Pois João veio a vocês pelo caminho da justiça, e vocês não creram nele; mas os cobradores de impostos e as prostitutas creram. Vocês, porém, vendo isso, não se arrependeram depois para nele crer.
1. Introdução
Jesus explica por que os cobradores de impostos e as prostitutas vão à frente: eles creram em João Batista, e os chefes do templo não.
João veio "pelo caminho da justiça", expressão que pode descrever a vida dele, a mensagem dele ou o lugar dele no plano de Deus.
E os chefes tiveram uma segunda chance: viram a mudança dos outros e, mesmo assim, não mudaram de ideia. O verbo dessa recusa é o mesmo do filho que disse "não" e depois foi.
2. Contexto Histórico e Cultural
A justiça que os fariseus reconheciam
No vocabulário religioso judaico da época, "justiça" não era só uma virtude abstrata. Era também um conjunto de práticas visíveis. O próprio Mateus mostra isso: o trecho do Sermão da Montanha sobre esmola, oração e jejum (Mateus 6:1-18) abre, nas edições críticas, com a palavra "justiça" — "tomem cuidado para não praticar a sua justiça diante dos homens". No Textus Receptus, que a ABC segue, a palavra no mesmo lugar é "esmola". A divergência dos manuscritos é ela mesma um documento: para os copistas, praticar a justiça e dar esmola eram quase a mesma coisa.
O livro de Tobias, escrito provavelmente no século III ou II antes de Cristo, faz a mesma ligação. O velho Tobit se apresenta assim: "andei pelos caminhos da verdade e da justiça todos os dias da minha vida, e dei muitas esmolas aos meus irmãos" (Tobias 1:3). E no hebraico rabínico a palavra para justiça, tsedaqah ("justiça", e depois "esmola", "caridade"), acabou designando a própria esmola — sentido que tem até hoje.
João Batista praticava exatamente essas coisas, e de modo mais severo do que a média. Jejuava: os discípulos dele perguntam a Jesus por que eles e os fariseus jejuam e os discípulos de Jesus não (Mateus 9:14) — João e os fariseus estão do mesmo lado da pergunta. Ensinava a orar (Lucas 11:1). Comia gafanhotos e mel silvestre e vestia pelos de camelo (Mateus 3:4). E mandava repartir: quem tem duas túnicas, dê uma a quem não tem (Lucas 3:11).
A consequência para o versículo é direta. Os chefes não podiam recusar João por ele ser frouxo com a Lei, como recusavam Jesus por comer com pecadores. João era, pelos critérios deles mesmos, um homem justo. Mateus 11:18-19 registra o resultado: de João, que não comia nem bebia, diziam que tinha demônio; de Jesus, que comia e bebia, que era comilão. Nenhum dos dois servia.
O "caminho" e o "mestre de justiça"
"Caminho" também era palavra de movimento religioso. O grupo que deixou os manuscritos do mar Morto lia Isaías 40:3, "preparem no deserto o caminho", como o programa da sua própria existência: a Regra da Comunidade (o regulamento do grupo, achado na primeira caverna de Qumran em 1947), na coluna 8, explica que preparar o caminho no deserto é estudar a Lei. Mateus aplica o mesmo versículo de Isaías a João (Mateus 3:3).
O Documento de Damasco (outro texto do mesmo grupo, conhecido desde 1896 por cópias medievais achadas no Cairo) conta a origem da comunidade com uma imagem próxima da deste versículo. Na coluna 1, diz que os fundadores eram "como cegos, como quem tateia o caminho", até que Deus "levantou para eles um Mestre de Justiça, para guiá-los no caminho do seu coração". Caminho e justiça, juntos, para descrever o enviado de Deus a uma geração que não via.
A semelhança não prova que João tenha passado por Qumran. Essa é uma hipótese antiga e discutida, sem documento que a decida. O que os textos mostram é que, na Judeia do século I, "caminho" e "justiça" eram palavras com que grupos religiosos descreviam o enviado que mostrava como viver. Mais tarde, os primeiros cristãos seriam chamados simplesmente de "o Caminho" (Atos 9:2; Atos 24:14).
O que "crer em João" exigia
Lucas registra o que os cobradores de impostos ouviram quando foram a João: "Não cobrem mais do que o que foi fixado" (Lucas 3:13). E os soldados: "Não tirem dinheiro de ninguém à força, não deem falso testemunho, e contentem-se com o seu soldo" (Lucas 3:14). Crer em João não era aderir a uma doutrina. Era uma mudança de conduta medida em dinheiro. Para um cobrador, que vivia da diferença entre o fixado e o cobrado, a frase cortava o lucro.
