📖 Navegar na Bíblia:
‹

Êxodo 14:23

›
✍️ Por Alberto Adriano·27 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 25 acessos
Os egípcios os perseguiram e entraram atrás deles, todos os cavalos de Faraó, os seus carros e os seus cavaleiros, até o meio do mar.
Carros de guerra egípcios entrando na passagem aberta no mar durante a noite, atrás do povo que já caminha à frente entre as águas.

Estudo


Os egípcios os perseguiram e entraram atrás deles, todos os cavalos de Faraó, os seus carros e os seus cavaleiros, até o meio do mar.

1. Introdução

O caminho que acabou de salvar um povo recebe agora um exército. É o mesmo chão, a mesma hora e a mesma passagem, e o Êxodo não gasta uma palavra a comentar a coincidência. Duas diferenças mínimas de gramática separam esta entrada da anterior, e as duas são visíveis só no hebraico: muda a preposição, e desaparece a menção ao chão seco. A lista de quem entra é de veículos e montarias, e o exército de infantaria que o capítulo mencionara duas vezes não aparece nela. O que este versículo executa é uma ordem dada seis versículos antes.

2. Contexto Histórico e Cultural

A perseguição era a fase em que se matava

Numa batalha antiga, o combate de frente durava pouco e matava pouco. Duas linhas de homens armados que se encaram e se empurram produzem feridos; o que produz mortos em quantidade é o momento em que uma das linhas se desfaz e passa a correr. É então que o vencedor mata pelas costas, sem risco, e à vontade.

Disso decorre uma coisa que muda a leitura deste versículo: perseguir era a parte lucrativa da guerra, e era também a parte em que a disciplina desaparecia. O perseguidor abandona a formação, deixa de obedecer a sinais e passa a seguir o que vê à frente. Um comandante antigo sabia que, iniciada a perseguição, ele já não comandava — tocar retirada durante uma caçada era quase impossível, porque ninguém está olhando para trás.

E há a segunda característica: quem persegue não escolhe o terreno. A rota é ditada por quem foge. Um exército em caçada entra onde o fugitivo entrou, e faz isso sem reconhecimento prévio, porque parar para reconhecer é perder a presa.

À noite, isso pesa o dobro

Exércitos antigos não operavam no escuro, e as razões são práticas. Sem luz não há sinal visual, e sinal visual era o único meio de coordenar tropa em movimento. Sem luz não se distingue amigo de inimigo. Sem luz não se lê o chão. A regra geral era acampar ao anoitecer e retomar ao amanhecer, e as exceções registradas na Antiguidade são poucas e sempre tratadas como golpe de audácia.

O que este versículo descreve é uma força de carros entrando, no escuro, num terreno que ninguém examinou. Era exatamente o que um oficial experiente não faria.

O exército que morre na água: uma convenção da arte oficial

Há um detalhe de fundo que raramente entra nos comentários deste capítulo, e ele vem dos monumentos.

No palácio sudoeste de Nínive, Assurbanipal fez esculpir em pedra a batalha de Til-Tuba, travada em 653 antes de Cristo contra o reino de Elão, junto ao rio Ulai — hoje no sudoeste do Irã. As lajes, que estão no Museu Britânico, são consideradas a maior composição narrativa que a arte assíria produziu, e a parte inferior delas mostra o que aconteceu com os elamitas depois que a linha cedeu: eles foram empurrados para o rio, e o escultor os representou se afogando, de armas e tudo, entre cavalos e carros virados. Os anais do mesmo rei descrevem a cena com uma frase que reaparece em várias inscrições reais da Mesopotâmia — o rio ficou entupido com os corpos dos inimigos.

O Egito tinha imagens do mesmo tipo. Nos relevos de Ramessés III em Medinet Habu, os invasores derrotados aparecem dentro da água, caídos das embarcações, no meio da cena de vitória.

Isso importa porque mostra que a imagem do exército afogado era, no Oriente Antigo, imagem de derrota consumada. A água é onde se acaba depois de quebrar. Quem olhasse aquelas paredes sabia o que estava vendo: gente que perdeu.

E é aqui que Êxodo 14:23 faz algo que nenhum daqueles monumentos faz. Os egípcios entram na água enquanto ainda estão ganhando. Não foram empurrados, não cederam, não fugiram: perseguiam. A convenção antiga põe o derrotado na água como consequência do colapso; o Êxodo põe o vencedor na água como ato voluntário — e é essa inversão que faz o versículo funcionar sem nenhuma palavra de comentário.

