Quando os chefes dos sacerdotes e os fariseus ouviram as parábolas de Jesus, entenderam que era deles que ele falava.
1. Introdução
As duas parábolas terminaram, e quem as ouviu entendeu o recado: os chefes dos sacerdotes e os fariseus perceberam que Jesus falava deles.
Os fariseus aparecem aqui pela primeira vez no capítulo, sem aviso, ao lado da cúpula do templo, que era rival deles.
E o versículo registra um tipo raro de ouvinte em Mateus: o adversário que entende perfeitamente e, mesmo assim, não muda. O que ele faz com o que entendeu fica para o versículo seguinte.
2. Contexto Histórico e Cultural
Um par improvável
Os chefes dos sacerdotes e os fariseus não formavam um bloco. Os primeiros eram a aristocracia do templo, ligada ao partido dos saduceus; os segundos, um movimento leigo de estudiosos da Lei, com influência sobre o povo. Discordavam sobre a ressurreição, sobre a autoridade da tradição oral e sobre muitos detalhes do culto. O retrato dos dois grupos e da rivalidade entre eles está no estudo de Mateus 16:1.
O que as fontes judaicas acrescentam é como os dois lados conviviam dentro do templo, e quem tinha medo de quem.
O juramento do sumo sacerdote
A Mishná (a primeira grande compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200), no tratado Yoma, descreve a véspera do Dia da Expiação. Os sábios destacavam anciãos do tribunal para ler diante do sumo sacerdote a ordem do culto do dia seguinte, e lhe diziam: "Meu senhor, sumo sacerdote, leia você mesmo, talvez você tenha esquecido, ou talvez nunca tenha aprendido" (Yoma 1:3). Na noite anterior, os anciãos o faziam jurar: "Meu senhor, sumo sacerdote, nós somos enviados do tribunal, e você é nosso enviado e enviado do tribunal. Nós o fazemos jurar, por Aquele que fez habitar o seu nome nesta casa, que você não mudará nada do que dissemos". Depois do juramento, diz o texto, ele se afastava e chorava, e eles se afastavam e choravam (Yoma 1:5).
O Talmude da Babilônia, ao comentar essa passagem (Yoma 19b), explica as lágrimas. O sacerdote chorava porque o suspeitavam de ser saduceu; os anciãos choravam porque suspeitar de um inocente é falta grave. E o juramento existia para que ele não queimasse o incenso do lado de fora do Santo dos Santos e entrasse com a fumaça já subindo, que era como os saduceus entendiam o rito.
"Temos medo dos fariseus"
O mesmo trecho do Talmude cita uma tradição mais antiga, da Tosefta (coleção de tradições paralelas à Mishná): um saduceu foi feito sumo sacerdote e, no Dia da Expiação, fez o incenso do lado de fora, do jeito saduceu. Saiu do santuário radiante. O pai foi ao encontro dele e disse: "Meu filho, embora sejamos saduceus, temos medo dos fariseus". O filho respondeu que passara a vida esperando a ocasião de cumprir o versículo como o entendia. Poucos dias depois, conta a tradição, morreu.
A história é contada do lado dos fariseus e dos seus herdeiros, os rabinos, e serve para mostrar quem tinha razão. Os estudiosos discutem quanto dela reflete o templo antes de 70 e quanto é idealização posterior; não há consenso. Mas o quadro que ela desenha é o de Mateus 21:45: a cúpula sacerdotal tinha o templo, e os fariseus tinham o povo, e uma precisava da outra mesmo sem se gostar.
Fariseus no conselho
O livro de Atos confirma a convivência. No conselho que julga os apóstolos, levanta-se "um fariseu chamado Gamaliel, mestre da Lei, respeitado por todo o povo", e convence os chefes dos sacerdotes a soltar os presos (Atos 5:34-40). E quando Paulo é levado diante do mesmo conselho, basta ele se declarar fariseu para que a assembleia se divida (Atos 23:6-10). Os fariseus tinham assento ali, e peso.
O par no Evangelho de João e em Mateus
No Evangelho de João, "os chefes dos sacerdotes e os fariseus" é quase uma fórmula. São eles que mandam guardas prender Jesus (João 7:32, 7:45), que reúnem o conselho depois da ressurreição de Lázaro (João 11:47), que dão ordem de denunciar onde ele estiver (João 11:57) e que fornecem a tropa da prisão (João 18:3).
