E procuravam prendê-lo, mas tinham medo das multidões, pois estas o consideravam um profeta.
1. Introdução
O capítulo termina com uma decisão adiada. Os chefes dos sacerdotes e os fariseus querem prender Jesus, mas não ousam, porque as multidões o têm por profeta.
A mesma multidão que o cercou na entrada de Jerusalém, no começo do capítulo, é a que o protege no fim.
E a frase prepara o que vem: os adversários vão trocar a prisão em público por armadilhas de palavras, e depois por uma prisão à noite, longe do povo. O título que protege Jesus, "profeta", é o mesmo que Jerusalém costumava matar.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem prendia no templo
Os chefes dos sacerdotes tinham uma força própria para prender. A Mishná (a primeira grande compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200), no tratado Middot, que descreve o templo, conta que os levitas montavam guarda em vinte e um pontos: nas cinco portas do monte do templo, nos seus quatro cantos, nas portas e cantos do pátio, junto à câmara das ofertas e atrás do santuário (Middot 1:1). E havia um "oficial do monte do templo" que fazia a ronda das guardas durante a noite, com tochas à frente. Se um guarda não se levantasse para saudá-lo, era sinal de que dormia: o oficial o batia com o bastão e tinha permissão de queimar a roupa dele (Middot 1:2).
A Mishná descreve o templo como os mestres o lembravam depois de 70, e o detalhe pode estar idealizado. Mas o livro de Atos confirma o essencial: havia um "capitão do templo", com homens sob o seu comando, que prendia gente no recinto sagrado por ordem dos chefes dos sacerdotes (Atos 4:1-3). Quando Mateus diz que eles "procuravam prendê-lo", não fala de um desejo vago: eles tinham os meios.
O que impedia de usá-los
Ter a força não bastava. Uma prisão brutal diante de uma multidão que admirava o preso podia terminar com os guardas apedrejados, e o livro de Atos registra esse cuidado da guarda do templo com os apóstolos, num texto examinado no estudo de Mateus 21:26.
O Evangelho de João conta um episódio de prisão que fracassa. Na festa das Tendas, os chefes dos sacerdotes e os fariseus mandam guardas prender Jesus (João 7:32). Os guardas voltam de mãos vazias, e quando lhes perguntam por quê, respondem: "Nunca ninguém falou como esse homem" (João 7:45-46). A multidão estava dividida, e "alguns queriam prendê-lo, mas ninguém pôs as mãos nele" (João 7:44).
A festa
A cena de Mateus 21 se passa às vésperas da Páscoa, quando Jerusalém se enchia de peregrinos vindos da Judeia, da Galileia e da diáspora, e a guarnição romana ficava de prontidão. Qualquer tumulto no templo podia virar intervenção romana, e uma intervenção romana podia custar o cargo de quem devia manter a ordem. Mateus registra o cálculo dos próprios chefes, dias depois: "Não durante a festa, para não haver tumulto entre o povo" (Mateus 26:5).
Como a prisão foi feita, afinal
A solução que os chefes encontraram responde ponto por ponto ao obstáculo deste versículo. O obstáculo era a multidão; a prisão foi feita à noite, fora da cidade, no jardim do Getsêmani. O obstáculo era a falta de ocasião; Judas foi até eles e passou a procurar "uma oportunidade para entregá-lo" (Mateus 26:16). Lucas é ainda mais explícito: Judas buscava uma ocasião de entregá-lo "longe da multidão" (Lucas 22:6). E a tropa que foi ao jardim, "armada de espadas e porretes", veio enviada "pelos chefes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo" (Mateus 26:47): era a força do templo, agindo onde o povo não via.
3. Análise Teológica do Versículo
"E procuravam prendê-lo"
O verbo de prender é o mesmo que Mateus usa para a prisão de João Batista (Mateus 14:3) e para a de Jesus no Getsêmani (Mateus 26:50, 57). Ele significa agarrar, segurar com força, deter, e aqui aparece como intenção que não chega a ato.
O "procuravam" descreve um esforço em curso, não uma decisão de um instante. A vontade de prender não nasce neste versículo; ela já existia, e a parábola só a tornou urgente. Mateus registrara antes a decisão dos fariseus de matá-lo, ainda na Galileia (Mateus 12:14). O que muda aqui é que os fariseus agora estão ao lado dos chefes dos sacerdotes, que têm os meios de executá-la.
