Mas, se dissermos ‘Dos homens’, tememos a multidão, pois todos consideram João um profeta.”
1. Introdução
A segunda metade da deliberação mostra a resposta que os chefes gostariam de dar: o batismo de João era "dos homens". Eles não a dão por um motivo que confessam com todas as letras: "tememos a multidão".
O povo tinha João por profeta, mesmo depois de morto, e contradizê-lo em público, no templo cheio de peregrinos, tinha um preço.
O versículo põe frente a frente duas autoridades sobre o mesmo assunto: a dos chefes, que deviam julgar profetas, e a da multidão, que já tinha julgado.
E a balança pende para a segunda, não por convicção, mas por cálculo.
2. Contexto Histórico e Cultural
A multidão como força política
A aristocracia sacerdotal de Jerusalém tinha cargo, dinheiro e o apoio do governador romano. O que não tinha garantido era o povo. E as fontes judaicas guardam a memória de que a popularidade de um mestre podia humilhar um sumo sacerdote em público.
O Talmude da Babilônia (a grande compilação das discussões dos mestres judeus, fechada por volta do ano 500), no tratado Yoma (71b), conta um episódio ligado ao Dia da Expiação. Ao fim do dia, o costume era que o povo acompanhasse o sumo sacerdote do templo até a sua casa, em cortejo. Certa vez, o sumo sacerdote saía, e todos o seguiam. Então apareceram Shemaya e Avtalyon, os dois mestres mais respeitados da geração, e a multidão deixou o sumo sacerdote sozinho e foi atrás deles.
O sumo sacerdote, ressentido, despediu-se dos dois com uma ofensa: "que os filhos dos gentios venham em paz", lembrando que eles descendiam de convertidos. A resposta deles virou provérbio: "que venham em paz os filhos dos gentios que fazem as obras de Aarão, e não venha em paz o filho de Aarão que não faz as obras de Aarão".
A história é posterior e tem lado: foi preservada por quem herdou a autoridade dos mestres, não a dos sacerdotes. Mas ela registra uma tensão real. O povo dava o seu respeito a quem considerava próximo de Deus, e não necessariamente a quem ocupava o cargo. Os chefes de Mateus 21:26 sabiam disso por experiência.
A pedra na mão da multidão
O que os chefes temiam concretamente, Lucas diz sem rodeio: "o povo inteiro nos apedrejará" (Lucas 20:6). Não é exagero retórico. O Novo Testamento registra várias vezes a multidão pegando pedras fora de qualquer tribunal: em João 8:59 e João 10:31, contra o próprio Jesus, no templo; e em Atos 5:26, quando os guardas do templo levam os apóstolos ao conselho "sem violência, porque temiam ser apedrejados pelo povo". Os guardas temiam exatamente o que os chefes temiam aqui.
A própria lei judaica conhecia uma margem para a violência sem julgamento. A Mishná (a compilação da lei oral fechada por volta do ano 200), no tratado Sanhedrin (9:6), lista três casos em que "os zelosos o atacam": quem rouba um vaso do templo, quem amaldiçoa por meio de feitiçaria e quem se une a uma mulher estrangeira. O texto não manda o tribunal julgar; reconhece que o zelo popular pode agir por conta própria. Os mestres depois cercaram essa regra de restrições, mas a sua existência mostra que a ideia de uma multidão que pune quem ofende o sagrado não era estranha ao ambiente.
Num pátio do templo, na semana da Páscoa, com peregrinos que tinham descido ao Jordão para ser batizados, chamar João de impostor seria, na percepção dos chefes, ofender o sagrado diante de quem estava disposto a defendê-lo.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas, se dissermos 'Dos homens'"
A segunda hipótese da deliberação é a que eles gostariam de usar. O texto não diz que os chefes achavam João um impostor, mas deixa isso evidente pelo jeito como raciocinam. "Do céu" foi rejeitada pela consequência lógica: Jesus perguntaria por que não creram. "Dos homens" é rejeitada só pela consequência social. Contra a segunda resposta, eles não têm nenhuma objeção de consciência. O único obstáculo é a plateia.
