Disse-lhes Jesus: “Vocês nunca leram nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo SENHOR, e é maravilhoso aos nossos olhos’?
1. Introdução
Os ouvintes acabam de sentenciar os lavradores, e Jesus não comenta a sentença: cita um salmo. É o Salmo 118:22-23, palavra por palavra na tradução grega, e com ele a imagem muda de repente da vinha para uma construção. A pedra que os construtores jogaram fora foi parar no lugar mais importante do edifício — mas que lugar é esse, a pedra de esquina que sustenta a base ou a pedra que fecha o alto, é uma discussão antiga, que o hebraico e o grego não resolvem sozinhos. A segunda metade do verso atribui a reviravolta a Deus, e chama de maravilha o que os construtores trataram como refugo. Quem eram os construtores no salmo, e quem passam a ser na boca de Jesus, é a outra pergunta do versículo.
2. Contexto Histórico e Cultural
Escolher e recusar pedras
Numa construção de pedra, nem toda pedra serve para qualquer lugar. Os blocos eram examinados, medidos e separados: uns iam para a base, outros para as paredes, os melhores para as esquinas; os que tinham defeito ficavam de lado. O livro dos Reis descreve como as pedras do templo de Salomão foram preparadas na pedreira: “pedras grandes e valiosas, para assentar os fundamentos do templo com pedras lavradas” (1 Reis 5:17), trabalhadas de tal modo que no canteiro “não se ouviu martelo, nem machado, nem ferramenta de ferro” (1 Reis 6:7). A escolha e a recusa aconteciam antes, no exame de cada bloco.
É dessa prática que vem a imagem do salmo. Os construtores olharam uma pedra, julgaram-na imprópria e a puseram de lado. Rejeitar, aqui, não é desprezo emocional: é veredito técnico de quem entende de construção.
A pedra da esquina
Num muro de blocos assentados, a esquina é o ponto mais exigido. É ali que duas paredes se encontram e se amarram uma à outra. As pedras de esquina eram as maiores e as mais bem talhadas, porque seguravam as duas faces ao mesmo tempo e ficavam à vista dos dois lados. Um comentário judaico medieval aos Salmos, a Metsudat David (“Fortaleza de Davi”, obra do século XVIII de David Altschuler e do filho), explica o verso exatamente assim: o costume era pôr a pedra mais bela na esquina do muro, para que fosse vista dos dois lados.
Duas cerimônias: a pedra da base e a pedra do alto
A Bíblia registra festas em dois momentos da construção do segundo templo, e elas correspondem às duas leituras do versículo.
A primeira é a do lançamento dos fundamentos. Em Esdras 3:10-11, quando os construtores assentam a base do templo, os sacerdotes tocam trombetas, os levitas tocam címbalos, e o povo canta em coro a fórmula que abre e fecha o Salmo 118: “porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre”.
A segunda é a da conclusão. Em Zacarias 4:7, o profeta anuncia que o governador Zorobabel “trará a pedra de remate” entre aclamações: “Graça, graça a ela!”. A expressão hebraica é ha-even ha-roshah (“a pedra da cabeça”, a pedra do topo), da mesma palavra “cabeça” que aparece no salmo. É a última pedra, a que marca a obra terminada.
Uma pedra lançada no começo, sob a qual tudo se apoia; uma pedra posta no fim, que completa tudo. O versículo pode estar falando de qualquer uma das duas.
A lenda da pedra que ninguém conseguia erguer
Um texto antigo conta uma história sobre a pedra do salmo. O Testamento de Salomão (obra em grego, de data muito discutida, entre os séculos I e V, que circulou com acréscimos cristãos) narra que, quando o templo estava quase pronto, havia uma pedra enorme, escolhida para ficar “na cabeça da esquina” da obra terminada. Nem os operários nem os demônios que, segundo a lenda, trabalhavam para Salomão conseguiam movê-la. Um demônio da Arábia, aprisionado num odre, a ergue e a põe no alto da entrada do templo. Salomão, vendo a pedra levantada, diz: “Cumpriu-se a Escritura: a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina” (Testamento de Salomão 22:7-23:4).
