As multidões que iam à frente e as que o seguiam gritavam: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do SENHOR! Hosana nas alturas!”
1. Introdução
Cercado por uma multidão na frente e outra atrás, Jesus ouve gritarem três frases, e as três vêm de um salmo que todo peregrino sabia de cor, o Salmo 118, cantado no templo nas grandes festas.
A multidão encaixa “o Filho de Davi” no lugar onde o salmo pedia salvação a Deus, e uma súplica vira aclamação dirigida a um homem. “Bendito o que vem” era a saudação dos sacerdotes a qualquer peregrino que chegava ao templo; aqui é dita a um só. “Hosana nas alturas” tem pelo menos três leituras, e Lucas, escrevendo para quem não sabia hebraico, preferiu trocá-la por outra frase. Em poucos séculos, o grito da estrada entrou na missa cristã, onde é repetido até hoje.
2. Contexto Histórico e Cultural
O Hallel: o salmo que todos sabiam
Os Salmos 113 a 118 formavam, no culto judaico, um bloco cantado de uma vez, chamado Hallel (“louvor”). Era a trilha das festas. Cantava-se no templo nas três festas de peregrinação — Páscoa, Pentecostes e Tendas — e também na Hanucá. Cantava-se no pátio do templo durante a matança dos cordeiros da Páscoa. E cantava-se em casa, na ceia pascal.
Sobre a ceia, a Mishná (a primeira coletânea escrita da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200) registra no tratado Pesachim uma discussão que mostra o Hallel partido em dois. Antes da refeição, cantava-se o começo; e as duas grandes escolas de mestres discordavam sobre onde parar — a de Shammai mandava parar no fim do Salmo 113, a de Hillel no fim do Salmo 114 (Mishná Pesachim 10:6). Depois da refeição, sobre o quarto cálice de vinho, “completava-se o Hallel” (Mishná Pesachim 10:7). O último salmo dessa segunda parte é o 118.
Daí uma hipótese que boa parte dos comentaristas aceita: o “hino” que Jesus e os discípulos cantam ao sair da última ceia, em Mateus 26:30, seria essa segunda parte do Hallel. Se for assim, o mesmo salmo que a multidão grita para Jesus na estrada é o que ele próprio canta, quatro dias depois, antes de sair para o monte das Oliveiras e ser preso. Mateus não diz que hino era; a identificação é provável, não certa.
O Salmo 118 na festa das Tendas
Na festa das Tendas, o Salmo 118 tinha um uso ainda mais marcado. O momento em que se agitavam os ramos durante o canto é discutido na Mishná, e o versículo central da discussão é justamente o “SENHOR, salva-nos” do Salmo 118:25 (ver o estudo de Êxodo 15:2). Mas há um rito do mesmo tratado que liga a frase ao altar.
Mishná Sucá 4:5 descreve: havia, abaixo de Jerusalém, um lugar chamado Mosa. Desciam até lá e colhiam galhos de salgueiro, compridos. Traziam-nos e os fincavam em pé ao redor do altar, com as pontas inclinadas por cima dele. Tocava-se a trombeta. E todo dia da festa davam uma volta ao redor do altar dizendo: “Ó SENHOR, salva-nos; ó SENHOR, dá-nos prosperidade” — o Salmo 118:25. No sétimo dia, davam sete voltas.
O mesmo texto guarda uma variante curiosa. Rabi Yehudah dizia que a fórmula usada não era “Ó SENHOR”, e sim “Ani vaho, salva-nos” — palavras de sentido discutido, que muitos estudiosos leem como uma forma de evitar pronunciar o nome divino em voz alta. A súplica do salmo, portanto, era gritada em procissão em volta do altar, com ramos, na festa do outono.
Na tradição judaica posterior, o grito deu nome ao próprio rito. O sétimo dia da festa passou a se chamar Hoshaná Rabá (“o grande hosana”), e o feixe de salgueiro que se carrega, “hoshaná”. A palavra que a multidão grita em Mateus 21:9 acabou sendo, para os judeus, o nome de um ramo.
