Quando ele entrou em Jerusalém, a cidade toda estremeceu, perguntando: “Quem é este?”
1. Introdução
O cortejo que vinha cantando pela estrada chega à cidade, e a cidade inteira se abala.
Mateus escolhe para essa reação o verbo do terremoto — o mesmo que ele vai usar para a terra no instante da morte de Jesus e para os guardas diante do túmulo vazio. Quem está dentro dos muros não sabe quem está chegando, e pergunta: “Quem é este?”.
Só Mateus registra essa cena. E ela devolve o leitor ao começo do evangelho, quando Jerusalém já tinha se perturbado com a notícia de um rei — só que agora a cidade vê o homem e não sabe o nome dele.
2. Contexto Histórico e Cultural
Uma cidade que conhecia terremoto de verdade
Jerusalém fica a pouco mais de vinte quilômetros, em linha reta, da grande fenda geológica que desce do Líbano pelo vale do Jordão até o mar Morto e o golfo de Ácaba. A terra treme ali com frequência, e a Bíblia guarda essa memória.
O livro de Amós data a pregação do profeta por um tremor: Amós 1:1 diz que ele viu as suas visões “dois anos antes do terremoto”, nos dias de Uzias, rei de Judá, no século VIII a.C. O episódio ficou tão marcado que, uns dois séculos depois, Zacarias 14:5 ainda o usa como medida de pânico: “vocês fugirão como fugiram do terremoto nos dias de Uzias”. Ninguém precisava explicar de qual terremoto se tratava.
A arqueologia acrescenta um tremor mais próximo do tempo de Jesus. Em Qumran, junto ao mar Morto, Roland de Vaux (o dominicano francês que escavou o sítio nos anos 1950) encontrou uma rachadura que atravessa os degraus de uma cisterna e camadas de destruição que ele atribuiu ao terremoto de 31 a.C. A data exata da rachadura é discutida, mas o abalo daquele ano na Judeia é dado firme. Para quem tinha cinquenta ou sessenta anos quando Jesus entrou em Jerusalém, aquele tremor era lembrança de infância, ou história contada pelos pais.
Dizer que uma cidade “tremeu”, nesse ambiente, era comparar a comoção a uma experiência que todos conheciam no corpo.
Quem estava dentro dos muros na semana da Páscoa
A cidade que pergunta “quem é este?” não era só a dos moradores. Na Páscoa, Jerusalém recebia peregrinos de toda a terra de Israel e da diáspora (os judeus que viviam fora, no Egito, na Síria, na Mesopotâmia, na Ásia Menor, em Roma). As estimativas variam muito e não há consenso. Joachim Jeremias, no estudo clássico Jerusalém no tempo de Jesus, calculou a população fixa em algumas dezenas de milhares de pessoas e os peregrinos em bem mais do que isso; E. P. Sanders (historiador norte-americano do judaísmo antigo) chegou a números de algumas centenas de milhares. Em qualquer cálculo, havia mais gente de fora do que de dentro.
Isso pesa para a cena. A multidão que vinha com Jesus pela estrada de Jericó era em boa parte de galileus. Quem estava na cidade era uma mistura de moradores, de sacerdotes e levitas de serviço, e de peregrinos que tinham chegado por outras estradas e nunca tinham ouvido falar de um pregador da Galileia. Não é possível decidir quem, exatamente, fazia a pergunta.
A festa como período de risco
A comoção numa cidade cheia, em festa de libertação, era assunto de segurança. O próprio Mateus registra isso duas vezes. Os chefes dos sacerdotes, ao combinarem a prisão de Jesus, dizem em Mateus 26:5: “Não durante a festa, para não haver tumulto entre o povo”. E Pilatos, em Mateus 27:24, lava as mãos quando vê que “aumentava o tumulto”. As autoridades da cidade, judaicas e romanas, temiam exatamente o que este versículo descreve: uma cidade inteira em movimento por causa de um homem.
E havia soldados à vista: o livro de Atos, numa comoção no templo anos depois, mostra o comandante romano descendo às pressas da fortaleza vizinha quando lhe avisam que “toda Jerusalém estava em tumulto” (Atos 21:31-32).
