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Mateus 21:7

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 25 acessos
Trouxeram a jumenta e o jumentinho, puseram sobre eles as suas capas e o fizeram sentar-se em cima.
Numa estrada de terra na encosta de um monte de oliveiras, dois homens de túnica estendem os próprios mantos sobre uma jumenta e um jumentinho, enquanto outros ajudam um homem a sentar-se sobre o pano, com a cidade murada ao fundo, do outro lado do vale.

Estudo


Trouxeram a jumenta e o jumentinho, puseram sobre eles as suas capas e o fizeram sentar-se em cima.

1. Introdução

Os discípulos trazem os dois animais, cobrem os dois com as próprias capas e põem Jesus em cima — a única vez, nos evangelhos, em que ele não anda a pé.

Quem fez o gesto de sentar, os discípulos ou o próprio Jesus, depende da edição do texto grego, e as duas edições que a ABC segue não concordam. “Sobre eles” pode ser sobre as capas ou sobre os dois animais, e cada leitura tem defensores desde a Antiguidade. Por trás da cena está um episódio antigo de Israel: um filho de rei posto por outros sobre a montaria do pai, no dia em que foi feito rei.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um rei feito em cima de uma mula

A história de Israel guardava um precedente exato para esta cena, e ele está em 1 Reis 1. Davi está velho e acamado. Um dos filhos, Adonias, já se comporta como herdeiro, oferece banquete e reúne apoio. A mãe de Salomão e o profeta Natã correm ao rei, e Davi dá uma ordem minuciosa: tomem os meus servos, façam Salomão montar a minha própria mula, desçam com ele até a fonte de Giom, e ali o sacerdote Zadoque e o profeta Natã o ungirão rei; toquem a trombeta e gritem “Viva o rei Salomão!”; depois subam atrás dele, e ele virá sentar-se no meu trono (1 Reis 1:33-35).

O relato segue a ordem passo a passo (1 Reis 1:38-40). Salomão não monta sozinho: os servos o põem sobre a mula. Há um cortejo, há unção, há trombeta, há a multidão que sobe atrás dele tocando flautas, com tanta alegria que “a terra parecia rachar com o barulho”. E a notícia chega a Adonias pelo próprio rito: o mensageiro que corre a contar o golpe faz questão de dizer que puseram Salomão na mula do rei (1 Reis 1:44). Ninguém precisou de documento. Quem viu o filho de Davi sobre a montaria de Davi sabia o que aquilo significava.

Três elementos dessa cena voltam em Mateus 21:7-9: alguém é posto sobre o animal por outros, desce-se do alto em procissão, e a multidão aclama. Mateus não cita 1 Reis em nenhuma linha, e a ligação é leitura, não afirmação do texto. Mas a coincidência de vocabulário na tradução grega do Antigo Testamento é forte, e está analisada no item 10.

A montaria do rei era intocável

A Mishná (a primeira coletânea escrita da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200) tem um capítulo sobre o que é permitido e proibido diante do rei, no tratado Sanhedrin. Ali se lê, em Mishná Sanhedrin 2:5: ninguém monta o cavalo do rei, ninguém se senta no seu trono, ninguém usa o seu cetro, e ninguém o vê cortando o cabelo, nem nu, nem no banho. A justificativa é o versículo “você porá sobre si um rei” (Deuteronômio 17:15), lido como “que o temor dele esteja sobre você”.

A lista põe a montaria ao lado do trono e do cetro. O animal em que o rei anda é extensão da pessoa do rei: montar nele é ocupar o lugar dele. O texto é posterior a Jesus e descreve um ideal mais do que uma prática; mas registra uma ideia que 1 Reis 1 já supunha.

A peregrinação se fazia a pé

Jesus vinha de Jericó, uns 25 quilômetros de subida, e o texto nunca diz que os tenha feito montado. Era o normal: as três festas de peregrinação se chamavam em hebraico regalim (palavra que quer dizer “vezes” e também “pés”), e a Mishná dispensava da obrigação de subir ao templo quem não conseguia fazê-lo com as próprias pernas. Montar a três quilômetros da cidade, no último trecho, quando todos chegavam a pé, não era comodidade de viajante cansado. Era um gesto que se via de longe.

