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Mateus 21:33

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 13 acessos
“Ouçam outra parábola: Havia um proprietário de terras que plantou uma vinha. Cercou-a, cavou nela um lagar e construiu uma torre. Depois arrendou-a a uns lavradores e partiu para uma viagem.
Numa encosta de pedra da Galileia, um homem de manto de viagem se afasta por uma estrada enquanto, atrás dele, um grupo de lavradores fica junto a uma vinha recém-plantada, cercada por muro de pedra, com um lagar talhado na rocha e uma torre de vigia ao fundo.

Estudo


“Ouçam outra parábola: Havia um proprietário de terras que plantou uma vinha. Cercou-a, cavou nela um lagar e construiu uma torre. Depois arrendou-a a uns lavradores e partiu para uma viagem.

1. Introdução

Jesus começa a segunda parábola com palavras que os ouvintes conheciam de cor: um dono planta uma vinha, cerca-a, cava um lagar e levanta uma torre. É o começo do cântico da vinha de Isaías 5, quase palavra por palavra na tradução grega.

Mas a história se desvia do profeta logo na frase seguinte. Em Isaías, a vinha dava uvas ruins; aqui ela é entregue a lavradores, e o dono vai embora.

O dono que planta, arrenda e se ausenta era uma figura real na Galileia, e papiros de três séculos antes já mostram como esse arranjo funcionava.

2. Contexto Histórico e Cultural

Os papiros de Zenon: o proprietário que nunca viu a sua vinha

Por volta de 1915, camponeses egípcios que escavavam a terra de um sítio antigo no Faium, a região de oásis a oeste do Nilo, encontraram um arquivo inteiro: cerca de dois mil papiros que tinham pertencido a um homem chamado Zenon, natural de Cauno, na Ásia Menor. Zenon foi, a partir de cerca de 260 antes de Cristo, agente e depois administrador dos negócios de Apolônio, ministro das finanças do rei Ptolomeu II do Egito. O arquivo está hoje dividido entre museus do Cairo, de Londres, de Florença e dos Estados Unidos.

Naquele tempo, a Galileia e a Judeia pertenciam ao reino egípcio dos Ptolomeus. E Apolônio, que vivia em Alexandria, tinha terras lá. Entre os anos 259 e 258 antes de Cristo, Zenon viajou pela Palestina com uma comitiva, e as cartas do arquivo registram o que ele e os outros agentes encontraram.

Uma delas é um relatório de um certo Glaukias a Apolônio, escrito em 257 antes de Cristo (o papiro de Londres 1948). Glaukias conta que foi a Bet Anat, na Galileia, à propriedade do ministro, com o administrador local, um tal Melas. Encontrou a plantação e a vinha bem cuidadas: oitenta mil pés de videira. Viu um poço novo e obras em andamento. E provou o vinho, que achou impossível de distinguir do vinho de Quios, o mais famoso da época.

O dono dessa vinha estava em Alexandria, a mais de quinhentos quilômetros. Quem a cultivava eram camponeses locais; quem a vigiava era um administrador; quem informava o dono era um agente que passava de tempos em tempos. É, com três séculos de antecedência, o arranjo da parábola: um homem que plantou, entregou a outros e partiu.

Outra carta do mesmo arquivo (o papiro do Cairo 59018, de 258 antes de Cristo) mostra o lado áspero do arranjo. Zenon tinha mandado um representante, Estratão, cobrar uma dívida de um homem chamado Jeddous, morador de uma aldeia da região. O correspondente relata o resultado: Jeddous não pagou, atacou o cobrador e o expulsou da aldeia. Martin Hengel (historiador alemão do judaísmo antigo), num estudo de 1968, foi o primeiro a ler a parábola dos lavradores à luz desses papiros; John Kloppenborg ampliou a comparação em 2006 com dezenas de documentos sobre vinhas e conflitos agrários.

O limite tem de ficar claro. Os papiros são do século III antes de Cristo, e Jeddous era um devedor, não um arrendatário. Entre Zenon e Jesus a terra mudou de dono várias vezes — Ptolomeus, Selêucidas, asmoneus, Herodes, Roma. O que os papiros provam não é que a parábola descreve um caso conhecido. Provam que o proprietário ausente, o administrador local e o cobrador mal recebido eram figuras reais da paisagem da Galileia muito antes da parábola. Os ouvintes de Jesus não precisavam de explicação para entender quem era aquele dono.