Isso explica o que no versículo anterior parecia estranho: ramos cortados e “hosana” gritado juntos. Na memória de quem estava na estrada, as duas coisas eram uma só — o salmo cantado com ramos nas mãos. O teólogo britânico T. W. Manson chegou a propor, em 1951, que a entrada em Jerusalém tivesse acontecido de fato no outono, na festa das Tendas, e que os evangelhos a tivessem juntado à última semana. A hipótese explica os ramos e o salmo, e tem contra si o fato de que os quatro evangelhos põem a cena dias antes da Páscoa.
Uma liturgia de entrada pela porta
O Salmo 118 não é só um salmo de festa. É um salmo de chegada. Alguém pede: “Abram para mim as portas da justiça; entrarei por elas” (Salmo 118:19). Alguém responde: “Esta é a porta do SENHOR; os justos entrarão por ela” (Salmo 118:20). E, depois do pedido de salvação, a saudação a quem chega: “Bendito o que vem em nome do SENHOR; da casa do SENHOR nós os abençoamos” (Salmo 118:26). O segundo verso dessa saudação está no plural e fala de dentro do templo: é a voz dos sacerdotes recebendo os peregrinos.
Em Mateus 21:9, quem diz a saudação não são sacerdotes, e não está no templo. É a multidão na estrada, e ela diz a frase no singular a uma pessoa só. O papel de quem abençoa da porta do templo passa para quem vem de fora.
Um salmo que já tinha sido lido como coroação de Davi
No Talmude, o tratado Pesachim 119a guarda uma leitura do fim do Salmo 118 que o reparte entre personagens. Em nome de Rabi Yonatan, mestre do século III, ensina-se que os versículos 21 a 28 são falas da unção de Davi, ditas por ele, por Jessé, o pai, pelos irmãos e pelo profeta Samuel. Nos dois versículos que a multidão de Mateus grita, a divisão é esta: “Ó SENHOR, salva-nos” são os irmãos de Davi; “Ó SENHOR, dá-nos prosperidade” é Davi; “Bendito o que vem em nome do SENHOR” é Jessé; “Da casa do SENHOR nós os abençoamos” é Samuel.
O texto é dois séculos posterior a Jesus e não descreve o que a multidão pensava. Mas mostra que, na tradição judaica, o “bendito o que vem” do Salmo 118 pôde ser lido como a saudação a Davi no dia em que foi ungido rei. Quando a multidão de Mateus junta o salmo ao nome “Filho de Davi”, está fazendo uma ligação que a leitura judaica do salmo também conhecia.
O que a igreja fez com o grito
A Didaqué (“Ensino”, manual cristão do fim do século I) inclui “Hosana ao Deus de Davi” numa oração ligada à refeição da comunidade (Didaqué 10:6). No século IV, as Constituições Apostólicas (coletânea de regras e orações das igrejas da Síria) põem na boca do povo, pouco antes da comunhão, quase a frase de Mateus: “Hosana ao Filho de Davi; bendito o que vem em nome do Senhor”. Na missa latina, a mesma frase se fixou depois do “Santo, santo, santo”, com o “Hosana nas alturas” repetido duas vezes. O grito de uma multidão numa estrada virou fórmula fixa, dita todos os domingos em milhares de línguas.
3. Análise Teológica do Versículo
“As multidões que iam à frente e as que o seguiam”
Mateus passa do singular para o plural: no versículo 8, “a multidão”; aqui, “as multidões”. E as põe em duas posições — uma adiante, outra atrás. Jesus fica no meio. É a forma de um cortejo, não a de um ajuntamento.
Quem eram os de trás e os da frente? Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) propôs que os da frente tinham saído de Jerusalém ao encontro de Jesus, como João 12:12-13 descreve, e os de trás vinham com ele desde Jericó. É uma harmonização com João; Mateus não diz isso, e no seu relato a cidade só fica sabendo de Jesus quando ele entra (Mateus 21:10).
