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Mateus 21:42

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 18 acessos
Disse-lhes Jesus: “Vocês nunca leram nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo SENHOR, e é maravilhoso aos nossos olhos’?
Num canteiro de obras antigo de pedra clara, um grande bloco talhado, deixado de lado no chão entre lascas, contrasta com uma esquina de muro em construção onde trabalhadores erguem pedras com cordas; ao fundo, o templo de Jerusalém.

Estudo


Disse-lhes Jesus: “Vocês nunca leram nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo SENHOR, e é maravilhoso aos nossos olhos’?

1. Introdução

Os ouvintes acabam de sentenciar os lavradores, e Jesus não comenta a sentença: cita um salmo. É o Salmo 118:22-23, palavra por palavra na tradução grega, e com ele a imagem muda de repente da vinha para uma construção. A pedra que os construtores jogaram fora foi parar no lugar mais importante do edifício — mas que lugar é esse, a pedra de esquina que sustenta a base ou a pedra que fecha o alto, é uma discussão antiga, que o hebraico e o grego não resolvem sozinhos. A segunda metade do verso atribui a reviravolta a Deus, e chama de maravilha o que os construtores trataram como refugo. Quem eram os construtores no salmo, e quem passam a ser na boca de Jesus, é a outra pergunta do versículo.

2. Contexto Histórico e Cultural

Escolher e recusar pedras

Numa construção de pedra, nem toda pedra serve para qualquer lugar. Os blocos eram examinados, medidos e separados: uns iam para a base, outros para as paredes, os melhores para as esquinas; os que tinham defeito ficavam de lado. O livro dos Reis descreve como as pedras do templo de Salomão foram preparadas na pedreira: “pedras grandes e valiosas, para assentar os fundamentos do templo com pedras lavradas” (1 Reis 5:17), trabalhadas de tal modo que no canteiro “não se ouviu martelo, nem machado, nem ferramenta de ferro” (1 Reis 6:7). A escolha e a recusa aconteciam antes, no exame de cada bloco.

É dessa prática que vem a imagem do salmo. Os construtores olharam uma pedra, julgaram-na imprópria e a puseram de lado. Rejeitar, aqui, não é desprezo emocional: é veredito técnico de quem entende de construção.

A pedra da esquina

Num muro de blocos assentados, a esquina é o ponto mais exigido. É ali que duas paredes se encontram e se amarram uma à outra. As pedras de esquina eram as maiores e as mais bem talhadas, porque seguravam as duas faces ao mesmo tempo e ficavam à vista dos dois lados. Um comentário judaico medieval aos Salmos, a Metsudat David (“Fortaleza de Davi”, obra do século XVIII de David Altschuler e do filho), explica o verso exatamente assim: o costume era pôr a pedra mais bela na esquina do muro, para que fosse vista dos dois lados.

Duas cerimônias: a pedra da base e a pedra do alto

A Bíblia registra festas em dois momentos da construção do segundo templo, e elas correspondem às duas leituras do versículo.

A primeira é a do lançamento dos fundamentos. Em Esdras 3:10-11, quando os construtores assentam a base do templo, os sacerdotes tocam trombetas, os levitas tocam címbalos, e o povo canta em coro a fórmula que abre e fecha o Salmo 118: “porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre”.

A segunda é a da conclusão. Em Zacarias 4:7, o profeta anuncia que o governador Zorobabel “trará a pedra de remate” entre aclamações: “Graça, graça a ela!”. A expressão hebraica é ha-even ha-roshah (“a pedra da cabeça”, a pedra do topo), da mesma palavra “cabeça” que aparece no salmo. É a última pedra, a que marca a obra terminada.

Uma pedra lançada no começo, sob a qual tudo se apoia; uma pedra posta no fim, que completa tudo. O versículo pode estar falando de qualquer uma das duas.

