Cai sobre eles espanto e pavor; pela grandeza do teu braço ficam mudos como pedra, até que passe o teu povo, SENHOR, até que passe o povo que adquiriste.
1. Introdução
No dia anterior, era Israel que tremia diante do exército que se aproximava. Agora o cântico pede o contrário: que o pavor caia sobre os vizinhos e os deixe imóveis e calados como pedra enquanto o povo atravessa. O versículo não pede vitória sobre eles, pede passagem, e diz duas vezes "até que passe" sem dizer o que se vai atravessar — um rio, uma fronteira, uma terra inteira. A Bíblia guardou também a resposta de Edom quando Israel pediu, de fato, para passar: "Você não passará". E o verso termina chamando Israel de "o povo que adquiriste", com um verbo que vem do mercado.
2. Contexto Histórico e Cultural
Atravessar a terra dos outros
Ninguém, no mundo antigo, atravessava o território de outro rei por direito. Estradas havia; fronteiras guardadas por fortins e vaus vigiados também. Quem passava precisava de licença, de proteção e de comida pelo caminho — e quem não tinha nenhuma das três passava escondido ou passava lutando. O cântico de Israel pede uma passagem, e é útil saber como uma passagem se pedia.
Uma carta para os reis de Canaã
Entre as tábuas de argila achadas em Amarna, no Egito (o arquivo de cartas diplomáticas dos faraós do século XIV a.C.), há uma que não se dirige a ninguém em particular. É a que os estudiosos numeram como EA 30. O remetente é um rei de Mitani, o reino do norte da Síria — provavelmente Tushratta, que trocava presentes e princesas com o faraó. O destinatário são "os reis de Canaã, servos do meu irmão". O conteúdo, na tradução de William Moran (assiriólogo norte-americano, editor de referência das cartas de Amarna): o rei envia o seu mensageiro Akiya ao rei do Egito; ninguém o detenha; deem-lhe entrada segura no Egito e o entreguem ao comandante da fortaleza da fronteira; e que ele não pague nada pelo que leva.
É, na prática, um salvo-conduto. O mensageiro carregava a tábua e a mostrava a cada pequeno rei cuja terra cruzava. A carta pressupõe três coisas: que os reis locais podiam deter quem passasse; que podiam cobrar sobre a carga; e que só uma autoridade mais alta, invocada por escrito, os obrigava a deixar ir.
De província em província, até chegar ao Egito
Oito séculos depois, o mesmo problema tinha a mesma solução. Num conjunto de cartas em aramaico escritas em couro, hoje na Biblioteca Bodleiana, em Oxford, está uma do príncipe persa Arshama, governador do Egito no século V a.C. Os estudiosos a catalogam como TAD A6.9. Arshama manda que os funcionários de uma série de províncias, na Mesopotâmia e na Síria, forneçam ração diária ao seu administrador Nakhthor e à sua comitiva, com a quantidade de farinha marcada por pessoa. E fixa a regra: cada funcionário dê a ração por sua vez, "segundo o caminho que vai de província a província, até que ele chegue ao Egito".
O livro de Neemias descreve o mesmo instrumento visto do lado de quem pedia. O copeiro judeu pede ao rei da Pérsia "cartas para os governadores do outro lado do Rio, para que me deixem passar até que eu chegue a Judá" (Neemias 2:7). O verbo hebraico de "deixar passar" é o deste versículo, e a construção é a mesma: passar até. Neemias levou cartas e uma escolta de cavaleiros (Neemias 2:9).
O que o cântico imagina no lugar da carta
Posta ao lado desses documentos, a frase do cântico ganha relevo. Israel não tem carta de nenhum rei, não tem escolta, não tem quem pague a ração; é uma multidão a pé. O cântico não pede salvo-conduto a ninguém. Pede que os donos da terra fiquem paralisados — e a paralisia faz o papel da autoridade que a carta invocava. Onde Arshama escrevia "de província a província, até que ele chegue", o poema diz "fiquem mudos como pedra, até que passe".
Quando Israel fez o pedido do modo normal, a Edom, a negociação seguiu a forma conhecida — estrada principal, nada de desviar para os campos, água paga —; o pano de fundo dessa estrada e do pedágio que ela rendia está no estudo de Gênesis 36:8. E o vau tinha valor militar próprio: quando Eúde venceu Moabe, os homens de Israel "tomaram os vaus do Jordão contra Moabe e não deixaram ninguém passar" (Juízes 3:28). Controlar uma travessia era controlar a guerra. É por isso que Sforno (Obadia Sforno, comentarista italiano do século XVI) lê no verso um pedido militar preciso: que os povos não ataquem enquanto o povo cruza os rios, porque é na travessia de um rio que um exército está mais exposto.
