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Êxodo 15:17

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 17 acessos
Tu os levarás e os plantarás no monte da tua herança, o lugar firme que fizeste para a tua habitação, SENHOR, o santuário, Senhor, que as tuas mãos estabeleceram.
Uma colina verde e alta ao amanhecer, com terraços de oliveiras plantadas em fileiras e, no topo, uma pequena tenda de culto cercada de luz, vista de longe por um grupo de viajantes.

Estudo


Tu os levarás e os plantarás no monte da tua herança, o lugar firme que fizeste para a tua habitação, SENHOR, o santuário, Senhor, que as tuas mãos estabeleceram.

1. Introdução

Depois da passagem, a chegada: o cântico termina a viagem num monte, num lugar firme e num santuário feito pelas mãos do próprio Deus. Quase cada palavra do verso tem par num poema de Ugarit sobre o monte do deus Baal, e é aqui que se decide boa parte da discussão sobre a data do cântico: um poema cantado na praia pode falar de um santuário? O verso usa pela primeira vez na Bíblia a palavra "santuário", troca o nome do SENHOR por "Senhor" no meio da frase, e diz "tu os levarás" — não "nos levarás" —, um detalhe em que os rabinos leram que quem cantava não ia chegar.

2. Contexto Histórico e Cultural

O monte da herança de Baal

Numa das tabuinhas do ciclo de Baal achadas em Ugarit, a cidade do litoral da Síria destruída por volta de 1180 a.C., o deus da tempestade convida a deusa Anat a ver um segredo, e diz onde. É a tabuinha catalogada como KTU 1.3, coluna III, linhas 29 a 31:

"no meio do meu monte, o divino Zafom,
no lugar santo, no monte da minha herança,
no lugar agradável, na colina da vitória."

Ponha as palavras ugaríticas ao lado do hebraico deste versículo. "Santo" é qdš, a raiz de "santuário". "Monte" é ġr, outra palavra, mas no mesmo lugar da frase. E "herança" é nḥlt, exatamente a palavra hebraica nachalah. "No monte da minha herança", na boca de Baal; "no monte da tua herança", no cântico de Israel. O Zafom é a montanha ao norte de Ugarit que os cananeus tinham por morada de Baal.

A mesma tabuinha, na coluna VI, traz a segunda metade da fórmula. Os mensageiros são enviados ao deus artesão, Kothar, e a sua morada é descrita assim: "Caftor, o trono onde ele se assenta; Hikupta, a terra da sua herança". "O trono onde ele se assenta" usa a raiz ugarítica de sentar-se, a mesma do hebraico "para a tua habitação" — literalmente, "para o teu sentar". O par "trono do assento" e "terra da herança" é o par deste verso: "o lugar para a tua habitação" e "o monte da tua herança".

Frank Moore Cross (estudioso norte-americano da Bíblia e das línguas cananeias), no livro Canaanite Myth and Hebrew Epic ("Mito cananeu e épica hebraica", 1973), tirou disso a conclusão que importa para este versículo: "monte da herança" era uma fórmula da poesia oral de Canaã na Idade do Bronze, o modo padrão de um poeta, em Ugarit ou em Israel, designar a sede de um deus — fosse a sua morada cósmica, fosse o santuário que a representava na terra. A expressão, por si, não aponta para lugar nenhum em particular.

Cross notou também a diferença: em Ugarit, Baal precisa da licença do deus supremo, El, para ter casa, e quem a constrói é o artesão; no cântico, o próprio Deus constrói.

De quando é o cântico?

A pergunta pelo santuário é a pergunta pela data. Um poema cantado na praia, logo depois da travessia, não poderia descrever um templo que só existiria séculos depois — a menos que fosse profecia, ou que o poema fosse mais tardio do que a moldura diz. A discussão geral sobre como se datam os poemas antigos da Bíblia (a grafia, o vocabulário, o parentesco com Ugarit, e a objeção de que linguagem antiga pode ser imitada) está no estudo de Gênesis 49:2. Para este cântico em particular, as propostas são cinco.