A lenda da pedra que ninguém conseguia erguer

Um texto antigo conta uma história sobre a pedra do salmo. O Testamento de Salomão (obra em grego, de data muito discutida, entre os séculos I e V, que circulou com acréscimos cristãos) narra que, quando o templo estava quase pronto, havia uma pedra enorme, escolhida para ficar “na cabeça da esquina” da obra terminada. Nem os operários nem os demônios que, segundo a lenda, trabalhavam para Salomão conseguiam movê-la. Um demônio da Arábia, aprisionado num odre, a ergue e a põe no alto da entrada do templo. Salomão, vendo a pedra levantada, diz: “Cumpriu-se a Escritura: a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina” (Testamento de Salomão 22:7-23:4).

A lenda é tardia e fantasiosa, mas guarda um dado: para quem a escreveu, a “cabeça da esquina” ficava no alto, sobre a entrada, e era a última a ser posta. É sobre esse texto que se apoiou a leitura moderna da pedra como remate, exposta no item 3.

3. Análise Teológica do Versículo

“Disse-lhes Jesus”

Os ouvintes acabaram de dar a sentença sobre os lavradores. Jesus não diz se concorda, não diz “vocês julgaram bem”, não revela ainda que eles são os lavradores. Passa da história para um texto. A resposta deles fica no ar, e o salmo vem ocupar o lugar do comentário.

A passagem tem uma razão de ser. A parábola terminou com o filho morto e o dono a caminho. Uma história de vinha não tem como dizer o que acontece com o filho depois da morte. O salmo diz: o rejeitado não fica no chão.

“Vocês nunca leram nas Escrituras”

A pergunta é a mesma que Jesus fez aos mesmos chefes dos sacerdotes, na véspera, a propósito do Salmo 8 (Mateus 21:16). Agora ela vem com um acréscimo: “nas Escrituras”. É a primeira vez que a palavra aparece no plural em Mateus, e ela designa o conjunto dos livros sagrados. Ela vai voltar três vezes no evangelho (Mateus 22:29; 26:54; 26:56), sempre ligada à morte ou à ressurreição de Jesus.

E o texto que eles “nunca leram” era um que conheciam de cor. O Salmo 118 era cantado nas festas, e a multidão o havia gritado na estrada na véspera. A pergunta não acusa ignorância do texto; acusa nunca o terem lido de verdade — a fórmula, com o hábito de Mateus de apontá-la contra especialistas, tem o seu estudo em Mateus 19:4.

“A pedra que os construtores rejeitaram”

Num instante a vinha some e aparece uma obra de pedra. Os lavradores viram construtores; o filho vira pedra. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) resume: a imagem mudou, o assunto é o mesmo.

Há uma hipótese que tornaria a passagem menos brusca. Em hebraico, “filho” é ben e “pedra” é even; as duas palavras soam quase iguais. Vários estudiosos modernos supõem que, num ambiente de língua hebraica ou aramaica, a ligação entre o filho rejeitado da parábola e a pedra rejeitada do salmo se fazia pelo som. A hipótese é plausível e não demonstrável: Mateus escreve em grego, onde o jogo não existe.

Quem eram os construtores no salmo? O Salmo 118 é o canto de alguém que esteve cercado, “empurrado para cair”, e foi salvo (Salmo 118:10-13). Os comentaristas judeus medievais leram o verso de dois modos. Rashi (comentarista francês do século XI) entende que a pedra é Israel, “um povo que era humilde entre os povos”: os construtores são as nações, que desprezaram Israel. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII) propõe que se fale de Davi, desprezado pelas nações e vencedor no fim, ou, em sentido profético, de Israel no exílio. Radak (David Kimchi, da Provença, por volta de 1200) também lê Israel: os reis da terra não queriam Israel nem como uma das pedras do edifício, e no tempo da salvação ele será a pedra da esquina.

