Então os fariseus se retiraram e combinaram um plano para apanhá-lo em alguma palavra.
1. Introdução
Os adversários mudam de método, e o versículo registra os três passos da mudança. Primeiro saem: a deliberação não pode acontecer diante de quem vai ser o alvo. Depois tomam uma decisão em conjunto, com a fórmula que Mateus usa cinco vezes no evangelho, sempre para um ato contra Jesus. E o objetivo é nomeado por um verbo que não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento: o de armar laço para caçar. O que eles querem não é um gesto nem um erro de conduta — é uma frase. Dois capítulos adiante, no julgamento, fica claro por que: frase é coisa que se repete a um governador.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que os fariseus podiam e o que não podiam fazer
Para entender por que a solução escolhida foi uma pergunta, é preciso saber do que esse grupo dispunha. Flávio Josefo (historiador judeu do primeiro século, que escreveu para leitores romanos depois da guerra) dá, nas Antiguidades Judaicas, o número aproximado de seis mil fariseus. É um número pequeno para um povo, e grande para um partido. Josefo descreve também o essencial da posição deles: tinham enorme influência sobre a população, que lhes dava crédito em matéria de religião, e era essa influência que os tornava temidos pelos governantes.
O que eles não tinham era força. Não dispunham de guarda, de polícia nem de tribunal próprio. O conselho que julgava em Jerusalém — o Sinédrio — era dominado pela aristocracia sacerdotal, e a guarda armada que podia prender alguém no templo respondia aos sacerdotes, não a eles. Quem quisesse eliminar um mestre popular e não tivesse tropa precisava de outra coisa: precisava de uma acusação que fizesse outro agir. É por isso que o plano deste versículo não é uma emboscada física e sim uma pergunta.
Por que uma frase era arma, e um ato não
No direito romano da província existia um crime de palavra — a ofensa à majestade do povo romano e do imperador —, e no tempo de Tibério ele já alcançava o que se dizia, e não apenas o que se fazia. O que a existência desse crime produz, para quem quer destruir alguém, é um requisito muito específico de prova: uma sentença curta, memorizável, dita em público e com testemunhas. Pensamento não serve; serve o que se possa repetir diante de uma autoridade.
E a autoridade existia e estava perto. Na província, o governador reunia administração, comando militar e jurisdição criminal, e era o único que podia aplicar a pena de morte. O mecanismo da acusação é assunto do versículo 18; o que importa aqui é a consequência para o plano: quem não tem tropa, mas sabe que existe um homem com poder de espada a poucos passos, procura exatamente o que este versículo diz que eles foram procurar — uma palavra.
O lugar e a hora davam as testemunhas
A cena se passa nos pátios do templo, a poucos dias da Páscoa. A cidade está cheia de peregrinos, Jesus ensina em público e o próprio capítulo anterior registra que as multidões o seguiam. Para quem quer uma frase citável, isso é condição ideal: qualquer coisa dita ali é dita diante de centenas de pessoas.
Havia ainda a presença romana. O governador subia a Jerusalém nas grandes festas, justamente porque multidão de peregrinos era risco de tumulto, e a guarnição ficava instalada na fortaleza anexa ao templo, de onde se via o pátio. Não era um ambiente em que uma declaração sobre tributo passasse sem ser ouvida.
Não havia uma posição farisaica única sobre o tributo
A pergunta que eles vão fazer funciona como armadilha porque o assunto estava realmente em disputa, inclusive entre eles. Josefo descreve os fariseus como grupo que, na prática, conviveu com os poderes estabelecidos — herodianos e romanos — sem aderir a eles; e descreve separadamente o grupo que fez da recusa do tributo uma bandeira armada, cuja história está no estudo de Mateus 16:20. Entre esses dois extremos havia gradações, e nenhuma autoridade capaz de fixar a resposta correta.
Isso tem uma consequência para a leitura da cena. Os enviados não vão perguntar uma coisa absurda nem uma coisa resolvida. Vão perguntar exatamente o ponto em que a própria comunidade não tinha acordo — e é essa indefinição que torna qualquer resposta utilizável contra quem a dá.
