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Êxodo 15:9

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 12 acessos
O inimigo disse: ‘Perseguirei, alcançarei, repartirei o despojo; a minha alma se fartará deles; desembainharei a minha espada, a minha mão os desapossará.’
Um comandante egípcio de pé num carro de guerra à beira do mar, ao amanhecer, apontando com a espada para o leito aberto entre paredes de água enquanto a tropa se agita atrás dele.

Estudo


O inimigo disse: ‘Perseguirei, alcançarei, repartirei o despojo; a minha alma se fartará deles; desembainharei a minha espada, a minha mão os desapossará.’

1. Introdução

Pela única vez, o Cântico dá a palavra ao inimigo. São seis frases curtas, sem nenhum “e” entre elas, e quatro delas começam pela letra que, em hebraico, é o próprio “eu” — a fala soa como a de alguém que só sabe dizer “eu”. A ordem denuncia o perseguidor: ele reparte o despojo antes de tirar a espada da bainha. A última palavra usa o verbo com que a Bíblia fala de tomar posse da terra prometida, e os comentaristas antigos o leram de quatro maneiras diferentes. A tradição rabínica foi mais longe e disse que o inimigo não sabia o que estava dizendo.

2. Contexto Histórico e Cultural

Repartir antes de vencer: Megido, século XV antes de Cristo

O erro que a fala do inimigo comete — pensar no despojo antes de terminar a batalha — está registrado com todas as letras numa fonte egípcia, e contra o próprio exército egípcio.

Os Anais de Tutmés III, gravados nas paredes do templo de Amon em Karnak, contam a primeira campanha do rei na Ásia, contra uma coalizão de reis cananeus reunida em Megido. O exército egípcio vence a batalha em campo aberto, e os inimigos correm para a cidade. Os portões já estavam fechados; os de dentro baixam roupas pelas muralhas e puxam os fugitivos para cima, entre eles o rei de Cades. E então o texto oficial, num tom raro em inscrição de faraó, lamenta: “se o exército de Sua Majestade não tivesse entregado o coração a saquear as coisas do inimigo, teria tomado Megido naquele momento” (na tradução de James Henry Breasted, egiptólogo norte-americano do início do século XX).

Os soldados pararam para pegar o que os cananeus tinham deixado no acampamento, e a cidade teve tempo de se fechar. O preço foi um cerco de meses — sete, segundo outra inscrição do mesmo rei. A mesma inscrição traz, depois, a lista do que foi tomado: 924 carros, 2.041 éguas, 200 armaduras, 502 arcos, milhares de cabeças de gado. O despojo veio — mas depois, e mais caro.

A fala de Êxodo 15:9 põe o despojo na terceira frase, antes da espada. O registro de Megido mostra que, para quem conhecia a guerra no mundo antigo, essa ordem tinha nome: era o vício conhecido dos exércitos, o de saquear antes de vencer.

O despojo passava pela mão do rei

Quem reparte o despojo, no Egito? Uma autobiografia de túmulo responde. Amósis, filho de Abana, oficial da marinha egípcia no começo da XVIII dinastia, por volta de 1550 antes de Cristo, mandou escrever na parede do seu túmulo em El-Kab a lista das suas campanhas. Sobre a queda de Avaris, a capital dos hicsos, ele diz: “Então Avaris foi saqueada, e eu trouxe de lá despojo: um homem, três mulheres, ao todo quatro pessoas. Sua Majestade as deu a mim como escravos.”

A frase mostra o circuito. O soldado captura, o capturado é contado, e o rei atribui. O despojo não pertence a quem o toma; pertence a quem o reparte. É por isso que “repartirei o despojo”, na boca do inimigo, não é frase de soldado: é frase de quem manda. Na leitura rabínica, era exatamente a promessa com que Faraó convenceu o seu povo a sair, assunto do estudo de Êxodo 14:6.