A vinha de Isaías já era lida como o templo

Quem ouvia a primeira frase da parábola reconhecia Isaías 5. E há sinais de que, no tempo de Jesus, esse cântico já era lido como uma descrição do templo de Jerusalém.

O Targum de Isaías (a tradução comentada de Isaías para o aramaico, lida nas sinagogas; foi fixada por escrito séculos depois, mas conserva interpretações mais antigas) não traduz o versículo 2 ao pé da letra. Onde o hebraico diz que o dono "construiu uma torre no meio dela e cavou nela um lagar", o Targum faz Deus dizer: "construí o meu santuário no meio deles, e lhes dei também o meu altar para expiar os seus pecados". No versículo 5, onde o hebraico fala em derrubar a cerca da vinha, o Targum diz: "derrubarei a casa do seu santuário". A torre é o templo; o lagar é o altar.

Um fragmento achado em Qumran, catalogado como 4Q500 e publicado por Joseph Baumgarten em 1989, parece fazer a mesma coisa um ou dois séculos antes. O que sobrou fala de um lagar "construído de pedras", da "porta da santa altura", de uma plantação e de "ramos das tuas delícias" — vocabulário do cântico de Isaías aplicado ao lugar santo. O fragmento é pequeno, e a leitura é discutida, mas é plausível.

Se a leitura já circulava, os ouvintes desta parábola eram exatamente os que mais a reconheceriam: os chefes dos sacerdotes que administravam a torre e o altar. Jerônimo, no século IV, leu a parábola do mesmo modo — a torre é o templo, o lagar é o altar —, e não precisava do Targum para isso. Mas o Targum mostra que a leitura não era só cristã.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ouçam outra parábola"

A palavra "outra" amarra esta história à anterior. São os mesmos ouvintes, os chefes dos sacerdotes e os anciãos (Mateus 21:23), e é a mesma resposta indireta à pergunta sobre a autoridade de Jesus. Mateus monta aqui uma sequência de três parábolas seguidas — os dois filhos, os lavradores e, logo adiante, o banquete de casamento (Mateus 22:1-14) — dirigidas ao mesmo grupo. Marcos e Lucas têm só a dos lavradores neste ponto.

"Havia um proprietário de terras que plantou uma vinha"

O dono planta a vinha ele mesmo. Não a herdou nem a comprou pronta. Isso diz duas coisas. A primeira é que ele investiu do próprio bolso. A segunda é que ela é dele por título incontestável — quem planta é dono do que plantou. Quando, mais adiante, os lavradores tentarem tomar a herança, não haverá dúvida sobre de quem ela era.

A ABC traduz por "proprietário de terras" a palavra que em Mateus 20:1 aparece como "dono de casa". A escolha é boa para esta cena, que é de terra e de renda. O homem não é um pequeno lavrador: é alguém que pode plantar, construir, arrendar e viajar.

"Cercou-a, cavou nela um lagar e construiu uma torre"

Aqui está a citação. Quem conhecia as Escrituras em grego reconhecia a frase de Isaías 5:2. Na tradução grega de Isaías, Deus diz da sua vinha: "pus em volta uma cerca, e a escorei, e plantei uma videira escolhida, e construí uma torre no meio dela, e cavei nela um lagar". Mateus repete seis palavras dessa frase: plantar, cerca, pôr em volta, cavar, construir, torre. Muda só o lagar — Isaías grego diz a pia na frente do lagar; Mateus diz o lagar — e a ordem dos elementos. O roteiro de trabalho que essas palavras descrevem, e o que era uma vinha na encosta de Judá, está no estudo de Gênesis 49:11.

A coincidência é com o grego, não com o hebraico. No hebraico de Isaías 5:2, o verbo que abre a lista é obscuro — os tradutores se dividem entre "cavou" e "cercou" —, e a cerca, com essa palavra, só aparece no versículo 5, quando Deus anuncia que vai tirá-la. Foi a Septuaginta (a tradução grega das Escrituras judaicas, feita entre os séculos III e II antes de Cristo) que pôs a cerca no começo. Mateus segue a Septuaginta, como Marcos 12:1 antes dele.

