", uma palavra que no hebraico é a do carneiro que guia o rebanho. Para Edom, igualmente, fala de "chefes", e não de rei. A instituição de chefes de clã em Edom, e as notícias egípcias sobre os pastores edomitas, estão no estudo de Gênesis 36:31.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então"

O versículo começa com a mesma palavra que abre o cântico: "Então cantou Moisés" (Êxodo 15:1). Lá ela marcava o momento do canto; aqui marca o momento do medo, como se o pavor dos vizinhos fosse o eco do canto de Israel. O que essa palavrinha faz com o tempo do verbo que a segue está no estudo de Êxodo 15:1.

"os chefes de Edom se apavoraram"

A pergunta veio dos rabinos, e é boa: por que Edom teria medo? A Torá diz expressamente que Israel não tomaria nada da terra de Edom — "nem a pisada de um pé" — e manda o povo passar pelo território "dos seus irmãos, os filhos de Esaú" sem provocá-los (Deuteronômio 2:4-5). A mesma proibição vale para Moabe (Deuteronômio 2:9). Nenhum dos dois estava ameaçado de conquista.

A Mekhilta (o comentário rabínico antigo ao Êxodo) dá duas respostas, e Rashi (rabino francês do século XI) repete a primeira. Primeira resposta: não era medo, era desgosto. A palavra que a Mekhilta usa descreve o abatimento de quem vê o sucesso do outro e sofre com ele. Edom e Moabe não temiam perder a terra; sofriam com a glória de Israel. Segunda resposta: era medo de uma conta antiga. Os edomitas teriam dito: "agora eles vêm despertar a briga entre o nosso pai e o pai deles", lembrando que Esaú odiou Jacó (Gênesis 27:41). E os moabitas, descendentes de Ló, teriam lembrado a briga entre os pastores de Abrão e os de Ló (Gênesis 13:7). Chizkuni (rabino francês do século XIII) acompanha: Edom temia ser punido pelo ódio de Esaú.

Sforno (Obadia Sforno, comentarista italiano do século XVI) dá uma terceira, mais simples: eles sabiam que Israel não lhes faria guerra, e mesmo assim se assustaram "só com o espetáculo". O medo, por essa leitura, não depende de ameaça direta; basta ver o que um vizinho é capaz de fazer.

E há o testemunho da própria Torá. Deuteronômio 2:4 diz, sobre os edomitas, exatamente o que o cântico canta: "eles terão medo de vocês". Mas Números 20:18-20 conta que Edom recusou a passagem e saiu ao encontro de Israel "com muita gente e com mão forte". Ramban (rabino catalão do século XIII) harmoniza: Edom saiu armado, mas não atacou, e não atacou por causa do medo de que fala o cântico. É uma leitura possível; o texto de Números não menciona medo nenhum.

Três povos, três verbos, uma escada

Leia os três verbos na ordem. Edom "se apavorou": é o susto, o sobressalto repentino. Moabe foi "tomado pelo tremor": o susto virou estado do corpo. Canaã "se derreteu": não sobrou forma. A intensidade sobe, e sobe na mesma direção em que sobe a ameaça. Edom e Moabe ficariam com as suas terras; Canaã perderia a sua.

A Mekhilta viu exatamente isso, e deu a razão. Os cananeus ouviram que Deus ordenara "não deixarás com vida nenhuma alma" nas cidades deles (Deuteronômio 20:16) e disseram: "aqueles outros só temiam pelo seu dinheiro e pelos seus bens; mas contra nós eles vêm para nos exterminar e herdar a nossa terra. E começaram a se derreter". O comentário antigo distingue três medos pelo que cada povo tinha a perder: o orgulho, a propriedade, a vida. O versículo, lido assim, não fala de um pavor genérico; fala de pavores proporcionais ao interesse de cada um.

"derreteram-se todos os que habitam Canaã"

O verbo é o da coisa sólida que perde a forma. Rashi o explica pelo Salmo 65:10, onde a terra seca é "amolecida" pelas chuvas; a Mekhilta, pelo Salmo 75:3, "a terra e todos os seus habitantes se derretem". A imagem não é de fuga nem de choro: é de dissolução. Um povo que derrete deixa de agir como corpo. Raabe dirá o mesmo de outro modo: "não ficou mais ânimo em ninguém" (Josué 2:11).