Na boca de Jesus, a direção se inverte. Os construtores já não são as nações estrangeiras; são os responsáveis pela casa de Israel, os que ouvem a parábola. A pedra já não é o povo; é o filho. Os Atos dos Apóstolos tornam isso explícito quando Pedro, diante do mesmo conselho, diz: “ele é a pedra que vocês, os construtores, desprezaram” (Atos 4:11). A inversão tem consequências que pesaram na história: o verso que, na leitura judaica, consolava Israel rejeitado pelas nações passou a ser usado, na leitura cristã, como acusação a Israel.

“tornou-se a pedra angular”

O hebraico diz rosh pinnah, literalmente “cabeça da esquina”; a tradução grega, que Mateus copia, diz exatamente isso. A ABC traduz “pedra angular”, como a maioria das versões. O problema é saber onde fica a “cabeça” de uma esquina. Há duas leituras, e a discussão está viva.

Primeira leitura: é a pedra de esquina da base, a primeira assentada, que amarra duas paredes e determina o alinhamento de tudo. É a leitura tradicional e a dos comentaristas judeus medievais, como Radak e a Metsudat David. Ela tem a favor dois textos que usam a mesma palavra “esquina” em contexto de fundação: Isaías 28:16, onde Deus põe em Sião “uma pedra provada, pedra de esquina preciosa, de fundamento firme”, e Jó 38:6, que pergunta quem assentou “a pedra de esquina” da terra. Jeremias 51:26, ao ameaçar a Babilônia, distingue “pedra para esquina” e “pedra para fundamentos”, mas as põe lado a lado, como partes da mesma base. O estudioso britânico R. J. McKelvey defendeu essa leitura num artigo de 1962 na revista New Testament Studies (“Estudos do Novo Testamento”), contra a seguinte.

Segunda leitura: é a pedra que fecha a construção no alto — a pedra de remate de uma esquina, ou a pedra que trava um arco ou encima uma porta. Foi o alemão Joachim Jeremias (estudioso do Novo Testamento e do judaísmo antigo, 1900-1979) quem a sustentou, a partir dos anos 1920, apoiado principalmente no Testamento de Salomão, onde a “cabeça da esquina” é erguida ao alto, sobre a entrada do templo (item 2). A favor dela pesa a palavra “cabeça”, que sugere o ponto mais alto, e a semelhança com a “pedra do topo” de Zacarias 4:7. E pesa o desenho do próprio salmo: a pedra recusada não volta apenas para a obra, vai para o lugar mais visível dela.

O que muda de uma leitura para a outra? Na primeira, o rejeitado vira o apoio de tudo: sem ele, nada fica de pé. Na segunda, vira o acabamento: sem ele, a obra fica incompleta. As duas dão ao rejeitado o lugar mais importante, e é isso que o versículo afirma com certeza. A posição exata não é possível decidir pelo texto, e os escritos cristãos antigos parecem ter usado as duas: Efésios 2:20 e 1 Pedro 2:6-7 juntam o Salmo 118 a Isaías 28:16, que fala de fundamento, e Mateus 21:44, dois versículos adiante, fala de uma pedra que cai sobre alguém, o que combina melhor com uma pedra do alto.

Os padres da igreja ainda acrescentaram uma terceira leitura, simbólica. Para Hilário de Poitiers (bispo e teólogo do século IV), a pedra é cabeça da esquina porque une os dois lados, a Lei e os gentios, como uma esquina une duas paredes. A leitura depende da imagem da pedra que amarra, e por isso da primeira; o texto de Mateus não fala de dois povos.

“isto foi feito pelo SENHOR”

O salmo atribui a reviravolta a Deus. Os construtores agiram, e a recusa deles foi real; mas a promoção da pedra não foi obra deles. O verso separa as duas decisões: a dos homens, que recusaram, e a de Deus, que pôs no alto o que foi recusado.

A palavra “SENHOR” está em maiúsculas porque, no hebraico do salmo, é o nome próprio de Deus, as quatro letras que os judeus não pronunciavam. A tradução grega o substitui por “Senhor”, e a ABC marca a origem do nome com as maiúsculas, como faz nas outras citações do Antigo Testamento em Mateus.