Primeira: no mar, e o santuário é profecia. É a leitura judaica antiga e a dos comentaristas conservadores. A Mekhilta de Rabi Ismael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo) diz que "os pais profetizaram sem saber o que profetizavam". Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) escrevem que o verso não é uma profecia feita depois do fato, mas "uma verdadeira profecia". O argumento é a moldura do próprio Êxodo (Êxodo 15:1); o preço, que a explicação vale para qualquer detalhe e não pode ser conferida.

Segunda: século XII a.C., antes da monarquia. É a de Cross e de David Noel Freedman, a partir dos estudos que fizeram juntos desde os anos 1950, e retomada por Brian Russell numa monografia de 2007, que propõe meados do século XII. Os argumentos: a gramática arcaica; os títulos dos vizinhos — "chefes" de Edom, "poderosos" de Moabe, nenhum rei —, que segundo Cross descrevem a situação anterior às monarquias da Transjordânia e dificilmente seriam imitação; e a fórmula do monte, que, sendo cananeia e antiga, não exige o Templo. Cross chegou a propor um lugar: o santuário de Gilgal, junto ao Jordão, onde Israel teria encenado a cada primavera a travessia do mar e a do rio. E reconheceu o limite da própria proposta: a linguagem do versículo "poderia aplicar-se a qualquer santuário" do Deus de Israel.

Terceira: o santuário de Siló. É a de August Dillmann (comentarista alemão do século XIX), registrada por S. R. Driver na Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa). Siló foi o primeiro santuário fixo de Israel na terra (Josué 18:1), na serra de Efraim. O argumento: um lugar permanente, num monte, antes de Jerusalém. O preço: nada no verso nomeia Efraim.

Quarta: o começo da monarquia, com o Templo de Jerusalém em vista. É a de Driver: os versos finais do cântico foram "certamente escritos muito depois" que Israel se estabeleceu em Canaã, e o poema caberia nos primeiros anos da dinastia de Davi. O argumento mais forte é de vocabulário: a expressão "lugar para a tua habitação" só volta, em toda a Bíblia, na boca de Salomão, na dedicação do Templo (1 Reis 8:13, repetido em 2 Crônicas 6:2). E os primeiros leitores bíblicos do verso, os Salmos, já o leram como Sião.

Quinta: depois do exílio. É a de Martin Brenner, numa monografia de 1991: o cântico teria sido composto por volta de 450 a.C. para a Páscoa no segundo Templo, e os seus paralelos com os Salmos de Asafe (Salmos 73-83) e com os profetas seriam sinais de época tardia. O preço: semelhança de frase não diz quem copiou quem.

O versículo sozinho não decide. O que ele mostra é que a palavra mais "tardia" do poema — o santuário — vem embrulhada na fórmula mais antiga que ele usa, a do monte da herança. A data do cântico continua em disputa, e nenhuma das cinco propostas resolve todos os dados.

3. Análise Teológica do Versículo

"Tu os levarás"

Quem canta é o povo inteiro, com Moisés à frente. E o verso não diz "tu nos levarás"; diz "tu os levarás". A Mekhilta de Rabi Ismael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo) parou nessa terceira pessoa: "os pais profetizaram sem saber o que profetizavam. Não está escrito 'tu nos levarás e nos plantarás', mas 'tu os levarás e os plantarás' — os filhos entrarão, e não os pais". Rashi (rabino francês do século XI), seguindo o Talmude (Bava Batra 119b), aplica a Moisés: ele profetizou que não entraria na terra, e por isso não disse "nos".

A leitura é forte e não é a única. A terceira pessoa é a do resto do cântico, que chama Israel de "o teu povo" e nunca de "nós". E o próprio Moisés, quarenta anos depois, ainda pede para entrar: "deixe-me passar e ver a boa terra do outro lado do Jordão, aquele bom monte e o Líbano" (Deuteronômio 3:25) — pedido difícil de conciliar com quem já o soubesse desde a praia. Mas a Mekhilta acertou no efeito: lido depois de Números 14 e de Deuteronômio 34, o "os" do cântico ficou verdadeiro de um modo que quem cantava não imaginava.