A lenda é tardia e fantasiosa, mas guarda um dado: para quem a escreveu, a “cabeça da esquina” ficava no alto, sobre a entrada, e era a última a ser posta. É sobre esse texto que se apoiou a leitura moderna da pedra como remate, exposta no item 3.
3. Análise Teológica do Versículo
“Disse-lhes Jesus”
Os ouvintes acabaram de dar a sentença sobre os lavradores. Jesus não diz se concorda, não diz “vocês julgaram bem”, não revela ainda que eles são os lavradores. Passa da história para um texto. A resposta deles fica no ar, e o salmo vem ocupar o lugar do comentário.
A passagem tem uma razão de ser. A parábola terminou com o filho morto e o dono a caminho. Uma história de vinha não tem como dizer o que acontece com o filho depois da morte. O salmo diz: o rejeitado não fica no chão.
“Vocês nunca leram nas Escrituras”
A pergunta é a mesma que Jesus fez aos mesmos chefes dos sacerdotes, na véspera, a propósito do Salmo 8 (Mateus 21:16). Agora ela vem com um acréscimo: “nas Escrituras”. É a primeira vez que a palavra aparece no plural em Mateus, e ela designa o conjunto dos livros sagrados. Ela vai voltar três vezes no evangelho (Mateus 22:29; 26:54; 26:56), sempre ligada à morte ou à ressurreição de Jesus.
E o texto que eles “nunca leram” era um que conheciam de cor. O Salmo 118 era cantado nas festas, e a multidão o havia gritado na estrada na véspera. A pergunta não acusa ignorância do texto; acusa nunca o terem lido de verdade — a fórmula, com o hábito de Mateus de apontá-la contra especialistas, tem o seu estudo em Mateus 19:4.
“A pedra que os construtores rejeitaram”
Num instante a vinha some e aparece uma obra de pedra. Os lavradores viram construtores; o filho vira pedra. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) resume: a imagem mudou, o assunto é o mesmo.
Há uma hipótese que tornaria a passagem menos brusca. Em hebraico, “filho” é ben e “pedra” é even; as duas palavras soam quase iguais. Vários estudiosos modernos supõem que, num ambiente de língua hebraica ou aramaica, a ligação entre o filho rejeitado da parábola e a pedra rejeitada do salmo se fazia pelo som. A hipótese é plausível e não demonstrável: Mateus escreve em grego, onde o jogo não existe.
Quem eram os construtores no salmo? O Salmo 118 é o canto de alguém que esteve cercado, “empurrado para cair”, e foi salvo (Salmo 118:10-13). Os comentaristas judeus medievais leram o verso de dois modos. Rashi (comentarista francês do século XI) entende que a pedra é Israel, “um povo que era humilde entre os povos”: os construtores são as nações, que desprezaram Israel. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII) propõe que se fale de Davi, desprezado pelas nações e vencedor no fim, ou, em sentido profético, de Israel no exílio. Radak (David Kimchi, da Provença, por volta de 1200) também lê Israel: os reis da terra não queriam Israel nem como uma das pedras do edifício, e no tempo da salvação ele será a pedra da esquina.
Na boca de Jesus, a direção se inverte. Os construtores já não são as nações estrangeiras; são os responsáveis pela casa de Israel, os que ouvem a parábola. A pedra já não é o povo; é o filho. Os Atos dos Apóstolos tornam isso explícito quando Pedro, diante do mesmo conselho, diz: “ele é a pedra que vocês, os construtores, desprezaram” (Atos 4:11). A inversão tem consequências que pesaram na história: o verso que, na leitura judaica, consolava Israel rejeitado pelas nações passou a ser usado, na leitura cristã, como acusação a Israel.