Há uma leitura mais modesta, e talvez mais fiel à cena. O Salmo 118 era cantado em forma de resposta: um grupo dizia uma linha, outro respondia — a Mishná e o Talmude descrevem esse modo de cantar o Hallel. Duas multidões, uma à frente e outra atrás, são exatamente o desenho de um canto alternado. Mateus não diz que cantavam assim; diz só que “gritavam”. A hipótese é plausível e não demonstrável.
“gritavam”
O verbo é o do grito, não o do canto, e está num tempo que indica ação continuada: gritavam e continuavam gritando. Uma liturgia que no templo era cantada em ordem, por levitas, aqui é berrada na estrada por gente sem função nenhuma.
“Hosana ao Filho de Davi!”
No Salmo 118:25, “hosana” é uma súplica dirigida a Deus: “Ó SENHOR, salva-nos”. A origem da palavra está analisada no estudo de Gênesis 50:17. O que este versículo mostra é o que a multidão fez com ela.
Primeiro, encaixou um nome onde o salmo não tem nenhum. O salmo diz “salva-nos” e para. A multidão diz “Hosana ao Filho de Davi”. E aqui surge a dificuldade de gramática que os comentaristas discutem há séculos: se “hosana” quer dizer “salva-nos”, o que significa “salva-nos ao Filho de Davi”?
Primeira leitura: “hosana” já tinha deixado de ser súplica e virado aclamação, como “viva!”. Assim como nenhum brasileiro pensa em “vida” ao gritar “viva o campeão”, quem gritava “hosana” numa festa não pensava em “salva-nos”: era um grito de alegria e de saudação. O “ao” seria o da homenagem: “glória ao Filho de Davi”. É a leitura da maioria dos comentaristas, e ela explica por que o grito podia ser dirigido a um homem.
Segunda leitura: a súplica continua viva, e o pedido é feito a Deus em favor do rei. “Hosana ao Filho de Davi” seria “salva, ó Deus, o Filho de Davi”, no modelo do Salmo 20:9 — “SENHOR, salva o rei”. Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, exegeta alemão do século XIX) apoia essa linha: a construção grega pede o sentido de “socorrer alguém”. Nessa leitura a multidão não adora Jesus; ora por ele, como o povo orava pelo rei que partia para a batalha.
Terceira leitura: as duas coisas ao mesmo tempo. A palavra estava a meio caminho entre súplica e aclamação, e a multidão não precisava escolher. O grito podia ser alegria e pedido de libertação no mesmo fôlego — o que, numa cidade ocupada, é exatamente o que um grito de festa costuma ser.
Não é possível decidir pelo grego. O que se pode afirmar é a mudança de destinatário: no salmo, a súplica sobe a Deus; na estrada, ela é endereçada a alguém que está ali, montado num jumentinho.
“Bendito o que vem em nome do SENHOR!”
A frase é o Salmo 118:26, palavra por palavra na tradução grega, e no salmo “o que vem” é qualquer peregrino.
Em Mateus, “o que vem” já tinha virado nome de alguém. João Batista anuncia “aquele que vem depois de mim” (Mateus 3:11), e da prisão manda perguntar a Jesus: “És Tu aquele que havia de vir?” (Mateus 11:3). Quando a multidão grita “bendito o que vem”, a fórmula genérica do salmo encontra a expectativa que o evangelho vinha construindo.
Há uma dúvida na própria frase. “Em nome do Senhor” se liga a “vem” ou a “bendito”? A leitura habitual é “o que vem em nome do Senhor”: alguém enviado por Deus. Mas o paralelo do próprio salmo — “da casa do SENHOR nós os abençoamos” — sugere outra divisão: “bendito seja, em nome do SENHOR, o que vem”, isto é, os sacerdotes abençoam em nome de Deus quem chega. No hebraico e no grego a ordem das palavras permite as duas. Na primeira, a frase diz quem Jesus é; na segunda, diz o que a multidão faz.
E a frase vai voltar. Em Mateus 23:39, ao fim do último discurso no templo, Jesus diz a Jerusalém: “não me verão mais, até que digam: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor’”. As mesmas palavras que a multidão gritou na estrada viram, dois capítulos depois, condição para um reencontro futuro. A frase foi dita, e ainda falta ser dita. Se Jesus fala de uma volta futura, de uma conversão de Jerusalém ou de um julgamento é discutido; para Mateus, em todo caso, a aclamação da estrada não encerrou o assunto.
