Os povos ouviram e tremeram; dores de parto tomaram os que habitam a Filístia.
1. Introdução
Israel viu o mar se fechar; os outros povos só ouviram falar. Este versículo canta o efeito da notícia: os povos tremem, e os habitantes da Filístia são tomados de dores de parto. O verbo do tremor foi lido como medo por uns e como fúria por outros, e o resto da história bíblica dá razão aos dois. A imagem do parto é a mais forte que o hebraico tinha para o pavor que não se controla. E a lista dos vizinhos começa justamente pelo povo cuja estrada Deus mandou evitar.
2. Contexto Histórico e Cultural
Como uma notícia de guerra chegava a um rei
Não havia jornal, nem correio público, nem sinal que cruzasse um país em minutos. A notícia de um exército andava no passo de quem a levava: um mensageiro a pé ou montado, uma carta de barro entre duas cortes, um viajante de caravana. E chegava misturada a boato.
O melhor retrato disso vem de Ugarite, cidade portuária da costa da Síria destruída por volta de 1185 a.C. Nos seus arquivos ficaram as cartas trocadas nos últimos anos do reino, e elas mostram reis tentando saber o que estava acontecendo enquanto acontecia. Numa delas (catalogada como RS L.1), um rei aliado — provavelmente o de Alásia, em Chipre — escreve ao rei Amurapi de Ugarite: "Se de fato avistaram navios inimigos, fortifique-se o quanto puder. Cerque as suas cidades de muros, traga para dentro as tropas e os carros, e espere o inimigo com toda a força". O "se de fato" é o centro da carta: quem escreve não sabe se o que ouviu é verdade.
Em outra (RS 20.238), Amurapi responde que os navios vieram, puseram fogo nas suas cidades e fizeram mal à terra, enquanto as suas tropas e os seus navios estavam longe, a serviço dos hititas. E termina pedindo: "se aparecerem outros navios inimigos, mande-me um aviso, de algum modo, para que eu saiba". Numa terceira (RS 20.18), um alto funcionário de Alásia informa que vinte navios inimigos passaram depressa pela costa, "e onde acamparam nós não sabemos". As traduções são as de Hoftijzer e Van Soldt (1998), retomadas por Jeffrey Emanuel num estudo de 2018 sobre guerra naval e pirataria no fim da Idade do Bronze.
Três coisas se aprendem com essas cartas. A notícia chegava atrasada em relação ao perigo. Chegava incompleta, e o rei tinha de decidir com "se". E a primeira reação a ela era o que o versículo descreve: a corte inteira se agitava antes de ver um só soldado. Há ainda uma coincidência de época. Os navios dessas cartas pertencem ao movimento de povos do mar em que, segundo a maioria dos historiadores, os filisteus chegaram à costa de Canaã. O povo que o versículo põe tremendo diante de uma notícia entrou na história, ele mesmo, como notícia temida.
A vitória que se manda contar
Os impérios sabiam usar a notícia. O exemplo mais completo é a chamada Carta de Sargão II ao deus Assur, uma tabuinha de cerca de 430 linhas, hoje no Museu do Louvre, que relata a oitava campanha do rei assírio, em 714 a.C., contra o reino de Urartu e a cidade-santuário de Musasir. O texto é um relatório militar escrito em forma de carta ao deus, e os estudiosos notam nele recursos de som e de jogo de palavras pensados para a leitura em voz alta. Era, com toda a probabilidade, lido em público: a vitória tinha de chegar aos ouvidos dos súditos e dos vizinhos.
As inscrições de Sargão contam ainda o efeito que esperavam produzir. Rusa, rei de Urartu, ao ouvir que Musasir fora saqueada e o seu deus levado, teria posto fim à própria vida com o punhal que trazia à cintura. É a versão assíria, e há historiadores que duvidam que Rusa tenha morrido naquele ano. Mas a frase mostra o que um vencedor queria que se pensasse: que a notícia sozinha podia derrubar um rei.