“tornou-se a pedra angular”
O hebraico diz rosh pinnah, literalmente “cabeça da esquina”; a tradução grega, que Mateus copia, diz exatamente isso. A ABC traduz “pedra angular”, como a maioria das versões. O problema é saber onde fica a “cabeça” de uma esquina. Há duas leituras, e a discussão está viva.
Primeira leitura: é a pedra de esquina da base, a primeira assentada, que amarra duas paredes e determina o alinhamento de tudo. É a leitura tradicional e a dos comentaristas judeus medievais, como Radak e a Metsudat David. Ela tem a favor dois textos que usam a mesma palavra “esquina” em contexto de fundação: Isaías 28:16, onde Deus põe em Sião “uma pedra provada, pedra de esquina preciosa, de fundamento firme”, e Jó 38:6, que pergunta quem assentou “a pedra de esquina” da terra. Jeremias 51:26, ao ameaçar a Babilônia, distingue “pedra para esquina” e “pedra para fundamentos”, mas as põe lado a lado, como partes da mesma base. O estudioso britânico R. J. McKelvey defendeu essa leitura num artigo de 1962 na revista New Testament Studies (“Estudos do Novo Testamento”), contra a seguinte.
Segunda leitura: é a pedra que fecha a construção no alto — a pedra de remate de uma esquina, ou a pedra que trava um arco ou encima uma porta. Foi o alemão Joachim Jeremias (estudioso do Novo Testamento e do judaísmo antigo, 1900-1979) quem a sustentou, a partir dos anos 1920, apoiado principalmente no Testamento de Salomão, onde a “cabeça da esquina” é erguida ao alto, sobre a entrada do templo (item 2). A favor dela pesa a palavra “cabeça”, que sugere o ponto mais alto, e a semelhança com a “pedra do topo” de Zacarias 4:7. E pesa o desenho do próprio salmo: a pedra recusada não volta apenas para a obra, vai para o lugar mais visível dela.
O que muda de uma leitura para a outra? Na primeira, o rejeitado vira o apoio de tudo: sem ele, nada fica de pé. Na segunda, vira o acabamento: sem ele, a obra fica incompleta. As duas dão ao rejeitado o lugar mais importante, e é isso que o versículo afirma com certeza. A posição exata não é possível decidir pelo texto, e os escritos cristãos antigos parecem ter usado as duas: Efésios 2:20 e 1 Pedro 2:6-7 juntam o Salmo 118 a Isaías 28:16, que fala de fundamento, e Mateus 21:44, dois versículos adiante, fala de uma pedra que cai sobre alguém, o que combina melhor com uma pedra do alto.
Os padres da igreja ainda acrescentaram uma terceira leitura, simbólica. Para Hilário de Poitiers (bispo e teólogo do século IV), a pedra é cabeça da esquina porque une os dois lados, a Lei e os gentios, como uma esquina une duas paredes. A leitura depende da imagem da pedra que amarra, e por isso da primeira; o texto de Mateus não fala de dois povos.
“isto foi feito pelo SENHOR”
O salmo atribui a reviravolta a Deus. Os construtores agiram, e a recusa deles foi real; mas a promoção da pedra não foi obra deles. O verso separa as duas decisões: a dos homens, que recusaram, e a de Deus, que pôs no alto o que foi recusado.
A palavra “SENHOR” está em maiúsculas porque, no hebraico do salmo, é o nome próprio de Deus, as quatro letras que os judeus não pronunciavam. A tradução grega o substitui por “Senhor”, e a ABC marca a origem do nome com as maiúsculas, como faz nas outras citações do Antigo Testamento em Mateus.
O “isto” é, no hebraico, o fato inteiro: não só a pedra, mas a virada da recusa à honra. A tradução grega deixou a palavra num gênero que permite ler também “esta”, a pedra angular (a gramática está no item 10). Nas duas leituras, a obra é de Deus.