Isso alimenta uma discussão que não se resolve. Primeira leitura: os ecos de Isaías são um acréscimo feito por cristãos de língua grega, que liam a Septuaginta; a parábola contada por Jesus, em aramaico, seria uma história de lavradores sem a moldura profética. É a posição de Kloppenborg, que aponta também a versão do Evangelho de Tomé, sem nada de Isaías. Segunda leitura: a alusão estava na história desde o início; o Targum e o fragmento de Qumran (item 2) mostram que o cântico de Isaías já era aplicado ao templo em hebraico e em aramaico, e Jesus podia evocá-lo sem a Septuaginta. É a posição de Klyne Snodgrass (estudioso norte-americano das parábolas). Não é possível decidir. Mas, no texto de Mateus, a moldura está lá, e é por ela que os ouvintes entendem de quem se fala.

A pergunta mais importante, porém, não é de onde vêm as palavras, e sim o que Mateus faz com elas. O cântico de Isaías é uma canção de amor que vira acusação: "Cantarei ao meu amado o cântico da sua vinha", e no fim o amado descobre que a vinha que ele tratou com todo o cuidado deu uvas bravas. O culpado, em Isaías, é a vinha. A vinha é "a casa de Israel" (Isaías 5:7), e é ela que não deu o fruto esperado.

Na parábola, a vinha não é acusada de nada. Ninguém diz que ela deu uvas ruins; o versículo seguinte fala de "época da colheita", e há fruto para entregar. O problema está em outro lugar: entre o dono e a vinha aparecem os lavradores, uma camada que Isaías não tinha. O peso da culpa sai da plantação e cai sobre quem cuidava dela. E o desfecho muda junto: em Isaías, a vinha é devastada; em Mateus, a vinha fica e troca de mãos (Mateus 21:41).

Essa mudança tem consequência para o modo como a parábola foi usada. Se a vinha é Israel e a vinha não é acusada, a parábola não é contra Israel. É contra os que administravam a vinha, e Mateus 21:45 diz que os chefes dos sacerdotes e os fariseus entenderam que era deles que Jesus falava.

Os três elementos ganharam, na história da interpretação, sentidos próprios. Jerônimo leu a cerca como a muralha da cidade ou a guarda dos anjos, o lagar como o altar e a torre como o templo. Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista luterano alemão do século XVIII) leu a cerca como a Lei, que separava Israel dos outros povos — leitura que tem eco na própria tradição judaica, onde a Mishná manda "fazer uma cerca em volta da Torá" (Pirkei Avot 1:1). A identificação de cada peça — se a torre é mesmo o templo, se a cerca é a Lei — continua sendo leitura, não texto.

"Depois arrendou-a a uns lavradores"

O verbo é o termo técnico do arrendamento: o dono entrega a terra para ser trabalhada por outros, com direito a parte do resultado. Os lavradores não são empregados nem escravos; são arrendatários, com contrato e com obrigação.

A palavra "uns" — a ABC traduz assim o plural sem artigo — deixa os lavradores sem rosto. Não se diz quantos são, nem quem são. A parábola só os define pelo que farão.

O detalhe que decide a leitura é que o dono confia. Ele fez tudo o que Isaías fazia — plantou, cercou, cavou, construiu — e então entregou o que tinha feito a outros. Em Isaías, Deus pergunta "que mais se podia fazer à minha vinha?" (Isaías 5:4). Na parábola, a pergunta muda de destinatário: o que mais o dono poderia ter dado aos lavradores?

"e partiu para uma viagem"

O dono vai para fora — o verbo grego significa sair da própria terra, do próprio povo. Lucas acrescenta "por muito tempo" (Lucas 20:9); Mateus não diz por quanto.

Em Mateus o mesmo verbo volta na parábola dos talentos: um homem "ao viajar para fora do país" confia os bens aos servos e "partiu em viagem" (Mateus 25:14-15). Nas duas histórias, a ausência do dono não é desinteresse. É o tempo em que os outros mostram o que fazem com o que receberam. Bengel chamou esse intervalo de tempo do silêncio de Deus, em que os homens agem segundo a própria vontade. A parábola não diz que Deus se cala; diz que o dono está longe, e deixa ao ouvinte a pergunta sobre o que isso significa.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O proprietário

Personagem sem nome, como todos os das parábolas de Mateus. É dono de terra, tem recursos para plantar e construir, arrenda e viaja. A leitura tradicional vê nele Deus, a partir de Isaías 5, em que a vinha é do SENHOR.