Em Israel, a partilha virou lei contra a ganância

A Bíblia também conhece a partilha do despojo como norma, e a registra num episódio em que a ganância é o problema. Em 1 Samuel 30, Davi persegue os amalequitas que tinham saqueado Ziclague. Duzentos dos seus seiscentos homens, exaustos, ficam no ribeiro de Besor guardando a bagagem. Na volta, com o despojo recuperado, alguns dos que lutaram — o texto os chama de “homens maus e vis” — se recusam a dividir com os que ficaram. Davi decide o contrário: “a parte de quem desce à batalha será igual à de quem fica com a bagagem; repartirão juntos”. E o texto conclui: daquele dia em diante ele fez disso “estatuto e direito” para Israel.

Números 31:25-47 traz a regra com números: metade do despojo para os que foram à guerra, metade para a comunidade que ficou, e de cada metade uma fração separada para o santuário. A partilha, em Israel, é desenhada para impedir que quem tem a espada fique com tudo.

Ponha as duas coisas lado a lado e o contraste aparece. A fala do inimigo diz “eu” quatro vezes e “minha” três; a lei de Davi diz “juntos”.

3. Análise Teológica do Versículo

“O inimigo disse”

Em todo o Cântico, só aqui alguém além de quem canta tem a palavra. O inimigo não tem nome — é “o inimigo”, no singular, a mesma palavra de Êxodo 15:6, onde a direita de Deus “despedaça o inimigo”. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) identifica: é Faraó. O Targum de Pseudo-Jônatas (uma das traduções aramaicas expandidas da Torá) não espera o leitor deduzir e escreve “Faraó, o ímpio, o que odeia e é adversário”.

Quando ele disse isso? O verso vem depois das águas paradas do verso 8, e as leituras antigas se dividem sobre a ordem.

Primeira leitura: a fala é anterior a tudo, e o poema a põe fora do lugar. A Mekhilta de Rabi Ismael (o mais antigo comentário rabínico ao Êxodo) diz que o verso “pertence ao começo da seção” e o coloca entre os exemplos da regra de que a Torá não segue ordem cronológica. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) traduz em conformidade: “o inimigo tinha dito”.

Segunda leitura: a fala vem exatamente onde está. Rashbam (Samuel ben Meir, comentarista francês do século XII) e Chizkuni (comentário francês do século XIII) dizem que o inimigo falou “quando viu o mar transformado em terra seca”. Ramban (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) desenvolve: as águas amontoadas e os abismos coalhados do verso 8 foram o que convenceu o perseguidor de que podia entrar. O mesmo prodígio que salvou Israel foi a isca do Egito.

A segunda leitura dá ao verso um sentido mais forte. O inimigo não fala no vazio: fala diante de um mar aberto, e lê o milagre como oportunidade. Não é possível decidir entre as duas, mas a posição do verso no poema favorece a de Ramban.

Como Israel sabia o que Faraó pensava? A Mekhilta responde que o espírito santo repousou sobre eles. A resposta mais simples é que o poema imagina a fala — e Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês da virada para o século XIX) vê nisso a força do verso: quem canta assume a paixão do inimigo e o faz falar.

“Perseguirei, alcançarei, repartirei o despojo”

Leia em voz alta e o ritmo aparece: frases de uma ou duas palavras, sem nenhum “e” entre elas. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) fala de uma fala ofegante, de quem está ao mesmo tempo ansioso e sem fôlego.

E há o som. Em hebraico, o verbo na primeira pessoa do singular começa pela letra alef (a primeira do alfabeto hebraico): o alef é, ali, o próprio “eu”. Seis palavras do verso começam por ela — “disse”, “inimigo”, e os quatro verbos do perseguidor. Não é enfeite: a aliteração é a gramática do “eu” repetida até virar som. E as três frases seguintes terminam todas na mesma vogal, a do possessivo “meu”: a minha alma, a minha espada, a minha mão.

Os dois primeiros verbos são os da prosa. Êxodo 14:9 narrou que os egípcios “os perseguiram” e “os alcançaram” acampados junto ao mar; o poema põe as mesmas duas palavras, na mesma ordem, na boca de quem agia.