"e os plantarás"

O verbo é de agricultor. Um povo de pastores recém-saídos de uma olaria é comparado a uma muda posta na terra. O que a imagem pretende, os leitores entenderam de dois modos.

Primeiro, como ordem: a Mekhilta lê "como um pomar plantado em fileiras", e lembra a divisão da terra por tribos em Ezequiel 48, uma faixa ao lado da outra. Segundo, como permanência: a mesma Mekhilta, com Amós 9:15, "eu os plantarei na sua terra, e nunca mais serão arrancados"; Ibn Ezra (rabino espanhol do século XII) faz do verso uma oração "para que Israel fique muito tempo na terra e não seja exilado", porque a árvore plantada lança raiz e não sai mais do lugar.

O texto bíblico que mais se parece com este verso está na promessa de Deus a Davi: "darei um lugar ao meu povo Israel e o plantarei, para que habite no seu lugar e não seja mais perturbado" (2 Samuel 7:10). Plantar, lugar, habitar: as três ideias deste versículo, na mesma ordem, no oráculo que anuncia a casa de Davi e o Templo. A imagem geral de Deus como quem planta Israel, e o uso que se fez dela até o tempo de Jesus, está no estudo de Mateus 15:13.

"no monte da tua herança"

A herança é de Deus. Normalmente, na Bíblia, quem recebe herança é o povo: a terra é dada a Israel "como herança". Aqui o monte é herança do próprio Deus, como se também ele tivesse recebido um lote. Deuteronômio 32:8-9 usa a mesma lógica para o povo: quando o Altíssimo repartiu as nações, "a porção do SENHOR é o seu povo". Deus aparece, nesses poemas antigos, como quem tem uma parte que é sua.

A Mekhilta enumera quatro coisas que a Bíblia chama de "herança": o santuário (este verso), a terra (Deuteronômio 15:4), a Torá e Israel (Joel 3:2). E fecha com um desenho: venha Israel, chamado herança, à terra chamada herança, e construa o santuário chamado herança. O monte do verso vira o ponto em que as heranças se encontram.

Que monte? Ibn Ezra hesita entre a terra de Canaã inteira, "que é montanhosa" — e cita o "bom monte" de Moisés em Deuteronômio 3:25 —, e o monte Moriá, onde o Templo seria construído. Sforno (Obadia Sforno, comentarista italiano do século XVI) decide pelo monte do Templo e o liga a Gênesis 22:14: "No monte do SENHOR se proverá". Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) prefere Canaã em geral. Um monte o verso não nomeia de jeito nenhum: o Sinai. O monte para onde Deus disse que o povo iria servi-lo (Êxodo 3:12) é a próxima grande parada da viagem, e o cântico passa por cima dele. O destino que o poema canta é um monte de posse, não de revelação.

"o lugar que fizeste para a tua habitação, SENHOR"

"Lugar" traduz uma palavra que significa base firme, assento fixo; "habitação" traduz um verbo que é, antes de tudo, sentar-se. Ao pé da letra: "a base que fizeste para o teu sentar" — a imagem de um trono.

Onde fica esse assento, na terra ou no céu? A Mekhilta, seguida por Rashi, responde: nos dois, alinhados. "O santuário de baixo está exatamente em frente ao trono de cima, que tu fizeste." E a própria Bíblia mostra a oscilação. Salomão, ao dedicar o Templo, diz a Deus: "construí para ti um lugar para a tua habitação para sempre" (1 Reis 8:13), com as palavras deste versículo. Quatorze versículos depois, pergunta se Deus de fato habitaria na terra, se nem os céus o contêm (1 Reis 8:27). E pelo resto da oração repete o pedido "ouve dos céus, lugar da tua habitação" (1 Reis 8:39, 43, 49). A mesma expressão serve para o Templo e para o céu no mesmo capítulo.

