De onde vinha o batismo de João? Do céu ou dos homens?” Eles discutiam entre si: “Se dissermos ‘Do céu’, ele perguntará: ‘Então por que vocês não creram nele?’
1. Introdução
Jesus faz a sua pergunta: o batismo de João veio do céu ou dos homens? E, antes que os chefes respondam, o texto deixa você ouvir a conversa que eles têm entre si.
"Céu", na boca de um judeu daquele tempo, era um modo reverente de dizer "Deus", e a pergunta põe a autoridade de João entre duas origens possíveis, sem terceira via.
A deliberação revela o critério dos chefes: eles não perguntam qual das respostas é verdadeira, perguntam o que cada uma lhes custaria.
E a primeira consequência que eles mesmos preveem é a frase que o capítulo vai repetir até o fim: "por que vocês não creram nele?".
2. Contexto Histórico e Cultural
"Céu" no lugar do nome de Deus
Um leitor de hoje ouve "do céu" e pensa num lugar. O ouvinte de Jerusalém ouvia um nome. Nos últimos séculos antes de Cristo, a reverência pelo nome de Deus levou os judeus a substituí-lo por palavras que apontavam para ele sem pronunciá-lo, e "Céu" foi a mais comum. A troca deixou rastro em textos de três tipos diferentes.
O primeiro é o livro de Daniel, na parte escrita em aramaico (a língua falada pelos judeus depois do exílio na Babilônia). O mesmo capítulo diz que "o Altíssimo governa o reino dos homens" e, poucas linhas depois, que o reino voltará a Nabucodonosor "depois que você reconhecer que o Céu governa" (Daniel 4:25-26). A segunda frase troca o título de Deus pela palavra "Céu". É um dos registros mais antigos do costume.
O segundo é o Primeiro Livro dos Macabeus, a história da revolta judaica contra os reis sírios no século II antes de Cristo, que quase nunca escreve "Deus". Judas Macabeu anima os seus homens dizendo que "para o Céu não há diferença entre salvar com muitos ou com poucos" (1 Macabeus 3:18-19), e antes de outra batalha: "clamemos ao Céu" (1 Macabeus 4:10).
O terceiro são os ditos dos mestres. O tratado Pirkei Avot ("Capítulos dos Pais", a coleção de máximas dos sábios judeus que faz parte da Mishná, a compilação da lei oral fechada por volta do ano 200) atribui a Antígono de Socó, mestre do século III antes de Cristo, a frase: "que o temor do Céu esteja sobre vocês" (Avot 1:3). "Temor do Céu" virou expressão fixa da piedade judaica.
Do céu ou dos homens: um par que a lei judaica conhecia
A oposição que Jesus propõe não foi inventada para a ocasião. A Mishná a usa como categoria jurídica. No tratado Bava Kamma (6:4), que trata de danos, há o caso de quem põe fogo na mão de um surdo-mudo, de um incapaz ou de uma criança, e o fogo destrói a plantação do vizinho. A sentença tem duas metades: o responsável "está isento pelas leis dos homens, e culpado pelas leis do Céu". O tribunal não pode condená-lo, porque quem acendeu o fogo foi outro; mas ele não está inocente diante de Deus.
O par mostra que, para um judeu instruído, "do céu" e "dos homens" eram duas jurisdições, cada uma com a sua lei e a sua sentença. Os chefes dos sacerdotes, que presidiam tribunais, entendiam a pergunta de Jesus nesses termos: ela não pedia uma opinião sobre João, pedia que dissessem a qual jurisdição ele pertencia. E quem diz "do Céu" admite que há uma instância acima da sua.
A disputa "em nome do Céu"
O mesmo tratado Avot traz um critério para julgar discussões. "Toda disputa que é em nome do Céu acabará por permanecer; e a que não é em nome do Céu não permanecerá." O exemplo da primeira é a disputa entre Hillel e Shammai, os dois grandes mestres do século I antes de Cristo, que discordaram em centenas de questões. O exemplo da segunda é a revolta de Coré contra Moisés (Avot 5:17).