O “isto” é, no hebraico, o fato inteiro: não só a pedra, mas a virada da recusa à honra. A tradução grega deixou a palavra num gênero que permite ler também “esta”, a pedra angular (a gramática está no item 10). Nas duas leituras, a obra é de Deus.

“e é maravilhoso aos nossos olhos”

No salmo, “nossos olhos” são os da comunidade que canta e assiste ao resgate. Na boca de Jesus, a frase inclui, gramaticalmente, os próprios ouvintes. É um convite estranho: os construtores são chamados a ver como maravilha a promoção da pedra que eles mesmos recusaram.

E a palavra pesa no capítulo. “Maravilhoso” é da mesma família de “as maravilhas que ele fez”, que tinham deixado indignados os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei (Mateus 21:15). O que o salmo chama de maravilha diante dos olhos, os ouvintes viram e rejeitaram.

Mateus pôs a citação inteira dentro da pergunta: “vocês nunca leram: ‘...é maravilhoso aos nossos olhos’?”. O versículo termina com um ponto de interrogação, e a resposta fica com os ouvintes.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

Fala no templo, no meio do debate com as autoridades. Ao citar o salmo, aplica a si mesmo, sem dizer o nome, a figura da pedra rejeitada. Mateus não explica a aplicação; os ouvintes a entendem no versículo 45.

Os ouvintes

Os chefes dos sacerdotes e os anciãos, que acabaram de pronunciar a sentença sobre os lavradores, e os fariseus, que Mateus menciona no versículo 45. São eles os “construtores” que o versículo deixa implícitos: os responsáveis pela casa, pelo templo e pela interpretação da Lei.

O salmista

O Salmo 118 não traz título nem autor. É o último do grupo de salmos de louvor cantados nas festas (os Salmos 113 a 118). Fala em primeira pessoa de alguém que foi cercado por inimigos, quase caiu e foi salvo, e que entra pelas portas do templo para agradecer. Quem é esse “eu” — um rei, o povo personificado, um peregrino — é discutido. Muitos estudiosos datam o salmo do período depois do exílio, e alguns o ligam à reconstrução do templo.

Os construtores

No salmo, figuras sem nome que julgaram a pedra imprópria. Na leitura judaica medieval, as nações que desprezavam Israel. Na aplicação de Jesus, as lideranças de Jerusalém.

5. Pontos de Ensino

1. Quem decide o valor de uma pedra não é quem a recusou

Os construtores eram do ofício e fizeram o exame. O veredito deles foi revisto por quem é dono da obra. O versículo não diz que eles não sabiam construir; diz que o juízo técnico deles não foi o último.

2. A rejeição não é o fim da história

A parábola parou na morte do filho. O salmo continua: o recusado é posto no lugar mais importante. Para Mateus, essa é a forma como a Escritura já contava a morte e a vindicação de Jesus antes que acontecessem.

3. O texto conhecido pode nunca ter sido lido

Os ouvintes cantavam o Salmo 118 todos os anos. A pergunta de Jesus mostra que é possível saber um texto de cor e não perceber o que ele diz sobre a situação presente.

4. A obra é de Deus, e a admiração também

O salmo não pede que se explique a reviravolta, pede que se veja: “é maravilhoso aos nossos olhos”. Há coisas que o texto bíblico apresenta como objeto de espanto, não de demonstração.

5. O mesmo verso pode consolar e acusar

Na leitura judaica, o verso fala de Israel rejeitado pelas nações e exaltado por Deus. Na aplicação de Jesus, fala do rejeitado pelos líderes de Israel. A mesma imagem serve aos dois, e quem a usa precisa lembrar que ela tem um primeiro sentido, anterior ao seu.

6. Aspectos Filosóficos

Um texto, mais de um sentido

O Salmo 118 foi escrito séculos antes de Jesus, por alguém que falava de uma pedra, de um resgate e de uma festa no templo. Jesus o cita como se falasse dele. A pergunta filosófica é antiga e não se limita à Bíblia: um texto pode significar mais do que o seu autor quis dizer? E, se pode, quem controla esse “mais”?