3. Análise Teológica do Versículo
"Cai sobre eles espanto e pavor"
Vinte e quatro horas antes, quem tinha medo era Israel: "tiveram muito medo" (Êxodo 14:10), e Moisés respondeu com duas ordens — não tenham medo, e "vocês ficarão calados" (Êxodo 14:13-14). O cântico devolve as duas coisas, trocadas de lugar. O medo agora cai sobre os outros, e são os outros que ficam calados. O verso não inventa um pavor novo; transfere para os povos do caminho o que Israel sentiu na praia.
Quem são "eles"? O versículo anterior terminou nos habitantes de Canaã. Ibn Ezra (rabino espanhol do século XII) discorda, e o argumento dele é o fim do próprio verso: "até que passe o teu povo". Israel passou ao lado de Edom e de Moabe antes de chegar a Canaã; logo, o pavor é desejado para os povos que o povo teria de cruzar, e não para os que teria de enfrentar. Ramban (rabino catalão do século XIII, também chamado Nachmânides) aceita a leitura e deixa aberta a hipótese de os cananeus também terem sido contidos até a travessia do Jordão. A pergunta não é de detalhe: se "eles" são Edom e Moabe, o verso pede passagem pacífica; se são os cananeus, pede uma guerra ganha antes de começar.
A Mekhilta de Rabi Ismael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo), seguida por Rashi (rabino francês do século XI), separa as duas palavras: o espanto cai sobre os de longe, o pavor sobre os de perto. A distinção é engenhosa, e percebe algo real: o cântico imagina um medo que se espalha em círculos. Se a frase é descrição ("cai") ou pedido ("caia"), a Septuaginta e a Vulgata escolheram o pedido, e a ABC fica no presente, que não decide; a questão das formas verbais de todo este trecho está no estudo de Êxodo 15:13.
"pela grandeza do teu braço"
Até aqui o cântico falou da "direita" de Deus (Êxodo 15:6, 15:12). Agora fala do braço, a palavra da promessa de Êxodo 6:6, "com braço estendido". O que paralisa os vizinhos não é a presença de Israel, que não tem exército; é a notícia do braço que agiu no mar.
"ficam mudos como pedra"
O verbo junta duas ideias que o português separa: calar e parar. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa, aqui no volume de S. R. Driver) traduz pelas duas ao mesmo tempo, "imóveis e calados de medo". As versões antigas escolheram cada uma um lado, e a Septuaginta foi além de ambas: "que eles se petrifiquem".
A Mekhilta não leu metáfora; procurou os episódios em que a frase se cumpriu, e achou três. Depois do mar, Amaleque reuniu os povos contra Israel; Moisés orou, e todos ficaram como pedra. Quando os espiões de Josué entraram em Jericó, quem dizia "estes são espiões israelitas" ficava petrificado. Depois do Jordão, os reis de Canaã se juntaram contra Israel (Josué 11:1-5); Josué orou, e eles ficaram como pedra.
Dois dos três exemplos têm um problema: Amaleque atacou de fato (Êxodo 17:8), e os reis de Josué 11 lutaram e perderam junto às águas de Merom. Para achar o cumprimento, a Mekhilta pôs a pedra antes do combate, e não no lugar dele. É uma pista honesta do que o próprio texto bíblico mostra: os povos do caminho nem sempre ficaram imóveis.
"até que passe o teu povo, SENHOR, até que passe o povo que adquiriste"
A frase se repete com uma única troca no fim. Passar o quê? Os leitores deram quatro respostas.
Primeira: dois rios, o Arnom e o Jordão. É a do Targum de Ônquelos (a tradução aramaica lida nas sinagogas), que põe os nomes dentro da tradução: "até que o teu povo atravesse o Arnom... até que atravesse o Jordão". Rashi manda ler "como o Targum". O Arnom marcava a fronteira de Moabe (Números 21:13); o Jordão é a entrada de Canaã. Cada repetição vira uma travessia. Rashbam (rabino francês do século XII, neto de Rashi) troca o primeiro rio pelo mar: a passagem que acabou de acontecer e a que falta.
