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Êxodo 13:5

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✍️ Por Alberto Adriano·26 de setembro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 23 acessos
E, quando o SENHOR os levar à terra dos cananeus, dos heteus, dos amorreus, dos heveus e dos jebuseus, que ele jurou aos seus pais lhes dar — terra que mana leite e mel —, vocês farão este serviço neste mês.
Moisés fala ao povo apontando o horizonte a leste, com cabras pastando entre pedras e uma tamareira ao fundo, figurando a terra prometida.

Estudo


E, quando o SENHOR os levar à terra dos cananeus, dos heteus, dos amorreus, dos heveus e dos jebuseus, que ele jurou aos seus pais lhes dar — terra que mana leite e mel —, vocês farão este serviço neste mês.

1. Introdução

A festa que Moisés acaba de mandar guardar só será cumprida em outro país, e o versículo nomeia quem mora nele: cinco povos, um por um. É a lista mais curta que a Bíblia faz dos habitantes de Canaã, e falta nela um nome que estava presente dez capítulos antes, no mesmo livro. O direito à terra não é apoiado em ocupação nem em conquista: é apoiado num juramento feito a homens que já morreram. E a partir daqui Moisés muda o tratamento — falava a um povo no plural e passa a falar a uma pessoa no singular, sem voltar atrás até o fim do discurso.

2. Contexto Histórico e Cultural

Cinco nomes de povo numa frase, e o leitor moderno os recebe como se fossem cinco nações com bandeira e fronteira. Não eram. Canaã do segundo milênio antes de Cristo era um mosaico de cidades com muros, cada uma com o seu rei, e nenhuma delas com território comparável ao de um Estado. Os nomes que este versículo alinha não descrevem cinco países vizinhos: descrevem grupos de origem e de fala diferentes, misturados na mesma região, alguns identificáveis fora da Bíblia e outros não.

Três dos cinco têm nome atestado em documentos que não são bíblicos. “Cananeu” aparece em textos egípcios e mesopotâmicos como designação da faixa costeira do Levante e da gente que a habitava; era termo de geografia e de comércio antes de ser termo de lista. “Amorreu” corresponde ao nome que a Mesopotâmia dava a populações de fala semítica ocidental espalhadas por uma área enorme no segundo milênio — dinastias inteiras, a de Hamurabi entre elas, foram chamadas assim. “Heteu” traduz o nome do império que dominou a Anatólia, com capital em Hatusa, e é aqui que começa um problema de método: os heteus da Bíblia moram nas montanhas de Canaã, compram e vendem terreno como vizinhos, e não têm nada da máquina imperial anatólica. A relação entre os dois usos do nome é discutida e nenhuma explicação reuniu consenso. Quem era cada um desses povos, e o que a arqueologia consegue e não consegue confirmar, está examinado no estudo de Gênesis 15:19-21.

Dois dos cinco não têm nome nenhum fora da Bíblia. “Heveu” aparece apenas em texto bíblico, e a proposta mais repetida — que o nome seja uma deformação de “hurrita”, povo bem documentado no norte da Mesopotâmia, por confusão entre duas letras hebraicas parecidas na escrita — é plausível e permanece hipótese. “Jebuseu” está ligado a Jerusalém, e aqui o silêncio dos documentos é chamativo: as cartas encontradas no Egito que tratam da cidade no século XIV antes de Cristo a chamam Urusalim, e não Jebus, e não conhecem nenhum povo com esse nome. A identificação Jebus-Jerusalém é a própria Bíblia que faz, em Juízes 19:10.

A lista que encurtou dentro do mesmo livro

Essas listas de povos são uma família, e o número de membros varia muito: três em Êxodo 23:28, cinco aqui, seis em Êxodo 3:8, sete em Deuteronômio 7:1, dez em Gênesis 15:19-21. A variação não é aleatória no seguinte sentido: a ordem dos nomes mexe pouco e o conjunto de nomes disponíveis é pequeno. O que muda é quantos entram.

Dentro de Êxodo, o movimento é visível e vai numa só direção. Em Êxodo 3:8 e em Êxodo 3:17 são seis nomes, os mesmos e na mesma ordem: cananeu, heteu, amorreu, perizeu, heveu e jebuseu. Aqui são cinco, e o que saiu foi o perizeu. Nenhuma explicação bíblica acompanha a queda.