A capa

A peça que os discípulos põem sobre os animais é o manto externo, um pano retangular de lã, grande, que de dia cobria a túnica e de noite servia de cobertor. Para quem era pobre, podia ser o único. A Lei de Moisés manda devolver antes do pôr do sol a capa tomada em penhor, porque é com ela que o devedor dorme (Êxodo 22:26-27).

O que o gesto tem de próprio não é a técnica, que era banal. É de quem eram as capas: dos discípulos. O texto grego, no Textus Receptus, diz “as capas deles”. O assento foi feito com a roupa de quem estava ali.

3. Análise Teológica do Versículo

“Trouxeram a jumenta e o jumentinho”

Os discípulos trazem os dois, porque foi o que lhes mandaram trazer (Mateus 21:2). Mateus é o único evangelista com dois animais na cena; Marcos 11:7, Lucas 19:35 e João 12:14 só falam do jumentinho.

A pergunta prática que esta frase levanta é outra: para que trazer a mãe, se só um seria montado? Duas respostas antigas circulam. A primeira é de quem conhece animais: um jumentinho que nunca foi montado — Marcos 11:2 diz isso, Mateus não — anda mais manso ao lado da mãe, e trazê-la era a forma de conduzi-lo pela estrada cheia de gente. A segunda é do próprio texto: o versículo 5 citou o profeta com “uma jumenta e um jumentinho”, e Mateus mostra a profecia cumprida peça por peça. As duas não se excluem. A primeira explica o fato; a segunda explica por que Mateus o contou.

“puseram sobre eles as suas capas”

Os discípulos cobrem os dois animais, e não um só. Meyer (Heinrich August Wilhelm Meyer, exegeta alemão do século XIX) e o Pulpit Commentary dão a razão mais simples: ninguém sabia qual dos dois ele escolheria, e preparou-se o assento nos dois.

E com isso começam algo que não lhes foi pedido. Ninguém mandou pôr capa sobre animal nenhum. O versículo 6 terminou com a obediência exata (“fizeram como Jesus lhes havia ordenado”); este versículo é o primeiro em que eles fazem mais do que a ordem. No versículo seguinte, a multidão vai copiar o gesto e estendê-lo ao chão. A homenagem com roupas nasce, em Mateus, de uma iniciativa dos discípulos, e não de uma instrução de Jesus.

“e o fizeram sentar-se”

Aqui o texto grego que a ABC segue se divide em dois. A edição de Scrivener (1894), que reconstrói o grego por trás da Bíblia inglesa King James, traz o verbo no plural: “e o fizeram sentar-se” — os discípulos põem Jesus em cima. A edição de Stephanus (1550), a outra grande forma impressa do Textus Receptus (o “texto recebido”, a tradição grega impressa a partir do século XVI), traz o singular: “e sentou-se”. A diferença é de uma letra no grego e de um agente inteiro na cena. A ABC seguiu o Scrivener.

O plural não é invenção isolada. Lucas 19:35 diz a mesma coisa com outro verbo: os discípulos “fizeram Jesus montar”. Marcos 11:7 e João 12:14, ao contrário, dizem que ele sentou-se. Os evangelhos, portanto, já se dividiam antes dos copistas: dois põem o gesto em Jesus, um o põe nos discípulos, e Mateus oscila conforme a edição.

O que muda com cada leitura? Com o singular, Jesus é sujeito de um único verbo no versículo inteiro, e é ele quem decide subir. Com o plural, ele não é sujeito de nada. Os discípulos trazem, os discípulos põem as capas, os discípulos o sentam. Ele não fala, não age, é conduzido. E isso acontece no versículo que abre a cena mais régia do evangelho.

