Ao receber, começaram a reclamar do proprietário,
1. Introdução
Os trabalhadores da primeira hora receberam o denário e só então reclamaram. A ordem dos dois fatos está escrita, e é ela que organiza o versículo: a queixa vem depois da moeda na mão, não antes.
O verbo está numa forma que indica ação continuada, e não um grito único — um murmúrio que foi crescendo enquanto a fila andava. E ele não é dirigido ao proprietário: é dito contra ele, entre os próprios trabalhadores, na terceira pessoa, com o homem ali presente pagando.
A palavra que Mateus usa aqui para "reclamar" é a palavra do deserto, a mesma que a Bíblia grega emprega para a murmuração de Israel contra Moisés. Em todo o evangelho de Mateus ela aparece uma única vez, neste versículo.
2. Contexto Histórico e Cultural
O pagamento era público, e por isso a comparação era inevitável
Aqui está a condição material do versículo, e sem ela a cena não funciona.
O salário de um dia era pago em moeda, ao fim do dia, ao ar livre, com os trabalhadores reunidos. Não havia envelope, não havia folha de pagamento, não havia sigilo e não havia transferência. Havia um homem com prata na mão contando peça por peça, um trabalhador por vez, na frente dos outros, que esperavam a sua vez olhando.
Isto não é detalhe pitoresco: é o mecanismo do episódio. Cada homem daquela vinha sabia exatamente o que cada outro recebeu, porque viu. Uma economia sem sigilo salarial produz comparação por construção, e não por curiosidade.
Some-se a ordem invertida de Mateus 20:8 — os últimos primeiro — e o resultado é que os trabalhadores da primeira hora passaram o fim do dia assistindo ao pagamento de todo mundo antes de receber o seu. Quando a moeda chegou à mão deles, eles já sabiam há algum tempo o que ia acontecer.
A obrigação de pagar o diarista antes do anoitecer era antiga e conhecida, e está desenvolvida no estudo de Gênesis 31:41. O que a lei não regulava, porque não havia como regular, era a visibilidade.
Murmurar não era um estado de espírito: era uma categoria
Para quem ouvia esta parábola em ambiente judaico, a palavra que Mateus usa aqui não descrevia mau humor. Ela nomeava uma falta com história, e com uma história muito específica: a do povo no deserto.
A tradição não tratava aquelas queixas como episódios soltos. Ela as contava. A Mishná, no tratado Avot 5:4, registra a soma: "com dez provas os nossos pais provaram o Santo, bendito seja Ele, no deserto", e cita Números 14:22 como base — "e me provaram estas dez vezes, e não ouviram a minha voz".
Duas coisas se aprendem disso, e as duas importam para ler o versículo.
A primeira: murmurar tinha estatuto de ofensa nomeada, com número e com lista. Não era um defeito de caráter genérico; era um item do repertório religioso, que qualquer ouvinte reconhecia pelo vocabulário. Quando o texto diz que os trabalhadores murmuraram contra o dono da casa, ele acende essa lâmpada.
A segunda, e é a que impede o excesso: nas dez provas do deserto o alvo é Deus. Aqui o alvo é um proprietário rural dentro de uma parábola. A palavra é a mesma, e a identificação entre uma coisa e outra é leitura do intérprete — Mateus não a faz, e o próprio proprietário responde com um argumento comercial, não com uma sentença religiosa.
E o que um diarista podia fazer quando se sentia lesado
Nada com força de lei. Sem contrato escrito, sem testemunhas além do próprio ato de ir trabalhar, e sem dinheiro para um processo cujo objeto valia o preço de um pão. Sobrava a voz — e ela não era inofensiva.
Numa sociedade em que a reputação de um proprietário era um bem econômico, porque dela dependia quem aceitava trabalhar para ele na colheita seguinte, uma queixa dita em público contra ele atingia algo que valia dinheiro. Vale lembrar que a contratação acontecia na praça, de manhã, com os homens escolhendo também: quem tinha fama de mesquinho encontrava a praça vazia.