A diferença não está no tom nem no assunto. Está no motivo. Hillel e Shammai discutiam para saber o que Deus queria; Coré discutia para tomar o lugar de Moisés. A deliberação dos chefes, que o versículo deixa ouvir, é uma disputa da segunda espécie em estado puro: o Céu aparece nela como uma das respostas possíveis, e nunca como o critério para escolher entre elas.
3. Análise Teológica do Versículo
"De onde vinha o batismo de João?"
A pergunta começa por "de onde", e não por "o que era". Jesus não pede uma avaliação do batismo, do seu valor, da sua eficácia ou da doutrina de João. Pede a origem. É a mesma pergunta que os chefes lhe fizeram no versículo 23, "quem lhe deu tal autoridade?", agora feita sobre outro homem.
E o "batismo de João" é mais que o rito. Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) observa que a palavra resume o ministério inteiro: a pregação, o chamado ao arrependimento e o testemunho sobre quem viria depois. O argumento do próprio versículo confirma: os chefes temem ouvir "por que vocês não creram nele", e ninguém "crê" num banho. Crê-se no que alguém disse.
"Do céu ou dos homens?"
"Céu" aqui é Deus. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) chama a expressão de reverente, e Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista luterano alemão do século XVIII) a classifica como "metonímia de caráter reverente", isto é, o lugar nomeado no lugar de quem mora nele. Mateus é o evangelista que mais usa esse recurso, a ponto de escrever "Reino dos céus" onde Marcos e Lucas escrevem "Reino de Deus".
A alternativa não tem meio-termo, e isso é deliberado. Ninguém em Israel tinha dado a João licença para batizar: ele não era mestre de escola conhecida, não pregava no templo, e fazia um rito que não estava na Lei. Se não veio de nenhuma instituição humana, só sobram duas possibilidades: ou foi iniciativa dele, "dos homens" no sentido de invenção pessoal, ou foi enviado por Deus. Quem responde à pergunta sobre João está dizendo, ao mesmo tempo, se aceita que Deus envie alguém por fora das instituições que os chefes administravam.
"Eles discutiam entre si"
Aqui o texto põe o leitor dentro da conversa privada dos adversários. A pergunta foi feita em público, e a resposta será dada em público. Entre as duas, o texto abre uma janela para o que os chefes disseram uns aos outros, com o raciocínio completo, em discurso direto.
Como Mateus pode saber disso? Há cinco respostas, que não se excluem.
Primeira: a conversa foi audível. O grego que a ABC segue diz que discutiam "uns com os outros", e não "dentro de si", como trazem as edições críticas (item 10). O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) imagina uma consulta passada de um a outro, num pátio cheio de gente.
Segunda: a conversa foi deduzida. O Expositor's Greek Testament ("Testamento Grego do Expositor", comentário inglês do início do século XX) sugere que o raciocínio foi "adivinhado" pelo embaraço no rosto deles. Todos sabiam que os chefes não reconheciam João e que o povo reconhecia; a hesitação dizia o resto.
Terceira: alguém de dentro contou. Havia gente do círculo dos chefes simpática a Jesus, como José de Arimateia (Mateus 27:57), e anos depois "um grande número de sacerdotes obedecia à fé" (Atos 6:7). É hipótese, sem prova direta.
Quarta: é a convenção dos historiadores antigos. Tucídides (historiador grego do século V antes de Cristo) admite, na História da Guerra do Peloponeso (I.22), que não guardou as palavras exatas dos discursos e fez cada personagem dizer "o que me parecia que deveria dizer" na situação, mantendo-se perto do sentido geral. Os evangelistas não declaram esse método, mas escreviam num mundo em que ele era normal.
Quinta: Jesus sabia. Mateus diz que ele conhecia os pensamentos dos adversários (Mateus 9:4; 12:25). Mas aqui não há "conhecendo os pensamentos deles": o texto narra a deliberação sem dizer como a soube.
Não é possível decidir entre essas leituras. O efeito, porém, é certo: a multidão do pátio vai ouvir "não sabemos"; o leitor ouviu o cálculo que produziu essa frase.
O que a deliberação revela
O conteúdo da conversa é mais revelador do que a sua existência. Os chefes examinam as duas respostas possíveis, e em nenhuma das duas perguntam se ela é verdadeira. A primeira é descartada porque Jesus teria uma réplica; a segunda, porque o povo reagiria. O critério é o custo.
