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Mateus 21:43

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 24 acessos
Portanto eu digo a vocês que o Reino de Deus será tirado de vocês e será dado a um povo que produza os seus frutos.
Jesus de pé no pátio do templo de Jerusalém, falando com firmeza a um grupo de sacerdotes de vestes ricas e anciãos de barba branca, enquanto ao fundo uma vinha carregada de cachos aparece pela abertura de um pórtico de colunas.

Estudo


Portanto eu digo a vocês que o Reino de Deus será tirado de vocês e será dado a um povo que produza os seus frutos.

1. Introdução

Jesus deixa a imagem da vinha e fala sem figura: o Reino de Deus será tirado de "vocês" e dado a um povo que produza os seus frutos. A frase só existe em Mateus; Marcos e Lucas contam a mesma parábola e não a têm.

Duas perguntas decidem a leitura, e nenhuma tem resposta pacífica: quem são os "vocês" a quem Jesus fala, e quem é esse "povo".

Nenhum versículo do capítulo pesou tanto na história cristã. Por séculos ele foi lido como a demissão de Israel e a posse da Igreja no seu lugar, e depois de 1945 essa leitura passou a ser contestada dentro das próprias igrejas.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quando Mateus escreveu: depois do templo

A maioria dos estudiosos data o Evangelho de Mateus entre os anos 80 e 90, depois que os romanos destruíram o templo de Jerusalém, no ano 70. A data é discutida, mas um dado do próprio texto a apoia: na parábola seguinte, o rei "enviou os seus exércitos, destruiu aqueles assassinos e incendiou a cidade deles" (Mateus 22:7), um detalhe que não tem função na história de um banquete e soa como lembrança de uma cidade queimada.

Se a data estiver certa, os primeiros leitores de Mateus 21:43 viviam num mundo em que os "chefes dos sacerdotes" já não existiam como poder. O templo era ruína, a aristocracia sacerdotal tinha perdido a sua base, e a liderança do povo judeu passava, aos poucos, para os mestres da Lei reunidos em torno de Yavne, a cidade da costa onde os sábios se reorganizaram depois da guerra. Para esses leitores, "o Reino será tirado de vocês" não era só ameaça: era uma leitura do que já tinha acontecido.

Explicar a catástrofe como juízo era um gesto judaico

Ler a destruição do templo como castigo não foi invenção cristã. O Talmude da Babilônia, no tratado Yoma (9b), pergunta por que o segundo templo caiu, se naquela geração as pessoas estudavam a Torá, cumpriam os mandamentos e praticavam a caridade. E responde: por causa do ódio sem motivo, que pesa tanto quanto a idolatria, a imoralidade e o derramamento de sangue juntos.

O gesto, portanto, era interno. Um judeu explicando a ruína de Jerusalém pelos pecados de Jerusalém fazia o que os profetas tinham feito antes dele. O que mudou o sentido do versículo não foi a forma da frase, mas quem passou a repeti-la: quando os leitores deixaram de ser judeus que discutiam com judeus e passaram a ser uma igreja de gentios falando dos judeus de fora.

O que a recepção cristã fez com a frase

No século II, a disputa de família virou tese. A Epístola de Barnabé (carta cristã anônima, escrita por volta de 130) adverte os leitores a não dizerem que "a aliança é deles e nossa": é nossa, diz o autor, e eles a perderam para sempre (Barnabé 4:6-8). Justino, filósofo cristão de Roma, escreve no seu Diálogo com Trifão (debate com um judeu, por volta de 155) que os cristãos são "a verdadeira raça israelita, a espiritual" (Diálogo 11). E Melitão, bispo de Sardes, no sermão Sobre a Páscoa (por volta de 170), acusa Israel de ter matado o próprio Deus (Sobre a Páscoa 96), a primeira formulação conhecida da acusação de deicídio.