E há o verbo: "que fizeste". Santuários, no mundo antigo e na própria Torá, são feitos por gente: "façam-me um santuário" (Êxodo 25:8). Aqui quem faz é Deus. A Mekhilta repara que o mundo foi criado pela palavra — "pela palavra do SENHOR foram feitos os céus" (Salmo 33:6) — e o santuário "pela ação": o verbo deste verso é de trabalho manual.

"o santuário, Senhor, que as tuas mãos estabeleceram"

É a primeira vez que a palavra "santuário" aparece na Bíblia. A próxima é justamente a ordem de Êxodo 25:8. Antes de haver qualquer tenda, o cântico já tem a palavra.

Rashi faz uma observação de leitura: o acento musical do texto hebraico separa "santuário" de "Senhor", de modo que a frase não é "o santuário do Senhor", e sim "o santuário — Senhor — que as tuas mãos estabeleceram", com o nome no vocativo. A ABC segue essa divisão. E a Mekhilta, com Rashi, tira do plural "mãos" a frase mais lembrada do versículo: o mundo foi feito com uma mão só — "a minha mão fundou a terra" (Isaías 48:13) —, mas o santuário, com as duas.

No meio da frase, o nome muda. A primeira metade termina em "SENHOR", o nome de quatro letras; a segunda usa "Senhor", o título que significa "meu senhor", "meu dono". A troca pode ser só variação poética, ou pode ser obra de copistas; a história textual está no item 10. Mas no português ela se lê bem: na frase sobre a casa, Deus é chamado de dono.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O SENHOR, chamado duas vezes

Uma pelo nome de quatro letras, outra pelo título "Senhor". É o único agente do verso: leva, planta, faz, estabelece.

"Os"

O povo, que no verso é só objeto. Para a Mekhilta e para Rashi, o pronome exclui quem cantava: entrariam os filhos, não os pais — e não Moisés.

Os montes candidatos

A serra central de Canaã, entre o vale do Jordão e a planície do litoral. O monte Moriá, que a tradição identifica com o lugar do sacrifício de Isaque (Gênesis 22:2, 22:14) e com o monte do Templo (2 Crônicas 3:1). Sião, a colina de Jerusalém que os Salmos chamam de monte santo. Siló, na serra de Efraim, onde a tenda do encontro foi armada depois da conquista (Josué 18:1). Gilgal, junto ao Jordão, perto de Jericó, primeiro acampamento de Israel na terra, onde foram erguidas as doze pedras da travessia e celebrada a primeira Páscoa em Canaã (Josué 4:19-20; 5:10) — que não é um monte.

O monte de Ugarit

O Zafom, montanha isolada junto ao mar, ao norte de Ugarit, na atual fronteira entre a Síria e a Turquia, que os poemas cananeus chamam de "monte da herança" de Baal. O deus Baal-Zefom, que dá nome ao lugar do acampamento junto ao mar, é examinado no estudo de Êxodo 14:10.

O acontecimento que o verso antecipa

A entrada na terra, que só acontece no livro de Josué, e a construção de um santuário, que começa com a tenda do deserto (Êxodo 25-40) e termina, na narrativa bíblica, no Templo de Salomão (1 Reis 6-8).

5. Pontos de Ensino

A viagem tem destino. O cântico não acaba no deserto. A libertação, no verso, só se completa quando o povo é posto num lugar e esse lugar tem Deus no centro.

Quem constrói é Deus. O santuário é "o que as tuas mãos estabeleceram". Antes de qualquer ordem para que o povo construa uma tenda, o cântico afirma que a casa de Deus é obra de Deus. O que Israel fará depois, em Êxodo 25-40, é responder a uma casa que, para o poema, já existia.

Plantar não é instalar. A imagem é de raiz e de tempo. Um povo plantado é um povo que se espera ver ficar, crescer e dar fruto — e que pode, como toda planta, ser arrancado, como os profetas dirão depois.

O monte esquecido. O cântico canta um monte de posse e passa por cima do monte da revelação, o Sinai. A ordem do livro do Êxodo corrige o poema: antes da terra vem a lei.

A palavra antes da coisa. "Santuário" aparece na Bíblia pela primeira vez num poema cantado por gente sem casa. O santuário existe primeiro como promessa cantada, depois como projeto (Êxodo 25), depois como tenda, e só muito depois como templo de pedra.

