Então os deixou e, saindo da cidade, foi para Betânia, onde passou a noite.
1. Introdução
O dia que começou com a entrada aclamada termina com Jesus saindo da cidade. Ele deixa os chefes dos sacerdotes sem resposta à pergunta que lhes fez, atravessa as muralhas e vai dormir em Betânia, uma aldeia do outro lado do monte das Oliveiras. Mateus não diz em casa de quem ele ficou, e o verbo de “passar a noite” admite duas leituras: pousar numa casa ou acampar ao relento. A Jerusalém da Páscoa, lotada de peregrinos e vigiada por quem já o queria longe, ajuda a entender a escolha. É um versículo de trânsito, e o que ele cala pesa tanto quanto o que diz.
2. Contexto Histórico e Cultural
Uma cidade que não cabia em si
Na semana da Páscoa, Jerusalém recebia gente de toda a Judeia, da Galileia e da diáspora. Quantos eram, ninguém sabe com segurança, e as fontes antigas que dão números são pouco confiáveis.
O Talmude guarda duas lembranças que mostram como a lotação era sentida. No tratado Pesachim 64b, conta-se que o rei Agripa quis saber quantos eram os israelitas e pediu ao sumo sacerdote que contasse os cordeiros da Páscoa: tirou-se um rim de cada animal, e chegou-se a seiscentos mil pares — “o dobro dos que saíram do Egito”, e cada cordeiro alimentava pelo menos dez pessoas. Aquela ficou conhecida como “a Páscoa dos apertados”. O mesmo trecho lembra outra, dos dias de Hillel, em que um velho morreu esmagado no pátio do templo: “a Páscoa do esmagado”.
Os números são lendários e devem ser lidos como tal. O que as histórias registram é a impressão de uma cidade que, uma vez por ano, recebia muito mais gente do que comportava.
As estimativas modernas variam muito, mas concordam num ponto: durante a festa, a gente de fora superava em várias vezes a gente da cidade.
Onde dormia tanta gente
A tradição judaica transformou a hospedagem em Jerusalém em artigo de fé. A Mishná, no tratado Avot 5:5, enumera dez milagres que aconteciam no templo, e o último é este: “ninguém jamais disse ao seu companheiro: o lugar é apertado demais para que eu pernoite em Jerusalém”. O verbo hebraico ali é o do pernoite, o mesmo que a Bíblia grega costuma traduzir pela palavra que Mateus usa neste versículo.
Um milagre só se enumera quando a coisa não era óbvia. O que a lista celebra é que, apesar da lotação, todos achavam onde ficar. Na prática, os peregrinos se espalhavam por casas, pátios, terraços, tendas armadas nas encostas e aldeias vizinhas. Para que a refeição pascal pudesse ser feita dentro da cidade, os limites legais de Jerusalém eram contados de forma ampla. Betânia ficava fora deles: quem dormia lá, dormia fora de Jerusalém em todos os sentidos. Onde passava a fronteira, e o que ela implica para a noite da ceia, está no estudo de Mateus 21:1.
A noite como hora de perigo
Quem incomodava as autoridades estava mais exposto à noite que de dia. De dia, no templo, havia multidão, e a multidão protegia: Mateus 26:5 registra que os chefes dos sacerdotes não queriam prendê-lo durante a festa, “para não haver tumulto entre o povo”. À noite, numa cidade abarrotada, um homem podia ser apanhado sem testemunhas. Sair dos muros ao fim do dia era o modo mais simples de não estar onde os adversários esperavam.
3. Análise Teológica do Versículo
“Então os deixou”
A conversa do versículo anterior termina com uma pergunta de Jesus, e a pergunta fica no ar. Ninguém responde, e ele não espera. A saída deixa os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei com o salmo inacabado nas mãos.