Segunda: as terras de Edom e de Moabe. É a de Ibn Ezra, coerente com a leitura dele sobre "eles": passar é contornar aqueles territórios, e a repetição se explica pela geografia, porque Israel "rodeou o monte Seir por muitos dias" (Deuteronômio 2:1). A Cambridge Bible concorda: são os povos "através dos quais passaram a caminho de Canaã".
Terceira: só o Jordão. É a de Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII), para quem a repetição é só ênfase.
Quarta: duas entradas na terra, separadas por muitos séculos. É a do Talmude da Babilônia, em Berakhot 4a. "Até que passe o teu povo" é a entrada de Josué; "até que passe o povo que adquiriste" é a volta do exílio da Babilônia, no tempo de Esdras. E o Talmude tira disso uma conclusão inquietante: Israel merecia no tempo de Esdras um milagre igual ao de Josué, mas "o pecado o impediu". A segunda volta foi feita com cartas de um rei persa, e não com águas abertas. A leitura faz da repetição uma promessa cumprida pela metade.
Nenhuma é imposta pelo hebraico. A segunda é a que melhor respeita o contexto imediato; a primeira é a que a tradição mais seguiu; a quarta é a mais ousada.
"Você não passará"
Se a segunda leitura estiver certa, o verso tem uma continuação amarga, em Números 20:14-21. Israel pede ao rei de Edom, com o mesmo verbo do cântico: "deixe-nos passar pela sua terra", e promete seguir pela estrada principal "até passarmos o seu território". Edom responde com o mesmo verbo: "Você não passará por mim". Israel insiste; Edom repete "Você não passará" e sai ao encontro deles com muita gente. E o texto fecha: "Edom recusou deixar Israel passar pelo seu território, e Israel se desviou dele" (Números 20:21). Em cinco versículos, o verbo que o cântico pediu duas vezes aparece sete vezes — e perde.
A Bíblia não tem uma versão só dessa recusa. Juízes 11:17-18, no discurso de Jefté, confirma Números e acrescenta Moabe: os dois reis negaram passagem, e Israel deu a volta pelo deserto. Mas Deuteronômio 2:28-29 põe na boca de Moisés outra lembrança: deixe-nos passar, "como fizeram comigo os filhos de Esaú, que habitam em Seir, e os moabitas". Nessa versão, Edom e Moabe deixaram passar e venderam comida, e Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) usa o Deuteronômio para dizer que o pavor do cântico se cumpriu. O cântico, lido ao lado dos três livros, fica entre uma previsão confirmada e uma previsão desmentida, e o texto bíblico não escolhe.
"o povo que adquiriste"
A segunda linha troca "o teu povo" por "o povo que adquiriste", e a troca diz por que esse povo tem direito de passar: ele pertence a alguém. Rashi pensa em afeto: o povo que Deus estimou "como o objeto comprado a preço alto, que é querido por quem o comprou". Ibn Ezra pensa em troca de dono: "eram escravos no Egito, e tu os adquiriste para serem teus servos". É a lógica que a lei vai tirar disso em Levítico 25:42: os israelitas "são meus servos, que eu tirei da terra do Egito; não serão vendidos como se vende escravo". Quem já tem dono não pode ser vendido a outro.
O verso não se envergonha da palavra comercial. O povo que acabou de sair de uma casa de escravos é chamado, no mesmo cântico, de propriedade. A diferença que o texto sustenta está no dono, e não na ausência de dono: pertencer a esse Senhor é a garantia de não pertencer a mais nenhum.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O SENHOR
Chamado pelo nome no meio da frase. É dele o braço que causa o pavor, e é ele o dono do povo que passa.
"Eles"
Os povos dos dois versículos anteriores: os moradores da Filístia, os chefes de Edom, os poderosos de Moabe e os habitantes de Canaã (Êxodo 15:14-15). Para Ibn Ezra, o verso pensa só em Edom e Moabe, os povos que Israel teria de contornar; para outros, em todos eles.
O povo
Aparece duas vezes, sempre como quem passa. Não luta, não negocia, não fala. É o único sujeito humano do verso que se move.