6. Aspectos Filosóficos

Espaço e lugar: Yi-Fu Tuan

O geógrafo Yi-Fu Tuan (1930-2022), nascido na China e radicado nos Estados Unidos, foi um dos fundadores do que se chamou de geografia humanista: o estudo de como as pessoas sentem, nomeiam e habitam a terra. Em Topofilia (1974) ele descreveu o apego afetivo aos lugares. Em Espaço e lugar (1977) fez a distinção que lhe deu fama.

O livro abre com uma frase: "Lugar é segurança, espaço é liberdade: somos apegados a um e desejamos o outro". O espaço é aberto, é o que permite o movimento, e por isso também ameaça: no espaço não há abrigo. O lugar é fechado, humanizado, carregado de valor. E Tuan explica a passagem de um ao outro com uma imagem simples: se o espaço é aquilo que permite o movimento, o lugar é a pausa; cada pausa no movimento permite que uma localização se transforme em lugar. O espaço indiferenciado vira lugar à medida que o conhecemos melhor e lhe damos valor.

Do verso da estrada ao verso da casa

O cântico atravessa exatamente essa passagem, na ordem de Tuan. O versículo anterior é todo movimento: o povo passa, passa de novo, por terras de outros. Este é todo pausa: levar, plantar, fixar, assentar. As palavras do verso são as palavras do lugar no sentido de Tuan. "Lugar" é, no hebraico, base firme; "habitação" é o verbo de sentar-se; "estabeleceram" vem da mesma raiz de "lugar", a de fixar. Até o verbo agrícola, plantar, é um verbo de parada: a planta é o ser vivo que não sai do lugar.

Tuan dedicou um capítulo ao espaço e ao lugar míticos, e ali descreve um traço comum a muitas culturas: o lugar sagrado como centro, o ponto em que o mundo de cima e o de baixo se tocam e a partir do qual o resto se organiza. A Mekhilta diz isso do santuário deste verso, com a sua linguagem: o santuário de baixo está alinhado com o trono de cima. Na terminologia de Tuan, o monte da herança não é só um destino geográfico; é o centro que transforma uma terra estranha em mundo habitável.

Onde o versículo contradiz Tuan

Para Tuan, o lugar nasce da experiência. Ele se faz com o tempo, pelo uso, pela memória, pelos nomes que se dão, pelas mortes que se enterram ali. Num ensaio de 1980 ("Rootedness versus Sense of Place", "Enraizamento e senso de lugar"), ele distinguiu dois modos de pertencer: o enraizamento, quase inconsciente, de quem vive há gerações no mesmo chão sem pensar nele; e o senso de lugar, consciente e construído, de quem olha o lugar e o valoriza. Os dois exigem tempo humano.

O cântico afirma o contrário em dois pontos. Primeiro, o lugar existe antes da experiência: o povo ainda não chegou, nunca viu o monte, e o monte já é "o lugar que fizeste". Segundo, o autor do lugar não é quem o habita: são as mãos de Deus que estabelecem, e não o uso do povo. É um lugar dado, e não um lugar feito. E o enraizamento, que Tuan descreve como lento, o verso o deseja instantâneo: "tu os plantarás".

Essa diferença não desqualifica nenhum dos dois. Tuan descreve o modo como os seres humanos fazem lugares; o cântico descreve o que um povo sem lugar esperava de Deus. Mas a comparação mostra uma coisa que o resto da Bíblia confirma: o lugar dado ainda teria de virar lugar vivido. Foram gerações até que o "monte da herança" deixasse de ser promessa e fosse chão conhecido — e os profetas descreveram o exílio justamente como o arrancar daquilo que fora plantado.

7. Aplicações Práticas

Um lugar dado ainda precisa ser habitado. O cântico recebe o monte como presente antes de vê-lo; a história de Israel mostra que levou gerações para que ele fosse de fato casa. Quem recebe uma casa, um cargo ou uma comunidade já pronta — uma herança, no sentido próprio — tem diante de si o trabalho que o verso não descreve: transformar o lugar recebido em lugar vivido.