Os lavradores

Arrendatários. Nesta frase não fazem nada: só recebem a vinha. Mateus 21:45 identifica, pela reação, os ouvintes que se reconheceram neles — os chefes dos sacerdotes e os fariseus.

Isaías

Profeta de Jerusalém no século VIII antes de Cristo, ativo durante os reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias. O cântico da vinha (Isaías 5:1-7) abre uma série de ameaças contra os ricos e os poderosos de Judá — a primeira delas contra os que juntam casa a casa e campo a campo até não sobrar lugar para ninguém (Isaías 5:8). A acusação da vinha, no profeta, é social antes de ser religiosa.

Os lugares

A cena se passa nos pátios do templo de Jerusalém. O cenário da história é rural e não tem endereço. As vinhas mais conhecidas da época ficavam nas encostas da Judeia, ao sul de Jerusalém, e na Galileia — onde estava a vinha de Bet Anat dos papiros de Zenon (item 2), cuja localização exata é discutida.

5. Pontos de Ensino

A parábola começa onde as Escrituras já tinham começado

Jesus não inventa a imagem: retoma o cântico de Isaías, conhecido de todos, e muda o final. Para entender a parábola é preciso ouvir as duas histórias ao mesmo tempo.

A culpa muda de lugar

Em Isaías a vinha falha; aqui a vinha está bem e são os encarregados que falham. A responsabilidade maior recai sobre quem foi posto para cuidar.

O dono deu tudo antes de cobrar qualquer coisa

Cerca, lagar, torre: a vinha foi entregue pronta. O que se pede aos lavradores vem depois de tudo o que receberam.

A ausência do dono é tempo de prova

O dono parte, como o dos talentos. O que cada um faz quando ninguém está olhando revela o que entende do que recebeu.

A parábola mira a liderança, não o povo

A vinha não é acusada. Ler este texto como condenação de Israel inteiro contradiz a própria mudança que Mateus faz em Isaías.

6. Aspectos Filosóficos

Quem são os lavradores?

A parábola põe em cena três figuras: um dono que planta e vai embora, uma terra pronta, e gente que fica e trabalha. A pergunta que isso levanta não é só religiosa. É a pergunta sobre o camponês: quem é essa gente que trabalha a terra de outro, e o que ela pensa da terra que trabalha?

Teodor Shanin (sociólogo nascido em Vilnius em 1930, morto em 2020, professor em Manchester e fundador de uma escola de ciências sociais em Moscou) passou a vida estudando camponeses — primeiro os russos, depois os de toda parte. No livro A classe incômoda (1972) e na coletânea que organizou, Camponeses e sociedades camponesas (1971), ele propôs uma definição que se tornou clássica. O camponês tem quatro traços: a família como unidade de trabalho, de consumo e de propriedade; a lavoura como meio de vida principal; uma cultura própria de comunidade pequena; e uma posição subordinada — ele é dominado por gente de fora, que leva parte do que ele produz.

O último traço é o decisivo para a parábola, e Shanin insistia nele: o camponês não se define só pelo que faz, mas pela relação com quem está fora da aldeia. O de fora é o senhor, o cobrador, o Estado, a cidade. E o de fora, quase sempre, está longe.

Por que a classe é "incômoda"

O título do livro de Shanin vem de uma observação: os camponeses não cabem nas categorias com que se pensava a sociedade. Não são proprietários como os donos de terra, nem assalariados como os operários. São as duas coisas e nenhuma. Trabalham terra que muitas vezes não é deles e, ao mesmo tempo, tratam-na como sua — porque é deles o trabalho, é deles a família que vive dali, e foram eles que a viram dar fruto ano após ano. Daí a ambiguidade política que Shanin estudou na Rússia: o camponês pode ser o mais conservador dos grupos e, de repente, o mais rebelde.