Um comentário latino anônimo do século V, conhecido como Opus imperfectum in Matthaeum (“Obra incompleta sobre Mateus”, por muito tempo atribuído a João Crisóstomo), resume a lógica do gesto numa máxima: o homem mau se vence melhor cedendo-lhe o lugar do que respondendo-lhe, porque a repreensão não instrui a maldade, apenas a atiça. É leitura moral do comentarista; Mateus só registra que ele foi embora.
O mesmo particípio grego fecha a discussão de Mateus 16:4, onde Jesus deixa os que lhe pediam um sinal; ali o estudo trata do peso desse “deixar para trás”. Aqui a saída tem uma diferença. Em Mateus 16:4 ela vem depois de uma recusa; neste versículo vem depois de uma vitória. Ele não sai expulso nem derrotado: sai quando a última palavra é dele.
“e, saindo da cidade”
O dia foi o da cidade. Ela se agitou com a chegada dele (Mateus 21:10), as multidões o anunciaram como profeta, o templo foi esvaziado de vendedores e enchido de cegos, coxos e crianças. E ao fim desse dia ele não fica nela.
Os comentaristas deram três explicações, e cada uma diz uma coisa diferente sobre a cena.
Primeira leitura: pobreza e rejeição. Jerônimo (tradutor da Bíblia para o latim, século IV) escreve que o Senhor era tão pobre, e tão longe de bajular quem quer que fosse, que em toda aquela cidade não achou quem o hospedasse nem onde morar, e foi abrigar-se numa aldeia pequena. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) diz o mesmo de outro jeito: o rei não tinha casa na sua cidade real.
Segunda leitura: prudência. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) entende que ele saía em parte para não ser preso antes da hora, e em parte para afastar qualquer suspeita de que pretendia tomar a cidade e o governo.
Terceira leitura: recusa deliberada do poder. O mesmo Pulpit Commentary observa que a retirada impedia um levante a favor dele, que naquela concentração de gente poderia ter tido consequências enormes. Nesta leitura, sair da cidade é recusar o trono que a multidão do dia oferecia.
As três não se excluem, e o texto não escolhe entre elas. A primeira tem contra si um dado do próprio Mateus: Jesus tinha quem o recebesse — o capítulo 26 o mostrará à mesa numa casa de Betânia. A segunda e a terceira cabem no que o evangelho diz sobre o medo que as autoridades tinham do povo. Não é possível decidir.
“foi para Betânia”
Mateus nomeia o lugar e não diz mais nada. Não diz em casa de quem, não diz com quem, não diz se os discípulos foram junto. Em todo o evangelho, Betânia aparece só aqui e em Mateus 26:6, onde Jesus está “na casa de Simão, o leproso”.
Quase todos os comentaristas preenchem o espaço com o Evangelho de João, onde Betânia é a aldeia de Lázaro, Marta e Maria (João 11:1). Jerônimo diz que ele se hospedou na casa de Lázaro e das irmãs; Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) fala do descanso que ele encontrava na casa dos amigos queridos e que não achava na cidade cheia. É plausível. Mas Mateus nunca menciona Lázaro nem as irmãs, e o leitor que conhece só este evangelho não tem como saber disso.
Orígenes (teólogo de Alexandria, século III) foi por outro caminho. Lendo o nome da aldeia como “casa da obediência”, entendeu que Jesus deixa a cidade que o rejeita e vai para a casa dos que obedecem — a Igreja. É leitura alegórica, apoiada numa etimologia incerta, e diz mais sobre o método de Orígenes do que sobre o versículo.
“onde passou a noite”
O verbo grego que a ABC traduz por “passou a noite” tem uma ambiguidade real. Na origem ele é o verbo de pernoitar ao ar livre, no pátio ou no campo, como fazem pastores e soldados em marcha. No grego mais comum do período, já servia para qualquer pernoite.
O Pulpit Commentary reconhece que, levado ao sentido antigo, o verbo diria que Jesus passou a noite ao relento, mas acha que pode significar apenas “hospedar-se”. O Expositor's Greek Testament (“Testamento Grego do Expositor”, comentário britânico do início do século XX) é taxativo: certamente não ao ar livre, porque a casa de Marta e Maria estaria aberta para ele.