3. Análise Teológica do Versículo
"Pois João veio a vocês"
O "pois" liga este versículo ao anterior: aqui está a razão da frase sobre os cobradores e as prostitutas. E com ele a parábola ganha a chave. Até agora a história falava de um pai, de dois filhos e de uma vinha; agora fica claro que o pedido do pai chegou por meio de João.
"Veio a vocês" é dito aos chefes do templo. João não pregou no templo; pregou no deserto, junto ao Jordão, e quem quis ouvi-lo foi até lá (Mateus 3:5). Mas Mateus registra que fariseus e saduceus foram ao batismo e foram recebidos com "Raça de víboras!" (Mateus 3:7). A mensagem chegou a eles. A frase de Jesus tira deles a desculpa de não terem sido chamados.
"pelo caminho da justiça"
A expressão é estranha em português e um pouco estranha também em grego: "veio em caminho de justiça". O que quer dizer? Há três leituras, e nenhuma exclui as outras.
Primeira leitura: descreve a vida de João. Ele veio vivendo de modo justo, com uma conduta irrepreensível. É a leitura de Meyer (Heinrich Meyer, comentarista alemão do século XIX) e de Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX), que especifica: justo no sentido que os próprios fariseus reconheciam — jejum, oração, esmola. O Expositor's Greek Testament ("Novo Testamento Grego do Expositor", comentário inglês do início do século XX) leva a leitura até a ironia: João andava no caminho legal dos próprios chefes, era conservador como eles, só que sincero. Se recusaram até esse, a recusa não tinha a ver com a Lei.
Segunda leitura: descreve a mensagem de João. Ele veio ensinando o caminho para ser justo. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) diz que o caminho ensinado era o arrependimento. Orígenes (teólogo de Alexandria, século III) foi mais longe: João pregou o caminho da justiça porque apontou para Cristo, em quem a Lei se cumpre.
Terceira leitura: situa João dentro do plano de Deus. Em Mateus, "justiça" não é só conduta humana; é também o que Deus quer que se cumpra. A primeira vez que a palavra aparece no evangelho é na boca de Jesus, diante do próprio João, no Jordão: "convém que assim cumpramos toda a justiça" (Mateus 3:15). Jesus e João, juntos, cumprindo a justiça. Nessa leitura, dizer que João veio "no caminho da justiça" é dizer que ele veio dentro do que Deus queria — e recusar João é recusar a vontade do Pai, o assunto exato do versículo anterior.
A expressão tem ainda uma origem que ajuda a escolher. "Caminho da justiça" é linguagem da Sabedoria. No livro de Provérbios, na tradução grega que circulava no tempo de Jesus, é a própria Sabedoria quem diz: "ando nos caminhos da justiça" (Provérbios 8:20). E é com a Sabedoria que Mateus fecha a comparação entre João e Jesus no capítulo 11: um não comia, o outro comia, ninguém aceitou nenhum dos dois, "mas a sabedoria é justificada pelos seus filhos" (Mateus 11:19). Os cobradores e as prostitutas, nesse quadro, são os filhos que deram razão à Sabedoria.
"e vocês não creram nele"
É a frase que os chefes temiam ouvir. Poucos versículos antes, quando deliberavam entre si sobre a origem do batismo de João, eles previram: se dissermos "do céu", ele perguntará "então por que vocês não creram nele?" (Mateus 21:25). Por isso responderam "não sabemos". Não adiantou. Jesus diz a frase mesmo assim, não como pergunta, mas como fato.
"Crer em João" não é ter fé em João como salvador. É dar crédito à mensagem dele, aceitar que ele falava da parte de Deus — e agir de acordo. No caso dos cobradores, como mostra o item 2, agir de acordo tinha preço.
"mas os cobradores de impostos e as prostitutas creram"
Aqui a parábola encaixa por inteiro. Na história, o critério era o que cada filho fez: ir ou não ir à vinha. Na aplicação, o verbo é outro: crer ou não crer. Mateus põe os dois verbos um sobre o outro. Crer, aqui, é o equivalente de ir. Não há separação entre fé e conduta: quem creu em João foi para a vinha, e quem não foi não creu, por mais que tenha dito "Eu vou, senhor".