3. Análise Teológica do Versículo

“Os egípcios os perseguiram”

O sujeito é o nome do país, não o povo: em hebraico “Egito” é uma palavra só, e é ela que vem aqui com o verbo no plural, como se o território inteiro corresse atrás de alguém. E é a última vez que o Egito é sujeito de um verbo no capítulo — a partir do versículo 24, tudo o que lhe acontece vem por mão alheia.

“e entraram atrás deles”

Duas palavras, e é nelas que está o versículo.

“Atrás deles” é o refrão do Egito em Êxodo 14, e aparece quatro vezes: nos versículos 10, 19, 23 e 28. No 19 ela troca de dono, porque o que se põe atrás de Israel passa a ser a proteção e não a ameaça; nos outros três é sempre o exército. É a única descrição de posição que o capítulo dá aos perseguidores — o Egito nunca está ao lado, nunca à frente. Está sempre atrás, e é atrás que ele morre.

O verbo “entrar” é o mesmo do versículo 22, e é essa identidade que produz o efeito. O Êxodo não escreve que os egípcios cometeram um erro, não diz que foram imprudentes, não comenta nada. Escreve o mesmo verbo duas vezes e deixa a frase fazer o trabalho: o mesmo ato, praticado por dois grupos, salva um e mata o outro.

Duas diferenças que o português não mostra

A tradução faz este versículo soar como uma repetição do anterior. No hebraico há duas diferenças, e as duas são significativas.

Primeira: muda a preposição. O versículo 22 diz que Israel entrou no meio do mar; este diz que os egípcios entraram até o meio do mar. A primeira forma indica posição — onde eles estavam. A segunda indica direção e alcance — até onde eles foram. Israel é descrito como estando dentro; o Egito, como indo para dentro. Uma frase é de lugar, a outra é de trajetória, e trajetória é o que se interrompe.

Segunda: desaparece o chão. O versículo 22 diz “pelo meio do mar em terra seca”. Este versículo não diz nada disso. Os egípcios entram no mar — e o texto nunca lhes concede o chão firme, nem aqui, nem em nenhum outro lugar do capítulo. Em Êxodo 14:29, o chão seco é atribuído outra vez a Israel, e apenas a Israel.

Isso pode ser economia de narração: o leitor já sabe que o fundo estava exposto, e repetir seria supérfluo. E pode ser o contrário — a recusa deliberada de dar aos perseguidores o mesmo terreno. Não é possível decidir com os dados do texto. O que se pode registrar é que, das quatro menções ao chão seco no capítulo, nenhuma se refere aos egípcios.

“todos os cavalos de Faraó, os seus carros e os seus cavaleiros”

Os três itens da lista são meios de locomoção: o animal, o veículo, o homem que vai nele. Não há infantaria — e o capítulo tinha: em Êxodo 14:9 os egípcios alcançam Israel com “os seus cavaleiros e o seu exército”, e em Êxodo 14:17 Deus fala do “exército” de Faraó. A palavra da força de pé está nesses dois versículos e não está neste.

Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) e o Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) concluem que só a força montada entrou no mar. É leitura razoável — perseguição noturna é coisa de quem tem velocidade —, mas é leitura, e a alternativa é igualmente defensável: que a lista de três seja abreviação da de quatro, como o hebraico faz com frequência.

Há ainda um detalhe que os rabinos notaram: o hebraico escreve “cavalo” no singular. É uso normal da língua para um corpo de tropa inteiro, como se diz “a cavalaria”, e Rashi (Salomão ben Isaac, rabino francês do século XI), citando o Mekhilta, aproveita a forma para dizer que diante de Deus todos aqueles cavalos contavam como um. É jogo de palavra, apresentado como tal.

Faraó não é dito entrar

Repare em quem não aparece. O versículo nomeia os cavalos de Faraó, os carros de Faraó e os cavaleiros de Faraó — e não diz que Faraó entrou. Em todo o capítulo 14 não há uma frase que o coloque dentro do mar, e o Pulpit Commentary marca a ausência.