Agostinho deu à tese a forma que dominou a Idade Média. Na Cidade de Deus (XVIII.46), ele explica que os judeus foram dispersos pelo mundo para servir de testemunhas das Escrituras que os cristãos citavam, e aplica a eles o Salmo 59:11, "não os mates". A doutrina protegeu vidas judaicas e, ao mesmo tempo, fixou-as no papel de povo que perdeu o Reino e permanece como prova.

A arte traduziu isso em pedra. Na catedral de Estrasburgo, por volta de 1230, duas estátuas femininas ladeiam o portal sul: a Ecclesia ("Igreja", em latim), coroada, com o cálice e a cruz; e a Synagoga ("Sinagoga"), de olhos vendados, com a lança quebrada e as tábuas da Lei escorregando da mão. É Mateus 21:43 em escultura: um Reino tirado de uma e dado à outra.

Depois de 1945

A revisão começou com a Shoá, o extermínio dos judeus da Europa. Em 1947, numa conferência em Seelisberg, na Suíça, cristãos e judeus redigiram dez pontos para o ensino cristão. O nono pedia evitar "a noção supersticiosa de que o povo judeu é reprovado, amaldiçoado". Entre os participantes estava o historiador francês Jules Isaac, cuja mulher e filha tinham morrido em Auschwitz, e que publicou em 1948 Jesus e Israel. Em 1960 foi recebido pelo papa João XXIII, audiência que está na origem do documento conciliar seguinte.

Esse documento é a declaração Nostra Aetate ("No nosso tempo", do Concílio Vaticano II, 1965). O parágrafo 4 diz: "Ainda que a Igreja seja o novo Povo de Deus, nem por isso os judeus devem ser apresentados como reprovados por Deus e malditos". A frase é honesta sobre o que mudou e o que não mudou: recusa a maldição, mas mantém o "novo Povo". Cinquenta anos depois, a Comissão do Vaticano para as Relações Religiosas com o Judaísmo foi além, no documento Os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis (2015): a teologia da substituição, que opõe uma Igreja dos gentios a uma Sinagoga rejeitada, "está privada dos seus fundamentos" (§17), e "a Igreja não substitui o povo de Deus de Israel" (§23).

Do lado protestante, o sínodo da Igreja Evangélica da Renânia declarou em 1980 que a eleição do povo judeu permanece. Nenhum desses documentos comenta Mateus 21:43 em particular, mas todos desmontam a leitura que fez dele, por mil e oitocentos anos, a sua prova mais citada.

3. Análise Teológica do Versículo

"Portanto eu digo a vocês"

O "portanto" amarra a frase à anterior. Jesus acabou de citar o Salmo 118: a pedra que os construtores rejeitaram virou a pedra angular. O versículo 43 é a conclusão tirada do salmo: se os construtores rejeitaram a pedra, perdem a obra.

Só Mateus tira essa conclusão; em Marcos 12:12 e Lucas 20:19 a cena passa direto à reação dos chefes. O vocabulário do versículo é o de Mateus: "produzir frutos" é expressão dele, desde João Batista (Mateus 3:8, 3:10) até o Sermão do Monte (Mateus 7:17-19). Por isso muitos estudiosos pensam que a frase é formulação do próprio evangelista, que resume em linguagem direta o que a parábola dizia em imagem. É hipótese plausível, e não demonstrável; a alternativa é que Mateus conservou um dito que os outros dois omitiram.

"que o Reino de Deus"

Mateus quase sempre diz "Reino dos céus". Aqui diz "Reino de Deus", uma das poucas vezes no livro, e a segunda neste capítulo (a outra está em Mateus 21:31, também dirigida aos chefes).

O Reino aparece como algo que se pode ter nas mãos e perder, como uma vinha arrendada. Não é o governo de Deus sobre o mundo, que ninguém pode tirar de ninguém. É uma posição de responsabilidade dentro desse governo: o encargo de cuidar e de entregar o fruto. Que o dono da parábola nunca perde a vinha, só troca de arrendatários, é o argumento desenvolvido no estudo de Mateus 21:41.