O jeito bíblico de descrever quem recebe má notícia
O hebraico tinha uma fórmula para isso, e o biblista norte-americano Delbert Hillers a descreveu num artigo de 1965, "Uma convenção da literatura hebraica: a reação à má notícia". A sequência é quase fixa: primeiro alguém ouve; depois o corpo cede — as mãos afrouxam, os joelhos tremem, o coração se derrete — e vêm as dores "como de mulher que dá à luz". Jeremias 6:24 a traz inteira: "ouvimos a notícia, as nossas mãos afrouxaram, a angústia nos tomou, dores como de parturiente". Jeremias 50:43 repete a mesma frase quase palavra por palavra, aplicada ao rei da Babilônia.
Êxodo 15:14 tem os dois primeiros elos da cadeia — o ouvir e as dores — e o versículo seguinte acrescenta o derreter. Na ordem dos livros, é a primeira vez que a fórmula aparece. Não se pode afirmar que os profetas a tiraram daqui; a convenção pode ser anterior a todos eles. O que se pode afirmar é que o cântico já fala a língua com que Israel descreveria, por séculos, o efeito de uma notícia terrível.
3. Análise Teológica do Versículo
"Os povos ouviram"
Dois versículos antes do cântico, o texto insiste num verbo: "Israel viu os egípcios mortos na praia do mar", "Israel viu a grande mão" (Êxodo 14:30-31). Aqui o verbo é outro. Os povos não viram nada; ouviram. O cântico separa as duas plateias do mar: uma testemunha e uma que recebe o relato. Tudo o que se diz das nações daqui até o versículo 16 acontece a quem só tem notícia.
Que povos? O verso não os nomeia na primeira linha, e os comentaristas preencheram a lacuna de modos diferentes. Para Ibn Ezra (rabino espanhol do século XII), são "os que estão ao redor deles e também aqueles por cujas terras passarão". Para Rashbam (rabino francês do século XII), todos os que vêm a seguir são "vizinhos da terra de Israel". A Mekhilta (o comentário rabínico antigo ao Êxodo) dá duas respostas para o que eles ouviram: que Faraó e o seu exército se perderam no mar e que o domínio do Egito acabou; ou que Deus erguia Israel e o levava para a terra. A primeira resposta põe o medo no passado imediato; a segunda já o põe no futuro, e por isso a Mekhilta lê o verso no tempo da conquista.
"e tremeram"
O verbo descreve um movimento que não se controla, e o seu campo vai do tremor de medo à agitação de raiva. As traduções antigas se dividiram exatamente aí.
Primeira leitura: tremeram de medo. É a do Targum de Ônquelos (a tradução aramaica lida nas sinagogas), que escreve "estremeceram", e a de Rashi (rabino francês do século XI, o comentarista judaico mais lido), que glosa "eles se agitam" e lê no presente. É a leitura das traduções em português, e é a que combina com as "dores de parto" da segunda linha.
Segunda leitura: enfureceram-se. É a da Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria no século III a.C.): "ouviram as nações e se iraram". E é, de modo surpreendente, a da Mekhilta, que põe Deus falando com os povos: "Tolos do mundo! Quantos reis reinaram entre vocês, e Israel não se irritou", e cita os reis de Edom de Gênesis 36:31; "e agora vocês se irritam? Também eu lhes darei uma irritação que não lhes agrada" — e prova com o Salmo 99:1, "o SENHOR reina; tremam os povos", onde o mesmo verbo vem ao lado de "povos". Por essa leitura, a notícia não paralisa as nações; ela as indispõe contra Israel.
O resto da Torá dá argumentos às duas. O primeiro povo que Israel encontra depois do cântico não treme: Amaleque vem e ataca em Refidim (Êxodo 17:8). Edom sai ao encontro com gente armada (Números 20:20). E Moabe, em Números 22:3, faz as duas coisas ao mesmo tempo — "teve muito medo" e "sentiu horror" dos filhos de Israel —, e a reação dele é contratar Balaão para amaldiçoar o povo. Medo e hostilidade, na prática, vieram juntos. O verbo hebraico, que cobre os dois, talvez descreva melhor o que aconteceu do que qualquer tradução que escolha um só. O campo inteiro da palavra está no estudo de Gênesis 45:24.