Como uma cidade antiga recebia um visitante importante
No mundo grego e romano havia um roteiro para a chegada de um rei ou governador, que os estudiosos chamam pelo nome latino adventus (“chegada”). Paul Brooks Duff (num artigo de 1992) e Brent Kinman (num livro de 1995) compararam a entrada de Jesus com esse roteiro. O centro dele era a cidade: magistrados e povo saíam pelos portões ao encontro do visitante, já conhecido e anunciado, e o conduziam até o templo local. Mateus conhece o gesto — em Mateus 8:34, “toda a cidade saiu ao encontro de Jesus”, mas para pedir que ele fosse embora.
Em Jerusalém, nada disso acontece. Ninguém sai. O cortejo vem de fora, formado por gente de fora, e quem está dentro só pergunta quem é. O roteiro da chegada está meio cumprido e meio invertido: há aclamação, há entrada, haverá ida ao templo no versículo 12 — mas falta a cidade que reconhece o visitante.
3. Análise Teológica do Versículo
“Quando ele entrou em Jerusalém”
No Evangelho de Mateus, esta é a primeira vez que Jesus adulto entra em Jerusalém por conta própria. Antes, a cidade aparecia de três modos: como lugar de onde vinham pessoas para vê-lo (Mateus 4:25), como lugar de onde vinham inspetores para vigiá-lo (Mateus 15:1), e como destino anunciado de sofrimento — “precisava ir a Jerusalém e sofrer muitas coisas” (Mateus 16:21). A única entrada anterior foi a da tentação, quando “o diabo o levou à cidade santa” (Mateus 4:5).
Essa construção tem consequência. Em João, Jesus sobe a Jerusalém várias vezes e discute no templo em diversas festas; ali, a pergunta da cidade seria estranha. Em Mateus, que concentra todo o ministério na Galileia, a cidade de fato nunca o viu. A pergunta “quem é este?” é coerente com o desenho de Mateus e mal se encaixa no de João. As duas formas de contar não se harmonizam com facilidade, e não há necessidade de forçar.
Os três outros evangelhos param a cena em outro ponto. Marcos 11:11 faz Jesus entrar, olhar tudo ao redor e sair para Betânia, sem reação nenhuma da cidade. Lucas 19:41-44 põe Jesus chorando sobre Jerusalém ainda na descida do monte. João 12:19 dá a reação dos fariseus, não da cidade: “o mundo inteiro foi atrás dele”. Só Mateus descreve o que aconteceu do lado de dentro dos muros.
“a cidade toda estremeceu”
A palavra que a ABC traduz por “estremeceu” é o verbo grego de sacudir o chão, que o item 10 analisa. Em Mateus ele aparece três vezes, e as três estão em pontos de virada:
Aqui, quando Jesus entra na cidade. Em Mateus 27:51, quando ele morre: “a terra tremeu e as rochas se partiram”. Em Mateus 28:4, diante do túmulo aberto: os guardas “ficaram tremendo e como que mortos”. Entrada, morte, ressurreição. A cada passagem decisiva da última semana, alguma coisa treme — primeiro uma cidade, depois a terra, por fim os homens armados que guardavam o morto.
E há um fio mais fino. A pergunta da cidade usa a palavra “este”: “Quem é este?”. Na morte, depois do terremoto, o centurião e os soldados dizem em Mateus 27:54: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus”. A pergunta feita pela cidade abalada na entrada recebe resposta de um estrangeiro abalado na cruz. A repetição das palavras é verificável no grego; que Mateus tenha armado a correspondência de propósito é hipótese, mas hipótese com apoio no texto.
A comparação com o capítulo 2 vai na mesma direção e acrescenta um contraste. O artigo deste site sobre Mateus 2:3 já liga a perturbação de Jerusalém no nascimento a esta cena. O que se soma aqui é a diferença entre os dois verbos e entre as duas situações. Em Mateus 2:3, o verbo é o da água revolvida, da inquietação por dentro, e quem se perturba é o rei, “e toda Jerusalém com ele”. Aqui o verbo é o do chão que se move, e não há rei nenhum na cena: a cidade se abala sozinha. Lá, os magos perguntavam “onde está?” — sabiam o que procuravam e não sabiam o lugar. Aqui a cidade tem o homem diante dos olhos e pergunta “quem é?”. No nascimento faltava o endereço; na entrada falta a identidade.