E é aqui que o versículo ganha uma segunda vida. Quarenta anos depois, em Jericó, uma mulher cananeia esconde os espiões de Josué no telhado e lhes diz: "Sei que o SENHOR deu a vocês a terra, e que o pavor de vocês caiu sobre nós, e que todos os habitantes da terra se derreteram diante de vocês" (Josué 2:9). No hebraico, a última frase é a deste versículo, com as mesmas três palavras — "derreteram-se todos os habitantes" —, trocando apenas "Canaã" por "a terra". E a frase anterior, "o pavor de vocês caiu sobre nós", é a de Êxodo 15:16, "cai sobre eles espanto e pavor", com o mesmo verbo e a mesma palavra para pavor.

Raabe recita o cântico de trás para a frente — primeiro o pavor que cai (versículo 16), depois o derretimento (versículo 15) — e só então diz de onde vem o medo: "porque ouvimos que o SENHOR secou as águas do mar dos Juncos" (Josué 2:10). O que Israel cantou na praia, uma cananeia confirma do outro lado. E os espiões levam a frase de volta: "todos os habitantes da terra se derreteram diante de nós", relatam a Josué (Josué 2:24). A sentença faz um circuito completo — cantada por Israel, dita por uma moradora de Canaã, devolvida a Israel como relatório de inteligência.

Ibn Ezra (rabino espanhol do século XII) e Sforno já ligaram este versículo a Josué 2:11, onde Raabe diz que "o nosso coração se derreteu" — mas ali o verbo hebraico é outro. A coincidência literal está em Josué 2:9 e 2:24.

Há uma complicação textual que precisa ser dita. A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria) de Josué 2:9 não tem a frase "e todos os habitantes da terra se derreteram"; e em Josué 2:24 usa outro verbo, "encolheram-se de medo". Duas explicações são possíveis. Ou o tradutor grego encurtou a fala, ou o texto hebraico que chegou até nós ganhou, em algum momento, a frase que a aproxima do cântico — um copista que ouviu o Êxodo na boca de Raabe e completou o eco. Não é possível decidir. Se a segunda for verdadeira, o elo entre os dois textos não diminui: mostra que ele foi sentido com tanta força que alguém o deixou escrito.

O que decorre disso para a leitura do versículo é um contraste. O cântico canta o derretimento de "todos" os habitantes de Canaã como fato consumado. O livro de Josué confirma o derretimento pela boca de uma única cananeia — e ela, longe de se dissolver, toma a decisão mais firme do capítulo: muda de lado e salva a família. E logo adiante os reis de Canaã não se derretem: juntam-se para lutar (Josué 9:1-2; 10:1-5; 11:1-5), e o rei de Arade ataca Israel ainda no deserto (Números 21:1). O medo de "todos" foi real para uns, nulo para outros, e, para Raabe, ponto de partida de uma escolha.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os chefes de Edom

Os cabeças de clã dos descendentes de Esaú, no planalto a sudeste do mar Morto. O título é o mesmo da longa lista de Gênesis 36, que termina com "estes são os chefes de Edom" (Gênesis 36:43). O que a palavra significa e de onde vem está no estudo de Gênesis 36:15.

Os poderosos de Moabe

Os homens fortes do planalto a leste do mar Morto, descendentes de Ló segundo Gênesis 19:37. Quando Israel de fato chega à fronteira de Moabe, quarenta anos depois, o texto já fala de um rei, Balaque, filho de Zipor, "rei de Moabe naquele tempo" (Números 22:4).

Os que habitam Canaã

Os moradores da terra a oeste do Jordão, que Êxodo 3:8 lista como cananeus, heteus, amorreus, perizeus, heveus e jebuseus. São os únicos dos quatro grupos do cântico cuja terra Israel vai tomar.

Raabe

Mulher de Jericó, a primeira cidade de Canaã atacada por Israel. Esconde os espiões, declara o medo da sua gente com as palavras deste versículo (Josué 2:9) e sobrevive com a família à queda da cidade (Josué 6:25). É a única pessoa de Canaã, na Bíblia, a quem se atribui o derretimento cantado aqui.