Quem dedicou a vida a essa pergunta, do lado cristão, foi o jesuíta francês Henri de Lubac (1896-1991), teólogo, historiador da interpretação bíblica e, no fim da vida, cardeal.

Os quatro sentidos

Na obra Exegese medieval: os quatro sentidos da Escritura (quatro volumes, 1959-1964), de Lubac reconstituiu a forma como os cristãos leram a Bíblia durante mais de mil anos. Ele partiu de um verso em latim que os estudantes medievais decoravam, atribuído ao dominicano Agostinho de Dácia (século XIII): “a letra ensina o que aconteceu; a alegoria, o que você deve crer; a moral, o que você deve fazer; a anagogia, para onde você deve tender”.

Aplicado à pedra do salmo, o esquema dá quatro camadas. A letra: um bloco recusado pelos pedreiros e posto na esquina, imagem de um homem ou de um povo resgatado. A alegoria: Cristo, rejeitado e exaltado. A moral: o cristão como “pedra viva” do edifício, na imagem de 1 Pedro 2:5. A anagogia: a cidade final, construída sobre fundamentos que não se movem.

De Lubac não defendia essa leitura como um jogo de associações livres. O ponto central do livro é que os quatro sentidos não são quatro camadas independentes, mas um movimento único. A letra é a história real, e não se pode dispensá-la. O sentido espiritual nasce dela, não ao lado dela: é a mesma história, lida a partir do que veio depois.

O que isso explica no versículo

A citação de Jesus é um caso exemplar do que de Lubac chamou de sentido espiritual. O salmo tem uma letra: alguém foi rejeitado e Deus o resgatou. Jesus não apaga essa letra; aplica-a a uma rejeição nova, que está acontecendo diante dos ouvintes. O sentido novo só funciona porque o antigo continua valendo. Se o salmo não falasse de um rejeitado resgatado, a aplicação não diria nada.

O limite que a própria teoria impõe

A tese de de Lubac tem uma consequência que vai além do que ele mesmo explorou neste versículo, e a aplicação é nossa. Se a letra é a base e não pode ser apagada, então o primeiro sentido do Salmo 118 — o de um Israel humilhado e exaltado, como o leram Rashi e Radak — continua de pé quando os cristãos leem o verso a partir de Jesus. A leitura cristã não tem o direito de transformar esse sentido em seu contrário, fazendo do verso que consolava Israel um verso contra Israel. Foi o que aconteceu muitas vezes na história, quando os “construtores” passaram a ser os judeus em geral.

De Lubac conhecia esse risco por experiência. Durante a ocupação alemã da França, participou da resistência cristã ao nazismo e colaborou com os Cadernos do Testemunho Cristão, publicação clandestina que denunciava a perseguição aos judeus. Muitos anos depois, contou essa história num livro de memórias, Resistência cristã ao antissemitismo (1988). Para ele, a fidelidade à interpretação espiritual não era licença para o desprezo; exigia o contrário.

A objeção ao método continua possível, e é séria: quem garante que o sentido espiritual não é só o desejo do intérprete projetado no texto? A resposta de de Lubac era que o critério é a unidade das duas alianças e a história real que as liga — um critério que, para quem não partilha a fé cristã, não tem força. O debate permanece em aberto.

7. Aplicações Práticas

Não tome o seu veredito sobre alguém como o último

Os construtores examinaram e rejeitaram com competência. O versículo lembra que o juízo de quem entende do assunto pode ser revisto. Quando você descarta uma pessoa, uma ideia ou um projeto por um critério técnico, mantenha aberta a possibilidade de estar diante da pedra que vai para a esquina.

Para quem foi descartado

O salmo foi, antes de tudo, o canto de alguém que foi recusado e resgatado. Ele dá linguagem a quem passou por rejeição: o descarte feito por outros não define o lugar final de ninguém.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Os judeus do tempo de Jesus liam o Salmo 118 como profecia sobre o Messias?