"dores de parto tomaram"
A palavra hebraica é específica: designa a contorção da mulher em trabalho de parto. Aqui ela aparece sozinha, sem a comparação "como de parturiente" que os profetas acrescentarão — a palavra já carregava a imagem.
O que a imagem diz? Quatro coisas, todas físicas. A dor do parto vem de repente. Vem em ondas, que não se controlam. Uma vez começada, não pode ser interrompida nem adiada. E quem a sofre não tem para onde fugir, porque ela está dentro do próprio corpo. Aplicada a um povo, a imagem descreve um medo que não depende de decisão: ninguém escolhe ter dores de parto.
Os profetas usaram a imagem para os dois lados. Isaías 13:8 e Jeremias 50:43 a aplicam à Babilônia; Jeremias 6:24 e Miqueias 4:9, a Jerusalém. E Isaías 23:5 põe o verbo das dores ao lado da palavra "notícia" e do nome do Egito na mesma frase: "quando a notícia chegar ao Egito, eles se contorcerão com a notícia de Tiro". A frase é disputada — não se sabe ao certo quem se contorce —, mas o par "ouvir a notícia" e "contorcer-se" é o mesmo deste versículo.
Há quem leia mais longe. Em Miqueias 4:10 as dores de Sião terminam em resgate ("lá o SENHOR a resgatará"), e é uma leitura possível dizer que, no cântico, as dores são dos vizinhos e o nascimento é de Israel, que acabou de sair das águas como povo. O texto não diz isso, e a imagem não exige isso; fica como sugestão, sem apoio além da própria metáfora. O Targum de Ônquelos, por sua vez, apagou a imagem: em lugar de dores de parto escreveu simplesmente "terror". O tradutor aramaico preferiu o sentido à figura.
"os que habitam a Filístia"
De todos os vizinhos, o primeiro nomeado é o da costa. A escolha tem uma ironia que o próprio Êxodo preparou. Em Êxodo 13:17, Deus não conduziu o povo "pelo caminho da terra dos filisteus, embora fosse mais perto", para que o povo não visse guerra e voltasse ao Egito. O povo cuja estrada Israel evitou por medo é o primeiro a ser cantado tremendo de medo de Israel.
Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) dá a razão geográfica: os filisteus seriam "os primeiros a esperar uma invasão", porque a sua faixa de terra ficava no caminho natural do Egito para Canaã. A Mekhilta e Rashi dão uma razão de culpa: os filisteus de Gate tinham matado homens da tribo de Efraim que, segundo a lenda, saíram do Egito antes da hora (1 Crônicas 7:21), e agora temiam a vingança. A lenda é tardia e não tem apoio no texto do cântico; registra como os rabinos explicaram o lugar dos filisteus no topo da lista.
O verbo desta linha, "tomaram", pede o versículo anterior ao lado. Em Êxodo 15:13, quem segura o povo é Deus, que o conduz e o guia. Aqui, quem segura os vizinhos é a dor: ela é o sujeito, e eles são o objeto. O mesmo verbo voltará no versículo 15 ("dos poderosos de Moabe apoderou-se o tremor"). Na segunda metade do cântico, Israel é levado pela mão de Deus, e as nações são agarradas pelo medo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os povos
Anônimos na primeira linha, nomeados nas seguintes: Filístia (aqui), Edom, Moabe e Canaã (Êxodo 15:15). Juntos, desenham um cerco em volta da terra prometida — a costa a oeste, os planaltos a sudeste e a leste, e o miolo. Nenhum deles é o Egito: o cântico já não fala do inimigo derrotado, e sim dos que estão no caminho.
Os habitantes da Filístia
A faixa costeira do sul de Canaã, de Gaza para o norte, onde a Bíblia situa as cinco cidades filisteias — Gaza, Asquelom, Asdode, Ecrom e Gate. Os filisteus que a arqueologia conhece se instalam nessa costa por volta de 1175 a.C., depois de qualquer data proposta para o êxodo — o mesmo anacronismo das histórias de Abraão e Isaque em Gerar, discutido no estudo de Gênesis 21:32.