O abalo que precede a glória da casa
O leitor que conhecia as Escrituras em grego tinha outro texto à mão. No profeta Ageu, a promessa sobre o templo reconstruído diz, na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento feita entre os séculos III e I a.C.): “Mais uma vez eu sacudirei o céu e a terra, o mar e a terra seca; sacudirei todas as nações, e virão as coisas escolhidas de todas as nações, e encherei de glória esta casa” (Ageu 2:6-7). É o mesmo verbo. E a sequência é a mesma de Mateus: primeiro o abalo, depois alguém vem, depois a casa — no versículo seguinte a este, Jesus entra no templo.
Mateus não cita Ageu. Mas a Carta aos Hebreus mostra que os primeiros cristãos liam essa sacudida como anúncio do fim: “Ainda uma vez sacudirei não só a terra, mas também o céu” (Hebreus 12:26). A ponte entre Ageu e a entrada em Jerusalém é leitura possível, sem prova de que estivesse na intenção do evangelista.
O sentido do abalo, de qualquer forma, fica em aberto no versículo. Pode ser entusiasmo, curiosidade, alarme ou hostilidade. O verbo diz que a cidade se moveu inteira; não diz em que direção.
“e perguntavam: ‘Quem é este?’”
Três leituras disputam o tom da pergunta.
Primeira leitura: é ignorância simples. Muita gente não sabia quem vinha no meio do cortejo. Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista luterano alemão do século XVIII) observa que numa multidão grande a figura principal não se vê de imediato, e que ninguém estava acostumado a ver Jesus montado: ele andava a pé.
Segunda leitura: é desdém. Em Mateus, a palavra “este”, dita a respeito de Jesus por quem não o aceita, costuma carregar desprezo. Os escribas dizem “este está blasfemando” (Mateus 9:3); os fariseus, “este só expulsa os demônios por Belzebu” (Mateus 12:24); os vizinhos de Nazaré, “não é este o filho do carpinteiro?” (Mateus 13:55); as falsas testemunhas, “este homem disse” (Mateus 26:61). Lida nessa série, a pergunta da cidade soa como “quem é esse aí?”.
Terceira leitura: é a pergunta do evangelho inteiro, posta agora na boca da capital. Os discípulos já a tinham feito no barco, em Mateus 8:27 — “Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?” — e Jesus a devolveu em Mateus 16:13. Agora a faz uma cidade. E a resposta que ela vai receber no versículo 11 é a de uma multidão, não a de Pedro.
As três leituras não se excluem, e o texto não escolhe. O que ele registra é que a cidade não respondeu a si mesma: alguém de fora teve de responder por ela.
A pergunta na porta
A cena tem ainda o desenho de uma liturgia de entrada. No Salmo 24, diante das portas que se abrem para o Rei da glória, uma voz pergunta “Quem é este Rei da glória?”, e a resposta é “o SENHOR, forte e valente” (Salmo 24:8). Mateus monta o mesmo esquema — chegada, porta, pergunta, resposta —, e a resposta que a cidade vai ouvir no versículo seguinte não tem nada da grandeza do salmo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
Jesus — não é nomeado no versículo. O grego diz apenas “ao entrar ele”; quem é “ele” o leitor sabe pelo versículo anterior. A cidade, não.
A cidade — sujeito do verbo e da pergunta. Reunia moradores permanentes (famílias sacerdotais, levitas, artesãos ligados ao templo, comerciantes), a administração judaica do templo e uma guarnição romana instalada junto à esplanada. Na semana da Páscoa somavam-se a ela os peregrinos chegados de toda parte. O texto não separa uns dos outros: diz “a cidade toda”.
As multidões do cortejo — ficam fora deste versículo, mas estão na sua moldura: são as que vinham à frente e atrás de Jesus no versículo 9, e serão elas que responderão no versículo 11.
Lugares
Jerusalém — em Mateus, a cidade tem nomes que pesam: “cidade santa” (Mateus 4:5 e 27:53), “cidade do grande Rei” (Mateus 5:35), e, na boca de Jesus, a cidade “que mata os profetas” (Mateus 23:37). O versículo não usa nenhum desses títulos; diz só o nome, e depois “a cidade”.
O caminho de entrada — vindo do monte das Oliveiras, o cortejo descia ao vale do Cedrom e subia para a cidade pelo lado leste. Por qual porta entrou, o texto não diz, e as identificações feitas depois (a “Porta Dourada” da tradição medieval, por exemplo) não têm apoio no evangelho.