Mateus usa o par só duas vezes: aqui e em Mateus 27:62, quando os mesmos dois grupos vão a Pilatos pedir guarda para o túmulo. Nos relatos da prisão, do julgamento e da cruz, Mateus não põe os fariseus; quem age são os chefes dos sacerdotes e os anciãos. Os fariseus entram na paixão só pelas duas pontas: quando a decisão de prender nasce, e quando é preciso garantir que o morto fique no túmulo.
Muitos estudiosos explicam a presença dos fariseus aqui pela situação de Mateus: depois de 70, os sacerdotes tinham desaparecido como poder, e os herdeiros dos fariseus eram os principais adversários da comunidade cristã. Mateus os teria posto na cena porque eram eles os adversários que os seus leitores conheciam. É hipótese plausível, e não exclui que fariseus estivessem de fato entre os que ouviram Jesus no templo.
3. Análise Teológica do Versículo
"Quando os chefes dos sacerdotes e os fariseus"
Os fariseus entram no capítulo sem ter sido apresentados. Quem tinha interrogado Jesus no templo eram "os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo" (Mateus 21:23); os fariseus não estavam na lista. Agora são eles, com os chefes dos sacerdotes, que ouvem e entendem.
Três explicações foram dadas.
Primeira: estavam ali desde o começo. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) supõem que os fariseus faziam parte do conselho e da delegação, e que Mateus só os nomeia agora. É possível, mas o texto não diz.
Segunda: Mateus os acrescenta para preparar o que vem. Os três debates seguintes têm os fariseus no centro: o tributo a César, que eles planejam (Mateus 22:15), a pergunta sobre o maior mandamento (Mateus 22:34-35) e a pergunta de Jesus sobre o Filho de Davi (Mateus 22:41). E depois vem o capítulo 23, com os sete "ais" contra escribas e fariseus. O versículo 45 seria a porta de entrada desse bloco.
Terceira: Mateus monta uma moldura. O par "chefes dos sacerdotes e fariseus" aparece aqui, quando eles decidem que Jesus precisa ser preso, e reaparece em Mateus 27:62, quando pedem a Pilatos que o túmulo seja vigiado. O início da trama e o seu último ato têm os mesmos autores.
As três podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. A segunda e a terceira dizem respeito à composição do evangelho e são as mais prováveis; a primeira diz respeito ao fato histórico e não pode ser verificada.
"ouviram as parábolas de Jesus"
"As parábolas", no plural. Quais? As duas que acabaram de ser contadas: a dos dois filhos (Mateus 21:28-32) e a dos lavradores (Mateus 21:33-44). MacLaren (Alexander MacLaren, pregador batista escocês do século XIX) lê assim, e é a leitura natural.
O plural junta as duas numa acusação só. A primeira parábola terminou com uma frase direta: "os cobradores de impostos e as prostitutas estão entrando à frente de vocês" (Mateus 21:31). A segunda terminou com outra: "o Reino de Deus será tirado de vocês" (Mateus 21:43). Nos dois casos, Jesus deixou a imagem e falou na segunda pessoa. Não havia como não entender.
E aqui as parábolas fazem o contrário do que fazem em Mateus 13. Ali, Jesus fala em parábolas "porque, vendo, não veem; e ouvindo, não ouvem nem entendem" (Mateus 13:13): a parábola esconde de quem está de fora. No templo, a parábola expõe. Ela não é ensino velado para discípulos, é acusação pública dirigida aos acusados. O gênero é o mesmo; a função mudou com o lugar e com o ouvinte.
"entenderam"
Em Mateus, entender é, em regra, coisa de discípulo. "Vocês entenderam todas essas coisas?", pergunta Jesus em Mateus 13:51, e eles respondem que sim. "Então entenderam" aparece em Mateus 16:12 e em Mateus 17:13, sempre sobre os doze, sempre como o desfecho bom de um ensino difícil. Aqui o verbo é outro, mais simples, o de "perceber, reconhecer", e o sujeito são os adversários.