A deliberação como ato formal
A expressão grega que a ABC traduz por "combinaram um plano" não descreve uma conversa de corredor. O substantivo que ela usa designava, no grego do período, tanto um conselho reunido quanto a deliberação que dele saía, e aparece em documentos administrativos com esse valor técnico. Mateus o emprega para decisões tomadas em grupo, com registro de que houve reunião. O versículo, portanto, não conta que alguns homens ficaram indignados: conta que um corpo se reuniu e aprovou uma linha de ação.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então"
A palavra liga este versículo à parábola que acabou de ser contada, e a ligação é a prova de que eles entenderam. O capítulo anterior já tinha dito, em Mateus 21:45, que os chefes dos sacerdotes e os fariseus perceberam que as parábolas falavam deles. Este versículo mostra o que fizeram com a percepção: não responderam, não argumentaram, não se defenderam. Saíram para planejar.
E o conector de Mateus, aqui, não é de causa. Ele apenas emenda. O evangelho não escreve "por isso" nem "porque tinham entendido": põe os dois fatos um atrás do outro e deixa o leitor fazer a conta.
"os fariseus se retiraram"
Há um movimento físico, e ele é informativo. Eles vão embora — o grego usa o verbo de pôr-se a caminho — e a deliberação acontece em outro lugar. Jesus fica no pátio, ensinando. A cena do plano não é narrada: Mateus informa que houve e não diz onde nem o que foi dito.
A saída é também uma admissão de derrota num terreno. Nos dois confrontos imediatamente anteriores eles perderam em público: no debate sobre a autoridade de João, em Mateus 21:27, tiveram de responder "não sabemos"; e, em Mateus 21:46, quiseram prendê-lo e não puderam por medo das multidões. Discussão aberta no pátio já tinha sido tentada e não deu resultado. Fora dele, longe de ouvidos, é possível preparar outra coisa.
Um detalhe de composição: quem se retira são "os fariseus", sozinhos. Os chefes dos sacerdotes, que estavam com eles em Mateus 21:45, desaparecem da frase. Daqui até o fim do capítulo o evangelho acompanha os fariseus, os herodianos e os saduceus; os sacerdotes voltam a aparecer no capítulo 26, quando a solução deixa de ser verbal.
"e combinaram um plano"
Esta é a fórmula mais reveladora do versículo, e ela só se enxerga quando se olham todas as suas aparições em Mateus. São cinco, e as cinco são decisões tomadas em grupo contra Jesus.
A primeira é em Mateus 12:14, ainda na Galileia, depois da cura no sábado: os fariseus saem e deliberam sobre como matá-lo. A segunda é esta. A terceira é em Mateus 27:1, quando os chefes dos sacerdotes e os anciãos se reúnem de manhã para entregá-lo à morte. A quarta é em Mateus 27:7, quando deliberam o que fazer com as trinta moedas devolvidas por Judas e compram um campo com elas. A quinta é em Mateus 28:12, quando se reúnem com os anciãos e pagam os soldados para que contem outra história.
O desenho que isso produz é nítido. Em Mateus, a oposição a Jesus nunca age por impulso: age por deliberação formal, em reunião, com decisão tomada. O primeiro conselho decide matá-lo e o último decide comprar o silêncio sobre o túmulo vazio — e entre um e outro o mesmo procedimento aparece nos três momentos decisivos. Nenhum dos cinco é narrado: o evangelho registra que houve reunião e nunca mostra a reunião.
Essa é uma escolha de composição com efeito sobre o leitor. Os adversários são apresentados como uma instituição que funciona, não como um grupo de homens com raiva. A violência que vem no fim do livro passa por atas.
"para apanhá-lo"
O verbo é de caça, e não existe em nenhum outro lugar do Novo Testamento. Vem do substantivo que designa o laço, a armadilha de pegar pássaros e animais pequenos — a imagem bíblica do laço do caçador está examinada no estudo de Êxodo 10:7. O que a palavra traz consigo é um elemento específico: a armadilha funciona porque não é vista. Um laço anunciado não pega nada.
Daí decorre algo que o versículo diz sem dizer. Tudo o que vem nos versículos seguintes — o elogio, o tratamento respeitoso, a pergunta formulada com cortesia — é parte do laço, e não um desvio dele. A cordialidade da abordagem não é contradição com o plano: é a condição para o plano funcionar.