Os comentadores tentaram. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) resolve pela importância: o perizeu era um dos grupos menores, e a lista abreviou pelo lado mais fraco. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) conta de outro jeito — para ele faltam dois, o perizeu e o girgaseu, se a régua for a lista de sete de Deuteronômio 7:1 — e registra que a tradução grega antiga traz aqui os nomes que o hebraico não traz. Se a informação de Gill estiver correta, os tradutores gregos completaram a lista, o que é o comportamento de quem sentiu a falta.

A outra lista de cinco, que não combina com esta

Há um segundo lugar na Bíblia com exatamente cinco nomes, e ele não coincide com este. Em 1 Reis 9:20, ao descrever quem Salomão pôs a trabalhar por obrigação, o texto alinha amorreus, heteus, perizeus, heveus e jebuseus. O perizeu, que falta aqui, está lá; o cananeu, que abre a lista daqui, não aparece. Duas listas de cinco, e elas divergem em dois nomes. Isso reforça a leitura de que se trata de fórmula, e não de censo: quem escreve puxa de um conjunto conhecido e não se obriga a repetir a mesma seleção.

O que “leite e mel” descreve

A fórmula tem dono no estudo de Êxodo 3:8, onde se examinam o produto, as colmeias encontradas em Tel Rehov e a questão de que mel é esse. Resta o que Rashi (Salomão ben Isaac, rabino francês do século XI, o comentarista judaico mais lido de todos) faz dela neste versículo, que é distribuir as duas palavras entre fontes concretas: o leite escorre das cabras, e o mel, das tâmaras e dos figos. Nenhum dos dois produtos sai de lavoura. Um vem de rebanho, o outro vem de árvore, e os dois se recolhem sem arar.

3. Análise Teológica do Versículo

“E, quando o SENHOR os levar à terra”

O cumprimento tem endereço, e o endereço fica noutro país. Uma ordem que só se executa depois de uma mudança de território é uma ordem sem prazo para quem a recebe, e o discurso não dá sinal de incômodo com isso. A pergunta antiga sobre o que essa condição faz com a obrigação — se a suspende de direito ou apenas de fato — está examinada no estudo de Êxodo 12:25, onde a mesma construção aparece.

O verbo, porém, é outro, e é aqui que este versículo se separa daquele. Em Êxodo 12:25 quem faz a ação é o povo: “quando entrarem na terra”. Aqui quem faz a ação é Deus: ele os leva. A entrada deixa de ser movimento de quem anda e passa a ser condução de quem conduz. A diferença de sujeito reaparece na segunda metade do versículo, onde a terra é dada e não tomada, e atravessa o Pentateuco todo.

“dos cananeus, dos heteus, dos amorreus, dos heveus e dos jebuseus”

A lista está numa oração subordinada. Gramaticalmente, os cinco povos não são alvo de nada: são o modo de identificar a terra. A frase principal deste versículo é sobre a festa — o que se fará, e em que mês. A gente que mora lá entra como endereço.

Essa posição é de fato o que o versículo faz, e ela tem consequência para a leitura. Aqui não há ordem de expulsar, de destruir ou de não fazer aliança. Essas ordens existem, e estão em Êxodo 23:23-33 e em Deuteronômio 7, com desenvolvimento próprio. Lê-las para dentro deste versículo é movimento do leitor. O que este versículo faz é mais estranho e mais desconfortável do que uma ordem: ele nomeia quem está na terra e passa adiante, para falar de pão.

Rashi resolve a lista curta de um jeito só dele: “cananeu” seria termo genérico, de modo que os sete povos estariam todos implicados nele. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) sustenta o mesmo. A leitura funciona porque a palavra realmente tem esse uso amplo em outros lugares. E ela trinca no próprio versículo: se “cananeu” cobre todos, os outros quatro nomes são subdivisões dele, e ainda assim aparecem alinhados ao lado dele, como iguais, ligados pela mesma conjunção. A lista trata os cinco como pares. Não é possível decidir a questão, e o desconforto que ela produz é antigo.