O que os trabalhadores fazem neste versículo, portanto, não é desabafo. É a única pressão disponível, aplicada no único ponto vulnerável de quem não tem nada a temer no tribunal.
3. Análise Teológica do Versículo
"Ao receber"
A queixa começa com a moeda na mão. Isso está fixado pela gramática — a forma verbal põe o recebimento antes da reclamação, e não há como ler a frase na ordem inversa.
O que decorre disso é o eixo do versículo. Esses homens não foram lesados. Não lhes falta nada do que pediram, do que combinaram e do que esperavam de manhã. O denário está com eles, e vale ao anoitecer exatamente o que valia de madrugada: a comida do dia seguinte para uma família. Nenhum grão de trigo saiu do saco deles porque outro homem recebeu.
Um dano é um bem que saiu do meu lado, e aqui nada saiu. E ainda assim há uma queixa, e ela é sincera — ninguém reclama do que não sente. Então ou a queixa é sobre nada, ou o que eles perderam não é o denário. O versículo abre essa pergunta e não a responde: só o seguinte responde, quando os próprios trabalhadores dizem o que lhes foi tirado.
"começaram a reclamar"
A forma do verbo indica ação prolongada, não um estouro. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo anglicano e comentarista inglês do século XIX) observa que o tempo verbal aponta murmúrios repetidos e demorados, e não um protesto único. O Expositor's Greek Testament ("Testamento Grego do Expositor", comentário inglês do início do século XX) é mais preciso e descreve a cena: o murmúrio ia passando de homem para homem à medida que eram pagos.
Isso muda o que se vê. Não houve líder, nem um momento em que alguém decidiu reclamar. Houve uma fila, e ao longo dela uma frase foi sendo repassada e reforçada até virar a fala coletiva do versículo 12.
A palavra escolhida é a da murmuração do deserto (item 10), e em Mateus ela aparece uma única vez. Quem lia o evangelho em grego ouvia esse fundo: é o termo da rebeldia de Israel contra Moisés no caminho.
Mas é preciso marcar onde a comparação para, porque é justamente aí que está o achado. No deserto, a murmuração é contra Deus, e o texto a trata como pecado com consequência: há castigo, há morte, há uma geração que não entra. Aqui não há nada disso. O proprietário não pune, não expulsa, não retira o pagamento. Ele responde — argumenta com o homem, apela ao que foi combinado e o manda embora com o dinheiro dele. Mateus não escreve que os murmuradores ficaram de fora. A leitura de que a parábola os exclui costuma vir do versículo 16, e não desta cena.
"do proprietário"
A preposição grega é de oposição: eles murmuram contra o dono da casa. Não falam com ele — falam dele, na terceira pessoa, entre si, com o homem ali, a poucos passos, pagando.
Isso tem três consequências, e as três estão no texto.
A primeira: o alvo não são os trabalhadores da última hora. Eles são o assunto da queixa, mas não o seu destinatário. A reclamação passa por cima de quem recebeu e vai endereçada a quem distribuiu. No versículo seguinte a frase confirma: "você os igualou a nós" — o verbo tem o dono por sujeito, e é ele o acusado.
A segunda: também é passado por cima o administrador de Mateus 20:8, que foi quem materialmente contou as moedas. Quem pagou por ordem de outro não é responsabilizado. A queixa sabe onde mora a decisão.
A terceira é a mais interessante e prepara o versículo 13. Falar de alguém na presença dele, em voz de grupo, é uma posição confortável: ninguém precisa assumir a frase, e o número protege cada um. É exatamente essa proteção que o proprietário desmonta ao responder "a um deles". Ele não fala com a fila. Ele escolhe um homem, dá a ele um vocativo no singular e o obriga a ser autor daquilo que o grupo dizia. A resposta desfaz o coletivo antes de discutir o mérito.
O que o texto não diz
Três leituras correntes deste versículo vão além do que está escrito, e é útil separá-las.
