A maior parte da multidão estendeu as suas capas pelo caminho, enquanto outros cortavam ramos das árvores e os espalhavam pelo caminho.
1. Introdução
A maior parte da multidão tira a capa e a estende no chão, e outros cortam ramos e os espalham na estrada por onde Jesus vai passar.
“A maior parte” é a leitura correta do grego, que a tradução anterior da ABC tinha apagado: Mateus não diz que a multidão era grande, diz que quase todos fizeram o gesto. Roupa sob os pés era a forma com que Israel tinha aclamado um rei numa revolta, e ramos eram o sinal das festas de vitória e de purificação do templo, dois séculos antes. Mateus não fala em palmeiras — só João fala —, e não registra nenhuma reação de Jesus.
2. Contexto Histórico e Cultural
A capa sob os pés de um rei: Jeú
O precedente bíblico do gesto está em 2 Reis 9. Um jovem profeta, enviado por Eliseu, entra numa sala onde estão reunidos os comandantes do exército de Israel, chama à parte um deles, Jeú, derrama óleo na cabeça dele, declara-o rei e foge. Os outros oficiais perguntam o que aquele “louco” queria. Jeú conta. E 2 Reis 9:13 descreve a reação: cada um tomou depressa a sua capa e a pôs debaixo de Jeú, no alto da escada; tocaram a trombeta e gritaram: “Jeú é rei!”.
Três coisas dessa cena importam para Mateus 21:8. A primeira: a capa no chão é a resposta imediata de quem reconhece um rei novo — não há trono ali, e o pano faz as vezes de trono. A segunda: o gesto é de soldados, não de sacerdotes, e não passa por nenhuma autoridade estabelecida. A terceira, a mais grave: havia um rei vivo, Jorão. A capa estendida de 2 Reis 9:13 abre um golpe de Estado. Nos versículos seguintes, Jeú mata Jorão, mata o rei de Judá que estava com ele e manda jogar Jezabel da janela.
Ramos de festa: as duas vitórias dos Macabeus
Os ramos têm outra origem. Dois episódios da guerra dos Macabeus — a revolta judaica contra os reis gregos da Síria, no século II antes de Cristo — mostram a sua função.
O primeiro está em 2 Macabeus 10:6-7. Em 164 antes de Cristo, Judas Macabeu retoma o templo, que tinha sido profanado com culto pagão, e o purifica. A festa da rededicação dura oito dias e, diz o texto, foi celebrada “à maneira da festa das Tendas”, porque pouco tempo antes eles tinham passado a festa das Tendas escondidos nos montes e nas cavernas, como animais. Por isso, levando ramos enfeitados, galhos verdes e folhas de palmeira, cantavam hinos àquele que os tinha levado a purificar o seu lugar santo. É a origem da festa que os judeus celebram até hoje no inverno, a Hanucá (“dedicação”), e o texto mostra que ela nasceu emprestando os ramos de outra festa.
O segundo está em 1 Macabeus 13:51. Em 141 antes de Cristo, Simão, irmão de Judas, toma a cidadela de Jerusalém, a última guarnição estrangeira dentro da cidade. Entra nela “com louvores e ramos de palmeira, com cítaras, címbalos e harpas, com hinos e cânticos, porque um grande inimigo tinha sido esmagado e expulso de Israel”. E manda que o dia seja comemorado todo ano.
As duas cenas têm o mesmo desenho: um líder judeu entra num lugar de Jerusalém tomado de volta de um poder estrangeiro, e o povo o recebe com ramos e cânticos. Nos dois casos, o ramo é sinal de libertação política e religiosa ao mesmo tempo. Dois séculos depois, uma multidão que corta ramos na estrada de Jerusalém, na festa que lembrava a saída do Egito, sob uma guarnição romana, estava usando um gesto que tinha história. Os livros dos Macabeus não estão na Bíblia hebraica nem nas protestantes, mas as Bíblias católicas e ortodoxas os trazem.
O tapete diante de quem não devia pisá-lo
Fora de Israel, o gesto de estender pano diante de alguém também era conhecido, e com um aviso. Na tragédia Agamêmnon, de Ésquilo, encenada em Atenas em 458 antes de Cristo, o rei volta vitorioso de Troia, e a mulher, Clitemnestra, manda estender tecidos de púrpura do carro até a porta do palácio. Agamêmnon hesita: honras assim são para os deuses, e um mortal que pisa nelas atrai a inveja divina. Acaba descalçando-se e caminhando sobre os tecidos — e é assassinado lá dentro. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) já lembrava a cena ao comentar este versículo.