O plural tem ainda uma ressonância que o singular perde. É exatamente a forma verbal com que a tradução grega do Antigo Testamento narra a coroação de Salomão: os servos “o fizeram sentar-se” na mula de Davi (1 Reis 1:38 e 1:44, na Septuaginta, a tradução grega feita entre os séculos III e I antes de Cristo). Quem lê Mateus 21:7 no Scrivener ouve, palavra por palavra, o dia em que um filho de Davi foi feito rei pelas mãos dos servos. Quem lê no Stephanus não ouve.

Não é possível decidir qual forma Mateus escreveu. A maioria dos manuscritos e das edições críticas modernas lê o singular, e o próprio Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo luterano alemão do século XVIII) já registrava as duas formas. Um copista que conhecia Lucas pode ter passado o verbo para o plural; outro, que achou estranho Jesus ser “sentado” por alguém, pode ter feito o contrário. A explicação de cada lado é plausível, e nenhuma é prova.

“em cima”

O grego diz “sobre eles” duas vezes: puseram as capas sobre eles, e o sentaram sobre eles. A ABC traduziu o segundo como “em cima”, e assim conservou a dúvida que o original tem. Sobre o quê, exatamente, Jesus foi sentado? Quatro leituras disputam a frase.

Primeira leitura: sobre as capas. O “eles” do fim seria a roupa que acabou de ser mencionada, e não os animais. É a posição de Meyer, do Pulpit Commentary e do Expositor's Greek Testament (“Novo Testamento Grego do Expositor”, comentário inglês do início do século XX). A gramática a permite, porque a forma grega do pronome é a mesma para coisas e para animais — o item 10 mostra por quê. O que ela resolve: Jesus se senta num lugar só, o assento de pano. O que ela não resolve: as capas estavam sobre dois animais.

Segunda leitura: sobre os animais, um depois do outro. Ele teria montado a jumenta num trecho e o jumentinho no outro. É uma harmonização antiga, registrada em comentários católicos do século XIX como opinião comum; tem a vantagem de levar a sério o plural e o preço de acrescentar uma troca de montaria que nenhum evangelho narra.

Terceira leitura: o quadro é impossível, e por isso aponta para outra coisa. Jerônimo (tradutor da Vulgata, a Bíblia latina, e comentarista do fim do século IV), no seu comentário a Mateus, recusou a imagem de Jesus montado nos dois ao mesmo tempo num trajeto tão curto e passou à leitura alegórica, que Hilário de Poitiers também desenvolveu: a jumenta, acostumada ao jugo, seria o povo de Israel, já sob a Lei; o jumentinho, nunca domado, os outros povos. Os dois animais levam o mesmo Senhor para dentro da cidade. É leitura de pregação, e assim deve ser lida.

Quarta leitura: Mateus escreveu mesmo que ele montou os dois, porque leu a profecia assim. A acusação de que Mateus entendeu a poesia de Zacarias como dois bichos é discutida no estudo de Mateus 21:5. Aqui basta registrar que ela tem defesa erudita recente: Wayne Coppins, num artigo de 2012 no Tyndale Bulletin (revista de estudos bíblicos da Tyndale House, em Cambridge), concluiu que a leitura dos dois animais é mais provável do que a das capas.

Não há consenso. O que o texto garante é menos do que cada leitura afirma: houve dois animais, houve capas sobre os dois, e Jesus foi parar em cima. A palavra que diria em cima de quê é justamente a que o grego deixa ambígua.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Os discípulos — os sujeitos de todos os verbos do versículo, no texto que a ABC segue. O versículo 1 diz que Jesus enviou dois deles ao povoado; aqui o plural pode ser só desses dois, ou de todo o grupo que esperava na estrada. O texto não diz. As capas, em todo caso, são “deles”: quem fez o assento deu a roupa do corpo.

Jesus — não é nomeado no versículo. Aparece só como o pronome “o”, objeto de quem o faz sentar. Na leitura de Stephanus, é o sujeito de “sentou-se”.

Os donos dos animais — ausentes. Marcos 11:5 e Lucas 19:33 mostram os donos perguntando por que os animais estavam sendo desamarrados; Mateus os apaga. Na versão dele, os bichos passam do povoado para a estrada sem que ninguém reclame.