O versículo monta exatamente essa situação, e a monta com cuidado. O dono planta, cerca, cava, constrói — o título dele é indiscutível. Depois entrega e vai embora. A partir daí, quem está na terra todos os dias são os lavradores; o dono é o de fora, e está longe. A parábola ainda não disse o que eles farão. Mas quem conhece a sociologia do campo sabe que o arranjo tem uma tensão embutida: entre quem tem o título e quem tem a terra nas mãos.

O limite da comparação

A parábola não é um estudo sobre camponeses, e ela não está do lado deles. Ela é contada de modo que os ouvintes condenem os lavradores (Mateus 21:41), e o dono, nela, é paciente e generoso. As leituras do fim do século XX que fizeram dos lavradores camponeses explorados em revolta legítima precisam ler a história contra a direção em que ela foi contada. A ajuda que Shanin oferece é outra: mostrar que o arranjo descrito no versículo era real, conhecido e instável — e que a tentação dos lavradores, quando vier, não será um absurdo psicológico, mas uma possibilidade que o próprio arranjo carregava.

E há a inversão final, que é do texto e não da sociologia. Os lavradores da parábola, se forem os chefes do templo, não são camponeses de modo nenhum. São os de dentro de Jerusalém, os que cobravam dos de fora. A parábola os põe no lugar dos subordinados — gente que recebeu uma terra que não é sua — para lembrar que a vinha tinha dono.

7. Aplicações Práticas

Tratar o que se administra como coisa recebida

Os lavradores receberam uma vinha pronta. Quem dirige uma instituição, uma empresa, uma igreja ou uma família costuma esquecer que muito do que tem nas mãos foi plantado por outros. O versículo pede que se lembre de quem plantou.

Não confundir ausência com abandono

O dono partiu, mas a vinha continuou sendo dele. A demora de quem confiou algo a alguém não transfere a propriedade. O que se faz no tempo da ausência é justamente o que será avaliado.

Ler com memória

A parábola só se entende inteira por quem conhece Isaías 5. Muitas passagens dos evangelhos são assim: retomam textos antigos e os mudam. Ler o texto novo sem o antigo é perder metade do que ele diz.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se a vinha é Israel, quem são os "outros lavradores" que vão recebê-la?

O versículo não diz, e a resposta é das mais disputadas do capítulo. Ela começa em Mateus 21:41 e se completa em Mateus 21:43, onde Mateus fala de "um povo que produza os seus frutos". Aqui, basta notar que a vinha permanece: o que muda são os encarregados, não a plantação.

Os ouvintes de Jesus conheciam o cântico de Isaías de cor?

Provavelmente sim, ao menos os chefes e os escribas, que liam os profetas. Isaías era um dos livros mais lidos e copiados da época — em Qumran se acharam mais cópias de Isaías do que de quase qualquer outro livro profético. E a abertura da parábola cita não uma ideia, mas a sequência exata de ações do cântico.

A parábola descreve Deus como um proprietário ausente?

A imagem tem esse risco, e a teologia o percebeu. O dono que parte não é o retrato de um Deus indiferente; a parábola o mostra mandando servos, mandando mais servos e mandando o filho. A ausência é de presença física, não de cuidado. Mas a escolha de um proprietário que vive de renda como imagem de Deus é ousada, e fica no texto sem explicação.

9. Conexão com Outros Textos

O cântico de onde a parábola sai

Isaías 5:1-2 — "Vou cantar para o meu amado o cântico do meu querido sobre a sua vinha. O meu amado tinha uma vinha numa encosta fértil. Cavou-a, tirou-lhe as pedras e plantou nela videiras escolhidas; construiu uma torre no meio dela e talhou nela um lagar. Esperava que desse uvas boas, mas deu uvas bravas."

Tradução nossa do hebraico. A abertura que Mateus cita pela tradução grega.

Isaías 5:7 — "Porque a vinha do SENHOR dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta das suas delícias. Ele esperava o direito, e veio a opressão; esperava a justiça, e veio o grito de socorro."

A identificação que Isaías faz em voz alta. Na parábola, a vinha continua sendo a mesma, e quem falha são outros.

Isaías 5:8 — "Ai dos que juntam casa a casa e emendam campo com campo, até não sobrar lugar, e vocês ficarem sozinhos no meio da terra."