“Hosana nas alturas!”
A frase final é a mais difícil das três, e não vem do salmo. Três leituras disputam o sentido.
Primeira leitura: é um pedido a Deus, que está nas alturas. “Hosana nas alturas” seria “salva-nos, tu que estás nos céus”. Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo luterano alemão do século XVIII) lia assim: socorro, ó tu que habitas no mais alto.
Segunda leitura: é um convite para que o céu se junte ao grito da terra. O Salmo 148:1 manda louvar a Deus “nas alturas”, com exatamente a mesma expressão na tradução grega, e chama os anjos para o coro. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) entendia a frase como a reivindicação de que o céu concorda com a terra nesse reconhecimento.
Terceira leitura: é simplesmente o grau máximo da aclamação. Se “hosana” já era “viva!”, “hosana nas alturas” seria “viva no mais alto grau”, “glória suprema”. Lucas parece ter entendido assim, porque troca a frase inteira: em Lucas 19:38, a multidão grita “paz no céu e glória nas alturas”. Lucas escrevia para leitores que não sabiam o que era “hosana”, e não usa a palavra uma única vez no seu evangelho. Em lugar dela, põe “glória” — a mesma palavra do canto dos anjos no nascimento de Jesus (Lucas 2:14).
Mateus mantém a palavra estrangeira, e com isso mantém a ambiguidade. Não há consenso sobre qual das três leituras é a dele.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
As multidões da frente e de trás — dois grupos de peregrinos em volta de Jesus. Mateus não diz de onde vinham; pelo versículo 11, são gente que o conhece como o profeta de Nazaré da Galileia.
O Filho de Davi — Jesus, chamado pelo título dinástico. É o título da primeira linha do evangelho (Mateus 1:1).
Davi — o rei de Israel do século X antes de Cristo, a quem a promessa de 2 Samuel 7 garantia um descendente no trono. Na leitura do Talmude, os últimos versículos do Salmo 118 são as falas do dia em que ele foi ungido.
Os sacerdotes do templo — ausentes da cena, mas presentes no salmo: eram eles que, na liturgia, diziam “bendito o que vem” a quem chegava. Aparecem no versículo 15, indignados.
Lugares
A estrada para a cidade — a descida do monte das Oliveiras, onde o salmo de chegada é gritado antes de qualquer porta.
O templo e o altar — o lugar original do Salmo 118: as “portas da justiça”, a casa do SENHOR de onde se abençoa, o altar em volta do qual se davam as voltas com salgueiros na festa das Tendas.
Eventos
O Hallel — o canto dos Salmos 113 a 118 nas grandes festas. Na Páscoa, partido em dois na ceia, com o Salmo 118 depois da refeição.
A festa das Tendas — a festa do outono em que o “SENHOR, salva-nos” do salmo era gritado em procissão ao redor do altar, com ramos; o sétimo dia veio a chamar-se Hoshaná Rabá.
A Páscoa daquele ano — a festa para a qual a multidão subia, em cuja ceia o mesmo salmo seria cantado poucos dias depois.
5. Pontos de Ensino
1. A multidão não inventa palavras; usa as que todos sabiam. As três frases do grito vêm de um salmo de festa. Foi a familiaridade com a liturgia que deu à multidão o que dizer — e deu às suas palavras um peso que frases improvisadas não teriam.
2. A mesma frase muda de sentido quando muda de destinatário. No salmo, o pedido de salvação sobe a Deus, e a saudação vale para qualquer peregrino. Na estrada, os dois se dirigem a um homem. Nenhuma palavra foi alterada; mudou para quem se dizia.
3. Súplica e louvor podem estar na mesma palavra. “Hosana” estava a meio caminho entre “salva-nos” e “viva!”. Quem a gritava podia estar pedindo e celebrando ao mesmo tempo, e o texto não obriga a separar as duas coisas.