"será tirado de vocês"

A pergunta decisiva é a quem o "vocês" se dirige. Há três respostas na história da leitura.

Primeira leitura: o "vocês" é Israel inteiro. É a leitura dominante desde o século II, e os comentários do século XIX ainda a repetem. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) escreve que os judeus tinham sido os "filhos do Reino" e perderiam esse privilégio. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) fala do "povo peculiar" de Deus, cujos privilégios seriam retirados. A favor dela está o movimento do evangelho, que vai de "os filhos do reino" lançados fora (Mateus 8:11-12) a "todo o povo" assumindo o sangue de Jesus (Mateus 27:25).

Segunda leitura: o "vocês" são os chefes que estão diante de Jesus. Os interlocutores do debate são "os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo" (Mateus 21:23), e dois versículos adiante o texto diz que eles "entenderam que era deles que ele falava" (Mateus 21:45). E as multidões, que são o povo, estão do lado de Jesus até o fim do capítulo.

Terceira leitura: o "vocês" começa nos chefes e se alarga. É a leitura de quem acompanha o arco do livro. Na parábola seguinte, quem é castigado é a "cidade" (Mateus 22:7); no capítulo 23, o lamento é sobre "Jerusalém" e a "casa" que ficará deserta (Mateus 23:37-38); e no julgamento, a multidão que protegia Jesus passa a pedir a sua morte. Mateus não para nos chefes, mas também não diz, aqui, "Israel".

O texto não permite decidir com certeza, e cada leitura tem apoio real. O que se pode afirmar é o que a frase diz e o que ela não diz. Diz que algo será tirado de quem ouvia. Não diz que será tirado para sempre, não nomeia Israel e não emprega nenhuma palavra de maldição.

O verbo está no futuro e na passiva, com Deus como agente implícito: a frase anuncia o que Deus fará e não entrega a nenhum ouvinte, nem aos cristãos que viriam depois, a tarefa de executá-lo.

"e será dado a um povo"

Quem é esse povo? Também aqui há três respostas.

Primeira leitura: os gentios. É a do Expositor's Greek Testament ("Testamento Grego do Expositor", comentário inglês do início do século XX), que vê no versículo "claramente o mundo pagão". Contra ela pesa a gramática. Quando Mateus fala dos gentios, usa a palavra no plural, "as nações" (item 10). Aqui ela está no singular: "um povo". Mateus não escreveu "será dado às nações", que seria a forma natural se quisesse dizer isso.

Segunda leitura: a Igreja, formada de judeus e gentios. É a leitura de Meyer (Heinrich Meyer, comentarista alemão do século XIX), para quem o povo novo será composto "de judeus e gentios", e a de boa parte dos estudiosos do século XX. O britânico Graham Stanton tirou deste versículo o título do seu livro de 1992, Um evangelho para um povo novo. Nessa leitura, o "povo" não é étnico: é definido pelo que faz.

Terceira leitura: uma nova liderança dentro de Israel. Anthony Saldarini (estudioso norte-americano do judaísmo antigo), no livro A comunidade cristã-judaica de Mateus (1994), sustenta que Mateus escreve de dentro do judaísmo, para judeus, disputando com a liderança das sinagogas, e não anunciando a troca de Israel pela Igreja. O "povo" seria o grupo de Mateus, apresentado como quem deve conduzir Israel no lugar dos chefes que falharam. A favor está Mateus 19:28, em que os doze se assentam em tronos para julgar "as doze tribos de Israel": a promessa é governar Israel, não substituí-lo. E está o precedente de Saul, cujo reino passa "a um próximo seu", outro israelita (1 Samuel 15:28). Contra essa leitura pesa a força da palavra "povo", que é muito para designar um partido, e o fim do evangelho, que manda fazer discípulos "de todas as nações" (Mateus 28:19).

Não há consenso, e o debate continua aberto entre especialistas.