E a escolha de uma palavra de caça para descrever um procedimento religioso é dura. Mateus poderia ter escrito "para o acusar", "para o surpreender", "para o fazer errar". Escreveu o verbo do passarinheiro, aplicado a um grupo que se apresentava como guardião da Lei.
"em alguma palavra"
O alvo é nomeado com precisão: não um ato, não um descuido, não uma companhia reprovável. Uma palavra. E há uma razão prática para isso, que o próprio evangelho acabará explicitando.
Até aqui, as acusações contra Jesus tinham sido de conduta: comia com publicanos, não lavava as mãos, curava no sábado, deixava os discípulos colher no sábado. Nenhuma dessas acusações serve diante de um governador romano, porque nenhuma delas é crime no direito romano. Palavra é outra coisa. Uma frase sobre tributo, dita em público, cabe num processo.
A confirmação está no julgamento, e é a mais clara que um texto pode dar. Em Lucas 23:2, os acusadores dizem a Pilatos que o réu proíbe pagar tributo a César. É exatamente a frase que eles queriam e que não conseguiram — Jesus não disse aquilo. O plano deste versículo chegou ao fim pretendido pelo caminho da mentira, porque o caminho da citação não funcionou. Um estudo honesto registra, no entanto, que esse dado vem de Lucas: Mateus não traz a acusação nessa forma, e a ligação entre o plano e o processo é leitura do conjunto dos evangelhos, não afirmação deste versículo.
O que o texto faz com a intenção
O evangelho diz a intenção antes de dizer a pergunta. O leitor nunca tem a chance de ouvir a questão do tributo como consulta sincera: a armação é informada primeiro. Esse procedimento é característico de Mateus com os adversários, e tem um custo que precisa ser dito: a pergunta em si é boa. A licitude de pagar tributo a um poder estrangeiro era uma das questões mais sérias que um judeu da Judeia podia formular, e muita gente queria saber a resposta de verdade. O texto não a desqualifica como pergunta. Desqualifica o motivo de quem a traz.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os fariseus — Partido religioso e político com forte influência sobre a população e nenhum poder coercitivo próprio. Josefo dá o número aproximado de seis mil. Aparecem aqui sozinhos: os chefes dos sacerdotes, que estavam com eles no fim do capítulo anterior, saem da frase e só voltam quando a solução deixa de ser verbal.
O conselho que eles tomam — A expressão grega designa tanto um corpo reunido quanto a decisão que dele sai. É a quinta das cinco deliberações formais contra Jesus registradas em Mateus, e nenhuma delas é narrada: o evangelho informa que houve reunião e nunca mostra a reunião.
Jesus — No versículo, apenas um pronome: "apanhá-lo". Não está presente na cena do plano. Continua no pátio do templo, ensinando, enquanto a decisão é tomada em outro lugar.
O pátio do templo — Onde ele permanece e onde a pergunta será feita. Espaço aberto, cheio de peregrinos a poucos dias da Páscoa, com a guarnição romana instalada na fortaleza anexa. Qualquer frase dita ali tinha testemunhas em número.
O governador romano — Não é mencionado e é o destinatário final do plano. Reunia administração, comando militar e jurisdição criminal na província, e era o único que podia aplicar a pena de morte. Uma frase sobre tributo só tem valor como arma porque existe esse homem.
O que aconteceu antes — Três episódios seguidos de confronto no templo: a pergunta sobre a autoridade, em Mateus 21:23-27, que terminou com os chefes dizendo "não sabemos"; a parábola dos lavradores; e a parábola das bodas, que acabou de ser contada. Em Mateus 21:46, eles quiseram prendê-lo e recuaram por medo das multidões.
O que vem depois — Os enviados chegam no versículo 16, com os herodianos. A sequência de debates do capítulo 22 inteiro é a tentativa de executar o plano deste versículo, e termina em Mateus 22:46, quando ninguém mais consegue perguntar nada.