“que ele jurou aos seus pais lhes dar”

O verbo mudou, e a mudança é forte. Em Êxodo 12:25, cinquenta versículos antes, o fundamento da posse era “como prometeu” — o verbo comum de falar. Aqui é “jurou”. Uma fala compromete quem fala; um juramento acrescenta a isso a invocação de uma garantia. E quando o sujeito do juramento é Deus, não existe instância mais alta a quem apelar, de modo que ele jura por si mesmo — e Gênesis 22:16 diz exatamente isso com todas as letras.

Os destinatários do juramento estão mortos. Abraão, Isaque e Jacó não receberam a terra: Gênesis 23 registra que o único terreno que Abraão possuiu em Canaã foi um túmulo, comprado a peso de prata. O direito que este versículo invoca é, portanto, um direito herdado de gente que nunca o exerceu — e é invocado diante de pessoas que, elas próprias, morrerão fora da terra, conforme Números 14 vai registrar.

O texto também não dá motivo nenhum ligado à conduta dos cinco povos. Gênesis 15:16 fornece um, ao falar da iniquidade de um deles que ainda não se completou; Deuteronômio fornece outros. Aqui não há nenhum. A posse é fundada exclusivamente num ato de fala antigo.

“terra que mana leite e mel”

A fórmula entra aqui em posição estranha: depois da lista dos moradores e depois do juramento, como um aposto atrasado. Quem lê em voz alta percebe que a frase já podia ter terminado. O efeito é o de um argumento de venda acrescentado ao fim de um documento — e é precisamente esse o uso da fórmula no livro, que a repete em momentos de persuasão.

“vocês farão este serviço neste mês”

Duas condições, e só uma delas está cumprida. A festa depende de um lugar, que ninguém alcançou, e de um mês, que está acontecendo agora. Êxodo 12:25 tinha dado a condição de lugar sem a de tempo; este versículo acrescenta o mês. O resultado é uma obrigação com duas coordenadas: aqui e agora existe a data, e falta o território.

A palavra traduzida por “serviço” é a mesma que os primeiros capítulos usam para o trabalho forçado dos hebreus, e o eco tem tratamento próprio no estudo de Êxodo 12:25.

A virada que ninguém vê em português

Até aqui Moisés falava no plural — “lembrem-se”, “vocês saíram”, “vocês estão saindo”. Neste versículo o hebraico passa para o singular e não volta: “quando o SENHOR te levar”, “que jurou a teus pais”, “para dar a ti”, “tu farás este serviço”. Do versículo 5 ao 16, o discurso é dirigido a uma pessoa.

A tradução da ABC mantém o plural em português porque o singular soaria como se Moisés estivesse falando com um indivíduo destacado da multidão, o que em hebraico não é o efeito. Mas o dado existe e é verificável em qualquer interlinear, e ele muda o desenho da lei: a partir daqui, a festa não é encargo de uma assembleia, e sim de um chefe de casa, que vai comer pão sem fermento, vai explicar ao filho e vai resgatar o primogênito. É por isso que o capítulo pode terminar em cena doméstica, com uma criança fazendo uma pergunta.

Há quem leia a alternância entre plural e singular como marca de textos de origem diferente reunidos. É leitura possível e não há consenso. Ela também não é necessária: mudar de plural para singular ao passar da exortação para a rubrica prática é procedimento comum nas leis do Pentateuco.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os cinco povos

Os cananeus ocupavam principalmente a faixa costeira e os vales; o nome dá título à terra inteira e também designa um grupo entre outros. Os heteus, na Bíblia, aparecem instalados nas montanhas do sul — é de um deles que Abraão compra a caverna de Macpela, em Gênesis 23 — e a relação desse grupo com o império anatólico de mesmo nome é discutida. Os amorreus aparecem na região montanhosa dos dois lados do Jordão. Os heveus estão ligados a Siquém, em Gênesis 34, e aos gibeonitas, que Josué 9:7 chama por esse nome. Os jebuseus ocupavam Jerusalém, e 2 Samuel 5 narra a tomada da cidadela por Davi.