"Vocês, porém, vendo isso"
O que os chefes viram? Não um milagre. João não fez nenhum — o evangelho de João registra a observação do povo: "João não fez nenhum sinal" (João 10:41). O que eles viram foi a mudança dos outros: cobradores que passaram a cobrar o fixado, gente de má fama descendo ao Jordão para confessar os pecados (Mateus 3:6).
A prova oferecida aos chefes foi, portanto, a mais humana possível: vidas alteradas, na frente deles. E a frase diz que nem isso bastou. Ver não produziu mudança. Há aqui uma segunda chance que a parábola não tinha: os chefes podiam ter dito "não" a João e, ao ver o efeito dele sobre os outros, mudado depois. Podiam ter sido o primeiro filho. Não foram nem isso.
"não se arrependeram depois para nele crer"
O verbo de "arrepender-se" aqui não é o da pregação de João e de Jesus ("Arrependam-se, porque o Reino dos céus está próximo", Mateus 3:2; 4:17). É o mesmo do filho que disse "não quero" e depois, "arrependido", foi — um verbo de mudar de ideia, de lamentar a decisão tomada, e a diferença entre os dois está no estudo de Mateus 21:29. O efeito da repetição é que Jesus fecha a aplicação com a palavra exata da parábola. O primeiro filho mudou de ideia "depois"; os chefes "não mudaram de ideia depois". A palavra "depois" está nos dois lugares no grego, e amarra a aplicação à história.
O "para nele crer" diz qual teria sido o resultado da mudança. Não se pede aos chefes um sentimento de culpa; pede-se que a mudança de ideia termine em crédito dado a João. O versículo não diz se ainda era possível. João já estava morto (Mateus 14:10). Mas o filho que é enviado depois dos servos estará na parábola seguinte.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
João Batista
Pregador que batizava no rio Jordão, anunciando o Reino próximo e exigindo arrependimento (Mateus 3:1-12). Batizou Jesus (Mateus 3:13-17). Foi preso por Herodes Antipas (Mateus 4:12; 11:2) e decapitado na prisão (Mateus 14:10). Quando Jesus pronuncia este versículo, João já está morto. Jesus o chama de profeta e "muito mais que um profeta" (Mateus 11:9) e, em Mateus 17:12-13, o identifica com o Elias que havia de vir.
"Vocês"
Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo que interrogavam Jesus no templo (Mateus 21:23), a quem Mateus 21:45 junta os fariseus. Em Mateus 3:7, fariseus e saduceus aparecem no Jordão, no batismo de João. Os saduceus estavam ligados às famílias sacerdotais; os chefes dos sacerdotes deste versículo são, em boa parte, o mesmo mundo.
Os cobradores de impostos e as prostitutas
Os mesmos do versículo anterior. Lucas 3:12 confirma a presença de cobradores no batismo de João; a presença de prostitutas só este trecho registra.
O lugar da pregação
O deserto da Judeia e as margens do Jordão (Mateus 3:1, 3:5-6). O versículo é dito longe dali, nos pátios do templo, a uns trinta quilômetros e mil metros de altitude acima do rio. Os chefes não precisaram descer ao Jordão para saber o que tinha acontecido lá: os que voltaram mudados estavam na cidade.
5. Pontos de Ensino
A justiça reconhecível não garante adesão
João vivia segundo critérios que os próprios chefes valorizavam, e mesmo assim foi recusado. Uma mensagem pode ser rejeitada não por estar errada, mas por exigir mudança de quem ouve.
Crer e fazer são o mesmo movimento
A parábola mede o que os filhos fizeram; a aplicação mede em quem creram. Mateus trata as duas coisas como uma só: quem creu foi.
Ver a mudança dos outros é uma convocação
Os chefes tiveram uma segunda oportunidade: a vida transformada de quem eles desprezavam. Não aproveitaram. O versículo trata a conversão alheia como argumento dirigido a quem assiste.
Mudar de ideia é possível, e foi recusado
O verbo é o do filho que voltou atrás. O que falta aos chefes não é informação, é o "depois" que o primeiro filho teve.
6. Aspectos Filosóficos
Por que ver não basta
O versículo descreve uma situação que a filosofia moral discute desde Sócrates: os chefes do templo viram o bem acontecer diante deles e não mudaram. Se conhecer o bem bastasse para praticá-lo, como queria a tradição socrática, a cena seria impossível. Ela não é. Por quê?