Eventos
A entrada em Jerusalém — narrada pelos quatro evangelhos (Mateus 21:1-11, Marcos 11:1-11, Lucas 19:28-44, João 12:12-19).
O primeiro dos três abalos — este é o primeiro dos três momentos em que Mateus usa o verbo do tremor; os outros dois são a morte (Mateus 27:51) e o túmulo aberto (Mateus 28:4).
5. Pontos de Ensino
O abalo vem antes da resposta
Mateus não começa pela identificação; começa pelo efeito. Primeiro a cidade se move, depois pergunta. O texto registra uma ordem que se repete na experiência religiosa: alguma coisa nos atinge antes de sabermos o que é.
A pergunta fica com o leitor
“Quem é este?” é a pergunta que atravessa o evangelho, feita por discípulos, por adversários, por uma cidade. A resposta que vem logo depois é parcial. Mateus deixa que o leitor perceba a distância entre a pergunta e a resposta, em vez de resolvê-la por ele.
A última semana contada em abalos
Mateus marca os pontos de virada da paixão com o mesmo verbo: a cidade na entrada, a terra na morte, os guardas no túmulo. Quem quer ler a semana como Mateus a escreveu pode segui-la por esses três tremores — e notar que, a cada um, alguém fica mais perto de dizer quem é Jesus.
6. Aspectos Filosóficos
Uma cidade inteira se abala e não sabe dizer por quê. O versículo descreve um estado coletivo antes de qualquer explicação, e esse é um problema que a história e a filosofia trataram com cuidado: como uma multidão sente, e o que ela faz com o que sente quando não sabe dar nome a ele.
Jean Delumeau e a cidade sitiada
Jean Delumeau (1923-2020), historiador francês, professor do Collège de France, dedicou um livro inteiro a essa pergunta: História do medo no Ocidente, 1300-1800, publicado em 1978 com um subtítulo que é quase uma imagem deste versículo — uma cidade sitiada. Ele estudou como cidades europeias, ao longo de cinco séculos, viveram epidemias, revoltas, boatos de invasão, pânicos noturnos e ondas de suspeita.
A ferramenta central do livro é uma distinção antiga, que Delumeau tornou histórica. O medo tem objeto: sabe-se do que se tem medo, e por isso é possível fugir, lutar, se proteger. A angústia não tem objeto definido: é a espera dolorosa diante de um perigo que não se consegue identificar, e por isso mesmo é mais difícil de suportar.
A tese de Delumeau é que uma coletividade não aguenta muito tempo a angústia difusa. Ela precisa transformá-la em medos com nome. O livro mostra as sociedades europeias fragmentando uma inquietação geral em inimigos nomeados — o turco, o herege, a bruxa, o judeu — porque um inimigo com nome pode ser combatido, enquanto uma ameaça sem rosto paralisa.
O que isso ilumina no versículo
A cidade de Mateus está no primeiro estado. Ela se move inteira — o verbo do terremoto — e não sabe por quê. A pergunta “quem é este?” é, nos termos de Delumeau, a passagem de uma agitação sem objeto para um objeto: a cidade procura um nome para o que a atingiu.
E o nome vem no versículo seguinte, dado por outros. Com ele, a agitação ganha forma: um profeta, de um lugar, com um nome próprio. A partir daí é possível acolhê-lo, discuti-lo, vigiá-lo ou eliminá-lo. Uma cidade não pode prender uma comoção; pode prender um homem que tem nome e endereço.
Onde a comparação para
Delumeau estudou a Europa entre o fim da Idade Média e o século XVIII, com documentos que Mateus não tem. Usar as suas categorias aqui é usar uma lente, não fazer história do século I. E o versículo não diz que a cidade sentiu medo: diz que se abalou, e pode ter sido entusiasmo. O que a lente mostra, e o texto sustenta, é que pedir um nome nunca é neutro — é pedir um modo de lidar com o que se sente.
A advertência que o próprio Delumeau oferece
O ponto mais sério do livro de Delumeau é o preço da operação de nomear. Quando a angústia de uma cidade encontra um nome, ela tende a encontrar um culpado. Ele documenta como a inquietação coletiva desembocou, repetidas vezes, em violência contra grupos designados como causa do mal — e os judeus estão entre as vítimas mais constantes dessa história.