E a frase tem uma resposta, dita pelo próprio Jesus na noite da prisão, com o mesmo verbo: "Todos os dias eu me sentava no templo ensinando, e vocês não me prenderam" (Mateus 26:55). O versículo 46 explica o "não me prenderam": não foi por falta de vontade.
"mas tinham medo das multidões"
Os chefes têm medo pela segunda vez no mesmo capítulo. No debate sobre o batismo de João, eles calcularam a resposta e recuaram com a mesma razão: "tememos a multidão, pois todos consideram João um profeta" (Mateus 21:26). Agora o cálculo se repete, com Jesus no lugar de João. A estrutura inteira, querer eliminar alguém e ser contido pelo medo do povo que o tem por profeta, aparece primeiro com Herodes e João Batista, e foi examinada no estudo de Mateus 14:5.
O que é próprio deste versículo é o lugar que ele ocupa. "Multidões", no plural, é a palavra com que o capítulo começou: "a maior parte da multidão" estendeu as capas, e "as multidões que iam à frente e as que o seguiam" gritavam hosana (Mateus 21:8-9). O capítulo abre e fecha com elas. Entre a entrada na cidade e este versículo, Jesus derrubou mesas, curou no templo, secou uma figueira, venceu um debate e contou duas parábolas contra os dirigentes, e as multidões continuam do lado dele. Mateus não diz que elas o entendem; diz que o têm por profeta. É o suficiente para segurá-lo vivo por mais alguns dias.
E há uma inversão de quem teme quem. No começo do evangelho, quem tem medo são os fracos: os discípulos no barco (Mateus 8:26, 14:26-30), as mulheres no túmulo (Mateus 28:8). Aqui, quem tem medo são os poderosos, e o que eles temem são pessoas sem poder nenhum, a não ser o número. O medo dos chefes revela a natureza do seu poder: ele dependia de que o povo aceitasse a sua autoridade.
"pois estas o consideravam um profeta"
As multidões já tinham dado esse título na entrada da cidade: "Este é Jesus, o profeta, de Nazaré da Galileia" (Mateus 21:11). Este versículo mostra o efeito prático do título: ele protege.
Mas é menos do que o leitor sabe. Em Mateus 16:14, "profeta" está na lista das respostas insuficientes, ao lado de João Batista, Elias e Jeremias. A resposta certa, na boca de Pedro, foi "o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mateus 16:16). As multidões protegem Jesus com um título que, para o evangelho, é verdadeiro mas incompleto.
E é um título perigoso em Jerusalém. Dois capítulos adiante, Jesus vai dizer: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados!" (Mateus 23:37). O nome que, por enquanto, impede a prisão é o mesmo que, na história que Jesus conta da cidade, leva à morte. A ironia não é dita no versículo, mas o leitor de Mateus a tem diante dos olhos.
O fim do capítulo e a ponte para a paixão
O capítulo 21 termina sem desfecho. Os adversários não prendem, Jesus não sai do templo, ninguém responde nada. O próximo versículo é Mateus 22:1: "Jesus voltou a lhes falar por parábolas". No grego, a frase começa com "respondendo", embora ninguém tenha perguntado nada. Jesus responde à intenção de prendê-lo contando outra parábola, a do banquete de casamento, e a terceira da série termina, como as outras, com os convidados de dentro do lado de fora.
Os adversários mudam de tática. Já que não podem prendê-lo em público, os fariseus vão tentar "apanhá-lo em alguma palavra" (Mateus 22:15): fazer que ele diga algo que o comprometa diante de Roma ou do povo. Os debates do capítulo 22 são tentativas de retirar dele o apoio que este versículo descreve. Quando falham, a solução volta a ser a força, mas com outro método: "prender Jesus à traição", e "não durante a festa" (Mateus 26:4-5).