Há um dado a favor do relento. Lucas, descrevendo os mesmos dias, usa o mesmo verbo e diz onde: Jesus ensinava no templo de dia e, à noite, saía e “passava a noite no monte chamado das Oliveiras” (Lucas 21:37). Betânia fica na encosta desse monte. As duas informações podem ser a mesma coisa vista de perto e de longe, ou podem descrever noites diferentes — umas em casa, outras sob as oliveiras.
O texto não permite decidir. A ambiguidade tem consequência para o versículo seguinte: quem dorme numa casa de amigos costuma comer antes de sair; quem dorme no monte, não.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Betânia
Entre a aldeia e o templo ficava o monte das Oliveiras inteiro: quem dormia em Betânia dormia fora da vista da cidade. A localização exata e a distância estão no estudo de Mateus 21:1.
O nome é explicado de vários modos, e nenhum é seguro. As propostas mais citadas leem “casa do pobre” ou “casa da aflição”, “casa das tâmaras verdes” (uma explicação registrada no Talmude) e “casa de Ananias”, ligando a aldeia à povoação de Ananias que Neemias 11:32 situa no território de Benjamim.
A localização nunca se perdeu. Eusébio de Cesareia (historiador cristão do século IV), no seu repertório de lugares bíblicos, o Onomástico, registra Betânia junto ao segundo marco miliário de Jerusalém, na encosta do monte das Oliveiras, e diz que ali ainda se mostrava o lugar de Lázaro. Jerônimo, ao traduzir a obra para o latim, acrescentou que uma igreja tinha sido construída no local.
Não se deve confundi-la com a “Betânia, do outro lado do Jordão”, onde João Batista batizava (João 1:28), outro lugar com o mesmo nome.
Quem morava lá
Mateus só nomeia uma pessoa de Betânia: Simão, o leproso, em cuja casa Jesus será ungido (Mateus 26:6). O Evangelho de João põe na aldeia Lázaro e as irmãs, Marta e Maria (João 11:1; 12:1-3). Lucas conta uma visita de Jesus à casa de Marta e Maria sem nomear a aldeia (Lucas 10:38). E é “até perto de Betânia” que, no fim do Evangelho de Lucas, Jesus leva os discípulos antes de se separar deles (Lucas 24:50).
Jerusalém, a cidade que ele deixa
Mateus não escreve o nome: diz “a cidade”, como no versículo 10 e no versículo 18. Depois da entrada, Jerusalém não precisa de nome. É a cidade do templo, das autoridades que acabaram de ser desafiadas e das multidões da festa.
O evento
É a primeira das noites fora da cidade na última semana. Marcos conta a mesma saída de outro modo: no dia da entrada, Jesus vai ao templo, olha tudo ao redor e, “como já era tarde”, sai para Betânia com os doze (Marcos 11:11); a expulsão dos vendedores fica para o dia seguinte. Mateus junta a entrada, a expulsão, as curas e a discussão com as crianças no mesmo dia, e só então registra a saída.
5. Pontos de Ensino
1. A vitória não é o lugar onde se fica
O dia termina com os adversários sem resposta e as multidões a favor. É o ponto em que alguém se instalaria. Jesus sai. O versículo mostra que o momento de maior força pública não foi transformado em posse de nada.
2. Não responder também é resposta
A última palavra do confronto é uma pergunta que fica sem resposta, e ele não insiste. Deixar o adversário com a pergunta é diferente de vencê-lo pela insistência. A saída encerra a conversa sem humilhar ninguém em público.
3. O lugar de descanso fica fora do centro
O centro de tudo — o templo, as autoridades, a festa — fica para trás a cada noite. O descanso é procurado numa aldeia pequena, do outro lado de um monte. O texto não idealiza isso; apenas registra a geografia de quem tem trabalho na cidade e repouso fora dela.