Os acontecimentos que o versículo antecipa

A recusa de Edom em deixar Israel passar (Números 20:14-21). O medo de Moabe e a contratação de Balaão (Números 22:2-6). A travessia do Jordão e a reação dos reis de Canaã (Josué 5:1). Nenhum deles acontece no Êxodo; todos estão a quarenta anos de distância.

5. Pontos de Ensino

O medo tem graus, e os graus seguem o interesse. Edom se assusta, Moabe treme, Canaã se derrete. O versículo distingue os vizinhos pelo que cada um tinha a perder, e a Mekhilta tornou explícita a distinção.

O cântico canta o futuro dos outros. Nenhum desses povos foi encontrado ainda. O versículo antecipa reações que a Torá só vai narrar em Números e em Josué — e nem todas se confirmarão como foram cantadas.

A confirmação vem da boca do outro lado. O texto que melhor confirma este versículo não é israelita: é a fala de uma cananeia. A Bíblia guardou a voz do inimigo para atestar o que Israel tinha cantado.

Parentes também tremem. Edom e Moabe são, no Gênesis, família de Israel — Esaú é irmão de Jacó, Ló é sobrinho de Abraão. O cântico os põe entre os que tremem sem distinguir parentesco. A Torá, mais tarde, protegerá essa parentela (Deuteronômio 2:4-9); o canto de guerra não faz essa distinção.

6. Aspectos Filosóficos

O medo como coisa política: Corey Robin

O cientista político norte-americano Corey Robin (nascido em 1967) publicou em 2004 o livro Fear (em português, "Medo: a história de uma ideia política"). A tese do livro é que o medo político não é uma reação natural e espontânea a um perigo. Robin o define de dois modos: é a apreensão de um povo diante de algum dano ao seu bem-estar coletivo, ou é a intimidação que governos e grupos exercem sobre homens e mulheres. Nos dois casos, diz ele, o medo tem patrocinadores e beneficiários: alguém o alimenta, alguém o usa, alguém ganha com ele.

Robin escreve contra uma tradição. Os grandes pensadores do medo na política moderna — Hobbes, Montesquieu, Tocqueville, Arendt — teriam, cada um a seu modo, transformado o medo em algo quase sem autor: o estado de natureza, a essência do despotismo, a ansiedade da sociedade de massas, o terror total. Com isso, diz Robin, desviaram a atenção das autoridades públicas e privadas que o promovem. Para ele, a pergunta certa diante de qualquer medo coletivo é: quem o produziu, e para quê?

O cântico responde a essa pergunta com uma franqueza que Robin raramente encontra nos textos que estuda. O medo das nações tem autor declarado — "pela grandeza do teu braço" (Êxodo 15:16) — e tem finalidade declarada: "até que passe o teu povo, SENHOR". O versículo 15 e o seguinte não descrevem o medo como acidente; desejam-no, e desejam-no para abrir caminho. É exatamente o medo como instrumento que Robin descreve, cantado sem nenhum disfarce.

A leitura de Robin também ilumina a escada dos três verbos. Para ele, o medo político nunca é genérico: liga-se ao que cada grupo tem a perder. A Mekhilta, cerca de dezessete séculos antes, fez a mesma operação com este versículo: Edom e Moabe temem pelo orgulho e pelos bens; Canaã teme pela vida, e por isso só Canaã se derrete. O comentário rabínico e o cientista político concordam que não existe "o medo dos povos"; existem medos distintos, proporcionais ao interesse ameaçado.

E há uma ironia que Robin ajudaria a ver, e que está no próprio livro do Êxodo. A história de Israel no Egito começou com um medo político. "O povo dos filhos de Israel é numeroso e mais forte do que nós", disse Faraó (Êxodo 1:9), e desse medo saiu a política de opressão. É o caso clássico de Robin: o medo de uma elite convertido em programa de governo. O verbo de horror que descreve os egípcios diante de Israel em Êxodo 1:12 é o mesmo que descreverá Moabe em Números 22:3, como mostra o estudo de Êxodo 1:12. O povo que sofreu o medo dos outros canta agora, na praia, o medo dos outros como bênção.

