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Mateus 21:16

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 28 acessos
e lhe perguntaram: “Você ouve o que estas crianças estão dizendo?” “Ouço”, respondeu Jesus; “vocês nunca leram: ‘Da boca das crianças e dos recém-nascidos tiraste perfeito louvor’?”
No pátio do templo de Jerusalém, meninos gritam com os braços erguidos enquanto sacerdotes de túnicas finas, indignados, apontam para eles diante de Jesus, que os ouve com calma.

Estudo


e lhe perguntaram: “Você ouve o que estas crianças estão dizendo?” “Ouço”, respondeu Jesus; “vocês nunca leram: ‘Da boca das crianças e dos recém-nascidos tiraste perfeito louvor’?”

1. Introdução

Os chefes dos sacerdotes querem que Jesus mande as crianças calarem, e ele responde com uma palavra e um salmo. O “Ouço” não recua nem discute: admite que ouviu e deixa a aclamação de pé. A citação é do Salmo 8:2, e Mateus a traz pela tradução grega, que diz “louvor” onde o hebraico diz “força”. A metade do verso que Jesus não recita fala de fazer calar o inimigo. E o salmo é atribuído a Davi — usado aqui para defender quem chama Jesus de Filho de Davi.

2. Contexto Histórico e Cultural

A Bíblia que Mateus cita aqui

A frase do salmo, em Mateus, é a da Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita por judeus do Egito a partir do século III a.C.), palavra por palavra. Não é a do texto hebraico, e não é uma tradução nova feita a partir dele.

Os tradutores dos Salmos não se limitavam a trocar palavras. No próprio Salmo 8 isso aparece logo no título. O hebraico traz uma indicação musical de sentido incerto, “sobre a gitite” (talvez um instrumento, talvez uma melodia ligada à cidade de Gate). O grego leu ali a palavra hebraica para “lagar”, onde se pisa a uva, e escreveu “sobre os lagares”. Uma rubrica de música virou cena de colheita.

Como a “força” virou “honra” e “louvor”

A troca do Salmo 8:2 tem um padrão por trás. Nos salmos de culto, a palavra hebraica para “força” aparece colada à palavra “glória”: “Atribuam ao SENHOR glória e força” (Salmo 29:1; o mesmo par em Salmo 96:7). Nos dois lugares, a Septuaginta traduziu “glória e honra”. Para quem traduzia, a força que o fiel “atribui” a Deus no culto era uma forma de honrá-lo — algo que se diz, não algo que se tem.

No Salmo 8:2 o tradutor deu um passo a mais. A força ali vem “da boca” de crianças. Uma força que sai da boca, ele entendeu como fala, e a fala dirigida a Deus como louvor. A leitura é interpretação, e não erro de cópia.

Ela não foi a única leitura em circulação. O Targum dos Salmos (a tradução aramaica, feita para ser lida em voz alta na sinagoga) manteve “força”. No primeiro século, portanto, um judeu podia conhecer o verso nas duas formas, conforme a língua em que o ouvia.

Crianças que cantaram depois da travessia

O verso tinha também uma história de leitura dentro do judaísmo. O livro da Sabedoria (texto judaico escrito em grego, provavelmente em Alexandria, no século I a.C.) recorda a passagem do mar e diz que os justos cantaram e louvaram juntos a mão que lutou por eles, “porque a sabedoria abriu a boca dos mudos e tornou claras as línguas dos pequeninos” (Sabedoria 10:21). A palavra grega para “pequeninos” é a mesma da citação de Mateus.

O Talmude torna a ligação explícita. No tratado Sotá 30b, Rabi Yosei, o galileu (mestre do século II), ensina que no mar até o bebê no colo e o que mamava cantaram — e prova a afirmação com este mesmo verso: “Da boca de pequeninos e de bebês de peito fundaste força”. A cena dos bebês no mar está desenvolvida no estudo de Êxodo 15:2.

O alcance disso precisa ser medido. O livro da Sabedoria não cita o Salmo 8; a ligação com ele é de vocabulário e de cena. O Talmude foi redigido séculos depois de Mateus, e não se pode afirmar que a leitura de Rabi Yosei já circulasse no tempo de Jesus. O que os dois textos mostram é uma tendência que atravessa a tradição judaica: o Salmo 8:2 foi lido como o verso das crianças que louvam a Deus na hora de uma grande libertação. Mateus o põe na boca de Jesus no dia da entrada em Jerusalém, com o Hosana ainda no ar.

