Tu os levarás e os plantarás no monte da tua herança, o lugar firme que fizeste para a tua habitação, SENHOR, o santuário, Senhor, que as tuas mãos estabeleceram.
1. Introdução
Depois da passagem, a chegada: o cântico termina a viagem num monte, num lugar firme e num santuário feito pelas mãos do próprio Deus. Quase cada palavra do verso tem par num poema de Ugarit sobre o monte do deus Baal, e é aqui que se decide boa parte da discussão sobre a data do cântico: um poema cantado na praia pode falar de um santuário? O verso usa pela primeira vez na Bíblia a palavra "santuário", troca o nome do SENHOR por "Senhor" no meio da frase, e diz "tu os levarás" — não "nos levarás" —, um detalhe em que os rabinos leram que quem cantava não ia chegar.
2. Contexto Histórico e Cultural
O monte da herança de Baal
Numa das tabuinhas do ciclo de Baal achadas em Ugarit, a cidade do litoral da Síria destruída por volta de 1180 a.C., o deus da tempestade convida a deusa Anat a ver um segredo, e diz onde. É a tabuinha catalogada como KTU 1.3, coluna III, linhas 29 a 31:
"no meio do meu monte, o divino Zafom,
no lugar santo, no monte da minha herança,
no lugar agradável, na colina da vitória."
Ponha as palavras ugaríticas ao lado do hebraico deste versículo. "Santo" é qdš, a raiz de "santuário". "Monte" é ġr, outra palavra, mas no mesmo lugar da frase. E "herança" é nḥlt, exatamente a palavra hebraica nachalah. "No monte da minha herança", na boca de Baal; "no monte da tua herança", no cântico de Israel. O Zafom é a montanha ao norte de Ugarit que os cananeus tinham por morada de Baal.
A mesma tabuinha, na coluna VI, traz a segunda metade da fórmula. Os mensageiros são enviados ao deus artesão, Kothar, e a sua morada é descrita assim: "Caftor, o trono onde ele se assenta; Hikupta, a terra da sua herança". "O trono onde ele se assenta" usa a raiz ugarítica de sentar-se, a mesma do hebraico "para a tua habitação" — literalmente, "para o teu sentar". O par "trono do assento" e "terra da herança" é o par deste verso: "o lugar para a tua habitação" e "o monte da tua herança".
Frank Moore Cross (estudioso norte-americano da Bíblia e das línguas cananeias), no livro Canaanite Myth and Hebrew Epic ("Mito cananeu e épica hebraica", 1973), tirou disso a conclusão que importa para este versículo: "monte da herança" era uma fórmula da poesia oral de Canaã na Idade do Bronze, o modo padrão de um poeta, em Ugarit ou em Israel, designar a sede de um deus — fosse a sua morada cósmica, fosse o santuário que a representava na terra. A expressão, por si, não aponta para lugar nenhum em particular.
Cross notou também a diferença: em Ugarit, Baal precisa da licença do deus supremo, El, para ter casa, e quem a constrói é o artesão; no cântico, o próprio Deus constrói.
De quando é o cântico?
A pergunta pelo santuário é a pergunta pela data. Um poema cantado na praia, logo depois da travessia, não poderia descrever um templo que só existiria séculos depois — a menos que fosse profecia, ou que o poema fosse mais tardio do que a moldura diz. A discussão geral sobre como se datam os poemas antigos da Bíblia (a grafia, o vocabulário, o parentesco com Ugarit, e a objeção de que linguagem antiga pode ser imitada) está no estudo de Gênesis 49:2. Para este cântico em particular, as propostas são cinco.
Primeira: no mar, e o santuário é profecia. É a leitura judaica antiga e a dos comentaristas conservadores. A Mekhilta de Rabi Ismael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo) diz que "os pais profetizaram sem saber o que profetizavam". Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) escrevem que o verso não é uma profecia feita depois do fato, mas "uma verdadeira profecia". O argumento é a moldura do próprio Êxodo (Êxodo 15:1); o preço, que a explicação vale para qualquer detalhe e não pode ser conferida.