O acontecimento
Uma notícia correndo: a destruição do exército de Faraó, espalhando-se pelas rotas que ligavam o Egito a Canaã e aos planaltos do outro lado do Jordão. O versículo não descreve nenhuma cena; descreve o efeito, à distância, de uma cena que os povos não viram.
5. Pontos de Ensino
Testemunha e plateia não são a mesma coisa. Israel viu; os povos ouviram. O cântico distingue quem esteve no acontecimento de quem recebeu o relato dele — e é de quem viu que o texto diz que creu (Êxodo 14:31). A quem só ouviu, o versículo atribui medo.
A notícia age antes do exército. Nenhum soldado de Israel saiu do lugar, e os vizinhos já tremem. O versículo descreve uma força que não depende de batalha: a reputação.
O cântico inverte a direção do medo. Até o mar, quem tremia era Israel (Êxodo 14:10). A partir do mar, quem treme são os outros. A inversão não é psicológica: é atribuída a uma notícia sobre o que Deus fez.
6. Aspectos Filosóficos
A notícia, a imagem na cabeça e o mundo real: Walter Lippmann
O livro Opinião pública (1922), do jornalista e pensador político norte-americano Walter Lippmann (1889-1974), começa com uma ilha. Em 1914, numa ilha do oceano sem cabo telegráfico, viviam alguns ingleses, franceses e alemães. O navio do correio britânico passava uma vez a cada sessenta dias. Em meados de setembro, os moradores foram ao cais ansiosos por saber o desfecho de um julgamento em Paris, e souberam outra coisa: que havia seis semanas os ingleses e os franceses da ilha estavam em guerra com os alemães da ilha. "Durante seis semanas estranhas eles agiram como se fossem amigos, quando na verdade eram inimigos."
Lippmann tira dali a tese do livro. Entre cada pessoa e o mundo há um "pseudoambiente" — as imagens que temos na cabeça, montadas com relatos, estereótipos, boatos e interesse próprio. É a essas imagens que reagimos, e não ao mundo. Mas, diz ele, como a reação é comportamento, as suas consequências não ficam no pseudoambiente: elas acontecem no mundo real. E mais adiante, no mesmo livro, uma distinção que ficou famosa: "notícia e verdade não são a mesma coisa"; a função da notícia é assinalar um acontecimento, a da verdade é trazer à luz os fatos escondidos e relacioná-los entre si.
O versículo é um caso nítido do que Lippmann descreve. Os povos não viram o mar. Reagem a uma imagem do mar, que chegou a eles por relato. O que os faz tremer não é a coluna de nuvem, nem a água, nem os carros afundados — é o que se conta disso. E o efeito, como diz Lippmann, acontece no mundo real: o versículo seguinte e o 16 esperam que esse medo abra passagem a Israel sem guerra.
A tese de Lippmann permite ver uma segunda coisa, menos óbvia. O próprio cântico também é uma imagem na cabeça. Quem canta, na praia, não está vendo os filisteus tremerem nem os moabitas se apavorarem; está imaginando o efeito da notícia sobre gente que mora a centenas de quilômetros. O versículo é, ele mesmo, uma previsão sobre a opinião pública dos vizinhos. E a previsão, medida pelo que a Torá conta depois, acertou em parte: Moabe teve medo (Números 22:3); Amaleque e Edom não se comportaram como quem treme. Lippmann diria que entre o mar e os povos houve dois pseudoambientes — o dos povos sobre Israel, e o de Israel sobre os povos — e que nenhum dos dois coincidia inteiramente com o mundo.
Há também um ponto em que o versículo vai além de Lippmann. Para o jornalista, o problema da notícia é a distorção: a imagem é sempre simplificada e quase sempre interessada. O cântico não se preocupa com isso. Para ele, a notícia não é uma versão empobrecida do fato; é a continuação do fato. O que Deus fez no mar não termina na praia: segue viajando como relato e produz efeitos onde o mar nunca chegou. É a mesma ideia de Êxodo 9:16 — "para que o meu nome seja anunciado em toda a terra" —, em que o relato é parte do propósito, e não um subproduto.
