Jesus entrou no templo e, enquanto ensinava, aproximaram-se dele os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo, perguntando: “Com que autoridade você faz estas coisas? E quem lhe deu tal autoridade?”
1. Introdução
Jesus volta ao templo e começa a ensinar, e desta vez as autoridades não esperam: vêm até ele os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo.
Eles fazem duas perguntas, e não são a mesma. A primeira quer saber que tipo de autoridade é essa; a segunda, quem a concedeu.
É o primeiro confronto direto, em Jerusalém, entre Jesus e os homens que vão pedir a sua morte. E a pergunta não é absurda: num templo com tribunais e regras de quem pode ensinar, ela era a pergunta que a instituição tinha o dever de fazer.
O leitor de Mateus, porém, já sabe a resposta, e o evangelho só a dirá com todas as letras na última página.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem podia ensinar, e quem conferia esse direito
No judaísmo do primeiro século, ensinar a Lei em público não era livre no sentido moderno. Qualquer um podia falar, mas quem falava como mestre, decidindo o que era permitido e proibido, entrava num sistema de reconhecimento. Os textos rabínicos, escritos depois de 70 mas com tradições anteriores, mostram três peças desse sistema.
A linhagem do ensino
O Talmude de Jerusalém (a compilação de discussões dos mestres da terra de Israel, fechada por volta do ano 400), no tratado Pesachim (6:1), conta como Hillel, mestre vindo da Babilônia no século I antes de Cristo, chegou à liderança. Os líderes de Jerusalém, os filhos de Betira, não sabiam se o cordeiro da Páscoa podia ser sacrificado num sábado. Chamaram Hillel. Ele argumentou o dia inteiro — por analogia, do menor para o maior, pela comparação de palavras iguais na Torá — e eles refutaram cada argumento.
Então ele disse: "Assim eu ouvi de Shemaya e Avtalyon", os dois grandes mestres da geração anterior. Só então o aceitaram, e o fizeram líder. E o texto acrescenta, em nome de Rabi Eleazar, a regra que resume tudo: "Todo ensino que não tem linhagem não é ensino".
A autoridade do mestre, nessa lógica, não vinha do argumento, por melhor que fosse. Vinha de quem ele tinha ouvido. É contra esse fundo que soa Mateus 7:29: Jesus ensinava "como quem tem autoridade, e não como os escribas". Ele não citava mestres. E a segunda pergunta de Mateus 21:23 — "quem lhe deu" — é a pergunta pela linhagem.
A permissão
O Talmude da Babilônia, no tratado Sanhedrin (5a), discute se um juiz que decide sozinho, e erra, precisa indenizar a parte prejudicada. Rav e Shmuel respondem: quem quiser ficar livre dessa responsabilidade deve receber permissão — reshut, "licença", em hebraico — do exilarca, o chefe da comunidade judaica na Babilônia. Com a permissão, a decisão tem força de lei mesmo se errada. O texto discute ainda até onde vale a licença dada na Babilônia e a dada na terra de Israel.
A cena é muito posterior, mas mostra a ideia: a autoridade de decidir é coisa que alguém concede, com território e limites. "Quem lhe deu tal autoridade?" é, literalmente, a pergunta pela licença. A investidura dos sábios pelo nome e pelo título, no tratado Sanhedrin 13b, foi tratada no estudo de Mateus 19:15.
Os tribunais no monte do templo
A Mishná (a primeira grande compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200), no tratado Sanhedrin (11:2), descreve três tribunais em Jerusalém: um à entrada do monte do templo, outro à entrada do pátio interno, e o tribunal maior, de setenta e um juízes, na Sala das Pedras Lavradas. Quando um ancião ensinava diferente dos colegas, o caso subia de tribunal em tribunal até o maior, "de onde a Torá sai para todo Israel".