6. Aspectos Filosóficos
Palavras antigas para uma coisa nova
A multidão diz algo que nunca tinha sido dito — que aquele homem, naquele jumentinho, é o Filho de Davi que vem — e o diz inteiramente com palavras velhas, de um salmo que se cantava havia séculos. Por que alguém, ao anunciar uma novidade, recorre a palavras gastas? E o que acontece com essas palavras quando a novidade passa e elas ficam?
O historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012), nascido em Alexandria e um dos grandes historiadores marxistas do século XX, deu instrumentos para pensar nisso. O principal está na introdução que escreveu para A invenção das tradições (1983), livro organizado por ele e por Terence Ranger.
Costume e tradição
Hobsbawm distingue duas coisas que costumam ser confundidas. O costume, nas sociedades tradicionais, não é imóvel: ele admite mudança, até certo ponto, e a sua função é dar a qualquer mudança desejada a sanção do precedente — fazer o novo parecer continuação do antigo. A tradição, no sentido que ele analisa, é outra coisa: um conjunto de práticas formalizadas, ritualizadas, cuja marca é a invariância. Ela se repete sempre igual e, ao se repetir, afirma uma continuidade com o passado.
A imagem que ele usa é a de um tribunal. O costume é o que os juízes fazem. A tradição é a peruca, a toga e o cerimonial que cercam o que eles fazem.
Na estrada: o costume
O que a multidão de Mateus 21:9 faz é o costume no sentido de Hobsbawm. Ela pega uma fórmula antiga — o salmo de festa, que todos sabiam — e a usa para sancionar uma coisa nova. O precedente do salmo dá ao gesto uma legitimidade que nenhuma frase improvisada daria. Ninguém pode acusar a multidão de inventar: ela está cantando o Hallel, como se cantava em todas as festas. A novidade vai escondida dentro da repetição, na troca do destinatário e na inserção de um nome.
Isso também explica a força política do grito. Uma multidão que grita “hosana ao Filho de Davi” pode dizer, se interrogada, que estava apenas cantando o salmo. A ambiguidade é uma proteção, e é característica dos costumes que servem a mudanças: eles permitem dizer o novo sem assumir que se diz.
Na missa: a tradição
Quando as mesmas palavras se fixam na liturgia cristã — ditas no mesmo ponto da missa, com as mesmas palavras, todos os domingos —, já não são costume. É tradição no sentido de Hobsbawm: invariante, formalizada, repetida justamente para afirmar continuidade — com a entrada em Jerusalém e, através dela, com o culto do templo.
E acontece com a palavra o que acontece com a peruca do juiz. Ela é conservada enquanto a sua função original se perde. Milhões de pessoas dizem “hosana” todos os domingos sem saber que a palavra é hebraica, que pedia salvação, que era gritada em volta de um altar com ramos de salgueiro. O som ficou; o uso mudou.
Os rebeldes sem programa
Um livro anterior de Hobsbawm, Rebeldes primitivos (1959), oferece uma segunda chave. Ali ele estudou movimentos camponeses da Itália e da Espanha dos séculos XIX e XX que expressavam esperanças políticas de transformação total em linguagem religiosa — o que chamou de movimentos milenaristas, “pré-políticos”. A marca deles era a intensidade da esperança e a ausência de organização: muita expectativa, nenhum plano de como chegar lá.
A multidão da estrada tem traços desse retrato. Ela espera algo enorme, diz isso na linguagem do culto, e não tem programa: não há líder da multidão, não há reivindicação, não há passo seguinte. No versículo 10 a cidade pergunta quem ele é; no capítulo seguinte, a multidão some da cena.
Onde a comparação para
Hobsbawm escreveu sobre a Europa moderna. As “tradições inventadas” que ele analisou são em boa parte dos anos 1870 a 1914, e os rebeldes primitivos são camponeses do Mediterrâneo moderno. Levar os seus conceitos para a Judeia do século I é trabalho de analogia,. Do ponto de vista do evangelho, a multidão não está errada por não ter programa: o programa é de Jesus, não dela. O que Hobsbawm ajuda a ver é o mecanismo — como uma fórmula antiga carrega uma esperança nova, e como, depois, a fórmula sobrevive à esperança que a carregou.