Segunda: século XII a.C., antes da monarquia. É a de Cross e de David Noel Freedman, a partir dos estudos que fizeram juntos desde os anos 1950, e retomada por Brian Russell numa monografia de 2007, que propõe meados do século XII. Os argumentos: a gramática arcaica; os títulos dos vizinhos — "chefes" de Edom, "poderosos" de Moabe, nenhum rei —, que segundo Cross descrevem a situação anterior às monarquias da Transjordânia e dificilmente seriam imitação; e a fórmula do monte, que, sendo cananeia e antiga, não exige o Templo. Cross chegou a propor um lugar: o santuário de Gilgal, junto ao Jordão, onde Israel teria encenado a cada primavera a travessia do mar e a do rio. E reconheceu o limite da própria proposta: a linguagem do versículo "poderia aplicar-se a qualquer santuário" do Deus de Israel.
Terceira: o santuário de Siló. É a de August Dillmann (comentarista alemão do século XIX), registrada por S. R. Driver na Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa). Siló foi o primeiro santuário fixo de Israel na terra (Josué 18:1), na serra de Efraim. O argumento: um lugar permanente, num monte, antes de Jerusalém. O preço: nada no verso nomeia Efraim.
Quarta: o começo da monarquia, com o Templo de Jerusalém em vista. É a de Driver: os versos finais do cântico foram "certamente escritos muito depois" que Israel se estabeleceu em Canaã, e o poema caberia nos primeiros anos da dinastia de Davi. O argumento mais forte é de vocabulário: a expressão "lugar para a tua habitação" só volta, em toda a Bíblia, na boca de Salomão, na dedicação do Templo (1 Reis 8:13, repetido em 2 Crônicas 6:2). E os primeiros leitores bíblicos do verso, os Salmos, já o leram como Sião.
Quinta: depois do exílio. É a de Martin Brenner, numa monografia de 1991: o cântico teria sido composto por volta de 450 a.C. para a Páscoa no segundo Templo, e os seus paralelos com os Salmos de Asafe (Salmos 73-83) e com os profetas seriam sinais de época tardia. O preço: semelhança de frase não diz quem copiou quem.
O versículo sozinho não decide. O que ele mostra é que a palavra mais "tardia" do poema — o santuário — vem embrulhada na fórmula mais antiga que ele usa, a do monte da herança. A data do cântico continua em disputa, e nenhuma das cinco propostas resolve todos os dados.
3. Análise Teológica do Versículo
"Tu os levarás"
Quem canta é o povo inteiro, com Moisés à frente. E o verso não diz "tu nos levarás"; diz "tu os levarás". A Mekhilta de Rabi Ismael (o comentário rabínico antigo ao Êxodo) parou nessa terceira pessoa: "os pais profetizaram sem saber o que profetizavam. Não está escrito 'tu nos levarás e nos plantarás', mas 'tu os levarás e os plantarás' — os filhos entrarão, e não os pais". Rashi (rabino francês do século XI), seguindo o Talmude (Bava Batra 119b), aplica a Moisés: ele profetizou que não entraria na terra, e por isso não disse "nos".
A leitura é forte e não é a única. A terceira pessoa é a do resto do cântico, que chama Israel de "o teu povo" e nunca de "nós". E o próprio Moisés, quarenta anos depois, ainda pede para entrar: "deixe-me passar e ver a boa terra do outro lado do Jordão, aquele bom monte e o Líbano" (Deuteronômio 3:25) — pedido difícil de conciliar com quem já o soubesse desde a praia. Mas a Mekhilta acertou no efeito: lido depois de Números 14 e de Deuteronômio 34, o "os" do cântico ficou verdadeiro de um modo que quem cantava não imaginava.
"e os plantarás"
O verbo é de agricultor. Um povo de pastores recém-saídos de uma olaria é comparado a uma muda posta na terra. O que a imagem pretende, os leitores entenderam de dois modos.