4. O que Mateus não conta
Mateus não dá o nome do anfitrião, não descreve a noite, não informa conversas. Quem quer saber mais tem de ir a João ou a Lucas, e precisa saber que está indo. Ler este versículo bem inclui distinguir o que ele diz do que se costuma acrescentar a ele.
6. Aspectos Filosóficos
Sair de noite, quando a casa sossega
O versículo junta três coisas que a tradição espiritual cristã pensou juntas: sair, a noite e o abandono de um lugar onde se foi aclamado. Ninguém pensou essa combinação com mais rigor do que João da Cruz (1542-1591), frade carmelita espanhol, companheiro de Teresa de Ávila na reforma da ordem, poeta e um dos grandes autores da mística cristã.
A noite como caminho
O poema mais conhecido de João começa assim: “Numa noite escura, / com ânsias, em amores inflamada, / ó ditosa ventura!, / saí sem ser notada, / estando já minha casa sossegada”. A alma sai de casa de noite, sem que ninguém perceba, porque só de noite a casa está quieta o bastante para que se possa sair.
Nos tratados em que comentou o poema, a Subida do Monte Carmelo e a Noite escura, João deu à imagem um conteúdo preciso. A noite não é castigo nem tristeza: é a privação do gosto que a pessoa tem pelas coisas, inclusive pelas coisas boas e pelas consolações religiosas. Ele a chama de noite porque, enquanto se caminha nela, não se vê para onde se vai. E a resume nas frases do esboço do monte que desenhou para as suas monjas: “Para chegar a saborear tudo, não queira ter gosto em nada. [...] Para chegar ao que você não sabe, há de ir por onde não sabe”.
O gosto do êxito
A tese mais incômoda de João é esta: o apego mais difícil de largar não é o apego ao que é ruim, e sim ao que é bom. Uma pessoa larga com relativa facilidade o que a envergonha; o que ela não larga é o que a confirma — o reconhecimento, a sensação de estar no lugar certo, o fervor que os outros admiram. Para João, essas consolações são justamente o que precisa entrar na noite, porque quem caminha apoiado nelas está caminhando apoiado em si mesmo.
O dia de Mateus 21 foi o dia do gosto. Houve aclamação nas estradas, a cidade inteira perguntando quem ele era, crianças cantando no templo, adversários calados. E o versículo que fecha esse dia é o de uma saída: ele deixa a cidade, de noite, e vai para uma aldeia onde ninguém o aclama.
A leitura é nossa, não do texto. Mateus não diz que Jesus saiu para se desprender da glória do dia, e há explicações mais simples e mais prováveis para a saída — a lotação da cidade, o perigo. A filosofia de João da Cruz não explica o versículo; dá uma linguagem para o problema que ele deixa à vista: o que se faz com o êxito no fim do dia em que ele aconteceu.
Uma fuga noturna
A biografia de João tem uma cena que ele mesmo nunca relacionou com este versículo. Em dezembro de 1577, frades da ala da ordem que se opunha à reforma o sequestraram e o trancaram numa cela minúscula do convento de Toledo. Ali, sem luz, ele compôs boa parte do Cântico espiritual. Em agosto de 1578, de noite, desceu por uma janela com uma corda de cobertores e foi pedir abrigo às monjas reformadas da cidade, que o esconderam. Saiu de noite, sem ser notado, e passou a noite com amigas.
A coincidência com Betânia — uma saída ao fim do dia, uma casa amiga, em João até irmãs — é só isso, coincidência. Mas ela ajuda a ver que, em João, a noite nunca foi metáfora sem corpo. Ele sabia o que é atravessar uma cidade hostil no escuro.