Há, porém, uma segunda leitura do adiamento, que Mateus constrói nos capítulos seguintes. Quem marca o tempo da paixão, no evangelho, não são os chefes. É Jesus: "Vocês sabem que daqui a dois dias é a Páscoa, e o Filho do homem será entregue para ser crucificado" (Mateus 26:2); "meu tempo está próximo" (Mateus 26:18). E os chefes, que tinham decidido "não durante a festa", acabam prendendo-o exatamente na festa. Nessa leitura, o medo das multidões explica o adiamento do ponto de vista dos chefes, mas não decide a data. As duas leituras convivem no texto: a explicação humana e a afirmação de que o tempo estava nas mãos de outro.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os sujeitos — os chefes dos sacerdotes e os fariseus do versículo anterior. Pela primeira vez em Mateus, os dois grupos agem juntos contra Jesus.
As multidões — o plural com que Mateus designa os peregrinos e os habitantes que seguiam Jesus. Em boa parte, galileus que tinham subido com ele para a festa; quem eram e como se dividiam diante da cidade está no estudo de Mateus 21:11.
Jesus — no versículo, só um pronome: "prendê-lo", "o consideravam". Está no templo, ensinando, cercado pelo povo.
A guarda do templo — a força que permitiria a prisão: levitas em turnos de guarda, sob um oficial, e o capitão do templo. Não aparece aqui, mas é ela que irá ao Getsêmani.
O lugar e o momento — o pátio do templo de Jerusalém, poucos dias antes da Páscoa, com a cidade cheia de peregrinos e os romanos de prontidão.
O que vem depois — mais uma parábola (Mateus 22:1-14), três debates com os fariseus e os saduceus (Mateus 22:15-46), o discurso contra escribas e fariseus (Mateus 23), o discurso sobre o fim (Mateus 24-25) e, em Mateus 26, a conspiração e a prisão.
5. Pontos de Ensino
1. A vontade de matar estava pronta antes da ocasião. O versículo não descreve uma reação de momento. Descreve uma intenção que só esperava o meio.
2. O poder dos chefes dependia do povo. Eles tinham guardas e autoridade, e não podiam usá-los diante de quem não os aceitaria. O medo deles mostra o limite do seu poder.
3. O apoio popular protege, mas por pouco tempo. As multidões seguram Jesus vivo por alguns dias. O evangelho mostrará que esse apoio pode ser contornado, pela noite e pela traição, e trabalhado, pela persuasão.
4. O título que protege é incompleto. "Profeta" é verdade, mas não toda. O povo defende Jesus sem saber inteiramente quem ele é.
5. O tempo da paixão não é o dos adversários. Eles adiam por medo; o evangelho afirma que a hora foi marcada por outro, e que os chefes acabaram agindo justamente quando tinham decidido não agir.
6. Aspectos Filosóficos
De onde vem o poder de quem manda?
Os chefes dos sacerdotes tinham tudo o que costuma definir o poder: cargo, tradição, guardas, a vigilância romana a seu favor. E mesmo assim não puderam prender um homem desarmado, no próprio templo que administravam. A cena levanta uma pergunta clássica: o poder é uma coisa que alguém tem, ou uma relação que depende de quem obedece?
Gene Sharp e as fontes do poder
Gene Sharp (1928-2018), cientista político norte-americano, dedicou a vida ao estudo da ação não violenta. No livro A política da ação não violenta (1973, em três volumes), ele parte de uma tese simples. O poder político não é um bloco que o governante possui, como se fosse dono de uma máquina. É feito de colaboração. O governante depende de que outros obedeçam: soldados que cumpram ordens, funcionários que executem, uma população que aceite a sua autoridade como legítima.
Sharp lista as fontes desse poder. A autoridade, isto é, a aceitação do direito de mandar; os recursos humanos, o número de pessoas que obedecem e cooperam; as habilidades e conhecimentos que elas põem a serviço; fatores invisíveis, como hábitos e crenças; os recursos materiais; e as sanções, a capacidade de punir. Todas elas, diz Sharp, vêm em última instância da cooperação dos governados. Quando a cooperação é retirada, o poder murcha, mesmo que o governante continue com o cargo e as armas.