O dado desmonta uma explicação cômoda: a de que os chefes rejeitaram Jesus por não terem entendido. Mateus diz o contrário. Eles entenderam com precisão, e foi por terem entendido que agiram. O problema não estava na clareza da mensagem, estava no que eles fariam com ela. O próprio Jesus tinha dito isso pouco antes, sobre João Batista: "Vocês, porém, vendo isso, não se arrependeram depois para nele crer" (Mateus 21:32). Ver e não se arrepender é o padrão do capítulo.
Meyer (Heinrich Meyer, comentarista alemão do século XIX) observa uma progressão. No versículo 41, os mesmos homens tinham pronunciado a sentença contra os lavradores sem perceber que falavam de si. Agora a percepção chega. A cena tem dois tempos: primeiro eles se condenam sem saber; depois sabem.
"que era deles que ele falava"
O ouvinte se reconhece na história. Jesus não disse "vocês são os lavradores"; quem fez a ligação foram eles. O modelo célebre do mecanismo, Natã diante de Davi, e o contraste entre a confissão de Davi e a reação dos chefes estão no estudo de Mateus 21:40.
O que este versículo acrescenta é o intervalo. Mateus separa num versículo próprio o instante em que eles se reconhecem, antes de dizer o que fizeram. O versículo mostra que se reconhecer numa acusação não leva por si só ao arrependimento: pode levar à defesa, e a defesa pode ser violenta.
O versículo também pesa no debate sobre Mateus 21:43. Os que ouvem a sentença sobre o Reino "tirado" entendem que ela é sobre eles, os chefes e os fariseus. O texto não diz que o povo entendeu que era sobre o povo. Esse dado favorece a leitura que dirige a sentença do versículo 43, em primeiro lugar, aos dirigentes; não a prova, porque Mateus registra só o que eles perceberam, não o alcance completo do que Jesus quis dizer.
Por fim, o tempo do verbo. No grego, o que eles entendem é que Jesus "fala" deles, no presente, não "falava" (item 10). A frase é contada do ponto de vista deles, no momento em que a ficha cai: ele está falando de nós.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os chefes dos sacerdotes — o grupo dirigente do sacerdócio de Jerusalém: o sumo sacerdote em exercício, os que já tinham ocupado o cargo e os membros das famílias de onde ele saía. Quem eram e por que Mateus fala deles no plural está no estudo de Mateus 16:21.
Os fariseus — movimento leigo de estudo e prática da Lei, com prestígio entre o povo. Última aparição antes desta: Mateus 19:3, na pergunta sobre o divórcio. Depois desta, conduzem os debates de Mateus 22 e são o alvo do capítulo 23.
Os ausentes — os anciãos do povo, que estavam com os chefes dos sacerdotes em Mateus 21:23, não são nomeados aqui. Marcos 12:12 não especifica quem reagiu; Lucas 20:19 fala de "escribas e chefes dos sacerdotes". Só Mateus põe os fariseus.
As parábolas — a dos dois filhos (Mateus 21:28-32) e a dos lavradores maus (Mateus 21:33-44), ditas no pátio do templo.
Jesus — o contador das parábolas, de quem os ouvintes percebem que fala deles. No grego, o versículo nem repete o nome: diz "as parábolas dele".
O lugar — o templo de Jerusalém, nos dias que antecedem a Páscoa, diante das multidões que o versículo seguinte vai nomear.
5. Pontos de Ensino
1. Entender não é o mesmo que aceitar. Os adversários entenderam as parábolas com mais clareza que muitos discípulos em outras cenas. A rejeição não vinha da falta de compreensão.
2. A parábola funciona como espelho. Ela não acusa por nome. Deixa o ouvinte se ver, e quem se vê não pode dizer que foi caluniado.
3. Reconhecer-se pode levar a duas direções. Quem se reconhece pode rever o que fez ou atacar quem o mostrou; os chefes escolheram a segunda. O reconhecimento é necessário para a mudança, mas não a garante.
4. Rivais podem se unir contra um terceiro. Sacerdotes e fariseus discordavam em muita coisa. Diante de Jesus, ficaram do mesmo lado. Mateus registra a aliança sem comentá-la.
5. O mesmo gênero muda de função. A parábola que esconde em Mateus 13 é a parábola que expõe no templo. O que decide não é a forma, mas quem ouve e em que posição.