O ancião que perdia a disputa podia voltar para a sua cidade e continuar ensinando o que pensava, sem punição. Só se tornava réu — o "ancião rebelde" — se mandasse outros agirem contra a decisão do tribunal. O crime não era opinar: era fazer as pessoas agirem.
Jesus, no templo, não apenas ensinava. Tinha derrubado mesas e expulsado vendedores, isto é, agido e feito agir. E a Mishná, no mesmo tratado (1:5), reserva ao tribunal de setenta e um o julgamento do falso profeta. A pergunta dos chefes, dentro desse quadro, é a pergunta preliminar de um processo.
A ressalva é necessária. A Mishná descreve o sistema como os mestres o idealizaram depois da queda do templo, e não há como saber se funcionava assim no tempo de Jesus. Na época, o poder real no templo estava com a aristocracia sacerdotal, sob vigilância romana.
Um Sinédrio fixo, ou um conselho convocado?
Os evangelhos falam do Sinédrio como se fosse um corpo permanente, com membros conhecidos (Mateus 26:59). O historiador E. P. Sanders (estudioso norte-americano do judaísmo antigo, 1937-2022), no livro O judaísmo: prática e crença (1992, escrito em inglês), propôs uma imagem diferente: o sumo sacerdote reunia, conforme a necessidade, um conselho de chefes sacerdotais e notáveis leigos, sem composição fixa. A Mishná teria projetado no passado o tribunal ideal de setenta e um.
Para Mateus 21:23, a diferença decide se o grupo que interroga Jesus é uma delegação oficial do Sinédrio, como pensava o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX), ou uma parte da elite que agia por conta própria com o peso das suas posições. O texto não diz "Sinédrio". Diz quem eram.
3. Análise Teológica do Versículo
"Jesus entrou no templo e, enquanto ensinava"
Na véspera, Jesus agiu no templo: derrubou mesas, expulsou vendedores, curou cegos e coxos. Hoje ele ensina. Mateus marca a troca, e ela tem peso, porque os adversários o interrompem justamente no ato de ensinar — o ato que, mais que qualquer outro, exigia reconhecimento.
Os evangelhos não descrevem a cena do mesmo jeito. Em Marcos 11:27, Jesus está andando pelo templo quando o abordam. Em Lucas 20:1, está ensinando o povo e anunciando a boa notícia. Mateus fica com o ensino e corta o resto. É a primeira vez que o evangelho mostra Jesus ensinando no templo de Jerusalém, e é ali que vai ensinar até o fim do capítulo 23. O lugar em que a nação aprendia a Lei passa a ser o lugar em que ele ensina, e a autoridade dele é contestada na sala de aula dos outros.
"aproximaram-se dele os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo"
O verbo é o mesmo que Mateus usa para quem vem a Jesus pedir ajuda: o leproso, o centurião, os cegos. Aqui, quem se aproxima vem interrogar.
Os interrogadores formam uma dupla que Mateus repete de propósito. "Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo" voltam em Mateus 26:3, reunidos no palácio de Caifás para tramar a prisão; em Mateus 26:47, como quem envia a multidão armada com Judas; em Mateus 27:1, reunidos em conselho para condenar; e em Mateus 27:20, convencendo a multidão a pedir Barrabás. É a dupla da paixão. Quem pergunta em Mateus 21:23 é quem vai decidir a morte.
E há uma ausência. Marcos 11:27 põe na cena os escribas, os especialistas na Lei. Mateus os tira. A pergunta, no relato dele, não vem dos professores, que poderiam discutir doutrina. Vem de quem administrava o templo e representava o povo diante de Roma: a autoridade sacerdotal e a aristocracia leiga. O conflito, em Mateus, é menos sobre interpretação e mais sobre jurisdição.
"Do povo" também não é enfeite. Os anciãos são apresentados como representantes de Israel. O povo, no entanto, está do outro lado: são as multidões que tinham Jesus por profeta (Mateus 21:11) e de quem esses mesmos chefes terão medo (Mateus 21:46). Os anciãos "do povo" interrogam alguém que o povo seguia.