A tradição não deixou o vazio de pé. O Pirkei de Rabi Eliezer, obra judaica que recontava a história bíblica, escreve o contrário: os egípcios viram que Faraó tinha entrado no mar, e todos entraram atrás dele. É acréscimo, e inverte o dado — o que no Êxodo é silêncio, ali vira o motivo da entrada de todos. O que se pode afirmar é modesto e vale: o livro não diz que Faraó morreu no mar, e a convicção contrária, tão difundida, não vem deste capítulo.

Por que eles entraram?

O Êxodo não explica, e os comentaristas clássicos tentaram, cada um por um caminho.

Primeira explicação: eles supuseram que passariam porque Israel passou. Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês do século XVIII) formula assim: por que não arriscariam onde Israel arriscou, estando eles melhor equipados, com carros e cavalos? Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) diz o mesmo em outras palavras.

Segunda explicação: eles não viam onde estavam pisando. Jamieson, Fausset e Brown (trio de comentaristas britânicos do século XIX) supõem que, por causa da escuridão da nuvem, os egípcios provavelmente não sabiam sobre que terreno avançavam: ouviam o som dos fugitivos à frente e seguiram adiante com a fúria de quem vinga sangue. Ellicott, mais cauteloso, observa que, se não podiam ver, podiam ao menos ouvir a partida.

As duas explicações não se excluem, e juntas formam o quadro mais plausível: gente que não enxergava o chão, guiada pelo ruído, decidindo com base no que outros tinham acabado de fazer. É reconstrução, e o Êxodo não a autoriza nem a proíbe.

“até o meio do mar”

É a última informação do versículo, e é uma medida de distância: até onde eles chegaram. Entre a entrada e a hora marcada do versículo seguinte — a vigília da manhã — há um intervalo que o Êxodo deixa em branco, e durante esse intervalo os dois grupos estão dentro do mar, no mesmo corredor, um atrás do outro. O capítulo não diz quanto tempo durou nem se alguém, de um lado ou do outro, olhou para trás.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os egípcios

O versículo os trata como coletivo e como equipamento. Não há oficial nomeado, não há número, não há fala. Desde Êxodo 14:5, quando o rei e os seus servos mudam de cálculo, ninguém do lado egípcio abre a boca — e a próxima frase que eles dirão, em Êxodo 14:25, será a ordem de fuga.

Faraó

Presente três vezes como possuidor — os cavalos dele, os carros dele, os cavaleiros dele — e ausente como sujeito. Ele é o nome que qualifica a força, e não um homem que entra. O capítulo termina sem informar o que aconteceu com ele.

Os cavalos, os carros e os cavaleiros

A força de choque do Egito, e o único tipo de tropa que este versículo põe dentro do mar. A palavra traduzida por “cavaleiros” designa, na Bíblia hebraica, tanto o homem montado quanto o guerreiro que vai no carro, e a distinção entre os dois é assunto tratado no estudo de Gênesis 49:17.

O meio do mar

O mesmo lugar do versículo anterior, e aqui ele muda de função. Para Israel, era onde se estava; para o Egito, é até onde se foi. O corredor que serviu de caminho passa a servir de ponto de chegada.

O que acontece

A execução de uma ordem. Em Êxodo 14:17, Deus havia dito: “eu tornarei firme o coração dos egípcios, e eles entrarão atrás deles”. Este versículo é a única frase do capítulo que cumpre aquela previsão ao pé da letra, com o mesmo verbo e a mesma expressão — “entrarão atrás deles”, “entraram atrás deles”.

Entre a previsão e o cumprimento há seis versículos, e neles cabem o anjo, a coluna, a noite, o vento e a travessia de um povo. Do ponto de vista do que foi anunciado, tudo isso é preparação para que um exército entre num lugar de onde não sai.

5. Pontos de Ensino

O mesmo caminho, dois desfechos

Este é o ponto do versículo, e ele está feito de gramática: o verbo de entrar é o mesmo nos dois casos. O Êxodo não diz que o caminho era só para uns. Não diz que se fechou, não diz que mudou de natureza quando o outro grupo chegou, e não faz nenhum comentário moral. Escreve o mesmo verbo e segue.

Disso decorre uma coisa que convém não amaciar: não foi o caminho que fez a diferença. O chão era o mesmo, a passagem era a mesma, a noite era a mesma. O que distinguiu os dois grupos não está no terreno.

Quem persegue perde o controle da rota

É um dado militar e é um dado do versículo. O exército egípcio não escolheu entrar no mar: entrou porque era ali que estava quem ele perseguia. A caçada dita o itinerário do caçador, e esse é um dos poucos lugares em que a Bíblia mostra a mecânica disso sem explicá-la.