3. Análise Teológica do Versículo

“e lhe perguntaram: ‘Você ouve o que estas crianças estão dizendo?’”

A pergunta não pede informação. Os meninos estão gritando no templo, e quem pergunta sabe que Jesus ouve. O que a frase faz é pôr a responsabilidade no ouvinte: se ele ouve e não manda parar, aceita o que está sendo dito.

O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) observa que os sacerdotes perceberam a homenagem que o grito continha, e que para eles aquilo se aproximava da blasfêmia. A queixa, portanto, não é de barulho: é de conteúdo.

Há uma ironia jurídica na queixa. Para a lei judaica do período, a fala de um menor não tinha valor: ele não servia de testemunha nem fazia voto válido. Juridicamente, o grito das crianças não contava. Os chefes dos sacerdotes se preocupam justamente com uma fala que, pelas regras deles mesmos, não valia nada. É sinal de que a regra não dava conta do que estavam ouvindo.

“‘Ouço’, respondeu Jesus”

É a resposta mais curta que Jesus dá a uma autoridade em todo o evangelho. Ele não nega que ouve, não diz que não pediu aquilo, não tenta explicar o grito. Admite e não manda calar.

Os comentaristas leram o tom de jeitos diferentes. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) entende que o “sim” significa aprovação: ele ouvia e concordava. O Expositor's Greek Testament (“Testamento Grego do Expositor”, comentário britânico do início do século XX) ouve na palavra um prazer quase bem-humorado diante da aflição dos guardiões do decoro, que se escandalizavam com meninos e não com o comércio que, poucas horas antes, ocupava o templo.

O contraste com o resto de Mateus pesa. Em Mateus 12:16 e em Mateus 16:20, Jesus manda que não o tornem conhecido e que não digam que ele é o Cristo. Aqui ninguém recebe ordem de silêncio. A palavra que admite ter ouvido é, na prática, a palavra que deixa o título correr.

“vocês nunca leram”

A fórmula, e o hábito de Mateus de usá-la contra especialistas que deixaram um trecho da Escritura de fora, estão no estudo de Mateus 19:4. O que este versículo acrescenta é o destinatário. Aqui ela não vai para fariseus em debate de estrada, e sim para sacerdotes e mestres da lei dentro do templo, onde os salmos eram cantados todo dia. Perguntar a eles se nunca leram um salmo é o golpe mais seco que a fórmula dá em todo o evangelho.

“Da boca das crianças e dos recém-nascidos”

O salmo vai mais fundo que a cena. Quem grita no templo são meninos capazes de gritar; o verso fala de crianças pequenas e de bebês que ainda mamam. A desproporção é o argumento. Se Deus tira louvor até de quem mal fala, não há objeção séria contra meninos que falam.

Os comentaristas judeus da Idade Média já discutiam como bebês poderiam louvar. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII) registra a opinião de um mestre anterior, Moisés ibn Gikatilla, para quem os bebês louvam sem falar: o corpo deles, alimentado e crescendo, já é testemunho. Radak (David Kimchi, comentarista da Provença, por volta de 1200) põe o primeiro sinal no ato de mamar e diz que ele desmente quem atribui tudo à natureza e ao acaso. Rashi (comentarista francês do século XI) lê os “bebês” como imagem dos levitas e sacerdotes que cantam no templo. O verso hebraico era difícil — a tradução da Jewish Publication Society (a editora judaica norte-americana da Bíblia) anota que o sentido dele é incerto.

Há ainda o eco de Mateus 11:25. A palavra que o salmo usa para as crianças é a mesma com que Jesus agradece ao Pai por ter escondido as coisas “dos sábios e entendidos” e as revelado “aos pequeninos”. No templo, a frase vira cena: os mestres da lei de um lado, os pequeninos do outro.

“tiraste perfeito louvor”

O hebraico diz outra coisa. Diz que da boca dessas crianças Deus “fundou força”, isto é, ergueu uma defesa, como quem lança o alicerce de uma muralha. O grego diz que Deus “preparou louvor” — e o verbo grego é o de ajustar e completar, o mesmo que Mateus usa para os pescadores consertando as redes (Mateus 4:21). Mudam as duas coisas: o que Deus faz e o que sai da boca.