E ele descreve um mecanismo que chama de "jiu-jitsu político". Quando um poder reprime com violência quem age sem violência, a repressão pode se voltar contra quem reprime: expõe a sua brutalidade, aumenta a simpatia pelos reprimidos, divide os próprios aliados do governante. Por isso, observa Sharp, os regimes preferem reprimir longe dos olhos do público, ou desacreditar antes os opositores, para que a repressão não pareça o que é.
O que isso ilumina em Mateus 21:46
O versículo é quase um caso de manual. Os chefes tinham a sanção, a guarda do templo. Mas a sua autoridade, a primeira das fontes de Sharp, dependia de o povo aceitá-los como guardiões legítimos do santuário. Prender em público, diante das multidões, um homem que elas tinham por profeta seria pôr essa autoridade à prova num terreno em que ela podia perder. A prisão de um profeta desarmado, no templo, à vista dos peregrinos, era o cenário exato do jiu-jitsu político.
E a solução que eles encontraram é a que Sharp descreve. Primeiro, tentar desacreditar: os debates do capítulo 22 procuram fazer Jesus dizer algo que lhe tire o apoio. Depois, agir longe do público: à noite, fora da cidade, com a ajuda de alguém de dentro. E, por fim, trabalhar a multidão: diante de Pilatos, os chefes "convenceram a multidão a pedir Barrabás" (Mateus 27:20). O apoio que os impedia foi primeiro contornado e depois revertido.
Há também o outro lado. Jesus não usa as multidões. Não as convoca, não as organiza, não as lança contra os chefes, e na noite da prisão manda guardar a espada (Mateus 26:52). A proteção que elas dão é real, mas ele não a transforma em força.
Os limites da comparação
Sharp escreveu sobre movimentos que retiram a cooperação de propósito, com estratégia, contra ditaduras modernas. Nada disso existe em Mateus 21. As multidões não estão fazendo campanha; apenas têm Jesus por profeta, e o apoio delas não é organizado nem durável. E Jesus não está conduzindo uma luta pelo poder: o evangelho apresenta a sua morte como algo que ele aceita, não como derrota de uma estratégia. O que a teoria de Sharp ajuda a ver é por que homens com guardas tiveram medo de gente sem armas, e por que a prisão, quando veio, veio de noite.
7. Aplicações Práticas
Perceber quando o medo do público decide. Os chefes não deixaram de prender por terem mudado de ideia. Só adiaram. Quem decide pelo medo da reação, e não pelo que é certo, não mudou de posição; está esperando a ocasião. Vale para instituições e para pessoas.
Desconfiar do apoio que se baseia num título. As multidões defendiam Jesus porque o tinham por profeta, e poucos dias depois uma multidão pediu a sua morte. O apoio que depende de uma etiqueta muda quando alguém trabalha a etiqueta. Isso vale para quem é apoiado e para quem apoia.
Não transformar a proteção em arma. Jesus tinha o povo do seu lado e não o usou contra os adversários. Quem conta com apoio numa disputa tem a tentação de usá-lo como força. O versículo, lido com a paixão que vem depois, mostra outra possibilidade.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que os chefes não prenderam Jesus à noite antes?
Mateus não diz. O mais provável é que faltasse o que Judas forneceu: saber onde ele passaria a noite. Jesus dormia em Betânia (Mateus 21:17), fora da cidade, e nada indica que os chefes soubessem onde. A traição resolveu o problema de localização, não o de vontade.
A multidão que protegeu Jesus é a mesma que pediu a sua morte?
O texto não permite decidir. Mateus usa a mesma palavra, "multidão", nas duas cenas, e não diz se são as mesmas pessoas. Muitos estudiosos supõem que a multidão do capítulo 21 era formada sobretudo de peregrinos galileus, e a do julgamento, de habitantes de Jerusalém reunidos de madrugada diante do governador. É hipótese plausível, sem prova. O que Mateus diz é que a multidão do julgamento foi convencida pelos chefes (Mateus 27:20).
Por que os romanos não aparecem?
Porque, até aqui, não havia motivo para eles agirem: ninguém tinha feito tumulto. Os romanos só entram em cena quando os chefes levam Jesus a Pilatos, já preso. O medo de tumulto que aparece em Mateus 26:5 é também medo de uma intervenção romana, que puniria os responsáveis pela ordem.
Por que o capítulo termina aqui?