O limite da comparação
Há um ponto em que João da Cruz e o versículo se separam. Para o místico, a noite é passagem de uma alma em direção a Deus, uma purificação de quem ainda está preso aos próprios gostos. O texto de Mateus não atribui a Jesus nenhuma purificação nem nenhum apego a ser vencido. A noite em Betânia é registrada como fato de itinerário. Quem a lê como noite espiritual está trazendo para o versículo uma categoria que veio quinze séculos depois.
O que a comparação deixa de pé é uma pergunta que vale para qualquer leitor: se a pessoa é capaz de sair do lugar onde foi aclamada no mesmo dia em que foi aclamada. João achava que essa capacidade não se adquire por esforço, mas por um esvaziamento que a própria vida se encarrega de produzir.
7. Aplicações Práticas
Sair depois de ganhar a discussão
Quem vence um debate costuma ficar para colher o resultado: repetir o argumento, ver o adversário reconhecer o erro, receber os cumprimentos. O versículo mostra outra conduta. Feita a pergunta que encerrava o assunto, Jesus foi embora. Na vida prática, isso tem uso concreto: há conversas que só pioram depois do ponto em que já foram ganhas, e reconhecer esse ponto é uma habilidade.
Ter um lugar fora do lugar de trabalho
O padrão da semana — de dia no templo, de noite fora da cidade — é o de alguém que não dorme no lugar onde trava as suas batalhas. Para quem trabalha num ambiente de pressão, a aplicação é direta e modesta: o descanso funciona melhor quando acontece num lugar que não pertence ao conflito. Betânia ficava a menos de uma hora a pé, e era outro mundo.
Escolher com quem passar a noite
Se a tradição que liga Betânia à casa de amigos estiver certa, Jesus passou as noites mais tensas da vida perto de gente que o queria bem, e não sozinho nem entre admiradores. O texto de Mateus não confirma isso. Mas a pergunta que a hipótese levanta é real: nas semanas difíceis, onde você passa as noites, e com quem?
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os discípulos foram com ele?
Mateus não diz. Marcos diz que sim: ele saiu para Betânia “com os doze” (Marcos 11:11). O versículo seguinte de Mateus supõe que estavam juntos de manhã, porque no versículo 20 os discípulos veem a figueira. Treze homens numa aldeia pequena, numa semana de festa, é também um argumento a favor de que nem todos dormissem dentro de uma casa.
Quantas noites ele passou em Betânia?
Não se sabe. Mateus registra só esta. Lucas fala de um costume — todas as noites no monte das Oliveiras (Lucas 21:37). Em Mateus 26:6 Jesus volta a estar em Betânia, dois dias antes da Páscoa. Na noite da ceia, vai ao Getsêmani, ao pé do mesmo monte, e é ali que o prendem (Mateus 26:36, 47). A sequência sugere uma rotina de várias noites fora da cidade, mas a contagem exata não está em nenhum evangelho.
Por que ele não ficou no templo, que era a “casa do Pai”?
Porque ninguém dormia no templo, além dos sacerdotes e levitas de serviço, que tinham alojamentos próprios. O templo fechava as portas à noite. A ideia de que Jesus poderia ter ficado ali não corresponde ao funcionamento do lugar.
A saída foi fuga?
O texto não dá nenhum sinal de pressa nem de medo. Os verbos são os de um deslocamento comum: deixou, saiu, foi, pernoitou. E ele volta na manhã seguinte para o mesmo templo, diante das mesmas autoridades (Mateus 21:23). Quem foge não volta de manhã ao lugar de onde fugiu. Prudência, porém, é diferente de fuga, e é plausível que a escolha do lugar levasse o perigo em conta.
Faz diferença saber se foi Lázaro quem o hospedou?
Para a leitura de Mateus, quase nenhuma. Mateus constrói a semana sem Lázaro, e a ressurreição de Lázaro — que em João é o motivo imediato da decisão de matar Jesus (João 11:53) — não existe neste evangelho. O leitor que importa a casa de Lázaro para Mateus 21:17 importa junto uma explicação da hostilidade das autoridades que Mateus não usa. Em Mateus, o que move as autoridades é o que aconteceu no templo naquele mesmo dia.