Os lugares que o verso não nomeia
O Arnom, rio que corre num cânion profundo até o mar Morto, pelo lado leste, e que a Bíblia dá como fronteira entre Moabe e os amorreus (Números 21:13; Juízes 11:18). O Jordão, atravessado diante de Jericó em Josué 3-4. O monte Seir, a serra de Edom, que Israel "rodeou por muitos dias" (Deuteronômio 2:1).
Os acontecimentos que o verso antecipa
O pedido de passagem a Edom e a recusa (Números 20:14-21). O pedido a Seom, rei dos amorreus, também recusado, e a primeira batalha de Israel por terra (Números 21:21-24). A versão do Deuteronômio, em que Edom e Moabe deixam passar e vendem comida (Deuteronômio 2:28-29). E a travessia do Jordão, em que as águas param "até que todo o povo acabou de passar" (Josué 3:17).
5. Pontos de Ensino
O medo muda de lado. Em Êxodo 14:10-14 Israel tem medo e recebe a ordem de ficar calado. No cântico, são os outros que têm medo e emudecem. O verso descreve a libertação como uma troca de posição dentro da mesma cena: quem tremia passa, quem fazia tremer fica parado.
O pedido é passar, não vencer. O versículo não deseja a destruição dos povos do caminho. Deseja que fiquem quietos por um tempo determinado — "até que" —, e o tempo acaba quando o povo atravessa. É um dos poucos lugares do cântico em que o inimigo não morre.
A pedra fecha a estrofe. O cântico termina a sua última estrofe com a mesma comparação com que terminou a primeira, mas aplicada a gente viva: os egípcios desceram "como pedra"; os vizinhos ficam "como pedra" sem descer a lugar nenhum. A arquitetura das três estrofes e das suas imagens de peso está no estudo de Êxodo 15:5.
Ser de alguém é a credencial. O povo não tem carta de rei nem escolta. O que o verso apresenta no lugar disso é o dono: "o povo que adquiriste".
A Bíblia confere o próprio cântico. O que aqui é desejo, Números, Juízes e Deuteronômio contam como história — e contam de modos diferentes. O texto sagrado guardou a previsão e as versões que a confirmam e a desmentem, lado a lado.
6. Aspectos Filosóficos
O limiar: Victor Turner
Em 1909, o etnógrafo francês Arnold van Gennep publicou Les rites de passage ("Os ritos de passagem"). A tese era simples e ficou: os ritos que acompanham as mudanças de estado — nascer, casar, entrar na idade adulta, morrer, assumir um cargo — têm quase sempre três tempos. Primeiro a separação, em que a pessoa é tirada da condição anterior. Depois a margem, um intervalo em que ela já não é o que era e ainda não é o que vai ser. Por fim a agregação, em que ela é reinstalada num lugar novo. Van Gennep chamou o tempo do meio de liminar, do latim limen, "soleira".
O antropólogo escocês Victor Turner (1920-1983), que estudou durante anos os rituais dos ndembu, na atual Zâmbia, fez desse tempo do meio o centro da sua obra. No ensaio "Betwixt and Between" ("Nem lá nem cá", 1964) e no livro O processo ritual (1969), ele descreveu as pessoas liminares como "nem aqui nem ali": estão entre as posições que a lei, o costume e a convenção atribuem. Por isso, nos ritos, elas costumam ser tratadas como invisíveis, despidas de nome e de posto, sem propriedade, obedientes e silenciosas. E nesse estado sem estrutura nasce entre elas um laço que Turner chamou de communitas (palavra latina para "comunidade", usada por ele para o vínculo direto entre iguais que não têm posição social nenhuma), oposto à sociedade organizada em cargos e hierarquias.
Um versículo de soleira
O cântico tem a forma de um rito de passagem quase perfeito. A separação é o mar: o Egito ficou do outro lado e afundou. A agregação vem no versículo seguinte: o povo levado e "plantado" no monte, um lugar fixo, com santuário. Este versículo fica entre os dois. É o verso do "até que", e a palavra "até" descreve exatamente o intervalo de Van Gennep: um tempo que tem fim marcado, mas que ainda não acabou.
O povo do verso tem os traços liminares que Turner descreve. Não tem terra, não tem rei, não tem lei ainda — o Sinai vem depois. Não tem nome próprio no versículo: é "o teu povo", "o povo que adquiriste", definido só por quem o possui. Não fala nem age, a não ser passar.