"que produza os seus frutos"

O critério é o fazer. O povo que recebe o Reino não é definido por origem, por linhagem ou por instituição, mas por produzir fruto, e no presente: o povo que "produza", contínua e habitualmente. A figueira sem fruto (Mateus 21:19) e os lavradores que retêm a colheita (Mateus 21:34-35) já tinham preparado o leitor para esse critério.

E "os seus frutos" são os frutos do Reino, não do povo. No grego, o possessivo é feminino e concorda com "Reino", que em grego é feminino.

Daí vem a consequência que a leitura da substituição esqueceu. Se o Reino é dado a quem produz fruto, ele é dado sob a mesma condição sob a qual foi tirado. O novo povo não o recebe em propriedade. Mateus insiste nisso: a árvore que não dá fruto "é cortada e lançada ao fogo" (Mateus 7:19); o joio cresce dentro do campo do Reino (Mateus 13:41); o convidado sem a roupa de festa é expulso do banquete (Mateus 22:11-13). A frase que serviu para os cristãos falarem dos judeus é, pela sua própria lógica, uma advertência a quem a repete.

A teologia da substituição e a crítica a ela

"Teologia da substituição" é o nome dado, sobretudo depois de 1945, à ideia de que a Igreja tomou o lugar de Israel como povo de Deus, e de que Israel, depois de rejeitar Jesus, deixou de ter papel na história da salvação. O teólogo norte-americano R. Kendall Soulen, em O Deus de Israel e a teologia cristã (1996), distingue a forma punitiva (Israel substituído como castigo por rejeitar o Messias) da forma que chama de econômica (Israel teve função preparatória, retirada como andaime quando o prédio fica pronto).

Mateus 21:43 foi o texto-base da forma punitiva. Diante dele, os leitores modernos tomaram três posições. A primeira mantém a leitura antiga, às vezes suavizada: Israel perdeu o Reino, mas pode recuperá-lo pela conversão. A segunda estreita o alcance pela exegese, como Saldarini: o problema estaria na leitura, não no texto.

A terceira é a do suíço Ulrich Luz, autor do maior comentário sobre Mateus do fim do século XX. Ele admite que Mateus conta, sim, a história de uma ruptura com Israel e de um juízo sobre ele, e que forçar o texto a dizer outra coisa seria desonesto. Mas sustenta que, por isso mesmo, o leitor cristão precisa julgar teologicamente o que Mateus diz, à luz do amor que o próprio Mateus manda praticar (Mateus 5:44), e recusar a parte que serviu à desumanização dos judeus.

O versículo, sozinho, não decide entre as três. O que ele não sustenta, em nenhuma delas, é a leitura que dominou por séculos: a de um povo amaldiçoado para sempre e de outro que possui o Reino sem condição.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os interlocutores — os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo, que tinham interrogado Jesus sobre a sua autoridade (Mateus 21:23). Dois versículos adiante, o texto acrescenta os fariseus (Mateus 21:45). São eles o "vocês" mais imediato da frase.

O "povo" — personagem sem nome nem rosto. A identidade foi disputada desde o século II: os gentios, a Igreja de judeus e gentios, ou a comunidade de Mateus como nova liderança de Israel (item 3). Mateus não o identifica.

O Reino de Deus — aqui, não o governo de Deus sobre o universo, mas o encargo confiado dentro dele, comparado à vinha arrendada da parábola.

O lugar — o pátio do templo de Jerusalém, onde Jesus ensinava desde Mateus 21:23. O debate começou com uma pergunta sobre autoridade e termina com a autoridade sendo transferida.

A sequência de parábolas — este versículo fecha a segunda de três parábolas seguidas sobre quem responde ao chamado de Deus: os dois filhos (Mateus 21:28-32), os lavradores maus (Mateus 21:33-44) e o banquete de casamento (Mateus 22:1-14). As três terminam com alguém de fora entrando no lugar de quem estava dentro.