Agnes Heller (filósofa húngara, 1929-2019, discípula de György Lukács, exilada do seu país em 1977 e depois professora em Nova York) dedicou a última parte da obra a essa pergunta. A Ética Geral (1988) abre com uma frase que ela repetiria muitas vezes: "Existem pessoas boas — como elas são possíveis?". Ela não parte da norma, parte do fato: há gente que, em condições iguais às dos outros, age de modo decente. O problema é explicar como.
A resposta dela passa pelo que chama de escolha existencial. Uma pessoa não se torna boa por acumular conhecimento moral nem por obedecer a regras; torna-se boa num ato em que escolhe a si mesma como alguém que prefere sofrer uma injustiça a cometê-la. Essa escolha não é dedução: é um salto. E, na leitura que Heller faz dela, não tem data marcada — pode acontecer cedo ou tarde, e quando acontece reorganiza o sentido do que veio antes. O passado de quem escolheu deixa de ser destino.
Aplicado ao versículo, o esquema ilumina os dois lados. Os cobradores e as prostitutas não ficaram sabendo de nada que os chefes não soubessem. O que aconteceu com eles foi uma escolha, e a escolha mudou o sentido de uma vida inteira de "não" — exatamente o caso do filho que disse "não quero" e depois foi. Os chefes, ao contrário, tinham todo o conhecimento e viram o resultado nos outros. Faltou-lhes o salto. Ver não basta porque a mudança não é uma conclusão a que se chega; é uma decisão que se toma.
A justiça que se discute e a que se pratica
Num livro anterior, Além da Justiça (1987), Heller distingue dois usos da palavra. A justiça estática é a aplicação coerente de normas aceitas: tratar casos iguais de modo igual. A justiça dinâmica é a contestação das próprias normas, quando elas passam a parecer injustas. A primeira é a justiça dos que administram; a segunda, a dos que reclamam.
O "caminho da justiça" de João parece ficar entre as duas. Ele não contestou a Lei: praticou-a com mais rigor que os seus guardiões. Mas a aplicou de um modo que desalojava os administradores, porque chamava ao arrependimento também os que se tinham por justos. Os chefes podiam aceitar a justiça estática de João e recusar a convocação que vinha com ela. Foi o que fizeram.
O limite da comparação
Heller escrevia uma ética sem Deus, e a escolha existencial dela não depende de nenhuma revelação. No versículo, a mudança que falta é "para nele crer": ela termina em crédito dado a um enviado de Deus. A filosofia ajuda a ver por que o conhecimento não move ninguém; não decide para onde o movimento deve ir. Essa parte é do texto, não dela.
7. Aplicações Práticas
Não esperar que a informação produza a mudança
Quem acompanha alguém — um filho, um amigo, a si mesmo — costuma acreditar que mais um argumento resolverá. O versículo mostra que os mais informados foram os que não mudaram. A mudança pede decisão, e a decisão não se terceiriza.
Olhar para a conversão dos outros como uma pergunta a si
Quando alguém de quem não se esperava nada muda de vida, a reação mais comum é desconfiar. Os chefes viram cobradores devolvendo o que cobravam a mais e não se perguntaram nada. A mudança alheia é, no mínimo, um convite a rever o próprio juízo.
Desconfiar da recusa que se apoia em boas razões
Os chefes não podiam acusar João de frouxidão, e o recusaram assim mesmo. Quando todos os motivos para recusar algo caem e a recusa continua, o motivo real é outro.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se João já estava morto, ainda havia como "crer nele"?
O texto não diz. Crer em João, depois da morte dele, significaria reconhecer que o batismo dele vinha do céu — e, portanto, aceitar aquele de quem João falou. A pergunta de Jesus em Mateus 21:25 era exatamente essa porta. Os chefes a fecharam com o "não sabemos".
Por que Jesus fala de João e não de si mesmo?
Porque a pergunta sobre a autoridade dele foi respondida com uma pergunta sobre João (Mateus 21:24-25), e os chefes se recusaram a responder. Jesus não diz de onde vem a sua autoridade; mostra que eles já tinham recusado a de João, e deixa a conclusão para o ouvinte. Falar de João é, indiretamente, falar dele.
Todos os fariseus e sacerdotes recusaram João?
Não há como saber. O versículo fala com um grupo concreto, os que estavam diante de Jesus, e generalizar a frase para toda uma classe — ou, pior, para todo um povo — vai além do texto. O próprio João vinha de família sacerdotal, segundo Lucas 1:5.
O "arrependimento" deste versículo é o mesmo da pregação de João?