A pergunta inevitável é se o argumento depende da versão grega. Há duas respostas, e as duas têm peso.

Primeira leitura: depende. Se Jesus falava aramaico e citava o salmo em hebraico, o que os ouvintes escutaram foi “força”, e a ligação com o grito das crianças fica menos imediata. O diálogo, como Mateus o registra, teria ganhado a forma final em comunidades que liam a Bíblia em grego. É a posição de boa parte da crítica moderna.

Segunda leitura: não depende. A “força” do hebraico sai da boca — é força feita de voz. Rashi a entende como ação de graças cantada; a própria Septuaginta, em outros salmos, trata a força atribuída a Deus como honra. Nos dois textos, a ideia central é a mesma: Deus faz da voz dos mais fracos alguma coisa que serve a ele. O grego só a deixa mais explícita.

Não é possível decidir. O que se pode afirmar é o que está no texto: Mateus cita o grego sem mudar uma palavra, e o grego é a versão que encaixa na cena.

O que a citação deixa de fora

Jesus para no meio do verso. O salmo continua: “por causa dos que te afrontam, para fazer calar o inimigo e o vingador”.

Quem sabia o salmo de cor completava a frase sozinho. E o papel que sobra, na metade não dita, é o do inimigo que precisa ser calado. Os sacerdotes pediram que as crianças se calassem; o salmo diz que a boca das crianças é que cala o inimigo. Vários comentaristas modernos leem a citação assim, como acusação feita pelo silêncio. É leitura plausível, e Mateus não a enuncia.

Um salmo de Davi para o Filho de Davi

As crianças gritam “Filho de Davi”, e a resposta vem de um salmo atribuído a Davi. Há um passo mais ousado, e ele precisa de cuidado. O Salmo 8 louva o nome de Deus. Jesus usa um verso sobre o louvor dirigido a Deus para defender uma aclamação dirigida a ele. Leitores antigos viram nisso uma afirmação de quem ele é. O texto não diz que o louvor das crianças era para ele: diz que Deus prepara louvor da boca delas. Se esse louvor sobe a Deus por meio do grito ao Filho de Davi, ou se tem outro alvo, permanece em aberto.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os chefes dos sacerdotes

Não são os sacerdotes comuns, que se revezavam no serviço do templo em turnos de uma semana. São o topo da hierarquia: o sumo sacerdote em exercício, os que já tinham ocupado o cargo e os membros das poucas famílias que o disputavam. Controlavam o templo, o tesouro e a polícia do recinto. Em Mateus, é a primeira vez que eles falam diretamente com Jesus; até aqui só tinham aparecido no anúncio da paixão (Mateus 16:21 e 20:18).

Os mestres da lei

São os especialistas no texto: copiavam, ensinavam e interpretavam a Escritura. Por isso a pergunta “vocês nunca leram?” os atinge no ofício.

As crianças

São os meninos do versículo anterior, onde estão descritos. Neste versículo eles não falam diretamente: são objeto da conversa entre adultos. Não são nomeados, não são interrogados e, depois daqui, não voltam a aparecer.

Davi, o salmista

O Salmo 8 traz no título “salmo de Davi”. Os títulos foram acrescentados à coleção em época difícil de fixar, e a autoria real de cada poema é discutida; para os ouvintes do primeiro século, porém, o salmo era de Davi, e é assim que ele entra na cena.

O momento

É a última troca de palavras do dia. Logo depois, Jesus deixa a cidade (Mateus 21:17). As mesmas autoridades voltarão na manhã seguinte com outra pergunta, sobre a autoridade dele (Mateus 21:23).

5. Pontos de Ensino

1. A resposta não cala ninguém

Pediram a Jesus que interrompesse uma manifestação, e ele não interrompeu. A palavra dele não corrige as crianças, não modera o grito e não pede que o assunto seja levado para outro lugar. O único gesto é admitir que ouviu.

2. A Escritura usada para proteger quem não tem voz

Os especialistas em Escritura queriam silêncio. A Escritura foi trazida a favor dos que não tinham posição nem valor jurídico. O uso do texto sagrado, aqui, vai na direção contrária à de quem tinha o ofício de interpretá-lo.