Esse é exatamente o risco de ler esta semana de Mateus. A própria tradição cristã fez com a “Jerusalém” destes capítulos o que Delumeau descreve: transformou uma cidade que perguntava, se abalava e hesitava num culpado coletivo com nome de povo. A leitura de Delumeau serve de vacina contra isso. O que o versículo mostra é uma cidade perplexa, como qualquer cidade diante do que não conhece — não um povo definido de antemão pela recusa.
7. Aplicações Práticas
Desconfiar da própria familiaridade
Quem cresce perto do templo — da igreja, da Bíblia, da linguagem religiosa — corre o risco da cidade deste versículo: ter o assunto à mão e não reconhecer o que chega. A cena sugere um hábito simples: quando algo sacode as convicções, perguntar de fato “quem é este?”, em vez de encaixar a novidade na primeira categoria pronta.
Não confundir comoção com convicção
Uma onda de entusiasmo — num culto, numa campanha, numa causa — pode envolver uma cidade inteira e não durar uma semana. O versículo não condena o entusiasmo; só mostra que ele vem antes da pergunta, e não no lugar dela.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. “A cidade toda” deve ser lida ao pé da letra?
Provavelmente não. Mateus gosta de totalidades: em Mateus 3:5 saíam para João “os moradores de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região ao redor do Jordão”; em Mateus 8:34, “toda a cidade saiu ao encontro de Jesus”. É um modo de dizer que o efeito foi geral, não um censo. O que o exagero comunica é que ninguém na cidade ficou indiferente.
2. Se a cidade se abalou, por que não houve reação das autoridades nesse dia?
Mateus não registra reação oficial à entrada. As autoridades aparecem depois, no templo (Mateus 21:15) e na pergunta sobre autoridade (Mateus 21:23). Uma hipótese é que uma comoção de peregrinos na chegada da festa, por si só, não justificava intervenção; outra é que Mateus comprimiu os acontecimentos. O texto não permite decidir.
3. Por que tantas traduções dizem “agitou-se” ou “alvoroçou-se”, e não “tremeu”?
Porque o grego já usava o verbo, muito antes de Mateus, para a comoção de uma cidade. Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, comentarista alemão do século XIX) lembra o exemplo de Sófocles: na Antígona, o rei Creonte abre o seu primeiro discurso dizendo que os deuses, depois de sacudirem os negócios da cidade com muita agitação, os puseram de novo em pé. A imagem do abalo aplicada à vida política era corrente. As traduções que preferem “agitou-se” não erram; ficam com o uso comum. O que se perde é a ponte com os dois outros usos de Mateus, que são terremotos de fato.
4. Há relação entre este abalo e os “terremotos” anunciados em Mateus 24:7?
Em Mateus 24:7, Jesus diz que haverá “fomes, pestes e terremotos em vários lugares”, como começo das dores que antecedem o fim; e o discurso nasce da frase sobre o templo: “não vai ficar aqui pedra sobre pedra” (Mateus 24:2). A palavra de lá é o substantivo da mesma família do verbo daqui. Quem lê o evangelho de uma vez pode ouvir, na cidade que treme quando Jesus entra e na terra que treme quando ele morre, os primeiros sinais do que o discurso anuncia. É leitura possível, sem indicação explícita de Mateus.
9. Conexão com Outros Textos
Os três abalos de Mateus
Mateus 27:51 — “Nisso, o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas se partiram.”
O mesmo verbo, agora aplicado à terra, no instante da morte. A cidade tremeu na entrada; o chão treme na saída.
Mateus 28:4 — “Com medo dele, os guardas ficaram tremendo e como que mortos.”
A terceira e última ocorrência: quem treme são os soldados que vigiavam o morto.
Mateus 27:54 — “O centurião e os que com ele vigiavam Jesus, ao verem o terremoto e tudo o que acontecia, ficaram apavorados e disseram: ‘Verdadeiramente este era o Filho de Deus.’”
A pergunta “quem é este?” respondida, depois de outro abalo, por estrangeiros.
Jerusalém perturbada no começo
Mateus 2:3 — “Ao ouvir isso, o rei Herodes ficou perturbado, e toda Jerusalém com ele.”