Isso não quer dizer que os chefes não tivessem opinião sobre João. O texto deixa entender que tinham, e que era negativa: se achassem que João vinha de Deus, não temeriam a réplica "por que vocês não creram nele?". Eles não creram, e sabem que não creram. O que lhes falta não é convicção, é a disposição de dizê-la em voz alta.
E há uma simetria que Mateus constrói no mesmo capítulo. Na parábola que Jesus vai contar logo adiante, os lavradores, ao ver o filho do dono, também "disseram entre si" e calcularam o que ganhariam matando-o (Mateus 21:38). As duas deliberações são as únicas do capítulo, e as duas acontecem entre quem deveria prestar contas a um senhor e decide em função do próprio interesse. Quem ouve a parábola já ouviu os chefes fazendo a mesma coisa.
"Se dissermos 'Do céu', ele perguntará: 'Então por que vocês não creram nele?'"
Os chefes antecipam a réplica de Jesus palavra por palavra. A previsão mostra que eles entenderam o alcance da pergunta melhor do que muitos leitores depois: admitir que João vinha de Deus obrigava a explicar por que não o seguiram.
"Crer nele", aqui, não é ter fé em João como se tem fé em Deus. É dar crédito ao que ele disse (item 10). E o que João disse, segundo o próprio Mateus, incluía o anúncio de alguém "mais poderoso" que viria depois dele (Mateus 3:11). Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) e Gill tiram daí a consequência que os chefes também tiraram: quem aceita João aceita o testemunho de João sobre Jesus, e a pergunta "com que autoridade?" está respondida. É por isso que a pergunta de Jesus não é uma fuga, e é por isso que os chefes não podem responder "do céu".
O que os chefes temem é a acusação de incoerência, não a de erro. Um juiz pode errar sobre um profeta e reconhecer o erro. O que ele não pode é declarar que alguém falou em nome de Deus e admitir, no mesmo fôlego, que não lhe deu ouvidos. A frase que eles preveem não ficará sem ser dita: Jesus a dirá em Mateus 21:32.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
João Batista
O pregador do deserto da Judeia que chamava Israel ao arrependimento e batizava no rio Jordão, apresentado por Mateus no capítulo 3. Executado por Herodes Antipas (Mateus 14:10), estava morto havia algum tempo quando esta cena acontece, mas o seu nome continuava a dividir Jerusalém. O movimento dos seus discípulos sobreviveu à sua morte, como mostra o estudo de Mateus 14:12.
O batismo de João
Um mergulho único, no rio, ligado à confissão dos pecados (Mateus 3:6). Diferia dos banhos de purificação comuns no judaísmo da época, que se repetiam sempre que a pessoa ficava impura, e não era administrado pelo sacerdócio do templo. Era um rito com autor, e por isso a pergunta pela autoridade cabia nele com exatidão.
O inquérito anterior sobre João
Não era a primeira vez que Jerusalém perguntava pela autoridade de João. O Evangelho de João registra que, no tempo da sua pregação, as autoridades de Jerusalém enviaram sacerdotes e levitas ao Jordão para lhe perguntar quem ele era e "por que você batiza?" (João 1:19-25). Se o relato reflete um fato, os chefes de Mateus 21:25 já conheciam as respostas de João e já tinham tido ocasião de formar juízo sobre ele. O "não sabemos" que virá no versículo 27 soa ainda mais estranho nessa luz.
5. Pontos de Ensino
A pergunta pela origem decide o resto
Jesus não discute o conteúdo da pregação de João nem a forma do seu batismo. Pergunta de onde veio. Quando a origem de uma palavra está decidida, a obrigação de ouvi-la também está. É por isso que os chefes não conseguem responder: a resposta certa os comprometeria.
Reconhecer uma origem divina tem consequência
Os próprios chefes formulam a regra: se veio do céu, deveria ter sido crido. Não existe a posição de quem admite que alguém falou da parte de Deus e se sente livre para não fazer caso. O versículo põe essa incoerência na boca de quem tenta evitá-la.