A comparação serve pelo contraste: lá, púrpura estendida por quem planejava matar o rei; aqui, capas gastas jogadas no chão por quem o aclamava. Que nos dois casos a honra no caminho anteceda a morte em poucos dias é coincidência de enredo, não parentesco entre os textos.
O que a igreja fez com a cena
Egéria, a peregrina do fim do século IV, descreve no seu diário como Jerusalém revivia este versículo. No domingo antes da Páscoa, à tarde, todos subiam ao monte das Oliveiras, liam o trecho do evangelho e desciam a pé até a cidade, com o bispo no lugar de Jesus. As crianças, inclusive as pequenas demais para andar, levadas nos ombros dos pais, seguravam ramos de palmeira ou de oliveira. Três séculos depois de Mateus, o gesto da multidão tinha virado procissão anual, e a estrada era a mesma.
3. Análise Teológica do Versículo
“A maior parte da multidão”
A tradução anterior da ABC dizia “uma grande multidão”, e a diferença não é de estilo. Uma grande multidão diz quanta gente havia. “A maior parte da multidão” diz quantos, entre os que estavam ali, fizeram o gesto. O grego de Mateus põe um artigo diante do superlativo, e com artigo a expressão quer dizer “a maioria” — o item 10 mostra a construção e o contraste com Marcos.
Isso muda a cena em dois pontos. Primeiro: Mateus pressupõe uma multidão já reunida em volta de Jesus, de que este versículo separa uma parte. Quem eram, e se eram os mesmos que vinham de Jericó, é pergunta tratada no estudo de Mateus 20:29. Segundo: se foi a maior parte, houve uma parte menor que não estendeu a roupa. Mateus não diz quem eram nem por que se abstiveram — gente sem capa de sobra, gente que só acompanhava a festa, gente que achou o gesto perigoso. Mas, com a correção, a cena deixa de ser unânime. A aclamação foi da maioria, não de todos.
E há o que vem a seguir. Dois versículos depois, quando Jesus entra na cidade, “a cidade toda” pergunta quem é ele (Mateus 21:10), e as multidões respondem que é “Jesus, o profeta, de Nazaré da Galileia” (Mateus 21:11). Quem estende a roupa no caminho não é Jerusalém. É gente de fora, que chegou com ele. Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, exegeta alemão do século XIX) concluía disso que a multidão era, na maior parte, de galileus. A conclusão é provável, não demonstrada; mas o próprio texto separa os que aclamam dos que perguntam.
“estendeu as suas capas”
A roupa é a mesma peça que os discípulos acabaram de pôr sobre os animais — a capa, o manto externo. O gesto passa dos discípulos para a multidão e muda de lugar: do lombo do animal para o chão.
O que significa pôr a própria capa sob os pés de alguém? Três leituras, não excludentes.
Primeira leitura: é aclamação de rei. Foi o que os oficiais fizeram com Jeú, e o gesto tinha esse sentido conhecido em Israel. É a leitura de Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) e de quase todos os comentários clássicos. Ela tem a seu favor o versículo seguinte, em que a multidão grita o nome de Filho de Davi.
Segunda leitura: é submissão pessoal. Pôr a roupa sob os pés de alguém é pôr-se, simbolicamente, debaixo dele. A capa era quase uma extensão do corpo — servia de cobertor, era penhorável, era o último bem. Deixar que outro passe por cima dela é dizer “passe por cima de mim”. Essa leitura não depende do precedente de Jeú: o gesto falaria por si.
Terceira leitura: é entusiasmo sem programa. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) fala de uma multidão levada a uma ação não premeditada. O gesto teria vindo dos discípulos, que acabaram de cobrir os animais, e se espalhado por imitação, sem que cada um soubesse o que estava declarando.
O texto não escolhe. Mas registra um detalhe que pesa na primeira e na segunda leitura: as capas são “suas”, e o grego enfatiza o possessivo. Não foram buscar panos para enfeitar a estrada. Tiraram a roupa que vestiam.