O terceiro verbo é o que entrega o inimigo. O despojo é repartido na terceira frase, e a espada só sai da bainha na quinta. A ordem da fala é a ordem do desejo, não a da batalha: ele já está dividindo o que ainda não tomou. Ibn Ezra lê a sequência assim mesmo: primeiro saciar-se, “depois disso” destruir.

E que despojo era esse? Êxodo 12:36 disse, com outra palavra, que Israel “despojou o Egito” ao sair. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) supõe que era isso o que os egípcios queriam de volta, e a Mekhilta põe na boca de Faraó o mesmo argumento. Se é assim, o despojo que o inimigo quer repartir é a sua própria riqueza.

“a minha alma se fartará deles”

“Alma”, aqui, não é a parte imortal da pessoa. A palavra hebraica designa a garganta, o apetite, o desejo: é a “alma” que deseja carne em Deuteronômio 12:20. A Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) a define, neste verso, como a sede da avidez.

Avidez de quê? Os comentaristas se dividem, e cada leitura descreve outro inimigo.

Primeira leitura: de riqueza. Ibn Ezra, citando um gramático anterior, entende “ficarei cheio deles”, isto é, dos seus bens, e liga a frase ao despojo da frase anterior.

Segunda leitura: de vingança. Keil e Delitzsch e o Pulpit Commentary entendem a fúria que quer “se refrescar” sobre eles — depois de dez pragas e da morte dos primogênitos, o ódio era motivo suficiente.

Terceira leitura: de sangue. O Targum de Pseudo-Jônatas traduz “quando a minha alma se fartar do sangue dos seus mortos”.

Quarta leitura: de domínio. O Or HaChaim (Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII) entende o gosto de ter os israelitas de volta como escravos.

Ao pé da letra, porém, a frase diz “a minha alma os encherá”, e a Mekhilta lê exatamente assim.

O inimigo que não sabia o que dizia

A Mekhilta cita Provérbios 16:1 — do homem são os planos do coração, mas do SENHOR vem a resposta da língua — e relê o verso inteiro como se o inimigo tivesse falado o contrário do que queria. “Perseguirei” seria “serei perseguido”; “alcançarei”, “serei alcançado”; “repartirei o despojo”, “o meu despojo será repartido”; “a minha alma os encherá”, os israelitas é que se encheriam com os bens dele.

É leitura de pregador, e ela funciona porque o desfecho a confirma: quem acabou na praia, despojado, foi o Egito. O Cântico não diz isso. Mas a ironia que a Mekhilta torna explícita está na própria posição do verso, entre um mar que parou e um mar que cai.

“desembainharei a minha espada”

O verbo hebraico é “esvaziar”: esvazia-se a bainha quando se tira a espada. Rashi (Salomão ben Isaque, comentarista francês do século XI) defende numa nota longa que o objeto do verbo pode ser a própria espada.

A espada chega tarde na fala, e chega com dono. O Pulpit Commentary nota que espada desembainhada significa morte, não recaptura — o que cria uma tensão com a frase seguinte, que fala de tomar posse. O inimigo quer as duas coisas, e o texto não as harmoniza.

Repare também nos possessivos. A fala do inimigo tem “a minha alma”, “a minha espada”, “a minha mão”. O resto do poema, dirigido a Deus, tem “a tua direita”, “a tua majestade”, “o teu furor”, “as tuas narinas”, “o teu vento”. Quem canta também disse “a minha força”, em Êxodo 15:2 — para dizer que ela é o SENHOR. O inimigo diz “minha” sobre a própria espada e a própria mão, e o poema põe a fala dele entre versos que dizem “teu”.

“a minha mão os desapossará”

O verbo é o de herdar e de tomar posse — o verbo com que Deus promete a terra a Abraão em Gênesis 15:7, “para lhe dar esta terra em herança”, e com que o Deuteronômio fala inteiro da conquista. Na forma deste verso, ele quer dizer fazer outro perder a posse, desalojar. A ironia é que o inimigo usa, contra o povo, o verbo da herança prometida a esse povo.