7. Aplicações Práticas
Saber o que se diz quando se repete
Quem frequenta igreja diz “hosana” e “bendito o que vem em nome do Senhor” toda semana. As palavras guardam uma história: um pedido de socorro, um salmo de chegada ao templo, uma multidão na estrada. Conhecer essa história não é erudição inútil; é a diferença entre repetir um som e dizer uma frase. O mesmo vale para orações decoradas, hinos, juramentos — qualquer palavra que se diz por hábito.
Pedir e celebrar no mesmo fôlego
A palavra da multidão estava a meio caminho entre “salva-nos” e “viva!”. Há momentos da vida em que as duas coisas cabem juntas: a festa de quem ainda espera ser libertado de alguma coisa, a alegria que não apaga a aflição. Não é preciso esperar que a aflição acabe para celebrar, nem fingir que ela acabou porque se celebra.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
A multidão sabia que estava dizendo algo perigoso?
Provavelmente sabia o suficiente. “Filho de Davi” era título de herdeiro do trono, e a cidade estava sob governo romano e sob um sumo sacerdote nomeado por Roma. Mas o grito vinha embrulhado no salmo de festa, e isso permitia a cada um dizer — a si mesmo e a quem perguntasse — que estava apenas cantando o Hallel. A ambiguidade pode ter sido em parte o que tornou o grito possível. O texto não diz o que cada um pensava, e não há como saber.
Os primeiros cristãos usaram mesmo esse grito, ou ele só entrou na liturgia muito depois?
Usaram cedo, e não só na oração. Hegesipo, escritor cristão do século II citado por Eusébio de Cesareia na sua História Eclesiástica, conta que, quando Tiago, o irmão de Jesus, falou de Jesus diante de uma multidão no templo, muitos gritaram “Hosana ao Filho de Davi” — e que foi depois disso que os adversários o jogaram de cima do templo e o mataram. Para aquela geração, a frase da entrada em Jerusalém continuava sendo um grito com consequências.
Por que Mateus conserva uma palavra estrangeira que Lucas preferiu traduzir?
A explicação mais provável está nos leitores. Mateus escreve para comunidades que conheciam o culto judaico, e para quem “hosana” tinha som de salmo e de festa; traduzir seria perder isso. Lucas escreve para leitores de língua grega sem essa memória, para quem a palavra seria opaca. Marcos e João também a mantêm. A escolha de Lucas mostra que a palavra exigia explicação fora do mundo judaico.
9. Conexão com Outros Textos
O salmo de onde vem o grito
Salmo 118:25-26 — “Ó SENHOR, salva-nos! Ó SENHOR, dá-nos prosperidade! Bendito o que vem em nome do SENHOR; da casa do SENHOR nós os abençoamos.”
A súplica e a saudação que a multidão junta, tirando o plural do fim e acrescentando um nome.
Salmo 118:27 — “O SENHOR é Deus, e nos deu luz; prendam a vítima da festa com cordas até os chifres do altar.”
O versículo seguinte do salmo. A palavra hebraica traduzida por “cordas” é discutida, e várias traduções a leem como “ramos frondosos”: uma procissão com ramos até o altar. Se for essa a leitura, o próprio salmo já junta o “salva-nos” e os ramos, como Mateus junta este versículo ao anterior.
O pedido pelo rei e o louvor nas alturas
Salmo 20:9 — “SENHOR, salva o rei! Responde-nos no dia em que clamarmos.”
O modelo da segunda leitura do grito: salvação pedida a Deus em favor do rei.
Salmo 148:1 — “Aleluia! Louvem o SENHOR desde os céus, louvem-no nas alturas.”
A mesma expressão “nas alturas”, na tradução grega, como convite para que o céu louve junto com a terra.
O grito nos outros evangelhos
Marcos 11:9-10 — “Os que iam à frente e os que vinham atrás gritavam: ‘Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, o do nosso pai Davi! Hosana nas alturas!’”