6. Aspectos Filosóficos
Quem completa o sentido de uma história?
Jesus contou duas histórias e não disse a quem elas se referiam. Quem fez a ligação foram os ouvintes. Isso levanta uma questão central da teoria da leitura: o sentido de um texto está no texto, ou se forma no encontro entre o texto e quem o lê? E, se se forma no encontro, o que acontece quando o leitor descobre que o texto está falando dele?
Wolfgang Iser e os vazios do texto
Wolfgang Iser (1926-2007), teórico alemão da literatura, foi um dos fundadores da chamada Escola de Constança, que nos anos 1970 deslocou o estudo da literatura do autor e da obra para o leitor. No livro O ato da leitura (1976), ele parte de uma observação simples: nenhum texto diz tudo. Entre uma frase e outra, entre uma cena e outra, ficam o que ele chama de "vazios" (em alemão, Leerstellen, "lugares vazios"): ligações que o texto não faz e que o leitor precisa fazer.
Esses vazios não são defeito. São o que obriga o leitor a participar. Ao preenchê-los, ele monta o sentido, e o texto passa a existir de fato só nesse ato. Iser chama de "leitor implícito" o papel que o texto prepara para quem o lê: um lugar a ser ocupado, com perguntas já previstas.
E Iser descreve um efeito que toca diretamente este versículo. Um texto de ficção, diz ele, pode pôr em jogo as normas do próprio leitor: apresenta-as de um ângulo de fora, de modo que o leitor as veja como se não fossem suas. Nesse momento, ele é obrigado a se posicionar diante do que até então era evidente para ele. Iser chama isso de negação: o texto nega o que o leitor dava por certo, e o leitor precisa fazer alguma coisa com essa negação.
O que isso ilumina em Mateus 21:45
As parábolas do templo são feitas de vazios calculados. A dos dois filhos não diz quem é o filho que disse sim e não foi. A dos lavradores não diz quem são os lavradores, quem são os servos, quem é o filho. Jesus pergunta aos ouvintes o que o dono fará (Mateus 21:40), e são eles que preenchem o vazio: "Destruirá miseravelmente esses miseráveis". Só depois de terem preenchido é que percebem o que preencheram.
É o efeito de negação descrito por Iser. Os chefes dos sacerdotes se viam como guardiões da vinha, encarregados do templo por direito. A parábola lhes mostra essa posição de fora, como a de arrendatários que se apropriaram do que não era deles. A norma deles, vista de fora, vira acusação. O versículo 45 registra o instante em que a negação chega à consciência: "entenderam que era deles que ele falava".
Iser também ajuda a ver por que a reação deles não estava decidida pelo texto. O texto prepara o lugar do leitor, mas não decide o que o leitor fará ao ocupá-lo. Diante da negação, ele pode rever a norma ou se defender dela. Os chefes se defenderam.
Os limites da comparação
Iser pensava no leitor de romances, sozinho, com tempo, numa leitura silenciosa. As parábolas foram ditas em voz alta, a adversários, numa disputa de poder, e Jesus não deixou os vazios tão abertos: as frases dos versículos 31 e 43 os fecham com força. A liberdade de leitura que Iser descreve é muito maior do que a que estes ouvintes tiveram. O que a teoria dele oferece é uma descrição precisa do mecanismo pelo qual uma história, sem nomear ninguém, faz o ouvinte se nomear.
7. Aplicações Práticas
Ler as histórias com o espelho voltado para si. O hábito mais comum diante das parábolas de acusação é identificar os maus com outras pessoas: os fariseus, os líderes, os religiosos de outro grupo. Os ouvintes originais não tiveram essa saída; entenderam que era sobre eles. Quem lê a parábola dos lavradores pensando só nos chefes do templo do século I perdeu o que ela faz com quem a lê.
Observar o que você faz quando se reconhece. O versículo separa dois momentos que costumam vir colados: perceber e reagir. Entre os dois há uma escolha. Quem percebe que uma crítica o atinge pode examinar a crítica ou atacar quem a fez. A segunda reação é tão comum que costuma parecer natural.
Desconfiar da aliança contra um terceiro. Grupos que discordam em quase tudo podem se unir com facilidade quando alguém ameaça os dois. A união não prova que os dois estejam certos; às vezes prova só que os dois perderiam com a mudança.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os fariseus estavam mesmo ali?