"Com que autoridade você faz estas coisas?"
A palavra grega por trás de "que" não pergunta "qual autoridade", como quem pede um nome. Pergunta "de que tipo": profética, real, sacerdotal, de mestre, de messias (item 10). Cada resposta abriria um processo diferente.
E o que são "estas coisas"? O texto não especifica, e os comentaristas se dividem. Para Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX), a referência é a expulsão dos vendedores. Para Meyer (Heinrich Meyer, comentarista alemão do século XIX), é o conjunto: a entrada em Jerusalém com aclamação messiânica, a expulsão, as curas no templo e agora o ensino — tudo o que fazia de Jesus um pretendente. A leitura de Meyer é mais provável, porque o plural é amplo e a cena da véspera era um pacote só. Mas a pergunta vem no dia seguinte à expulsão, no mesmo lugar, e é difícil não ouvir nela as mesas derrubadas.
A pergunta é legítima, embora a leitura cristã costume tratar os interrogadores como vilões desde a primeira palavra. Deuteronômio 18:21-22 obrigava Israel a examinar quem falava em nome de Deus. Os responsáveis pelo templo viram um homem do interior entrar na cidade sob aclamação real, intervir no comércio do santuário e ensinar sem mestre conhecido. Perguntar de onde vinha a sua autoridade era o mínimo que se esperava deles. O problema, como mostrará o versículo 25, não é a pergunta: é a disposição de ouvir a resposta.
"E quem lhe deu tal autoridade?"
A segunda pergunta não repete a primeira. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) insiste nisso: a primeira pergunta pela natureza, a segunda pelo agente — por intermédio de quem a autoridade foi conferida.
E a segunda pressupõe uma tese. Quem pergunta "quem lhe deu" já admite que autoridade é algo que se recebe, nunca algo que se tem por si. Nisso os chefes e Jesus estão de acordo. A divergência é sobre o doador.
A pergunta é também uma armadilha, e os comentaristas antigos a descreveram bem. Se Jesus responder "os homens", terá de nomear um mestre ou uma instituição, e não há nenhum: confessa que age sem licença. Se responder "Deus", reivindica autoridade profética ou messiânica diante do tribunal competente para julgar falsos profetas, e oferece a acusação pronta. As duas saídas levam ao processo.
O leitor de Mateus, porém, já ouviu a resposta duas vezes, e da boca de terceiros. Em Mateus 9:8, depois da cura do paralítico, as multidões "glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens". O verbo é o mesmo "dar", a palavra é a mesma "autoridade", e o doador está nomeado: Deus. E em Mateus 11:27 Jesus diz que todas as coisas lhe foram entregues pelo Pai. A resposta completa só vem no fim do evangelho, depois da ressurreição: "Foi-me dado todo o poder no céu e na terra" (Mateus 28:18) — a mesma palavra grega que a ABC aqui traduz por "autoridade", na forma passiva que, em Mateus, costuma esconder o nome de Deus como agente.
Entre Mateus 21:23 e Mateus 28:18, a pergunta "quem lhe deu" fica pendente. Jesus não a responde aos chefes, como o versículo seguinte mostrará. Quem a responde é o evangelho inteiro, e só depois da cruz que esses mesmos homens vão providenciar.
O que a pergunta não diz
Os chefes não perguntam se o que Jesus faz é verdadeiro, nem se é bom. Não discutem se o templo precisava de purificação, nem se os cegos foram de fato curados. Perguntam só pela credencial. Pode ser prudência institucional: a credencial vem antes do mérito, em qualquer tribunal. Pode ser recusa de entrar no mérito, porque o mérito era desconfortável. O texto não diz qual das duas, e as duas são plausíveis.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os chefes dos sacerdotes
O plural chama atenção, porque havia um só sumo sacerdote em exercício — naquele ano, José Caifás, que ocupou o cargo de 18 a 36. "Chefes dos sacerdotes" designa um grupo mais largo: o sumo sacerdote em exercício, os que já tinham ocupado o cargo e continuavam com o título, e os homens das poucas famílias de onde os sumos sacerdotes saíam, além dos encarregados do tesouro e da guarda do templo. Era uma aristocracia hereditária, rica, e responsável perante o governador romano pela ordem no santuário.