5. Pontos de Ensino
Quem não pode vencer o argumento muda o argumento. Nos dois confrontos anteriores, no mesmo pátio, eles perderam em público. A resposta não foi um argumento melhor: foi escolher a próxima pergunta. A mudança de terreno é a jogada de quem já perdeu no terreno antigo, e reconhecê-la é parte de ler o capítulo.
A oposição age por deliberação, não por impulso. As cinco vezes em que Mateus usa esta fórmula são reuniões com decisão tomada, e a última delas compra o silêncio de soldados sobre um túmulo. O evangelho não descreve adversários furiosos: descreve uma instituição que funciona. Isso desarma a caricatura e torna a história mais desconfortável.
O laço precisa ser invisível. O verbo escolhido é o do passarinheiro, e armadilha anunciada não pega nada. Por isso o elogio do versículo seguinte não contradiz o plano — é parte dele. Cordialidade e armação convivem sem atrito, e quem espera que a má intenção venha com cara de má intenção está desarmado.
O alvo é uma frase, e há razão para isso. Até aqui as acusações contra Jesus tinham sido de conduta, e conduta religiosa não interessa a um tribunal romano. Palavra interessa, porque palavra se repete. Quem quer destruir alguém por via institucional procura o que seja citável.
Uma boa pergunta pode servir a um mau propósito. A licitude do tributo era questão séria e sem resposta firme dentro do próprio judaísmo. O texto não desqualifica a pergunta; desqualifica o motivo de quem a traz. A distinção importa, porque a tentação é tratar como falsa toda pergunta feita por quem não gostamos.
A cena do plano não é mostrada. Mateus informa que houve reunião e não registra uma palavra dela. O leitor sabe que existe um plano e não sabe qual é — e vai descobri-lo junto com o alvo, pelo que acontece em seguida.
6. Aspectos Filosóficos
Quem decide a pergunta já venceu metade da discussão?
O versículo mostra um grupo que para de discutir e passa a escolher o assunto. Não há aqui novo argumento, nova prova, nova objeção: há a decisão de formular uma questão. E essa decisão é, por si, um exercício de poder — de um tipo que a análise política demorou a reconhecer, porque ele não aparece no momento em que alguém ganha uma disputa.
O trabalho que separou os tipos de poder com mais clareza é de Steven Lukes (nascido em 1941, sociólogo e teórico político britânico, professor em Oxford e depois em Nova York), no livro Power: A Radical View ("Poder: uma visão radical", 1974), que ficou conhecido pelas três dimensões que ele distingue.
As três dimensões
A primeira dimensão é a mais visível, e era a única reconhecida pela escola que Lukes criticava: poder é prevalecer numa decisão observável. Mede-se olhando quem ganha quando há conflito aberto. Aplicado ao capítulo, é o que acontece no debate sobre a autoridade de João: pergunta feita, resposta dada, e os perguntadores recuam com um "não sabemos", em Mateus 21:27. Nessa dimensão, eles perderam.
A segunda dimensão é a que interessa a este versículo. Lukes a recolhe de dois autores anteriores, Bachrach e Baratz, que observaram algo simples e consequente: nem todo conflito chega a ser discutido. Há quem tenha poder para determinar quais questões entram na pauta e quais ficam de fora — e isso é poder, embora não produza nenhuma decisão visível. Eles chamaram o fenômeno de não-decisão. Quem controla a pauta não precisa ganhar o debate: escolhe qual debate haverá.
A terceira dimensão é o acréscimo próprio de Lukes, e vai além: o poder também forma o que as pessoas querem e creem, de modo que o conflito nem chega a surgir. É a dimensão mais difícil de demonstrar, e a mais discutida entre os críticos dele.
O que o versículo é, nessa descrição
É um caso puro de segunda dimensão, e a frase do evangelho o diz com exatidão: eles se reuniram para decidir em que palavra apanhá-lo. O objeto da deliberação não é uma resposta a dar nem um argumento a construir — é o enquadramento da próxima questão. O conteúdo da pergunta escolhida, que aparece dois versículos adiante, é desenhado para que as duas respostas possíveis sejam ruins. Isso é controle de pauta levado ao limite: a força não está em nenhuma das respostas, está na forma da pergunta.