9. Conexão com Outros Textos
A outra vez em que ele “os deixou”
Mateus 16:4 — “Uma geração má e adúltera pede um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, exceto o sinal de Jonas.” Então os deixou e foi embora.
O mesmo particípio grego e o mesmo objeto. Lá a saída fecha uma recusa; aqui fecha uma vitória.
Deixar e pernoitar, na Bíblia grega
Rute 1:16 — “Rute respondeu: ‘Não me peça que a deixe e que volte atrás. Aonde você for, eu irei; onde você pernoitar, eu pernoitarei. O seu povo será o meu povo, e o seu Deus será o meu Deus.’”
Na Septuaginta, a frase de Rute usa os dois verbos de Mateus 21:17, “deixar” e “pernoitar”. Rute se recusa a deixar e promete pernoitar onde Noemi pernoitar; Jesus deixa os adversários e pernoita onde é recebido.
O costume daquela semana, em Lucas
Lucas 21:37 — “Durante o dia, Jesus ensinava no templo; e, saindo à noite, pernoitava no monte chamado das Oliveiras.”
O único outro lugar do Novo Testamento com o verbo deste versículo, e o argumento mais forte a favor das noites ao relento.
A mesma saída, contada por Marcos
Marcos 11:11 — “Jesus entrou em Jerusalém, no templo, e, depois de olhar tudo ao redor, como já era tarde, saiu para Betânia com os doze.”
Em Marcos, o primeiro dia acaba sem confronto; em Mateus, acaba depois dele.
A rotina, na boca de Jesus
Mateus 26:55 — “Naquela hora, Jesus disse à multidão: ‘Vocês saíram com espadas e porretes para me prender, como se eu fosse um bandido? Todos os dias eu me sentava no templo ensinando, e vocês não me prenderam.’”
De dia no templo, à vista de todos; a prisão vem de noite, fora da cidade.
O homem sem casa
Mateus 8:20 — “Jesus lhe respondeu: ‘As raposas têm tocas, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.’”
A frase da Galileia ganha corpo em Jerusalém: o rei aclamado de manhã dorme de favor, numa aldeia vizinha.
A casa de Betânia que Mateus nomeia
Mateus 26:6 — “Estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso,”
A única outra menção de Betânia em Mateus, e o único anfitrião da aldeia que este evangelho nomeia.
“Fora da cidade” no resto do Novo Testamento
Hebreus 13:12-13 — “Por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, sofreu fora da porta. Saiamos, pois, até ele, fora do acampamento, levando a sua desonra.”
Atos 7:58 — “e, lançando-o fora da cidade, o apedrejavam.”
A mesma expressão grega, “fora da cidade”, é a de Estêvão expulso para morrer; Hebreus faz do “fora da porta” um lugar teológico. Em Mateus 21:17 a saída é voluntária. A ligação é de leitor, não do texto.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Então os deixou e, saindo da cidade, foi para Betânia, onde passou a noite.
Texto grego
καὶ καταλιπὼν αὐτοὺς ἐξῆλθεν ἔξω τῆς πόλεως εἰς Βηθανίαν, καὶ ηὐλίσθη ἐκεῖ.
Transliteração
kai katalipōn autous exēlthen exō tēs poleōs eis Bēthanian, kai ēulisthē ekei.
O versículo não tem variante: o Textus Receptus (“texto recebido”, a edição grega que a ABC segue) e as edições críticas modernas trazem as mesmas palavras, com diferença só de pontuação.
Análise palavra por palavra
καὶ — kai, “e”. A ABC o traduz por “então”, que marca a sequência imediata da cena anterior.