3. O louvor não depende da qualificação de quem louva

O salmo não diz que Deus aceita o louvor das crianças apesar da idade delas. Diz que ele o prepara justamente ali, na boca de quem não tem preparo. O critério dos sacerdotes era a credencial de quem fala; o critério do salmo é a obra de Deus em quem fala.

4. O que não se diz também fala

A citação para antes da parte sobre o inimigo. Quem conhecia o salmo ouvia a parte calada. Ensinar pela metade de uma frase conhecida é recurso de quem confia que o ouvinte sabe o resto — e, no caso, de quem confia que o ouvinte vai perceber em que papel foi posto.

6. Aspectos Filosóficos

Quem decide que uma fala conta

A cena é uma disputa sobre a validade de uma voz. De um lado, os que têm o ofício de dizer o que é certo dizer no templo. Do outro, meninos sem posição, repetindo um grito que ouviram na rua. A pergunta “você ouve o que estes estão dizendo?” não discute o conteúdo do grito; discute se aquela gente tem direito de dizê-lo ali.

O brasileiro Rubem Alves (1933-2014), teólogo presbiteriano, psicanalista, educador e cronista, pensou esse problema por dois lados, em momentos diferentes da obra.

A reta doutrina

Em Protestantismo e repressão (1979), Alves descreveu um tipo de comunidade religiosa a que deu o nome de “protestantismo da reta doutrina”. A marca dela é privilegiar a concordância com um conjunto de fórmulas doutrinárias, tomadas como expressão da verdade e afirmadas sem sombra de dúvida, como condição para pertencer à comunidade. Alves construiu esse tipo como modelo de medida, para estudar o protestantismo brasileiro do seu tempo.

A consequência que ele tira é a que interessa à cena. Onde a fé é definida como conhecimento correto, alguém precisa conferir a correção, e essa conferência vira controle de quem pode falar. A fala sem credencial é suspeita por definição, mesmo antes de se saber o que ela diz.

Os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei não eram protestantes, e a transposição é nossa, não de Alves. Mas a estrutura da pergunta deles é a que ele descreveu: o problema do grito não é estar errado; é vir de quem não foi autorizado. A resposta de Jesus não discute a autorização. Vai a um texto que a dispensa.

A transposição tem um limite: o medo dos sacerdotes também tinha base política, e ler a cena só como repressão doutrinária apaga esse dado.

As duas caixas

Mais tarde, já cronista e educador, Alves cunhou uma imagem que ficou conhecida. Cada pessoa carrega duas caixas. Numa mão, a caixa de ferramentas: as coisas que servem para alguma outra coisa — a técnica, o poder, o trabalho, os meios de vida. Na outra, a caixa de brinquedos: as coisas que não servem para nada além de si mesmas, e que por isso dão razão de viver. As ferramentas são necessárias, mas não justificam a vida; servem, no máximo, de chave para abrir a outra caixa. Ele mesmo dizia ter tirado a ideia da distinção de Agostinho entre usar uma coisa e desfrutá-la.

A cena do templo se deixa ler pelas duas caixas. Os sacerdotes ouvem o grito como ferramenta: uma reivindicação política, com consequências calculáveis. O salmo o trata como louvor, e louvor é coisa da outra caixa. Não produz nada, não prova nada, não serve de testemunho em tribunal nenhum. É exatamente por isso que a boca das crianças é o lugar onde Deus o “completa”.

Onde as caixas não se separam

O problema filosófico aparece quando se tenta manter as duas caixas separadas. O grito “Hosana ao Filho de Davi” não é brinquedo inocente: ele nomeia um rei. O que era festa para os meninos era ameaça para quem governava o templo, e as duas leituras estavam certas ao mesmo tempo.

Uma fala gratuita pode ter efeitos que não são gratuitos. Alves insistia que é na caixa de brinquedos que a alma se forma; o versículo acrescenta que é dela que sai, às vezes, a palavra que as ferramentas não conseguem controlar.

Jesus não resolve a tensão. Não diz que o grito é brincadeira inofensiva, nem que é programa de governo. Põe o grito dentro de um salmo, e o salmo atribui a fala dos pequenos à obra de Deus — o que tira a discussão do terreno em que os sacerdotes a tinham posto.