A composição da delegação do versículo seguinte confirma a leitura. Juntar um grupo religioso e um grupo ligado à casa reinante não serve para argumentar melhor — serve para garantir que, qualquer que seja a resposta, haja alguém presente interessado em levá-la adiante. É montagem de pauta, não montagem de debate.
Os limites, e o último é o mais interessante
O primeiro é o de sempre: Lukes está discutindo ciência política, numa polêmica dos anos sessenta e setenta sobre como medir o poder em cidades americanas. Evangelhos não estão no horizonte dele.
O segundo é de escala. A segunda dimensão, como ele a descreve, trata de arranjos institucionais que operam por anos — regras, procedimentos, assuntos que nunca chegam à mesa. Aqui se trata de uma conversa única, armada para um dia. A estrutura é a mesma; o tamanho, não.
O terceiro é o que a cena acrescenta ao modelo. O controle da pauta falha. A resposta que vem no versículo 21 não escolhe nenhuma das duas saídas oferecidas: recusa os termos da pergunta e devolve outra divisão. O modelo de Lukes não prevê isso, porque ele supõe que quem é posto diante de uma pauta responde dentro dela. O versículo mostra a condição escondida de todo controle de pauta: ele só funciona enquanto o interrogado aceita o enquadramento. Quem não aceita desarma o mecanismo sem precisar ganhar o debate — e, nesse caso, sem precisar sequer entrar nele.
7. Aplicações Práticas
Reconhecer a pergunta que não é pergunta
A aplicação mais direta do versículo é defensiva, e serve para quem é interrogado. Existem perguntas feitas para obter resposta e perguntas feitas para obter uma citação. As segundas têm marcas reconhecíveis: vêm com elogio na frente, exigem posição imediata, oferecem só duas saídas e são feitas na frente de gente. Nenhuma dessas marcas, isolada, prova má intenção. As quatro juntas, numa conversa com quem já se mostrou adversário, são o desenho deste capítulo.
O que o versículo ensina não é a desconfiar de todo mundo. É que a cordialidade da abordagem não informa nada sobre o propósito dela, porque o laço precisa ser invisível para funcionar.
Cuidado com o que é citável
O plano procura uma frase, e procura porque frase se repete e conduta não. Quem ocupa qualquer posição pública — num trabalho, numa igreja, numa família em conflito, numa rede social — vive sob a mesma regra: o que se diz em poucas palavras viaja, e viaja sem o contexto que o explicava. Isso não é motivo para silêncio, e é motivo para saber que a frase curta é a unidade de risco. A resposta que Jesus dará dois versículos adiante é, aliás, uma frase curta — e é a prova de que o cuidado não consiste em falar pouco, mas em não aceitar os termos de quem pergunta.
Decisão em grupo não garante que a decisão seja boa
O versículo registra um procedimento correto a serviço de uma coisa errada: houve reunião, houve deliberação, houve decisão conjunta. Nas cinco vezes em que Mateus usa essa fórmula, o resultado é sempre contra Jesus, e a última compra uma mentira. A forma da decisão não diz nada sobre o conteúdo dela. Quem se tranquiliza porque "foi decidido pelo grupo", ou "está dentro do processo", está usando como garantia algo que não garante.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que eles saíram, se podiam perguntar ali mesmo?
Porque a deliberação precisava ser feita fora do alcance do alvo, e porque o que se combinou exigia preparo: escolher a pergunta, escolher quem a faria e arranjar a companhia dos herodianos. O texto não descreve a reunião nem diz quanto tempo ela levou. Diz apenas que houve saída, conselho e decisão.
Por que uma palavra, e não um ato?
Porque as acusações de conduta já tinham sido tentadas e não serviam. Comer com publicanos, curar no sábado e não lavar as mãos são questões internas da religião judaica, e nenhuma delas é crime para um governador romano. Uma frase sobre o tributo é. O plano não procura um pecado: procura uma prova utilizável fora do próprio tribunal.
O plano deu certo?
Não como estava previsto. Jesus não disse a frase que eles queriam, e o capítulo termina com ninguém mais ousando perguntar nada, em Mateus 22:46. Mas a acusação apareceu depois de todo modo: em Lucas 23:2, diante de Pilatos, os acusadores afirmam que ele proibia pagar tributo a César. Ou seja, o conteúdo pretendido pelo plano chegou ao processo — por via de uma afirmação falsa, e não de uma citação. Esse dado vem de Lucas; Mateus não traz a acusação nessa forma.
