Quem cair sobre esta pedra será despedaçado, e aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó.”
1. Introdução
Jesus volta à pedra do Salmo 118 e lhe dá dois movimentos: quem cair sobre ela será despedaçado, e aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó.
A primeira imagem vem de Isaías, a pedra em que se tropeça; a segunda, de Daniel, a pedra que desce do monte e pulveriza a estátua dos impérios.
E o verso tem um problema que nenhum outro do capítulo tem: alguns manuscritos antigos não o trazem, e muitos estudiosos pensam que um copista o trouxe de Lucas. O Textus Receptus o tem, as edições críticas o mantêm entre colchetes, e a discussão continua.
2. Contexto Histórico e Cultural
O sonho da estátua
Daniel 2 conta um sonho do rei Nabucodonosor, da Babilônia. O rei vê uma estátua enorme: cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre de bronze, pernas de ferro, pés de ferro misturado com barro. Uma pedra se desprende "sem mãos", atinge a estátua nos pés e tudo se esfarela de uma vez, ouro, prata, bronze, ferro e barro, e vira "como a palha das eiras no verão", que o vento leva sem deixar vestígio. A pedra cresce, vira um grande monte e enche a terra inteira (Daniel 2:34-35).
Daniel explica: os metais são reinos que se sucedem, do mais nobre ao mais frágil, e a pedra é um reino que o Deus do céu levantará "nos dias desses reis", que "jamais será destruído" e que "esmagará e consumirá todos esses reinos" (Daniel 2:44). O capítulo está em aramaico, a língua que o Oriente falava, e não em hebraico, como se o próprio texto se dirigisse aos impérios na língua deles.
Como os judeus do primeiro século liam a pedra
No tempo de Jesus, o quarto reino, o de ferro, já tinha sido identificado com Roma. O Quarto Livro de Esdras (apocalipse judaico escrito por volta do ano 100, conservado em latim) diz isso quase com todas as letras: a águia que o vidente vê é "o quarto reino que apareceu em visão ao teu irmão Daniel", e acrescenta que a Daniel não foi explicado como agora se explica (4 Esdras 12:11-12). No capítulo seguinte, o mesmo livro mostra uma figura humana que sobe do mar e esculpe para si "um grande monte" (4 Esdras 13:6-7), que a explicação identifica com Sião, "o monte talhado sem mãos" (4 Esdras 13:36). A pedra de Daniel virou, ali, o lugar do Messias.
Os rabinos seguiram na mesma linha. O Midrash Tanchuma (coleção de comentários rabínicos sobre a Torá, redigida entre os séculos V e IX, com material mais antigo), na seção Terumah (7), cita Daniel 2:34 e atribui a Rabi Simeão ben Laquis a leitura: "este versículo se refere ao Messias". E pergunta por que o reino do Messias é comparado a uma pedra, dando três respostas: por causa da Torá, escrita em tábuas de pedra; por causa de Jacó, chamado "a Pedra de Israel" (Gênesis 49:24); e porque ele destruirá o coração de pedra (Ezequiel 36:26). Rashi (Rabi Salomão ben Isaque, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, do século XI) explica Daniel 2:44 como "o reino do Messias" e situa o momento "quando o reino de Roma ainda existir".
Para um ouvinte judeu, então, "a pedra que cai e esmaga" era uma imagem conhecida, e tinha alvo certo: os impérios pagãos. A pedra vinha a favor de Israel.
Como os cristãos dos primeiros séculos leram a mesma pedra
Os cristãos juntaram as pedras da Bíblia numa só. O Salmo 118:22 (a pedra rejeitada), Isaías 28:16 (a pedra posta em Sião), Isaías 8:14 (a pedra de tropeço) e Daniel 2 (a pedra sem mãos) passaram a ser lidos como um único dossiê sobre Cristo. O dossiê já está montado em Romanos 9:33 e em 1 Pedro 2:6-8, e muitos estudiosos pensam que circulava antes, em listas de textos usadas na pregação.