O limite da comparação precisa ser dito. Lippmann escrevia sobre democracias de massa, jornais, propaganda de guerra e eleitores que precisam opinar sobre um mundo grande demais para ser visto. O mundo do cântico é de reis, mensageiros e caravanas. O que sobrevive à diferença de escala é a estrutura: quem age a partir de uma notícia age sobre uma imagem, e paga no mundo real o preço de a imagem estar certa ou errada.
7. Aplicações Práticas
Antes de tremer, perguntar o que se ouviu. O versículo descreve povos inteiros tomados de pânico por um relato. A reação é compreensível, e o resto da Bíblia mostra que ela produziu tanto paralisia quanto hostilidade. Para quem vive cercado de notícias que chegam mais depressa do que qualquer navio de Ugarite, a lição prática é a do rei que escrevia "se de fato": separar o que aconteceu do que se conta que aconteceu, antes de reagir.
A reputação chega antes da pessoa. Israel ainda estava na praia, e a sua história já corria. Grupos e pessoas também carregam uma notícia que os precede, e ela abre ou fecha portas antes de qualquer encontro. O versículo não ensina a fabricar essa notícia; registra que ela existe e que pesa.
Não se alegrar com as dores alheias. O cântico canta o medo dos vizinhos como parte da vitória. Outros textos da Bíblia puseram limite a esse tipo de alegria: "não se alegre quando o seu inimigo cair" (Provérbios 24:17). Quem usa o versículo na própria vida pode cantar a libertação sem precisar cantar o pavor de ninguém.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Há algum registro, fora da Bíblia, de que os vizinhos de Canaã souberam do que aconteceu no mar?
Não. Nenhum texto egípcio, cananeu ou filisteu conhecido menciona o episódio. O silêncio não prova que o acontecimento não houve — os arquivos da época são lacunares, e reis raramente registram derrotas —, mas significa que o medo dos povos é conhecido só pela Bíblia, e em textos que contam a história do lado de Israel.
Por que o verso nomeia a Filístia, e não o Egito, que foi quem perdeu o exército?
Porque o cântico, a partir do versículo 13, olha para a frente. O Egito saiu de cena no mar. Quem importa agora são os povos que estão entre Israel e a terra, e a Filístia é o primeiro deles na estrada mais curta — a que Êxodo 13:17 mandou evitar.
O tremor dos povos é um ato de Deus ou um efeito natural da notícia?
Este versículo não diz. Nele o medo nasce do ouvir, sem nenhum agente divino nomeado. O versículo 16 pedirá que o espanto "caia" sobre eles "pela grandeza do teu braço", e aí a causa é atribuída a Deus. As duas descrições convivem no mesmo cântico sem que o texto as harmonize.
Israel deveria se alegrar com o pavor dos vizinhos?
O cântico se alegra, e não se desculpa por isso. Mas a mesma tradição registra o desconforto: a Torá manda não abominar o edomita nem o egípcio (Deuteronômio 23:7), e Provérbios 24:17-18 proíbe festejar a queda do inimigo. O versículo é um canto de guerra, com a moral de um canto de guerra; não é a última palavra da Bíblia sobre os vizinhos.
Por que a imagem é a do parto, e não a da morte ou a da fuga?
Ninguém sabe ao certo. Uma possibilidade é a mais simples: era a dor mais intensa e mais conhecida da vida comum, presenciada em toda casa. Outra é que a imagem guarda a ideia de algo que está para acontecer e já não pode ser impedido. O texto não explica a escolha, e as duas razões são compatíveis.
9. Conexão com Outros Textos
As mesmas palavras, quarenta anos depois
Deuteronômio 2:25 — "Hoje começarei a pôr o pavor e o temor de você sobre os povos que estão debaixo de todo o céu; eles ouvirão a notícia a seu respeito, tremerão e se contorcerão diante de você."