A divisão em capítulos é medieval e não é de Mateus. Mas este ponto marca de fato uma pausa: a decisão de prender está tomada e adiada, e o que vem a seguir, as tentativas de apanhá-lo em palavras, é outra fase do conflito. Mateus 22:1 continua, porém, a mesma cena, no mesmo templo.
Se Jesus sabia do perigo, por que continuou no templo?
O evangelho apresenta a ida a Jerusalém como deliberada desde Mateus 16:21, quando Jesus anuncia que ali vai sofrer e morrer. Ficar no templo, sob a proteção das multidões, não era se esconder nem provocar a prisão: era continuar ensinando até a hora que ele mesmo dizia estar próxima (Mateus 26:18).
9. Conexão com Outros Textos
A mesma cena em Lucas
Lucas 22:2, 6 — "Os chefes dos sacerdotes e os escribas procuravam um modo de matá-lo, porque temiam o povo... Judas concordou e buscava uma ocasião para entregá-lo a eles longe da multidão."
Lucas diz com todas as letras qual era a função de Judas: resolver o problema que este versículo descreve.
O cálculo dos chefes, depois
Mateus 26:3-5 — "Então os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram no palácio do sumo sacerdote, chamado Caifás, e juntos planejaram prender Jesus à traição e matá-lo. Mas diziam: 'Não durante a festa, para não haver tumulto entre o povo'."
A decisão do versículo 46, transformada em plano.
Mateus 26:55 — "Naquela hora, Jesus disse à multidão: 'Vocês saíram com espadas e porretes para me prender, como se eu fosse um bandido? Todos os dias eu me sentava no templo ensinando, e vocês não me prenderam.'"
O mesmo verbo de prender, na boca de Jesus, apontando o que este versículo explica.
A ponte para o capítulo 22
Mateus 22:1 — "Jesus voltou a lhes falar por parábolas, dizendo:"
Mateus 22:15 — "Então os fariseus se retiraram e combinaram um plano para apanhá-lo em alguma palavra."
A troca de tática: da prisão impossível à armadilha verbal.
A prisão que fracassa em João
João 7:44-46 — "Alguns deles queriam prendê-lo, mas ninguém pôs as mãos nele. Os guardas voltaram aos chefes dos sacerdotes e aos fariseus, e estes lhes perguntaram: 'Por que vocês não o trouxeram?' Os guardas responderam: 'Nunca ninguém falou como esse homem.'"
Uma prisão que fracassa, com o mesmo par de mandantes de Mateus 21:45.
O profeta em Jerusalém
Mateus 23:37 — "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das asas, mas não quiseste!"
O título que protege Jesus neste versículo, posto em perspectiva pela história da cidade.
Lucas 13:33 — "Não convém que um profeta morra fora de Jerusalém."
Quem marca a hora
Mateus 26:2 — "Vocês sabem que daqui a dois dias é a Páscoa, e o Filho do homem será entregue para ser crucificado".
O adiamento que os chefes decidem por medo, e a data que Jesus anuncia por conta própria.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
E procuravam prendê-lo, mas tinham medo das multidões, pois estas o consideravam um profeta.
Texto grego (Textus Receptus)
Καὶ ζητοῦντες αὐτὸν κρατῆσαι, ἐφοβήθησαν τοὺς ὄχλους, ἐπειδὴ ὡς προφήτην αὐτὸν εἶχον.
Transliteração
Kai zētountes auton kratēsai, ephobēthēsan tous ochlous, epeidē hōs prophētēn auton eichon.
Uma nota sobre o texto
Aqui o Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) e as edições críticas divergem em duas palavras do fim. O Textus Receptus, de Scrivener e de Stephanus, e o texto bizantino trazem epeidē hōs prophētēn, "visto que como profeta". As edições críticas (Westcott e Hort, Tischendorf, Nestle, a da Sociedade de Literatura Bíblica) trazem epei eis prophētēn, "pois por profeta".