“e é maravilhoso aos nossos olhos”
No salmo, “nossos olhos” são os da comunidade que canta e assiste ao resgate. Na boca de Jesus, a frase inclui, gramaticalmente, os próprios ouvintes. É um convite estranho: os construtores são chamados a ver como maravilha a promoção da pedra que eles mesmos recusaram.
E a palavra pesa no capítulo. “Maravilhoso” é da mesma família de “as maravilhas que ele fez”, que tinham deixado indignados os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei (Mateus 21:15). O que o salmo chama de maravilha diante dos olhos, os ouvintes viram e rejeitaram.
Mateus pôs a citação inteira dentro da pergunta: “vocês nunca leram: ‘...é maravilhoso aos nossos olhos’?”. O versículo termina com um ponto de interrogação, e a resposta fica com os ouvintes.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus
Fala no templo, no meio do debate com as autoridades. Ao citar o salmo, aplica a si mesmo, sem dizer o nome, a figura da pedra rejeitada. Mateus não explica a aplicação; os ouvintes a entendem no versículo 45.
Os ouvintes
Os chefes dos sacerdotes e os anciãos, que acabaram de pronunciar a sentença sobre os lavradores, e os fariseus, que Mateus menciona no versículo 45. São eles os “construtores” que o versículo deixa implícitos: os responsáveis pela casa, pelo templo e pela interpretação da Lei.
O salmista
O Salmo 118 não traz título nem autor. É o último do grupo de salmos de louvor cantados nas festas (os Salmos 113 a 118). Fala em primeira pessoa de alguém que foi cercado por inimigos, quase caiu e foi salvo, e que entra pelas portas do templo para agradecer. Quem é esse “eu” — um rei, o povo personificado, um peregrino — é discutido. Muitos estudiosos datam o salmo do período depois do exílio, e alguns o ligam à reconstrução do templo.
Os construtores
No salmo, figuras sem nome que julgaram a pedra imprópria. Na leitura judaica medieval, as nações que desprezavam Israel. Na aplicação de Jesus, as lideranças de Jerusalém.
5. Pontos de Ensino
1. Quem decide o valor de uma pedra não é quem a recusou
Os construtores eram do ofício e fizeram o exame. O veredito deles foi revisto por quem é dono da obra. O versículo não diz que eles não sabiam construir; diz que o juízo técnico deles não foi o último.
2. A rejeição não é o fim da história
A parábola parou na morte do filho. O salmo continua: o recusado é posto no lugar mais importante. Para Mateus, essa é a forma como a Escritura já contava a morte e a vindicação de Jesus antes que acontecessem.
3. O texto conhecido pode nunca ter sido lido
Os ouvintes cantavam o Salmo 118 todos os anos. A pergunta de Jesus mostra que é possível saber um texto de cor e não perceber o que ele diz sobre a situação presente.
4. A obra é de Deus, e a admiração também
O salmo não pede que se explique a reviravolta, pede que se veja: “é maravilhoso aos nossos olhos”. Há coisas que o texto bíblico apresenta como objeto de espanto, não de demonstração.
5. O mesmo verso pode consolar e acusar
Na leitura judaica, o verso fala de Israel rejeitado pelas nações e exaltado por Deus. Na aplicação de Jesus, fala do rejeitado pelos líderes de Israel. A mesma imagem serve aos dois, e quem a usa precisa lembrar que ela tem um primeiro sentido, anterior ao seu.
6. Aspectos Filosóficos
Um texto, mais de um sentido
O Salmo 118 foi escrito séculos antes de Jesus, por alguém que falava de uma pedra, de um resgate e de uma festa no templo. Jesus o cita como se falasse dele. A pergunta filosófica é antiga e não se limita à Bíblia: um texto pode significar mais do que o seu autor quis dizer? E, se pode, quem controla esse “mais”?
Quem dedicou a vida a essa pergunta, do lado cristão, foi o jesuíta francês Henri de Lubac (1896-1991), teólogo, historiador da interpretação bíblica e, no fim da vida, cardeal.