A inversão
O verso, porém, faz uma coisa que os ritos estudados por Turner não fazem. Nos ritos, quem fica em silêncio e imóvel é o iniciado, o que está na soleira. Aqui, quem emudece e não se move são os de fora — os povos estabelecidos, com chefes, poderosos e territórios. A sociedade organizada é que é congelada, e o grupo sem estrutura é que se move. Turner conhecia inversões assim — escreveu sobre os ritos em que os fracos exercem por um momento o poder dos fortes —, mas no cântico a inversão não é encenação: é o modo como Deus abre caminho.
O que Turner ajuda a ver no conjunto
Turner observou que a communitas não dura. Todo grupo nascido na soleira tende a se organizar, a fixar regras e a construir lugares; ele chamou isso de communitas normativa. Os três últimos versos do cântico desenham essa curva em miniatura: o povo que passa (Êxodo 15:16) é plantado num lugar com santuário (Êxodo 15:17) sob um rei eterno (Êxodo 15:18). O poema não quer ficar na soleira. Deseja a estrutura, e a deseja como dom.
Os limites da comparação
Turner descrevia ritos encenados por comunidades que sabiam o resultado de antemão: o menino ndembu entra na cabana de reclusão e sai homem, porque é assim que sempre foi. A passagem do cântico é uma marcha real por terras de outros, sem garantia de chegada — e, pelo resto da Torá, quase ninguém da geração que cantou chegou. Aplicar a ela o esquema do rito é falar por analogia; o texto não descreve um ritual, descreve um pedido. O próprio Israel, aliás, transformou depois a travessia em rito, com sacerdotes, arca e pedras de memória no Jordão (Josué 3-4); a forma de rito talvez esteja mais nas releituras do êxodo do que no êxodo cantado aqui.
7. Aplicações Práticas
Pedir só o necessário, pelo tempo necessário. O cântico poderia desejar a ruína de todos os vizinhos. Deseja que eles não atrapalhem "até que" o povo passe. Quem precisa atravessar o espaço de outro — um terreno, uma família, uma instituição — pode tirar daqui uma medida: pedir a passagem, não a posse, e com prazo.
Ouvir o "não" e dar a volta. Quando o pedido foi feito de verdade, Edom recusou, e "Israel se desviou dele" (Números 20:21). O povo que tinha cantado a paralisia dos vizinhos aceitou a recusa e tomou o caminho mais longo. O versículo, lido com a sua continuação em Números, mostra que a confiança cantada na praia não dispensou a negociação nem o desvio quando a negociação falhou.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se Deus "adquiriu" o povo, de quem o comprou, e por quanto?
O verso não diz. A Bíblia hebraica arrisca uma resposta uma única vez, e é ousada: "Eu sou o SENHOR, seu Deus... dei o Egito como resgate por você, a Etiópia e Sebá em seu lugar" (Isaías 43:3). No profeta, o preço do povo foram outros povos. A maioria dos comentaristas não força a metáfora: o verbo também significa "obter", "criar" (é o de Gênesis 14:19, "dono dos céus e da terra"), e o sentido seria só a pertença. Mas a pergunta mostra que o verbo comercial carrega consigo, para quem o ouve, a ideia de um preço.
Desejar o pavor dos outros é legítimo?
O cântico deseja, e sem disfarce. A própria Torá, porém, põe limite no uso desse pavor. Quando Israel chega às terras de Edom, a ordem é: "eles terão medo de vocês; mas tenham muito cuidado; não os provoquem" (Deuteronômio 2:4-5). O medo dos vizinhos é registrado como fato e proibido como arma. O cântico expressa o desejo de quem acabou de escapar; a lei, escrita para quem já é forte, o corrige.
9. Conexão com Outros Textos
O "até que passe" cumprido no Jordão
Josué 3:17 — "Os sacerdotes que levavam a arca da aliança do SENHOR ficaram firmes em terra seca no meio do Jordão, e todo o Israel passava em terra seca, até que toda a nação acabou de passar o Jordão."
A mesma construção do cântico — passar até —, agora narrada. A terra seca e a passagem completa do povo inteiro são o vocabulário do mar transportado para o rio.
Josué 4:23 — "Porque o SENHOR, o seu Deus, secou as águas do Jordão diante de vocês, até que vocês passassem, como o SENHOR, o seu Deus, fez ao mar dos Juncos, que ele secou diante de nós, até que nós passássemos."
O "até que passássemos" é dito duas vezes, uma para o rio e outra para o mar — como o cântico disse "até que passe" duas vezes. É o texto em que Rashbam poderia apoiar a leitura das duas travessias.