Justino, no Diálogo com Trifão (76), deu à expressão "sem mãos" uma leitura que fez escola: a pedra cortada "sem mãos" significa que Cristo nasceu sem intervenção humana, da virgem. Hipólito de Roma, por volta de 204, escreveu o mais antigo comentário cristão a um livro bíblico que chegou quase inteiro até nós, justamente sobre Daniel, e ali fixou a sequência que dominaria a história ocidental: Babilônia, Pérsia, Grécia, Roma, e depois a pedra. Jerônimo, no seu comentário a Daniel (407), repetiu o esquema, e a Idade Média organizou a história do mundo pelos "quatro impérios", com a ideia de que o poder passava de um a outro até o fim.
O que muda em Mateus 21:44 é o alvo. Na leitura judaica, a pedra cai sobre os impérios. No versículo, ela ameaça os chefes do templo de Jerusalém.
3. Análise Teológica do Versículo
O verso que talvez não seja de Mateus
Antes de ler a frase, é preciso saber que ela pode não ter estado no texto original de Mateus.
Os manuscritos que não a trazem são poucos, mas antigos e variados. O Códice de Beza, manuscrito do século V com o texto em grego e em latim lado a lado, a omite. Omite-a também o minúsculo 33 (cópia do século IX, de texto muito bom). Omitem-na várias versões latinas antigas, anteriores à Vulgata, e a mais antiga versão siríaca, a Sinaítica. Orígenes, no século III, aparece no aparato crítico entre as testemunhas da omissão. E o Papiro 104, um fragmento achado em Oxirrinco, no Egito, e datado do século II, traz no verso da folha restos de Mateus 21:43 e 21:45; pelo cálculo do espaço, os editores concluem que o versículo 44 não estava ali. A leitura desse lado do fragmento é incerta, e por isso o testemunho é discutido, mas, se correto, é a cópia mais antiga do trecho.
Do outro lado estão quase todos os grandes manuscritos: o Sinaítico, o Vaticano, o Códice de Éfrem e a massa dos manuscritos bizantinos que deram origem ao Textus Receptus. Por isso as edições se dividem. Tischendorf, no século XIX, tirou o versículo do texto. Westcott e Hort o mantiveram entre colchetes. O Nestle-Aland, a edição crítica padrão, também o mantém entre colchetes, sinal de dúvida sobre a autenticidade. O Textus Receptus o traz sem marca, e a ABC o segue.
Bruce Metzger (o principal estudioso norte-americano de crítica textual do Novo Testamento no século XX), no comentário que justifica as decisões da edição crítica, resume os dois lados.
Contra o versículo: a frase é quase igual a Lucas 20:18, e muitos estudiosos pensam que um copista a trouxe de Lucas para Mateus, como os copistas faziam com frequência para harmonizar os evangelhos. Os manuscritos que a omitem seriam testemunhas do texto anterior à harmonização.
A favor do versículo: as palavras não são as mesmas de Lucas. Lucas diz "todo aquele que cair sobre aquela pedra"; Mateus diz "quem cair sobre esta pedra", sem o "todo". Um copista que copiasse de Lucas copiaria, em regra, as palavras de Lucas. E o lugar é estranho. Em Lucas, a frase vem logo depois da citação do salmo, que é o lugar natural para quem fala de pedra. Em Mateus, vem depois do versículo 43, que já tinha mudado de assunto. Um copista que quisesse acrescentar a frase a poria depois do versículo 42, não aqui. Por fim, há uma explicação simples para a omissão: no grego, o versículo 43 e o 44 terminam com palavras muito parecidas, e o olho do copista pode ter saltado de uma para a outra, pulando a linha inteira.
A comissão da edição crítica, segundo Metzger, inclinava-se a considerar o versículo um acréscimo, mas a maioria decidiu mantê-lo no texto, entre colchetes, pela antiguidade e pelo peso da leitura. Não é possível decidir com segurança, e as duas posições são defensáveis.
"Quem cair sobre esta pedra"
"Esta pedra" aponta para trás, para a pedra rejeitada do Salmo 118, citada no versículo 42. O versículo 43 interrompeu a imagem com uma sentença sem figura, e o 44 volta a ela. Se o versículo é original, a interrupção é de Mateus, e o efeito é de martelo: a pedra, a sentença, a pedra de novo.