A primeira reação da cidade no evangelho, com outro verbo e com um rei no centro.
A sacudida que precede a glória
Ageu 2:6-7 — “Mais uma vez, dentro em pouco, farei tremer o céu e a terra, o mar e a terra seca; farei tremer todas as nações, e virão os tesouros de todas as nações, e encherei de glória esta casa, diz o SENHOR dos Exércitos.”
Na tradução grega, o verbo de “fazer tremer” é o de Mateus 21:10, e a promessa termina no templo.
A terra que treme diante de Deus
Juízes 5:4 — “SENHOR, quando saíste de Seir, quando marchaste desde o campo de Edom, a terra tremeu, os céus gotejaram, sim, as nuvens gotejaram água.”
Salmo 68:8 — “A terra tremeu, e os céus gotejaram diante de Deus; o próprio Sinai tremeu diante de Deus, o Deus de Israel.”
Nas duas passagens, a Septuaginta usa exatamente a forma “a terra tremeu” que Mateus 27:51 repete. É a linguagem da chegada de Deus.
A pergunta na porta
Salmo 24:7-8 — “Levantem a cabeça, ó portas; levantem-se, portais antigos, para que entre o Rei da glória. Quem é este Rei da glória? O SENHOR, forte e valente, o SENHOR, valente na batalha.”
Uma liturgia de entrada com a mesma pergunta feita na porta.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Quando ele entrou em Jerusalém, a cidade toda estremeceu, perguntando: “Quem é este?”
Texto grego (Textus Receptus)
καὶ εἰσελθόντος αὐτοῦ εἰς Ἱεροσόλυμα, ἐσείσθη πᾶσα ἡ πόλις, λέγουσα, Τίς ἐστιν οὗτος;
Transliteração
kai eiselthontos autou eis Hierosolyma, eseisthē pasa hē polis, legousa, Tis estin houtos?
Neste versículo o Textus Receptus e as edições críticas modernas trazem o mesmo texto.
Análise palavra por palavra
καὶ εἰσελθόντος αὐτοῦ — kai eiselthontos autou, “e, tendo ele entrado”. Particípio aoristo de eiserchomai (“entrar”), no genitivo, com o pronome também no genitivo. É a construção que os gramáticos chamam de genitivo absoluto: uma pequena oração de tempo, solta do resto da frase, com sujeito próprio. Em português, “quando ele entrou”.
O sujeito é só “ele”. Jesus não é nomeado no versículo, e o efeito é sutil: o leitor sabe quem entrou; a cidade, que vai perguntar, não sabe. O versículo seguinte (21:12) começa com a mesma raiz verbal e agora com o nome: “Jesus entrou no templo”.
εἰς Ἱεροσόλυμα — eis Hierosolyma, “em Jerusalém”, literalmente “para dentro de Jerusalém”.
O grego tinha duas formas do nome da cidade. Ierousalēm é a transcrição do hebraico, a forma da Septuaginta; Hierosolyma é a forma helenizada, que soa como se contivesse a palavra grega hieros, “sagrado”. Mateus usa quase sempre a segunda. A forma hebraica aparece só uma vez no evangelho, e duplicada, na lamentação de Mateus 23:37: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas”.
Em Mateus 2:3, a mesma forma vem com adjetivo feminino singular — pasa Hierosolyma, “toda Jerusalém” —, como se a cidade fosse uma pessoa. Aqui Mateus diz o nome e troca em seguida para “a cidade”.
ἐσείσθη — eseisthē, “foi sacudida”. Aoristo do indicativo passivo, terceira pessoa do singular, de seiō, “sacudir, fazer tremer”.
O sentido básico é físico: sacudir uma coisa, fazer o chão tremer. Daí vem seismos, “abalo”, “terremoto”, palavra que o português herdou em “sismo” e “sísmico”. O substantivo está em Mateus 8:24, aplicado ao mar da tempestade, em Mateus 24:7, nos terremotos anunciados, e em Mateus 27:54 e 28:2, nos terremotos da morte e da ressurreição.
O verbo aparece só cinco vezes no Novo Testamento. Três estão em Mateus: aqui, em Mateus 27:51 (“a terra tremeu”) e em Mateus 28:4 (os guardas “tremeram”). As outras duas são Hebreus 12:26, que cita Ageu (“farei tremer não só a terra, mas também o céu”), e Apocalipse 6:13, a figueira “sacudida por um vento forte”, que deixa cair os figos verdes.