Os anciãos do povo
Eram os chefes das famílias leigas importantes de Jerusalém e da Judeia — proprietários, notáveis, homens de prestígio local. Junto com os chefes dos sacerdotes, formavam a elite que os romanos usavam para governar a província de modo indireto. A expressão "anciãos do povo" é quase exclusiva de Mateus no Novo Testamento.
O templo
Mateus não diz em que ponto do templo Jesus ensinava. Os pátios externos, abertos a todos, tinham pórticos com colunas onde mestres reuniam ouvintes; o Evangelho de João 10:23 situa Jesus andando no Pórtico de Salomão, no lado leste. Ensinar ali era ensinar no lugar mais frequentado da cidade, em plena semana de Páscoa, à vista de peregrinos de todo o mundo judaico.
O dia
Pela contagem de Marcos, é o terceiro dia de Jesus em Jerusalém; a tradição cristã o chama de terça-feira da Semana Santa, e o Pulpit Commentary segue essa conta. É o dia mais longo dos evangelhos: começa aqui e vai, em Mateus, até o fim do capítulo 25, com as parábolas, as controvérsias, os ais contra os escribas e o discurso sobre o fim.
5. Pontos de Ensino
Perguntar pela autoridade é legítimo
O versículo não condena a pergunta. Israel tinha o dever de examinar quem falava em nome de Deus, e uma comunidade que nunca pergunta de onde vem a autoridade de quem a guia está desprotegida. O que o capítulo vai mostrar é outra coisa: perguntar sem estar disposto a ouvir.
Autoridade é sempre recebida
Os chefes e Jesus concordam num ponto que o texto deixa implícito: ninguém tem autoridade por si. A diferença está no doador. Em Mateus, o próprio Jesus fala da sua autoridade como dada — "todas as coisas me foram entregues" (Mateus 11:27), "foi-me dado" (Mateus 28:18). O modelo não é o do homem que se autoriza.
Credencial e conteúdo são perguntas diferentes
Os interrogadores pedem a licença e deixam de lado o que foi feito. A pergunta pela credencial pode ser o começo de um exame honesto ou um modo de não examinar nada. O texto mostra as duas possibilidades e deixa o leitor ver qual delas se realizou.
O poder institucional e o ensino podem se separar
Quem tinha o controle do templo não tinha, por isso, a última palavra sobre o ensino que acontecia nele. O versículo registra o choque entre uma autoridade que vem do cargo e outra que se apresenta sem cargo nenhum.
6. Aspectos Filosóficos
De onde vem o direito de mandar?
As duas perguntas dos chefes são, no fundo, as duas perguntas da filosofia política sobre o poder. "Com que autoridade" pergunta pela forma: em nome de quê alguém se faz obedecer. "Quem lhe deu" pergunta pela fonte: quem tinha o direito de conceder esse direito. Toda ordem política precisa de alguma resposta a essas duas perguntas, e a história do Ocidente é, em boa parte, a história da disputa sobre elas.
Pierre Manent e o problema que nasceu com a Igreja
Pierre Manent (filósofo político francês, nascido em 1949, discípulo de Raymond Aron) deu a essa disputa um nome antigo: o problema teológico-político. No livro História intelectual do liberalismo (1987), ele parte de uma constatação. A cidade antiga, grega ou romana, não conhecia uma autoridade religiosa separada da autoridade política: os deuses eram os deuses da cidade, e quem governava a cidade governava também o culto. O cristianismo introduziu algo novo: uma instituição, a Igreja, que reivindicava o direito de orientar a vida dos homens em nome de Deus, sem ser ela própria o governo.