Repare que é o inverso da situação de Êxodo 14:2, onde Israel foi mandado acampar num lugar sem saída. Lá, a posição foi escolhida por quem ficou encurralado. Aqui, a posição é escolhida por quem está encurralando — e é ela que o encurrala.

O texto não condena ninguém

Nenhum adjetivo, nenhuma acusação, nenhuma nota sobre a insensatez de entrar num mar aberto. Quem lê e acha os egípcios burros está fazendo um comentário que o Êxodo não faz — e vale saber que o está fazendo, porque os comentaristas clássicos que se debruçaram sobre o versículo concluíram, todos, que o raciocínio deles era razoável: eles tinham acabado de ver aquilo funcionar.

O que a ordem de Êxodo 14:17 já dizia

A entrada dos egípcios foi anunciada seis versículos antes, e anunciada como propósito. Isso levanta o problema mais duro do capítulo — o de um endurecimento que produz uma morte prevista —, e esse problema tem tratamento próprio no estudo daquele versículo. Aqui basta registrar que este versículo é o cumprimento textual dele, palavra por palavra.

6. Aspectos Filosóficos

Uma decisão que é uma cópia

Pergunte-se o que os egípcios estavam pensando. A resposta mais plausível não é coragem nem cegueira: é que eles viram um povo inteiro entrar no mar e sair andando. Havia uma demonstração acabada de que aquilo era transitável, feita minutos antes, com testemunhas. Diante de uma prova assim, entrar não é temeridade — é o que qualquer pessoa razoável faria.

Só que a prova não valia. E o motivo pelo qual ela não valia é o que este versículo tem de filosófico.

Gabriel Tarde e as leis da imitação

Gabriel Tarde (1843-1904) foi juiz de instrução na província francesa durante vinte e cinco anos, e chegou à sociologia por esse caminho: passou a vida ouvindo pessoas explicarem por que fizeram o que fizeram. Em 1890 publicou As leis da imitação (Les lois de l'imitation), e a tese é de uma simplicidade desconcertante: o fato social elementar não é a decisão, é a imitação — na imensa maioria dos seus atos, as pessoas fazem o que viram fazer. Tarde não diz isso como acusação, e sim como descrição de economia mental: examinar cada situação do zero é caro, e copiar quem já passou por ela é o método mais eficiente que a espécie encontrou.

Duas das regularidades que ele descreve interessam aqui. A primeira é que a imitação corre do superior para o inferior — copia-se quem tem prestígio, posição ou autoridade, e não quem está ao lado. A segunda é que o que se copia é o ato visível, não as condições dele: a imitação transporta a forma da ação e deixa atrás o que a tornava possível.

Onde a cópia falha

É exatamente aí que Êxodo 14:23 se decide.

O ato copiado é “entrar no mar”, e ele é perfeitamente copiável: pés, rodas, cavalos, chão. A condição do ato era outra coisa — que o mar tivesse sido aberto para alguém — e essa condição não é transportável, porque não pertence ao ato, pertence à relação. Um exército pode reproduzir a manobra inteira e não reproduzir nada do que importava.

É por isso que a pergunta de Benson, citada no item 3, tem resposta: estar melhor provido de carros e cavalos era irrelevante, porque o equipamento pertence ao ato, e o ato não era o ponto. E a primeira das regularidades de Tarde reaparece num detalhe da tradição — o Pirkei de Rabi Eliezer conta que os egípcios entraram porque viram Faraó entrar, que é a versão rabínica do mesmo mecanismo, com o prestígio do superior no lugar da demonstração dos fugitivos.

O limite

Não se conclua daqui que o Êxodo esteja ensinando algo sobre imitação, porque ele não comenta nada: escreve o mesmo verbo duas vezes e cala. E não se conclua que imitar seja erro — Tarde seria o primeiro a recusar isso, porque para ele a cópia é o que torna a vida em comum possível.

O que se pode afirmar é mais estreito e mais desconfortável. Há situações em que a informação mais confiável de que você dispõe — acabei de ver dar certo — é precisamente a informação que o levará ao pior lugar possível. Não por engano de observação: o que eles viram aconteceu mesmo. Por engano sobre o que estavam vendo.

