Tomou seiscentos carros escolhidos e todos os carros do Egito, com oficiais sobre todos eles.
1. Introdução
Este é o único versículo do capítulo que traz números, e ele traz dois: seiscentos carros escolhidos e, em seguida, todos os outros.
Não há infantaria na frase. Não há arqueiros a pé, não há lanceiros, não há coluna de abastecimento — só veículos e os homens que os comandam. E a última palavra do versículo é um termo formado sobre o número três, que a tradição nunca conseguiu traduzir com segurança: pode significar "o terceiro homem do carro" ou "o terceiro na hierarquia abaixo do rei", e as duas leituras têm defensores antigos.
Há ainda uma pergunta que os rabinos fizeram e que continua boa: de onde saíram os cavalos, se Êxodo 9:6 diz que morreram todos os rebanhos do Egito?
2. Contexto Histórico e Cultural
Como era feito um carro de guerra egípcio
Aqui não se depende de reconstituição: existem carros egípcios inteiros. Seis vieram do enterro de Tutancâmon, e há peças e fragmentos dos túmulos de Amenotep II, Tutmés IV, Amenotep III e Ay, além de dois veículos que pertenceram a um casal da alta administração, Yuya e Tuya. Mary Aiken Littauer e Joost Crouwel publicaram em 1985 o estudo técnico dos carros de Tutancâmon, e é dele que vem a maior parte do que se sabe.
As rodas. Todas as dos carros de Tutancâmon têm seis raios. Os carros egípcios mais antigos tinham quatro, e a passagem para seis se consolidou por volta do reinado de Tutmés III — a mudança não é decorativa: mais raios distribuem a carga por mais pontos do aro, o que permitiu afinar o aro e aliviar o peso sem perder resistência. O aro era montado com segmentos de madeira curvada, amarrados com tira de couro cru molhada, que encolhe ao secar e aperta a junta sozinha. Por fora vinha um pneu de couro. A madeira era dobrada a quente e fixada com cola, no mesmo princípio dos móveis de madeira curvada — e assim uma peça fina aguenta esforço considerável, porque as fibras acompanham a curva em vez de serem cortadas por ela.
O eixo. Os construtores egípcios empurraram o eixo para o extremo traseiro da caixa e afastaram as rodas uma da outra. As duas coisas juntas dão uma base larga e baixa, e é isso que permite virar em alta velocidade sem capotar. Havia ainda um forro de couro no ponto em que a roda gira sobre o eixo, provavelmente lubrificado com gordura animal.
O peso e a madeira. Um carro da décima oitava dinastia pesava por volta de trinta quilos — um homem levantava o veículo inteiro. E a madeira era importada: freixo, olmo, ameixeira, trazidas de fora por comércio, porque o Egito não tinha árvore que servisse. É um dado econômico disfarçado de detalhe técnico: cada carro daquela força continha matéria-prima que só chegava por rota internacional.
A tripulação. Dois homens de pé, e só dois. Um conduz e protege; o outro atira. O condutor tinha título próprio na administração egípcia — kedjen — e amarrava as rédeas longas à própria cintura, governando os cavalos pelo deslocamento do corpo, para deixar as mãos livres. O companheiro dele era o combatente, armado com o arco composto. Guarde esse número, porque a última palavra deste versículo vai depender dele.
O corpo de carros e a batalha de Cades
Seiscentos é um número grande? O melhor material para responder é a batalha mais bem documentada da época: Cades, travada por volta de 1274 antes de Cristo entre Ramessés II e os heteus, no vale do Orontes. (O objeto em si — o que valia, o que significava desfilar num — está descrito no estudo de Gênesis 41:43; o que este versículo pede é a outra metade, não o carro de parada e sim a arma.)
Pelos relatos egípcios, os heteus puseram em campo dois mil e quinhentos carros na primeira arrancada e mais um milhar depois. As estimativas modernas do lado egípcio ficam entre dois mil e dois mil e quinhentos veículos. E há um detalhe de organização que interessa diretamente a este versículo: aqueles dois mil e quinhentos carros heteus aparecem distribuídos em quatro corpos, o que dá pouco mais de seiscentos por corpo, se os quatro fossem iguais.