Primeira leitura: os trabalhadores eram preguiçosos ou mentirosos. O texto não dá base para isso. A alegação de fato que eles vão apresentar no versículo 12 — trabalharam o dia inteiro, os outros uma hora — é verdadeira dentro da própria parábola, e nenhuma linha a contesta. Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, exegeta alemão do século XIX), comentando o versículo seguinte, faz a observação simétrica: também os homens de uma hora não estavam ociosos, e trabalharam de boa vontade. Os dois lados dizem a verdade sobre os fatos.
Segunda leitura, e é antiga: a cena retrata os judeus que creram primeiro, incomodados com a entrada dos gentios. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) a defende assim, e ela tem apoio no lugar da parábola dentro de Mateus. É leitura possível, mas é aplicação: o versículo fala de trabalhadores e de um dono de vinha, e não nomeia povo nenhum.
Terceira leitura, moral: Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) resume a cena como prova da "grande propensão que há em nós a achar que temos pouco demais, e os outros demais" do favor de Deus. É boa descrição do sintoma, e é generalização — o versículo narra um caso, não enuncia uma lei sobre a natureza humana.
O que o texto afirma é isto: um pagamento integralmente cumprido produziu uma reclamação; ela cresceu pela fila; e foi endereçada a quem deu, não a quem recebeu.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O proprietário
A palavra grega traduzida por "proprietário" é a que designa o senhor de uma casa com bens e gente dentro — não o investidor distante, e sim o chefe da unidade produtiva, que mora ali e responde por ela.
Mateus tem preferência por essa figura, e a usa sempre em parábola ou comparação (as ocorrências estão listadas no item 10). É quem ele chama quando quer alguém com autoridade real sobre um patrimônio e sobre pessoas.
Nesta cena ele é um homem de campo que faz pessoalmente a contratação, que volta à praça cinco vezes no mesmo dia e que está presente no pagamento. Não é um personagem com nome, nem com genealogia, nem com cidade.
Os trabalhadores que reclamam
São os da primeira hora, de Mateus 20:1-2 — o único grupo da parábola com preço declarado. Todos os outros foram enviados à vinha com uma promessa aberta ("eu lhes pagarei o que for justo", Mateus 20:4).
Essa diferença explica por que só estes reclamam: a reclamação só é possível a quem fez uma conta, e a conta só é possível a quem tinha um valor.
Bengel (Johann Albrecht Bengel, teólogo e crítico textual alemão do século XVIII) observa que estes homens falam também pelos trabalhadores das horas intermediárias. A parábola, no entanto, não lhes dá fala nenhuma: eles recebem e não aparecem mais. É observação de Bengel, não dado do texto.
O administrador ausente
Em Mateus 20:8 o proprietário não paga: ele manda o seu administrador chamar e pagar. Neste versículo o administrador desaparece, e ninguém reclama dele. É o contrário do instinto moderno, que costuma culpar o caixa: na parábola o funcionário que executou a ordem não é interpelado, e o autor da ordem é.
O lugar e o momento
O lugar é a vinha, ou o pátio dela, ao anoitecer — e a parábola não nomeia cidade, região, proprietário nem trabalhador. O momento é o último instante em que ainda se conta o dia, a hora em que, por lei e por costume, o diarista tinha de ter o dinheiro na mão.
5. Pontos de Ensino
Uma dívida paga por inteiro pode produzir um credor insatisfeito
É o ensino mais duro do versículo e o mais fácil de recusar. O proprietário entregou o valor combinado, no prazo, na frente de todos. Do ponto de vista do que se devia, o caso está encerrado — e não está. O versículo mostra que a satisfação de uma pessoa não é função apenas do que ela recebeu.
A comparação transforma um salário em agravo
O mesmo denário foi bom de manhã e ficou insuportável à noite, sem mudar de peso nem de valor. O que mudou foi que ele passou a ser medido contra o denário do outro. Nada no mundo se alterou: alterou-se a régua.
A queixa escolhe o endereço
Ela não vai a quem recebeu, vai a quem deu. Isso pode ser sinal de justiça, porque é mesmo quem decide que responde, e pode ser fuga, porque contra quem decidiu é mais seguro falar. O versículo não distingue os dois casos; só mostra o endereço.