Primeiro, como ordem: a Mekhilta lê "como um pomar plantado em fileiras", e lembra a divisão da terra por tribos em Ezequiel 48, uma faixa ao lado da outra. Segundo, como permanência: a mesma Mekhilta, com Amós 9:15, "eu os plantarei na sua terra, e nunca mais serão arrancados"; Ibn Ezra (rabino espanhol do século XII) faz do verso uma oração "para que Israel fique muito tempo na terra e não seja exilado", porque a árvore plantada lança raiz e não sai mais do lugar.
O texto bíblico que mais se parece com este verso está na promessa de Deus a Davi: "darei um lugar ao meu povo Israel e o plantarei, para que habite no seu lugar e não seja mais perturbado" (2 Samuel 7:10). Plantar, lugar, habitar: as três ideias deste versículo, na mesma ordem, no oráculo que anuncia a casa de Davi e o Templo. A imagem geral de Deus como quem planta Israel, e o uso que se fez dela até o tempo de Jesus, está no estudo de Mateus 15:13.
"no monte da tua herança"
A herança é de Deus. Normalmente, na Bíblia, quem recebe herança é o povo: a terra é dada a Israel "como herança". Aqui o monte é herança do próprio Deus, como se também ele tivesse recebido um lote. Deuteronômio 32:8-9 usa a mesma lógica para o povo: quando o Altíssimo repartiu as nações, "a porção do SENHOR é o seu povo". Deus aparece, nesses poemas antigos, como quem tem uma parte que é sua.
A Mekhilta enumera quatro coisas que a Bíblia chama de "herança": o santuário (este verso), a terra (Deuteronômio 15:4), a Torá e Israel (Joel 3:2). E fecha com um desenho: venha Israel, chamado herança, à terra chamada herança, e construa o santuário chamado herança. O monte do verso vira o ponto em que as heranças se encontram.
Que monte? Ibn Ezra hesita entre a terra de Canaã inteira, "que é montanhosa" — e cita o "bom monte" de Moisés em Deuteronômio 3:25 —, e o monte Moriá, onde o Templo seria construído. Sforno (Obadia Sforno, comentarista italiano do século XVI) decide pelo monte do Templo e o liga a Gênesis 22:14: "No monte do SENHOR se proverá". Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) prefere Canaã em geral. Um monte o verso não nomeia de jeito nenhum: o Sinai. O monte para onde Deus disse que o povo iria servi-lo (Êxodo 3:12) é a próxima grande parada da viagem, e o cântico passa por cima dele. O destino que o poema canta é um monte de posse, não de revelação.
"o lugar que fizeste para a tua habitação, SENHOR"
"Lugar" traduz uma palavra que significa base firme, assento fixo; "habitação" traduz um verbo que é, antes de tudo, sentar-se. Ao pé da letra: "a base que fizeste para o teu sentar" — a imagem de um trono.
Onde fica esse assento, na terra ou no céu? A Mekhilta, seguida por Rashi, responde: nos dois, alinhados. "O santuário de baixo está exatamente em frente ao trono de cima, que tu fizeste." E a própria Bíblia mostra a oscilação. Salomão, ao dedicar o Templo, diz a Deus: "construí para ti um lugar para a tua habitação para sempre" (1 Reis 8:13), com as palavras deste versículo. Quatorze versículos depois, pergunta se Deus de fato habitaria na terra, se nem os céus o contêm (1 Reis 8:27). E pelo resto da oração repete o pedido "ouve dos céus, lugar da tua habitação" (1 Reis 8:39, 43, 49). A mesma expressão serve para o Templo e para o céu no mesmo capítulo.
E há o verbo: "que fizeste". Santuários, no mundo antigo e na própria Torá, são feitos por gente: "façam-me um santuário" (Êxodo 25:8). Aqui quem faz é Deus. A Mekhilta repara que o mundo foi criado pela palavra — "pela palavra do SENHOR foram feitos os céus" (Salmo 33:6) — e o santuário "pela ação": o verbo deste verso é de trabalho manual.