"Dos homens", neste caso, não seria uma opinião neutra. Dizer que o batismo de João veio só de homens era dizer que João inventou um rito, fundou um movimento e chamou Israel ao arrependimento sem ter sido enviado. Era chamá-lo de falso profeta, e a Lei tinha palavras duras para isso (Deuteronômio 18:20).
"tememos a multidão"
Aqui Mateus faz uma escolha que se percebe ao comparar os três evangelhos.
Em Marcos 11:32, a frase dos chefes se interrompe no meio. Eles começam: "Mas, se dissermos 'dos homens'...", e a fala para. Quem completa a frase é o texto, na terceira pessoa: "temiam o povo, pois todos tinham João como verdadeiro profeta". Meyer (Heinrich Meyer, comentarista alemão do século XIX) vê ali uma frase deixada em suspenso de propósito, como se os chefes não conseguissem terminar o pensamento em voz alta. Em Lucas 20:6, a frase vai até o fim e fica concreta: "o povo inteiro nos apedrejará".
Mateus põe o medo na boca deles, em primeira pessoa e no presente: "tememos". É a confissão de um grupo que sabe o que sente. Os chefes não dizem "o povo pode reagir" ou "seria imprudente". Dizem "temos medo". Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista luterano alemão do século XVIII) observa que eles escondiam esse medo em público; o versículo mostra o que escondiam. A palavra que eles nunca usariam diante do povo é a que usam entre si.
E o objeto do medo é revelador. Mateus 10:28 tinha posto a alternativa: temer os homens ou temer a Deus. Os chefes, que acabaram de pesar a possibilidade de que João viesse "do céu", não mencionam o medo de Deus. Temem a multidão. Para quem dirigia o templo, a ausência é eloquente.
"pois todos consideram João um profeta"
O "todos" é exagero, e o exagero diz algo. Nem todos consideravam João profeta: os próprios chefes não consideravam, e Lucas 7:30 registra que fariseus e intérpretes da Lei rejeitaram o seu batismo. O "todos" é a percepção que os chefes têm da opinião pública. Eles calculam o clima da multidão e o imaginam unânime. Essa percepção basta para calá-los (item 6).
"Consideram" traduz um verbo que, ao pé da letra, é "têm": eles "têm João como profeta". A mesma construção aparece duas outras vezes em Mateus, sempre com o mesmo efeito: em Mateus 14:5, o povo tinha João por profeta, e por isso Herodes adiava a sua morte; em Mateus 21:46, as multidões terão Jesus por profeta, e por isso os chefes adiarão a prisão. A estrutura repetida, querer eliminar alguém e ser contido pelo povo que o tem por profeta, foi examinada no estudo de Mateus 14:5. O que este versículo acrescenta é o momento: João já está morto, e a frase está no presente. A multidão "tem" João como profeta agora, depois da execução. O prestígio que protegia o vivo continua a proteger a sua memória.
E há um detalhe que o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) aponta: João não fez milagres. O Evangelho de João o diz expressamente: "João não realizou nenhum sinal" (João 10:41). A reputação de profeta, que o povo lhe dava e os chefes temiam, veio só da pregação e da vida. Não havia curas a contestar nem prodígios a atribuir a outro poder. Havia um homem que o povo reconheceu pelo que dizia.
A inversão de papéis
Pela Lei, examinar quem falava em nome de Deus era tarefa de Israel, e os chefes eram os responsáveis por ela. O versículo mostra o contrário. A multidão já julgou: João era profeta. Os juízes oficiais, que tinham opinião diferente, não ousam emiti-la. Na prática, a decisão sobre João estava com o povo, e os chefes sabiam disso.