Deus pode falar por fora das instituições
João não tinha licença do templo, nem de escola, nem de conselho. A pergunta de Jesus obriga os responsáveis pela religião oficial a considerar que Deus tenha enviado alguém sem passar por eles. O texto não afirma que as instituições sejam inúteis; afirma que não detêm o monopólio do envio.
O cálculo pode substituir a verdade sem que se diga nenhuma mentira
Na deliberação, ninguém propõe mentir. Eles só deixam de perguntar o que é verdadeiro e passam a perguntar o que é conveniente. O passo seguinte, a resposta evasiva, nasce desse deslocamento de critério.
6. Aspectos Filosóficos
Uma verdade pode vir do céu e dos homens ao mesmo tempo?
A pergunta de Jesus é construída como alternativa: do céu ou dos homens. Na cena, a alternativa funciona, porque o que está em jogo é se João foi enviado ou se agiu por conta própria. Mas a forma da pergunta levanta um problema que a filosofia enfrentou por séculos. O que vem de Deus e o que vem do esforço humano se excluem? Ou uma coisa pode chegar pelos dois caminhos? E, se houver conflito aparente entre os dois, quem decide, e diante de quem se fala?
Averróis e as duas fontes da verdade
Averróis (Ibn Rushd, filósofo, jurista e médico muçulmano nascido em Córdoba em 1126 e morto em Marrakech em 1198) foi o grande comentador de Aristóteles na Idade Média, a ponto de os escolásticos latinos o chamarem simplesmente "o Comentador". Era também juiz da lei islâmica. No Discurso decisivo (escrito por volta de 1179, em árabe Faṣl al-maqāl), ele responde a uma pergunta jurídica: a lei religiosa permite, proíbe ou ordena o estudo da filosofia?
A resposta dele é que ordena. O Corão manda refletir sobre a criação ("reflitam, vocês que têm olhos", diz um dos versos que ele cita), e a reflexão rigorosa sobre a criação é exatamente o que os filósofos fazem. A razão humana, para Averróis, não é rival da revelação: é um dos caminhos que a própria revelação abriu. Daí a sua frase mais citada: "a verdade não se opõe à verdade; ao contrário, concorda com ela e dá testemunho a seu favor". O que vem de Deus pela Escritura e o que o homem alcança pela demonstração não podem, se ambos forem verdadeiros, se contradizer.
Quando parecem se contradizer, diz ele, o texto sagrado deve ser interpretado, isto é, lido para além do sentido aparente. Mas aqui vem a segunda tese, mais incômoda. Averróis divide as pessoas em três classes: as que se convencem por demonstração rigorosa, as que se convencem por argumentos prováveis e as que se convencem por retórica, isto é, por imagens e exortações. A maioria pertence à terceira. E as interpretações dos sábios, segundo ele, não devem ser expostas a essa maioria, nem escritas em livros populares, porque quem não tem preparo para elas perde o sentido aparente sem ganhar o profundo, e fica sem fé nenhuma.
O que isso ilumina em Mateus 21:25
A primeira tese de Averróis põe em questão a forma da pergunta. Para ele, "do céu" e "dos homens" não se excluem por natureza: a razão humana bem usada é uma via que Deus mandou percorrer. O batismo de João, nesse sentido, era um ato humano, de um homem de carne e osso, com gestos aprendidos e palavras escolhidas. E podia ser, ao mesmo tempo, "do céu". A pergunta de Jesus não nega isso. Ela pergunta pela fonte da autoridade, não pelo instrumento: quem enviou João, e não por que mãos a água passava.
A segunda tese ilumina a deliberação, pelo contraste. Os chefes também têm um juízo para o círculo interno e outro discurso para a multidão. Mas Averróis queria poupar o povo de um saber que, segundo ele, o povo não saberia carregar; os chefes poupam a si mesmos de uma consequência. Em Averróis, a reserva protege a fé de quem ouve. Na cena, protege a posição de quem fala.
A distinção entre o que se diz entre poucos e o que se diz em público tem, portanto, defesa séria na história da filosofia. O que a torna desonesta é o critério: quando depende só do que custa a quem fala, o "discurso para o povo" deixa de ser pedagogia e vira gestão de risco.