O nome que falta na lista é o do perizeu, presente em Êxodo 3:8 e em Êxodo 3:17. Do perizeu quase nada se sabe: não há menção externa segura e não há episódio bíblico em que ele atue. Há uma proposta de que o nome não seja de povo, e sim de modo de morar — gente de aldeia aberta, sem muro —, o que explicaria por que ele aparece e desaparece das listas com mais facilidade que os outros. É proposta, não conclusão.

Os pais

São três, e o versículo não os nomeia. Rashi supre os nomes apontando as três passagens do juramento: Gênesis 15:18 para Abraão, Gênesis 26:3 para Isaque e Gênesis 28:13 para Jacó. Nas três, a promessa da terra é feita a um homem que não a possuía. Abraão morreu dono de um túmulo; Isaque cavou poços em terreno disputado; Jacó saiu da terra e morreu no Egito.

A terra

Não é nomeada. Nem aqui, nem em Êxodo 3:8, nem em Êxodo 12:25. Ela é identificada por quem mora nela e pelo que dela escorre, e nunca por um nome próprio. O nome “Canaã” existe no livro e aparece em outros contextos; nesta fórmula, não.

O mês

“Neste mês” retoma o mês nomeado no versículo anterior. É a única das duas condições da ordem que está presente no momento em que a ordem é dada.

O acontecimento que o versículo pressupõe e não narra

Entre a fala e o cumprimento há quarenta anos de deserto, uma geração inteira que morre fora da terra e uma travessia militar. Nada disso está aqui, e nada disso é conhecido de quem ouve. A cena é de um povo recém-saído recebendo instruções de uso para uma casa que ainda não viu.

5. Pontos de Ensino

Uma obrigação pode nascer sem poder ser cumprida

A festa é ordenada a quem não tem onde celebrá-la no formato prescrito. Leis assim existem: elas fixam o dever antes de existirem as condições do dever, e valem como programa. O texto não esconde o intervalo — ele o enuncia, com um “quando”.

O fundamento da posse é um ato de fala

O versículo não diz que a terra é de Israel por conquista, por ocupação antiga ou por superioridade. Diz que é de Israel porque foi jurada. Tudo o que vem depois na história bíblica da terra se apoia nesse tipo de título, e é um título que só existe enquanto alguém se lembra do juramento e o transmite.

Os moradores são nomeados, não apagados

Seria mais fácil dizer “a terra”. O texto diz de quem ela é, no presente, com cinco nomes. Um relato que registra quem estava lá antes deixa no próprio documento o problema que ele cria. Isso não resolve o problema; apenas impede que ele seja esquecido.

A lei desce do povo para a casa

A mudança do plural para o singular, invisível em português, marca o ponto em que o discurso deixa de falar à multidão e passa a falar ao chefe de família. É a partir dela que o capítulo pode acabar com um pai respondendo a um filho.

6. Aspectos Filosóficos

A terra prometida tem gente morando nela, e o versículo diz os nomes dessa gente. O que um juramento feito a três homens mortos pode fazer contra quem está vivo em cima do terreno?

A pergunta não é retórica, e não é moderna. Ela é a pergunta central de um tipo de reivindicação que existe no mundo inteiro: aquela em que alguém sustenta um direito sobre um lugar apoiado num fato antigo. O filósofo que a examinou com mais rigor foi Jeremy Waldron (nascido em 1953, filósofo do direito neozelandês, professor em Nova York), num artigo de 1992 chamado “A superação da injustiça histórica” (Superseding Historic Injustice).

Waldron parte de uma ideia que parece óbvia: se uma posse foi obtida de modo injusto, a justiça pede que se desfaça o que foi feito. Esse é o princípio de retificação, e ele funciona bem em casos curtos. Alguém rouba um cavalo; devolve-se o cavalo. A dificuldade aparece quando o intervalo é longo.

Ela aparece em dois lugares. O primeiro é o problema do que teria acontecido. Para desfazer uma injustiça antiga é preciso dizer como o mundo estaria hoje se ela não tivesse ocorrido — quem estaria vivo, quem teria vendido o quê a quem, quem teria se mudado. Ao longo de séculos, essa reconstrução deixa de ser difícil e passa a ser impossível: as escolhas livres que as pessoas teriam feito não são calculáveis. Sem ela, não há como saber qual devolução repara e qual devolução simplesmente cria uma nova distribuição.