A murmuração tem peso na Bíblia, e aqui ela não é punida
A palavra empregada é a da rebeldia no deserto, e Paulo a usa para a falta que destruiu uma geração (1 Coríntios 10:10). Neste versículo não há castigo: há resposta. Guardar as duas coisas juntas evita os dois erros — tratar a queixa como inocente e tratá-la como sentença de condenação.
Quem tem número combinado confere; quem não tem, confia
Só os da primeira hora reclamam, e são os únicos que sabiam de antemão quanto valia o dia. O acordo lhes deu segurança e lhes deu a régua com que se machucaram — não como argumento contra combinar valores, mas porque o acordo cria, junto com a garantia, a expectativa de que nada além dele aconteça.
6. Aspectos Filosóficos
A forma de uma troca diz alguma coisa que o valor dela não diz?
O mesmo denário saiu da mão do proprietário duas vezes naquele anoitecer, e nas duas vezes valia o mesmo. Mas não saiu do mesmo jeito: para os da primeira hora, como cumprimento de um número acertado de madrugada; para os da última, sem número nenhum acertado antes. Se o valor é idêntico e a insatisfação é real, então o que difere não é o quanto — é a forma.
Sahlins e os três modos de reciprocidade
O antropólogo norte-americano Marshall Sahlins (1930-2021) organizou esse problema num ensaio que se tornou referência, "Sobre a sociologia da troca primitiva", publicado em Economia da idade da pedra (Stone Age Economics, 1972). Ele distingue três modos de dar e receber.
A reciprocidade generalizada é a que não faz conta: dá-se sem estipular retorno, sem prazo e sem equivalência, e o retorno, se vier, vem quando vier. É a forma que vigora entre parentes próximos, e dentro de uma casa.
A reciprocidade equilibrada é a da equivalência declarada: tanto por tanto, em prazo definido. É a forma do negócio, e vigora entre pessoas que não são da mesma casa.
A reciprocidade negativa é a tentativa de levar sem dar — o regateio duro, a esperteza, o furto —, e vigora entre estranhos e inimigos.
A tese que interessa não é a classificação, e sim a correlação que Sahlins estabelece: o modo varia com a distância social. Quanto mais próxima a relação, menos exata a conta; quanto mais distante, mais exata. E daí sai a consequência que inverte o senso comum. A forma da troca não é escolhida depois de a relação estar definida: ela declara a relação. Fazer conta exata com quem está perto é uma maneira de dizer que não está tão perto.
O que os primeiros compraram de manhã
Posto sobre a cena, isso responde ao enigma do versículo com alguma precisão.
Os trabalhadores da primeira hora entraram numa reciprocidade equilibrada: um denário pelo dia, valor dito, prazo dito, equivalência fechada. Os da última entraram sem equivalência declarada, e o que receberam se comporta menos como salário e mais como dádiva.
Ora, a marca da reciprocidade equilibrada é que ela encerra. Quando a conta fecha, não sobra nada entre as partes — é justamente isso que a torna segura. A dádiva, ao contrário, não encerra: ela deixa o recebedor em relação com quem deu.
Então o que os primeiros perderam não é dinheiro. É que eles compraram exatidão, e exatidão não rende posição nenhuma além de si mesma. Ficaram na condição de quem recebeu tudo e por isso não tem mais nada a alegar contra ninguém. O proprietário vai dizer essa frase com todas as letras em Mateus 20:14 — "pegue o que é seu e vá embora" é exatamente o que se diz quando uma troca equilibrada se completa.
Três limites, e o terceiro é o que evita a moral fácil
O primeiro é de método. Sahlins descreveu sociedades sem mercado, sem moeda cunhada e sem trabalho assalariado. A Galileia do primeiro século tinha as três coisas, mais o direito romano. As categorias dele servem aqui como instrumento de leitura, não como descrição daquela economia — e ele nunca escreveu uma linha sobre esta parábola.