Não há prova clara disso antes dos evangelhos. A tradição rabínica posterior aplicou partes do salmo a Davi, e alguns comentaristas medievais, segundo Gill, discutiam se ele falava de Davi ou dos dias do Messias. Mas a leitura mais comum entre os comentaristas judeus é a que vê na pedra o povo de Israel. A aplicação messiânica explícita do verso 22 aparece, nos textos que temos, primeiro entre os cristãos.

A citação foi feita por Jesus ou acrescentada depois?

É discutido. Muitos estudiosos notam que, no Evangelho de Tomé, a parábola aparece sem a citação, e o dito da pedra vem logo depois, como dito separado (ver o estudo de Mateus 21:37). Isso sugere a alguns que as duas peças circularam independentes e foram unidas. Outros respondem que a ligação pelo som entre “filho” e “pedra” no hebraico, e a lógica de completar a parábola, explicam bem a união desde o início. Não há consenso.

Os construtores podiam ter acertado?

No salmo, a pergunta não se coloca: a recusa é dada como erro corrigido por Deus. Na cena de Mateus, a questão que os ouvintes enfrentam é exatamente essa — se eles, os especialistas, podem estar errados sobre Jesus. O versículo não discute a competência deles; afirma que o veredito foi revisto.

9. Conexão com Outros Textos

O salmo citado

Salmo 118:22-23 — “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular. Isto foi feito pelo SENHOR, e é maravilhoso aos nossos olhos.”

Mateus o cita sem mudar uma palavra da tradução grega. A liturgia em que o salmo era cantado, e a leitura que o aplicava a Davi, estão no estudo de Mateus 21:9.

Salmo 118:13 — “Fui empurrado com violência para que eu caísse, mas o SENHOR me ajudou.”

O contexto do salmo: alguém quase derrubado e resgatado. A pedra rejeitada é a mesma pessoa.

As outras pedras de esquina

Isaías 28:16 — “Por isso, assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu ponho em Sião uma pedra, pedra provada, pedra de esquina preciosa, de fundamento bem firmado; quem crer não terá pressa.”

A pedra de esquina posta como fundamento. É o texto que os escritos cristãos juntam ao Salmo 118.

Jó 38:6 — “Sobre o que foram firmadas as suas bases, ou quem assentou a sua pedra de esquina?”

Zacarias 4:7 — “Quem é você, ó grande monte? Diante de Zorobabel você se tornará uma planície. Ele trará a pedra de remate entre aclamações: Graça, graça a ela!”

As duas pontas da discussão: a pedra de esquina na fundação da terra e a pedra do topo na conclusão do templo.

O salmo nos outros evangelhos

Marcos 12:10-11 — “Vocês não leram esta Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor, e é maravilhoso aos nossos olhos’?”

Lucas 20:17 — “Jesus, olhando para eles, disse: ‘Então o que significa isto que está escrito: A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular?’”

Marcos fala de “esta Escritura”, no singular; Lucas para no primeiro verso do salmo.

O mesmo verso na pregação dos apóstolos

Atos 4:11 — “Ele é a pedra que vocês, os construtores, desprezaram, e que se tornou a pedra angular.”

Pedro, diante do conselho de Jerusalém, aplica o verso aos próprios juízes, com “vocês” no lugar de “os construtores”.

1 Pedro 2:7 — “Para vocês, os que creem, ela é preciosa; mas, para os que não creem, a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular.”

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Disse-lhes Jesus: “Vocês nunca leram nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo SENHOR, e é maravilhoso aos nossos olhos’?