O segundo é o que dá nome ao artigo. Waldron sustenta que as circunstâncias podem tornar irrelevante um título que era válido. O exemplo dele é a água: um poço que pertencia legitimamente a um grupo, quando havia água para todos, muda de estatuto quando a região seca e passa a ser o único poço de que muita gente depende para viver. O título não foi anulado por ninguém; ele foi superado pelas circunstâncias. A justiça, argumenta ele, tem de olhar para quem está aqui agora, e não apenas para quem estava lá antes.

Aplicada a este versículo, a análise corta do lado incômodo. O título que o versículo invoca é a forma mais pura possível de direito histórico: ele se apoia inteiramente num ato passado, um juramento, e em nada do presente — não em ocupação, não em necessidade, não em conduta. É exatamente o tipo de fundamento que o argumento de Waldron enfraquece. Dizer o contrário seria torcer o filósofo para que ele confirme o texto.

E o argumento corta dos dois lados, o que Waldron afirma expressamente. Se a passagem do tempo e a mudança das circunstâncias podem superar um título antigo, podem superar qualquer título antigo — o de quem chegou primeiro, o de quem chegou depois, o de quem foi expulso e o de quem expulsou. Um princípio que só funciona contra um lado não é princípio, é instrumento.

Há três limites a marcar, e todos importam.

O primeiro: o versículo não argumenta. Ele promete. Não há neste texto teoria de justiça nenhuma, nem discussão de títulos, nem consideração de partes. Atribuir-lhe uma posição filosófica seria inventar. O que se pode dizer é que ele põe duas coisas na mesma frase — um juramento antigo e o nome de cinco povos que moram lá — e que essa vizinhança levanta a pergunta, independentemente de quem escreveu.

O segundo: Waldron escreveu sobre reivindicações indígenas na Austrália, na Nova Zelândia e na América do Norte, e sobre direito contemporâneo. Aplicar o aparato dele a um texto do segundo milênio antes de Cristo é movimento do comentarista, e a conclusão de Waldron foi muito criticada — há quem sustente que ela facilita demais o esquecimento de injustiças reais. Não há consenso sobre a tese.

O terceiro, e o mais importante: a disputa política sobre esta mesma terra continua viva hoje, com pessoas de carne e osso dos dois lados, e nem um versículo nem um filósofo a decidem. Este item não a decide e não pretende decidi-la. O que ele mostra é menor e mais honesto: que o problema da posse antiga é um problema de verdade, que o texto o cria sem o discutir, e que quem o discutiu chegou a uma resposta desconfortável para todos.

7. Aplicações Práticas

Assumir compromissos que outro vai cumprir

O versículo dá uma instrução a ser executada num lugar onde quem ouve não vai chegar. Isso acontece em qualquer empresa, família ou projeto de prazo longo: alguém escreve a regra, outro a aplica. O que o texto faz bem é enunciar a condição em voz alta — “quando” — em vez de fingir que a ordem já vale por inteiro. Instruções para o futuro ficam melhores quando dizem de que dependem.

Registrar quem estava lá antes

O versículo nomeia os cinco povos que ocupam a terra prometida. Poderia não nomear. Quem entra num lugar — uma casa, um cargo, um mercado — e anota o que encontrou, e de quem, conserva a informação que torna possível prestar contas depois. Apagar o antecessor é o atalho mais comum e o que mais tarde custa caro.

A diferença entre prometer e jurar

O texto muda de “prometeu” para “jurou” e, com isso, muda o peso. Na vida prática a distinção também existe: há o que se diz e há aquilo em que se empenha a própria palavra diante de testemunhas. Quem usa a segunda forma para tudo a esvazia; quem nunca a usa não consegue comprometer-se de verdade em nada.

O limite

O versículo não trata de conduta pessoal, não dá conselho e não descreve virtude. As três observações acima nascem da forma dele — a condição, a lista e o verbo do juramento —, e é o que ele oferece nesse terreno.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a lista tem cinco nomes aqui e seis em Êxodo 3:8?