"o santuário, Senhor, que as tuas mãos estabeleceram"
É a primeira vez que a palavra "santuário" aparece na Bíblia. A próxima é justamente a ordem de Êxodo 25:8. Antes de haver qualquer tenda, o cântico já tem a palavra.
Rashi faz uma observação de leitura: o acento musical do texto hebraico separa "santuário" de "Senhor", de modo que a frase não é "o santuário do Senhor", e sim "o santuário — Senhor — que as tuas mãos estabeleceram", com o nome no vocativo. A ABC segue essa divisão. E a Mekhilta, com Rashi, tira do plural "mãos" a frase mais lembrada do versículo: o mundo foi feito com uma mão só — "a minha mão fundou a terra" (Isaías 48:13) —, mas o santuário, com as duas.
No meio da frase, o nome muda. A primeira metade termina em "SENHOR", o nome de quatro letras; a segunda usa "Senhor", o título que significa "meu senhor", "meu dono". A troca pode ser só variação poética, ou pode ser obra de copistas; a história textual está no item 10. Mas no português ela se lê bem: na frase sobre a casa, Deus é chamado de dono.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O SENHOR, chamado duas vezes
Uma pelo nome de quatro letras, outra pelo título "Senhor". É o único agente do verso: leva, planta, faz, estabelece.
"Os"
O povo, que no verso é só objeto. Para a Mekhilta e para Rashi, o pronome exclui quem cantava: entrariam os filhos, não os pais — e não Moisés.
Os montes candidatos
A serra central de Canaã, entre o vale do Jordão e a planície do litoral. O monte Moriá, que a tradição identifica com o lugar do sacrifício de Isaque (Gênesis 22:2, 22:14) e com o monte do Templo (2 Crônicas 3:1). Sião, a colina de Jerusalém que os Salmos chamam de monte santo. Siló, na serra de Efraim, onde a tenda do encontro foi armada depois da conquista (Josué 18:1). Gilgal, junto ao Jordão, perto de Jericó, primeiro acampamento de Israel na terra, onde foram erguidas as doze pedras da travessia e celebrada a primeira Páscoa em Canaã (Josué 4:19-20; 5:10) — que não é um monte.
O monte de Ugarit
O Zafom, montanha isolada junto ao mar, ao norte de Ugarit, na atual fronteira entre a Síria e a Turquia, que os poemas cananeus chamam de "monte da herança" de Baal. O deus Baal-Zefom, que dá nome ao lugar do acampamento junto ao mar, é examinado no estudo de Êxodo 14:10.
O acontecimento que o verso antecipa
A entrada na terra, que só acontece no livro de Josué, e a construção de um santuário, que começa com a tenda do deserto (Êxodo 25-40) e termina, na narrativa bíblica, no Templo de Salomão (1 Reis 6-8).
5. Pontos de Ensino
A viagem tem destino. O cântico não acaba no deserto. A libertação, no verso, só se completa quando o povo é posto num lugar e esse lugar tem Deus no centro.
Quem constrói é Deus. O santuário é "o que as tuas mãos estabeleceram". Antes de qualquer ordem para que o povo construa uma tenda, o cântico afirma que a casa de Deus é obra de Deus. O que Israel fará depois, em Êxodo 25-40, é responder a uma casa que, para o poema, já existia.
Plantar não é instalar. A imagem é de raiz e de tempo. Um povo plantado é um povo que se espera ver ficar, crescer e dar fruto — e que pode, como toda planta, ser arrancado, como os profetas dirão depois.
O monte esquecido. O cântico canta um monte de posse e passa por cima do monte da revelação, o Sinai. A ordem do livro do Êxodo corrige o poema: antes da terra vem a lei.
A palavra antes da coisa. "Santuário" aparece na Bíblia pela primeira vez num poema cantado por gente sem casa. O santuário existe primeiro como promessa cantada, depois como projeto (Êxodo 25), depois como tenda, e só muito depois como templo de pedra.