“pelo caminho”
Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo luterano alemão do século XVIII) observou que a roupa ia no meio do caminho, e não à margem: era para ser pisada. Lucas 19:36 diz isso com um verbo próprio — eles estendiam as capas “por baixo”. O animal ia passar em cima. Ninguém ali esperava receber a capa de volta limpa.
E aqui o gesto ganha um peso político que o leitor moderno tende a perder. O precedente de Jeú não era uma coroação pacífica, e Jerusalém estava sob governo romano, com um governador que vinha à cidade nas festas justamente para manter a ordem. Uma multidão que estende roupas no chão diante de um homem montado, a caminho da capital, está fazendo um gesto que qualquer autoridade sabia ler. Mateus não comenta o risco. No capítulo 27, Pilatos vai abrir o interrogatório com a pergunta “És Tu o rei dos judeus?” (Mateus 27:11).
“enquanto outros cortavam ramos das árvores”
“Outros”: não é a mesma gente. Uma parte dá a roupa, outra parte corta galhos. Talvez a divisão seja simplesmente de quem tinha capa e de quem estava perto das árvores; o texto não explica.
Que árvores? Mateus não diz. Marcos 11:8 fala de folhagem cortada “dos campos”; João 12:13 fala de folhas de palmeira; Mateus diz só “das árvores”. Na encosta do monte das Oliveiras, o mais provável é que houvesse oliveiras e figueiras — Betfagé, o povoado do versículo 1, tem no nome a figueira. O nome que a tradição deu ao dia, Domingo de Ramos, vem do texto de Mateus e de Marcos; o “Domingo de Palmas” das línguas latinas vem de João.
Por que ramos? O Expositor's Greek Testament (“Novo Testamento Grego do Expositor”, comentário inglês do início do século XX) observa que galhos não melhoram estrada nenhuma. O ramo é sinal, não pavimento: lembrava a festa das Tendas e as entradas de vitória dos Macabeus.
O dado estranho é a data. Esta é a semana da Páscoa, na primavera; a festa dos ramos era a das Tendas, no outono. Ou a multidão transportou um gesto de uma festa para outra — como os Macabeus já tinham feito ao rededicar o templo —, ou o costume de agitar ramos em celebração não estava preso a uma data. As duas hipóteses são defensáveis, e nenhuma se demonstra pelo texto.
“e os espalhavam pelo caminho”
Os ramos vão para o mesmo lugar das capas: o chão. O versículo termina repetindo “pelo caminho”, como começou. E o tempo dos verbos muda no meio da frase: a roupa foi estendida de uma vez; os ramos eram cortados e espalhados continuamente, à medida que o cortejo avançava. Uma estrada se forra à frente de quem vem, trecho por trecho.
Mateus não registra nenhuma reação de Jesus: ele não agradece, não detém, não corrige.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pessoas
A maior parte da multidão — o grupo que acompanha Jesus na descida do monte das Oliveiras. Pelo que dizem os versículos 10 e 11, gente de fora da cidade, que chegou com ele e o conhece como o profeta de Nazaré. Mateus não dá número nem procedência.
Os outros — os que cortam ramos. O texto os distingue dos que estendem roupa, mas não diz se eram menos, se eram outros grupos de peregrinos ou se eram simplesmente os que estavam mais perto das árvores.
Lugares
O caminho — a estrada de terra que desce do monte das Oliveiras ao vale do Cedrom e sobe até a cidade. O versículo nomeia o caminho duas vezes, no começo e no fim: é o lugar onde tudo acontece.
As árvores — as da encosta do monte, que tem no nome a oliveira. Mateus não diz de que espécie eram os ramos.
Eventos
O forro da estrada — capas no chão, depois ramos, em trechos sucessivos à frente do animal. Não há sinal de organização prévia: o texto apresenta o gesto como espontâneo, começando pelos discípulos (versículo 7) e se espalhando.
A festa — a semana da Páscoa, quando Jerusalém recebia peregrinos de toda a Judeia, da Galileia e da diáspora, e a guarnição romana ficava em alerta.
5. Pontos de Ensino
1. Um artigo muda a cena. “Uma grande multidão” e “a maior parte da multidão” não dizem a mesma coisa. A segunda forma, que é a do grego, diz que houve quem não estendesse a roupa. A tradução fiel devolve ao texto um detalhe que a tradução anterior tinha apagado.