καταλιπὼν — katalipōn, “tendo deixado, deixando para trás”. Particípio aoristo de kataleipō. O verbo e as suas ocorrências em Mateus estão analisados no estudo de Mateus 19:5. O que se acrescenta aqui é o uso na Septuaginta de Rute 1:16, onde ele aparece ao lado do verbo do fim deste versículo, “pernoitar”: “não me peça que a deixe [...] onde você pernoitar, eu pernoitarei”. Os dois verbos juntos formam, em Rute, a fórmula da lealdade; em Mateus, a do afastamento de uns e da permanência junto de outros.
αὐτοὺς — autous, “os”, “a eles”. Masculino plural: os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei, não as crianças.
ἐξῆλθεν ἔξω — exēlthen exō, “saiu para fora”. O verbo já contém a preposição “para fora” (ex-), e o advérbio exō a repete. A redundância é comum no grego e enfatiza a saída: não foi para outra parte da cidade, foi para além dela. A ABC desfaz a repetição, como o português exige.
τῆς πόλεως — tēs poleōs, “da cidade”. Polis, “cidade”, no genitivo pedido por exō. Sem nome, porque não precisa: desde o versículo 10, “a cidade” é Jerusalém.
εἰς Βηθανίαν — eis Bēthanian, “para Betânia”. Eis indica direção e chegada. Bēthania é a forma grega de um nome semítico começado por bet, “casa”, seguido de um segundo elemento cujo sentido é discutido (ver o item 4).
καὶ ηὐλίσθη — kai ēulisthē, “e pernoitou”. Aoristo de aulizomai, verbo que tem forma passiva e sentido ativo.
Ele vem de aulē, “pátio”, o espaço aberto e cercado diante da casa ou do estábulo. O sentido primeiro é passar a noite no pátio ou ao ar livre: é o que fazem os rebanhos no curral, os pastores com eles e os soldados acampados. O léxico de Thayer (dicionário de grego do Novo Testamento, do século XIX) registra a sequência: pernoitar no pátio, pernoitar ao relento, e por fim pernoitar em geral, hospedar-se.
Na Septuaginta, o verbo traduz quase sempre o hebraico lun, “passar a noite”, e aparece em cenas de hospitalidade: o levita e o sogro em Juízes 19, Rute e Noemi em Rute 1:16, Rute na eira em Rute 3:13. Um uso é especialmente bonito: no Salmo 30:5 (29:6 na numeração grega), “de tarde pernoita o choro, e de manhã vem a alegria” — o choro aparece como hóspede de uma noite só.
No Novo Testamento o verbo só aparece duas vezes, e as duas para Jesus na última semana: aqui e em Lucas 21:37, onde o lugar é o monte das Oliveiras. O sentido de “ao relento” é possível nos dois casos e não é obrigatório em nenhum.
ἐκεῖ — ekei, “ali”. Advérbio de lugar que retoma Betânia e fecha o versículo. Não diz mais do que o lugar: a casa, o anfitrião e a companhia ficam fora da frase.
11. Conclusão
Com base no que o versículo diz, e no que deixa de dizer, a primeira conclusão é que o dia de maior exposição pública de Jesus em Mateus termina com um afastamento, e não com uma ocupação. Ele teve a cidade a seu favor por um dia e não ficou nela. O que quer que tenha motivado a saída — prudência, falta de abrigo ou recusa de um trono oferecido —, o resultado é o mesmo: a aclamação não virou posse.
A segunda conclusão é sobre o modo de encerrar um confronto. O versículo anterior terminou com uma pergunta, e ninguém respondeu. Jesus não arrancou a resposta nem repetiu o argumento. O silêncio dos adversários foi deixado com eles.
A terceira é de método. Mateus dá o lugar e omite a casa, o anfitrião e o modo da noite. O que se costuma contar sobre Betânia — Lázaro, Marta, Maria, o jantar entre amigos — vem de outro evangelho. Ler Mateus 21:17 com fidelidade é aceitar que este evangelho deixou a noite em branco, e que a escolha de não preenchê-la também é dele.