6. Aspectos Filosóficos
Espaço e lugar: Yi-Fu Tuan
O geógrafo Yi-Fu Tuan (1930-2022), nascido na China e radicado nos Estados Unidos, foi um dos fundadores do que se chamou de geografia humanista: o estudo de como as pessoas sentem, nomeiam e habitam a terra. Em Topofilia (1974) ele descreveu o apego afetivo aos lugares. Em Espaço e lugar (1977) fez a distinção que lhe deu fama.
O livro abre com uma frase: "Lugar é segurança, espaço é liberdade: somos apegados a um e desejamos o outro". O espaço é aberto, é o que permite o movimento, e por isso também ameaça: no espaço não há abrigo. O lugar é fechado, humanizado, carregado de valor. E Tuan explica a passagem de um ao outro com uma imagem simples: se o espaço é aquilo que permite o movimento, o lugar é a pausa; cada pausa no movimento permite que uma localização se transforme em lugar. O espaço indiferenciado vira lugar à medida que o conhecemos melhor e lhe damos valor.
Do verso da estrada ao verso da casa
O cântico atravessa exatamente essa passagem, na ordem de Tuan. O versículo anterior é todo movimento: o povo passa, passa de novo, por terras de outros. Este é todo pausa: levar, plantar, fixar, assentar. As palavras do verso são as palavras do lugar no sentido de Tuan. "Lugar" é, no hebraico, base firme; "habitação" é o verbo de sentar-se; "estabeleceram" vem da mesma raiz de "lugar", a de fixar. Até o verbo agrícola, plantar, é um verbo de parada: a planta é o ser vivo que não sai do lugar.
Tuan dedicou um capítulo ao espaço e ao lugar míticos, e ali descreve um traço comum a muitas culturas: o lugar sagrado como centro, o ponto em que o mundo de cima e o de baixo se tocam e a partir do qual o resto se organiza. A Mekhilta diz isso do santuário deste verso, com a sua linguagem: o santuário de baixo está alinhado com o trono de cima. Na terminologia de Tuan, o monte da herança não é só um destino geográfico; é o centro que transforma uma terra estranha em mundo habitável.
Onde o versículo contradiz Tuan
Para Tuan, o lugar nasce da experiência. Ele se faz com o tempo, pelo uso, pela memória, pelos nomes que se dão, pelas mortes que se enterram ali. Num ensaio de 1980 ("Rootedness versus Sense of Place", "Enraizamento e senso de lugar"), ele distinguiu dois modos de pertencer: o enraizamento, quase inconsciente, de quem vive há gerações no mesmo chão sem pensar nele; e o senso de lugar, consciente e construído, de quem olha o lugar e o valoriza. Os dois exigem tempo humano.
O cântico afirma o contrário em dois pontos. Primeiro, o lugar existe antes da experiência: o povo ainda não chegou, nunca viu o monte, e o monte já é "o lugar que fizeste". Segundo, o autor do lugar não é quem o habita: são as mãos de Deus que estabelecem, e não o uso do povo. É um lugar dado, e não um lugar feito. E o enraizamento, que Tuan descreve como lento, o verso o deseja instantâneo: "tu os plantarás".
Essa diferença não desqualifica nenhum dos dois. Tuan descreve o modo como os seres humanos fazem lugares; o cântico descreve o que um povo sem lugar esperava de Deus. Mas a comparação mostra uma coisa que o resto da Bíblia confirma: o lugar dado ainda teria de virar lugar vivido. Foram gerações até que o "monte da herança" deixasse de ser promessa e fosse chão conhecido — e os profetas descreveram o exílio justamente como o arrancar daquilo que fora plantado.
7. Aplicações Práticas
Um lugar dado ainda precisa ser habitado. O cântico recebe o monte como presente antes de vê-lo; a história de Israel mostra que levou gerações para que ele fosse de fato casa. Quem recebe uma casa, um cargo ou uma comunidade já pronta — uma herança, no sentido próprio — tem diante de si o trabalho que o verso não descreve: transformar o lugar recebido em lugar vivido.