O limite da aproximação
Averróis não comenta os evangelhos, e escreve num contexto islâmico, mais de mil anos depois. A leitura acima aplica as ideias dele à cena. E há uma cautela de história: a doutrina da "dupla verdade" (algo verdadeiro em filosofia e falso em teologia, ou vice-versa), que os teólogos de Paris atribuíram aos seus seguidores latinos no século XIII, não é dele. Averróis defendia o contrário: uma verdade só, alcançada por caminhos diferentes. É justamente por isso que a sua posição serve para pensar a pergunta de Jesus.
7. Aplicações Práticas
Pergunte de onde veio, antes de perguntar se convém
Diante de uma palavra incômoda, de um conselho, de uma correção ou de uma denúncia, a primeira pergunta honesta é se ela é verdadeira e de onde vem. Os chefes pularam essa pergunta e foram direto à seguinte: o que me custa admitir isso? Quem inverte a ordem já decidiu a resposta antes de examinar.
Note quando a sua deliberação não menciona a verdade
Os chefes passaram uma conversa inteira sem perguntar o que era verdadeiro. Numa reunião de trabalho, numa decisão de família, num conselho de igreja, vale prestar atenção nisso: se todas as opções são pesadas só pelo efeito que terão, a verdade saiu da sala, mesmo que ninguém tenha mentido.
Aceitar uma palavra é aceitar o que ela pede
"Por que vocês não creram nele?" é a pergunta que persegue quem admite em tese e recusa na prática. Se você reconhece que alguém lhe disse uma verdade, a coerência pede que você aja de acordo. Reconhecer e não mudar nada é a posição que os próprios chefes acharam indefensável.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que Jesus perguntou sobre João, e não sobre outro profeta?
Porque João era o caso que ligava a pergunta à resposta. Ele tinha batizado Jesus e tinha anunciado alguém maior que viria depois dele. Um profeta antigo, como Isaías ou Elias, não serviria: ninguém discutia a origem deles. João era recente, popular entre o povo e rejeitado pelas autoridades. Era o único caso em que a opinião dos chefes estava em desacordo com a da multidão.
Os chefes teriam como saber se o batismo de João vinha de Deus?
A Lei dava critérios para examinar profetas: a palavra se cumpre? (Deuteronômio 18:22); leva a outros deuses? (Deuteronômio 13:1-3). João não pregou outro deus, e o seu chamado ao arrependimento era o dos profetas antigos. Se os chefes tinham um juízo contrário, era um juízo possível de defender em público. O que eles evitam não é a falta de critério, é o preço de aplicar o critério diante do povo.
Se a conversa foi privada, ela pode ser usada como prova contra os chefes?
Como documento histórico, não com segurança: o texto não diz como a conheceu (item 3). Como narrativa, ela tem uma função clara, que é mostrar ao leitor o critério que estava por trás da resposta pública. Quem lê o versículo como ata palavra por palavra pede a ele mais do que ele oferece; quem o descarta como invenção também afirma mais do que se pode provar.
O "nós" da deliberação quer dizer que todos concordavam?
Não necessariamente. O texto registra um raciocínio coletivo, com uma só voz do começo ao fim, e pode estar simplificando uma conversa mais confusa. Se houve quem preferisse responder "do céu", o texto não diz.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma deliberação nos outros evangelhos
Marcos 11:31 — "E discutiam entre si, dizendo: Se dissermos: Do céu, ele dirá: Então por que vocês não creram nele?"
Tradução livre a partir do Textus Receptus. Marcos usa o verbo simples de "pensar, calcular"; a frase é quase idêntica à de Mateus.
Lucas 20:5 — "Eles então raciocinaram entre si, dizendo: Se dissermos: Do céu, ele dirá: Então por que vocês não creram nele?"
Lucas usa um verbo composto que sublinha o raciocínio feito em conjunto, como uma conta que se fecha.
Os que creram e os que não creram em João
Lucas 7:29-30 — "E todo o povo que o ouviu, e até os cobradores de impostos, reconheceram a justiça de Deus, tendo sido batizados com o batismo de João. Mas os fariseus e os intérpretes da Lei rejeitaram o propósito de Deus a respeito de si mesmos, não tendo sido batizados por ele."