5. Pontos de Ensino

1. O Reino é confiado, não possuído. Quem recebe o Reino recebe um encargo e responde por ele; não adquire um bem.

2. O critério é o fruto. O povo que recebe o Reino é definido pelo que produz, não por origem, sangue ou instituição. A mesma régua serve para os antigos e para os novos arrendatários.

3. O texto não diz "Israel" nem diz "para sempre". Quem o lê como rejeição definitiva do povo judeu acrescenta duas palavras que Mateus não escreveu.

4. A frase só existe em Mateus. Ela pertence ao evangelho mais judaico dos quatro, escrito em meio a uma disputa de família, e é nessa disputa que precisa ser lida antes de qualquer aplicação posterior.

5. A história da leitura faz parte do texto que chega até você. Este versículo serviu de prova para a ideia de que os judeus foram rejeitados, e essa ideia teve consequências. Conhecer essa história é condição para ler a frase com honestidade.

6. Aspectos Filosóficos

Pode um povo ser um mistério?

A frase de Mateus pressupõe que um povo pode ter uma vocação, perdê-la e outro recebê-la. Isso levanta uma questão que a filosofia política costuma evitar: um povo é só a soma dos indivíduos que o formam, ou pode ser sujeito de uma história e de um chamado? E, se pode, o que acontece com ele quando outro grupo reivindica o seu lugar?

Jacques Maritain e "o mistério de Israel"

Jacques Maritain (1882-1973), filósofo católico francês, o principal renovador do pensamento de Tomás de Aquino no século XX, enfrentou essa pergunta em 1937, num ensaio que se chamou primeiro O impossível antissemitismo e depois O mistério de Israel. As leis raciais da Alemanha tinham dois anos. A mulher de Maritain, a poeta Raïssa, era judia de nascimento.

A tese central é que Israel não pode ser explicado nem como raça, nem como nação política, nem como religião no sentido sociológico. "Israel é um mistério", escreve Maritain, "da mesma ordem que o mistério do mundo ou o mistério da Igreja". Ele chega a falar de Israel como um "corpo místico" à parte, unido não pela posse de uma terra ou de um Estado, mas por um vínculo de promessa.

O apoio é Paulo: "os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis" (Romanos 11:29). Se o chamado de Israel não foi revogado, Israel continua a ter uma vocação na história, mesmo sem ter reconhecido Jesus. Maritain a descreve como a de um fermento: um corpo estranho misturado à massa do mundo, que não deixa o mundo se acomodar, que o irrita e o põe em movimento, e que por isso mesmo sofre a reação que provoca.

Daí a conclusão que dá título ao primeiro ensaio: para um cristão, o antissemitismo é impossível. Odiar Israel é odiar a raiz de onde veio o próprio Cristo.

O que isso ilumina em Mateus 21:43

Maritain não escreve sobre este versículo. Mas o seu ensaio é uma resposta direta à leitura que se fez dele. A leitura da substituição trata o povo como uma função: Israel ocupava um cargo, foi demitido e outro foi nomeado. Maritain recusa essa lógica de cargo. Para ele, uma vocação dada por Deus não é um posto administrativo que se transfere: é constitutiva de quem a recebe. Israel pode falhar nela, mas não deixa de ser aquele a quem ela foi dada.

Isso permite ler o versículo de outro modo. O que é "tirado" pode ser um encargo determinado, uma liderança, uma posição no drama, e não a identidade de povo chamado. A distinção é filosófica antes de ser exegética: é a diferença entre o que alguém faz e o que alguém é.

Os limites de Maritain

O ensaio de 1937 não rompe com tudo. Maritain mantém a linguagem paulina do "tropeço" de Israel e espera, como Paulo, a sua conversão no fim da história. Escritores judeus apontaram, depois, que chamar um povo de "mistério" pode ser outra forma de não o deixar ser apenas um povo, com a sua própria leitura da própria história.