Não é a mesma palavra grega. A pregação usa o verbo da conversão; este versículo usa o da mudança de ideia, o mesmo do filho da parábola. Se a diferença de sentido entre os dois é grande ou pequena é discutido, e o assunto é do estudo de Mateus 21:29.
9. Conexão com Outros Textos
A justiça que Jesus e João cumprem juntos
Mateus 3:15 — "Jesus, porém, lhe respondeu: Deixe assim por enquanto, porque convém que assim cumpramos toda a justiça. Então João consentiu."
A primeira vez que "justiça" aparece em Mateus, e no mesmo cenário de João. Base da terceira leitura do item 3.
Mateus 5:20 — "Porque eu digo a vocês que, se a justiça de vocês não superar a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus."
A justiça dos escribas e fariseus como medida a ser superada, e a entrada no Reino como o que está em jogo. O versículo de Mateus 21:31-32 mostra quem superou.
O caminho da justiça na Sabedoria
Provérbios 8:20 — "Ando no caminho da justiça, no meio das veredas do direito."
Quem fala é a Sabedoria personificada. A expressão de Mateus vem deste vocabulário.
Mateus 11:18-19 — "Pois veio João, que não comia nem bebia, e dizem: 'Ele tem demônio.' Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: 'Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores.' Mas a sabedoria é justificada pelos seus filhos."
A mesma recusa de João, com a Sabedoria no fim.
2 Pedro 2:21 — "Pois melhor lhes teria sido não ter conhecido o caminho da justiça do que, depois de o conhecerem, voltar atrás do santo mandamento que lhes foi entregue."
A única outra ocorrência da expressão no Novo Testamento, e com a lógica inversa: ali o problema é quem conheceu e voltou; aqui, quem viu e não foi.
A frase que os chefes temiam
Mateus 21:25 — "De onde vinha o batismo de João? Do céu ou dos homens?" Eles discutiam entre si: "Se dissermos 'Do céu', ele perguntará: 'Então por que vocês não creram nele?'"
O que eles calcularam em segredo, Jesus diz em voz alta.
O mesmo verbo de mudar de ideia
Mateus 21:29 — "Ele respondeu: 'Não quero'; mas depois, arrependido, foi."
Mateus 27:3 — "Então Judas, que o havia traído, ao ver que Jesus fora condenado, tomado de remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos,"
As outras duas vezes que o verbo aparece em Mateus. Os chefes do templo ficam aquém dos dois: nem a mudança do filho, nem sequer a de Judas.
O que os cobradores ouviram
Lucas 3:12-13 — "Vieram também cobradores de impostos para serem batizados, e lhe disseram: Mestre, o que devemos fazer? Ele lhes disse: Não cobrem mais do que o que foi fixado."
O conteúdo concreto do "creram".
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Pois João veio a vocês pelo caminho da justiça, e vocês não creram nele; mas os cobradores de impostos e as prostitutas creram. Vocês, porém, vendo isso, não se arrependeram depois para nele crer.
Texto grego (Textus Receptus)
Ἦλθε γὰρ πρὸς ὑμᾶς Ἰωάννης ἐν ὁδῷ δικαιοσύνης, καὶ οὐκ ἐπιστεύσατε αὐτῷ· οἱ δὲ τελῶναι καὶ αἱ πόρναι ἐπίστευσαν αὐτῷ· ὑμεῖς δὲ ἰδόντες οὐ μετεμελήθητε ὕστερον τοῦ πιστεῦσαι αὐτῷ.
Transliteração
Ēlthe gar pros hymas Iōannēs en hodō dikaiosynēs, kai ouk episteusate autō; hoi de telōnai kai hai pornai episteusan autō; hymeis de idontes ou metemelēthēte hysteron tou pisteusai autō.
Uma nota sobre o texto
Conferido na edição de Scrivener publicada pelo eBible e no interlinear do Bible Hub. Uma diferença: o Textus Receptus lê ou metemelēthēte, "não mudaram de ideia"; as edições críticas leem oude metemelēthēte, "nem sequer mudaram de ideia". A ABC segue o ou do Textus Receptus: "Vocês, porém, vendo isso, não se arrependeram depois".
Análise palavra por palavra
Ἦλθε γὰρ — ēlthe gar, "pois veio". Aoristo de erchomai, "vir". Gar é conjunção explicativa: este versículo dá a razão do anterior. "Vir", aplicado a João, tem eco em Mateus 11:18 ("veio João") e em Mateus 17:12 ("Elias já veio"): é o verbo da chegada do enviado.