O limite da comparação tem dois lados. O primeiro: Robin escreve sobre estados modernos, com polícia, tribunais, demissões e listas negras; o cântico não tem aparelho nenhum, só uma notícia e um Deus. O segundo é mais interessante. Para Robin, o medo político serve sobretudo à dominação: ele quebra a resistência e produz obediência. A Bíblia guarda um caso que escapa a esse esquema. Raabe teve o medo que o cântico deseja, e o medo não a submeteu a ninguém: levou-a a uma decisão própria, arriscada e livre. O versículo, lido até Josué, mostra que o medo pode ser instrumento, como diz Robin — e pode também ser a ocasião em que alguém escolhe.

7. Aplicações Práticas

Perguntar o que o medo do outro está protegendo. O versículo distingue o susto de Edom, o tremor de Moabe e o derretimento de Canaã pelo que cada um tinha a perder. Diante de um adversário assustado — num conflito de família, de trabalho, de vizinhança —, a pergunta útil é a mesma: ele teme pelo orgulho, pelos bens ou pela sobrevivência? A resposta muda o que se pode esperar dele.

O medo não obriga a nada. Raabe ouviu as mesmas notícias que os reis de Canaã, sentiu o mesmo pavor e fez o contrário deles. O versículo, lido com Josué 2, desmente a ideia de que quem tem medo só pode fugir ou se render. O medo informa; a decisão continua sendo de quem o sente.

Desconfiar de quem precisa do nosso medo. O cântico deseja abertamente o pavor dos vizinhos, e diz por quê. Nem sempre quem semeia medo é tão franco. Quando um discurso — político, religioso, comercial — precisa que alguém tenha medo para funcionar, vale fazer a pergunta de Corey Robin: quem ganha com esse medo?

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se Israel não ia atacar Edom nem Moabe, o versículo exagera?

Talvez, e os rabinos sentiram o problema antes de qualquer crítico moderno — é por isso que a Mekhilta transformou o medo deles em desgosto ou em medo de vingança antiga. Mas há outra saída: os vizinhos não sabiam o que Israel tinha sido proibido de fazer. A proibição de Deuteronômio 2 foi dada a Israel, não comunicada a Edom. Para quem via um povo inteiro sair do deserto depois de destruir o exército egípcio, o medo era razoável, com ou sem ordem divina de poupá-los.

Por que Amom não aparece na lista?

Ramban (rabino catalão do século XIII) responde: "Amom e Moabe são como um povo só" — os dois descendem das filhas de Ló (Gênesis 19:37-38), e a Torá costuma tratá-los juntos (Deuteronômio 2:9, 2:19; 23:3). É uma explicação plausível, não demonstrável. A lista do cântico também omite os amorreus de Siom e de Ogue, que serão os primeiros reinos efetivamente derrotados (Números 21:21-35).

Raabe conhecia o cântico?

O texto não diz. O que ele mostra é que ela usa as palavras do cântico, e que diz ter ouvido falar do mar (Josué 2:10). Há três possibilidades. Ou a notícia do mar chegou a Jericó já acompanhada das fórmulas de Israel; ou quem escreveu Josué pôs na boca de Raabe o vocabulário do Êxodo para mostrar que a profecia se cumpriu; ou as duas falas usam um modo comum de descrever o medo diante de uma vitória. A coincidência de três palavras seguidas torna a segunda possibilidade a mais provável, mas não a única.

O cântico mostra algum interesse pelos cananeus como pessoas?

Não. Eles aparecem só como os que se derretem. O interesse humano por uma cananeia, com nome, casa e família, só aparece em Josué 2 — e ele vem justamente pela mesma frase deste versículo. É a Bíblia que completa o que o cântico deixou de fora.

9. Conexão com Outros Textos

Raabe repete o cântico

Josué 2:9 — "E disse aos homens: 'Sei que o SENHOR deu a vocês esta terra, e que o pavor de vocês caiu sobre nós, e que todos os habitantes da terra se derreteram diante de vocês.'"

Duas frases do cântico na boca de uma cananeia: o pavor que "cai" (Êxodo 15:16) e "derreteram-se todos os habitantes" (Êxodo 15:15), com as mesmas palavras hebraicas. A Septuaginta não tem a segunda frase.

Josué 2:10 — "Porque ouvimos que o SENHOR secou as águas do mar dos Juncos diante de vocês, quando saíram do Egito, e o que vocês fizeram aos dois reis dos amorreus do outro lado do Jordão, a Siom e a Ogue, que vocês destruíram."