Isso criou, segundo Manent, um problema que a Europa levou séculos para resolver. Quem manda de verdade, quando duas autoridades reclamam a mesma obediência, uma em nome da cidade e outra em nome de Deus? A filosofia política moderna nasce, na leitura dele, como uma tentativa de neutralizar essa duplicidade. A solução liberal foi deslocar a fonte de toda autoridade para o consentimento dos indivíduos: ninguém deve obedecer senão àquilo com que consentiu.
O que isso ilumina em Mateus 21:23
A cena do templo é anterior a tudo isso, e não se deve pôr nela o que veio depois. Mas ela mostra, em pequeno, a peça que Manent põe no começo do problema.
Os chefes dos sacerdotes representam uma autoridade em que culto e governo estão fundidos: são eles que dirigem o santuário e respondem por ele diante de Roma. Jesus se apresenta com uma autoridade que não vem dessa instituição, não passa por ela e não pede licença a ela — e que, no entanto, reivindica falar em nome do mesmo Deus que o templo serve. A pergunta "quem lhe deu" é a pergunta da instituição diante de uma autoridade que vem de fora dela.
E o evangelho não resolve o problema do jeito que a modernidade resolveria. A autoridade de Jesus não vem do consentimento: as multidões o aclamam, mas a aclamação não é a fonte, e o evangelho não a apresenta como tal. Também não vem da instituição. Vem de cima, "dada" — e por isso não pode ser verificada por nenhum dos procedimentos que os chefes conheciam. Poucos versículos depois, em Mateus 22:21, Jesus vai separar o que é de César e o que é de Deus, e essa frase se tornaria um dos textos-base da distinção ocidental entre os dois poderes.
O limite da aproximação
Manent não comenta este versículo, e a leitura acima aplica o quadro dele à cena. Duas cautelas. A primeira: o templo de Jerusalém não era uma "cidade" no sentido grego, e a aristocracia sacerdotal governava sob um império estrangeiro, de modo que a fusão entre culto e poder ali era parcial. A segunda: Manent fala da Igreja como instituição, e na cena há um homem só, sem instituição nenhuma. O que a aproximação oferece é uma forma de ver por que a pergunta dos chefes não era mesquinha: ela tocava no ponto em que, séculos depois, a política ocidental inteira iria se organizar.
7. Aplicações Práticas
Pergunte de onde vem a autoridade de quem ensina você
A pergunta dos chefes é boa, mesmo que eles a tenham usado mal. Pregadores, líderes de grupo, gurus de internet, pastores sem igreja e padres com paróquia: todos exercem alguma autoridade sobre quem os ouve. Perguntar quem a deu, a quem prestam contas e quem pode corrigi-los é um dever de quem ouve, e não uma falta de fé.
Mas pergunte disposto a ouvir
A pergunta pela credencial pode virar escudo. Quando você só discute o diploma de quem diz algo incômodo e nunca o que foi dito, está fazendo o que os chefes fizeram: transformando o exame em defesa. A pergunta honesta aceita a possibilidade de uma resposta que obrigue a mudar.
Se você tem autoridade, saiba de quem a recebeu
Quem coordena, ensina ou decide por outros deveria poder responder à segunda pergunta do versículo sem embaraço. Autoridade que não sabe dizer de onde veio tende a se tratar como propriedade.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que os chefes não perguntaram isso logo na véspera?
Mateus não explica. Na véspera, eles reagiram às crianças e às curas com indignação e com uma pergunta retórica (Mateus 21:15-16), e Jesus saiu da cidade. O intervalo de uma noite permite pensar numa reunião, numa decisão de agir de forma organizada — Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) fala em conselhos secretos prévios —, mas isso é dedução, não informação do texto.
Jesus tinha alguma autorização humana?