Animais

A jumenta — fêmea adulta. Montaria civil, não animal de guerra.

O jumentinho — o filhote, ainda com a mãe. O versículo 5 o chama de “cria de animal de carga”. Marcos 11:2 e Lucas 19:30 acrescentam que nunca ninguém o tinha montado, dado que Mateus não traz.

Lugares

O caminho entre Betfagé e Jerusalém — a estrada que desce o monte das Oliveiras para o vale do Cedrom, de onde se sobe à cidade. Lucas 19:37 situa a aclamação “na descida do monte das Oliveiras”. Dali a cidade e o templo ficam inteiros à vista, do outro lado do vale. É nesse trecho, de menos de três quilômetros, que a cena acontece.

Eventos

A montaria — o momento em que o peregrino que vinha a pé de Jericó passa a ir montado. É o ponto em que a viagem vira cortejo.

A semana — a cena abre a última semana da vida de Jesus em Mateus, dias antes da Páscoa (Mateus 26:2). A tradição cristã fixou a data no domingo anterior à Páscoa, o Domingo de Ramos; nenhum evangelho sinótico nomeia o dia da semana.

5. Pontos de Ensino

1. O versículo mais régio da cena é aquele em que Jesus menos age. No texto que a ABC segue, os verbos são todos dos discípulos: trouxeram, puseram, fizeram sentar. Ele não fala e não decide nada que o leitor veja. Mateus abre a entrada do rei com o rei sendo conduzido.

2. A homenagem começa com o que se tem no corpo. Os discípulos não tinham sela, nem tapete, nem manto de púrpura. Tinham a capa, a peça que servia de cobertor à noite. O gesto vale pelo que custa a quem o faz, não pelo efeito.

3. Um texto pode guardar duas formas e as duas serem antigas. O singular e o plural de “sentar” convivem nas edições do Textus Receptus. Quem lê a Bíblia em tradução recebe uma das formas, quase sempre sem aviso. Saber que a outra existe não enfraquece o texto; mostra como ele chegou até aqui.

4. Os evangelhos não contam a cena do mesmo jeito, e não é preciso igualá-los. Um animal ou dois; Jesus sobe ou é posto em cima. As diferenças estão à vista desde a Antiguidade, e Jerônimo já lidava com elas no século IV. A tradição as transmitiu sem apagar.

6. Aspectos Filosóficos

Quem faz o rei: o gesto, o objeto e quem os executa

Ser sentado por outros sobre um animal, com as roupas deles por baixo, diante de testemunhas: isso é só um modo de viajar ou já é um ato que muda quem a pessoa é? A pergunta tem uma resposta elaborada na história das sociedades, e um dos que mais trabalharam nela foi o historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014), da escola dos Annales (grupo de historiadores franceses que deslocou a história dos reis e batalhas para a vida, os gestos e as mentalidades das pessoas comuns).

Em 1976, Le Goff publicou um estudo chamado “O ritual simbólico da vassalagem”, depois reunido no livro Para um novo conceito de Idade Média. O objeto era a cerimônia com que, na Europa medieval, um homem se tornava vassalo de um senhor. A cerimônia tinha três tempos. Na homenagem, o vassalo se ajoelhava e punha as mãos juntas entre as mãos do senhor. No juramento de fidelidade, prometia lealdade, muitas vezes com um beijo. Na investidura, o senhor lhe entregava um objeto — um ramo, um torrão de terra, uma luva, um bastão, às vezes um simples talo de palha.

A tese de Le Goff era que essa cerimônia não podia ser lida peça por peça. Cada gesto isolado não diz nada; o que significa é o conjunto — as palavras, os gestos, os objetos, o lugar, as testemunhas. E o ritual não registra uma relação que já existia: ele a cria. Antes das mãos entre as mãos, não havia vassalo. Depois, havia.

Três ideias do ensaio que iluminam Mateus 21:7

A primeira é sobre o objeto. Os objetos da investidura medieval eram, muitas vezes, de valor nenhum: palha, terra, um ramo. Le Goff insistiu nisso, porque mostra que o poder do objeto não está no material, mas na função que o rito lhe dá. As capas dos discípulos são isso. Lã comum, gasta, a roupa do corpo. Postas sob alguém, num lugar público, passam a funcionar como assento de honra.