A primeira imagem é a de alguém que caminha e tropeça. Ninguém é atacado: a pessoa vai de encontro à pedra que estava no caminho. É a linguagem de Isaías 8:14-15, em que Deus mesmo é "pedra de tropeço" para as duas casas de Israel, e "muitos tropeçarão, cairão e serão quebrados". O texto de Isaías e o seu uso no Novo Testamento estão no estudo de Mateus 16:23. Um dado que não está lá: a Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento feita antes de Cristo) inverte Isaías 8:14 e diz que, para quem confia, Deus "não" será pedra de tropeço. Mateus e Lucas seguem o sentido do hebraico, não o da tradução grega que os primeiros cristãos usavam.
"será despedaçado"
Quem tropeça na pedra se quebra. Não é a pedra que age: é a própria queda que machuca. A imagem descreve o que acontece a quem trata Jesus como obstáculo: o choque não o remove do caminho, e quem se joga contra ele sai ferido.
"e aquele sobre quem ela cair"
Agora a pedra se move. É a imagem de Daniel 2: a pedra que se desprende do monte e cai sobre a estátua.
Como se relacionam as duas metades? Três leituras.
Primeira leitura: são dois graus de culpa e dois tempos. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) leem assim: cair sobre a pedra é escandalizar-se com Jesus na sua humildade, o que fere mas ainda tem remédio; a pedra cair sobre alguém é o juízo final, quando ele vier em glória, e então não há remédio. MacLaren (Alexander MacLaren, pregador batista escocês do século XIX) resume: a pedra parada fere; a pedra em movimento destrói.
Segunda leitura: as duas metades dizem a mesma coisa, com intensidade crescente, como é comum na poesia hebraica. Não há saída boa: chocar-se com a pedra ou ser atingido por ela, o resultado é a ruína. A frase não divide os ouvintes em dois grupos; fecha as duas portas.
A segunda leitura é a que exige menos do texto. A primeira é a mais antiga na pregação, e acrescenta uma cronologia que o versículo não dá.
"será reduzido a pó"
O verbo grego é de lavoura: significa "joeirar", lançar o grão ao vento para separar a palha (item 10). A ABC traduz "reduzido a pó", e a tradução é boa, porque o resultado da imagem é exatamente esse: o que sobra de quem a pedra atinge é como a palha que o vento leva.
E o verbo liga o versículo a Daniel com mais força do que a imagem sozinha. Na tradução grega de Daniel conhecida pelo nome de Teodocião, que os cristãos adotaram, Daniel 2:44 diz que o reino de Deus "esmigalhará e joeirará todos esses reinos". O verbo é o mesmo de Mateus 21:44, e é raro.
O que o versículo faz com Daniel
Daniel 2:44 diz ainda outra coisa, que fica ao lado de Mateus 21:43: o reino que Deus levantará "não será deixado a outro povo". Em Daniel, o reino eterno é de Israel e não passa a ninguém. Em Mateus, dois versículos colados dizem que o Reino será dado "a um povo" e que a pedra de Daniel cai sobre os chefes de Jerusalém.
Se Mateus tinha Daniel na cabeça, e a escolha do verbo sugere que sim, a inversão é deliberada: a imagem que prometia a Israel a vitória sobre os impérios passa a ameaçar os dirigentes de Israel. É uma leitura plausível, e não demonstrável. Mas mostra como o versículo opera: ele não inventa uma imagem nova; toma a esperança que os ouvintes já tinham e a vira para eles.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
A pedra — no versículo anterior, a pedra rejeitada pelos construtores do Salmo 118:22, que Jesus aplica a si mesmo. Aqui ela ganha o papel de Daniel 2: a que cai e esmaga.
Os construtores que rejeitaram — na aplicação de Jesus, os chefes dos sacerdotes, os anciãos do povo e, como dirá o versículo seguinte, os fariseus.
Nabucodonosor — rei da Babilônia de 605 a 562 a.C., que destruiu Jerusalém e o primeiro templo em 586 a.C. No livro de Daniel, é ele quem sonha com a estátua.