7. Aplicações Práticas

Quando pedem que você cale um entusiasmo que constrange

A cena tem uma forma que se repete em qualquer comunidade: alguém com autoridade se incomoda com a manifestação de gente sem autoridade e pede a quem está no centro que a contenha. O pedido costuma vir educado, em forma de pergunta — “você está ouvindo isso?”.

O versículo não ensina que todo entusiasmo deve ser deixado correr. Ensina outra coisa, mais estreita: que a falta de credencial de quem fala não é, por si, motivo para calá-lo. Antes de atender ao pedido, a pergunta honesta é sobre o que está sendo dito, e não sobre quem o diz.

Crianças nas comunidades de fé

Em muitas igrejas a criança é tratada como público a ser contido durante o culto dos adultos. O salmo citado aqui faz o contrário: põe a boca da criança como lugar onde Deus prepara o louvor. Isso não autoriza qualquer barulho, mas inverte a pergunta de partida. Em vez de “como fazer as crianças não atrapalharem?”, a pergunta passa a ser “o que elas estão dizendo que nós não estamos ouvindo?”.

Saber em qual tradução o seu argumento se apoia

Esta é a aplicação mais concreta para quem lê a Bíblia. O versículo cita uma tradução, e a tradução diz algo diferente do original. Quando você monta um argumento sobre uma palavra de um versículo — e isso é comum em sermões e discussões —, confira se a palavra está no original ou só na versão que você lê. Às vezes o argumento sobrevive à conferência, como provavelmente sobrevive aqui; às vezes desaparece. Em qualquer caso, você passa a saber em que chão está pisando.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Havia mesmo bebês gritando no templo?

Provavelmente não, e o texto não diz isso. O versículo anterior fala de meninos capazes de gritar. A expressão “crianças e recém-nascidos” é do salmo, não da descrição da cena.

Ainda assim, a distância é menor do que parece. No mundo antigo a criança mamava por muito mais tempo que hoje. Em 2 Macabeus 7:27, a mãe dos sete irmãos lembra ao filho que o amamentou por três anos. Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista alemão do século XVIII) usa esse dado para dizer que “os que mamam” podiam ser crianças que já falavam. O Expositor's Greek Testament adverte contra ler a frase como se crianças de colo estivessem entre os que gritavam. As duas observações são compatíveis: o salmo fala da idade mais baixa, e a cena tem meninos um pouco maiores.

Os sacerdotes responderam?

Mateus não registra resposta nenhuma. A troca termina com a pergunta de Jesus, e no versículo seguinte ele já está saindo da cidade. A ausência de réplica pode ser lida como derrota no debate ou como recusa em continuar. O texto mostra só que, na manhã seguinte, as autoridades voltam com outra pergunta, mais perigosa, sobre a origem da autoridade dele.

O salmo era lido como profecia sobre o Messias?

Não há sinal de que fosse, no judaísmo do período. O Salmo 8 era lido como hino à criação e à dignidade do ser humano. Foi o cristianismo que o aplicou a Jesus — e não por este verso, e sim pelos versos seguintes, sobre o “filho do homem” a quem tudo foi submetido, usados na carta aos Hebreus e por Paulo.

9. Conexão com Outros Textos

O verso citado, nas duas formas

Salmo 8:2 (no hebraico) — “Da boca de pequeninos e de bebês de peito fundaste força, por causa dos que te afrontam, para fazer calar o inimigo e o vingador.”

Salmo 8:2 (na Septuaginta) — “Da boca de pequeninos e de lactentes preparaste louvor, por causa dos que te são inimigos, para destruir o inimigo e o vingador.”

A primeira metade é a que Jesus cita, na forma grega; a segunda é a que fica sem ser dita.

Os pequeninos depois do mar

Sabedoria 10:20-21 — “Cantaram hinos, Senhor, ao santo nome e louvaram juntos a mão que lutou por eles; porque a sabedoria abriu a boca dos mudos e tornou claras as línguas dos pequeninos.”

Texto judaico anterior a Jesus, com a mesma palavra grega para “pequeninos”.

O que foi escondido dos sábios

Mateus 11:25 — “Naquele tempo Jesus disse: Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.”

A oração que o capítulo 11 faz em particular, o templo encena em público.

O pedido de silêncio em Lucas

Lucas 19:39-40 — “Alguns dos fariseus que estavam no meio da multidão lhe disseram: ‘Mestre, repreenda os seus discípulos.’ Ele respondeu: ‘Digo a vocês: se eles se calarem, as pedras clamarão.’”