2. A honra mais forte é a que não tem utilidade. Roupa no chão suja; ramo no chão não melhora a estrada. Nada no gesto serve para alguma coisa prática. Serve para dizer algo — e diz justamente porque custa e não rende.
3. Gestos carregam a história de onde vieram. A capa sob os pés de Jeú abriu uma revolta; os ramos dos Macabeus celebraram a expulsão de um poder estrangeiro. Quem repete um gesto antigo diz mais do que talvez saiba. A multidão de Mateus 21:8 não precisava conhecer 2 Reis para que o seu gesto significasse o que significava.
4. Quem aclama não é a cidade. Os que estendem as roupas vêm com Jesus; os moradores de Jerusalém, no versículo 10, ainda perguntam quem ele é. Ler a cena como a cidade inteira recebendo Jesus é ler o que o texto não diz.
5. Os evangelhos guardam detalhes diferentes da mesma estrada. Mateus diz “ramos das árvores”, Marcos “folhagem dos campos”, João “palmeiras”. Nenhum corrige o outro, e a tradição cristã guardou os três — o nome do dia vem ora de um, ora de outro.
6. Aspectos Filosóficos
Quando a multidão age como se tivesse autoridade
Ninguém mandou a multidão estender as roupas. Nenhum sacerdote, nenhum magistrado, nenhum profeta deu a ordem. E, no entanto, ela executa um gesto que, na história de Israel, era de quem tinha poder para fazer um rei. De onde uma multidão tira a autoridade para fazer o que só uma instituição poderia fazer?
A historiadora Natalie Zemon Davis (1928-2023), canadense que ensinou em Princeton e ficou conhecida pelo livro O retorno de Martin Guerre, dedicou a essa pergunta dois ensaios que se tornaram clássicos, ambos reunidos no Brasil em Culturas do povo: sociedade e cultura no início da França moderna.
“Os ritos da violência” (1973)
O primeiro estuda os motins religiosos na França do século XVI, quando católicos e protestantes se atacavam nas ruas. A tese de Davis contrariava a imagem da turba cega. As multidões, mostrou ela, agiam como quem cumpre um papel legítimo: tomavam para si funções que achavam que o clero e os magistrados não estavam cumprindo — purificar a comunidade, punir o sacrilégio, defender a verdadeira fé. E faziam isso com formas emprestadas da liturgia, da Bíblia e do processo penal. A violência tinha roteiro, e o roteiro vinha das instituições que a multidão substituía.
Aplicada a Mateus 21:8, sem a violência, a ideia ilumina o essencial. A multidão não inventa um gesto: usa um que estava escrito — o de 2 Reis 9:13 — e um que pertencia à festa — os ramos. É desse repertório que ela tira a legitimidade. O que os oficiais de Jeú fizeram com autoridade militar, e o que os sacerdotes faziam com autoridade de culto, a multidão faz por conta própria, apoiada na forma. Quem tem a forma certa sente que tem o direito.
E, como nos motins estudados por Davis, isso implica um juízo implícito sobre as autoridades. Se a multidão faz a aclamação, é porque quem deveria fazê-la não fez. No versículo 15, os chefes dos sacerdotes vão se indignar justamente com isso.
“As razões do desgoverno” (1971)
O segundo ensaio estuda as festas de inversão: o carnaval, as “abadias” de jovens que elegiam um abade ou um rei de brincadeira, os charivaris (algazarras públicas com panelas e gritos à porta de quem tinha violado um costume da comunidade). A interpretação corrente via nessas festas uma válvula de escape, que deixava o povo brincar de mundo às avessas por um dia para que tudo voltasse ao normal no dia seguinte. Davis mostrou que não era só isso. A festa podia criticar a ordem, corrigir quem abusava dela e, em certos momentos, transbordar em ação política de verdade. O rei de brincadeira nem sempre era só brincadeira.
A cena da estrada tem essa mesma ambiguidade. Um homem num jumentinho, um tapete de capas velhas, galhos arrancados das árvores: aos olhos de um oficial romano, podia ser uma procissão de peregrinos excitados, um rei de festa sem consequência. Aos olhos de quem gritava, podia ser outra coisa. O texto de Mateus não decide em qual dos dois registros a multidão estava — e é provável que estivesse nos dois ao mesmo tempo, sem distinguir.