Daniel — o jovem judeu exilado na corte babilônica que, segundo o livro, interpreta o sonho. A maioria dos estudiosos data a redação final do livro no século II a.C., durante a perseguição de Antíoco IV; a tradição judaica e cristã antiga a atribui ao próprio Daniel, no século VI a.C. A data é discutida.
O Códice de Beza — manuscrito bilíngue grego e latino do século V, guardado na Universidade de Cambridge, a principal testemunha grega da omissão.
O Papiro 104 — fragmento do século II achado em Oxirrinco, no Egito, publicado em 1997, guardado em Oxford. É uma das cópias mais antigas de Mateus que existem.
Orígenes — teólogo de Alexandria do século III, autor de um extenso comentário a Mateus, citado no aparato crítico entre as testemunhas que não trazem o versículo.
5. Pontos de Ensino
1. Jesus não é neutro. A pedra está no caminho e não se desvia. Ou o ouvinte a acolhe como pedra angular, ou se choca com ela. O versículo recusa a posição de quem acha que pode ignorá-la sem consequência.
2. O choque fere quem se choca. Na primeira metade, a pedra não faz nada; o dano vem da queda. A rejeição de Jesus, para o evangelho, não o atinge: atinge quem rejeita.
3. A esperança dos ouvintes virou advertência a eles. A pedra de Daniel era promessa de Israel contra os impérios. Aqui ela ameaça os chefes de Israel. O mesmo símbolo muda de sentido conforme a posição de quem o ouve.
4. A dúvida sobre o texto é parte do texto. O versículo está entre colchetes nas edições críticas, e uma leitura honesta o diz. A imagem não depende dele, porque Lucas a tem; o que depende é a pergunta sobre o que Mateus escreveu.
5. O juízo pertence a quem é a pedra. Nenhuma das duas metades põe o ouvinte no papel de quem derruba ou de quem esmaga. Quem age, na segunda metade, é a pedra.
6. Aspectos Filosóficos
A pedra que acaba com a história dos impérios
O sonho de Daniel 2 é, provavelmente, a primeira filosofia da história do Ocidente. Ele diz três coisas sobre o tempo: que os impérios se sucedem numa ordem; que essa ordem é de decadência, do ouro ao barro; e que ela tem um fim, trazido por algo que não vem de dentro da série, a pedra "sem mãos". Mateus 21:44 põe essa imagem na boca de Jesus. A pergunta filosófica é antiga e continua aberta: a história tem direção e fim, ou é um ciclo de culturas que nascem e morrem?
Oswald Spengler e o declínio do Ocidente
Oswald Spengler (1880-1936), professor secundário alemão de matemática que se tornou filósofo da história, publicou em 1918 e 1922 os dois volumes de A decadência do Ocidente (no original, Der Untergang des Abendlandes, "o ocaso do Ocidente"). O livro foi um fenômeno numa Alemanha derrotada na guerra.
Spengler começa atacando um esquema: a divisão da história em Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna, como se tudo caminhasse numa linha só até a Europa. Ele o chama de "sistema ptolomaico da história", porque põe o Ocidente no centro, como a astronomia antiga punha a Terra. No lugar dele, propõe o que chama de virada copernicana: a história humana é feita de grandes culturas independentes, a egípcia, a chinesa, a indiana, a greco-romana, a ocidental e outras, cada uma com a sua alma própria.
Cada cultura, para Spengler, é como um organismo. Nasce, cresce, amadurece e envelhece, num ciclo de cerca de mil anos. Na velhice, deixa de criar e passa a administrar: vira "civilização", com cidades gigantes, dinheiro, técnica e impérios. Roma foi a civilização da cultura grega; o Ocidente do século XX, dizia ele, estava entrando na sua fase romana, e o fim viria como veio para todas as outras.
O que isso ilumina em Mateus 21:44
O esquema que Spengler ataca tem raízes no sonho de Daniel. Foi a sequência dos quatro impérios, fixada por Hipólito e Jerônimo, que deu à Europa medieval uma história única e linear, com um fim. A ligação não é de Spengler, mas é histórica: o "sistema ptolomaico" que ele combateu herdou de Daniel a ideia de uma série de impérios que culmina num reino final.