Nenhuma que os evangelhos registrem. Não estudou com mestre conhecido — em Mateus 13:54 os da sua cidade se perguntam de onde lhe vinham aquela sabedoria e aqueles milagres —, não era sacerdote nem levita, não tinha cargo. A única cena de passagem por outra figura religiosa é o batismo por João, e é exatamente por aí que a resposta de Jesus vai seguir.
Os chefes tinham autoridade para fazer a pergunta?
Tinham autoridade de fato sobre o templo, reconhecida pelo governo romano, e a Lei dava a Israel o dever de examinar profetas. Se tinham a autoridade espiritual de julgar aquele caso é justamente o que a contra-pergunta do versículo seguinte vai pôr em xeque.
Por que a ABC traduz a mesma palavra por "autoridade" aqui e por "poder" em Mateus 28:18?
Porque a palavra grega cobre as duas coisas: o direito de agir e a capacidade de agir. Em Mateus 21:23 o contexto é jurídico, e "autoridade" é a escolha natural. Em Mateus 28:18 o alcance é cósmico — "no céu e na terra" — e "poder" soa mais amplo. O preço da escolha é que o leitor em português não percebe que o fecho do evangelho responde à pergunta deste versículo com a mesma palavra.
9. Conexão com Outros Textos
A pergunta nos outros evangelhos
Marcos 11:27-28 — "Voltaram a Jerusalém. E, enquanto ele andava pelo templo, vieram a ele os chefes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos, e lhe disseram: Com que autoridade você faz estas coisas? E quem lhe deu essa autoridade para fazer estas coisas?"
Tradução livre a partir do Textus Receptus. Marcos inclui os escribas e acrescenta a finalidade ("para fazer estas coisas"), que Mateus corta, deixando a segunda pergunta só sobre o doador.
Lucas 20:1-2 — "Num daqueles dias, enquanto ele ensinava o povo no templo e anunciava a boa notícia, chegaram os chefes dos sacerdotes e os escribas com os anciãos, e lhe disseram: Diga-nos com que autoridade você faz estas coisas, ou quem é que lhe deu essa autoridade."
A resposta que o evangelho dá
Mateus 7:29 — "porque ele os ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas."
A primeira menção da autoridade de Jesus em Mateus, já em contraste com a dos mestres.
Mateus 9:6-8 — "Ora, para que vocês saibam que o Filho do homem tem autoridade na terra para perdoar pecados... E as multidões, vendo isto, se maravilharam e glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens."
O mesmo verbo e a mesma palavra da pergunta, com o doador nomeado pela multidão.
Mateus 28:18 — "Jesus aproximou-se e lhes falou: 'Foi-me dado todo o poder no céu e na terra.'"
A resposta definitiva, depois da ressurreição, na forma passiva que deixa Deus como o doador implícito.
Mateus 10:1 — "Chamando a si os seus doze discípulos, Jesus deu-lhes autoridade sobre os espíritos imundos."
Quem foi interrogado sobre quem lhe deu autoridade é, ele próprio, quem a dá.
A mesma pergunta feita aos discípulos
Atos 4:7 — "E, pondo-os no meio, perguntaram: Com que poder ou em nome de quem vocês fizeram isto?"
Pedro e João, depois de curar um coxo no templo, diante dos chefes, dos anciãos, dos escribas, de Anás e de Caifás. A pergunta se repete, quase com as mesmas palavras, sobre os seguidores.
Profeta diante do sacerdote
Amós 7:12-15 — "Amazias disse a Amós: Vá embora, vidente! Fuja para a terra de Judá... Amós respondeu: Eu não sou profeta, nem filho de profeta... Mas o SENHOR me tirou de detrás do rebanho e me disse: Vá, profetize ao meu povo Israel."
O sacerdote do santuário real contesta o direito de um homem do campo falar ali. A resposta de Amós é a que os chefes temiam ouvir de Jesus: nenhuma credencial humana, só o envio de Deus.