Quatro palavras deste versículo reaparecem juntas: povos, ouvir, tremer e contorcer-se de dor — mais o "pavor" de Êxodo 15:16. O que o cântico canta na praia, o Deuteronômio põe na boca de Deus às portas da terra, e no futuro. É o paralelo mais próximo do versículo em toda a Bíblia.
A fórmula da má notícia nos profetas
Jeremias 6:24 — "Ouvimos a notícia: as nossas mãos afrouxaram, a angústia se apoderou de nós, dores como de mulher que dá à luz."
A cadeia completa descrita no item 2, aplicada a Jerusalém. Aqui são os de dentro que tremem.
Jeremias 50:43 — "O rei da Babilônia ouviu a notícia deles, e as suas mãos afrouxaram; a angústia se apoderou dele, dores como de mulher que dá à luz."
A mesma frase, quase palavra por palavra, aplicada ao maior império da época de Jeremias. A fórmula não tem dono: serve a quem estiver do lado que recebe a notícia.
Isaías 13:8 — "Ficarão apavorados; dores e angústias se apoderarão deles; contorcer-se-ão como a mulher que dá à luz."
O oráculo contra a Babilônia junta o verbo de "apavorar" de Êxodo 15:15 com as dores de parto deste versículo.
Miqueias 4:9-10 — "Por que você grita tanto? Não há rei em você? (...) Contorça-se e grite, filha de Sião, como a que dá à luz; (...) lá você será resgatada; lá o SENHOR a resgatará da mão dos seus inimigos."
O único lugar em que as dores de parto terminam em resgate — com o mesmo verbo de "o povo que resgataste" (Êxodo 15:13).
Reis que veem e tremem
Salmo 48:5-6 — "Eles viram, e ficaram pasmos; ficaram apavorados e fugiram às pressas. Ali o tremor se apoderou deles, dores como de mulher que dá à luz."
O salmo de Sião reúne num só lugar o vocabulário dos versículos 14 e 15 do cântico: o apavorar, o tremor que "se apodera" e as dores de parto. A diferença é o verbo de partida: aqui os reis veem a cidade; no cântico, os povos apenas ouvem.
Salmo 99:1 — "O SENHOR reina; tremam os povos."
O par "povos" e "tremer", ao lado do reinado de Deus — o assunto com que o cântico termina (Êxodo 15:18). É o versículo que a Mekhilta usa para ler o tremor como irritação.
Os tremores de Habacuque
Habacuque 3:7 — "Vi as tendas de Cusã em aflição; tremiam as cortinas da terra de Midiã."
O mesmo verbo de "tremeram", num poema que também canta Deus vindo do sul e o mar dividido (Habacuque 3:8-15). Muitos estudiosos tratam Habacuque 3 e Êxodo 15 como poemas do mesmo gênero.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Os povos ouviram e tremeram; dores de parto tomaram os que habitam a Filístia.
Texto hebraico
שָׁמְעוּ עַמִּים יִרְגָּזוּן חִיל אָחַז יֹשְׁבֵי פְּלָשֶׁת׃
Transliteração
shame'ú ammím yirgazún; chil achaz yoshvéi Pelásheth.
Análise palavra por palavra
שָׁמְעוּ — shame'ú, "ouviram".
Raiz shama, ouvir, no Qal (a forma simples do verbo hebraico), perfeito, terceira pessoa do plural. O verbo abre o versículo, antes do sujeito — a ordem normal da frase hebraica, que aqui põe o ouvir em primeiro plano. É o primeiro elo da fórmula da má notícia descrita no item 2. O substantivo da mesma raiz, shema ou shoma, "notícia", "fama", é o que aparece em Jeremias 6:24 e 50:43 ("ouvimos a notícia") e em Deuteronômio 2:25.
עַמִּים — ammím, "povos".
Plural de am, povo, sem artigo: "povos", não "os povos". No cântico, a palavra no singular é reservada a Israel — "o povo que resgataste" (Êxodo 15:13), "o teu povo" (Êxodo 15:16). O plural indefinido marca os outros. A Septuaginta escolheu éthnē, "nações", a palavra grega que depois designaria os não judeus em geral.