Cantar o que outros vão ver. Pela leitura da Mekhilta, quem cantou "tu os levarás" cantou a chegada dos filhos, não a própria. O verso dá forma a uma atitude que não depende de ver o resultado: trabalhar e celebrar por um lugar em que outros vão morar.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se o santuário é obra das mãos de Deus, por que o povo teve de construir a tenda?
Porque as duas coisas convivem no próprio Êxodo. Em Êxodo 25:8 Deus manda: "façam-me um santuário"; logo em seguida mostra o "modelo" (Êxodo 25:9), e o texto insiste em que tudo seja feito "conforme o modelo que foi mostrado no monte" (Êxodo 25:40). Sforno lê o cântico por esse lado: Deus deu as medidas, os materiais e o desenho, e por isso o que o povo construiu conta como feito por ele (com 1 Crônicas 28:19, a planta do Templo recebida por Davi "da mão do SENHOR"). O santuário é obra divina no projeto e humana na execução.
Por que o verso não diz "Jerusalém"?
Porque a Torá inteira não diz. Jerusalém não é nomeada em nenhum dos cinco livros; o mais perto que se chega é Salém, a cidade de Melquisedeque (Gênesis 14:18), e o monte Moriá (Gênesis 22:2). O Deuteronômio fala sempre do "lugar que o SENHOR escolher para ali fazer habitar o seu nome" (Deuteronômio 12:5, 12:11), sem dizer qual. O cântico segue o mesmo padrão: um monte, um lugar, um santuário, nenhum nome. Para quem data o poema cedo, o silêncio é natural, porque Jerusalém ainda não era de Israel; para quem o data tarde, é discrição de quem escreve dentro de uma história que se passa antes de Davi. O silêncio é um dado; a explicação dele depende da data que se adota.
E os que já moravam no monte?
O versículo não fala deles. Um monte em que se planta um povo, porém, não estava vazio — o próprio cântico acabou de nomear os habitantes de Canaã que "se derreteram" (Êxodo 15:15). O Salmo 44 diz em voz alta o que o cântico deixa implícito: "Com a tua mão expulsaste as nações e os plantaste" (Salmo 44:2). No hebraico do salmo, o verbo de "plantar" é o deste versículo, e o de "expulsar" é o mesmo com que o inimigo, em Êxodo 15:9, ameaçou "desapossar" Israel. O plantio de um povo, na Bíblia, tem o desapossamento de outro como avesso, e o salmo não o esconde.
9. Conexão com Outros Textos
O primeiro plantio de Deus
Gênesis 2:8 — "O SENHOR Deus plantou um jardim no Éden, no oriente, e ali colocou o homem que havia formado."
O mesmo verbo deste versículo, na primeira vez em que Deus planta alguma coisa. No Éden ele planta um jardim e põe nele o homem; no cântico, planta o próprio povo num monte.
Ezequiel 28:13-14 — "Você estava no Éden, jardim de Deus... você estava no monte santo de Deus."
Ezequiel põe o jardim do Éden num "monte santo de Deus". Lidos juntos, Gênesis 2, este versículo e Ezequiel 28 desenham o mesmo lugar ideal: um monte, um plantio, a presença de Deus.
Isaías 60:21 — "O seu povo será todo de justos; para sempre herdarão a terra; são o rebento que eu plantei, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado."
Plantar e "obra das minhas mãos" juntos, como no versículo — só que aqui o que as mãos de Deus fazem é o próprio povo, e não o santuário.
O monte escolhido
Salmo 78:68-69 — "Escolheu a tribo de Judá, o monte Sião, que ele amou. Edificou o seu santuário como as alturas, como a terra que fundou para sempre."
O mesmo salmo que lê o monte do cântico como território santo (Salmo 78:54, comentado no estudo de Êxodo 15:13) dá aqui o endereço: Sião. E repete a ideia da Mekhilta, de que o santuário da terra corresponde às alturas.
Salmo 132:13-14 — "Pois o SENHOR escolheu Sião; desejou-a para sua habitação: 'Este é o meu lugar de repouso para sempre; aqui habitarei, porque a desejei.'"