Cantar o que outros vão ver. Pela leitura da Mekhilta, quem cantou "tu os levarás" cantou a chegada dos filhos, não a própria. O verso dá forma a uma atitude que não depende de ver o resultado: trabalhar e celebrar por um lugar em que outros vão morar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se o santuário é obra das mãos de Deus, por que o povo teve de construir a tenda?

Porque as duas coisas convivem no próprio Êxodo. Em Êxodo 25:8 Deus manda: "façam-me um santuário"; logo em seguida mostra o "modelo" (Êxodo 25:9), e o texto insiste em que tudo seja feito "conforme o modelo que foi mostrado no monte" (Êxodo 25:40). Sforno lê o cântico por esse lado: Deus deu as medidas, os materiais e o desenho, e por isso o que o povo construiu conta como feito por ele (com 1 Crônicas 28:19, a planta do Templo recebida por Davi "da mão do SENHOR"). O santuário é obra divina no projeto e humana na execução.

Por que o verso não diz "Jerusalém"?

Porque a Torá inteira não diz. Jerusalém não é nomeada em nenhum dos cinco livros; o mais perto que se chega é Salém, a cidade de Melquisedeque (Gênesis 14:18), e o monte Moriá (Gênesis 22:2). O Deuteronômio fala sempre do "lugar que o SENHOR escolher para ali fazer habitar o seu nome" (Deuteronômio 12:5, 12:11), sem dizer qual. O cântico segue o mesmo padrão: um monte, um lugar, um santuário, nenhum nome. Para quem data o poema cedo, o silêncio é natural, porque Jerusalém ainda não era de Israel; para quem o data tarde, é discrição de quem escreve dentro de uma história que se passa antes de Davi. O silêncio é um dado; a explicação dele depende da data que se adota.

E os que já moravam no monte?

O versículo não fala deles. Um monte em que se planta um povo, porém, não estava vazio — o próprio cântico acabou de nomear os habitantes de Canaã que "se derreteram" (Êxodo 15:15). O Salmo 44 diz em voz alta o que o cântico deixa implícito: "Com a tua mão expulsaste as nações e os plantaste" (Salmo 44:2). No hebraico do salmo, o verbo de "plantar" é o deste versículo, e o de "expulsar" é o mesmo com que o inimigo, em Êxodo 15:9, ameaçou "desapossar" Israel. O plantio de um povo, na Bíblia, tem o desapossamento de outro como avesso, e o salmo não o esconde.

9. Conexão com Outros Textos

O primeiro plantio de Deus

Gênesis 2:8 — "O SENHOR Deus plantou um jardim no Éden, no oriente, e ali colocou o homem que havia formado."

O mesmo verbo deste versículo, na primeira vez em que Deus planta alguma coisa. No Éden ele planta um jardim e põe nele o homem; no cântico, planta o próprio povo num monte.

Ezequiel 28:13-14 — "Você estava no Éden, jardim de Deus... você estava no monte santo de Deus."

Ezequiel põe o jardim do Éden num "monte santo de Deus". Lidos juntos, Gênesis 2, este versículo e Ezequiel 28 desenham o mesmo lugar ideal: um monte, um plantio, a presença de Deus.

Isaías 60:21 — "O seu povo será todo de justos; para sempre herdarão a terra; são o rebento que eu plantei, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado."

Plantar e "obra das minhas mãos" juntos, como no versículo — só que aqui o que as mãos de Deus fazem é o próprio povo, e não o santuário.

O monte escolhido

Salmo 78:68-69 — "Escolheu a tribo de Judá, o monte Sião, que ele amou. Edificou o seu santuário como as alturas, como a terra que fundou para sempre."

O mesmo salmo que lê o monte do cântico como território santo (Salmo 78:54, comentado no estudo de Êxodo 15:13) dá aqui o endereço: Sião. E repete a ideia da Mekhilta, de que o santuário da terra corresponde às alturas.