πρὸς ὑμᾶς — pros hymas, "a vocês". Pros com acusativo indica direção a alguém. João veio em direção aos chefes, não apenas apareceu no mundo.
Ἰωάννης — Iōannēs, "João". Forma grega do hebraico Yochanan, "o SENHOR foi gracioso".
ἐν ὁδῷ δικαιοσύνης — en hodō dikaiosynēs, "em caminho de justiça". Sem artigo nos dois substantivos, o que dá à expressão o ar de fórmula conhecida. En com dativo pode indicar o modo ("de maneira justa") ou o âmbito ("dentro do caminho da justiça"); as duas possibilidades sustentam as leituras do item 3. Hodos é estrada, caminho, e, por extensão, modo de viver. Dikaiosynē é a qualidade do que é justo — o que está de acordo com o direito e com a vontade de Deus. A expressão exata, "caminho(s) de justiça", é frequente na tradução grega de Provérbios (Provérbios 8:20; 12:28; 16:31; 21:16) e reaparece no Novo Testamento só em 2 Pedro 2:21.
No Textus Receptus, dikaiosynē aparece seis vezes em Mateus: 3:15, 5:6, 5:10, 5:20, 6:33 e aqui. As edições críticas acrescentam uma sétima, em Mateus 6:1, onde o Textus Receptus tem eleēmosynē, "esmola" (item 2). Todas as ocorrências estão na boca de Jesus.
καὶ οὐκ ἐπιστεύσατε αὐτῷ — kai ouk episteusate autō, "e não creram nele". Aoristo de pisteuō, "crer", "dar crédito". Com dativo de pessoa, como aqui, significa acreditar no que alguém diz, confiar na palavra dele — distinto de pisteuō eis, "crer em direção a", fórmula que o Novo Testamento reserva sobretudo para Cristo. O aoristo resume uma atitude inteira como fato encerrado.
οἱ δὲ τελῶναι καὶ αἱ πόρναι ἐπίστευσαν αὐτῷ — hoi de telōnai kai hai pornai episteusan autō, "mas os cobradores e as prostitutas creram nele". O mesmo verbo, no mesmo tempo, agora sem a negação. De marca o contraste. A frase espelha a anterior palavra por palavra, trocando só o sujeito e tirando o "não".
ὑμεῖς δὲ ἰδόντες — hymeis de idontes, "vocês, porém, tendo visto". Hymeis, pronome expresso, é enfático em grego, onde o verbo já indica a pessoa: "vocês, justamente vocês". Idontes é particípio aoristo de horaō, "ver": a visão aconteceu antes da recusa.
οὐ μετεμελήθητε — ou metemelēthēte, "não mudaram de ideia". Aoristo de forma passiva de metamelomai, o mesmo verbo do particípio "arrependido" de Mateus 21:29, onde a palavra é estudada.
ὕστερον — hysteron, "depois", "mais tarde". Advérbio comparativo, de hysteros, "posterior". É a mesma palavra de Mateus 21:29 ("mas depois, arrependido, foi") e a mesma raiz da resposta "o de depois" que o Códice Vaticano põe na boca dos chefes em Mateus 21:31. No grego, e também na ABC, ele qualifica a mudança de ideia que não houve.
τοῦ πιστεῦσαι αὐτῷ — tou pisteusai autō, "para crer nele". Infinitivo aoristo precedido do artigo no genitivo, construção que no grego do Novo Testamento indica finalidade ou resultado. A mudança de ideia que faltou teria levado a isto.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: a recusa de João não teve motivo religioso. João vivia uma justiça que os chefes do templo reconheciam e pregava dentro do que Deus queria cumprir. Quem o recusou não estava defendendo a Lei contra um transgressor; estava se defendendo de uma convocação.
A segunda: na aplicação da parábola, crer e fazer são o mesmo ato. Os cobradores e as prostitutas creram — e crer, para eles, teve conteúdo de conduta. Os chefes disseram "sim" à justiça e não foram.
A terceira: o versículo julga mais duramente a segunda recusa do que a primeira. Dizer "não" a João estava previsto na parábola; o primeiro filho também disse. O que pesa contra os chefes é que viram o efeito de João nos outros e, ainda assim, não tiveram o "depois". A porta da parábola era a mudança de ideia, e foi essa porta que ficou sem uso.