Mas o deslocamento que ele produziu foi real. Entre a Synagoga vendada de Estrasburgo e o "vínculo de promessa" de Maritain, a pergunta mudou: deixou de ser "quem ficou com o Reino?" e passou a ser "pode Deus desfazer o que chamou?". Mateus 21:43, sozinho, não responde a essa segunda pergunta. Paulo, em Romanos 11, responde que não.

7. Aplicações Práticas

Ler uma frase com a sua história. Este versículo chega a você carregado: foi esculpido em catedrais, pregado em sextas-feiras santas e citado para justificar o desprezo. Ler a frase sem saber disso é ler pela metade. Quem ensina este texto numa igreja ou numa sala de aula tem a obrigação de dizer o que ele não diz, e o que foi feito com ele.

Aplicar a régua a si mesmo. O critério do versículo é o fruto, e ele vale para quem recebe o Reino depois. A aplicação honesta não aponta para fora. Pergunta, de dentro de qualquer comunidade religiosa, se o que ela produz é o que o Reino exige, ou se ela se apoia na posse de um nome, de uma tradição ou de uma instituição, exatamente como os arrendatários da parábola.

Não usar o texto como arma. A passiva divina tira de qualquer leitor o papel de executor. Em termos práticos: este versículo não autoriza ninguém a tratar outro grupo, religioso ou não, como deserdado por Deus.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jesus disse esta frase, ou ela é de Mateus?

Não é possível provar nem uma coisa nem outra. O vocabulário é típico de Mateus, e Marcos e Lucas não a têm, o que leva muitos estudiosos a considerá-la formulação do evangelista. Mas o conteúdo já está na parábola, que os três registram: a vinha passa a outros lavradores. Mateus, no mínimo, tornou explícito o que a parábola dizia em imagem.

Se o Reino foi tirado, pode ser devolvido?

Mateus não trata disso. Paulo, sim, e em sentido positivo: em Romanos 11, ele fala de ramos cortados que podem ser enxertados de novo e de um "endurecimento parcial" de Israel que durará até certo ponto, e conclui que "todo Israel será salvo" (Romanos 11:26). Se Mateus concordaria com Paulo é questão em aberto; os dois escrevem de situações diferentes.

Por que a crítica à teologia da substituição veio tão tarde?

Houve vozes antes, mas isoladas. A revisão institucional exigiu o choque da Shoá e a constatação, feita por historiadores como Jules Isaac, de que séculos de ensino cristão sobre os judeus tinham preparado o terreno do antissemitismo moderno, ainda que este tivesse outras raízes. A teologia só mudou depois que a história mostrou o custo.

Um judeu pode ler este versículo sem se sentir acusado?

O versículo foi usado como acusação, e é compreensível que soe assim. Lido no seu contexto, é uma frase de um judeu, dirigida a dirigentes judeus, num debate dentro do templo, sobre quem cumpre a vontade de Deus. Esse tipo de crítica interna é o mesmo que os profetas de Israel faziam. A leitura que fez dela uma sentença contra um povo inteiro veio de fora, e depois.

9. Conexão com Outros Textos

O reino tirado de um e dado a outro, dentro de Israel

1 Samuel 15:28 — "Samuel lhe disse: 'O SENHOR arrancou de você hoje o reino de Israel e o deu a um próximo seu, melhor do que você.'"

A fórmula mais próxima de Mateus 21:43 no Antigo Testamento. O reino é tirado de um dirigente, Saul, e dado a outro israelita. O povo não é trocado; o encarregado é.

O Reino dado a um povo

Daniel 7:27 — "O reino, o domínio e a grandeza dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo."

A mesma estrutura de Mateus, com o verbo "dar" e um "povo" como destinatário. Em Daniel, esse povo é Israel fiel.

Êxodo 19:6 — "Vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa."

Israel chamado de "nação" no singular, com a mesma palavra grega que Mateus usa para o "povo" que recebe o Reino.