7. Aplicações Práticas

“Deu certo para ele” é a pior das evidências

O versículo encosta na vida prática por um ponto só, e ele é preciso: os egípcios tinham uma demonstração fresca, direta e correta de que a passagem era transitável — e ela não valia nada para eles.

O erro não estava na observação. Estava em supor que o resultado dependia do ato, quando dependia de uma condição que não era do ato. Esse é o formato de um número enorme de decisões ruins tomadas por gente atenta: copiar o negócio que funcionou para o vizinho, repetir o método que salvou outra pessoa, entrar na mesma porta porque alguém acabou de sair por ela inteiro.

A pergunta que este versículo sugere é aquela que os egípcios não fizeram: o que, naquilo que deu certo, não é meu? Ela não impede erro, mas muda o que se examina — do ato para as condições dele.

Perseguir custa o comando do próprio caminho

Quem persegue não escolhe por onde vai: vai por onde o outro foi. Isso vale para exército e vale para qualquer disputa em que a atenção fique presa a um adversário — a rota passa a ser definida por ele.

O versículo não tira moral disso, e não se deve tirar mais do que ele dá. O que está descrito é um exército que entrou num lugar que não teria escolhido, e entrou porque estava olhando para a frente e não para o terreno.

O que não cabe tirar daqui

Uma ressalva, porque o uso corrente é tentador. Este versículo não autoriza dizer que os inimigos de alguém acabarão afogados, nem que quem persegue você vai se destruir sozinho. O capítulo tem uma finalidade declarada em Êxodo 14:4 e 14:17, e essa finalidade não é uma regra geral sobre perseguidores.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Eles viam para onde estavam indo?

Aqui a resposta depende de como se lê Êxodo 14:20, que diz que havia a nuvem e a escuridão e que a noite era iluminada — sem dizer para quem era cada coisa.

Se a treva era do lado egípcio, eles entraram às cegas, guiados por ruído — é a reconstrução de Jamieson, Fausset e Brown. Se havia luz na passagem, eles viam Israel caminhando e seguiram o que viam, que é a inferência de Ibn Ezra. As duas leituras dependem de uma decisão tomada no versículo 20, e é ali que ela se discute.

Um carro de guerra funcionaria num fundo de mar?

O versículo não trata disso, e a pergunta só entra no capítulo no versículo 25, quando as rodas aparecem — é ali que ela tem tratamento. O que cabe registrar é que a dificuldade é real: veículo de roda estreita precisa de chão firme, e ninguém, no Êxodo, informa a consistência daquele chão.

Quanto tempo eles ficaram dentro do mar antes do versículo 24?

O texto não conta. Ele dá a entrada e depois dá uma hora — a vigília da manhã —, e entre as duas coisas há um intervalo em branco.

É o segundo vazio do capítulo, e ele é do mesmo tipo do primeiro: a noite do versículo 21 também não é descrita por dentro. O Êxodo marca começos e horas, e omite duração.

Havia como recuar?

O texto não responde, mas a prática da guerra antiga dá uma resposta parcial: interromper uma perseguição já iniciada era quase impossível, porque a formação se desfaz e ninguém está olhando para quem comanda. Quando os egípcios decidirem fugir, em Êxodo 14:25, será tarde. Isso é contexto, não afirmação do Êxodo, que não discute a possibilidade de recuo.

9. Conexão com Outros Textos

A ordem que este versículo cumpre palavra por palavra

Êxodo 14:17 — “E eis que eu tornarei firme o coração dos egípcios, e eles entrarão atrás deles; e serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército, nos seus carros e nos seus cavaleiros.”

“Entrarão atrás deles” e “entraram atrás deles”: o mesmo verbo e a mesma expressão, seis versículos depois. É o cumprimento mais literal de todo o capítulo — e a lista de lá tem o exército, que a de cá não tem.

A mesma posição, vista pelo outro lado

Êxodo 14:10 — “Quando Faraó se aproximou, os filhos de Israel levantaram os olhos, e eis que os egípcios marchavam atrás deles; e tiveram muito medo, e os filhos de Israel clamaram ao SENHOR.”

Treze versículos antes, “atrás deles” é o que produz pânico. Aqui é o que produz a morte de quem está atrás.

Êxodo 14:19 — “Então o anjo de Deus, que ia adiante do acampamento de Israel, mudou-se e foi para trás deles; e a coluna de nuvem se moveu de diante deles e se pôs atrás deles,”

Entre os dois, a expressão troca de dono: o que estava atrás de Israel passa a ser a proteção.