Os comentaristas antigos não concordaram sobre o sentido exato.

Primeira leitura: “os desapossará”, tirá-los do que têm — a da ABC, apoiada pela Cambridge Bible, que cita Números 14:12, onde Deus ameaça “desapossar” o próprio Israel.

Segunda leitura: “os destruirá”. É a de Ibn Ezra, que cita Números 33:55, e a do Targum de Ônquelos, que traduz “a minha mão os exterminará”.

Terceira leitura: “os empobrecerá”. É a de Rashi, que lembra 1 Samuel 2:7: “o SENHOR empobrece e enriquece”, com o mesmo verbo.

Quarta leitura: “os fará herdeiros”. É a da Mekhilta, que lê o verbo no sentido de dar a herança e, coerente com a sua tese, entende que o inimigo anunciou sem saber que deixaria aos israelitas a sua riqueza e a sua glória.

A Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento) escolheu um quinto caminho: “a minha mão dominará”. Não há consenso, e o verbo admite todas as cinco.

A fala do derrotado dentro de um canto de vitória

O cântico de Débora, em Juízes 5:28-30, faz o mesmo que este verso: dá voz ao lado vencido no momento da derrota. A mãe de Sísera espera o filho à janela, e as damas a consolam imaginando que ele está “repartindo o despojo” — a expressão deste verso. Nos dois poemas o inimigo divide em pensamento o que nunca vai tocar, e o leitor já sabe o fim.

A força da convenção está no que vem depois. Em Juízes, o poema corta da janela da mãe para o fim. Aqui, as seis frases do inimigo recebem resposta no verso seguinte, numa palavra só: “Sopraste”.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O inimigo

O verso não diz quem é. Ibn Ezra, o Targum de Pseudo-Jônatas e a maior parte da tradição identificam Faraó; o singular pode também ser coletivo, o exército falando como um só, e Rashi diz que é Faraó falando “ao seu povo”. O Cântico nomeia Faraó uma única vez, em Êxodo 15:4, e só como dono dos carros. Aqui ele é o inimigo sem nome.

Três facções egípcias

A Mekhilta imagina os egípcios divididos à beira do mar em três grupos, e reparte as frases do verso entre eles. Um grupo dizia: “tomemos os bens deles e não os matemos” — é o “repartirei o despojo”. Outro: “matemos e não tomemos os bens” — é “a minha alma se fartará deles”. O terceiro: “matemos e tomemos os bens” — é “a minha mão os desapossará”. A leitura é engenhosa e serve para mostrar que o verso não contém um plano, e sim vários desejos sobrepostos.

“Deles”, “os”

Os israelitas aparecem no verso só como pronome, objeto de todos os verbos. Na fala do inimigo eles não têm nome nem rosto: são o que se persegue, se alcança e se reparte.

O momento

Na narrativa, a fala cabe entre Êxodo 14:9, quando os egípcios alcançam Israel acampado junto ao mar, e Êxodo 14:23, quando entram atrás deles no leito aberto. Segundo Ramban, ela é dita diante do mar já parado.

5. Pontos de Ensino

A ordem das frases revela o que move a fala

O inimigo reparte antes de lutar. A sequência da fala não é a da batalha, é a do desejo, e o poema a registra sem comentário. O ensino é de leitura: em discurso, a ordem do que se diz costuma mostrar o que pesa mais.

O prodígio pode ser lido ao contrário

Pela leitura de Ramban, o mar parado que abriu caminho para Israel foi o mesmo que atraiu o Egito. O mesmo fato serviu de salvação para uns e de armadilha para outros, conforme o que cada um viu nele. O verso não moraliza, mas mostra que o perseguidor olhou para o mesmo prodígio e enxergou oportunidade.

O “eu” do inimigo e o “tu” do poema

Toda a força do perseguidor está na primeira pessoa: os verbos começam pelo “eu”, as frases terminam em “meu”. O resto do Cântico fala a Deus em segunda pessoa. A oposição não é só de exércitos: é de gramática.