Os quatro sentidos
Na obra Exegese medieval: os quatro sentidos da Escritura (quatro volumes, 1959-1964), de Lubac reconstituiu a forma como os cristãos leram a Bíblia durante mais de mil anos. Ele partiu de um verso em latim que os estudantes medievais decoravam, atribuído ao dominicano Agostinho de Dácia (século XIII): “a letra ensina o que aconteceu; a alegoria, o que você deve crer; a moral, o que você deve fazer; a anagogia, para onde você deve tender”.
Aplicado à pedra do salmo, o esquema dá quatro camadas. A letra: um bloco recusado pelos pedreiros e posto na esquina, imagem de um homem ou de um povo resgatado. A alegoria: Cristo, rejeitado e exaltado. A moral: o cristão como “pedra viva” do edifício, na imagem de 1 Pedro 2:5. A anagogia: a cidade final, construída sobre fundamentos que não se movem.
De Lubac não defendia essa leitura como um jogo de associações livres. O ponto central do livro é que os quatro sentidos não são quatro camadas independentes, mas um movimento único. A letra é a história real, e não se pode dispensá-la. O sentido espiritual nasce dela, não ao lado dela: é a mesma história, lida a partir do que veio depois.
O que isso explica no versículo
A citação de Jesus é um caso exemplar do que de Lubac chamou de sentido espiritual. O salmo tem uma letra: alguém foi rejeitado e Deus o resgatou. Jesus não apaga essa letra; aplica-a a uma rejeição nova, que está acontecendo diante dos ouvintes. O sentido novo só funciona porque o antigo continua valendo. Se o salmo não falasse de um rejeitado resgatado, a aplicação não diria nada.
O limite que a própria teoria impõe
A tese de de Lubac tem uma consequência que vai além do que ele mesmo explorou neste versículo, e a aplicação é nossa. Se a letra é a base e não pode ser apagada, então o primeiro sentido do Salmo 118 — o de um Israel humilhado e exaltado, como o leram Rashi e Radak — continua de pé quando os cristãos leem o verso a partir de Jesus. A leitura cristã não tem o direito de transformar esse sentido em seu contrário, fazendo do verso que consolava Israel um verso contra Israel. Foi o que aconteceu muitas vezes na história, quando os “construtores” passaram a ser os judeus em geral.
De Lubac conhecia esse risco por experiência. Durante a ocupação alemã da França, participou da resistência cristã ao nazismo e colaborou com os Cadernos do Testemunho Cristão, publicação clandestina que denunciava a perseguição aos judeus. Muitos anos depois, contou essa história num livro de memórias, Resistência cristã ao antissemitismo (1988). Para ele, a fidelidade à interpretação espiritual não era licença para o desprezo; exigia o contrário.
A objeção ao método continua possível, e é séria: quem garante que o sentido espiritual não é só o desejo do intérprete projetado no texto? A resposta de de Lubac era que o critério é a unidade das duas alianças e a história real que as liga — um critério que, para quem não partilha a fé cristã, não tem força. O debate permanece em aberto.
7. Aplicações Práticas
Não tome o seu veredito sobre alguém como o último
Os construtores examinaram e rejeitaram com competência. O versículo lembra que o juízo de quem entende do assunto pode ser revisto. Quando você descarta uma pessoa, uma ideia ou um projeto por um critério técnico, mantenha aberta a possibilidade de estar diante da pedra que vai para a esquina.
Para quem foi descartado
O salmo foi, antes de tudo, o canto de alguém que foi recusado e resgatado. Ele dá linguagem a quem passou por rejeição: o descarte feito por outros não define o lugar final de ninguém.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os judeus do tempo de Jesus liam o Salmo 118 como profecia sobre o Messias?