Texto grego (Textus Receptus)

Λέγει αὐτοῖς ὁ Ἰησοῦς, Οὐδέποτε ἀνέγνωτε ἐν ταῖς γραφαῖς, Λίθον ὃν ἀπεδοκίμασαν οἱ οἰκοδομοῦντες, οὗτος ἐγενήθη εἰς κεφαλὴν γωνίας· παρὰ Κυρίου ἐγένετο αὕτη, καὶ ἔστι θαυμαστὴ ἐν ὀφθαλμοῖς ἡμῶν;

Transliteração

Legei autois ho Iēsous, Oudepote anegnōte en tais graphais, Lithon hon apedokimasan hoi oikodomountes, houtos egenēthē eis kephalēn gōnias; para Kyriou egeneto hautē, kai esti thaumastē en ophthalmois hēmōn?

O salmo no hebraico

אֶבֶן מָאֲסוּ הַבּוֹנִים הָיְתָה לְרֹאשׁ פִּנָּה׃ מֵאֵת יְהוָה הָיְתָה זֹּאת הִיא נִפְלָאת בְּעֵינֵינוּ׃

Even ma'asu ha-bonim hayetah le-rosh pinnah. Me'et YHWH hayetah zot, hi niflat be-eineinu (Salmo 118:22-23).

A citação de Mateus é idêntica, letra por letra, à Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento), no Salmo 117:22-23 da numeração grega. A Septuaginta, por sua vez, segue o hebraico de perto, com uma exceção de gramática explicada abaixo.

Análise palavra por palavra

Λέγει αὐτοῖς ὁ Ἰησοῦς — legei autois ho Iēsous, “diz-lhes Jesus”. Presente usado para narrar o passado, como o “dizem-lhe” do versículo anterior. A ABC traduz pelo passado.

Οὐδέποτε ἀνέγνωτε — oudepote anegnōte, “nunca leram”. Oudepote é “nunca”, de oude (“nem”) e pote (“alguma vez”). Anegnōte é o aoristo de anaginōskō, “ler”, literalmente “reconhecer de novo”: no mundo antigo, ler era sobretudo ler em voz alta. Marcos 12:10 diz “nem esta Escritura leram”; só Mateus põe o “nunca”, o mesmo de Mateus 21:16.

ἐν ταῖς γραφαῖς — en tais graphais, “nas Escrituras”. Plural de graphē, “escrito”, de graphō, “escrever”. No singular designa uma passagem; no plural, o conjunto dos livros sagrados.

Λίθον — lithon, “pedra”. A palavra, a diferença entre ela e a palavra de Mateus 16:18 e o lugar do Salmo 118:22 na linguagem de pedra do Novo Testamento estão no estudo de Mateus 16:18. Aqui, um dado de gramática: lithon está no acusativo, como objeto de “rejeitaram”, mas é o sujeito da frase principal, retomado adiante por houtos, “esta”. A palavra foi puxada para o caso do relativo que vem logo depois, uma construção irregular que a Septuaginta já tinha e que Mateus conserva sem corrigir.

ὃν ἀπεδοκίμασαν — hon apedokimasan, “que rejeitaram”. Aoristo de apodokimazō, formado de apo (“para longe”) e dokimazō (“examinar, testar, aprovar depois de prova”). É rejeitar depois de examinar. Em Atenas, dokimasia era o exame a que se submetiam os eleitos antes de assumir um cargo público, e apodokimazō era reprová-los nesse exame. No hebraico, o verbo é ma'as, “recusar, desprezar”, o mesmo usado para a rejeição de Saul em 1 Samuel 15:23.

É a única vez que o verbo aparece em Mateus. Marcos e Lucas o usam no anúncio da paixão (Marcos 8:31; Lucas 9:22), dizendo que o Filho do homem seria “rejeitado” pelos anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas; Mateus 16:21 não traz essa palavra, e ela só entra no evangelho pela boca do salmo.

οἱ οἰκοδομοῦντες — hoi oikodomountes, “os construtores”, “os que constroem”. Particípio presente de oikodomeō, “construir”, de oikos, “casa”. O particípio com artigo funciona como substantivo, e o presente sugere ofício: os que estão construindo, os do ramo. No hebraico, ha-bonim, da raiz banah, “construir”.