Salmo 132:13-14 — "Pois o SENHOR escolheu Sião; desejou-a para sua habitação: 'Este é o meu lugar de repouso para sempre; aqui habitarei, porque a desejei.'"

O verso que Sforno cita: o mesmo verbo de "habitação", agora com lugar nomeado e com a fala do próprio Deus.

O santuário e o trono

Jeremias 17:12 — "Trono de glória, exaltado desde o princípio, é o lugar do nosso santuário."

A palavra "santuário" deste versículo ao lado da palavra "trono", numa frase só. É a equação que a Mekhilta faz ao alinhar o santuário de baixo com o trono de cima.

Isaías 48:13 — "A minha mão fundou a terra, e a minha direita estendeu os céus."

O verso de que a Mekhilta e Rashi tiram a comparação: o mundo, feito com uma mão; o santuário, "com as tuas mãos". A comparação depende de ler só a primeira metade, porque a segunda põe também a direita na criação dos céus.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Tu os levarás e os plantarás no monte da tua herança, o lugar firme que fizeste para a tua habitação, SENHOR, o santuário, Senhor, que as tuas mãos estabeleceram.

Texto hebraico

תְּבִאֵמוֹ וְתִטָּעֵמוֹ בְּהַר נַחֲלָתְךָ מָכוֹן לְשִׁבְתְּךָ פָּעַלְתָּ יְהוָה מִקְּדָשׁ אֲדֹנָי כּוֹנְנוּ יָדֶיךָ׃

Transliteração

tevi'émo ve-tittá'emo be-har nachalatkhá; makhón le-shivtekhá pa'álta YHWH; miqqedásh Adonái konenú yadékha.

Análise palavra por palavra

תְּבִאֵמוֹ — tevi'émo, "tu os levarás".

Raiz bo, entrar, no Hifil (a forma causativa do verbo hebraico): "fazer entrar", "levar para dentro". Imperfeito, segunda pessoa do masculino singular, com o sufixo de objeto -mo, "os", a forma poética antiga do pronome que o cântico usa ao longo do poema; o levantamento das suas ocorrências está no estudo de Êxodo 15:7. É o verbo das promessas da terra, como em Êxodo 13:5.

וְתִטָּעֵמוֹ — ve-tittá'emo, "e os plantarás".

Raiz nata, plantar, no Qal (a forma simples), imperfeito, com o mesmo sufixo -mo. É o verbo de Gênesis 2:8, "plantou um jardim". A Septuaginta usou katafýteuson, "planta-os", um imperativo. O Targum de Ônquelos trocou a imagem: ve-tashrinun, "e os farás habitar". Onde o hebraico tem raiz e árvore, o aramaico tem moradia.

בְּהַר נַחֲלָתְךָ — be-har nachalatkhá, "no monte da tua herança".

Be, "em"; har, monte, na forma de ligação ("monte de"); nachalah, herança, com o sufixo "tua". Nachalah é a parte que cabe a alguém numa divisão, e que passa de pai para filho: o lote de terra de uma família ou de uma tribo. A palavra ugarítica correspondente, nḥlt, aparece na mesma expressão, "monte da minha herança", na boca de Baal.

מָכוֹן — makhón, "o lugar firme".

Substantivo da raiz kun, "estar firme", "ser estável", com o prefixo ma- que forma nomes de lugar: "o lugar firme", "a base". Ocorre dezessete vezes. Oito delas estão na oração de Salomão, em Reis e no paralelo de Crônicas, ora para o Templo, ora para o céu (1 Reis 8:13, 39, 43, 49; 2 Crônicas 6:2, 30, 33, 39); duas, nos salmos de realeza, para a base do trono de Deus: "justiça e direito são a base do teu trono" (Salmo 89:14; 97:2). A Vulgata traduziu com um superlativo, firmissimo habitaculo, "na tua morada firmíssima"; a Septuaginta, hétoimon katoikētḗrion, "morada preparada".

לְשִׁבְתְּךָ — le-shivtekhá, "para a tua habitação".