יִרְגָּזוּן — yirgazún, "tremeram" (ou "tremem").
Raiz ragaz, no Qal, imperfeito, terceira pessoa do masculino plural, com uma terminação em -un no lugar do -u comum. Essa terminação longa é rara e aparece sobretudo em poesia e em textos de sabor antigo; os gramáticos a tratam como forma enfática ou arcaica. O imperfeito, ao lado do perfeito "ouviram", é um dos exemplos da alternância de formas verbais que o cântico pratica nesta segunda metade; o que essa alternância faz com o tempo dos versículos 13 a 17 é o problema tratado no estudo de Êxodo 15:13. A Septuaginta traduziu ōrgísthēsan, "iraram-se"; o Targum de Ônquelos, zau, "estremeceram".
חִיל — chil, "dores de parto".
Substantivo da raiz chul, contorcer-se, girar, retorcer-se de dor. O verbo da mesma raiz descreve o trabalho de parto (Isaías 26:17-18; 66:7-8) e, por extensão, qualquer contorção de angústia. O substantivo é raro — cerca de meia dúzia de ocorrências —, e na maioria delas vem acompanhado de ka-yoledah, "como a que dá à luz" (Jeremias 6:24; 50:43; Miqueias 4:9; Salmo 48:6). Aqui ele aparece sem a comparação, o que mostra que a palavra sozinha já evocava o parto. A Septuaginta manteve a imagem com ōdînes, a palavra grega para as dores do parto; Ônquelos a substituiu por dachala, "temor".
אָחַז — achaz, "tomou", "agarrou".
Raiz achaz, segurar, agarrar, apoderar-se, no Qal, perfeito, terceira pessoa do singular — concordando com "dores", que é o sujeito. O verbo é concreto: em Gênesis 25:26 Jacó nasce "segurando" o calcanhar de Esaú. Volta no versículo seguinte, yochazémo ra'ad, "o tremor apoderou-se deles", e no Salmo 48:6, "ali o tremor se apoderou deles".
יֹשְׁבֵי — yoshvéi, "os que habitam".
Particípio do Qal de yashav, sentar-se, morar, na forma de ligação plural: "os moradores de". A mesma expressão volta no versículo 15, "todos os que habitam Canaã". O Targum de Ônquelos acrescentou um verbo de passado: "os que habitavam na Filístia" — e repete a forma no versículo seguinte, como se, para o tradutor, aqueles moradores já pertencessem a outro tempo.
פְּלָשֶׁת — Pelásheth, "Filístia".
O nome da terra, e não do povo. O resto da Torá diz "terra dos filisteus" (erets Pelishtim, como em Êxodo 13:17); a forma Peleshet aparece aqui pela primeira vez na ordem dos livros, e depois só em textos poéticos e proféticos (Isaías 14:29, 14:31; Joel 3:4; Salmos 60:8, 83:7, 87:4, 108:9). Ibn Ezra anota que é abreviação de "terra da Filístia", e que a palavra "habitantes" o mostra. A Septuaginta traduziu pelo nome do povo, "Filisteus". Do grego desse nome, por via romana, vem a palavra "Palestina".
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: o cântico entende que a vitória do mar não terminou na praia. Ela continua como notícia, e a notícia faz o que o exército de Israel não fez — chega aos vizinhos e os abala. Na lógica do poema, ser ouvido é a segunda parte do milagre.
A segunda: o efeito dessa notícia não foi o que um leitor apressado espera. O verbo hebraico guarda juntos o medo e a irritação, e a própria Torá conta as duas reações. O versículo não promete inimigos paralisados; descreve povos abalados, o que inclui povos abalados que atacam.
A terceira: o versículo inaugura uma língua. A sequência "ouvir a notícia e ser tomado de dores de parto" voltará nos profetas, aplicada a Jerusalém, à Babilônia e a quem estivesse do lado que recebe a má notícia. Israel aprendeu a descrever o pavor dos outros no mesmo vocabulário com que, séculos depois, descreveria o seu.