O terror prometido como enviado
Êxodo 23:27 — "Enviarei o meu terror adiante de você, porei em confusão todo povo em cujo meio você entrar e farei que todos os seus inimigos lhe voltem as costas."
A palavra do "espanto" deste verso, agora com dono — "o meu terror" — e com o verbo de enviar. O que o cântico pede, o código da aliança promete.
Os que ficam mudos
1 Samuel 2:9 — "Ele guarda os pés dos seus fiéis, mas os perversos ficam mudos nas trevas, porque ninguém prevalece pela força."
O mesmo verbo, no cântico de Ana, outro canto de vitória que termina falando do rei (1 Samuel 2:10). O silêncio de quem perdeu é motivo comum desses poemas.
Lamentações 2:10 — "Sentados no chão, emudecem os anciãos da filha de Sião; jogaram pó sobre a cabeça, vestiram-se de pano de saco."
A forma verbal exata deste versículo, aplicada a Jerusalém depois da queda. O silêncio que o cântico desejou para os vizinhos acabou, no livro das Lamentações, na boca dos próprios anciãos de Sião.
A cananeia que repetiu o verso
Josué 2:9 — "Sei que o SENHOR deu a vocês esta terra, e que o pavor de vocês caiu sobre nós, e que todos os habitantes da terra se derreteram diante de vocês."
O "pavor... caiu" de Raabe usa o mesmo verbo e a mesma palavra que a ABC traduz aqui por "espanto". A leitura completa do eco, frase por frase, está no estudo de Êxodo 15:15.
O povo que tem dono
Deuteronômio 32:9 — "Porque a porção do SENHOR é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança."
Outra imagem da mesma pertença, agora de partilha e não de compra: o povo como o lote que coube a Deus. É a ponte para o versículo seguinte, que fala da "herança" de Deus.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Cai sobre eles espanto e pavor; pela grandeza do teu braço ficam mudos como pedra, até que passe o teu povo, SENHOR, até que passe o povo que adquiriste.
Texto hebraico
תִּפֹּל עֲלֵיהֶם אֵימָתָה וָפַחַד בִּגְדֹל זְרוֹעֲךָ יִדְּמוּ כָּאָבֶן עַד־יַעֲבֹר עַמְּךָ יְהוָה עַד־יַעֲבֹר עַם־זוּ קָנִיתָ׃
Transliteração
tippól aleihém eimátah va-fáchad; bigdól zero'akhá yiddemú ka-áven; ad-ya'avór ammekhá YHWH, ad-ya'avór am-zu qaníta.
Análise palavra por palavra
תִּפֹּל — tippól, "cai".
Raiz nafal, cair, no Qal (a forma simples do verbo hebraico), imperfeito, terceira pessoa do feminino singular: o sujeito gramatical é a primeira palavra do par, "espanto", que é feminina. O imperfeito pode ser descrição ("cai", "cairá") ou desejo ("caia"); a Septuaginta usou o optativo grego, epipésoi, "que caia", e a Vulgata o subjuntivo latino, irruat, "que irrompa".
עֲלֵיהֶם — aleihém, "sobre eles".
Preposição al, "sobre", com o sufixo de terceira pessoa do masculino plural na forma comum, -hem. Os outros pronomes de objeto do cântico usam a forma poética antiga em -mo; aqui o poema usa a forma da prosa.
אֵימָתָה — eimátah, "espanto".
O substantivo eimah, terror, com uma terminação a mais, -tah. A gramática de Gesenius (o hebraísta alemão do século XIX, autor da gramática de referência) põe esta forma, no seu parágrafo 90, entre os restos de uma terminação antiga de direção, conservada na poesia; não é um pronome. É uma das marcas de linguagem arcaica do cântico. A palavra aparece em Êxodo 23:27, "o meu terror", e na fala de Raabe, em Josué 2:9.
וָפַחַד — va-fáchad, "e pavor".
Conjunção "e" (vocalizada va- diante da sílaba tônica) e o substantivo pachad, pavor, o medo que faz tremer. É a palavra do "Temor de Isaque" de Gênesis 31:42.
בִּגְדֹל — bigdól, "pela grandeza".