Tradução livre. A divisão que a deliberação dos chefes pressupõe está aqui descrita: o povo reconheceu João, os especialistas o recusaram.
Mateus 21:32 — "Pois João veio a vocês pelo caminho da justiça, e vocês não creram nele; mas os cobradores de impostos e as prostitutas creram. Vocês, porém, vendo isso, não se arrependeram depois para nele crer."
A réplica que os chefes previram, pronunciada por Jesus sete versículos depois.
O céu que já tinha falado
Mateus 3:16-17 — "Depois de batizado, Jesus saiu logo da água. E eis que os céus se abriram, e ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me agrado."
No batismo de João, o céu se pronunciou. A pergunta "do céu?" tem resposta dentro do próprio evangelho.
A mesma alternativa em outra boca
Atos 5:38-39 — "Afastem-se destes homens e deixem-nos, porque, se este plano ou esta obra é dos homens, se desfará; mas, se é de Deus, vocês não poderão destruí-los, para que não sejam achados lutando até contra Deus."
Gamaliel, membro do conselho de Jerusalém, aplica aos apóstolos a mesma alternativa de Jesus, "dos homens" ou "de Deus", e tira dela a conclusão oposta à dos chefes: na dúvida, não combater.
A outra deliberação do capítulo
Mateus 21:38 — "Mas, ao verem o filho, os lavradores disseram entre si: 'Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo e tomar a sua herança.'"
Na parábola, os arrendatários também conversam entre si e decidem pelo próprio interesse. O leitor ouve duas deliberações no mesmo capítulo, e a segunda espelha a primeira.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
De onde vinha o batismo de João? Do céu ou dos homens?” Eles discutiam entre si: “Se dissermos ‘Do céu’, ele perguntará: ‘Então por que vocês não creram nele?’
Texto grego (Textus Receptus)
Τὸ βάπτισμα Ἰωάννου πόθεν ἦν; ἐξ οὐρανοῦ ἢ ἐξ ἀνθρώπων; Οἱ δὲ διελογίζοντο παρ’ ἑαυτοῖς, λέγοντες, Ἐὰν εἴπωμεν, Ἐξ οὐρανοῦ, ἐρεῖ ἡμῖν, Διατί οὖν οὐκ ἐπιστεύσατε αὐτῷ;
Transliteração
To baptisma Iōannou pothen ēn? ex ouranou ē ex anthrōpōn? Hoi de dielogizonto par' heautois, legontes, Ean eipōmen, Ex ouranou, erei hēmin, Diati oun ouk episteusate autō?
Uma nota sobre o texto
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) e as edições críticas diferem aqui em dois pontos.
O primeiro é pequeno: as edições críticas repetem o artigo, "o batismo, o de João"; o sentido é o mesmo.
O segundo tem peso para a leitura. O Textus Receptus diz que os chefes discutiam par' heautois; as edições críticas, com os manuscritos mais antigos, trazem en heautois. A preposição para com o dativo indica presença, "junto de", e a frase fica "discutiam uns com os outros", uma conversa entre pessoas. A preposição en admite também "dentro de si", uma ponderação silenciosa, e é a forma que Mateus usa em Mateus 16:7, sobre os discípulos. O Pulpit Commentary lê a primeira forma como sinal de uma consulta passada de um a outro. A diferença não decide como Mateus soube da conversa, mas a forma seguida pela ABC favorece a leitura de uma conversa audível. Conferido no Bible Hub (textos paralelos: Scrivener 1894, Stephanus 1550, Nestle 1904, SBL) e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.
Análise palavra por palavra
Τὸ βάπτισμα Ἰωάννου — to baptisma Iōannou, "o batismo de João". Baptisma é formado do verbo baptizō, "mergulhar", com o sufixo -ma, que indica o resultado de uma ação: "o mergulho realizado". A palavra não aparece na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento); para os banhos rituais judaicos o Novo Testamento usa outra forma, baptismos (Marcos 7:4). Baptisma é a palavra do rito de João e, depois, do batismo cristão.