E a diferença que decide o fim do versículo
Cades é também o lugar onde se vê, lado a lado nos relevos, a diferença entre os dois modelos de carro em uso no Oriente. O egípcio é leve e rápido, com dois homens a bordo, e a arma dele é o arco: atira de longe, contorna, volta. O heteu é mais pesado e mais lento e leva três — um condutor, um escudeiro que cobre a tripulação e um combatente de lança comprida —, e a tática dele é chegar junto e derrubar.
Essa divergência de tripulação é exatamente o ponto em que a última palavra deste versículo trava, e a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) é quem a formula com clareza: os carros egípcios levavam apenas dois ocupantes, o condutor e o arqueiro, enquanto os carros dos heteus levavam três. Quem traduz a palavra hebraica deste versículo por "terceiro homem do carro" está, portanto, descrevendo uma tripulação heteia dentro de um exército egípcio. O problema é tratado no item 3.
3. Análise Teológica do Versículo
"Tomou seiscentos carros escolhidos"
A palavra traduzida por "escolhidos" tem uma particularidade que Rashi (Shelomo Yitschaki, rabino francês do século XI, o comentarista judaico mais lido) não deixou passar: em hebraico ela está no singular, embora se refira a seiscentos. A leitura que ele tira disso é precisa — não se trata de um lote genericamente bom, e sim de que cada um daqueles carros era, individualmente, um veículo selecionado. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX e organizador de um comentário coletivo) vê aí uma unidade determinada: uma divisão da guarda real, sempre à disposição do rei.
"e todos os carros do Egito"
O "todos" não pode ser pressionado, e os comentaristas concordam nisso com raro consenso. Ellicott diz que significa "todos os que estavam disponíveis, os que podiam ser convocados de imediato", provavelmente no Baixo Egito. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) é mais específico: os que estavam aquartelados no Baixo Egito, a maioria em Ramessés e nas outras guarnições de fronteira. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) resume: quantos se pudesse juntar em tão pouco tempo.
O problema dos cavalos, e a resposta mais dura do midraxe
Se todos os carros do Egito saem, todos os cavalos do Egito saem com eles. E aí surge a objeção que a Mekhilta de Rabi Yishmael ("a medida", coletânea rabínica de comentários ao Êxodo, do século III) formula em quatro passos, cada um fechando uma saída.
De onde vieram os cavalos? Do Egito, não: Êxodo 9:6 diz que morreram todos os rebanhos do Egito. Dos próprios estábulos de Faraó, não: Êxodo 9:3 avisara que a mão do SENHOR estaria sobre o gado do campo, "nos cavalos" inclusive. De Israel, não: em Êxodo 10:26 Moisés declara que nem um casco ficaria para trás. Sobra uma única possibilidade, e ela está em Êxodo 9:20 — os animais dos servos de Faraó que temeram a palavra do SENHOR e recolheram tudo para dentro das casas antes do granizo.
O raciocínio é rigoroso e o resultado é incômodo: os cavalos que perseguem Israel são justamente os que foram salvos por quem levou a sério a advertência de Deus. Daí a Mekhilta tira, pela boca de Rabi Shimon, uma sentença que ficou célebre pela dureza — que se mate o melhor entre os gentios e se esmague a cabeça da melhor das serpentes.
A frase precisa ser mostrada e também situada. Não é norma legal, e não aparece como tal na literatura rabínica posterior: é a conclusão retórica de uma pergunta de interpretação, e o próprio trecho revela o alvo real quando, na linha seguinte, Rabi Shimon ben Gamliel passa a falar das legiões de Roma. É texto de gente sob ocupação. O achado de leitura, porém, independe da sentença: o Êxodo entrega ao perseguidor os recursos que a obediência havia preservado, e não comenta uma linha a respeito.
"com oficiais sobre todos eles"
A última palavra do versículo é a mais discutida, e o motivo é simples: ela é formada sobre o número três, e ninguém sabe ao certo o que o três está contando.