O que a comparação mostra, e onde ela para
Davis ajuda a ver que uma multidão não é massa sem ideias. Ela tem repertório, tem memória de gestos e tem uma noção do que é legítimo. Sabia o bastante para escolher os gestos certos.
Mas há três diferenças que impedem levar a comparação longe demais. Davis estudou cidades francesas do século XVI, com documentação de tribunais e crônicas; Mateus é um relato de fé, escrito décadas depois, e não um processo. Os motins de Davis eram violentos; esta cena não tem violência nenhuma. E a multidão de Davis agia contra alguém, enquanto esta age a favor de alguém. O que permanece é a pergunta de método: em nome de quê a multidão se sente autorizada? A resposta, aqui, é: em nome das Escrituras e da festa.
7. Aplicações Práticas
Gestos dizem mais do que quem os faz pretende
A multidão repetiu um gesto com história — capa no chão, ramo na mão — e o gesto disse por ela coisas que talvez ninguém ali tivesse formulado. O mesmo vale hoje para quem aplaude, quem se levanta, quem compartilha, quem vai ou deixa de ir a um ato público. Antes de repetir um gesto coletivo, pergunte de onde ele vem e o que ele declara, além do que você quer dizer com ele.
Estar na maioria não obriga
“A maior parte” estendeu a roupa; uma parte não. O texto não condena nem elogia a minoria. Mas registra que ela existia. Numa situação em que todos parecem fazer a mesma coisa, há sempre quem não faça, e a decisão de cada um continua sendo de cada um — tanto a de entrar no gesto quanto a de ficar de fora.
Honrar com o que custa, sem esperar retorno
Quem estendeu a capa no meio da estrada sabia que ela seria pisada e não voltaria limpa. Há gestos de reconhecimento que só valem porque não pedem nada em troca — e que perdem o sentido no momento em que se transformam em investimento.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
A multidão que estendeu as roupas é a mesma que, dias depois, gritou “crucifique-o”?
É o que muita pregação afirma, e Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) já falava da “multidão volúvel” que passa do hosana ao crucifique. O texto de Mateus não sustenta a identificação. Os que aclamam aqui chegam com Jesus, e os versículos 10 e 11 os distinguem da cidade. A multidão de Mateus 27:20-25 está diante de Pilatos, em Jerusalém, e o texto diz que foi convencida pelos chefes dos sacerdotes e pelos anciãos. Pode ter havido gente nos dois lugares; não há como saber. O que se pode dizer é que o evangelho não faz essa ligação, e que a imagem de um povo inteiro que muda de lado em cinco dias é construção da pregação — construção que, por séculos, foi usada contra os judeus em geral.
Por que os romanos não reagiram?
O texto não diz se reagiram ou não, e essa é a resposta honesta. As hipóteses vão em duas direções. Uma: a cena foi menor do que a leitura posterior a fez parecer — um grupo de peregrinos animados entre milhares, numa estrada fora dos muros, sem armas, nada que justificasse intervenção imediata. Outra: foi notada, e é exatamente o que reaparece no processo, quando a pergunta de Pilatos é sobre ser rei. As duas são plausíveis. A palavra “a maior parte”, que Mateus usa, sugere uma cena ampla dentro do grupo que acompanhava Jesus, mas não diz o tamanho do grupo.
Por que Jesus não diz nada?
Mateus não lhe dá nenhuma fala entre o versículo 3 e o versículo 13. Ele aceita a homenagem em silêncio e só fala dentro do templo, depois de derrubar as mesas. Uma leitura é que o silêncio é consentimento: ele mandou buscar o animal e não precisa explicar o resto. Outra é que Mateus deixa a multidão falar sozinha, e reserva a palavra de Jesus para o confronto que vem. O texto não diz qual intenção havia, e as duas leituras são compatíveis.
9. Conexão com Outros Textos
A capa sob o rei
2 Reis 9:13 — “Então cada um tomou depressa a sua capa e a pôs debaixo dele, no alto da escada; tocaram a trombeta e gritaram: ‘Jeú é rei!’”
O precedente do gesto: oficiais do exército aclamam um rei novo enquanto o antigo ainda reina.