Não é possível dizer, a partir do texto, que o povo tinha razão por ser povo. O mesmo evangelho mostrará, poucos dias depois, a multidão persuadida a pedir a morte de Jesus (Mateus 27:20). O versículo não faz da opinião popular um critério de verdade. Mostra que os chefes também não a tratavam como critério de verdade: tratavam-na como risco.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
A multidão
Mateus escreve ochlos, a multidão concreta, a massa de gente no pátio, e não a palavra para o povo de Israel como nação. Na semana da Páscoa, Jerusalém estava cheia de peregrinos: galileus que tinham entrado com Jesus (Mateus 21:9-11), judeus da Judeia e de fora dela. Muitos tinham descido ao Jordão anos antes, porque "os moradores de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região ao redor do Jordão" saíam ao encontro de João (Mateus 3:5). Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) lembra que, entre os que ouviam a conversa no templo, havia quem tivesse sido batizado por ele.
João, profeta para o povo
Para a multidão, João não era um nome do passado. Morto por Herodes Antipas, ele permanecia como o profeta da geração: Jesus mesmo o tinha chamado de "mais que um profeta" (Mateus 11:9). Os seus discípulos continuavam ativos, e o seu batismo continuava a ser lembrado.
Os chefes diante do povo
Os chefes dos sacerdotes e os anciãos dependiam da ordem pública. Respondiam ao governador romano pelo que acontecia no templo, e um tumulto na Páscoa era o pior cenário possível para eles. O medo da multidão não era só pessoal; era também o medo de perder a posição que a ordem lhes garantia.
5. Pontos de Ensino
Quem teme a plateia já cedeu o julgamento
Os chefes tinham opinião sobre João, e não a disseram. O efeito prático foi o mesmo de não ter opinião: a decisão sobre o profeta ficou com a multidão. Quem cala por medo transfere a outros o juízo que lhe cabia.
A popularidade de alguém não prova que ele vem de Deus, mas pesa
O versículo não diz que a multidão estava certa por ser maioria. Diz que o prestígio de João junto ao povo era um fato com o qual os chefes tinham de contar. A opinião popular aparece como força, não como critério.
O medo de pessoas pode ocupar o lugar do temor de Deus
Na deliberação inteira, os chefes falam de Jesus e do povo. Deus só aparece como uma das respostas possíveis. O medo do que os outros farão preenche o espaço onde deveria estar a pergunta sobre o que Deus quer.
Um morto pode ter mais autoridade que os vivos
João estava morto, e os chefes vivos não ousavam contradizê-lo. A autoridade que vem do reconhecimento do povo sobrevive ao cargo, à prisão e à execução; a que vem só do cargo depende de que o cargo seja respeitado.
6. Aspectos Filosóficos
Por que as pessoas se calam quando acham que estão em minoria?
Os chefes têm uma opinião sobre João e decidem não dizê-la, porque acham que "todos" pensam o contrário. O versículo descreve um mecanismo que qualquer pessoa conhece: a opinião que se cala não por ter sido refutada, mas por parecer isolada. A pergunta filosófica é o que esse mecanismo faz com a opinião pública. Ela é a soma do que as pessoas pensam, ou do que as pessoas ousam dizer?
Elisabeth Noelle-Neumann e a espiral do silêncio
Elisabeth Noelle-Neumann (cientista política alemã, 1916-2010, fundadora em 1947 do Instituto de Demoscopia de Allensbach, um dos primeiros institutos de pesquisa de opinião da Alemanha) formulou em 1974, e desenvolveu no livro A espiral do silêncio: opinião pública, nossa pele social (1980), uma teoria sobre como as opiniões ganham e perdem força em público.
O ponto de partida dela é o medo do isolamento. As pessoas, segundo Noelle-Neumann, temem ficar sozinhas contra o grupo mais do que temem estar erradas. Por isso observam o ambiente o tempo todo, com o que ela chamou de "sentido quase estatístico": uma percepção intuitiva de qual opinião está ganhando e qual está perdendo. Quem sente que a sua opinião é majoritária fala com mais confiança; quem sente que é minoritária tende a se calar.