A segunda é sobre quem executa cada gesto. No ritual da vassalagem, a hierarquia se lê pelas mãos: o vassalo se ajoelha, o senhor envolve as mãos dele, o senhor entrega o objeto. Quem age sobre quem diz quem está acima. Em Mateus 21:7, na leitura que a ABC segue, quem age são os de baixo. São os discípulos que põem o mestre sobre o animal. A investidura é feita por quem serve, e não por um superior que confere o posto.

É aqui que a variante textual ganha peso filosófico. Com o singular de Stephanus — “sentou-se” —, Jesus investe a si mesmo, e o gesto lembra antes um soberano que se coroa com as próprias mãos. É a cena do imperador que, na hora da coroação, toma a coroa e a põe ele mesmo na cabeça. Com o plural do Scrivener — “o fizeram sentar-se” —, ninguém se coroa. O posto é dado por outros, como no caso de Salomão, posto pelos servos sobre a mula de Davi. As duas leituras não descrevem o mesmo tipo de realeza.

A terceira é sobre o efeito. Se o rito cria a relação, a pergunta que o versículo deixa é desconfortável: algo mudou em Jesus no momento em que foi sentado? O evangelho responde que não — ele já era chamado Filho de Davi desde a primeira linha do livro (Mateus 1:1). Para Mateus, o rito da estrada torna público o que o leitor já sabe; não confere nada. Mas, para quem estava na estrada e não tinha lido o capítulo 1, o gesto podia ser exatamente o que Le Goff descreve: o momento em que um peregrino a pé passava a ser outra coisa aos olhos de todos.

Os limites da comparação

Le Goff estudou a Europa dos séculos X a XIII, e nunca escreveu sobre esta cena. Usar o seu esquema numa estrada da Judeia do século I é analogia, e analogia de método: não se diz que os discípulos praticavam um rito feudal, mas que a pergunta dele — o que o conjunto de gesto, objeto e agente produz? — se aplica a qualquer cena pública de honra.

E há uma diferença que o próprio Le Goff destacaria. A vassalagem era um contrato: o senhor devia proteção, o vassalo devia serviço, e os dois lados sabiam o que estavam fazendo. Na estrada de Betfagé, não há contrato, não há palavra pronunciada, e João 12:16 admite que os discípulos não entendiam o que faziam. Se é rito, é rito improvisado, que só ganhou nome depois.

7. Aplicações Práticas

Honrar alguém com o que custa

Os discípulos não compraram nada para a ocasião. Tiraram a capa do corpo. A forma mais honesta de honra continua sendo essa: dar do que é seu e do que faz falta, e não do que sobra. Quem quer reconhecer o valor de alguém — um professor, um pai, um colega que carregou um trabalho difícil — descobre que o tempo e a presença, que não custam dinheiro e custam muito, dizem mais do que o presente vistoso.

Aceitar ser carregado

Na leitura que a ABC segue, Jesus deixa-se pôr em cima. Há pessoas para quem é mais fácil servir do que ser servido, e que recusam a ajuda que lhes é oferecida como se aceitar fosse fraqueza. A cena registra o contrário: alguém que aceitou o gesto dos outros sem corrigi-lo e sem fazer dele um discurso.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Jesus, que andou a pé por toda a Galileia, aceita montar justamente aqui?

Mateus não dá o motivo, e o cansaço não serve: faltavam três quilômetros, depois de mais de vinte subindo de Jericó. O único motivo que o evangelho oferece é o do versículo 4 — para que se cumprisse a palavra do profeta. Além disso, só há leitura. A mais forte é que, no último trecho antes da cidade, a pé ele seria mais um peregrino entre milhares; montado, passa a ser visto. O gesto não tem utilidade de viagem. Tem utilidade de sinal.

Em Mateus 14:22, Jesus manda os discípulos embora às pressas quando a multidão se entusiasma. Por que aqui deixa que o ponham em cima de um animal diante de todos?