Os fariseus eram todos contra pagar o tributo?
Não, e é isso que torna a armadilha possível. Josefo os descreve como grupo que, na prática, convivia com os poderes estabelecidos, e descreve separadamente o movimento que fez da recusa do tributo uma bandeira armada. Entre os dois extremos havia gradações e nenhuma autoridade capaz de fixar a resposta certa. Uma pergunta sobre um ponto sem resposta oficial é a melhor pergunta para quem quer armar laço.
Mateus está sendo injusto com os fariseus?
A pergunta é legítima e não tem resposta simples. O evangelho declara a má intenção antes de mostrar a pergunta, e nunca dá aos adversários a chance de serem ouvidos como quem consulta de boa-fé. É provável que isso tenha a ver com a situação da comunidade de Mateus: depois da destruição do templo, no ano 70, os fariseus são o grupo judaico que sobrevive e se organiza, e portanto o interlocutor vivo do evangelho. Essa é uma hipótese sobre o texto, bem difundida e não demonstrável. O que se pode afirmar é que a hostilidade do retrato é um dado do evangelho, e que lê-lo como crônica neutra seria ingenuidade.
Por que Mateus nunca narra as reuniões?
Não se sabe, e o efeito é mensurável. Nas cinco vezes em que a fórmula aparece, o leitor fica sabendo que houve decisão e nunca ouve uma palavra dela. Isso produz adversários sem interioridade: eles não têm motivos declarados, dúvidas nem discussões internas. Uma explicação possível é de economia narrativa; outra é que o evangelho não quer explicar os adversários, apenas registrar o que decidiram. As duas são plausíveis.
Havia algo de ilegítimo em fazer uma pergunta difícil a um mestre?
Não. O debate por perguntas era a forma normal do ensino religioso judaico, e Jesus faz o mesmo nos dois sentidos — pergunta aos adversários em Mateus 21:24 e em Mateus 22:42. O que o versículo denuncia não é a pergunta, nem a dificuldade dela: é o propósito. A diferença entre consultar e armar laço não está na forma da frase, e por isso ela não é visível para quem assiste — e esse é, de novo, o ponto do verbo de caça.
9. Conexão com Outros Textos
As cinco deliberações formais contra Jesus em Mateus
Mateus 12:14 — "Mas os fariseus saíram e começaram a conspirar contra Jesus, procurando um jeito de matá-lo."
A primeira, ainda na Galileia. O mesmo verbo de sair e a mesma fórmula de tomar conselho, com um objetivo já declarado.
Mateus 27:1 — "Ao amanhecer, todos os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram em conselho contra Jesus, para o condenarem à morte."
Mateus 28:12 — "Reunindo-se com os anciãos, e depois de decidirem em conjunto, deram muito dinheiro aos soldados,"
A última da série. O mesmo procedimento que decidiu matá-lo é o que paga para que se conte outra história sobre o túmulo.
O que havia sido tentado antes, no mesmo pátio
Mateus 21:46 — "E procuravam prendê-lo, mas tinham medo das multidões, pois estas o consideravam um profeta."
A via da força estava bloqueada pelo apoio popular. Este versículo registra a troca de método.
Mateus 21:45 — "Quando os chefes dos sacerdotes e os fariseus ouviram as parábolas de Jesus, entenderam que era deles que ele falava."
Onde o plano chega
Lucas 23:2 — "E começaram a acusá-lo, dizendo: 'Encontramos este homem subvertendo a nossa nação, proibindo pagar tributo a César e dizendo que ele mesmo é Cristo, um rei.'"
A frase que eles queriam ouvir, apresentada a Pilatos como se tivesse sido dita. É a confirmação mais clara de que o alvo do plano era uma declaração sobre o tributo.
O laço, na linguagem dos salmos
Salmos 140:5 — "Os soberbos esconderam-me um laço e cordas; estenderam uma rede à beira do caminho e me armaram armadilhas."