O canto dá voz ao inimigo

Um poema de vitória que cita o derrotado faz uma escolha. Não o silencia nem o caricatura: deixa que ele se descreva com as próprias palavras. O que condena o inimigo, no verso, é o que ele mesmo diz.

6. Aspectos Filosóficos

O que quer quem faz a guerra

O verso é uma lista de objetivos de guerra, ditos na primeira pessoa por quem a faz: alcançar, repartir o despojo, saciar o desejo, matar, tomar posse. A pergunta que ele levanta é antiga e continua aberta: o que, afinal, um Estado busca quando vai à guerra?

Raymond Aron (1905-1983, filósofo e sociólogo francês) dedicou a ela a sua obra mais ambiciosa, Paz e guerra entre as nações, de 1962. A resposta dele é uma classificação, e ela se aplica ao verso quase ponto por ponto.

Os três objetivos abstratos

Para Aron, todo Estado persegue, em proporções variáveis, três fins. A segurança: não ser destruído, não ser ameaçado. O poder: a capacidade de impor a sua vontade aos outros. E a glória: ser reconhecido, admirado, temido — a satisfação do amor-próprio de um povo ou de um governante.

Os dois primeiros são calculáveis: pode-se medir quanto de segurança ou de poder uma guerra traz e quanto custa. O terceiro não tem medida. A glória não se sacia com uma quantidade, e por isso é, na análise de Aron, o mais perigoso dos três: é o que leva um governante a continuar uma guerra que o cálculo mandaria parar.

Os três objetivos concretos

Aron acrescenta o que se disputa materialmente: o espaço (o território), os homens (as populações, que no mundo antigo eram mão de obra, tributo e escravos) e as almas (a adesão a uma fé ou a uma ideia).

O verso na tabela de Aron

Ponha a fala do inimigo nessa classificação e cada frase acha o seu lugar. Segurança não aparece em nenhuma: Israel não ameaçava o Egito, fugia dele. Os homens aparecem em “a minha mão os desapossará” e no motivo que a prosa já tinha dado em Êxodo 14:5 — “deixando Israel de nos servir”: o Egito queria a sua força de trabalho de volta. A riqueza aparece no despojo. E a glória aparece na frase mais reveladora: “a minha alma se fartará deles”. Não é um objetivo de Estado; é um apetite.

Pela análise de Aron, uma guerra movida por segurança termina quando a ameaça acaba, e uma guerra movida por glória não termina. O Egito tinha perdido os primogênitos, o rebanho, as colheitas; nenhum cálculo de poder justificava a perseguição. O que a fala mostra é a guerra entregue ao objetivo sem medida.

Há um dado do próprio Êxodo que torna a análise mais aguda. O capítulo 14 diz três vezes que Deus seria “glorificado em Faraó” (Êxodo 14:4, 14:17 e 14:18). O conflito do mar é, na linguagem do texto, uma disputa de glória — e o verso 9 mostra de que lado ela era apetite.

O limite da comparação

Aron escreve sobre Estados modernos, e a virtude que ele elogia é a moderação de quem sabe parar. Aplicá-lo a um poema antigo é analogia do comentarista; a fala do inimigo é criação poética, não documento de chancelaria. O que a análise de Aron permite ver é por que a fala soa insensata: ela lista fins que nenhum governante prudente perseguiria àquele preço.

7. Aplicações Práticas

Não reparta antes

A Bíblia tem um provérbio para o erro do verso, na boca de um rei de Israel. Em 1 Reis 20:11, Acabe responde à ameaça do rei da Síria: “quem cinge as armas não se gabe como quem as tira”. O inimigo do Cântico gaba-se cingindo. Para quem lê o verso como seu, a aplicação é direta e modesta: planos feitos sobre o que ainda não se tem costumam dizer mais sobre o desejo de quem planeja do que sobre a realidade.

O que a ordem das próprias frases revela

O inimigo não percebeu que a sua fala o expunha. Qualquer pessoa pode fazer o exercício com o que diz quando quer muito alguma coisa: o que vem primeiro na lista? O verso mostra um homem que pôs o lucro antes da espada e o próprio apetite antes de tudo — e não sabia.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O inimigo queria matar ou levar de volta?