O texto diz que estavam e que ouviram. Marcos e Lucas não os nomeiam nesta cena. Se a presença deles é lembrança histórica ou composição de Mateus, para preparar os capítulos 22 e 23, é questão em disputa. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
Se eles entenderam, por que Jesus disse antes que falava em parábolas para não ser entendido?
Porque as parábolas não são todas do mesmo tipo. As de Mateus 13, sobre o Reino, falam de modo velado de algo que só se compreende de dentro. As do templo falam de modo transparente de uma situação concreta, e terminam com a explicação na boca de Jesus. A frase de Mateus 13:13 descreve um uso das parábolas, não todos.
Entender e rejeitar é pior do que não entender?
O versículo não faz o cálculo moral. Mas o capítulo inteiro trabalha com a ideia de que a responsabilidade cresce com o que se viu: "vocês, porém, vendo isso, não se arrependeram depois" (Mateus 21:32). Mateus 11:20-24 diz o mesmo das cidades que viram os milagres e não mudaram.
Os chefes entenderam que era só sobre eles, ou sobre Israel inteiro?
O versículo diz "deles", e eles eram os dirigentes. Não registra que o povo tenha se sentido atingido; ao contrário, o versículo seguinte diz que o povo continuava tendo Jesus por profeta. Isso não decide sozinho o alcance de Mateus 21:43, mas mostra quem, na cena, se reconheceu na acusação.
Por que eles não responderam?
Mateus não registra resposta. Na pergunta sobre João Batista, eles tinham calculado e respondido "não sabemos" (Mateus 21:27). Aqui não há cálculo verbal: há uma decisão, que o versículo seguinte descreve. A ausência de resposta é coerente com o que eles tinham percebido: não havia como contestar a parábola sem confirmar que ela os atingia.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma reação nos outros evangelhos
Marcos 12:12 — "E procuravam prendê-lo, mas temeram a multidão, porque perceberam que contra eles havia contado aquela parábola. E, deixando-o, foram embora."
Tradução livre a partir do Textus Receptus. Marcos põe tudo num versículo só e na ordem inversa: primeiro querem prender, depois o motivo. Mateus separa a percepção (21:45) da reação (21:46).
Lucas 20:19 — "Os chefes dos sacerdotes e os escribas procuraram, naquela mesma hora, lançar as mãos sobre ele, mas temeram o povo; porque perceberam que contra eles havia contado esta parábola."
Lucas fala de "escribas", não de fariseus, e acrescenta a urgência: "naquela mesma hora".
O mesmo par, no fim
Mateus 27:62 — "No dia seguinte, isto é, o dia depois da preparação, os chefes dos sacerdotes e os fariseus reuniram-se diante de Pilatos"
A única outra vez em que Mateus junta os dois grupos: para pedir guarda no túmulo.
João 11:47-48 — "Então os chefes dos sacerdotes e os fariseus reuniram o conselho e disseram: 'O que faremos? Este homem faz muitos sinais. Se o deixarmos assim, todos vão crer nele, e os romanos virão e destruirão o nosso lugar e a nossa nação.'"
O mesmo par em João, com o motivo explícito: o medo de perder o "lugar", isto é, o templo.
Os fariseus depois deste versículo
Mateus 22:15 — "Então os fariseus se retiraram e combinaram um plano para apanhá-lo em alguma palavra."
O passo seguinte: já que não podem prendê-lo, tentam fazê-lo se comprometer em público.
Mateus 12:14 — "Mas os fariseus saíram e começaram a conspirar contra Jesus, procurando um jeito de matá-lo."
A primeira decisão de matar Jesus, em Mateus, é dos fariseus, e na Galileia, muito antes de Jerusalém.
Entender em Mateus
Mateus 13:13 — "Por isso lhes falo por parábolas: porque, vendo, não veem; e ouvindo, não ouvem nem entendem."
Mateus 16:12 — "Então entenderam que ele não havia falado do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus e dos saduceus."
O contraste: o entender dos discípulos chega depois do esforço e leva ao seguimento; o dos adversários chega de imediato e leva à trama.