O texto não diz, e nenhuma explicação reuniu consenso. As propostas são de três tipos: que a lista abreviou pelo membro menos importante, que os nomes se distribuem por tradições diferentes reunidas no livro, e que “cananeu” funciona como termo genérico e torna o resto dispensável. A terceira é a de Rashi e de Barnes, e tem contra si o fato de a própria frase alinhar os cinco como iguais. É discutido.

Se a terra tinha dono, em que sentido ela podia ser “dada”?

A pergunta é antiga e o versículo não a enfrenta. O que ele faz é escolher o verbo: a terra é dada, não tomada, e quem dá é Deus. Essa escolha desloca a questão para outro terreno — o da propriedade última da terra —, que Levítico 25:23 enuncia ao dizer que a terra é de Deus e que os israelitas nela são forasteiros e moradores temporários. É resposta interna ao sistema do texto, e não resolve a objeção de quem está fora dele.

Os cinco povos foram avisados?

Não, e o texto não trata disso em nenhum lugar. A promessa é feita a Abraão em Gênesis 15, repetida a Isaque e a Jacó, e comunicada aos descendentes. Os moradores da terra aparecem na Bíblia como objeto de listas e de guerras, e uma única vez negociam por conta própria com informação em mãos: os gibeonitas, em Josué 9, que sabem o que está acontecendo e agem por engano para sobreviver. É o episódio em que um dos povos desta lista fala.

Por que o versículo acrescenta “neste mês”, se o mês já foi dito no versículo anterior?

Porque a ordem tem duas coordenadas, e elas estão em regimes diferentes. O lugar é futuro; o mês é anual e recorrente. Dizer “neste mês” é dizer que a data não se move quando o lugar mudar. A repetição não é descuido: é a amarração de uma das duas variáveis.

Por que ninguém nota a mudança do plural para o singular?

Porque o português não a mostra, e a maioria das traduções modernas também não. Em hebraico ela é visível em cinco palavras seguidas deste versículo. Quem lê em tradução recebe um discurso uniforme onde o original tem uma virada — e é uma virada que muda o destinatário da lei.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma lista, com um nome a mais, dez capítulos antes

Êxodo 3:8 — “Por isso desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, a uma terra que mana leite e mel — ao lugar do cananeu, do heteu, do amorreu, do perizeu, do heveu e do jebuseu.”

Seis nomes, na mesma ordem, com o perizeu no meio. A comparação com este versículo é o que torna a falta visível.

A mesma lista, com dez nomes, feita a Abraão

Gênesis 15:19 — “a terra dos queneus, dos quenezeus, dos cadmoneus,”

Gênesis 15:20 — “dos heteus, dos perizeus, dos refains,”

Gênesis 15:21 — “dos amorreus, dos cananeus, dos girgaseus e dos jebuseus.”

A lista mais longa da Bíblia. Quatro dos nomes daqui estão nela; o heveu não está. Os conjuntos se sobrepõem sem coincidir.

A outra lista de cinco, e ela não bate

1 Reis 9:20 — “Quanto a todo o povo que restou dos amorreus, dos heteus, dos perizeus, dos heveus e dos jebuseus, que não eram dos filhos de Israel,”

Cinco nomes, como aqui, e dois deles diferentes: entra o perizeu, sai o cananeu. Séculos depois, a fórmula continua sendo puxada de um conjunto e não de uma tabela fixa.

O juramento que o versículo invoca

Gênesis 15:18 — “Naquele dia o SENHOR fez um pacto com Abrão, dizendo: ‘À sua descendência dei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio, o rio Eufrates:’”

Aqui o verbo é “fez um pacto”, não “jurou”. O juramento como tal aparece em Gênesis 22:16, depois do episódio do monte: “Jurei por mim mesmo, diz o SENHOR”. Este versículo de Êxodo usa a palavra mais forte da série.

A mesma ordem, sem o mês e com o verbo mais fraco

Êxodo 12:25 — “E, quando entrarem na terra que o SENHOR lhes dará, como prometeu, guardem este serviço.”