O verso não decide. A prosa do capítulo 14 dá como motivo recuperar a mão de obra: “deixando Israel de nos servir”, em Êxodo 14:5. O poema traz a espada desembainhada, que aponta para a morte. As duas coisas podiam conviver — matar uns para recapturar os outros —, e a Mekhilta, com as suas três facções, sugere que conviviam no próprio exército.

Por que o poema cita o inimigo?

Porque a fala dele é a melhor descrição do perigo. Ela mostra de quanto Israel foi salvo melhor do que qualquer número de carros: um exército que já estava repartindo os bens e a vida dos fugitivos. E prepara o contraste do verso seguinte, em que seis frases do perseguidor recebem uma palavra de resposta.

Os egípcios pensaram que o mar era seguro?

Pela leitura de Ramban, sim: viram o mar parado e julgaram que podiam entrar. O Êxodo não registra hesitação dos egípcios à beira da água; em Êxodo 14:23 eles simplesmente entram. O Or HaChaim tira daí que Deus os fez sentir uma segurança falsa. É leitura plausível, e o texto não a afirma.

Não é injusto pôr palavras na boca do inimigo?

O verso é poesia, e o gênero permite e espera que o poeta dê voz a quem não está presente. O que se pode exigir é verossimilhança, e a fala a tem: corresponde ao que a prosa conta sobre a perseguição e ao que as fontes antigas mostram sobre como exércitos tratavam o despojo. Ninguém lê o verso como ata.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma expressão, noutro canto de vitória

Juízes 5:30 — “Não estão achando e repartindo o despojo? Uma moça, duas moças para cada homem; despojo de tecidos coloridos para Sísera, despojo de tecidos coloridos bordados, tecido colorido, dois bordados, para o pescoço dos que saquearam.”

As damas da corte consolam a mãe de Sísera com a mesma expressão de Êxodo 15:9, e a enumeração gaguejante dos tecidos tem o mesmo ritmo ofegante. O leitor sabe, quando lê isso, que Sísera está morto.

O motivo que a prosa dá

Êxodo 14:5 — “Quando foi avisado ao rei do Egito que o povo tinha fugido, o coração de Faraó e o dos seus servos se voltou contra o povo, e disseram: ‘Que foi isso que fizemos, deixando Israel de nos servir?’”

A primeira fala dos egípcios no episódio é sobre perder servos. A do Cântico já é sobre despojo e espada.

O despojo que já tinha mudado de mãos

Êxodo 12:36 — “E o SENHOR deu ao povo favor aos olhos dos egípcios, de modo que estes lhes davam o que pediam. Assim despojaram o Egito.”

Dois capítulos antes, quem despojou foi Israel. O inimigo quer repartir o que já não é dele.

O verbo da herança, na promessa

Gênesis 15:7 — “E o SENHOR lhe disse: ‘Eu sou o SENHOR, que o tirei de Ur dos caldeus para lhe dar esta terra em herança.’”

O verbo de “herança” é o mesmo de “os desapossará”. A promessa usa a raiz para dar a terra a Israel; o inimigo, para tirar tudo de Israel.

Outros que falaram na primeira pessoa

Isaías 10:13-14 — “Pois disse: ‘Com a força da minha mão eu o fiz, e com a minha sabedoria, porque sou inteligente; removi os limites dos povos, saqueei os seus tesouros… A minha mão achou, como a um ninho, as riquezas dos povos.’”

O rei da Assíria, na boca do profeta, fala como o inimigo do Cântico: “a minha mão”, o saque, a primeira pessoa repetida. Isaías responde com a pergunta do machado que se gaba contra quem corta com ele.

Isaías 14:13-14 — “Você dizia no seu coração: ‘Subirei ao céu; acima das estrelas de Deus erguerei o meu trono… subirei acima das mais altas nuvens; serei semelhante ao Altíssimo.’”