Quem se reconhece e confessa
2 Samuel 12:7, 13 — "Então Natã disse a Davi: 'Você é esse homem!'... Davi disse a Natã: 'Pequei contra o SENHOR.'"
O mesmo reconhecimento, com a resposta oposta.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Quando os chefes dos sacerdotes e os fariseus ouviram as parábolas de Jesus, entenderam que era deles que ele falava.
Texto grego (Textus Receptus)
Καὶ ἀκούσαντες οἱ ἀρχιερεῖς καὶ οἱ Φαρισαῖοι τὰς παραβολὰς αὐτοῦ ἔγνωσαν ὅτι περὶ αὐτῶν λέγει.
Transliteração
Kai akousantes hoi archiereis kai hoi Pharisaioi tas parabolas autou egnōsan hoti peri autōn legei.
Uma nota sobre o texto
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) e as edições críticas trazem as mesmas palavras. O Papiro 104, fragmento do século II, conserva restos deste versículo logo depois do 43, o que pesa na discussão sobre a ausência do 44 (ver o estudo de Mateus 21:44). Conferido no Bible Hub e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.
Análise palavra por palavra
Καὶ ἀκούσαντες — kai akousantes, "e, tendo ouvido". Particípio aoristo de akouō, "ouvir", no plural. O aoristo vê o ouvir como algo concluído: as parábolas acabaram, e então vem a percepção.
οἱ ἀρχιερεῖς καὶ οἱ Φαρισαῖοι — hoi archiereis kai hoi Pharisaioi, "os chefes dos sacerdotes e os fariseus". Cada grupo com o seu artigo, o que os mantém distintos mesmo juntos. Pharisaioi vem provavelmente do aramaico perishayya, "os separados"; o sentido exato do nome, se separados da impureza, do povo comum ou dos adversários, é discutido.
τὰς παραβολὰς αὐτοῦ — tas parabolas autou, "as parábolas dele". Plural de parabolē, de para, "ao lado", e ballō, "lançar": pôr uma coisa ao lado de outra para comparar. Na Bíblia grega, traduz o hebraico mashal, que cobre provérbio, enigma, alegoria e sátira. O artigo e o plural apontam para as duas parábolas que acabavam de ser ditas.
ἔγνωσαν — egnōsan, "perceberam, entenderam". Aoristo de ginōskō, "conhecer, reconhecer, dar-se conta". É o verbo do conhecimento que vem pela experiência ou pela percepção. Mateus tem outro verbo para o entender dos discípulos, syniēmi, "compreender, juntar as peças", usado em Mateus 13:13, 13:51, 16:12 e 17:13. Aqui não aparece. Os adversários não "compreendem" no sentido de Mateus 13: "percebem", "se dão conta". O aoristo marca o instante.
ὅτι περὶ αὐτῶν λέγει — hoti peri autōn legei, "que ele fala a respeito deles". Peri com genitivo é "a respeito de, sobre". Autōn, "deles", plural, retoma os dois grupos.
Legei está no presente, "fala", e não no passado. No grego, o discurso indireto conserva o tempo do pensamento original: o que eles pensaram foi "ele fala de nós". O português pede "falava", e a ABC o usa corretamente; o grego deixa ouvir o momento da descoberta.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: a rejeição de Jesus pelos chefes não foi mal-entendido. Eles perceberam com exatidão o que as parábolas diziam e de quem diziam. Conclui-se que, para Mateus, o conflito do templo não se resolveria com mais clareza; a mensagem foi clara, e o que faltou foi a disposição de se deixar atingir por ela.
A segunda: a presença dos fariseus ao lado dos chefes dos sacerdotes não é detalhe. Dois grupos rivais, que se vigiavam até dentro do santuário, aparecem juntos quando se reconhecem acusados pela mesma história, e reaparecem juntos diante do túmulo. Daí se conclui que Mateus marca com esse par o começo e o fim da trama contra Jesus, e que a aliança, para ele, nasce do reconhecimento da acusação.
A terceira: o versículo separa o reconhecer do mudar. A parábola fez o seu trabalho até o fim: levou os ouvintes a se verem. O que eles fariam depois já não dependia dela. Daí se conclui que o versículo não é uma derrota da parábola, mas a prova de que ela funcionou, e de que nenhuma história, por mais clara, obriga quem se reconhece nela a se arrepender.