Primeira leitura: é o terceiro homem do carro. Nessa leitura a palavra designa a tripulação — condutor, combatente e um terceiro. É a leitura que Jamieson, Fausset e Brown (trio de comentaristas escoceses do século XIX) adotam sem hesitar, atribuindo três homens a cada veículo, e é também a que os léxicos hebraicos de referência registram como a explicação mais provável do termo, seguindo estudiosos alemães do fim do século XIX. O custo dela é arqueológico e é caro: o carro egípcio levava dois homens, e quem levava três era o carro heteu.
Segunda leitura: é o terceiro na hierarquia abaixo do rei. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático e comentarista espanhol do século XII) explica a lógica numérica com clareza: o rei corresponde ao número um; quem vem imediatamente depois dele é chamado pelo termo formado sobre "dois"; o terceiro na escada recebe o termo formado sobre "três". Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) sustentam a mesma coisa e são explícitos ao negar a outra — para eles a palavra é o nome do segundo grau abaixo da dignidade real e não designa condutores de carro. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica antiga da Torá) traduz por comandantes postos sobre todos eles, e é essa leitura que Rashi adota, remetendo ao Targum.
A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) desiste da etimologia e fica com "oficial de patente elevada". Não é possível decidir, e é honesto dizer por quê: a palavra aparece poucas vezes na Bíblia, e nas outras vezes ela não está num carro. O levantamento está no item 10, que também trata da segunda ambiguidade da frase — se os oficiais vão um por carro ou sobre o conjunto, ponto em que as versões antigas divergem.
O que o versículo não menciona
Não há soldados a pé. Em nenhuma palavra.
Jamieson, Fausset e Brown dão a explicação militar, e ela funciona: infantaria é inútil numa perseguição rápida, e os egípcios não tinham arma montada. Uma coluna que pretende alcançar em dois dias gente que saiu há quatro não leva quem anda.
Mas há uma consequência de leitura que a explicação militar não esgota. A força que o Êxodo põe atrás de Israel é feita inteira de máquinas e de oficiais. No versículo 6 o rei levou "o seu povo"; no 7 o que se conta são veículos e patentes. Em Êxodo 14:9 o texto vai acrescentar cavaleiros e exército, e em Êxodo 14:28 vai dizer que as águas cobriram carros e cavaleiros. O povo do versículo 6 não é contado em nenhuma dessas listas — ele desaparece dentro delas.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os oficiais
São os únicos seres humanos nomeados neste versículo, e o texto não dá nome, número nem posto a nenhum deles. Sabe-se o que a palavra hebraica provavelmente indica — patente alta, gente próxima do rei na escada do comando — e não se sabe se eles vão um por carro ou à frente do conjunto.
Eles reaparecem uma única vez no livro, no cântico que celebra o afogamento: em Êxodo 15:4 a palavra volta, agora precedida do substantivo "o escolhido de", e diz que os escolhidos entre eles afundaram no mar de juncos. O cântico recolhe as duas palavras deste versículo — os escolhidos e os oficiais — e as afoga juntas.
Os cavalos que não deviam existir
Os animais deste versículo têm uma pequena história dentro do Êxodo, e ela é feita de três versículos anteriores. Em Êxodo 9:3 o SENHOR anuncia que a peste atingiria o gado do campo, cavalos incluídos. Em Êxodo 9:6 o texto registra que morreram todos os rebanhos do Egito. E em Êxodo 9:20 uma parte dos servos de Faraó "temeu a palavra do SENHOR" e recolheu servos e rebanhos para dentro das casas.
São esses animais recolhidos que a leitura rabínica identifica com os cavalos desta perseguição. O Êxodo não faz a ligação; ela é reconstituição, e é a única que fecha a aritmética do livro.
5. Pontos de Ensino
A arqueologia às vezes decide uma discussão de gramática
A leitura "terceiro homem do carro" é boa em hebraico e ruim em campo: o carro egípcio levava dois. O fato material não prova qual é a tradução certa, porque a palavra pode ser um empréstimo, um arcaísmo ou um termo estrangeiro aplicado sem precisão. Mas ele cobra um preço de quem escolhe aquela leitura, e vale saber quanto se está pagando.