Cinco verbos de “eu”, como os do perseguidor, e a mesma queda no fim. A Mekhilta, ao comentar os que se levantam contra Deus, cita justamente o rei da Babilônia.

A resposta ao gabola

1 Reis 20:11 — “Mas o rei de Israel respondeu: ‘Digam-lhe: Quem cinge as armas não se gabe como quem as tira.’”

Salmo 2:4 — “Aquele que habita nos céus ri; o Senhor zomba deles.”

A Mekhilta cita o salmo ao comentar este verso: os povos tramam, e no céu se ri.

A língua que diz mais do que o dono queria

Provérbios 16:1 — “Ao homem pertencem os planos do coração, mas do SENHOR vem a resposta da língua.”

É o versículo com que a Mekhilta sustenta que o inimigo, sem saber, profetizou a própria derrota.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português (ABC)

O inimigo disse: ‘Perseguirei, alcançarei, repartirei o despojo; a minha alma se fartará deles; desembainharei a minha espada, a minha mão os desapossará.’

Texto hebraico

אָמַר אוֹיֵב אֶרְדֹּף אַשִּׂיג אֲחַלֵּק שָׁלָל תִּמְלָאֵמוֹ נַפְשִׁי אָרִיק חַרְבִּי תּוֹרִישֵׁמוֹ יָדִי׃

Transliteração

amar oyev: erdof, assig, achalleq shalal; timla'emo nafshi; ariq charbi, torishemo yadi.

Análise palavra por palavra

אָמַר — amar, “disse”.

Verbo comum de dizer, no Qal (a forma simples do verbo hebraico), perfeito, terceira pessoa. O perfeito narra o fato como concluído; é a forma que o Targum de Ônquelos transforma em mais-que-perfeito, “tinha dito”, para pôr a fala antes da travessia.

אוֹיֵב — oyev, “o inimigo”.

Particípio do verbo ayav, “ser hostil”: “o que hostiliza”. Sem artigo, como é comum na poesia. A palavra aparece no Cântico duas vezes, em Êxodo 15:6 e aqui, e nas duas no singular.

אֶרְדֹּף — erdof, “perseguirei”.

Raiz radaf, Qal, imperfeito, primeira pessoa do singular. O prefixo e-, escrito com a letra alef, é a marca do “eu”. É o verbo de Êxodo 14:4, 14:8, 14:9 e 14:23.

אַשִּׂיג — assig, “alcançarei”.

Raiz nasag, no Hifil (a forma causativa do verbo hebraico), imperfeito, primeira pessoa. É o verbo do perseguidor que apanha quem ia à frente — Labão alcançando Jacó, os egípcios alcançando Israel em Êxodo 14:9 —, e tem também um uso econômico, o de a mão “alcançar” um preço. O campo da palavra está no estudo de Gênesis 31:25.

אֲחַלֵּק שָׁלָל — achalleq shalal, “repartirei o despojo”.

Achalleq é a raiz chalaq, “dividir”, no Piel — a forma intensiva —, primeira pessoa: repartir em quinhões. Shalal é o saque de guerra. A expressão é fixa no hebraico bíblico: Benjamim “à tarde reparte os despojos” em Gênesis 49:27; as damas de Juízes 5:30 imaginam Sísera “repartindo o despojo”; Isaías 9:3 compara a alegria do povo à dos que “repartem o despojo”; Provérbios 16:19 prefere a humildade a “repartir o despojo com os soberbos”. O Targum de Pseudo-Jônatas expande: “repartirei os bens deles entre o meu povo que faz a guerra”.

תִּמְלָאֵמוֹ — timla'emo, “se fartará deles”.

Raiz male, “encher, estar cheio”, no Qal, imperfeito, terceira pessoa feminina — o sujeito é “alma”, que em hebraico é feminino —, com o sufixo poético -mo, “os”. Ao pé da letra: “ela os encherá”. Rashi a explica como abreviação de “se encherá deles”, com paralelos como Jeremias 10:20 (“os meus filhos saíram de mim”, escrito “me saíram”); a Mekhilta a lê ao pé da letra. Ibn Ezra discute a dificuldade e registra uma segunda proposta: o verbo teria aqui o sentido de “ousar, presumir”, como em Ester 7:5 (“quem é aquele que encheu o coração para fazer isso?”). A Septuaginta simplifica: “saciarei a minha alma”.