Jeremias 26:8, 12 — "Então os sacerdotes, os profetas e todo o povo o agarraram, dizendo: Você vai morrer!... Jeremias disse: O SENHOR me enviou para profetizar contra este templo e contra esta cidade."
Outro profeta que falou contra o templo, dentro do templo, e foi levado a julgamento pelos responsáveis por ele.
A dupla que pergunta é a dupla que condena
Mateus 27:1 — "Ao amanhecer, todos os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram em conselho contra Jesus, para o condenarem à morte."
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Jesus entrou no templo e, enquanto ensinava, aproximaram-se dele os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo, perguntando: “Com que autoridade você faz estas coisas? E quem lhe deu tal autoridade?”
Texto grego (Textus Receptus)
Καὶ ἐλθόντι αὐτῷ εἰς τὸ ἱερόν, προσῆλθον αὐτῷ διδάσκοντι οἱ ἀρχιερεῖς καὶ οἱ πρεσβύτεροι τοῦ λαοῦ, λέγοντες, Ἐν ποίᾳ ἐξουσίᾳ ταῦτα ποιεῖς; Καὶ τίς σοι ἔδωκε τὴν ἐξουσίαν ταύτην;
Transliteração
Kai elthonti autō eis to hieron, prosēlthon autō didaskonti hoi archiereis kai hoi presbyteroi tou laou, legontes, En poia exousia tauta poieis? Kai tis soi edōke tēn exousian tautēn?
Uma nota sobre o texto
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) abre com elthonti autō, "a ele, tendo chegado", com o particípio concordando com o "a ele" que vem depois do verbo. As edições críticas trazem elthontos autou, "tendo ele chegado", uma construção independente do resto da frase. O sentido é o mesmo.
A diferença é de correção gramatical. A construção das edições críticas é considerada pouco elegante pelo grego escolar, porque a mesma pessoa reaparece logo em seguida na frase; a do Textus Receptus é a forma "corrigida". Os editores críticos aplicam aqui a regra de que a versão mais difícil costuma ser a original: um copista tenderia a melhorar a frase, não a piorá-la. A diferença menor, edōke × edōken, é só de grafia. Conferido no Bible Hub (textos paralelos) e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.
Análise palavra por palavra
Καὶ ἐλθόντι αὐτῷ εἰς τὸ ἱερόν — kai elthonti autō eis to hieron, "e, tendo ele chegado ao templo". Elthonti é particípio aoristo de erchomai, "vir, chegar", no dativo. Hieron é o conjunto do templo com os seus pátios, e não o santuário interno, que o grego chama naos.
προσῆλθον αὐτῷ — prosēlthon autō, "aproximaram-se dele". Aoristo de proserchomai, "chegar perto". Um dos verbos preferidos de Mateus, que o usa mais de cinquenta vezes, para doentes, discípulos e adversários (Mateus 16:1, 19:3).
διδάσκοντι — didaskonti, "ensinando". Particípio presente de didaskō, no dativo, concordando com autō. O presente descreve ação em curso: eles o interrompem no meio da aula.
οἱ ἀρχιερεῖς — hoi archiereis, "os chefes dos sacerdotes". Plural de archiereus, formado de archi-, "chefe, primeiro", e hiereus, "sacerdote". No singular é "o sumo sacerdote"; no plural, o grupo dirigente do sacerdócio.
καὶ οἱ πρεσβύτεροι τοῦ λαοῦ — kai hoi presbyteroi tou laou, "e os anciãos do povo". Presbyteroi é o comparativo de presbys, "velho": literalmente, "os mais velhos". A palavra deu "presbítero" em português.
Laos é "povo" no sentido de nação, e na Bíblia grega é a palavra para Israel como povo de Deus. Mateus a distingue de ochlos, "multidão". Os chefes são anciãos do laos; mas, dois versículos adiante e no fim do capítulo, o que eles temem é o ochlos (Mateus 21:26 e 21:46). O texto separa o povo que eles representam da multidão que segue Jesus.