1 Pedro 2:9 — "Mas vocês são raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo que pertence a Deus."

O título de Êxodo 19:6 aplicado aos cristãos: o texto mais próximo da leitura que vê no "povo" a Igreja.

O critério do fruto em Mateus

Mateus 3:8-9 — "Produzam, pois, frutos dignos de arrependimento. E não pensem em dizer a vocês mesmos: 'Temos Abraão por pai.' Porque eu digo a vocês que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão."

João Batista já recusa a origem como garantia, com o mesmo verbo "produzir" e a mesma palavra "frutos".

Mateus 8:11-12 — "E eu lhes digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e se sentarão à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos céus; mas os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes."

Os dirigentes novos de Israel

Mateus 19:28 — "Jesus lhes disse: 'Em verdade digo a vocês que, na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, vocês que me seguiram também se assentarão em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel.'"

A base da leitura que vê no "povo" uma liderança nova para Israel, e não um substituto de Israel.

O alcance universal

Mateus 28:19 — "Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo."

Aqui "nações" está no plural e significa os povos do mundo. O contraste com o singular de Mateus 21:43 é parte do debate.

A advertência de Paulo ao ramo enxertado

Romanos 11:20-21 — "Eles foram cortados por causa da incredulidade, e você está firme pela fé. Não se orgulhe, mas tema. Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, também não poupará você."

A mesma lógica do fruto aplicada ao cristão de origem gentia: quem recebe não recebe em propriedade.

Romanos 11:29 — "Porque os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis."

O versículo que dá título ao documento católico de 2015 e que sustenta o ensaio de Maritain.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Portanto eu digo a vocês que o Reino de Deus será tirado de vocês e será dado a um povo que produza os seus frutos.

Texto grego (Textus Receptus)

διὰ τοῦτο λέγω ὑμῖν ὅτι ἀρθήσεται ἀφ᾿ ὑμῶν ἡ βασιλεία τοῦ Θεοῦ, καὶ δοθήσεται ἔθνει ποιοῦντι τοὺς καρποὺς αὐτῆς.

Transliteração

dia touto legō hymin hoti arthēsetai aph' hymōn hē basileia tou Theou, kai dothēsetai ethnei poiounti tous karpous autēs.

Uma nota sobre o texto

Aqui não há divergência entre o Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) e as edições críticas modernas: Scrivener, Stephanus, Westcott e Hort, Nestle e a edição bizantina trazem as mesmas palavras. Conferido no Bible Hub (textos paralelos) e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.

Análise palavra por palavra

διὰ τοῦτο — dia touto, "por isso, portanto". Literalmente, "por causa disto". Aponta para trás: a conclusão é tirada da citação do Salmo 118 no versículo anterior.

λέγω ὑμῖν — legō hymin, "eu digo a vocês". Presente de legō, "dizer". O hymin, "a vocês", é plural.

ὅτι — hoti, "que". Introduz o conteúdo do que é dito.

ἀρθήσεται — arthēsetai, "será tirado". Futuro passivo de airō, "levantar, carregar, tirar". O verbo cobre desde erguer uma carga até remover algo do lugar. Aqui, na passiva, sem agente nomeado: quem tira fica implícito, e na linguagem dos evangelhos o agente implícito de uma passiva assim é Deus.

ἀφ᾿ ὑμῶν — aph' hymōn, "de vocês". A preposição apo, "de, a partir de", indica separação: o Reino é removido de junto deles.

ἡ βασιλεία τοῦ Θεοῦ — hē basileia tou Theou, "o Reino de Deus". Basileia é tanto o território de um rei quanto o exercício do seu governo. A forma "de Deus", em vez da habitual "dos céus", é rara em Mateus; a alternância entre as duas é tratada no estudo de Mateus 19:24.

καὶ δοθήσεται — kai dothēsetai, "e será dado". Futuro passivo de didōmi, "dar". O mesmo padrão do verbo anterior: futuro, passiva, sem agente. Os dois verbos formam um par simétrico, "será tirado... será dado", e o sujeito dos dois é o mesmo: o Reino.