As duas multidões, à frente e atrás, já estão em Marcos. O “Filho de Davi” não: Marcos fala do reino de Davi.
Lucas 19:38 — “Bendito o rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!”
Lucas tira o “hosana” e põe “o rei” e “glória”.
O título antes e depois da estrada
Mateus 20:31 — “A multidão os repreendia para que ficassem calados, mas eles gritavam ainda mais: ‘Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!’”
O título que a multidão mandou calar na saída de Jericó, analisado no estudo daquele versículo, é o que ela grita agora.
Mateus 21:15 — “Mas, quando os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei viram as maravilhas que ele fez e as crianças gritando no templo: ‘Hosana ao Filho de Davi!’, ficaram indignados”
O grito da estrada entra no templo pela boca das crianças.
A mesma semana, o mesmo salmo
Mateus 23:39 — “Pois eu digo a vocês: de agora em diante não me verão mais, até que digam: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor.’”
A frase da estrada, dita por Jesus como algo que ainda falta.
Mateus 26:30 — “Depois de cantarem um hino, saíram para o monte das Oliveiras.”
Se o hino é o fim do Hallel, como muitos supõem, o Salmo 118 é cantado por Jesus na noite em que é preso, e no mesmo monte de onde desceu aclamado.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
As multidões que iam à frente e as que o seguiam gritavam: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do SENHOR! Hosana nas alturas!”
Texto grego (Textus Receptus)
Οἱ δὲ ὄχλοι οἱ προάγοντες καὶ οἱ ἀκολουθοῦντες ἔκραζον, λέγοντες, Ὡσαννὰ τῷ υἱῷ Δαβίδ· εὐλογημένος ὁ ἐρχόμενος ἐν ὀνόματι Κυρίου. Ὡσαννὰ ἐν τοῖς ὑψίστοις.
Transliteração
Hoi de ochloi hoi proagontes kai hoi akolouthountes ekrazon, legontes, Hōsanna tō huiō Dabid; eulogēmenos ho erchomenos en onomati Kyriou. Hōsanna en tois hypsistois.
Análise palavra por palavra
Οἱ δὲ ὄχλοι — hoi de ochloi, “e as multidões”. Plural de ochlos. No versículo anterior o substantivo estava no singular; aqui está no plural, e as multidões são duas.
οἱ προάγοντες — hoi proagontes, “os que iam à frente”. Particípio presente de proagō, ir adiante, preceder. O particípio presente descreve a posição durante o movimento: iam na frente enquanto andavam.
No Textus Receptus o verbo está sem complemento: “os que iam à frente”, simplesmente. As edições críticas acrescentam auton, “dele”. A ABC segue o texto grego que adota e não acrescenta o pronome.
καὶ οἱ ἀκολουθοῦντες — kai hoi akolouthountes, “e os que seguiam”. Particípio presente de akoloutheō, seguir, acompanhar. É o verbo do discipulado em Mateus — os pescadores que deixam as redes “o seguiram” (Mateus 4:20), e “se alguém quer vir após mim […] siga-me” (Mateus 16:24). Aqui o sentido é físico: andar atrás. Mas o leitor de Mateus ouve na palavra o verbo de quem segue um mestre.
ἔκραζον — ekrazon, “gritavam”. Imperfeito de krazō, gritar, clamar em voz alta. O imperfeito dá duração: o grito se repetia ao longo do caminho. É o verbo dos cegos de Jericó em Mateus 20:30-31, e será o das crianças no templo em Mateus 21:15.
λέγοντες — legontes, “dizendo”. Particípio de legō, que introduz a fala citada, como dois-pontos. Construção comum no grego dos evangelhos, que imita o hebraico lemor (“dizendo”).
Ὡσαννά — Hōsanna, “hosana”. Não é palavra grega: é a transcrição, em letras gregas, de uma palavra hebraica ou aramaica. A análise da forma hebraica do Salmo 118:25 está no estudo de Gênesis 50:17.