O fecho da frase

Êxodo 14:28 — “As águas voltaram e cobriram os carros e os cavaleiros de todo o exército de Faraó, que tinham entrado atrás deles no mar; não ficou nem um deles.”

A expressão volta uma quarta vez, agora no passado, para identificar os mortos. O Êxodo não os identifica pelo nome nem pela função: identifica-os pelo lugar em que estavam.

O contraste que o capítulo guarda para o fim

Êxodo 14:29 — “Mas os filhos de Israel caminharam em terra seca pelo meio do mar, e as águas lhes eram muralha à direita e à esquerda.”

Aqui está a diferença que o versículo 23 não enuncia. O chão seco é atribuído a Israel duas vezes no capítulo, e aos egípcios nenhuma.

O mesmo episódio resumido numa frase só

Êxodo 15:19 — “Porque o cavalo de Faraó, com os seus carros e os seus cavaleiros, entrou no mar, e o SENHOR fez voltar sobre eles as águas do mar; mas os filhos de Israel caminharam em terra seca pelo meio do mar.”

O cântico faz o que a prosa evita: põe as duas entradas lado a lado na mesma frase, com a mesma lista de três e a mesma atribuição do chão seco a um dos dois grupos.

Como Israel guardou a memória disto

Neemias 9:11 — “Você dividiu o mar diante deles, e eles o atravessaram em terra seca; e lançou nas profundezas os que os perseguiam, como pedra em águas violentas.”

Séculos depois, numa oração pública, o perseguidor continua designado pelo que fazia — “os que os perseguiam” —, e não por nome de povo ou de rei.

Um relato posterior que corrige a lista

Josué 24:6-7 — “Tirei os seus pais do Egito, e vocês chegaram ao mar; e os egípcios perseguiram os seus pais com carros e cavaleiros até o mar dos Juncos. Então clamaram ao SENHOR, e ele pôs escuridão entre vocês e os egípcios, e trouxe o mar sobre eles e o cobriu.”

Josué recita o episódio com dois itens em vez de três e acrescenta um dado que Êxodo 14 atribui à coluna: a escuridão posta entre os dois grupos.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Os egípcios os perseguiram e entraram atrás deles, todos os cavalos de Faraó, os seus carros e os seus cavaleiros, até o meio do mar.

Texto hebraico

וַיִּרְדְּפוּ מִצְרַיִם וַיָּבֹאוּ אַחֲרֵיהֶם כֹּל סוּס פַּרְעֹה רִכְבּוֹ וּפָרָשָׁיו אֶל־תּוֹךְ הַיָּם׃

Transliteração

wa-yirdefu Mitsrayim wa-yavo'u achareihem, kol sus Par'oh rikhbo u-farashav, el-tokh ha-yam.

Análise palavra por palavra

וַיִּרְדְּפוּ מִצְרַיִם — wa-yirdefu Mitsrayim, “e perseguiu o Egito”.

O verbo é radaf, no Qal — a forma simples do verbo hebraico —, terceira pessoa masculina do plural. A raiz significa correr atrás, ir no rastro de, e nos Salmos e em Provérbios ela aparece aplicada à justiça e à paz: perseguir no bom sentido de ir atrás.

O sujeito é Mitsrayim, o nome do país — palavra gramaticalmente feminina singular, aqui com verbo masculino plural, construção normal em hebraico quando o nome de um lugar designa os seus habitantes. Ao pé da letra, “o Egito perseguiu”.

וַיָּבֹאוּ אַחֲרֵיהֶם — wa-yavo'u achareihem, “e entraram atrás deles”.

O verbo é bo, o mesmo de Êxodo 14:22 — “vir, entrar, chegar”. A repetição não é casual nem exigida pela língua: o hebraico tinha o verbo de atravessar, que usará em Êxodo 14:29 para Israel, e o de descer. Escolheu o mesmo verbo para os dois grupos.

Acharei é o plural em estado ligado de achar, “atrás, depois”, com o sufixo de terceira pessoa do plural. A palavra serve tanto para lugar como para tempo — atrás e depois são a mesma coisa em hebraico —, e por isso a expressão carrega as duas ideias: eles entraram no lugar de trás e no momento de depois.