Na Septuaginta o verbo aparece cerca de trinta vezes, quase sempre traduzindo o hebraico ra‘ash (“tremer”, “estremecer”), e quase sempre em cenas em que a terra treme diante de Deus. A forma exata deste versículo, eseisthē, está em Juízes 5:4 e no Salmo 68:8 com o sujeito “a terra”: gē eseisthē, “a terra tremeu”, na marcha de Deus desde o Sinai. Mateus 27:51 repete a frase na morte de Jesus, só acrescentando o artigo: hē gē eseisthē. Em Ageu 2:6, 2:7 e 2:21, o mesmo verbo descreve o abalo do céu, da terra e das nações antes da glória do templo.
A voz passiva diz que a cidade sofreu o abalo, não que o produziu. Quem sacudiu, o versículo não diz.
Os compostos do verbo mostram o seu lado social. Com o prefixo dia-, “sacudir de todo”, ele virou “extorquir”: João Batista diz aos soldados “não tomem dinheiro de ninguém à força” (Lucas 3:14) — literalmente, “não sacudam ninguém”. Com o prefixo ana-, virou “agitar, incitar uma multidão”: os chefes dos sacerdotes “agitaram a multidão” para pedir Barrabás (Marcos 15:11), e a acusação contra Jesus diante de Pilatos é justamente que “ele agita o povo” (Lucas 23:5). A família de palavras que descreve a cidade abalada é a mesma que, poucos dias depois, servirá para acusá-lo.
A ABC traduz por “estremeceu”, que guarda as duas coisas: a comoção pública e a imagem física do tremor, que é a ponte com Mateus 27:51 e 28:4.
πᾶσα ἡ πόλις — pasa hē polis, “toda a cidade”. Adjetivo pas (“todo”) no feminino singular, com o substantivo polis. A ordem do grego põe “toda” antes de “a cidade”, com ênfase na totalidade.
λέγουσα — legousa, “dizendo”. Particípio presente ativo de legō, no feminino singular, concordando com “cidade”.
O detalhe gramatical tem peso: quem fala é a cidade, uma só, e não “alguns” ou “muitos”. O grego personifica Jerusalém. A ABC mantém o singular (“perguntando”), e a cidade continua sendo quem pergunta. O particípio presente indica a pergunta sendo feita enquanto o abalo acontecia, repetida de boca em boca.
Τίς ἐστιν οὗτος; — Tis estin houtos?, “Quem é este?”.
Tis é o pronome interrogativo, “quem”. Estin, “é”, presente do verbo ser. Houtos, “este”, demonstrativo de proximidade: aponta para alguém que está ali, à vista.
A pergunta é diferente da de Mateus 8:27, embora a tradução seja a mesma. No barco, os discípulos usam potapos, “de que espécie”, “que tipo de homem é este” — a pergunta é sobre a natureza. Aqui é tis, “quem”: a pergunta é sobre a identidade, e pede um nome.
O demonstrativo houtos, dito sobre Jesus por quem não o aceita, frequentemente carrega distância em Mateus (o item 3 mostra a série). O grego não decide se aqui há desdém; deixa a palavra aberta, e é o contexto de cada leitor que a colore.
11. Conclusão
Com base no que o versículo mostra, a primeira conclusão é sobre o lugar. A cidade que tinha o templo, as Escrituras e os mestres é a que pergunta quem está chegando. Mateus não acusa por isso; constata. O reconhecimento de Jesus, até aqui, veio de fora — dos magos no começo, dos galileus na estrada —, e na capital ele chega como desconhecido.
A segunda é sobre o modo como Mateus marca a última semana. O verbo escolhido para a cidade é o mesmo da terra na cruz e dos guardas no túmulo. A entrada não é contada como um desfile, e sim como o primeiro de três abalos, e a pergunta feita no primeiro só recebe resposta inteira no segundo, da boca de um centurião.
A terceira é um limite. O versículo diz que a cidade se moveu inteira e quis saber um nome; não diz se o movimento era de festa, de medo ou de suspeita. Quem decide isso de antemão põe no texto um veredito que ele não dá.