Os ramos das vitórias
1 Macabeus 13:51 — “No dia vinte e três do segundo mês do ano cento e setenta e um, entraram nela com louvores e ramos de palmeira, com cítaras, címbalos e harpas, com hinos e cânticos, porque um grande inimigo tinha sido esmagado e expulso de Israel.”
A entrada de Simão na cidadela de Jerusalém, retomada dos gregos da Síria.
2 Macabeus 10:7 — “Por isso, levando ramos enfeitados, galhos verdes e folhas de palmeira, cantavam hinos àquele que os tinha levado a purificar o seu lugar santo.”
A rededicação do templo celebrada com os ramos da festa das Tendas.
A mesma estrada nos outros evangelhos
Marcos 11:8 — “Muitos estenderam as suas capas no caminho, e outros, folhagens que tinham cortado dos campos.”
Marcos diz “muitos”, onde Mateus diz “a maior parte”; e a vegetação vem dos campos, não das árvores.
Lucas 19:36 — “E, enquanto ele avançava, estendiam as suas capas no caminho, por baixo dele.”
Lucas não tem ramos. Tem só as capas, e precisa que fiquem por baixo.
João 12:13 — “Tomaram ramos de palmeiras, saíram ao seu encontro e clamavam: ‘Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel!’”
Só João tem palmeiras, e só nele a multidão sai da cidade ao encontro de Jesus — o oposto de Mateus, em que ela vem com ele.
A multidão com ramos, no fim da Bíblia
Apocalipse 7:9 — “Depois disso olhei, e eis uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de branco e com palmas nas mãos.”
A imagem das palmas na mão da multidão volta como cena final de vitória.
A outra multidão
Mateus 27:20 — “Mas os chefes dos sacerdotes e os anciãos convenceram a multidão a pedir Barrabás e a mandar matar Jesus.”
Mateus atribui a decisão de outra multidão a um convencimento, e diz quem convenceu.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
A maior parte da multidão estendeu as suas capas pelo caminho, enquanto outros cortavam ramos das árvores e os espalhavam pelo caminho.
Texto grego (Textus Receptus)
Ὁ δὲ πλεῖστος ὄχλος ἔστρωσαν ἑαυτῶν τὰ ἱμάτια ἐν τῇ ὁδῷ· ἄλλοι δὲ ἔκοπτον κλάδους ἀπὸ τῶν δένδρων, καὶ ἐστρώννυον ἐν τῇ ὁδῷ.
Transliteração
Ho de pleistos ochlos estrōsan heautōn ta himatia en tē hodō; alloi de ekopton kladous apo tōn dendrōn, kai estrōnnyon en tē hodō.
Análise palavra por palavra
Ὁ δὲ πλεῖστος ὄχλος — ho de pleistos ochlos, “e a maior parte da multidão”. Pleistos é o superlativo de polys, “muito”: “o mais numeroso”, “o maior”.
No grego do Novo Testamento o superlativo serve a dois usos. Sem artigo, costuma ser só intensivo: “muitíssimo”, “enorme”. Com artigo, é superlativo de verdade e designa a parte maior de um conjunto. Aqui há artigo, ho, e por isso a ABC corrigida traduz “a maior parte da multidão”.
Duas ocorrências mostram a diferença. Em Marcos 4:1, nas edições críticas, Jesus ensina junto ao mar e reúne-se ochlos pleistos, sem artigo: “uma multidão enorme”. E em Mateus 11:20, Jesus repreende as cidades onde tinham sido feitas hai pleistai dynameis autou, com artigo: “a maior parte dos seus milagres”, como traduz a própria ABC. É a mesma construção deste versículo, e ali ninguém traduz “os seus enormes milagres”.
A partícula de, “e”, “por sua vez”, liga a cena da multidão à dos discípulos no versículo anterior.
ἔστρωσαν — estrōsan, “estenderam”. Aoristo do indicativo ativo de strōnnymi (também strōnnyō), estender por cima, forrar, cobrir uma superfície.
É verbo de casa: o de forrar um leito ou um divã. Em Marcos 14:15, a sala da última ceia é uma sala “forrada”, já arrumada com as almofadas para a refeição; em Atos 9:34, Pedro diz ao paralítico curado que arrume ele mesmo a própria cama. Na estrada de Betfagé, a multidão faz com o chão o que se fazia com um leito para um hóspede de honra.