A diferença de lugar e de hora pesa. Na Galileia, o entusiasmo vinha de uma multidão recém-alimentada, no território de um tetrarca que acabara de matar João Batista, e João 6:15 diz que queriam fazê-lo rei à força. Aqui, ele mesmo mandou buscar os animais. A iniciativa é dele, e o momento é o fim do caminho — a entrada em Jerusalém, onde ele já anunciou três vezes que vai morrer (Mateus 16:21; 17:22-23; 20:18-19). Uma realeza oferecida no meio do caminho foi recusada; uma realeza assumida no lugar onde vai ser crucificado não é a mesma coisa. O texto não faz essa comparação: é leitura.

Os discípulos sabiam que estavam repetindo a coroação de Salomão?

Não há nenhum indício disso. O vocabulário que liga as duas cenas é da tradução grega, e só se ouve no texto escrito. Os discípulos, na estrada, falavam aramaico e faziam o que a situação pedia. A ligação com 1 Reis 1 é do leitor do evangelho, não de quem estava lá.

9. Conexão com Outros Textos

A coroação de Salomão

1 Reis 1:38 — “Desceram o sacerdote Zadoque, o profeta Natã, Benaia, filho de Joiada, os quereteus e os peleteus; fizeram Salomão montar a mula do rei Davi e o levaram até Giom.”

A execução da ordem de Davi: Salomão não monta sozinho, é posto em cima pelos servos. Na tradução grega, o verbo é o mesmo de Mateus 21:7 no Scrivener.

1 Reis 1:44 — “O rei enviou com ele o sacerdote Zadoque, o profeta Natã, Benaia, filho de Joiada, os quereteus e os peleteus, e eles o fizeram montar a mula do rei.”

O relato do mensageiro a Adonias: o gesto basta para anunciar que houve um rei novo. A Septuaginta repete aqui a mesma forma verbal.

A mesma cena nos outros evangelhos

Marcos 11:7 — “Trouxeram o jumentinho a Jesus, puseram sobre ele as suas capas, e ele se sentou.”

Um animal só, e Jesus sobe por si.

Lucas 19:35 — “Trouxeram-no a Jesus, lançaram as suas capas sobre o jumentinho e fizeram Jesus montar.”

Lucas usa outro verbo, mas o sentido é o do Scrivener: são os discípulos que o põem em cima.

João 12:14-16 — “Jesus encontrou um jumentinho e montou nele, como está escrito […]. A princípio os seus discípulos não entenderam isso; mas, quando Jesus foi glorificado, lembraram-se de que essas coisas estavam escritas a respeito dele e de que assim lhe tinham feito.”

Em João, Jesus acha o animal e monta; e o evangelista registra que o sentido da cena só veio depois da ressurreição.

Ser posto sobre a montaria de outro

Gênesis 41:43 — “Fê-lo subir no seu segundo carro, e proclamavam diante dele: ‘Ajoelhem-se!’ Assim o pôs sobre toda a terra do Egito.”

José é posto pelo faraó no carro real, e a proclamação vem em seguida. Outro caso em que alguém é elevado por quem tem o poder de elevar.

A capa, de ponta a ponta do evangelho

Mateus 5:40 — “E ao que quiser processar você e tomar a sua túnica, deixe-lhe também a capa.”

A capa como o último bem que alguém entregaria. Na estrada, os discípulos a entregam sem que ninguém peça.

Mateus 27:35 — “Depois de o crucificarem, repartiram as suas vestes, lançando sortes, para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta: ‘Repartiram entre si as minhas vestes e sortearam a minha túnica.’”

No começo da semana, os discípulos põem as próprias roupas sob Jesus. No fim dela, os soldados tiram as dele.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Trouxeram a jumenta e o jumentinho, puseram sobre eles as suas capas e o fizeram sentar-se em cima.

Texto grego (Textus Receptus)

ἤγαγον τὴν ὄνον καὶ τὸν πῶλον· καὶ ἐπέθηκαν ἐπάνω αὐτῶν τὰ ἱμάτια αὐτῶν, καὶ ἐπεκάθισαν ἐπάνω αὐτῶν.