O verso que Sforno cita: o mesmo verbo de "habitação", agora com lugar nomeado e com a fala do próprio Deus.
O santuário e o trono
Jeremias 17:12 — "Trono de glória, exaltado desde o princípio, é o lugar do nosso santuário."
A palavra "santuário" deste versículo ao lado da palavra "trono", numa frase só. É a equação que a Mekhilta faz ao alinhar o santuário de baixo com o trono de cima.
Isaías 48:13 — "A minha mão fundou a terra, e a minha direita estendeu os céus."
O verso de que a Mekhilta e Rashi tiram a comparação: o mundo, feito com uma mão; o santuário, "com as tuas mãos". A comparação depende de ler só a primeira metade, porque a segunda põe também a direita na criação dos céus.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Tu os levarás e os plantarás no monte da tua herança, o lugar firme que fizeste para a tua habitação, SENHOR, o santuário, Senhor, que as tuas mãos estabeleceram.
Texto hebraico
תְּבִאֵמוֹ וְתִטָּעֵמוֹ בְּהַר נַחֲלָתְךָ מָכוֹן לְשִׁבְתְּךָ פָּעַלְתָּ יְהוָה מִקְּדָשׁ אֲדֹנָי כּוֹנְנוּ יָדֶיךָ׃
Transliteração
tevi'émo ve-tittá'emo be-har nachalatkhá; makhón le-shivtekhá pa'álta YHWH; miqqedásh Adonái konenú yadékha.
Análise palavra por palavra
תְּבִאֵמוֹ — tevi'émo, "tu os levarás".
Raiz bo, entrar, no Hifil (a forma causativa do verbo hebraico): "fazer entrar", "levar para dentro". Imperfeito, segunda pessoa do masculino singular, com o sufixo de objeto -mo, "os", a forma poética antiga do pronome que o cântico usa ao longo do poema; o levantamento das suas ocorrências está no estudo de Êxodo 15:7. É o verbo das promessas da terra, como em Êxodo 13:5.
וְתִטָּעֵמוֹ — ve-tittá'emo, "e os plantarás".
Raiz nata, plantar, no Qal (a forma simples), imperfeito, com o mesmo sufixo -mo. É o verbo de Gênesis 2:8, "plantou um jardim". A Septuaginta usou katafýteuson, "planta-os", um imperativo. O Targum de Ônquelos trocou a imagem: ve-tashrinun, "e os farás habitar". Onde o hebraico tem raiz e árvore, o aramaico tem moradia.
בְּהַר נַחֲלָתְךָ — be-har nachalatkhá, "no monte da tua herança".
Be, "em"; har, monte, na forma de ligação ("monte de"); nachalah, herança, com o sufixo "tua". Nachalah é a parte que cabe a alguém numa divisão, e que passa de pai para filho: o lote de terra de uma família ou de uma tribo. A palavra ugarítica correspondente, nḥlt, aparece na mesma expressão, "monte da minha herança", na boca de Baal.
מָכוֹן — makhón, "o lugar firme".
Substantivo da raiz kun, "estar firme", "ser estável", com o prefixo ma- que forma nomes de lugar: "o lugar firme", "a base". Ocorre dezessete vezes. Oito delas estão na oração de Salomão, em Reis e no paralelo de Crônicas, ora para o Templo, ora para o céu (1 Reis 8:13, 39, 43, 49; 2 Crônicas 6:2, 30, 33, 39); duas, nos salmos de realeza, para a base do trono de Deus: "justiça e direito são a base do teu trono" (Salmo 89:14; 97:2). A Vulgata traduziu com um superlativo, firmissimo habitaculo, "na tua morada firmíssima"; a Septuaginta, hétoimon katoikētḗrion, "morada preparada".
לְשִׁבְתְּךָ — le-shivtekhá, "para a tua habitação".