E aqui está a espiral. Cada pessoa que se cala torna a opinião dela menos visível, o que faz outras pessoas da mesma opinião se sentirem ainda mais isoladas, e também se calarem. A opinião que fala parece maior do que é; a que se cala parece menor do que é. No fim, uma posição pode dominar o espaço público sem ser a da maioria real, só porque a outra deixou de ser dita. Noelle-Neumann chamou a opinião pública de "pele social": o que nos mantém unidos ao grupo e, ao mesmo tempo, o que nos controla.
Ela testava isso com uma pergunta famosa nas suas pesquisas: imagine uma viagem de trem de cinco horas, e alguém no mesmo compartimento começa a falar de determinado assunto, defendendo uma posição. Você conversaria com essa pessoa ou não? As respostas variavam conforme a pessoa achasse que a própria opinião estava em alta ou em baixa no país.
O que isso ilumina em Mateus 21:26
O "todos consideram João um profeta" é, nos termos de Noelle-Neumann, o sentido quase estatístico dos chefes em ação. Eles leem o clima do pátio, concluem que a sua posição é minoritária e se calam. O próprio exagero, "todos", é o que a teoria prevê: quem se sente em minoria tende a superestimar a maioria.
Mas a cena tem duas diferenças que o modelo ajuda a ver. A primeira: Noelle-Neumann descreve sobretudo indivíduos comuns, sem poder, que temem a exclusão do grupo. Os chefes eram a elite, e o que temiam não era a solidão, era a pedra e a perda da posição. O mecanismo é o mesmo; o preço é outro. A segunda: o versículo mostra o que a espiral esconde. Em público, o silêncio dos chefes faria parecer que ninguém, nem eles, contestava João. O texto abre a conversa privada e revela que a opinião contrária existia, firme, e só não tinha coragem de aparecer.
O limite e uma cautela
Noelle-Neumann não escreveu sobre o evangelho, e a leitura acima aplica a teoria dela à cena. A teoria também foi muito discutida: estudos posteriores mostraram que o efeito existe, mas é mais fraco e mais dependente do contexto do que ela supunha. E há uma questão sobre a autora que não pode ser omitida: nos anos 1990, pesquisadores revelaram textos antissemitas que ela publicou como jovem jornalista no jornal nazista Das Reich ("O Reich"), em 1940 e 1941, o que gerou um debate duro sobre a sua trajetória. A teoria é útil para pensar este versículo; a biografia é um lembrete, ela mesma, do preço do silêncio e da adesão ao clima dominante.
7. Aplicações Práticas
Desconfie do "todo mundo pensa assim"
Os chefes se calaram porque acharam que "todos" pensavam o contrário, e "todos" não era verdade. Antes de calar uma convicção, pergunte se a maioria que você imagina existe ou se é só a parte que fala mais alto.
Se você tem uma opinião, saiba por que não a diz
Há bons motivos para não dizer tudo o que se pensa: prudência, respeito, momento errado. O versículo mostra um motivo que não é bom: o medo do preço, quando o assunto é justamente o que se tinha o dever de dizer. Os chefes eram os responsáveis por julgar profetas; calar, no caso deles, era abandonar o próprio ofício.
Não confunda o apoio da multidão com aprovação de Deus
O mesmo texto que mostra os chefes com medo do povo mostra, dias depois, o povo persuadido a pedir a morte de Jesus. Quem orienta a vida pelo aplauso fica à mercê de quem o fabrica.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os chefes estavam errados em temer a multidão?
O medo tinha base: Lucas fala em apedrejamento, e o Novo Testamento registra outras multidões com pedras na mão. O problema que o texto aponta não é a prudência diante de um risco real. É que, na deliberação, o risco foi o único critério. Uma autoridade pode adiar uma declaração por prudência; não pode decidir o que é verdadeiro pelo tamanho do risco.
Se os chefes achavam João um falso profeta, por que não agiram contra ele quando estava vivo?