πόθεν ἦν — pothen ēn, "de onde era". Pothen é o advérbio interrogativo de origem: "de onde, de que lugar, de que fonte". É a palavra que os conterrâneos de Jesus usam em Mateus 13:54 e 13:56, "de onde lhe vem esta sabedoria?". Em Mateus, pothen é a pergunta que se faz diante de uma autoridade que não se explica. Ēn é o imperfeito de eimi, "ser": "de onde era", como quem fala de algo que durou e já terminou.
ἐξ οὐρανοῦ ἢ ἐξ ἀνθρώπων — ex ouranou ē ex anthrōpōn, "do céu ou dos homens". A preposição ek (ex antes de vogal) indica a origem, "a partir de, saído de". O paralelismo é perfeito: a mesma preposição, um singular contra um plural. Ouranos é o céu, aqui como nome de Deus. Anthrōpōn é o plural de anthrōpos, "ser humano", e o plural conta: não "de um homem", isto é, do próprio João, mas "dos homens", de qualquer origem humana, pessoal ou institucional.
Οἱ δὲ διελογίζοντο — hoi de dielogizonto, "eles então discutiam". Imperfeito médio de dialogizomai, "pesar razões, deliberar". O verbo e o seu uso em Mateus foram analisados no estudo de Mateus 16:7. Aqui o imperfeito pinta uma deliberação em curso, com idas e vindas, e não uma decisão instantânea.
Ἐὰν εἴπωμεν, Ἐξ οὐρανοῦ — ean eipōmen, Ex ouranou, "se dissermos: Do céu". Ean com o subjuntivo aoristo eipōmen é a condição eventual, uma hipótese sobre o futuro. Note-se o verbo: "se dissermos", e não "se acharmos" ou "se for". A condição não é sobre a verdade, é sobre o que eles vão declarar.
ἐρεῖ ἡμῖν — erei hēmin, "ele nos dirá". Futuro de "dizer", da mesma raiz do erō que Jesus usou no versículo 24 ("eu direi a vocês"). Os chefes preveem a fala de Jesus com o mesmo verbo com que ele prometeu a sua.
Διατί οὖν — diati oun, "por que, então". Diati (escrito também dia ti, "por causa de quê") pergunta pela causa. Oun, "então, portanto", amarra a pergunta à premissa: se era do céu, então. É a conjunção da consequência lógica, e é ela que fecha a armadilha.
οὐκ ἐπιστεύσατε αὐτῷ — ouk episteusate autō, "vocês não creram nele". Aoristo de pisteuō, "crer, confiar, dar crédito", que olha para o tempo de João como um momento encerrado: houve uma ocasião de crer, e ela passou. O complemento está no dativo, autō, "a ele". Em grego, pisteuō com o dativo significa, em geral, dar crédito a alguém, acreditar no que a pessoa diz; para a confiança em alguém como objeto da fé o Novo Testamento costuma usar pisteuō eis, "crer para dentro de". A frase diz, portanto, "vocês não acreditaram no que ele disse". O mesmo verbo, com o mesmo dativo, volta em Mateus 21:32, duas vezes sobre os chefes e uma sobre os cobradores de impostos e as prostitutas.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: a pergunta de Jesus não é um desvio do assunto, é o assunto posto num caso que os chefes não podem julgar sem se comprometer. "Céu" e "homens" eram, para eles, duas jurisdições conhecidas, e escolher uma delas para João era escolher também para Jesus, a quem João tinha anunciado. Conclui-se que, para Mateus, a autoridade de Jesus não se discute à parte da autoridade de João: as duas vêm da mesma fonte, ou de nenhuma.
A segunda: o texto expõe a resposta antes de ela ser dada. Ao abrir a deliberação privada, ele mostra que o "não sabemos" do versículo 27 será o resultado de um cálculo, e não de uma dúvida. A conclusão é que o julgamento que o evangelho faz dos chefes não recai sobre a ignorância deles, que não existia, e sim sobre o critério com que decidiram o que dizer.
A terceira: os próprios adversários formulam o princípio que os condena. Reconhecer que uma palavra veio de Deus e não lhe dar crédito é, para eles mesmos, uma posição insustentável, tanto que a evitam. Daqui se segue que a pergunta "por que vocês não creram nele?" não é uma acusação que Jesus inventa: é a consequência que os chefes já tinham tirado, e que o capítulo vai apenas tornar pública.













