dos heteus, dos perizeus, dos refains,
1. Introdução
A lista continua com três nomes mais conhecidos: os heteus, os perizeus e os refains.
O primeiro liga a promessa a um dos grandes impérios do mundo antigo. O terceiro já apareceu neste comentário — são os mesmos refains que a coalizão de Gênesis 14 derrotou, o povo associado a estatura extraordinária.
E o segundo é um dos nomes mais obscuros do conjunto, apesar de aparecer com frequência.
2. Contexto Histórico e Cultural
Os heteus
Este nome levanta uma questão histórica interessante.
Os hititas foram um dos grandes impérios do segundo milênio antes de Cristo, com centro na Anatólia, no atual território da Turquia. Chegaram a disputar o domínio da Síria com o Egito, e a batalha de Cades entre eles é um dos episódios mais documentados da antiguidade.
O império caiu por volta do século XII antes de Cristo, no colapso generalizado que atingiu quase todo o Mediterrâneo oriental. Depois disso sobreviveram, no norte da Síria, cidades-estado que se apresentavam como herdeiras.
Por muito tempo, a menção bíblica a heteus em Canaã foi considerada problemática, já que o império ficava longe dali.
A pesquisa posterior mostrou que o termo era usado de modo mais amplo — documentos assírios chamavam de terra dos hititas regiões da Síria muito ao sul do centro imperial. E há evidência de população com nomes de origem anatólica em Canaã.
A Bíblia menciona heteus em várias situações, e todas domésticas. Efrom, de quem Abraão compra o túmulo em Gênesis 23, é heteu. Esaú se casa com mulheres heteias, para desgosto dos pais. Urias, o marido de Bate-Seba, é heteu e serve no exército de Davi.
Note-se que nenhuma dessas menções envolve império ou exército estrangeiro. São vizinhos, comerciantes, sogros, soldados.
Não é possível afirmar com segurança qual a relação exata entre esses grupos e o império anatólico. Registro o que se sabe e a extensão do que não se sabe.
Os perizeus
Aparecem com frequência nas listas, quase sempre ao lado dos cananeus, e no entanto pouco se sabe sobre eles.
Há uma proposta interessante: o nome pode não designar um grupo étnico, e sim uma forma de habitação. A raiz tem relação com aldeias sem muros, povoados abertos — em oposição às cidades fortificadas.
Se essa leitura estiver certa, o termo designaria os moradores do campo, distintos dos habitantes das cidades muradas.
Dois dados favorecem a hipótese. O primeiro é que os perizeus não aparecem em Gênesis 10 entre os descendentes de Canaã, ao contrário da maioria dos outros nomes. O segundo é que a mesma raiz é usada em outros textos bíblicos justamente para designar localidades sem muralha.
É hipótese razoável e não demonstrável. O texto não esclarece.
Os refains
Este nome já apareceu neste comentário, em Gênesis 14:5, quando a coalizão de Quedorlaomer os derrotou em Asterote-Carnaim.
A Bíblia os associa a estatura extraordinária. Deuteronômio 3 descreve Ogue, rei de Basã, como remanescente dos refains, e menciona o tamanho do seu leito de ferro. Deuteronômio 2 informa que os moabitas e os amonitas chamavam por outros nomes os antigos habitantes das suas terras, todos ligados a esse grupo.
O quadro que emerge é o de uma memória sobre população anterior, tida por maior e mais antiga, espalhada pela região a leste do Jordão.
Há um segundo uso da mesma palavra que vale registrar: em vários textos poéticos, ela designa os mortos, as sombras dos que partiram. Salmos, Jó, Provérbios e Isaías a empregam nesse sentido.
Textos de Ugarit, na costa síria, usam um termo aparentado para designar figuras do passado ligadas à realeza e ao culto dos antepassados — o que sugere que a duplicidade não é acidente do hebraico, e sim traço mais antigo da região.
A relação entre os dois usos permanece discutida. Pode haver duas palavras homônimas de origens diferentes; pode haver ligação antiga entre a ideia de antepassados poderosos e a de habitantes primitivos da terra.
Não há consenso, e convém não escolher em silêncio.
3. Análise Teológica do Versículo
"dos heteus"
O nome liga a lista a um dos grandes poderes do segundo milênio antes de Cristo, ainda que o uso bíblico do termo seja mais amplo que o império anatólico.
"dos perizeus"
Nome frequente nas listas e pouco documentado. Possivelmente designa moradores de aldeias abertas, e não um grupo étnico.