Não há prova clara disso antes dos evangelhos. A tradição rabínica posterior aplicou partes do salmo a Davi, e alguns comentaristas medievais, segundo Gill, discutiam se ele falava de Davi ou dos dias do Messias. Mas a leitura mais comum entre os comentaristas judeus é a que vê na pedra o povo de Israel. A aplicação messiânica explícita do verso 22 aparece, nos textos que temos, primeiro entre os cristãos.
A citação foi feita por Jesus ou acrescentada depois?
É discutido. Muitos estudiosos notam que, no Evangelho de Tomé, a parábola aparece sem a citação, e o dito da pedra vem logo depois, como dito separado (ver o estudo de Mateus 21:37). Isso sugere a alguns que as duas peças circularam independentes e foram unidas. Outros respondem que a ligação pelo som entre “filho” e “pedra” no hebraico, e a lógica de completar a parábola, explicam bem a união desde o início. Não há consenso.
Os construtores podiam ter acertado?
No salmo, a pergunta não se coloca: a recusa é dada como erro corrigido por Deus. Na cena de Mateus, a questão que os ouvintes enfrentam é exatamente essa — se eles, os especialistas, podem estar errados sobre Jesus. O versículo não discute a competência deles; afirma que o veredito foi revisto.
9. Conexão com Outros Textos
O salmo citado
Salmo 118:22-23 — “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular. Isto foi feito pelo SENHOR, e é maravilhoso aos nossos olhos.”
Mateus o cita sem mudar uma palavra da tradução grega. A liturgia em que o salmo era cantado, e a leitura que o aplicava a Davi, estão no estudo de Mateus 21:9.
Salmo 118:13 — “Fui empurrado com violência para que eu caísse, mas o SENHOR me ajudou.”
O contexto do salmo: alguém quase derrubado e resgatado. A pedra rejeitada é a mesma pessoa.
As outras pedras de esquina
Isaías 28:16 — “Por isso, assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu ponho em Sião uma pedra, pedra provada, pedra de esquina preciosa, de fundamento bem firmado; quem crer não terá pressa.”
A pedra de esquina posta como fundamento. É o texto que os escritos cristãos juntam ao Salmo 118.
Jó 38:6 — “Sobre o que foram firmadas as suas bases, ou quem assentou a sua pedra de esquina?”
Zacarias 4:7 — “Quem é você, ó grande monte? Diante de Zorobabel você se tornará uma planície. Ele trará a pedra de remate entre aclamações: Graça, graça a ela!”
As duas pontas da discussão: a pedra de esquina na fundação da terra e a pedra do topo na conclusão do templo.
O salmo nos outros evangelhos
Marcos 12:10-11 — “Vocês não leram esta Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor, e é maravilhoso aos nossos olhos’?”
Lucas 20:17 — “Jesus, olhando para eles, disse: ‘Então o que significa isto que está escrito: A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular?’”
Marcos fala de “esta Escritura”, no singular; Lucas para no primeiro verso do salmo.
O mesmo verso na pregação dos apóstolos
Atos 4:11 — “Ele é a pedra que vocês, os construtores, desprezaram, e que se tornou a pedra angular.”
Pedro, diante do conselho de Jerusalém, aplica o verso aos próprios juízes, com “vocês” no lugar de “os construtores”.
1 Pedro 2:7 — “Para vocês, os que creem, ela é preciosa; mas, para os que não creem, a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular.”
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Disse-lhes Jesus: “Vocês nunca leram nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo SENHOR, e é maravilhoso aos nossos olhos’?
Texto grego (Textus Receptus)
Λέγει αὐτοῖς ὁ Ἰησοῦς, Οὐδέποτε ἀνέγνωτε ἐν ταῖς γραφαῖς, Λίθον ὃν ἀπεδοκίμασαν οἱ οἰκοδομοῦντες, οὗτος ἐγενήθη εἰς κεφαλὴν γωνίας· παρὰ Κυρίου ἐγένετο αὕτη, καὶ ἔστι θαυμαστὴ ἐν ὀφθαλμοῖς ἡμῶν;
Transliteração
Legei autois ho Iēsous, Oudepote anegnōte en tais graphais, Lithon hon apedokimasan hoi oikodomountes, houtos egenēthē eis kephalēn gōnias; para Kyriou egeneto hautē, kai esti thaumastē en ophthalmois hēmōn?