O segundo é de dono: a distinção jurídica entre o contrato fechado do versículo 2 e a promessa aberta do versículo 4 está tratada no estudo de Mateus 20:4, e não é a mesma coisa que a distinção antropológica exposta aqui.
O terceiro é o mais importante. Não se conclua que a forma da dádiva é a melhor. Uma dádiva que não encerra deixa quem recebeu em dívida e em dependência — e, num mundo de patronos e dependentes como o da parábola, essa dependência custava caro. Os homens da primeira hora se protegeram ao exigir um número, e estavam certos em exigi-lo. O que o versículo mostra é que a proteção tinha um preço que eles não previram: quem fecha a conta não pode reclamar depois de fechada.
7. Aplicações Práticas
O momento em que um valor se torna público
A cena se repete inteira sempre que uma distribuição deixa de ser privada: o dia em que se sabe quanto cada um recebeu de bônus, a leitura do inventário, o resultado de uma promoção, o rateio de uma herança, a divisão de gorjeta. O dado prático do versículo é que a reclamação não nasceu da falta de dinheiro — nasceu da informação.
Espere que a queixa chegue no seu nome
Quem decide recebe a reclamação, mesmo quando o incômodo é com outra pessoa. O administrador de Mateus 20:8 contou as moedas e ninguém falou dele. Quem delega a execução não delega a responsabilidade — e também não delega o desgaste.
Discutir os números não resolve
Os trabalhadores terão razão na aritmética. Se o proprietário tivesse entrado nessa discussão, teria perdido: doze horas são mais do que uma. A resposta dele em Mateus 20:13 não contesta a contagem; ela muda de assunto, e vai ao acordo. Quando a divergência é sobre o que os números autorizam a concluir, refazer a conta junto é perder tempo com concordância.
Uma nota sobre o que não se deve tirar daqui
Não se tira deste versículo que reclamar de salário é murmuração. A parábola não trata de pagamento insuficiente: trata de pagamento integral acompanhado de generosidade alheia. Reclamar de um denário quando se combinou um denário e se recebeu um denário é o caso do texto. Reclamar de um salário que não paga o mês é outro assunto, e a Bíblia o trata em outros lugares, com a lei do lado do trabalhador.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que eles reclamaram depois de receber, e não quando viram o pagamento dos últimos?
O texto marca a ordem com cuidado — a reclamação vem depois da moeda na mão — e não explica por quê. Uma hipótese cabe bem na cena: enquanto ainda não tinham recebido, restava a possibilidade de que o seu próprio pagamento fosse maior, e Mateus 20:10 diz que eles contavam com isso. A queixa precisou do fim da esperança para existir. Enquanto havia dúvida, havia expectativa; o denário na mão é que fechou a conta. É leitura possível, e o versículo não permite decidir se é essa a intenção de Mateus.
Por que esta palavra aparece uma vez só em todo o Mateus?
É um dado verificável e sem explicação disponível. Mateus tem outros termos para queixa e revolta, e usa um deles logo adiante, em Mateus 20:24, para a irritação dos dez discípulos. Se a escolha aqui foi deliberada, ela põe a cena na linha do deserto; se foi só a palavra corrente para murmúrio, não põe nada. Não é possível decidir com o material que existe.
Se o dono estava presente, por que eles não falaram com ele?
Essa é a pergunta que o texto realmente deixa no ar, porque a construção grega diz "contra ele", e não "a ele". Uma explicação plausível é a proteção do número: fala dita por todos não tem autor, e um diarista sozinho enfrentando o proprietário da vinha em que espera trabalhar na semana seguinte arrisca mais do que o denário do dia.
Quantos homens eram?
A parábola não diz, em nenhum momento, quantos trabalhadores havia em cada turno. É omissão notável numa história cujo tema é comparação de quantidades: não se sabe se os da última hora eram dois ou trinta, e por isso não se sabe quanto o dono gastou além do previsto. Quem lê imaginando grupos do mesmo tamanho está preenchendo uma lacuna do texto.