A causa do medo é a mesma do cântico — o mar — e o verbo é o mesmo do versículo 14: "ouvimos".

Josué 2:11 — "Quando ouvimos isso, o nosso coração se derreteu, e não ficou mais ânimo em ninguém, por causa de vocês; porque o SENHOR, o Deus de vocês, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra."

O "derreter" aqui é outro verbo hebraico, o que Ibn Ezra e Sforno citam. Raabe usa os dois em três versículos.

Josué 2:24 — "E disseram a Josué: 'Certamente o SENHOR entregou toda a terra em nossas mãos; e todos os habitantes da terra se derreteram diante de nós.'"

Os espiões devolvem a frase de Raabe — e do cântico — como relatório. Na Septuaginta, o verbo é outro: "encolheram-se de medo".

Josué 5:1 — "Quando todos os reis dos amorreus do outro lado do Jordão, a oeste, e todos os reis dos cananeus junto ao mar ouviram que o SENHOR tinha secado as águas do Jordão diante dos filhos de Israel até que passassem, o coração deles se derreteu, e não houve mais ânimo neles."

O cumprimento no próprio Jordão. E repare no "até que passassem": é a fórmula de Êxodo 15:16, "até que passe o teu povo".

O medo de Moabe e de Edom, narrado

Números 22:3 — "Moabe teve muito medo do povo, porque era numeroso; e Moabe sentiu horror dos filhos de Israel."

O único lugar em que a Torá narra como fato o medo de um dos povos deste versículo. A resposta de Moabe ao medo foi chamar Balaão.

Deuteronômio 2:4 — "Vocês vão passar pelo território dos seus irmãos, os filhos de Esaú, que habitam em Seir, e eles terão medo de vocês; mas tenham muito cuidado."

O Deuteronômio concorda com o cântico sobre o medo de Edom — e manda Israel não aproveitá-lo.

O verbo de derreter em outros lugares

Salmo 75:3 — "Quando a terra e todos os seus habitantes se derretem, sou eu quem firma as suas colunas."

A prova que a Mekhilta usa. O derretimento dos habitantes, aqui, é o colapso do mundo, e Deus é quem impede a ruína completa.

Naum 1:5 — "Os montes tremem diante dele, e as colinas se derretem."

O mesmo verbo aplicado à paisagem: o que se dissolve diante de Deus pode ser um povo ou um monte.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então os chefes de Edom se apavoraram; dos poderosos de Moabe apoderou-se o tremor; derreteram-se todos os que habitam Canaã.

Texto hebraico

אָז נִבְהֲלוּ אַלּוּפֵי אֱדוֹם אֵילֵי מוֹאָב יֹאחֲזֵמוֹ רָעַד נָמֹגוּ כֹּל יֹשְׁבֵי כְנָעַן׃

Transliteração

az nivhalú allufé Edóm; eilé Mo'áv yochazémo rá'ad; namógu kol yoshvéi Khená'an.

Análise palavra por palavra

אָז — az, "então".

Advérbio de tempo. Ocorre duas vezes no cântico: na abertura (Êxodo 15:1, "então cantou") e aqui. O Targum de Ônquelos o traduziu nos dois lugares pela mesma palavra aramaica, bekhen, "então", "assim". O Targum de Pseudo-Jônatas acrescentou "eis que", como quem anuncia algo que ainda vai acontecer.

נִבְהֲלוּ — nivhalú, "se apavoraram".

Raiz bahal, no Nifal (a forma passiva ou reflexiva do verbo hebraico), perfeito, terceira pessoa do plural. É o pavor repentino, o sobressalto que desorganiza, com uma nota de pressa e atropelo — o mesmo verbo dos irmãos de José diante dele em Gênesis 45:3. A Septuaginta escolheu justamente o lado da pressa: éspeusan, "apressaram-se". O Targum de Ônquelos conservou a raiz: itbehilu.

אַלּוּפֵי אֱדוֹם — allufé Edóm, "os chefes de Edom".