Ἐν ποίᾳ ἐξουσίᾳ — en poia exousia, "com que autoridade". A preposição en indica aqui o meio ou o título: "em virtude de que autoridade".
Poia é o interrogativo de qualidade, de poios, "de que tipo, de que espécie". O grego tinha outro interrogativo, tis, "qual, quem", que é justamente o da segunda pergunta. A primeira pergunta pela natureza; a segunda, pela pessoa. A escolha de dois interrogativos diferentes confirma, na gramática, que são duas perguntas.
Exousia é a palavra central do versículo, e aparece duas vezes nele. Vem de exestin, o verbo impessoal "é permitido, é lícito". Exousia é, na origem, "aquilo que é lícito a alguém": o direito, a licença. Daí passa a significar o poder de exercer esse direito, e a autoridade de quem o exerce. Distingue-se de dynamis, que é a força, a capacidade. Exousia diz se você pode; dynamis diz se você consegue.
O parentesco com exestin liga este versículo a uma série de perguntas em Mateus: "não é lícito fazer no sábado" (Mateus 12:2), "é lícito curar no sábado?" (Mateus 12:10), "não lhe é lícito tê-la" (Mateus 14:4), "é lícito ao homem divorciar-se?" (Mateus 19:3), "é lícito pagar tributo a César?" (Mateus 22:17). Os adversários passam o evangelho perguntando o que é lícito. Aqui perguntam quem deu a Jesus o direito de decidir o que é lícito.
Em Mateus, exousia aparece dez vezes: em Mateus 7:29; 8:9; 9:6 e 9:8; 10:1; quatro vezes neste debate (21:23 duas vezes, 21:24 e 21:27); e em Mateus 28:18. A ABC traduz a última por "poder". A frase de Mateus 28:18 — "foi-me dada toda autoridade" — ecoa a de Daniel 7:14 na Bíblia grega, em que ao "filho de homem" "foi dada autoridade".
ταῦτα ποιεῖς — tauta poieis, "você faz estas coisas". Presente: o que vem fazendo, inclusive agora, ao ensinar.
Καὶ τίς σοι ἔδωκε — kai tis soi edōke, "e quem lhe deu". Edōke é aoristo de didōmi, "dar": um ato de concessão situado no passado. A pergunta supõe um momento em que alguém entregou a Jesus essa autoridade. O mesmo verbo responde em Mateus 9:8 ("Deus, que dera tal autoridade aos homens") e em Mateus 28:18, na forma passiva edothē, "foi dada".
τὴν ἐξουσίαν ταύτην — tēn exousian tautēn, "essa autoridade", a que eles veem em ação.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: a pergunta era legítima, e o texto não a trata como crime. Num sistema em que ensinar exigia linhagem e agir contra o tribunal era delito, os responsáveis pelo templo tinham o dever de perguntar. Conclui-se que o conflito de Mateus 21 não opõe um mestre bom a interrogadores maus por natureza. Opõe duas fontes de autoridade, e o que vai decidir o julgamento do leitor é o que os interrogadores fazem com a resposta, não a pergunta que fizeram.
A segunda: as duas perguntas convergem num pressuposto comum. Ninguém, na cena, defende que a autoridade possa nascer de si mesma. Os chefes querem saber quem a deu, e Jesus, em todo o evangelho, fala da sua como recebida. Daí se conclui que a disputa não é entre autoridade e liberdade, mas entre dois doadores: a instituição que concede licença e o Deus que, segundo o evangelho, concedeu sem passar por ela.
A terceira: a resposta existe, mas não é dada neste momento. Mateus já a pôs na boca das multidões em Mateus 9:8 e só a põe na boca de Jesus em Mateus 28:18, depois da cruz. Conclui-se que, para este evangelho, a autoridade de Jesus não se prova diante do tribunal que a questiona; ela se mostra depois que esse tribunal fez o que fez. Entre a pergunta e a resposta fica a paixão inteira.