"dos refains"
Os mesmos derrotados pela coalizão em Gênesis 14:5. A Bíblia os associa a estatura extraordinária, e a mesma palavra tem, em textos poéticos, o sentido de sombras dos mortos.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os heteus — nome que remete aos hititas, império da Anatólia, embora o uso bíblico designe grupos em Canaã. Efrom, que vendeu o túmulo a Abraão, era heteu.
Os perizeus — frequentes nas listas e pouco documentados. Possivelmente moradores de aldeias sem muros.
Os refains — já mencionados em Gênesis 14:5; associados a estatura extraordinária, e o mesmo termo designa, na poesia, as sombras dos mortos.
Ogue de Basã — descrito em Deuteronômio 3 como remanescente dos refains.
O evento — continuação da lista de povos que habitavam a terra prometida.
5. Pontos de Ensino
Nomes conhecidos escondem pouco conhecimento. Os perizeus aparecem em muitas listas e quase não temos informação sobre eles.
Termos antigos mudam de alcance. "Heteu" designava tanto o império anatólico quanto grupos em Canaã.
A mesma palavra pode ter dois usos distantes. Refains designa um povo e, na poesia, as sombras dos mortos.
Objeções à Bíblia envelhecem. A menção a heteus em Canaã já foi tratada como erro e deixou de ser.
Nem todo nome de lista é étnico. Os perizeus podem designar um modo de morar, e não um povo.
O passado chega em fragmentos. De alguns povos restam episódios; de outros, só o nome.
6. Aspectos Filosóficos
Uma objeção que envelheceu
O caso dos heteus vale ser contado, porque ilustra bem como o conhecimento histórico se move.
Durante muito tempo, a menção bíblica a heteus vivendo em Canaã foi apresentada como problema. O império hitita tinha centro na Anatólia, a centenas de quilômetros dali, e não havia razão aparente para encontrar esse povo no sul.
Alguns trataram a menção como anacronismo ou erro. Houve mesmo um período, no século XIX, em que a existência dos hititas era duvidada por completo — o povo era conhecido apenas por menções bíblicas e egípcias, e a arqueologia ainda não havia localizado o centro do império.
Isso mudou com a identificação das ruínas de Hattusa, na Anatólia central, e com a decifração dos arquivos encontrados ali.
Quanto à presença em Canaã, a pesquisa posterior mudou o quadro. Documentos assírios usam a expressão "terra dos hititas" para regiões da Síria bem ao sul do centro imperial, o que mostra que o termo tinha alcance amplo. E apareceu, em Canaã, evidência de população com nomes de origem anatólica.
Hoje a menção é considerada compatível com o que se sabe, ainda que a relação exata entre esses grupos e o império permaneça discutida.
O episódio ensina duas coisas, e elas apontam em direções opostas.
A primeira: objeções baseadas em ausência de evidência envelhecem mal. O que não se conhecia num momento pode ser conhecido depois, e a história da arqueologia do Oriente Próximo está cheia de exemplos.
A segunda, igualmente importante: o mesmo vale para as confirmações. Assim como a objeção envelheceu, argumentos apologéticos construídos sobre descobertas recentes também podem envelhecer. Já houve identificações celebradas que foram depois revistas, e coisas tidas por confirmadas que voltaram a ser discutidas.
A prudência corta nos dois sentidos, e quem só a aplica de um lado não está sendo prudente — está torcendo.
Quando o nome não é étnico
A hipótese sobre os perizeus merece atenção porque muda o modo de ler a lista.
Se o termo designa moradores de aldeias abertas — em oposição aos habitantes de cidades muradas —, então nem todos os nomes desta lista são do mesmo tipo. Alguns seriam étnicos, outros descreveriam modo de vida ou de assentamento.
Isso é comum em textos antigos. Categorias que hoje separamos com cuidado — povo, tribo, classe, profissão, local de moradia — frequentemente se misturavam.
Aliás, os próprios queneus do versículo anterior podem ser exemplo do mesmo fenômeno, se a ligação do nome com a metalurgia estiver correta: um grupo definido por ofício, e não por linhagem.
Vale reter a cautela. Ler uma lista antiga como se fosse um censo étnico moderno é aplicar categorias que não eram as do texto — e a distorção que isso produz costuma passar despercebida justamente porque a leitura parece natural.
Os refains e as sombras
A duplicidade de sentido do último nome merece nota.
Em textos narrativos, refains designa um povo, associado a estatura extraordinária e à ocupação antiga da terra a leste do Jordão.
Em textos poéticos — salmos, Jó, Isaías, Provérbios —, a mesma palavra designa os mortos, as sombras que habitam o mundo inferior.