9. Conexão com Outros Textos
A palavra do deserto
Êxodo 16:2 — "E toda a congregação dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e contra Arão no deserto."
A Bíblia grega traduz esse "murmurou contra" com o mesmo verbo e a mesma preposição que Mateus usa aqui. É a frase de fundo do versículo.
Números 14:2 — "Todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e contra Arão, e a congregação toda disse-lhes: Oxalá que tivéssemos morrido na terra do Egito!"
A murmuração do deserto também é coletiva e também se dirige a quem conduz, não a quem se beneficiou.
1 Coríntios 10:10 — "Nem murmureis, como alguns deles murmuraram e pereceram pelo destruidor."
Paulo trata a murmuração como falta de consequência fatal. Em Mateus 20:11 a mesma palavra não recebe pena nenhuma, e essa diferença é dado, não descuido.
Murmuração numa distribuição
Atos 6:1 — "Nesses dias, porém, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas daqueles eram esquecidas na distribuição diária."
É o paralelo mais próximo do que acontece na vinha: a mesma raiz grega, uma repartição diária de recursos e uma queixa sobre quem recebeu o quê. Com uma diferença que vale marcar — ali havia um grupo efetivamente deixado de fora, e os apóstolos deram razão à queixa.
O irmão que ficou
Lucas 15:29 — "Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com os meus amigos;"
Lucas 15:30 — "mas, quando veio este teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado."
O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) já aproximava as duas cenas: o tempo de serviço apresentado como título, o outro chamado de "este", e a queixa endereçada ao pai e não ao irmão. A diferença é que o irmão mais velho fala ao pai; os trabalhadores de Mateus falam contra o dono, sem falar com ele.
O mesmo verbo contra Jesus
João 6:41 — "Os judeus, pois, murmuravam dele, porque dissera: Eu sou o pão que desci do céu,"
Metade das ocorrências do verbo no Novo Testamento está em João 6, sempre com Jesus por objeto. Mateus o usa uma vez, contra um dono de vinha dentro de uma parábola.
Outra palavra, outra indignação, no mesmo capítulo
Mateus 20:24 — "Quando os outros dez ouviram isso, ficaram indignados com os dois irmãos."
Treze versículos adiante há outro grupo descontente com o que dois receberam, e Mateus emprega um verbo diferente. Lá a irritação é dirigida aos beneficiados; aqui, a quem distribuiu.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Ao receber, começaram a reclamar do proprietário,
Texto grego (Textus Receptus)
λαβόντες δὲ ἐγόγγυζον κατὰ τοῦ οἰκοδεσπότου,
Transliteração
labontes de egongyzon kata tou oikodespotou,
Uma nota textual
Este versículo não tem variante de conteúdo. O Textus Receptus (o texto grego impresso a partir do século XVI, que a ABC segue no Novo Testamento) e as edições críticas modernas trazem as mesmas seis palavras, na mesma ordem. Vale dizer quando não há problema textual: no versículo 12 há uma diferença pequena entre as duas tradições, e no 16 há uma grande.
Análise palavra por palavra
λαβόντες — labontes, "ao receber", literalmente "tendo recebido".
Particípio aoristo ativo, no plural masculino, de lambanō, "tomar, receber". O aoristo do particípio indica ação anterior à do verbo principal: primeiro recebem, depois murmuram. A ordem dos fatos não é escolha do tradutor — está na forma da palavra.
O objeto não é expresso: o grego diz só "tendo recebido", e cabe ao leitor completar com o denário do versículo anterior.
δὲ — de, aqui com força adversativa: "mas ao receber". É a partícula mais comum do grego e pode ser só um "e" de continuidade; o contraste entre receber e reclamar favorece a adversativa.
ἐγόγγυζον — egongyzon, "começaram a reclamar", "iam murmurando".
Imperfeito do indicativo ativo, terceira pessoa do plural, de gongyzō. O imperfeito grego descreve ação em curso, repetida ou incipiente — daí a tradução da ABC com "começaram a". Um aoristo teria dito "reclamaram"; este imperfeito diz "ficaram reclamando".