O salmo no hebraico
אֶבֶן מָאֲסוּ הַבּוֹנִים הָיְתָה לְרֹאשׁ פִּנָּה׃ מֵאֵת יְהוָה הָיְתָה זֹּאת הִיא נִפְלָאת בְּעֵינֵינוּ׃
Even ma'asu ha-bonim hayetah le-rosh pinnah. Me'et YHWH hayetah zot, hi niflat be-eineinu (Salmo 118:22-23).
A citação de Mateus é idêntica, letra por letra, à Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento), no Salmo 117:22-23 da numeração grega. A Septuaginta, por sua vez, segue o hebraico de perto, com uma exceção de gramática explicada abaixo.
Análise palavra por palavra
Λέγει αὐτοῖς ὁ Ἰησοῦς — legei autois ho Iēsous, “diz-lhes Jesus”. Presente usado para narrar o passado, como o “dizem-lhe” do versículo anterior. A ABC traduz pelo passado.
Οὐδέποτε ἀνέγνωτε — oudepote anegnōte, “nunca leram”. Oudepote é “nunca”, de oude (“nem”) e pote (“alguma vez”). Anegnōte é o aoristo de anaginōskō, “ler”, literalmente “reconhecer de novo”: no mundo antigo, ler era sobretudo ler em voz alta. Marcos 12:10 diz “nem esta Escritura leram”; só Mateus põe o “nunca”, o mesmo de Mateus 21:16.
ἐν ταῖς γραφαῖς — en tais graphais, “nas Escrituras”. Plural de graphē, “escrito”, de graphō, “escrever”. No singular designa uma passagem; no plural, o conjunto dos livros sagrados.
Λίθον — lithon, “pedra”. A palavra, a diferença entre ela e a palavra de Mateus 16:18 e o lugar do Salmo 118:22 na linguagem de pedra do Novo Testamento estão no estudo de Mateus 16:18. Aqui, um dado de gramática: lithon está no acusativo, como objeto de “rejeitaram”, mas é o sujeito da frase principal, retomado adiante por houtos, “esta”. A palavra foi puxada para o caso do relativo que vem logo depois, uma construção irregular que a Septuaginta já tinha e que Mateus conserva sem corrigir.
ὃν ἀπεδοκίμασαν — hon apedokimasan, “que rejeitaram”. Aoristo de apodokimazō, formado de apo (“para longe”) e dokimazō (“examinar, testar, aprovar depois de prova”). É rejeitar depois de examinar. Em Atenas, dokimasia era o exame a que se submetiam os eleitos antes de assumir um cargo público, e apodokimazō era reprová-los nesse exame. No hebraico, o verbo é ma'as, “recusar, desprezar”, o mesmo usado para a rejeição de Saul em 1 Samuel 15:23.
É a única vez que o verbo aparece em Mateus. Marcos e Lucas o usam no anúncio da paixão (Marcos 8:31; Lucas 9:22), dizendo que o Filho do homem seria “rejeitado” pelos anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas; Mateus 16:21 não traz essa palavra, e ela só entra no evangelho pela boca do salmo.
οἱ οἰκοδομοῦντες — hoi oikodomountes, “os construtores”, “os que constroem”. Particípio presente de oikodomeō, “construir”, de oikos, “casa”. O particípio com artigo funciona como substantivo, e o presente sugere ofício: os que estão construindo, os do ramo. No hebraico, ha-bonim, da raiz banah, “construir”.