Mesmo dia, outro lugar, outra resposta. Em Lucas, a alternativa às vozes humanas são as pedras; em Mateus, são as vozes humanas menos qualificadas.

Outro argumento construído sobre a forma grega

Hebreus 10:5 — “Por isso, ao entrar no mundo, ele diz: ‘Sacrifício e oferta não quiseste, mas um corpo me preparaste.’”

A carta cita o Salmo 40:6 pela Septuaginta. O hebraico diz “abriste os meus ouvidos”; o grego diz “um corpo me preparaste”. Nos dois casos, o argumento do Novo Testamento repousa sobre o texto grego.

A outra vez em que aparece a palavra “louvor”

Lucas 18:43 — “Imediatamente ele recuperou a vista e o seguia, glorificando a Deus; e todo o povo, vendo isso, deu louvor a Deus.”

Em Lucas, a última cura antes da subida a Jerusalém termina com o povo dando louvor; em Mateus, o louvor vem das crianças, depois das curas no templo.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

e lhe perguntaram: “Você ouve o que estas crianças estão dizendo?” “Ouço”, respondeu Jesus; “vocês nunca leram: ‘Da boca das crianças e dos recém-nascidos tiraste perfeito louvor’?”

Texto grego

καὶ εἶπον αὐτῷ, Ἀκούεις τί οὗτοι λέγουσιν; ὁ δὲ Ἰησοῦς λέγει αὐτοῖς, Ναί· οὐδέποτε ἀνέγνωτε ὅτι Ἐκ στόματος νηπίων καὶ θηλαζόντων κατηρτίσω αἶνον;

Transliteração

kai eipon autō, Akoueis ti houtoi legousin? ho de Iēsous legei autois, Nai; oudepote anegnōte hoti Ek stomatos nēpiōn kai thēlazontōn katērtisō ainon?

O Textus Receptus (“texto recebido”, a edição grega que a ABC segue) traz eipon, “disseram”; as edições críticas modernas trazem eipan. São duas grafias do mesmo tempo verbal, e o sentido não muda. A citação do salmo coincide letra por letra com a Septuaginta do Salmo 8:3 (numeração grega e hebraica; 8:2 nas Bíblias em português).

Análise palavra por palavra

καὶ εἶπον αὐτῷ — kai eipon autō, “e disseram a ele”. Aoristo de legō, “dizer”. O sujeito são os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei do versículo anterior; a frase continua a que começou no versículo 15, e a ABC a abre com letra minúscula por isso.

Ἀκούεις — akoueis, “você ouve?”. Presente do indicativo de akouō, segunda pessoa do singular. O presente descreve a ação em curso: “você está ouvindo, agora, isto?”.

τί οὗτοι λέγουσιν — ti houtoi legousin, “o que estes dizem”. Houtoi, “estes”, está no masculino plural. Concorda com os meninos do versículo 15, e não com o diminutivo neutro que Mateus usa para crianças pequenas nos capítulos 18 e 19. A ABC escreve “estas crianças” para deixar claro de quem se fala; o grego diz só “estes”, e o demonstrativo, apontando para gente presente, tem um tom de distância.

ὁ δὲ Ἰησοῦς λέγει αὐτοῖς — ho de Iēsous legei autois, “e Jesus lhes diz”. O verbo está no presente, embora a cena seja passada. É o presente histórico, que põe a fala diante do leitor como se acontecesse agora.

Ναί — nai, “sim”. Partícula de afirmação. O grego responde com “sim”; o português costuma responder repetindo o verbo da pergunta, e a ABC fez isso: “Você ouve?” — “Ouço”. A tradução é exata no sentido e conserva o tamanho da resposta, que é de uma palavra nos dois idiomas.

οὐδέποτε ἀνέγνωτε — oudepote anegnōte, “nunca leram”. Oudepote soma oude, “nem”, e pote, “alguma vez”: “nem uma vez”. Anegnōte é aoristo de anaginōskō, verbo formado de ana, “de novo”, e ginōskō, “conhecer”. Na origem, “reconhecer” as letras; no uso, “ler”, quase sempre em voz alta.