Salmos 141:9 — "Guarda-me dos laços que me armaram e das armadilhas dos que praticam a iniquidade."
A imagem do laço escondido para um homem é vocabulário dos salmos de perseguição, e é dele que vem a palavra deste versículo.
Armar laço com palavras, nos profetas
Isaías 29:21 — "Aos que, com uma palavra, fazem do homem um culpado, e armam laço ao que defende a causa no tribunal, e por nada desviam o justo."
A combinação exata deste versículo — laço mais palavra, dentro de um procedimento judicial — já estava formulada em Isaías.
Jeremias 18:18 — "Então disseram: 'Venham, tramemos um plano contra Jeremias, porque a lei não faltará ao sacerdote, nem o conselho ao sábio, nem a palavra ao profeta. Venham, feri-lo com a língua e não demos atenção a nenhuma das suas palavras.'"
Um conselho tomado em grupo contra um profeta, com a língua como arma declarada.
A mesma armação, no relato paralelo
Marcos 12:13 — "E enviaram-lhe alguns dos fariseus e dos herodianos, para o apanharem em alguma palavra."
Marcos não registra a reunião: vai direto ao envio. O versículo de Mateus é o único que mostra a decisão sendo tomada antes.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Então os fariseus se retiraram e combinaram um plano para apanhá-lo em alguma palavra.
Texto grego (Textus Receptus)
Τότε πορευθέντες οἱ Φαρισαῖοι συμβούλιον ἔλαβον ὅπως αὐτὸν παγιδεύσωσιν ἐν λόγῳ.
Transliteração
Tote poreuthentes hoi Pharisaioi symboulion elabon hopōs auton pagideusōsin en logō.
Análise palavra por palavra
Τότε (tote) — "então". A conjunção preferida de Mateus. Marca sequência e não causa: o evangelho põe o plano imediatamente depois da parábola e não escreve que um é consequência do outro.
πορευθέντες (poreuthentes) — "tendo ido", "pondo-se a caminho". Particípio aoristo de poreuomai, verbo de deslocamento que Mateus usa cerca de trinta vezes. Há uma ressalva de leitura a fazer: em grego do período, esse particípio funcionava com frequência como auxiliar quase vazio — "foram e fizeram" valendo por "fizeram" —, e por isso não se pode insistir demais no movimento. O que se pode afirmar é que o verbo está lá e que Marcos, no lugar paralelo, não o tem.
οἱ Φαρισαῖοι (hoi Pharisaioi) — "os fariseus". Com artigo, o que apresenta o grupo como corpo definido. A origem do nome está analisada no estudo de Mateus 19:3.
συμβούλιον (symboulion) — "conselho", "deliberação". Formado de syn, "com", mais a família de boulē, "decisão, propósito". A palavra tem dois valores no grego do período, e os dois são técnicos: designa o corpo que delibera e também a resolução que sai dele. O uso administrativo aparece em Atos 25:12, onde symboulion é a junta de assessores com que o governador Festo confere antes de responder a Paulo. Não é vocabulário de conversa: é vocabulário de reunião com decisão registrada.
ἔλαβον (elabon) — "tomaram". Aoristo de lambanō, "tomar, receber". E aqui está o dado mais curioso do versículo. A construção "tomar conselho" — symboulion lambanein — é estranha ao grego e corresponde exatamente a uma expressão latina da administração romana, consilium capere, "tomar uma decisão". Mateus é o único autor do Novo Testamento que a usa, e a usa cinco vezes. Marcos, nas duas ocasiões em que fala de deliberação dos adversários, escreve a mesma ideia com outros verbos. A expressão, portanto, é um traço próprio de Mateus, e um traço com cheiro de língua oficial: ele descreve as decisões contra Jesus com a fórmula com que um funcionário romano descreveria um despacho. Se isso é escolha deliberada ou apenas o grego que ele falava não é possível decidir.
ὅπως (hopōs) — "para que". Conjunção de finalidade, aqui com verbo no subjuntivo. Mateus usa hopōs com frequência maior que os outros evangelistas, muitas vezes para introduzir o cumprimento de uma profecia; aqui ela introduz o propósito de um plano humano.