οὗτος ἐγενήθη — houtos egenēthē, “esta se tornou”. Demonstrativo masculino, porque lithos é masculino em grego, e aoristo de ginomai, “vir a ser”.
εἰς κεφαλὴν γωνίας — eis kephalēn gōnias, “em cabeça de esquina”. Eis indica o resultado da transformação: tornou-se em, passou a ser. Kephalē é “cabeça”, e no sentido figurado o ponto mais alto, a extremidade ou o principal. Gōnia é “ângulo”, “esquina”; em Mateus, a palavra só aparece mais uma vez, nas “esquinas das ruas” onde os hipócritas gostam de orar (Mateus 6:5). A expressão grega traduz literalmente o hebraico rosh pinnah: rosh, “cabeça”; pinnah, “esquina”. No hebraico, pinnah também serve de imagem para os chefes do povo, “as esquinas de todo o povo” (Juízes 20:2) e “as esquinas das suas tribos” (Isaías 19:13).
Em Isaías 28:16, a Septuaginta usa outra palavra, akrogōniaios, “a da ponta da esquina”, e a põe “nos fundamentos”. É essa palavra que reaparece em Efésios 2:20 e 1 Pedro 2:6, e é sobre ela que gira boa parte da discussão entre pedra de base e pedra de remate.
παρὰ Κυρίου — para Kyriou, “da parte do Senhor”. Para com genitivo indica a origem: “vindo de junto de”. Traduz o hebraico me'et YHWH, “da parte do SENHOR”, onde está o nome próprio de Deus.
ἐγένετο αὕτη — egeneto hautē, “isto aconteceu”, “isto foi feito”. Egeneto é o aoristo médio de ginomai. Hautē é o demonstrativo no feminino, e aqui está a irregularidade. O hebraico diz zot, feminino, porque o hebraico não tem neutro e usa o feminino para “isto”, o fato. O tradutor grego copiou o gênero ao pé da letra, e o grego, que tem neutro, ficou com um feminino sem substantivo claro. Daí as duas leituras do item 3: ou o feminino retoma kephalē, a cabeça da esquina, ou é um hebraísmo para o acontecimento inteiro.
καὶ ἔστι θαυμαστὴ — kai esti thaumastē, “e é maravilhosa”. Thaumastos, “admirável, espantoso”, do verbo thaumazō, “admirar-se”. Também no feminino, pelo mesmo motivo. No hebraico, niflat, da raiz pala', a das “maravilhas” que Deus faz no Êxodo. A forma esti, sem o “n” final, é a do Textus Receptus; as edições críticas escrevem estin. A diferença é só de ortografia.
ἐν ὀφθαλμοῖς ἡμῶν — en ophthalmois hēmōn, “aos nossos olhos”, literalmente “nos nossos olhos”. Reproduz o hebraico be-eineinu.
11. Conclusão
Com base no que o versículo mostra, conclui-se primeiro que Jesus responde à sentença dos ouvintes com um texto, e não com um comentário. A parábola da vinha só podia terminar no castigo; o salmo acrescenta a reviravolta do rejeitado, que a história não tinha como contar. As duas peças juntas dizem o que nenhuma diz sozinha.
Conclui-se também que a imagem central afirma com certeza o lugar de honra da pedra recusada, mas não fixa a posição exata dela. Pedra de esquina na base ou pedra de remate no alto, as duas leituras têm apoio, e o versículo vale para ambas: o que foi descartado pelos especialistas passou a sustentar ou a completar a obra.
Por fim, o versículo tem uma história de leitura que precisa ser lembrada junto com ele. O salmo que, para os comentaristas judeus, falava de Israel rejeitado pelas nações e exaltado por Deus foi aplicado por Jesus a uma recusa feita pelos líderes de Israel. A aplicação não anula o primeiro sentido; depende dele. E a obra, nas duas leituras, é atribuída ao SENHOR, a quem nem os construtores do salmo nem os ouvintes do templo tinham dado a última palavra.