O advérbio faz diferença. Nas outras ocorrências da fórmula em Mateus o grego diz apenas “não leram” (Mateus 12:3, 12:5, 19:4 e 22:31, com ouk). O “nunca” aparece só aqui e em Mateus 21:42 — as duas vezes no templo, na mesma semana, diante dos chefes dos sacerdotes.

Ἐκ στόματος — ek stomatos, “da boca”. Ek indica origem, o ponto de onde algo sai. Stoma é a boca como órgão da fala.

νηπίων — nēpiōn, “de pequeninos, de crianças pequenas”. Genitivo plural de nēpios. Na origem da palavra os estudiosos divergem: a explicação antiga a decompõe em nē-, negação, e epos, “palavra” — “o que ainda não fala”, exatamente como o latim infans, de onde vem “infante”. Outros a ligam a um adjetivo que significa “brando”. Se a primeira explicação for a certa, o salmo diz que o louvor sai da boca de quem não fala.

Em Mateus 11:25 a palavra é positiva; em Paulo costuma nomear a imaturidade que precisa ser deixada para trás (1 Coríntios 13:11).

καὶ θηλαζόντων — kai thēlazontōn, “e dos que mamam”. Particípio presente de thēlazō, formado sobre thēlē, “mamilo”. O verbo serve aos dois lados do ato: na voz ativa com mãe por sujeito, é “amamentar” — Mateus 24:19, “ai das que estiverem amamentando naqueles dias” —; com a criança por sujeito, é “mamar”. A ABC traduz por “recém-nascidos”, que cobre bem o sentido, embora a palavra grega descreva a criança pelo que ela faz, e não pela idade.

κατηρτίσω — katērtisō, “preparaste, completaste”. Aoristo médio de katartizō, segunda pessoa do singular. O verbo é formado de kata, com força de acabamento, e artizō, “ajustar, pôr em ordem”. Significa deixar algo pronto e em condição de funcionar: em Mateus 4:21 são as redes que os pescadores consertam; em Gálatas 6:1, a pessoa que se “restaura”; em Hebreus 11:3, os mundos “formados” pela palavra de Deus.

A voz média acrescenta uma nuance: Deus prepara o louvor para si mesmo. A forma exata, katērtisō, reaparece em Hebreus 10:5 (“um corpo me preparaste”), também tirada da Septuaginta e também diferente do hebraico.

No Salmo 8 este verbo traduz o hebraico yissadta, “fundaste”, de yasad, o verbo de lançar alicerces. A ABC escolheu “tiraste”, que acompanha a ideia de origem expressa por “da boca”; “perfeito” vem da tradição das traduções portuguesas, que leram em katartizō o sentido de “aperfeiçoar”.

αἶνον — ainon, “louvor”. Acusativo de ainos. No grego clássico a palavra tinha dois sentidos: “elogio” e “história com lição”, o conto que diz uma coisa para ensinar outra — Hesíodo chama de ainos a fábula do gavião e do rouxinol, em Os trabalhos e os dias. Na Septuaginta ficou com o primeiro sentido e virou palavra de culto. No Novo Testamento só aparece aqui e em Lucas 18:43.

No Salmo 8 ela está no lugar do hebraico oz, “força, poder, fortaleza”. A troca entre as duas palavras é o centro da leitura deste versículo, e as consequências dela estão no item 3.

11. Conclusão

Com base no que o versículo mostra, conclui-se primeiro que a disputa não era sobre o que as crianças diziam, e sim sobre quem tinha direito de dizê-lo no templo. As autoridades não contestam o conteúdo do grito; pedem que ele pare. E Jesus também não o defende pelo conteúdo: defende-o pela origem, ao dizer que é Deus quem prepara louvor na boca dos pequenos.

Conclui-se, em segundo lugar, que a resposta é feita mais do que é dita. Uma palavra admite, uma pergunta devolve a acusação, e metade de um verso fica de fora para que os ouvintes a completem. Quem perguntou saiu da conversa com o salmo inteiro na cabeça, inclusive a parte sobre o inimigo que é calado.

Em terceiro lugar, o versículo deixa uma questão que não fecha: o argumento de Mateus repousa sobre a forma grega do salmo, e a forma hebraica diz outra coisa. As duas convergem na ideia de que Deus usa a voz dos fracos, mas divergem no que essa voz produz — defesa num caso, louvor no outro. O evangelho escolheu o louvor, e a escolha faz parte do que ele quer dizer sobre a cena.

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