כֹּל סוּס פַּרְעֹה — kol sus Par'oh, “todo o cavalo de Faraó”.

Sus, “cavalo”, está no singular, precedido de kol, “todo”. Não é erro nem licença poética: é o que as gramáticas chamam de coletivo — o singular que designa a categoria inteira, como quando se diz “a cavalaria” ou “o gado”. Foi essa forma que o Mekhilta aproveitou para a leitura citada no item 3.

רִכְבּוֹ וּפָרָשָׁיו — rikhbo u-farashav, “o seu carro e os seus cavaleiros”.

Rekhev também é coletivo, e no singular: designa o corpo de carros, não um veículo. É a palavra que o Antigo Testamento usa para a arma de carros de um reino inteiro.

Parash, no plural com sufixo, é o termo discutido. Ele designa o combatente que vai a cavalo ou no carro, e a distinção entre os dois é problema conhecido, porque a cavalaria montada como arma organizada é tardia no Oriente Antigo; o assunto tem dono no estudo de Gênesis 49:17. Aqui o que importa é a composição da lista: animal, veículo, tripulante — três palavras que descrevem uma só arma, a força de choque móvel do Egito. A palavra para o exército de pé, que Êxodo 14:9 e 14:17 traziam, não está.

אֶל־תּוֹךְ הַיָּם — el-tokh ha-yam, “até o meio do mar”.

Aqui está a diferença gramatical que separa este versículo do anterior, e ela é de uma letra.

Êxodo 14:22 diz be-tokh ha-yam: a preposição be é “em, dentro de”, e indica posição. Este versículo diz el-tokh ha-yam: a preposição el é “a, para, até”, e indica direção e alcance.

A consequência é de sentido, não de estilo. Israel é descrito como estando dentro do mar; o Egito, como indo para dentro dele — e “até o meio” fixa o ponto mais longe que a marcha alcançou. Uma frase descreve uma situação, a outra descreve um trajeto, e é o trajeto que o versículo 24 vai interromper.

A expressão “o meio do mar” aparece cinco vezes no capítulo — versículos 16, 22, 23, 27 e 29 —, e esta é a única em que ela vem com el.

Um detalhe das versões antigas

A Septuaginta e a Vulgata não conservaram a distinção. As duas traduzem as duas preposições pela mesma construção — “para o meio do mar” —, e é por isso que, em grego, em latim e em português, os dois versículos parecem dizer a mesma coisa. O aviso aqui é geral, e este é um caso claro: o que diferencia duas frases no hebraico pode ser exatamente o que a tradução apaga primeiro.

11. Conclusão

Deste versículo saem três conclusões, e a primeira é a que o capítulo inteiro depende dela.

O caminho não escolhe quem passa. O verbo é o mesmo nos dois versículos, o chão é o mesmo, a noite é a mesma. O Êxodo constrói o contraste mais brutal do livro sem uma palavra de avaliação: escreve “entraram” duas vezes e deixa que a diferença apareça no versículo 28. Quem procurar neste versículo uma explicação de por que um grupo sobreviveu e o outro não vai sair de mãos vazias — a explicação não está no terreno, e o texto não a coloca em nenhum outro lugar acessível.

As duas diferenças estão na gramática, e as traduções as perdem. Israel está no meio do mar; o Egito vai até o meio do mar. E Israel caminha em terra seca; ao Egito o chão seco nunca é atribuído, em nenhuma das quatro menções do capítulo. Pode ser economia de narração, e pode ser recusa deliberada; não é possível decidir. O que se pode afirmar é que a assimetria existe no hebraico, é constante, e desaparece por completo em grego, em latim e em português.

A entrada dos egípcios era razoável. É a conclusão mais desconfortável, e a que os comentaristas clássicos alcançaram sem exceção: eles tinham visto, minutos antes, um povo inteiro entrar e sair andando, estavam melhor equipados, e vinham em perseguição, fase em que ninguém examina terreno. O que tornou a decisão fatal não foi erro de observação, mas a suposição de que o resultado pertencia ao ato.

Resta o que não se conclui. O capítulo não diz se Faraó entrou, não diz se eles viam o chão, não diz quanto tempo ficaram lá dentro e não diz se a força de pé entrou com os carros. Quatro perguntas, quatro silêncios — e, nos quatro casos, a resposta que a maioria dos leitores tem na cabeça vem da tradição posterior, não daqui.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Êxodo 14:23

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%