ἔθνει — ethnei, "a um povo". Dativo singular de ethnos, sem artigo: "a um povo", não "ao povo". É a palavra mais disputada do versículo.

Ethnos designa, no grego comum, um grupo humano que vive junto e tem costumes próprios: um povo, uma nação, às vezes uma classe ou uma corporação. Na Bíblia grega, o plural ta ethnē traduz o hebraico goyim, "as nações", e passa a significar os povos que não são Israel: os gentios. Mas o singular pode designar o próprio Israel. Em Êxodo 19:6, na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento feita antes de Cristo), Israel é ethnos hagion, "nação santa".

Em Mateus, a distribuição é nítida. O plural aparece doze vezes e significa, quase sempre, os gentios: "a Galileia dos gentios" (Mateus 4:15), "os gentios buscam todas essas coisas" (Mateus 6:32), "não vão pelo caminho dos gentios" (Mateus 10:5), "os governantes dos gentios" (Mateus 20:25), "todas as nações" (Mateus 24:14, 25:32, 28:19). O singular aparece só em dois versículos: aqui e em Mateus 24:7, "nação contra nação". Esse dado é o argumento gramatical contra a leitura "o Reino será dado aos gentios": para dizer isso, Mateus tinha o plural à mão e não o usou.

ποιοῦντι — poiounti, "que produza". Particípio presente ativo de poieō, "fazer, produzir", no dativo singular, concordando com ethnei. O presente descreve ação contínua: um povo que está produzindo, que tem como marca o produzir. Poieō karpon, "fazer fruto", é expressão hebraica vertida para o grego e é cara a Mateus: aparece em Mateus 3:8 e 3:10, 7:17-19, 13:26 e aqui.

τοὺς καρποὺς αὐτῆς — tous karpous autēs, "os frutos dele". Karpos é "fruto", da árvore ou da terra, e por extensão o resultado de uma ação. O artigo tous faz deles frutos determinados: os que são esperados.

Autēs é pronome feminino singular, "dela". O único substantivo feminino singular por perto é basileia, "reino". Não pode se referir ao "povo", que em grego é neutro, nem à vinha da parábola, que em grego é masculina. São os frutos do Reino. A ABC traduz "os seus frutos", o que é correto, mas em português o possessivo pode ser lido como "os frutos do povo"; o grego não deixa essa dúvida.

11. Conclusão

Com base no que foi visto, o versículo leva a quatro conclusões.

A primeira: o que está em jogo é um encargo, não uma propriedade. O Reino é confiado e cobrado. Nenhum grupo, antigo ou novo, o recebe como bem de família.

A segunda: a frase não carrega, por si, a teologia que se construiu sobre ela. Ela não nomeia Israel, não diz "para sempre", não fala de maldição e usa um singular onde a leitura "aos gentios" exigiria o plural. A substituição de um povo por outro é uma das leituras possíveis do versículo, não o que ele afirma. Mas ela tem apoio no arco do evangelho, e por isso a crítica honesta não pode se limitar a corrigir a exegese.

A terceira: o critério que tira o Reino é o mesmo que o mantém. Quem recebe o Reino porque produz fruto pode perdê-lo pela mesma razão. Daí se conclui que o versículo, lido até o fim, se volta contra o uso triunfal que se fez dele: a frase que a Igreja repetiu sobre os judeus é, pela sua lógica interna, um aviso à própria Igreja.

A quarta: depois do que este versículo fez na história, lê-lo sem a sua recepção é impossível. Daí se conclui que o estudo honesto de Mateus 21:43 inclui duas tarefas que não se excluem: entender o que o texto disse no seu tempo, dentro de uma disputa entre judeus, e reconhecer o que ele passou a dizer depois, quando saiu dessa disputa e virou sentença contra um povo inteiro.

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Mateus 21:43

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