E a diferença entre os dois é exatamente a pedra. Em Spengler, nada vem de fora do ciclo: toda cultura cumpre o seu destino e morre de velhice, e a próxima nasce de outra raiz. Em Daniel, e em Mateus, a série é interrompida por algo que não é produto dela, uma pedra cortada "sem mãos". Spengler vê declínio sem juízo; Daniel vê juízo que encerra o declínio.
E Mateus acrescenta uma torção que nenhum dos dois previa. A pedra não cai, aqui, sobre Babilônia ou Roma. Cai sobre os chefes de Jerusalém, isto é, sobre os que se julgavam do lado da pedra. Spengler fala de culturas que morrem por cansaço; o versículo fala de dirigentes que caem por terem rejeitado o que esperavam.
Os limites da comparação
Spengler é um interlocutor perigoso, e é preciso dizê-lo. O seu fatalismo, a sua biologia das culturas e o seu desprezo pela democracia alimentaram a direita radical alemã dos anos 1920. Ele recusou o nazismo e foi hostilizado pelo regime, mas as suas ideias ajudaram a preparar o clima. Nenhum historiador sério aceita hoje o ciclo de mil anos. O que a comparação oferece não é uma teoria a adotar, mas um contraste: a filosofia da história moderna, quando abandonou a pedra de Daniel, ficou com dois caminhos, o progresso sem fim e o declínio sem fim. O versículo pertence a uma terceira visão, em que a história é julgada por algo que não vem dela.
7. Aplicações Práticas
Ler a advertência sem usá-la como ameaça. O versículo é duro, e a tentação de quem o cita é apontá-lo para os outros. Mas ele foi dito a pessoas religiosas, com poder e certeza de estar do lado certo. Quem o lê com proveito é quem se pergunta se está fazendo o que os construtores fizeram: rejeitando a pedra porque ela não cabe no projeto.
Reconhecer o tropeço. A primeira metade descreve uma experiência comum: alguém se fere ao bater contra aquilo que não aceita. Há momentos em que o que machuca não é o que Jesus fez, mas a insistência em seguir pelo caminho como se a pedra não estivesse ali.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se o versículo é duvidoso, por que a ABC o mantém?
Porque a ABC segue, no Novo Testamento, o Textus Receptus, que o traz. E porque a dúvida não é decisiva: a própria edição crítica moderna o mantém no texto, só que entre colchetes. O estudo registra a dúvida em vez de esconder o versículo.
Se um copista o acrescentou, isso muda alguma coisa na fé?
Pouco. A imagem está em Lucas 20:18 sem problema de manuscrito, e a ideia da pedra de tropeço está em Romanos 9:33 e 1 Pedro 2:8. O que muda é a história do texto de Mateus, não o conjunto do que os evangelhos dizem.
Jesus citou Daniel?
Não diretamente. Nenhuma fórmula de citação aparece, e as palavras não reproduzem Daniel. O que há é alusão: a pedra que cai, o esmagamento e o verbo de joeirar, que é o mesmo da tradução grega de Daniel 2:44. Que a alusão é intencional é leitura provável; que ela venha de Jesus e não de quem transmitiu o dito não é possível provar.
Qual metade é pior: cair sobre a pedra ou ela cair sobre você?
A leitura tradicional diz que a segunda, porque a primeira ainda permitiria cura. O texto não faz essa distinção. As duas terminam em ruína, e a diferença entre "despedaçado" e "reduzido a pó" é de grau, não de natureza.
O versículo descreve violência de Jesus?
Descreve, em imagem, o resultado de rejeitá-lo. Não manda ninguém fazer nada, e não descreve um ato de Jesus contra pessoas determinadas. A pedra é imagem de juízo, no mesmo registro dos profetas. Ler nela uma autorização de violência é ler o que ela não diz.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma frase em Lucas
Lucas 20:17-18 — "Mas Jesus, olhando para eles, disse: 'Então o que significa isto que está escrito: A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular? Todo aquele que cair sobre aquela pedra será despedaçado, e aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó.'"
Tradução livre a partir do Textus Receptus. Em Lucas, a frase vem colada ao salmo, sem a sentença do Reino no meio.