O que a obediência preservou serviu ao perseguidor
Os cavalos desta perseguição são, na conta rabínica, os que foram salvos por egípcios que temeram a palavra de Deus em Êxodo 9:20. O Êxodo não comenta, e é justamente o silêncio que ensina: o livro não garante que um ato bom produza consequências boas, e não se incomoda com o desconforto que isso causa.
Uma força só de máquinas e de patentes
O versículo conta veículos e oficiais, e não conta um único soldado a pé. O povo que o versículo anterior tinha mobilizado não aparece em nenhuma das listas seguintes do capítulo. Quem observa como se descreve poder militar reconhece o padrão: contam-se as máquinas, nomeiam-se os comandos, e quem vai dentro fica de fora da conta.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo conta seiscentos veículos e põe oficiais sobre eles. Não conta pessoas. É a descrição de um mecanismo cujas peças são homens, cavalos e madeira curvada, e a pergunta filosófica que ela levanta é a da relação entre organização e máquina: quando é que um conjunto de gente coordenada deixa de ser um grupo e passa a funcionar como um equipamento?
Mumford e a megamáquina
O historiador e filósofo da técnica norte-americano Lewis Mumford (1895-1990) propôs em O mito da máquina (dois volumes, 1967 e 1970) uma tese contraintuitiva: a primeira máquina complexa da história não tinha nenhuma peça de metal. Foi montada no Egito e na Mesopotâmia do terceiro milênio antes de Cristo, e as peças dela eram seres humanos.
Mumford chamou isso de megamáquina. O argumento: para erguer uma pirâmide é preciso coordenar dezenas de milhares de trabalhadores com precisão de encaixe — cada um no seu posto, com a tarefa reduzida a um gesto repetido, transmitindo esforço pela cadeia sem decidir nada. Isso é, funcionalmente, uma máquina: componentes intercambiáveis, transmissão de força, resultado que nenhuma peça produziria sozinha. O que faltava não era o conceito de mecanismo, era o metal. E o motor dela, no desenho de Mumford, era o rei divinizado, porque só uma autoridade absoluta mantinha tanta gente em obediência sincronizada.
Duas consequências dessa tese interessam a este versículo. A primeira é que a organização militar e a organização das grandes obras são, para Mumford, a mesma invenção usada de dois modos: o exército é a megamáquina voltada para fora. A segunda é a que ele mais insiste: uma máquina assim não tem marcha a ré. Ela é excelente em executar e péssima em corrigir, porque a correção exigiria que as peças julgassem — e uma peça que julga deixa de ser peça.
O que isso ilumina na frase
E a observação de Mumford sobre a marcha a ré descreve com precisão o que o capítulo vai narrar. Entre este versículo e Êxodo 14:25, quando os egípcios finalmente dizem "fujamos de diante de Israel", a força não para uma vez, não reavalia, não recua. Ela entra num leito de mar aberto atrás de gente desarmada, o que é uma decisão militar absurda, e entra inteira. A máquina que o versículo monta não tem, por construção, nenhum lugar onde caiba a pergunta "devemos continuar?".
O limite
Mumford é autor de tese forte e contestada: a reconstrução que ele faz do trabalho nas pirâmides é discutida, e hoje se sabe que as equipes eram menores e melhor tratadas do que o desenho dele supõe. Isso não atinge o conceito, que é analítico e não depende da cifra. E o Êxodo não formula nada disso — escreve um verbo, dois números e uma palavra de patente. A aproximação é do comentário, e o que a autoriza é o que a frase conta e o que ela deixa de contar.
7. Aplicações Práticas
Desconfie da força que não tem onde parar
A coluna deste versículo é toda feita de execução: veículos, oficiais, transmissão de ordens. Não há, na descrição, nenhum posto encarregado de perguntar se a operação continua fazendo sentido. E o capítulo mostra o resultado — a força entra atrás de Israel num leito de mar aberto, o que nenhum comandante faria se estivesse avaliando.