O texto não diz. João pregava no deserto e no Jordão, fora de Jerusalém e fora da jurisdição direta deles, no território de Herodes Antipas. Quem o prendeu e matou foi Herodes, por motivo próprio (Mateus 14:3-4). Os chefes podem ter preferido deixar o problema longe da cidade. É hipótese; nenhum evangelho registra uma ação deles contra João.
Por que a fama de João continuava depois da morte?
Porque morte de profeta não desfazia profecia; na tradição de Israel, costumava confirmá-la. Os profetas mortos pelos reis eram lembrados como justos, e Jesus vai usar essa memória contra os mestres em Mateus 23:29-31. A execução de João por um governante odiado pode ter aumentado, e não diminuído, o seu prestígio.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo medo nos outros evangelhos
Marcos 11:32 — "Mas, se dissermos: Dos homens... — temiam o povo, pois todos tinham João como verdadeiro profeta."
Tradução livre a partir do Textus Receptus. A frase dos chefes se interrompe, e o texto completa em terceira pessoa. Mateus devolve a frase inteira à boca deles.
Lucas 20:6 — "Mas, se dissermos: Dos homens, o povo inteiro nos apedrejará, pois está convencido de que João era profeta."
Tradução livre. O medo ganha forma concreta: pedras.
O povo que pega em pedras
Atos 5:26 — "Então o capitão foi com os guardas e os trouxe, mas sem violência, porque temiam ser apedrejados pelo povo."
Tradução livre. A guarda do templo, poucos anos depois, sob o mesmo medo, diante de outros pregadores populares.
João 10:31 — "Os judeus pegaram de novo pedras para apedrejá-lo."
Tradução livre. No templo, no Pórtico de Salomão. A multidão que protege um profeta também pode atacar outro.
A reputação sem milagres
João 10:41 — "E muitos vinham a ele e diziam: João não realizou nenhum sinal, mas tudo o que João disse a respeito deste homem era verdade."
Tradução livre. O prestígio de João vinha da palavra, e a palavra dele apontava para Jesus.
Mateus 11:9 — "Mas o que foram ver? Um profeta? Sim, eu lhes digo, e muito mais que um profeta."
O juízo de Jesus sobre João coincide com o da multidão, e vai além dele.
A frase que se repete no fim do capítulo
Mateus 21:46 — "E procuravam prendê-lo, mas tinham medo das multidões, pois estas o consideravam um profeta."
Vinte versículos depois, a mesma razão contém os chefes, agora a respeito de Jesus. João e Jesus ficam protegidos pela mesma opinião popular.
O profeta morto que se honra
Mateus 23:29-30 — "Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Porque edificam os túmulos dos profetas e adornam os monumentos dos justos, e dizem: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido cúmplices deles no sangue dos profetas."
Tradução livre. A veneração dos profetas mortos convivendo com a recusa dos vivos.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Mas, se dissermos ‘Dos homens’, tememos a multidão, pois todos consideram João um profeta.”
Texto grego (Textus Receptus)
Ἐὰν δὲ εἴπωμεν, Ἐξ ἀνθρώπων, φοβούμεθα τὸν ὄχλον· πάντες γὰρ ἔχουσι τὸν Ἰωάννην ὡς προφήτην.
Transliteração
Ean de eipōmen, Ex anthrōpōn, phoboumetha ton ochlon; pantes gar echousi ton Iōannēn hōs prophētēn.
Uma nota sobre o texto
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) e as edições críticas trazem as mesmas palavras, com uma diferença de ordem no fim: o Textus Receptus diz "têm João como profeta"; as edições críticas, "como profeta têm João", pondo "profeta" em destaque antes do verbo. O sentido é o mesmo. Conferido no Bible Hub (textos paralelos: Scrivener 1894, Stephanus 1550, SBL, Tischendorf) e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.