Dois detalhes de forma. O sujeito, ochlos, está no singular, mas o verbo está no plural: o grego concorda pelo sentido, e a gramática mostra a multidão como muitas pessoas agindo cada uma por si. E o tempo é o aoristo, de ação pontual — a roupa foi estendida de uma vez. A ABC verteu por “estendia”, no imperfeito; é escolha legítima de estilo, mas apaga o contraste com os verbos seguintes.
ἑαυτῶν τὰ ἱμάτια — heautōn ta himatia, “as suas próprias capas”. Heautōn é o pronome reflexivo, “de si mesmos”, e vem antes do substantivo, em posição de ênfase. A roupa era deles, a do corpo.
Himatia é a mesma palavra do versículo 7, onde a ABC traduziu “capas”; aqui traduziu “roupas”. No grego, a multidão faz com as mesmas peças o que os discípulos acabaram de fazer.
ἐν τῇ ὁδῷ — en tē hodō, “no caminho”. Hodos é estrada, caminho, e em Mateus tem também uso figurado: o caminho estreito (Mateus 7:13-14), o caminho da justiça pelo qual João veio (Mateus 21:32), e, na primeira vez em que a palavra aparece ligada a Jesus, a voz que clama no deserto: “Preparem o caminho do SENHOR” (Mateus 3:3). Aqui a multidão prepara um caminho no sentido mais literal possível. Mateus não aponta a ligação, e ela é leitura.
ἄλλοι δέ — alloi de, “e outros”. Pronome no plural: um segundo grupo, distinto do primeiro.
ἔκοπτον — ekopton, “cortavam”. Imperfeito de koptō, golpear, cortar com golpe. O imperfeito descreve ação que se repete ou se prolonga: iam cortando.
Na voz média, o mesmo verbo significa bater no próprio peito em luto, lamentar: é koptō em Mateus 11:17 (“entoamos lamentos, e vocês não se bateram no peito”) e em Mateus 24:30 (“todos os povos da terra vão se lamentar”). Aqui está na voz ativa, e é só o golpe no galho.
κλάδους — kladous, “ramos”. Klados é o galho novo, flexível, o que brota. É a palavra dos ramos da mostarda onde as aves se abrigam (Mateus 13:32) e do ramo da figueira que amolece quando o verão chega (Mateus 24:32). Não é a palavra de João 12:13, que usa baia, as folhas da palmeira, nem a de Marcos 11:8, stibadas, folhagem ou camadas de folhas cortadas no campo.
ἀπὸ τῶν δένδρων — apo tōn dendrōn, “das árvores”. Dendron, árvore em geral, sem espécie. Daqui a onze versículos, uma árvore será julgada pelo fruto.
καὶ ἐστρώννυον — kai estrōnnyon, “e espalhavam”. Imperfeito do mesmo verbo do começo do versículo. O grego repete o verbo; a ABC variou, “estendia” e “espalhavam”.
A repetição com mudança de tempo é o desenho do versículo: a mesma ação, primeiro feita de uma vez com as roupas (aoristo), depois continuada com os ramos (imperfeito), à medida que o animal avançava.
ἐν τῇ ὁδῷ — en tē hodō, “pelo caminho”. A expressão fecha o versículo como abriu a primeira metade. Duas vezes o caminho, duas vezes o mesmo verbo de forrar.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: o gesto da multidão não é improviso sem sentido. Capas sob os pés e ramos nas mãos eram, na memória de Israel, sinais de rei aclamado e de libertação celebrada. Saiba ou não cada pessoa da estrada o que estava repetindo, o que se repetia era um gesto político, e a autoridade romana e a do templo sabiam lê-lo.
A segunda: a correção da ABC devolve ao versículo a sua medida. Não foi “uma grande multidão”, foi a maioria de um grupo que vinha com Jesus — e não a cidade, que no versículo 10 ainda pergunta quem ele é. A cena não autoriza falar em Jerusalém inteira aos pés de Jesus, nem no povo que muda de lado em cinco dias.
A terceira: o versículo descreve um caminho sendo preparado por quem segue, com o que tem no corpo e com o que arranca das árvores. Mateus não diz o que Jesus achou disso; diz só que ele passou por cima.