Um dado próprio deste versículo: a Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, não transcreve a palavra no Salmo 118:25 — traduz: sōson dē, “salva, pois”. O hōsanna dos evangelhos, portanto, não veio da Bíblia grega. Veio do som que se gritava nas festas, conservado como se conserva um grito: sem tradução. É indeclinável e não muda de forma em nenhuma das suas ocorrências.
τῷ υἱῷ Δαβίδ — tō huiō Dabid, “ao Filho de Davi”. Dativo de huios, “filho”. O dativo grego indica a quem algo se destina ou em favor de quem algo é feito, e é essa ambiguidade — homenagem a alguém ou pedido em favor de alguém — que alimenta as leituras expostas no item 3. Dabid é o nome hebraico transcrito, também indeclinável.
εὐλογημένος — eulogēmenos, “bendito”. Particípio perfeito passivo de eulogeō, formado de eu (“bem”) e logos (“palavra”): literalmente, “dito bem”. O perfeito indica um estado que permanece: alguém que foi abençoado e continua abençoado.
Não é a palavra das bem-aventuranças. Em Mateus 5:3-11, “felizes” é makarioi, que descreve uma condição. Eulogēmenos descreve o efeito de uma palavra de bênção pronunciada sobre alguém. A frase inteira — eulogēmenos ho erchomenos en onomati Kyriou — é idêntica, palavra por palavra, à da Septuaginta no Salmo 118:26.
ὁ ἐρχόμενος — ho erchomenos, “o que vem”. Particípio presente de erchomai, “vir”, com artigo: “aquele que está vindo”. No hebraico do salmo, ha-ba, “o que chega”. Em Mateus 11:3 a mesma forma, com o mesmo artigo, é a pergunta de João Batista: “És Tu aquele que havia de vir?”. O particípio com artigo funciona como nome.
ἐν ὀνόματι Κυρίου — en onomati Kyriou, “em nome do Senhor”. Kyrios é a palavra com que a Septuaginta substitui o nome divino, YHWH. Na citação do salmo, “Senhor” aqui é o nome de Deus. A ordem das palavras, no grego como no hebraico, deixa em aberto se a expressão se liga a “bendito” ou a “o que vem” (item 3).
Ὡσαννὰ ἐν τοῖς ὑψίστοις — Hōsanna en tois hypsistois, “hosana nas alturas”. Hypsistos é o superlativo de hypsos, “altura”: “o mais alto”. Com artigo, no plural e precedido de en, significa “nos lugares mais altos”, os céus.
O mesmo adjetivo, no singular e sem complemento, é um nome de Deus: “o Altíssimo” (Lucas 1:32 e 1:35; Marcos 5:7). A expressão do versículo, no plural, não é esse título; é lugar. Mas a palavra que designa o lugar é a mesma que designa quem mora nele. A mesma expressão, en tois hypsistois, está na Septuaginta do Salmo 148:1 e em Jó 16:19 (“a minha testemunha está nas alturas”), e Lucas a usa no canto dos anjos (Lucas 2:14).
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: a multidão não improvisa o seu grito. Ela usa a liturgia que sabia de cor — o salmo de chegada das festas, cantado no templo, na ceia e em volta do altar com ramos —, e o transforma mudando apenas a direção. O pedido que subia a Deus e a saudação que valia para qualquer peregrino passam a ter um destinatário só, montado num jumentinho. A novidade está inteira dentro de palavras velhas.
A segunda: o grito é ambíguo de propósito ou por natureza. “Hosana” é ao mesmo tempo súplica e aclamação, “nas alturas” admite mais de um sentido, e “em nome do Senhor” pode dizer quem Jesus é ou o que a multidão faz. Essa ambiguidade não é defeito da cena: é o que permitia gritar um título perigoso dentro de um canto permitido.
A terceira: para Mateus, a aclamação não fecha nada. A mesma frase volta, dois capítulos depois, como algo que Jerusalém ainda não disse. O grito da estrada foi verdadeiro e insuficiente ao mesmo tempo — e, ao virar fórmula fixa da liturgia cristã, sobreviveu à multidão que o gritou e ao sentido que ela lhe dava.