A aplicação é de organização, e funciona em qualquer escala. Quando uma coisa é montada só para executar, ela executa até o fim, inclusive o fim ruim. Quem monta uma operação — um mutirão, uma obra, um projeto de trabalho, uma campanha — precisa deixar dentro dela um lugar em que alguém tenha a atribuição explícita de dizer "para". Se esse lugar não existe no desenho, ninguém o inventa no meio do caminho: as pessoas envolvidas estarão ocupadas fazendo bem a parte delas.
O que não dá para aplicar
Não há aqui uma lição sobre confiar em Deus em vez de confiar em carros. Essa lição existe na Bíblia, e tem formulação própria em Salmos e nos profetas — mas não está neste versículo, que apenas conta o material do Egito sem julgá-lo. Atribuí-la a este texto é colar nele uma frase de outro lugar.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Afinal, o que quer dizer "oficiais"?
A palavra é formada sobre o número três, e o três admite dois referentes. Ou conta homens dentro do carro — e aí a leitura tropeça no fato de o carro egípcio levar dois —, ou conta degraus de hierarquia abaixo do rei, como Ibn Ezra e Keil e Delitzsch sustentam. A Cambridge Bible desiste da etimologia e fica com "oficial de patente elevada". Não é possível decidir, e as três saídas continuam em circulação nas traduções modernas.
Se todos os rebanhos morreram em Êxodo 9:6, de onde saíram os cavalos?
A pergunta é da Mekhilta e não tem resposta no texto. A única reconstituição que fecha a aritmética do livro é a rabínica: os animais vieram dos servos de Faraó que temeram a palavra do SENHOR e os recolheram antes do granizo, em Êxodo 9:20. Quem preferir dizer que a fórmula "todos os rebanhos do Egito" é linguagem de totalidade retórica, e não contagem, está dando outra resposta igualmente possível — o Antigo Oriente usava fórmulas absolutas desse tipo com frequência. O Êxodo não decide.
Por que não há infantaria?
A resposta militar é boa: numa perseguição de dois dias, soldados a pé não servem, e o Egito daquele período não tinha tropa montada em cavalos. A resposta de leitura é outra e o texto não a dá: o povo que o rei levou em Êxodo 14:6 não é contado em nenhuma das listas seguintes do capítulo, e o Êxodo não explica se ele ficou atrás, se está incluído nos números ou se simplesmente saiu de cena.
9. Conexão com Outros Textos
A aritmética dos cavalos, montada pelo próprio livro
Êxodo 9:3 — "Pois eis que a mão do SENHOR estará sobre os seus rebanhos que estão no campo: sobre os cavalos, os jumentos, os camelos, o gado e as ovelhas — uma peste muito grave."
Êxodo 9:6 — "E no dia seguinte o SENHOR fez isso: morreram todos os rebanhos do Egito, mas dos rebanhos dos filhos de Israel não morreu nenhum."
Êxodo 10:26 — "Também o nosso gado irá conosco; não ficará nem um casco, porque deles tomaremos para servir ao SENHOR, o nosso Deus. E nós não sabemos com que serviremos ao SENHOR até chegarmos lá."
Êxodo 9:20 — "Quem, dentre os servos de Faraó, temeu a palavra do SENHOR fez os seus servos e os seus rebanhos fugirem para dentro das casas."
Os quatro versículos em que a Mekhilta se apoia, na ordem em que ela os usa: os três primeiros fecham as saídas, e o último abre a única que sobra. É o melhor exemplo, no capítulo, de uma leitura antiga construída inteiramente com material do próprio livro.
A palavra "oficiais" nos outros lugares em que ela aparece
Fora deste versículo e do cântico que o segue, o termo aparece sempre em prosa histórica, e nunca dentro de um carro. As passagens abaixo são as que a discussão sobre o sentido dele leva em conta.