Três diferenças numa frase curta: lá o povo entra e aqui Deus leva; lá o fundamento é “prometeu” e aqui é “jurou”; lá não há mês e aqui há.

A mesma terra, descrita por lavoura

Deuteronômio 8:8 — “terra de trigo e cevada, de vides, figueiras e romeiras; terra de oliveiras e de mel.”

Sete produtos, e cinco deles de cultivo. A fórmula do leite e do mel escolheu outros dois. As duas descrições falam do mesmo lugar e enfatizam coisas diferentes.

A propriedade última da terra, no sistema do próprio texto

Levítico 25:23 — “E a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; vocês são forasteiros e moradores temporários comigo.”

A frase relativiza a posse de Israel com a mesma força com que relativizaria a de qualquer outro. Ela não resolve o problema dos cinco povos, mas impede que a posse israelita seja lida como absoluta.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E, quando o SENHOR os levar à terra dos cananeus, dos heteus, dos amorreus, dos heveus e dos jebuseus, que ele jurou aos seus pais lhes dar — terra que mana leite e mel —, vocês farão este serviço neste mês.

Texto hebraico

וְהָיָה כִי־יְבִיאֲךָ יְהוָה אֶל־אֶרֶץ הַכְּנַעֲנִי וְהַחִתִּי וְהָאֱמֹרִי וְהַחִוִּי וְהַיְבוּסִי אֲשֶׁר נִשְׁבַּע לַאֲבֹתֶיךָ לָתֶת לָךְ אֶרֶץ זָבַת חָלָב וּדְבָשׁ וְעָבַדְתָּ אֶת־הָעֲבֹדָה הַזֹּאת בַּחֹדֶשׁ הַזֶּה׃

Transliteração

we-hayah ki-yevi'akha YHWH el-erets ha-kena'ani we-ha-chitti we-ha-emori we-ha-chivvi we-ha-yevusi, asher nishba la-avotekha latet lakh, erets zavat chalav u-devash, we-avadta et-ha-avodah ha-zot ba-chodesh ha-zeh.

Análise palavra por palavra

וְהָיָה — we-hayah, “e acontecerá”.

Verbo hayah, “ser, acontecer”, no perfeito com a conjunção que o vira futuro na prosa hebraica. A forma é a abertura padrão das cláusulas de lei que dependem de uma condição futura: ela avisa que vem um “quando”, e é encontrada dezenas de vezes no Pentateuco.

כִי־יְבִיאֲךָ — ki-yevi'akha, “quando ele te levar”.

A partícula ki serve para “quando” e para “se”, e o hebraico não distingue as duas coisas com palavras diferentes. O verbo é bo, “vir, entrar”, no Hifil — a conjugação que transforma o verbo em causativo: não “entrar”, e sim “fazer entrar”, “levar para dentro”. O sufixo é de segunda pessoa masculina singular: “a ti”.

É aqui que o discurso muda de destinatário. Nos versículos 3 e 4 tudo estava no plural. Deste verbo em diante, e até o versículo 16, os sufixos e as terminações verbais são de singular.

הַכְּנַעֲנִי וְהַחִתִּי וְהָאֱמֹרִי וְהַחִוִּי וְהַיְבוּסִי — os cinco nomes.

Todos vêm no singular com artigo: “o cananeu”, “o heteu”, e assim por diante. O hebraico usa o singular coletivo para povo — um único indivíduo representa o conjunto. A ABC traduz por plural porque em português “o cananeu” soaria como uma pessoa. Cada nome é formado com a terminação que transforma um nome de lugar ou de antepassado em nome de povo, do mesmo modo como “Israel” produz “israelita”.

אֲשֶׁר נִשְׁבַּע — asher nishba, “que jurou”.

Verbo shava, “jurar”, no Nifal — a forma que em hebraico é normalmente passiva ou reflexiva. Traduzir por “foi jurado” não funciona aqui, porque o sujeito é Deus e há um objeto indireto (“aos teus pais”): o Nifal deste verbo tem sentido ativo, e os gramáticos o explicam como reflexivo — quem jura, obriga a si mesmo.

A raiz tem parentesco visível com sheva, “sete”, e a explicação corrente é que jurar envolvia originalmente um ato sete vezes repetido, ou a invocação de sete testemunhas. É explicação plausível, discutida e não demonstrada.