Preposição be ("com", "por", no sentido de causa) e o substantivo godel, grandeza, na forma de ligação, a que o hebraico usa quando o substantivo vem seguido de um complemento ("grandeza de"). Rashbam lê a expressão invertida: "pelo braço da tua grandeza".
זְרוֹעֲךָ — zero'akhá, "do teu braço".
O substantivo zeroa, braço, com o sufixo "teu". É a primeira vez que o cântico usa a palavra; até aqui, falou da "direita". É a palavra da fórmula do êxodo "com braço estendido" (Êxodo 6:6). O Targum de Ônquelos não traduziu "braço": escreveu tuqpakh, "a tua força", como costuma fazer para evitar a imagem de um corpo em Deus.
יִדְּמוּ — yiddemú, "ficam mudos".
Raiz damam, calar, ficar imóvel, no Qal imperfeito, terceira pessoa do plural. É o verbo do sol que "se deteve" em Gibeom (Josué 10:12-13). A forma exata reaparece em 1 Samuel 2:9, Salmo 31:17 e Lamentações 2:10. As versões dividiram os dois sentidos: Ônquelos escolheu calar (yishtequn, "calam-se"); a Vulgata, parar (fiant immobiles, "fiquem imóveis"); a Septuaginta, a pedra (apolithōthḗtōsan, "sejam petrificados").
כָּאָבֶן — ka-áven, "como pedra".
Preposição "como", com artigo, e even, pedra (com a vogal alongada pela pausa do verso). Em Êxodo 15:5 o cântico usou a forma longa da preposição, kemo-aven; aqui a curta.
עַד־יַעֲבֹר — ad-ya'avór, "até que passe".
Ad, "até", seguido de ya'avor, raiz avar, passar, atravessar, no Qal imperfeito, terceira pessoa do masculino singular. Avar é o verbo de atravessar um rio ou uma fronteira: de Jacó passando o vau do Jaboque (Gênesis 32:22), do pedido a Edom (Números 20:17-21), da travessia do Jordão em todo o livro de Josué. Frank Moore Cross (estudioso norte-americano da Bíblia e das línguas cananeias) leu ad com imperfeito como "enquanto passava", no passado, comparando com Josué 10:13, "até que o povo se vingou dos seus inimigos", onde a mesma construção narra um fato acabado.
עַמְּךָ יְהוָה ... עַם־זוּ — ammekhá YHWH ... am-zu, "o teu povo, SENHOR ... o povo que".
Am, povo, com o sufixo "teu", e o nome de quatro letras no vocativo; na repetição, am com a partícula relativa poética zu, a mesma de "o povo que resgataste" em Êxodo 15:13.
קָנִיתָ — qaníta, "adquiriste".
Raiz qanah, no Qal perfeito, segunda pessoa do masculino singular. As versões leram o verbo de três modos. A Septuaginta escreveu ektḗsō, "adquiriste", o verbo grego de obter e possuir; a Vulgata, possedisti, "possuíste". Ônquelos escreveu di feraqta, "que resgataste" — o mesmo verbo aramaico que usou para "o povo que resgataste" em Êxodo 15:13; com isso, a diferença entre os dois versos desaparece na tradução aramaica. E Cross traduziu "que criaste", pelo sentido que o verbo tem em Gênesis 14:19 e Deuteronômio 32:6. O campo inteiro da raiz, de comprar a criar, está no estudo de Gênesis 23:18.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões sobre a passagem pedida.
A primeira: a libertação, neste verso, não se mede pela derrota de ninguém, e sim por um caminho aberto. O povo que tremeu na praia pede que os outros parem por um tempo — e o tempo tem fim, "até que" passe. É um desejo duro, porque deseja o medo alheio, mas é um desejo de passagem, não de extermínio.
A segunda: a Bíblia não deixou o cântico sem conferência. Quando o povo pediu de fato para passar, Edom disse "você não passará", e Israel deu a volta; noutra lembrança do mesmo caminho, Edom e Moabe deixaram passar e venderam pão. A previsão cantada convive no texto com as suas versões cumpridas e descumpridas, e quem lê o verso honestamente tem de ler as três.
A terceira: o direito de passar não vem de carta de rei, nem de força, nem de mérito; vem de pertencer. Um povo que não tem nada é chamado, no mesmo fôlego, de propriedade de Deus. A linguagem do mercado, aplicada a ex-escravos, não esconde a dependência — ela a transforma na única garantia que eles tinham na estrada.