οὗτος ἐγενήθη — houtos egenēthē, “esta se tornou”. Demonstrativo masculino, porque lithos é masculino em grego, e aoristo de ginomai, “vir a ser”.

εἰς κεφαλὴν γωνίας — eis kephalēn gōnias, “em cabeça de esquina”. Eis indica o resultado da transformação: tornou-se em, passou a ser. Kephalē é “cabeça”, e no sentido figurado o ponto mais alto, a extremidade ou o principal. Gōnia é “ângulo”, “esquina”; em Mateus, a palavra só aparece mais uma vez, nas “esquinas das ruas” onde os hipócritas gostam de orar (Mateus 6:5). A expressão grega traduz literalmente o hebraico rosh pinnah: rosh, “cabeça”; pinnah, “esquina”. No hebraico, pinnah também serve de imagem para os chefes do povo, “as esquinas de todo o povo” (Juízes 20:2) e “as esquinas das suas tribos” (Isaías 19:13).

Em Isaías 28:16, a Septuaginta usa outra palavra, akrogōniaios, “a da ponta da esquina”, e a põe “nos fundamentos”. É essa palavra que reaparece em Efésios 2:20 e 1 Pedro 2:6, e é sobre ela que gira boa parte da discussão entre pedra de base e pedra de remate.

παρὰ Κυρίου — para Kyriou, “da parte do Senhor”. Para com genitivo indica a origem: “vindo de junto de”. Traduz o hebraico me'et YHWH, “da parte do SENHOR”, onde está o nome próprio de Deus.

ἐγένετο αὕτη — egeneto hautē, “isto aconteceu”, “isto foi feito”. Egeneto é o aoristo médio de ginomai. Hautē é o demonstrativo no feminino, e aqui está a irregularidade. O hebraico diz zot, feminino, porque o hebraico não tem neutro e usa o feminino para “isto”, o fato. O tradutor grego copiou o gênero ao pé da letra, e o grego, que tem neutro, ficou com um feminino sem substantivo claro. Daí as duas leituras do item 3: ou o feminino retoma kephalē, a cabeça da esquina, ou é um hebraísmo para o acontecimento inteiro.

καὶ ἔστι θαυμαστὴ — kai esti thaumastē, “e é maravilhosa”. Thaumastos, “admirável, espantoso”, do verbo thaumazō, “admirar-se”. Também no feminino, pelo mesmo motivo. No hebraico, niflat, da raiz pala', a das “maravilhas” que Deus faz no Êxodo. A forma esti, sem o “n” final, é a do Textus Receptus; as edições críticas escrevem estin. A diferença é só de ortografia.

ἐν ὀφθαλμοῖς ἡμῶν — en ophthalmois hēmōn, “aos nossos olhos”, literalmente “nos nossos olhos”. Reproduz o hebraico be-eineinu.

11. Conclusão

Com base no que o versículo mostra, conclui-se primeiro que Jesus responde à sentença dos ouvintes com um texto, e não com um comentário. A parábola da vinha só podia terminar no castigo; o salmo acrescenta a reviravolta do rejeitado, que a história não tinha como contar. As duas peças juntas dizem o que nenhuma diz sozinha.

Conclui-se também que a imagem central afirma com certeza o lugar de honra da pedra recusada, mas não fixa a posição exata dela. Pedra de esquina na base ou pedra de remate no alto, as duas leituras têm apoio, e o versículo vale para ambas: o que foi descartado pelos especialistas passou a sustentar ou a completar a obra.

Por fim, o versículo tem uma história de leitura que precisa ser lembrada junto com ele. O salmo que, para os comentaristas judeus, falava de Israel rejeitado pelas nações e exaltado por Deus foi aplicado por Jesus a uma recusa feita pelos líderes de Israel. A aplicação não anula o primeiro sentido; depende dele. E a obra, nas duas leituras, é atribuída ao SENHOR, a quem nem os construtores do salmo nem os ouvintes do templo tinham dado a última palavra.

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Mateus 21:42

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