לַאֲבֹתֶיךָ — la-avotekha, “aos teus pais”.

Preposição le mais o plural de av, “pai”, com sufixo de segunda pessoa masculina singular. A palavra não diz “antepassados” por outra via: em hebraico os antepassados são simplesmente “os pais”.

לָתֶת לָךְ — latet lakh, “para dar a ti”.

Infinitivo de natan, “dar”, com a preposição de finalidade, seguido da preposição le com sufixo. E aqui há uma curiosidade do texto recebido: o sufixo está vocalizado como feminino singular — lakh, e não lekha. Num versículo em que todos os outros sufixos são masculinos, esse desencontro chama atenção.

Duas explicações circulam. Uma diz que a forma é apenas a variante de pausa do masculino, usada quando a palavra cai num ponto de respiração do verso, e que não há feminino nenhum. Outra diz que os massoretas — os copistas que fixaram a vocalização do texto hebraico entre os séculos VII e X — registraram aqui uma forma feminina por concordância com a palavra “terra”, que é feminina em hebraico. Não é possível decidir, e o sentido não muda nas duas leituras.

אֶרֶץ זָבַת חָלָב וּדְבָשׁ — erets zavat chalav u-devash, “terra que mana leite e mel”.

Zavat é particípio feminino construto do verbo zuv, “fluir, escorrer”. O verbo não é nobre: Levítico 15 o usa para secreções do corpo humano, e é a mesma palavra. A imagem, portanto, não é de rio nem de fonte — é de algo que goteja e vaza. O campo semântico completo da fórmula está no estudo de Êxodo 3:8.

וְעָבַדְתָּ אֶת־הָעֲבֹדָה הַזֹּאת — we-avadta et-ha-avodah ha-zot, “e farás este serviço”.

O verbo avad e o substantivo avodah vêm da mesma raiz, e a construção repete a raiz no verbo e no objeto — “servirás este serviço”. É um recurso comum do hebraico para dar peso, e a tradução em português precisa desfazê-lo, porque “servir um serviço” não se diz. A terminação do verbo é, de novo, de segunda pessoa masculina singular.

בַּחֹדֶשׁ הַזֶּה — ba-chodesh ha-zeh, “neste mês”.

Preposição, artigo, substantivo e demonstrativo. É a mesma palavra para mês do versículo anterior, agora com demonstrativo em vez de nome: lá era “o mês da espiga”, aqui é “este mês”. O texto acabou de nomeá-lo e já pode apontá-lo.

11. Conclusão

O exame do versículo leva a quatro pontos firmes.

A primeira é sobre o fundamento da posse. O versículo não apoia o direito de Israel à terra em ocupação, em antiguidade ou em mérito: apoia-o num juramento, e num juramento feito a três homens que morreram sem possuir nada além de um túmulo comprado. É o tipo de título mais frágil que existe do ponto de vista de quem está fora do texto, e o mais forte do ponto de vista de quem está dentro dele — porque não depende de nenhuma circunstância, apenas da palavra empenhada.

A segunda é sobre a lista. Cinco nomes, num livro que dez capítulos antes trazia seis, e num cânon onde a mesma lista já teve dez. O número varia porque a lista é fórmula, e fórmulas se ajustam ao lugar em que são ditas. Quem cobra dela exatidão de censo cobra o que ela nunca prometeu.

A terceira é sobre a posição dos cinco povos na frase. Eles estão numa oração subordinada, servindo de endereço da terra, e o assunto da frase principal é uma festa de pão. O texto nomeia quem mora lá e segue adiante. Essa vizinhança entre a promessa e os nomes dos que ocupam o terreno é o que faz deste versículo um texto difícil, e ele não a comenta em lugar nenhum.

A quarta é sobre o destinatário. A partir daqui a lei fala a uma pessoa, e não a uma assembleia. É por isso que o restante do capítulo pode ser o que é: um pai comendo pão sem fermento, resgatando um filho e respondendo a uma pergunta. A obrigação coletiva desceu para dentro de uma casa, e ficou lá.

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Êxodo 13:5

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