Análise palavra por palavra
Ἐὰν δὲ εἴπωμεν — ean de eipōmen, "mas, se dissermos". A mesma condição eventual do versículo anterior, agora com de, "mas, por outro lado", que marca a segunda ponta do dilema. O verbo é "dizer", e não "concluir" ou "afirmar com certeza": a hipótese é sobre o que se vai declarar.
Ἐξ ἀνθρώπων — ex anthrōpōn, "dos homens". A mesma expressão da pergunta de Jesus, agora citada pelos chefes como resposta possível.
φοβούμεθα — phoboumetha, "tememos". Presente médio de phobeomai, "ter medo, temer", primeira pessoa do plural. A frase muda de construção aqui. Esperava-se uma consequência no futuro, paralela à do versículo anterior ("ele nos dirá"): algo como "o povo nos fará isto". Em vez disso vem um presente que descreve um estado: "temos medo". A condição fica sem conclusão lógica, e o que ocupa o lugar da conclusão é um sentimento. A gramática da frase mostra o raciocínio sendo interrompido pelo medo. Marcos 11:32 tem a mesma ruptura, mais forte ainda, passando para a terceira pessoa no imperfeito, ephobounto, "temiam".
O verbo é o de Mateus 10:28 ("não temam os que matam o corpo") e de Mateus 14:5, sobre Herodes, que "tinha medo do povo". Em Mateus, phobeomai é tanto o temor reverente diante de Deus (Mateus 9:8, em alguns manuscritos; Mateus 17:6) quanto o medo comum. Aqui é o segundo.
τὸν ὄχλον — ton ochlon, "a multidão". Ochlos é a massa de gente, a aglomeração. A distinção entre ochlos, a multidão que segue Jesus, e laos, o povo que os anciãos representam, está no estudo de Mateus 21:23. Aqui o singular é coletivo: a multidão do templo como um corpo só.
πάντες γὰρ — pantes gar, "pois todos". Gar introduz a razão do medo. Pantes, "todos", no masculino plural, concorda com o sentido coletivo de ochlos: a multidão é tratada como "todos eles".
ἔχουσι τὸν Ἰωάννην ὡς προφήτην — echousi ton Iōannēn hōs prophētēn, "têm João como profeta". Echō é "ter", e com hōs, "como", forma uma expressão de juízo: "ter alguém como", isto é, "considerar". É um uso do grego comum da época, sem paralelo exato no grego clássico, e Mateus o emprega nas três passagens sobre o profeta protegido pelo povo: Mateus 14:5, sobre João; Mateus 21:26; e Mateus 21:46, sobre Jesus. O presente echousi descreve uma opinião viva, que continua depois da morte de João.
Prophētēs é formado de pro, "diante, em lugar de", e phēmi, "falar": aquele que fala em nome de outro, ou diante dos outros. Na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento), é a palavra que traduz o hebraico navi.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: os chefes tinham uma resposta e a reprimiram. A deliberação mostra que "dos homens" era o que pensavam, e que nenhuma razão de consciência os impedia de dizê-lo; só o preço. Conclui-se que o "não sabemos" que virá a seguir não esconde uma dúvida, esconde uma convicção que não ousou aparecer.
A segunda: o versículo inverte a ordem das autoridades. A multidão já tinha julgado João, e os juízes oficiais não ousaram julgar contra ela. Segue-se que, nesta cena, quem decide de fato sobre o profeta não é quem tem o ofício de decidir, e que essa transferência aconteceu sem que ninguém a declarasse: bastou o silêncio.
A terceira: o medo dos chefes protege, sem que eles queiram, a verdade que recusam. Mateus mostra o prestígio de João sobrevivendo à morte e contendo as autoridades, e mostrará o mesmo prestígio protegendo Jesus no fim do capítulo. Daí se conclui que, para este evangelho, a opinião do povo não é prova de nada, mas pode ser o abrigo provisório de uma palavra que os poderosos não querem ouvir, até o dia em que alguém a manipule.