As explicações propostas incluem: duas palavras homônimas de origens diferentes; uma ligação antiga entre a ideia de antepassados poderosos e a de habitantes primitivos; ou uma memória de culto aos mortos associado a figuras heroicas do passado.
Textos de Ugarit reforçam a terceira possibilidade, ao usarem um termo aparentado para figuras do passado ligadas à realeza. Mas a distância entre aquele material e o hebraico bíblico é grande o bastante para exigir cautela.
Nenhuma explicação se impõe, e a questão continua discutida.
O que se pode dizer com segurança é que a palavra carrega, nos seus dois usos, a ideia de algo antigo e maior que o presente — gente de outro tempo, seja de outra geração, seja de outro mundo.
O que este versículo mostra sobre o método
Vale uma nota final, porque estes três nomes ilustram bem três situações diferentes de conhecimento.
Dos heteus sabemos muito, inclusive de fontes externas abundantes, e ainda assim a relação precisa com os grupos bíblicos não está resolvida.
Dos perizeus temos uma hipótese razoável e nenhuma confirmação.
Dos refains temos dados abundantes e contraditórios, que apontam para mais de uma direção ao mesmo tempo.
Um comentário que apresentasse os três com o mesmo grau de segurança seria mais fluente e menos verdadeiro. Prefiro marcar a diferença, mesmo ao custo de o texto ficar cheio de ressalvas.
Quem lê tem direito de saber onde o chão é firme e onde não é.
7. Aplicações Práticas
Desconfie de objeções baseadas em ausência
A menção a heteus em Canaã já foi apresentada como erro histórico, porque o império ficava longe. Documentos assírios e achados posteriores mostraram que o termo tinha alcance mais amplo, e a objeção envelheceu.
Ausência de evidência não é evidência de ausência — princípio simples e frequentemente ignorado nos dois lados de qualquer debate.
Ao encontrar um argumento do tipo "não há registro de X, logo X não existiu", pergunte quanto do período em questão está documentado. Costuma ser muito pouco. Isso não transforma qualquer afirmação em verdade; apenas rebaixa a objeção de prova para dúvida.
Aplique a mesma prudência às confirmações
O caso dos heteus é usado com frequência como vitória apologética. E é justo — mas a lição corta nos dois sentidos: se objeções envelhecem, confirmações também podem envelhecer.
Construir a própria convicção sobre a descoberta mais recente é apostar em algo que a próxima descoberta pode mover.
Vale distinguir, no que você acredita, o que depende de evidência circunstancial do que não depende. A primeira categoria exige revisão periódica; a segunda, não. Quem não faz essa separação vive sobressaltado a cada notícia.
Não aplique categorias modernas a textos antigos
Os perizeus podem não ser um grupo étnico, e sim moradores de aldeias abertas. Se for assim, nem todos os nomes desta lista são do mesmo tipo — alguns étnicos, outros descrevendo modo de assentamento.
Categorias que hoje separamos com cuidado costumavam se misturar: povo, tribo, classe, profissão, lugar de moradia.
Ao ler qualquer documento antigo — ou qualquer registro de outra cultura —, resista à tradução automática para as suas categorias. Perguntar "o que essa palavra classificava para quem a usou?" costuma render mais do que encaixá-la nas nossas divisões.
Aceite palavras com dois sentidos distantes
Refains designa um povo e, na poesia, as sombras dos mortos. As explicações propostas são várias e nenhuma se impõe.
Queremos que cada palavra tenha um sentido, e ficamos desconfortáveis quando ela carrega dois que não se conciliam bem.
Isso vale para conversas também. Muitas discussões são disputas sobre o sentido de uma palavra que legitimamente tem mais de um — justiça, liberdade, respeito. Antes de discordar, verifique se vocês estão usando o mesmo termo para a mesma coisa. Frequentemente não estão, e o desacordo evapora.
Registre o que você sabe e o que não sabe
De alguns povos desta lista restam episódios inteiros; de outros, apenas o nome. E de vários, temos hipóteses razoáveis que não se demonstram.
A tentação, ao explicar algo, é apresentar tudo com o mesmo grau de segurança. Isso torna o discurso mais fluente e menos confiável.
Ao ensinar ou relatar qualquer coisa, marque os níveis: isto é certo, isto é provável, isto é hipótese, disto não sei. Quem faz essa distinção perde a aparência de domínio total e ganha o direito de ser acreditado quando afirma com segurança.