Alluf, na forma de ligação plural, seguido do nome de Edom. É o título dos cabeças de clã edomitas, quase exclusivo de Edom no uso político; a origem e as traduções da palavra estão no estudo de Gênesis 36:15. A Septuaginta usou hēgemónes, "comandantes"; Ônquelos, ravrevei, "os grandes".

אֵילֵי מוֹאָב — eilé Mo'áv, "os poderosos de Moabe".

Eilé é a forma de ligação plural de ayil, carneiro. Ibn Ezra explica: "com yod, como os carneiros, porque os chefes se parecem com eles no rebanho" — o carneiro é o macho que vai à frente. Keil e Delitzsch (hebraístas alemães do século XIX) entendem a palavra como "os fortes", "os poderosos", e registram uma variante de grafia que a aproxima desse sentido. As versões antigas não conservaram a imagem do animal: a Septuaginta escreveu árchontes, "chefes", e Ônquelos, taqifei, "os fortes". O mesmo uso figurado aparece em 2 Reis 24:15 e em Ezequiel 17:13, para os "poderosos da terra" levados ao exílio.

יֹאחֲזֵמוֹ — yochazémo, "apoderou-se deles".

Raiz achaz, agarrar, no Qal (a forma simples), imperfeito, terceira pessoa do singular, com o sufixo de objeto -mo, "a eles". Esse sufixo é uma forma antiga e poética do pronome "eles", que o cântico usa ao longo de todo o poema. É o mesmo verbo de Êxodo 15:14, "dores de parto tomaram", agora no imperfeito — um dos casos em que o cântico troca de forma verbal sem que o sentido mude.

רָעַד — rá'ad, "tremor".

Substantivo raro, de uma raiz que significa tremer, estremecer. Ele e a sua forma feminina aparecem pouquíssimas vezes na Bíblia hebraica; uma delas é o Salmo 48:6, "ali o tremor se apoderou deles", com o mesmo verbo de agarrar. A Septuaginta traduziu trómos, "tremor"; Ônquelos, retheta, "tremor".

נָמֹגוּ — namógu, "derreteram-se".

Raiz mug, derreter, amolecer, dissolver-se, no Nifal, perfeito, terceira pessoa do plural. A raiz descreve a terra amolecida pela chuva (Salmo 65:10, citado por Rashi), as colinas que se desfazem diante de Deus (Naum 1:5; Amós 9:13) e, em sentido figurado, a coragem que se desfaz. A forma exata namogu, seguida de kol yoshvei, "todos os habitantes de", reaparece em Josué 2:9 e 2:24. A Septuaginta traduziu etákēsan, "derreteram-se", conservando a imagem; Ônquelos, itbaru, "quebraram-se", trocando o derreter pelo partir.

כֹּל יֹשְׁבֵי כְנָעַן — kol yoshvéi Khená'an, "todos os que habitam Canaã".

Kol é "todo", "todos". Yoshvei, "os habitantes de", é a mesma forma do versículo 14 ("os que habitam a Filístia"). Kena'an, Canaã, é aqui o nome da terra. Ônquelos, como no versículo anterior, escreveu "os que habitavam em Canaã", com um verbo auxiliar de passado. Em Josué 2:9 e 2:24, no lugar de "Canaã" está ha-arets, "a terra" — e é essa única troca que separa a frase de Raabe da frase do cântico.

11. Conclusão

Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.

A primeira: o cântico não imagina um pavor uniforme. Ele gradua o medo dos vizinhos — susto, tremor, dissolução — e a gradação acompanha o que cada povo tinha a perder. Os rabinos leram assim, e o texto sustenta a leitura: só a terra que vai mudar de dono se derrete.

A segunda: o versículo é uma previsão que a Bíblia submeteu à prova. Ela se cumpriu literalmente na boca de Raabe e dos espiões, que repetem as palavras do cântico; cumpriu-se em parte em Moabe, que temeu e reagiu; e foi desmentida por Edom, que saiu armado, e pelos reis de Canaã, que se coligaram para lutar. O texto não esconde nenhuma dessas respostas.

A terceira: a frase mais dura do versículo foi também a porta de entrada da única cananeia que a Bíblia trata pelo nome nesta história. O derretimento de "todos" chegou a Israel como a fala de uma mulher que, tendo medo, escolheu. O cântico deseja o medo dos outros; o livro de Josué mostra o que uma pessoa pode fazer com ele.

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