Logo depois do cântico, o primeiro "ai" é contra a concentração de terra. O pano de fundo agrário estava no próprio profeta.

A mesma parábola nos outros evangelhos

Marcos 12:1 — "Um homem plantou uma vinha, pôs uma cerca em volta, cavou uma pia para o lagar, construiu uma torre, arrendou-a a lavradores e partiu para uma viagem."

Tradução livre a partir do Textus Receptus. A fonte provável de Mateus, com as mesmas palavras de Isaías grego.

Lucas 20:9 — "Um homem plantou uma vinha, arrendou-a a lavradores e partiu para uma viagem por muito tempo."

Lucas corta toda a citação de Isaías: nem cerca, nem lagar, nem torre.

O dono que parte e confia

Mateus 25:14-15 — "Pois é como um homem que, ao viajar para fora do país, chamou seus servos e confiou a eles os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um, a cada um conforme a sua capacidade; e partiu em viagem."

O mesmo verbo de partir, a mesma estrutura de entrega e ausência.

A outra vinha de Mateus

Mateus 20:1 — "Pois o Reino dos céus é semelhante a um dono de casa que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha."

A mesma palavra para o dono, a mesma cultura. Lá o dono contrata diaristas e fica; aqui arrenda e vai embora.

O lavrador de outra vinha

João 15:1 — "Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o lavrador."

A palavra grega de "lavrador" é a mesma dos arrendatários desta parábola. Em João, o lavrador é o próprio Deus.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

“Ouçam outra parábola: Havia um proprietário de terras que plantou uma vinha. Cercou-a, cavou nela um lagar e construiu uma torre. Depois arrendou-a a uns lavradores e partiu para uma viagem.

Texto grego (Textus Receptus)

Ἄλλην παραβολὴν ἀκούσατε. Ἄνθρωπός τις ἦν οἰκοδεσπότης, ὅστις ἐφύτευσεν ἀμπελῶνα, καὶ φραγμὸν αὐτῷ περιέθηκε, καὶ ὤρυξεν ἐν αὐτῷ ληνόν, καὶ ᾠκοδόμησε πύργον, καὶ ἐξέδοτο αὐτὸν γεωργοῖς, καὶ ἀπεδήμησεν.

Transliteração

Allēn parabolēn akousate. Anthrōpos tis ēn oikodespotēs, hostis ephyteusen ampelōna, kai phragmon autō periethēke, kai ōryxen en autō lēnon, kai ōkodomēse pyrgon, kai exedoto auton geōrgois, kai apedēmēsen.

Uma nota sobre o texto

Conferido na edição de Scrivener publicada pelo eBible e no interlinear do Bible Hub. Duas diferenças pequenas: o Textus Receptus traz anthrōpos tis, "um certo homem", onde as edições críticas têm só anthrōpos; e grafa exedoto o verbo que as edições críticas grafam exedeto, forma mais popular do grego da época. O sentido não muda.

A Septuaginta de Isaías 5:2, para comparar

Kai phragmon periethēka, kai echarakōsa, kai ephyteusa ampelon sōrēch, kai ōkodomēsa pyrgon en mesō autou, kai prolēnion ōryxa en autō — "e pus em volta uma cerca, e escorei, e plantei uma videira escolhida, e construí uma torre no meio dela, e cavei nela uma pia de lagar". As palavras comuns com Mateus estão marcadas abaixo.

Análise palavra por palavra

Ἄλλην παραβολὴν ἀκούσατε — allēn parabolēn akousate, "ouçam outra parábola". Allēn, "outra", do mesmo tipo da anterior. Parabolē é, literalmente, "o que se põe ao lado": uma comparação. Akousate é imperativo aoristo de akouō, "ouvir": uma ordem pontual, "escutem agora".

Ἄνθρωπός τις ἦν οἰκοδεσπότης — anthrōpos tis ēn oikodespotēs, "havia um certo homem, dono de casa". Oikodespotēs, "senhor da casa", é palavra característica de Mateus, analisada no estudo de Mateus 20:1. A ABC a traduz aqui por "proprietário de terras".