Preposição le, "para", e o infinitivo de yashav, sentar-se, assentar-se, habitar, com o sufixo "teu": "para o teu sentar". O verbo é o do rei no trono. O ugarítico ṯbt, da mesma raiz, aparece no par "o trono onde ele se assenta" na descrição da morada do deus Kothar.

פָּעַלְתָּ — pa'álta, "fizeste".

Raiz pa'al, fazer, trabalhar, no Qal perfeito, segunda pessoa do singular. É verbo quase só de poesia; a prosa diria asah. A Mekhilta lê nele o trabalho feito "por ação", diferente da criação "pela palavra".

מִקְּדָשׁ — miqqedásh, "o santuário".

Substantivo da raiz q-d-sh, separar, consagrar, com o prefixo de lugar mi-: "o lugar separado". Ocorre setenta e quatro vezes, e esta é a primeira; a segunda é Êxodo 25:8. A grafia deste verso é única: em toda a Bíblia a palavra se escreve miqdash, com a consoante d dobrada; só aqui o ponto de reforço está no q, e a pronúncia muda para miqqedash. Ibn Ezra e Rashbam, os dois comentaristas medievais mais atentos à gramática, param para explicá-la. A Septuaginta traduziu hágiasma, "coisa santificada"; a Vulgata, sanctuarium.

אֲדֹנָי — Adonái, "Senhor".

O título adon, senhor, dono, numa forma especial reservada a Deus ("meu Senhor", com sentido de majestade). No texto massorético (o texto hebraico fixado pelos copistas medievais) está escrito assim, e não com o nome de quatro letras. Os massoretas mantiveram uma lista de cerca de cento e trinta e quatro lugares em que Adonai aparece escrito, e Christian David Ginsburg (estudioso da Massorá do século XIX) sustentou que em muitos deles os escribas antigos tinham posto o título no lugar do nome, por reverência; este verso é um desses lugares. O Pentateuco Samaritano (a Torá conservada pelos samaritanos, com tradição de cópia independente) lê aqui o nome de quatro letras, e Frank Moore Cross considerou essa a leitura mais antiga. A alternativa é que a troca seja do próprio poeta, que variou o nome nas duas metades da linha, como a poesia faz com os sinônimos. Não é possível decidir.

כּוֹנְנוּ — konenú, "estabeleceram".

Raiz kun, a mesma de makhon, numa forma intensiva própria dos verbos desse tipo (o Polel), perfeito, terceira pessoa do plural: o sujeito são "as tuas mãos". O verso abre a sua segunda metade com "o lugar firme" e a fecha com "firmaram": a mesma raiz nas duas pontas. A Vulgata manteve o jogo, firmissimo... firmaverunt.

יָדֶיךָ — yadékha, "as tuas mãos".

O substantivo yad, mão, no dual — a forma hebraica para coisas que vêm em par —, com o sufixo "tuas". É desse dual que a Mekhilta tira a leitura das duas mãos.

11. Conclusão

Do que foi dito sobre o monte e o santuário, o versículo leva a três conclusões.

A primeira: o cântico não pensa a libertação como errância. Ele a pensa como transplante — tirar um povo de um chão e fixá-lo noutro, onde Deus tem assento. O ponto final da viagem cantada é um lugar firme, e não uma estrada aberta.

A segunda: o verso fala a língua religiosa de Canaã e a usa contra a lógica de Canaã. A fórmula do monte da herança e do trono do assento era a da morada de Baal; no cântico, ela descreve uma casa que Deus faz com as próprias mãos, sem pedir licença a outro deus e sem artesão. Essa mistura de fórmula antiga e conteúdo novo é também o que torna a data do poema tão difícil: o verso pode ser lido como memória do século XII ou como olhar retrospectivo do tempo do Templo, e os dois lados têm argumentos sérios.

A terceira: a casa de Deus aparece primeiro como palavra. O santuário é nomeado pela primeira vez na Bíblia por gente que não tinha casa nenhuma, e numa frase em que, pelo pronome, quem canta talvez nem fosse chegar. O verso deixa a casa pronta antes do povo, e a entrada para os que viriam depois.

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