נַפְשִׁי — nafshi, “a minha alma”.

Substantivo nefesh com o sufixo “meu”. O sentido físico de base é garganta, goela; daí apetite, desejo, vida. Em Isaías 5:14 o Sheol “alarga a sua garganta” — a mesma palavra. Aqui, o desejo que quer se encher.

אָרִיק — ariq, “desembainharei”.

Raiz riq, “esvaziar”, no Hifil, primeira pessoa. Esvaziar a bainha é tirar a espada. A mesma expressão aparece com Deus por sujeito em Levítico 26:33 (“desembainharei a espada atrás de vocês”) e em Ezequiel 5:2, 5:12 e 12:14. Rashi defende que o objeto do verbo pode ser o conteúdo e não o recipiente, citando Jeremias 48:11 (o vinho “não foi esvaziado de vaso em vaso”), e recusa ler aqui o verbo de Gênesis 14:14, onde Abrão “mobilizou” os seus homens.

חַרְבִּי — charbi, “a minha espada”.

Substantivo cherev, a espada ou faca longa, com o sufixo “meu”. Na tradução grega, máchaira; a Septuaginta faz da frase “matarei com a minha espada”.

תּוֹרִישֵׁמוֹ — torishemo, “os desapossará”.

Raiz yarash, no Hifil, imperfeito, terceira pessoa feminina — o sujeito é “mão”, feminino em hebraico —, com o sufixo -mo. No Qal, yarash é herdar, tomar posse: é o verbo da terra prometida em Gênesis 15:7-8 e em todo o Deuteronômio. No Hifil tem dois sentidos opostos — dar a posse a alguém (fazer herdar) e tirar a posse de alguém (desalojar) —, e é daí que nascem as cinco leituras expostas no item 3. A ABC fica com “desapossará”, que guarda o elo com a terra.

Um dado de fora da Bíblia: nas traduções correntes do ciclo de Baal de Ugarit, o deus Mar exige que os deuses lhe entreguem Baal para “herdar o seu ouro”, com um verbo da mesma raiz. Também ali o inimigo usa a palavra da herança para falar do que quer tomar.

יָדִי — yadi, “a minha mão”.

Substantivo yad com o sufixo “meu”. É a última palavra da fala, e a terceira em seguida a terminar em -i, “meu”: nafshi, charbi, yadi. No Cântico, “mão” e “direita” de Deus aparecem em Êxodo 15:6, 15:12 e 15:17; a do inimigo, só aqui.

11. Conclusão

Com base no que se viu, três conclusões.

O inimigo é condenado pelas próprias palavras. O Cântico não o descreve; deixa-o falar. E a fala, curta e sem pausa, mostra um perseguidor que reparte o despojo antes de tirar a espada, que nomeia o próprio apetite e que diz “eu” e “meu” em todas as frases. Nenhum adjetivo do poema o julgaria com mais precisão do que a ordem das suas frases.

A fala só faz sentido diante do mar parado. A posição do verso, logo depois das águas amontoadas e coalhadas, sustenta a leitura de Ramban: o perseguidor leu o prodígio como oportunidade. O que para Israel foi caminho, para o Egito foi convite. A outra leitura, a da Mekhilta e do Targum, põe a fala antes de tudo; não é possível decidir, mas o poema, como está, liga as duas coisas.

O verbo final escolhe uma palavra carregada. “Desapossar” é, em hebraico, o verbo da herança prometida, e os comentaristas antigos o leram como destruir, empobrecer, dominar e até fazer herdar. A ambiguidade não é defeito do texto: deixa o inimigo dizer, sem perceber, a palavra que pertence ao povo que ele persegue — e a resposta do poema, no verso seguinte, cabe numa palavra.

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Êxodo 15:9

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