αὐτὸν (auton) — "a ele". O pronome vem antes do verbo, posição de destaque em grego: o alvo é nomeado antes da ação.
παγιδεύσωσιν (pagideusōsin) — "apanhem em laço". Aoristo do subjuntivo de pagideuō, formado sobre pagis, o laço, a armadilha de apanhar pássaros e animais pequenos. Esta é a única aparição do verbo em todo o Novo Testamento.
Na Bíblia grega ele é raro, e um dos dois lugares em que aparece é de um paralelo notável. Em 1 Samuel 28:9, quando Saul, disfarçado, pede à mulher de En-Dor que consulte um morto para ele, ela responde: "por que armas laço à minha vida, para me matar?". É a única outra passagem das Escrituras em que alguém acusa outra pessoa de estender um laço por meio de uma conversa — e é, como aqui, uma armadilha montada com palavras diante de testemunhas. A outra ocorrência está em Eclesiastes 9:12, aplicada aos pássaros presos na rede.
O substantivo pagis, por sua vez, é corrente nos salmos de perseguição, onde traduz o hebraico do laço do passarinheiro. O elemento que a palavra traz é a ocultação: um laço só funciona porque o bicho não o vê.
ἐν λόγῳ (en logō) — "em palavra". Dativo com a preposição en, e sem artigo — não "na palavra", nem "numa palavra determinada", mas em palavra, em algo que ele diga. A construção admite duas leituras. Pode ser instrumental: apanhá-lo por meio de uma palavra, com a palavra funcionando como o laço. Pode ser locativa: apanhá-lo numa palavra, isto é, surpreendê-lo dentro de algo que ele próprio disser. A segunda é a mais provável, porque é a que corresponde ao plano que o capítulo executa — eles não querem dizer algo a ele, querem que ele diga algo. A ambiguidade, no entanto, não se resolve pela gramática, e as duas traduções circulam.
Variantes
A tradição é estável. Textus Receptus, texto bizantino majoritário e as edições críticas modernas trazem o versículo na mesma forma, sem diferença de consequência. O material de comparação está no lugar paralelo. Marcos 12:13 não registra a reunião e vai direto ao envio dos emissários; e, para dizer a finalidade, usa outro verbo de caça — agreuō, "caçar, capturar", que também é palavra única em todo o Novo Testamento, e também vem com o mesmo complemento, "em palavra". Dois evangelistas, portanto, escolheram verbos raros do vocabulário da caça para o mesmo plano, e nenhum dos dois escolheu o mesmo. Marcos usa o termo genérico de capturar um animal; Mateus, o específico do laço escondido.
11. Conclusão
Do que foi examinado saem quatro conclusões.
A primeira é que houve troca de método, e não aumento de empenho. A via da força estava fechada pelo apoio popular, e a via do debate aberto já tinha falhado duas vezes no mesmo pátio. O que o versículo registra é a passagem para um terceiro caminho: em vez de responder, escolher a pergunta. Daí se conclui que a sequência de debates do capítulo 22 não é uma série de consultas e sim a execução de uma decisão tomada antes da primeira delas.
A segunda é que o alvo foi escolhido pelo que ele serve. Não se procura um ato, uma falha de conduta nem uma companhia reprovável — procura-se uma frase. Conclui-se que o plano já estava pensando num tribunal que não era o deles: acusação de conduta religiosa não move um governador romano, e declaração sobre tributo move.
A terceira é que a cordialidade dos versículos seguintes pertence ao plano. O verbo escolhido é o do laço, e laço visível não apanha nada. Daí decorre que o elogio que vem a seguir não é um lapso dos emissários nem uma gentileza fora de lugar: é o instrumento funcionando.
A quarta é sobre o modo como Mateus desenha a oposição. Cinco vezes ele descreve uma decisão contra Jesus com a mesma fórmula administrativa, e nunca narra nenhuma dessas reuniões. Conclui-se que os adversários do evangelho não são retratados como homens movidos por raiva, e sim como um corpo que delibera, decide e registra — e que a morte, no fim do livro, chega por esse caminho, com o último conselho da série pagando para que se conte outra versão do que aconteceu ao túmulo.