Preposição le, "para", e o infinitivo de yashav, sentar-se, assentar-se, habitar, com o sufixo "teu": "para o teu sentar". O verbo é o do rei no trono. O ugarítico ṯbt, da mesma raiz, aparece no par "o trono onde ele se assenta" na descrição da morada do deus Kothar.
פָּעַלְתָּ — pa'álta, "fizeste".
Raiz pa'al, fazer, trabalhar, no Qal perfeito, segunda pessoa do singular. É verbo quase só de poesia; a prosa diria asah. A Mekhilta lê nele o trabalho feito "por ação", diferente da criação "pela palavra".
מִקְּדָשׁ — miqqedásh, "o santuário".
Substantivo da raiz q-d-sh, separar, consagrar, com o prefixo de lugar mi-: "o lugar separado". Ocorre setenta e quatro vezes, e esta é a primeira; a segunda é Êxodo 25:8. A grafia deste verso é única: em toda a Bíblia a palavra se escreve miqdash, com a consoante d dobrada; só aqui o ponto de reforço está no q, e a pronúncia muda para miqqedash. Ibn Ezra e Rashbam, os dois comentaristas medievais mais atentos à gramática, param para explicá-la. A Septuaginta traduziu hágiasma, "coisa santificada"; a Vulgata, sanctuarium.
אֲדֹנָי — Adonái, "Senhor".
O título adon, senhor, dono, numa forma especial reservada a Deus ("meu Senhor", com sentido de majestade). No texto massorético (o texto hebraico fixado pelos copistas medievais) está escrito assim, e não com o nome de quatro letras. Os massoretas mantiveram uma lista de cerca de cento e trinta e quatro lugares em que Adonai aparece escrito, e Christian David Ginsburg (estudioso da Massorá do século XIX) sustentou que em muitos deles os escribas antigos tinham posto o título no lugar do nome, por reverência; este verso é um desses lugares. O Pentateuco Samaritano (a Torá conservada pelos samaritanos, com tradição de cópia independente) lê aqui o nome de quatro letras, e Frank Moore Cross considerou essa a leitura mais antiga. A alternativa é que a troca seja do próprio poeta, que variou o nome nas duas metades da linha, como a poesia faz com os sinônimos. Não é possível decidir.
כּוֹנְנוּ — konenú, "estabeleceram".
Raiz kun, a mesma de makhon, numa forma intensiva própria dos verbos desse tipo (o Polel), perfeito, terceira pessoa do plural: o sujeito são "as tuas mãos". O verso abre a sua segunda metade com "o lugar firme" e a fecha com "firmaram": a mesma raiz nas duas pontas. A Vulgata manteve o jogo, firmissimo... firmaverunt.
יָדֶיךָ — yadékha, "as tuas mãos".
O substantivo yad, mão, no dual — a forma hebraica para coisas que vêm em par —, com o sufixo "tuas". É desse dual que a Mekhilta tira a leitura das duas mãos.
11. Conclusão
Do que foi dito sobre o monte e o santuário, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: o cântico não pensa a libertação como errância. Ele a pensa como transplante — tirar um povo de um chão e fixá-lo noutro, onde Deus tem assento. O ponto final da viagem cantada é um lugar firme, e não uma estrada aberta.
A segunda: o verso fala a língua religiosa de Canaã e a usa contra a lógica de Canaã. A fórmula do monte da herança e do trono do assento era a da morada de Baal; no cântico, ela descreve uma casa que Deus faz com as próprias mãos, sem pedir licença a outro deus e sem artesão. Essa mistura de fórmula antiga e conteúdo novo é também o que torna a data do poema tão difícil: o verso pode ser lido como memória do século XII ou como olhar retrospectivo do tempo do Templo, e os dois lados têm argumentos sérios.
A terceira: a casa de Deus aparece primeiro como palavra. O santuário é nomeado pela primeira vez na Bíblia por gente que não tinha casa nenhuma, e numa frase em que, pelo pronome, quem canta talvez nem fosse chegar. O verso deixa a casa pronta antes do povo, e a entrada para os que viriam depois.