2 Reis 7:2 — "Então o oficial em cuja mão o rei se apoiava respondeu ao homem de Deus: 'Ainda que o SENHOR abrisse janelas no céu, aconteceria isso?' E ele respondeu: 'Você verá com os seus próprios olhos, mas não comerá disso.'"
O único retrato da função em ação. O homem está ao lado do rei, fala em nome da corte e é a pessoa em cujo braço o rei se apoia — o que combina bem com "terceiro na hierarquia" e não combina com "terceiro homem do carro".
O cântico recolhe as duas palavras deste versículo
Em Êxodo 15:4, o poema que celebra a travessia diz que os carros de Faraó e o exército dele foram lançados no mar, e que os escolhidos entre os oficiais dele afundaram no mar de juncos. Os dois termos que este versículo introduz — "escolhidos" e "oficiais" — voltam juntos ali, e é a única outra ocorrência do segundo em toda a Torá.
Como a força cresce de versículo em versículo
Êxodo 14:9 — "Os egípcios os perseguiram — todos os cavalos e carros de Faraó, os seus cavaleiros e o seu exército — e os alcançaram acampados junto ao mar, perto de Pi-Hairote, diante de Baal-Zefom."
Êxodo 14:28 — "As águas voltaram e cobriram os carros e os cavaleiros de todo o exército de Faraó, que tinham entrado atrás deles no mar; não ficou nem um deles."
A lista deste versículo traz carros e oficiais; dois versículos adiante ela ganha cavalos, cavaleiros e exército; e no fim do capítulo o que as águas cobrem são carros e cavaleiros. Em nenhuma das três listas aparece o povo que o rei levou consigo em Êxodo 14:6.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Tomou seiscentos carros escolhidos e todos os carros do Egito, com oficiais sobre todos eles.
Texto hebraico
וַיִּקַּח שֵׁשׁ־מֵאוֹת רֶכֶב בָּחוּר וְכֹל רֶכֶב מִצְרָיִם וְשָׁלִשִׁם עַל־כֻּלּוֹ
Transliteração
vayyiqqach shesh-me'ot rekhev bachur, ve-khol rekhev Mitsrayim, ve-shalishim al-kullo.
Análise palavra por palavra
וַיִּקַּח — vayyiqqach. "E tomou."
Qal — a forma simples e ativa do hebraico — do verbo laqach, tomar, pegar, levar. É exatamente o mesmo verbo do versículo anterior, onde o objeto era "o seu povo". Dois versículos, o mesmo verbo, dois objetos: gente e veículos.
רֶכֶב — rekhev. "Carros."
A peculiaridade que a tradução não mostra: a palavra está no singular, embora venha contada em seiscentos. Rekhev é substantivo coletivo — designa o conjunto sem ir para o plural, como "gado" em português —, é a mesma palavra do versículo 6 e é ela que reaparece cinco palavras adiante abrangendo "todos os carros do Egito". O outro substantivo hebraico para carro, merkavah, designa a peça individual e não aparece aqui.
בָּחוּר — bachur. "Escolhidos."
Particípio passivo do Qal do verbo bachar, escolher, selecionar, preferir. E também ele está no singular, concordando com o substantivo coletivo.
וְשָׁלִשִׁם — shalishim. "Oficiais."
Esta é a palavra difícil do versículo, e o exame completo dela é o serviço que este item presta.
O termo é derivado de shalosh, três, e está no plural masculino — é a única palavra do versículo que está no plural. Aparece dezessete vezes na Bíblia hebraica, em três grupos de sentido que só têm em comum o número de origem. Como medida de volume, em Isaías 40:12 e no Salmo 80:5, provavelmente a terça parte de outra medida. Como instrumento musical, em 1 Samuel 18:6, talvez de três cordas, de três hastes ou de forma triangular; o sentido é incerto e as traduções antigas hesitam. Como título militar ou de corte, aqui e em Êxodo 15:4, 2 Samuel 23:8, 1 Reis 9:22, 2 Reis 7:2, 7:17, 7:19, 9:25, 10:25 (duas vezes) e 15:25, 2 Crônicas 8:9 e Ezequiel 23:15 e 23:23 — o grupo grande, e o que gera a discussão.