A pedra que derruba
Isaías 8:14-15 — "Ele será um santuário, mas para as duas casas de Israel será pedra de tropeço e rocha que faz cair... Muitos tropeçarão, cairão e serão quebrados."
A fonte da primeira metade do versículo, e a palavra "quebrados" é a mesma ideia de "despedaçado".
A pedra que esmaga
Daniel 2:34-35 — "Enquanto você olhava, uma pedra se desprendeu, sem que mão alguma a tocasse, atingiu a estátua nos pés de ferro e de barro e os esmigalhou. Então o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro foram esmigalhados de uma vez e ficaram como a palha das eiras no verão; o vento os levou, e não se achou lugar para eles. E a pedra que atingiu a estátua tornou-se um grande monte e encheu a terra inteira."
A fonte da segunda metade. A palha levada pelo vento é a imagem do verbo grego "joeirar".
Daniel 2:44 — "Nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que jamais será destruído, e a soberania não será deixada a outro povo; esmagará e consumirá todos esses reinos, e ele permanecerá para sempre."
O versículo em que a tradução grega de Teodocião usa o mesmo verbo de Mateus 21:44, e em que aparece o "outro povo" que Mateus 21:43 parece inverter.
O verbo de joeirar
Jeremias 31:10 — "Ouçam a palavra do SENHOR, nações... Aquele que dispersou Israel o reunirá e o guardará como o pastor guarda o seu rebanho."
Na Septuaginta, "aquele que dispersou" é o mesmo verbo de joeirar. O que joeira também recolhe: o verbo do juízo é usado ali para anunciar a restauração.
Mateus 3:12 — "A pá está na sua mão, e ele limpará a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha num fogo que não se apaga."
João Batista anuncia o mesmo trabalho de eira, com outro verbo. Mateus abre e fecha o ministério de Jesus com a imagem da palha.
O dossiê cristão das pedras
Romanos 9:32-33 — "Tropeçaram na pedra de tropeço, como está escrito: 'Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e uma rocha que faz cair; e quem nela crer não será envergonhado.'"
Paulo funde Isaías 28:16 e Isaías 8:14 numa citação só.
Lucas 2:34 — "Simeão os abençoou e disse a Maria, mãe do menino: 'Eis que este menino está destinado a ser causa de queda e de reerguimento de muitos em Israel.'"
A mesma ideia sem a imagem da pedra, no começo da vida de Jesus: ele é posto no caminho, e uns caem, outros se levantam.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Quem cair sobre esta pedra será despedaçado, e aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó.”
Texto grego (Textus Receptus)
καὶ ὁ πεσὼν ἐπὶ τὸν λίθον τοῦτον συνθλασθήσεται· ἐφ᾿ ὃν δ᾿ ἂν πέσῃ, λικμήσει αὐτόν.
Transliteração
kai ho pesōn epi ton lithon touton synthlasthēsetai; eph' hon d' an pesē, likmēsei auton.
Uma nota sobre o texto
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue), nas edições de Scrivener e de Stephanus, traz o versículo inteiro, com as mesmas palavras do texto bizantino, de Westcott e Hort e de Nestle. A diferença não está nas palavras, mas na presença: Tischendorf o omite, e o Nestle-Aland o põe entre colchetes. A discussão dos manuscritos está no item 3. Conferido no Bible Hub (textos paralelos) e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.
A comparação com Lucas 20:18 mostra as diferenças de palavra. Lucas: pas ho pesōn ep' ekeinon ton lithon, "todo aquele que cair sobre aquela pedra". Mateus: kai ho pesōn epi ton lithon touton, "e quem cair sobre esta pedra". A segunda metade é idêntica nos dois.
Análise palavra por palavra
καὶ ὁ πεσὼν — kai ho pesōn, "e quem cair", literalmente "e o que tiver caído". Pesōn é particípio aoristo de piptō, "cair", com artigo: a construção grega para "aquele que". O aoristo vê a queda como um acontecimento único.