A palavra é formada por imitação de som. Os léxicos a classificam como onomatopeia e comparam o seu som ao arrulhar das pombas: é a palavra do resmungo em voz baixa, do falatório contido, não a do grito.
No Novo Testamento o verbo aparece oito vezes: aqui, em Lucas 5:30, quatro vezes em João (6:41, 6:43, 6:61 e 7:32) e duas em 1 Coríntios 10:10. Esta é a única ocorrência em Mateus.
O peso da palavra vem da Bíblia grega. É com gongyzō e com o substantivo correspondente que a Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III antes de Cristo) traduz a murmuração de Israel no deserto — Êxodo 16 e Números 14 são os dois blocos principais. Em grego clássico o verbo é bem menos carregado: serve para o resmungo comum, inclusive de alunos e de compradores insatisfeitos. O tom religioso severo vem do uso da Septuaginta, não da palavra em si.
κατὰ — kata, "contra".
Com genitivo, esta preposição indica oposição, e é o uso jurídico da acusação. Com acusativo ela significa outra coisa — "segundo, conforme", como em "segundo Mateus". Aqui o caso é genitivo, e o sentido é de hostilidade declarada.
A construção é o ponto em que uma tradução descuidada apaga o achado do versículo. O grego não diz que eles reclamaram ao proprietário; diz que murmuraram contra ele. Falaram dele, não com ele. A mesma construção está em Êxodo 16:2 na Septuaginta, com Moisés e Arão no lugar do dono.
τοῦ οἰκοδεσπότου — tou oikodespotou, "do proprietário".
Genitivo singular de oikodespotēs, palavra composta de oikos, "casa", e despotēs, "senhor, dono". Literalmente "o senhor da casa" — entendendo-se por casa não o prédio, mas a unidade familiar e produtiva inteira, com terras, escravos, dependentes e agregados.
É termo do grego comum da época, e o Novo Testamento o usa doze vezes, dez delas nos evangelhos sinóticos. Em Mateus são sete ocorrências (Mateus 10:25; 13:27; 13:52; 20:1; 20:11; 21:33; 24:43), todas em parábolas ou comparações.
A tradução "proprietário" acerta no direito e perde o resto. Um oikodespotēs não é dono de um ativo: é a autoridade de um agrupamento humano, e é por isso que ele pode chamar um trabalhador de "amigo" no versículo 13 sem que isso soe estranho a ninguém.
11. Conclusão
Do que foi exposto seguem quatro conclusões.
Primeira: o cumprimento integral de um acordo não produz, por si, a satisfação de quem o fez. O denário foi combinado, foi pago e está na mão. Nenhuma obrigação ficou aberta, e há uma reclamação. Quem distribui recursos com base na ideia de que pagar o devido encerra o assunto vai ser surpreendido — não por má-fé alheia, mas porque a satisfação humana não é medida só pelo que se recebe.
Segunda: o que se perdeu nesta cena não é dinheiro, e o versículo não diz o que é. A perda existe, é sentida, é real o suficiente para gerar uma queixa coletiva — e não tem grandeza mensurável. A resposta fica para a fala deles no versículo seguinte.
Terceira: a reclamação escolheu um endereço, e o endereço diz mais do que o conteúdo. Ela não foi aos trabalhadores da última hora, que receberam, nem ao administrador, que pagou. Foi ao homem que decidiu — e foi dita contra ele, na frente dele, sem lhe ser dirigida. É uma posição de grupo, e a resposta do versículo 13 a desfaz escolhendo um único interlocutor.
Quarta: Mateus usa a palavra mais grave que tinha à disposição e não aplica pena nenhuma. O vocabulário é o da rebeldia no deserto; o desfecho é uma conversa. Isso impede as duas leituras confortáveis. Não se pode dizer que a queixa é leve, porque a palavra escolhida não é leve. E não se pode dizer que a parábola condena os que reclamam, porque ela não os condena — ela os responde.