As duas diferenças são pequenas. Epeidē e epei querem dizer "porque, visto que"; a primeira é um pouco mais enfática. A troca de hōs, "como", por eis, "para, em", é mais interessante. "Ter alguém eis profeta" é uma construção pouco grega, decalcada do hebraico, em que se "tem alguém para" uma condição. "Ter alguém hōs profeta" é o grego comum, e é a mesma construção de Mateus 14:5 e de Mateus 21:26. Os editores críticos pensam que um copista trocou a forma estranha pela comum, igualando o versículo aos outros dois; a regra é que a versão mais difícil costuma ser a original. O sentido não muda. Conferido no Bible Hub (textos paralelos) e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.
Análise palavra por palavra
Καὶ ζητοῦντες — kai zētountes, "e, procurando". Particípio presente de zēteō, "buscar, procurar, tentar". O presente indica ação em curso, simultânea ao verbo principal: enquanto procuravam, tiveram medo. A ABC transforma o particípio em verbo pessoal, "procuravam", o que é natural em português. Zēteō é também o verbo de Herodes procurando o menino "para matá-lo" (Mateus 2:13, 2:20) e de Judas procurando "uma oportunidade" (Mateus 26:16).
αὐτὸν κρατῆσαι — auton kratēsai, "prendê-lo". Infinitivo aoristo de krateō, "agarrar, segurar com força, dominar". De kratos, "força, poder". O verbo cobre desde segurar alguém pela mão até deter um prisioneiro. Em Mateus, é o verbo da prisão de João (Mateus 14:3), da prisão de Jesus (Mateus 26:4, 26:48, 26:50, 26:55, 26:57) e também de gestos de cuidado: Jesus "segurou a mão" da menina morta (Mateus 9:25). O aoristo indica o ato pontual que eles queriam e não conseguiam realizar.
ἐφοβήθησαν — ephobēthēsan, "tiveram medo". Aoristo de phobeomai, "temer", na forma passiva com sentido ativo, comum nos verbos de sentimento. O aoristo, depois do particípio presente, dá a ordem dos fatos: procuravam, e o medo os deteve.
τοὺς ὄχλους — tous ochlous, "as multidões". Plural de ochlos, "multidão, massa de gente sem organização". Mateus usa o plural com frequência para os grupos que seguem Jesus, e é o mesmo plural de Mateus 21:9. A distinção entre ochlos e laos, "povo", foi analisada no estudo de Mateus 21:23.
ἐπειδὴ — epeidē, "visto que, pois". Conjunção causal, composta de epei, "quando, já que", e dē, partícula de reforço.
ὡς προφήτην αὐτὸν εἶχον — hōs prophētēn auton eichon, "o tinham como profeta". Eichon é imperfeito de echō, "ter": "ter alguém como" é "considerar". O imperfeito indica um estado contínuo: as multidões o tinham, e continuavam a ter, por profeta. Prophētēs, de pro, "diante, em lugar de", e phēmi, "falar": o que fala em nome de outro, o porta-voz. A palavra vem sem artigo: "um profeta", não "o profeta" esperado de Deuteronômio 18:15. Em Mateus 21:11, as multidões tinham dito "o profeta", com artigo.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: a decisão de prender Jesus já estava tomada no fim do capítulo 21; o que faltava era o modo. Os chefes tinham vontade e meios, a guarda do templo, e não tinham ocasião. Conclui-se que a paixão, em Mateus, não nasce de um impulso na noite da prisão. Nasce aqui, à luz do dia, como plano adiado, e tudo o que vem depois, os debates, a traição, a prisão noturna, é a execução desse plano por outro caminho.
A segunda: o que segurou os poderosos foi gente sem poder. Os chefes temiam o povo porque a sua autoridade dependia dele. Daí se conclui que, na cena, o poder do templo é menor do que parece, e que, para quebrar a proteção de Jesus, os adversários precisaram primeiro trabalhar o apoio do povo: contorná-lo pela noite e, depois, voltá-lo contra ele.
A terceira: a proteção de Jesus repousa num título que é verdadeiro e insuficiente, e perigoso na cidade em que ele é dito. Conclui-se que o capítulo termina numa trégua frágil, sustentada pelo que o povo pensava de Jesus e não pelo que ele era. E, como o evangelho afirma que a hora seria marcada por ele, conclui-se também que o adiamento, visto do lado dos chefes, foi medo; visto do lado de Mateus, foi espera.