ἐπὶ τὸν λίθον τοῦτον — epi ton lithon touton, "sobre esta pedra". Epi com acusativo indica movimento em direção a uma superfície: cair sobre, contra. Lithos é a pedra comum, a de construção ou de estrada; a palavra e o seu uso no Novo Testamento foram analisados no estudo de Mateus 16:18. Touton, "esta", aponta para a pedra do versículo 42.
συνθλασθήσεται — synthlasthēsetai, "será despedaçado". Futuro passivo de synthlaō, formado de syn, "junto, completamente", e thlaō, "esmagar, quebrar". O prefixo intensifica: quebrar em pedaços, por inteiro. No Novo Testamento, o verbo só aparece aqui e em Lucas 20:18. Na Septuaginta é raro; no Salmo 58:6 (57:7 na numeração grega), descreve Deus quebrando os dentes dos leões.
ἐφ᾿ ὃν δ᾿ ἂν πέσῃ — eph' hon d' an pesē, "e aquele sobre quem ela cair". Eph' hon é "sobre quem"; de, "e, mas", marca a passagem para a segunda metade; an com o subjuntivo aoristo pesē forma uma condição eventual: "sobre quem quer que ela venha a cair". O mesmo verbo piptō da primeira metade, agora com a pedra como sujeito. A simetria é intencional: cair sobre, ser caído em cima.
λικμήσει αὐτόν — likmēsei auton, "o reduzirá a pó", literalmente "o joeirará". Futuro ativo de likmaō, verbo de likmos, a pá de joeirar, o instrumento com que se lançava o grão debulhado ao vento para que a palha voasse. O sentido primeiro é separar o grão da palha; daí, espalhar, dissipar, e por fim destruir, fazer desaparecer como a palha no vento.
Na Septuaginta, o verbo tem um leque que vai da lavoura ao juízo. Em Rute 3:2, Boaz "joeira a cevada na eira" à noite: é o trabalho literal. Em Isaías 41:16, Israel joeira os inimigos, "e o vento os levará". Em Jeremias 31:10 (38:10 na Septuaginta), "aquele que dispersou Israel o reunirá": o verbo de dispersar é likmaō, e a frase anuncia o retorno. E na tradução grega de Daniel atribuída a Teodocião, que a Igreja adotou no lugar da Septuaginta antiga, Daniel 2:44 diz que o reino de Deus leptynei kai likmēsei, "esmigalhará e joeirará", todos os reinos. É a ligação verbal mais forte entre o versículo e Daniel.
A tradução "reduzir a pó" vem da Vulgata (conteret, "triturará") e da tradição inglesa ("grind him to powder"). Comentaristas como Meyer (Heinrich Meyer, comentarista alemão do século XIX) e Vincent (Marvin Vincent, filólogo norte-americano do século XIX) observam que o verbo grego não é moer, mas lançar ao vento. A diferença é de imagem, não de resultado: num caso a pessoa é pulverizada; no outro, é dispersa como a palha.
αὐτόν — auton, "o", a ele. É a palavra final, parecida com a última do versículo 43, autēs, o que sustenta a hipótese da omissão por salto do olho do copista.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: a frase pode não ser de Mateus, mas a imagem é dos evangelhos. A dúvida dos manuscritos é real e não se resolve com segurança, e por isso o estudo honesto a declara. Daí se conclui que o peso teológico do versículo não depende da decisão textual: Lucas o garante. O que fica em aberto é só se Mateus o escreveu e onde o pôs.
A segunda: as duas metades não descrevem duas saídas, mas a mesma ruína vista de dois lados. Quem se choca com a pedra se quebra; quem é atingido por ela se dispersa. Conclui-se que o versículo não oferece ao ouvinte um meio-termo entre acolher a pedra e ser destruído por ela, e que a cronologia que a pregação lhe acrescentou, o tropeço agora e o juízo depois, é leitura de comentarista, não dado do texto.
A terceira: o versículo inverte a esperança que usa. A pedra de Daniel caía sobre os impérios em favor de Israel; aqui cai sobre os dirigentes de Israel. Daí se conclui que, para Mateus, estar do lado da promessa não protege ninguém da pedra. O que protege é a relação com ela: acolhê-la como pedra angular ou tropeçar nela.