Marque os graus de certeza ao ensinar
Estes três nomes ilustram três situações diferentes. Dos heteus sabemos muito e a relação com os grupos bíblicos ainda não está resolvida; dos perizeus temos hipótese razoável e nenhuma confirmação; dos refains, dados abundantes e contraditórios.
Apresentar os três com o mesmo grau de segurança tornaria o texto mais fluente e menos verdadeiro.
Vale como método em qualquer explicação que você dê — a um filho, a um cliente, a uma equipe. Diga o que é certo, o que é provável, o que é palpite e o que você não sabe. Perde-se a aparência de domínio e ganha-se algo melhor: quando você afirmar com segurança, a pessoa terá razão para acreditar.
Suspeite de quem só é prudente de um lado
A lição do caso hitita corta nos dois sentidos: objeções construídas sobre ausência de evidência envelhecem, e confirmações construídas sobre descobertas recentes também.
Na prática, quase todo mundo aplica a prudência apenas contra o lado adversário — exige rigor do argumento que contraria a sua posição e aceita de bom grado o que a favorece.
Faça o teste em si mesmo antes de fazer nos outros: pegue o último argumento que você aceitou com facilidade e submeta-o ao mesmo exame que você faria se ele viesse do outro lado. O resultado costuma ser desconfortável, e é exatamente por isso que vale.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os heteus eram os hititas do império anatólico?
A relação exata é discutida. Os hititas tinham centro na Anatólia, longe de Canaã, mas documentos assírios usam "terra dos hititas" para regiões da Síria bem ao sul, e há evidência de população com nomes de origem anatólica em Canaã. A menção é hoje considerada compatível com o que se sabe, sem que a ligação precisa esteja estabelecida.
Essa menção já foi considerada um erro?
Foi. Durante muito tempo apresentou-se a presença de heteus em Canaã como anacronismo. A pesquisa posterior mudou o quadro — o que ensina que objeções baseadas em ausência de evidência envelhecem mal, e que o mesmo cuidado vale para argumentos construídos sobre descobertas recentes.
Quem eram os perizeus?
Aparecem com frequência nas listas e pouco se sabe sobre eles. Há uma proposta razoável de que o nome não designe um grupo étnico, e sim moradores de aldeias sem muros, em oposição aos habitantes de cidades fortificadas. É hipótese e não se demonstra.
Os refains são os mesmos de Gênesis 14?
Sim, o mesmo nome. Em Gênesis 14:5 a coalizão de Quedorlaomer os derrota em Asterote-Carnaim, e Deuteronômio 3 descreve Ogue, rei de Basã, como remanescente deles.
Por que a mesma palavra designa mortos em alguns textos?
Em salmos, Jó e Isaías, o termo designa as sombras dos que partiram. As explicações incluem homonímia de origens diferentes, ligação antiga entre antepassados poderosos e habitantes primitivos, ou memória de culto aos mortos. Nenhuma se impõe.
Todos os nomes da lista são de povos?
Provavelmente não, se a leitura dos perizeus como moradores de aldeias estiver certa. Categorias que hoje separamos — povo, tribo, modo de assentamento — costumavam se misturar nos textos antigos.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 14:5 — Veio Quedorlaomer, e os reis que estavam com ele, e feriram aos refains em Asterote-Carnaim.
Os refains derrotados pela coalizão, um capítulo antes.
Gênesis 23:10 — Ora Efrom habitava no meio dos filhos de Hete.
Um heteu como vendedor do único terreno que Abraão possuiria.
Deuteronômio 3:11 — Porque só Ogue, rei de Basã, restou dos gigantes; eis que o seu leito era um leito de ferro.
Ogue apresentado como remanescente dos refains, com a menção ao tamanho do leito.
Isaías 14:9 — O inferno desde o profundo se turbou por ti... e despertou os mortos.
O mesmo termo hebraico usado no sentido de sombras dos que partiram.
Josué 17:15 — Sobe ao bosque, e corta para ti ali lugar na terra dos perizeus e dos gigantes.
Perizeus e refains mencionados juntos, em contexto de ocupação de terra.
2 Samuel 11:3 — Não é esta Bate-Seba... mulher de Urias, o heteu?
Um heteu integrado ao exército de Davi, séculos depois.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
dos heteus, dos perizeus, dos refains,
Texto hebraico
וְאֶת־הַחִתִּי וְאֶת־הַפְּרִזִּי וְאֶת־הָרְפָאִים
Transliteração
we-et-ha-Chittí we-et-ha-Perizí we-et-ha-Refaím
Palavra por palavra
הַחִתִּי (ha-Chittí) — "o heteu"
Gentílico derivado de Hete, que Gênesis 10 apresenta como filho de Canaã.