As duas explicações, e o que cada uma pede
Primeira: "o terceiro homem". O termo designaria o terceiro ocupante do carro, ao lado do condutor e do combatente. Os léxicos hebraicos de referência registram essa como a explicação mais provável da origem da palavra, seguindo Paul Haupt, Bender e W. Max Müller, estudiosos alemães do fim do século XIX, e registram também que ela foi contestada, entre outros por Dillmann e Baentsch. A Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) traduz por uma palavra que significa "os que ficam em terceiro", preservando a ambiguidade em vez de resolvê-la.
Segunda: "o terceiro grau abaixo do rei". Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático e comentarista espanhol do século XII) explica a lógica: o rei equivale ao número um, quem vem logo abaixo dele é chamado pelo termo formado sobre "dois", e o seguinte pelo termo formado sobre "três". Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) defendem a mesma coisa em latim — o nome do segundo grau depois da dignidade real — e acrescentam, sem meias palavras, que não se trata de condutores de carro.
O peso das ocorrências favorece a segunda leitura: nas outras dezesseis vezes o portador do título não está numa tripulação de carro — em 2 Reis 7:2 ele é o homem em cujo braço o rei se apoia, e em 1 Reis 9:22 e Ezequiel 23:23 o termo entra em listas de postos, ao lado de príncipes, governadores e prefeitos. O peso da arqueologia favorece a mesma leitura, porque o carro egípcio comportava dois homens. Isso não fecha a questão — a palavra pode ser um estrangeirismo antigo cujo sentido literal já não se sentia mais quando o Êxodo foi escrito —, mas é honesto dizer de que lado estão os indícios.
עַל־כֻּלּוֹ — al-kullo. "Sobre todos eles."
A preposição al é "sobre", "em cima de", e também "encarregado de" — a construção hebraica de quem tem autoridade sobre alguma coisa. Depois dela vem kol outra vez, agora com sufixo possessivo de terceira pessoa do singular: ao pé da letra, "sobre todo ele".
O singular é gramaticalmente correto, porque retoma o substantivo coletivo "carro", mas deixa a frase ambígua de um modo que importa: pode significar "sobre cada um deles", um oficial por veículo, ou "sobre o conjunto inteiro", isto é, um comando. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) registra que a Septuaginta, a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo) e a versão siríaca escolheram a segunda — capitães sobre o todo deles —, e o Targum de Ônquelos (a tradução aramaica antiga da Torá) vai no mesmo sentido.
11. Conclusão
A primeira conclusão é que este versículo aproxima o Êxodo da história material mais do que qualquer outro do capítulo. Seiscentos carros é um número que a documentação do segundo milênio antes de Cristo torna plausível, e a organização em grandes corpos de seiscentos e poucos veículos está atestada no relato da batalha de Cades. Isso não demonstra que o episódio aconteceu, e não deve ser usado para isso. Demonstra que a cifra pertence ao mundo em que a narrativa se passa — o que é uma afirmação menor e verificável.
A segunda é que a palavra mais importante do versículo continua sem tradução segura, e que o motivo disso é instrutivo. Um termo formado sobre o número três, aplicado a carros, esbarra num fato de escavação: o carro egípcio levava dois homens. Ou a palavra conta hierarquia e não tripulação, como Ibn Ezra e Keil e Delitzsch sustentam, ou ela carrega a memória de uma tripulação que não era a egípcia. As duas saídas são possíveis, e a segunda é a que os léxicos preferem — o que mostra que discussões de vocabulário bíblico dependem, às vezes, de madeira e de rodas.
A terceira sai de uma ausência. A frase conta veículos e nomeia patentes, e não conta uma única pessoa. O povo que o rei tomou consigo no versículo anterior não reaparece em nenhuma das listas do capítulo, nem na que descreve a perseguição, nem na que descreve o afogamento. Entre a mobilização e a contagem, aquela gente virou parte do equipamento — e o Êxodo executa essa passagem em silêncio, sem uma linha de comentário.