ὅστις ἐφύτευσεν ἀμπελῶνα — hostis ephyteusen ampelōna, "que plantou uma vinha". Ephyteusen, aoristo de phyteuō, "plantar" — o mesmo verbo de Mateus 15:13 ("toda planta que o meu Pai celestial não plantou") e de Isaías 5:2 na Septuaginta (ephyteusa). Ampelōn é o terreno plantado de videiras.

καὶ φραγμὸν αὐτῷ περιέθηκε — kai phragmon autō periethēke, "e pôs-lhe uma cerca em volta". Phragmos é cerca, sebe, muro baixo — de phrassō, "fechar", "bloquear". Periethēke, aoristo de peritithēmi, "pôr em volta". As duas palavras estão juntas em Isaías 5:2 grego (phragmon periethēka). Phragmos volta em Efésios 2:14, onde Cristo derruba "o muro de separação" entre judeus e gentios — a mesma palavra da cerca da vinha.

καὶ ὤρυξεν ἐν αὐτῷ ληνόν — kai ōryxen en autō lēnon, "e cavou nela um lagar". Ōryxen, aoristo de oryssō, "cavar" — como em Isaías 5:2 grego (ōryxa) e em Mateus 25:18, onde o servo "cavou" a terra para esconder o talento. Lēnos é o lagar: a cavidade, quase sempre talhada na rocha, onde se pisava a uva. Marcos 12:1 diz hypolēnion, a pia que recebia o suco por baixo; a Septuaginta diz prolēnion, a pia na frente. Mateus simplifica para o lagar inteiro. Lēnos volta no Apocalipse como imagem do juízo: "o grande lagar da ira de Deus" (Apocalipse 14:19).

καὶ ᾠκοδόμησε πύργον — kai ōkodomēse pyrgon, "e construiu uma torre". Ōkodomēse, aoristo de oikodomeō, "construir" — o verbo de Mateus 16:18, "edificarei a minha igreja". Pyrgos é torre de vigia; em Lucas 14:28, quem quer construir uma torre senta antes para calcular o custo. A expressão inteira está em Isaías 5:2 grego (ōkodomēsa pyrgon).

καὶ ἐξέδοτο αὐτὸν γεωργοῖς — kai exedoto auton geōrgois, "e arrendou-a a lavradores". Exedoto é aoristo na voz média de ekdidōmi, "entregar", "dar para fora". Na voz média, "entregar para proveito próprio": é o termo técnico dos contratos de arrendamento nos papiros gregos do Egito. Geōrgois, dativo plural de geōrgos, de gē, "terra", e ergon, "trabalho": "o que trabalha a terra". Em Mateus a palavra só aparece nesta parábola, seis vezes (Mateus 21:33, 34, 35, 38, 40, 41). Não é a palavra do diarista de Mateus 20:1, que recebe por dia, mas a de quem tem a terra nas mãos por contrato. Em João 15:1, geōrgos é o Pai.

Esta é a primeira palavra do versículo que não vem de Isaías. A partir daqui a história é nova.

καὶ ἀπεδήμησεν — kai apedēmēsen, "e partiu para fora". Aoristo de apodēmeō, de apo, "longe de", e dēmos, "povo", "terra natal": sair do próprio país, ir para o estrangeiro. Em Mateus, o verbo aparece aqui e em Mateus 25:14-15, nos talentos; em Lucas 15:13, é o verbo do filho que parte para uma terra distante. O aoristo apresenta a partida como fato encerrado: o dono foi, e a vinha ficou.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira: a parábola se apresenta como releitura de Isaías. Os ouvintes não ouviram uma história nova, e sim uma canção antiga, conhecida e já aplicada ao templo — e foi pela canção que souberam, desde a primeira frase, que se falava da vinha do SENHOR.

A segunda: Mateus tira a culpa da vinha. Onde Isaías acusava a plantação, a parábola põe entre o dono e a vinha uma camada nova, a dos lavradores, e é sobre ela que a história vai pesar. Essa troca é o dado mais importante contra a leitura que faz da parábola uma condenação de Israel inteiro.

A terceira: o arranjo da parábola era real. Proprietário que planta, entrega e parte; arrendatários que ficam; agentes que cobram e às vezes são expulsos — os papiros de Zenon mostram tudo isso na Galileia, séculos antes. A parábola não precisou inventar o cenário. Precisou só pôr nele os ouvintes.

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