Vale notar essa colocação genealógica: a Bíblia situa os heteus entre os descendentes de Canaã, e não entre os povos do norte. Isso é coerente com o uso bíblico do termo para grupos que viviam na região, e distinto do império anatólico.
הַפְּרִזִּי (ha-Perizí) — "o perizeu"
A raiz tem relação com aldeia sem muros, povoado aberto. A mesma raiz aparece em Deuteronômio e em Ester para designar habitantes de lugares não fortificados.
É essa observação que sustenta a hipótese de que o termo descreva modo de assentamento, e não etnia.
Note-se ainda que este é o único nome da lista que Gênesis 10 não inclui entre os descendentes de Canaã — o que reforça a hipótese, sem demonstrá-la.
הָרְפָאִים (ha-Refaím) — "os refains"
Único nome da lista que aparece no plural, e não no singular coletivo.
Essa irregularidade é notável. Todos os outros nove seguem o padrão "o queneu", "o heteu"; este vem como "os refains".
A diferença pode indicar que o termo funcionava de modo distinto — talvez menos como gentílico e mais como designação de uma categoria.
A raiz é discutida. Propõe-se ligação com um verbo que significa afrouxar, enfraquecer — o que combinaria com o sentido poético de sombras dos mortos, seres sem vigor. Outros propõem raiz distinta para o povo.
Nota — a genealogia por trás da lista
Vale comparar esta lista com a Tábua das Nações de Gênesis 10, porque a comparação é instrutiva.
Ali, entre os descendentes de Canaã, aparecem o heteu, o jebuseu, o amorreu, o girgaseu e o heveu, entre outros. Vários dos nomes desta lista estão lá.
Mas nem todos. Os queneus, os quenezeus, os cadmoneus, os perizeus e os refains não constam entre os filhos de Canaã em Gênesis 10.
Isso sugere que a lista de Gênesis 15 reúne dois tipos de informação: grupos que a tradição bíblica classificava como cananeus por descendência, e outros que simplesmente ocupavam a terra sem essa classificação.
É mais uma indicação de que a lista descreve ocupação efetiva do território, e não uma genealogia — o que combina com a sua função no capítulo, que é dizer quem estava lá.
11. Conclusão
A lista continua com três nomes, e cada um traz uma questão diferente.
O caso dos heteus vale ser contado, porque ilustra como o conhecimento histórico se move. Durante muito tempo, a menção a esse povo vivendo em Canaã foi apresentada como problema — o império hitita tinha centro na Anatólia, a centenas de quilômetros dali, e alguns trataram a menção como anacronismo. A pesquisa posterior mudou o quadro: documentos assírios usam "terra dos hititas" para regiões da Síria bem ao sul do centro imperial, e apareceu em Canaã evidência de população com nomes de origem anatólica.
O episódio ensina duas coisas que apontam em direções opostas. Objeções baseadas em ausência de evidência envelhecem mal — mas o mesmo vale para confirmações. Argumentos apologéticos construídos sobre descobertas recentes também podem envelhecer, e a prudência corta nos dois sentidos.
Sobre os perizeus, há uma hipótese que muda o modo de ler a lista inteira. O nome pode não designar um grupo étnico, e sim moradores de aldeias abertas, em oposição aos habitantes de cidades muradas. Se estiver certa, nem todos os nomes daqui são do mesmo tipo — alguns étnicos, outros descrevendo modo de assentamento. Reforça a hipótese o fato de este ser o único da lista que Gênesis 10 não inclui entre os descendentes de Canaã.
Os refains já apareceram neste comentário, em Gênesis 14:5, quando a coalizão de Quedorlaomer os derrotou. A Bíblia os associa a estatura extraordinária, e Deuteronômio 3 descreve Ogue de Basã como remanescente deles. Vale registrar um segundo uso da mesma palavra: em textos poéticos, ela designa os mortos, as sombras dos que partiram. A relação entre os dois sentidos é discutida e não há consenso — o que se pode dizer é que o termo carrega, nos dois, a ideia de gente de outro tempo.
Uma nota final sobre a lista como conjunto. Vários destes nomes constam da Tábua das Nações de Gênesis 10 entre os descendentes de Canaã; outros, não. Isso sugere que a lista reúne grupos classificados por descendência e outros que simplesmente ocupavam o território — o que combina com a sua função no capítulo, que é dizer quem estava lá.