Transliteração

ēgagon tēn onon kai ton pōlon; kai epethēkan epanō autōn ta himatia autōn, kai epekathisan epanō autōn.

Análise palavra por palavra

ἤγαγον — ēgagon, “trouxeram”. Aoristo do indicativo ativo de agō, conduzir, levar, trazer. É o mesmo verbo da ordem do versículo 2 (agagete, “tragam-nos”): a execução repete a palavra da ordem.

τὴν ὄνον — tēn onon, “a jumenta”. Onos é o nome grego do jumento, e serve para os dois sexos; quem diz o sexo é o artigo. Aqui o artigo é feminino, tēn: é a fêmea.

καὶ τὸν πῶλον — kai ton pōlon, “e o jumentinho”. Pōlos é o filhote de qualquer animal de montaria, e no grego clássico, sem outra indicação, quase sempre o potro do cavalo. Por isso o estudioso alemão Walter Bauer sustentou, num artigo de 1953, que em Marcos, onde o animal aparece sozinho, o leitor grego pensaria primeiro num cavalo. Em Mateus a dúvida não existe: o filhote vem ao lado da jumenta, e o versículo 5 já o chamou de cria de animal de carga.

ἐπέθηκαν — epethēkan, “puseram sobre”. Aoristo de epitithēmi, formado de epi (“sobre”) e tithēmi (“pôr”). É o verbo de impor as mãos sobre as crianças (Mateus 19:13 e 19:15).

Há uma coincidência mais exata. A combinação deste versículo — “puseram” seguido de “em cima de” — reaparece em Mateus 27:37, quando os soldados põem acima da cabeça de Jesus a acusação escrita: “Este é Jesus, o rei dos judeus”. As duas frases usam as mesmas duas palavras gregas. No começo da semana, os discípulos põem capas sob ele; no fim, os soldados põem sobre ele o título de rei. A coincidência é verificável; a intenção de Mateus em produzi-la não é demonstrável.

ἐπάνω αὐτῶν — epanō autōn, “em cima deles”. Epanō é advérbio usado como preposição, com o genitivo: “por cima de”. Aparece duas vezes no versículo, e o Textus Receptus mantém a mesma forma nas duas; as edições críticas modernas trazem na primeira a forma curta ep' autōn.

O pronome autōn é o centro da dúvida discutida no item 3. É genitivo plural, e no genitivo plural o grego usa a mesma forma para os três gêneros: masculino, feminino e neutro. Os animais (um nome feminino e um masculino, que juntos pedem o masculino) e as capas (um nome neutro) dariam exatamente a mesma palavra. A gramática não decide. Quem decide é o leitor, pela lógica da cena — e é por isso que há leituras diferentes desde a Antiguidade.

τὰ ἱμάτια αὐτῶν — ta himatia autōn, “as capas deles”. Himation é o manto externo, a peça de lã que ia por cima da túnica (chitōn). Mateus 5:40 distingue as duas peças: quem tomar a túnica, leve também a capa.

Duas notas. A primeira: o segundo autōn, “deles”, está no Textus Receptus e falta nas edições críticas; é ele que diz que as capas eram dos discípulos. A segunda: a ABC traduz himatia como “capas” aqui e como “roupas” no versículo seguinte. No grego é a mesma palavra nos dois versículos, e o leitor de Mateus ouvia a multidão repetir com as suas capas o que os discípulos acabavam de fazer com as deles.

καὶ ἐπεκάθισαν — kai epekathisan, “e o fizeram sentar-se”. Aoristo, terceira pessoa do plural, de epikathizō, formado de epi (“sobre”) e kathizō (“sentar”). É a única ocorrência deste verbo em todo o Novo Testamento.

Kathizō, como “sentar” em português, pode ser intransitivo (“sentar-se”) ou transitivo (“fazer sentar”, “pôr sentado”). No plural, com os discípulos por sujeito, só pode ser transitivo: são eles que sentam Jesus. Mas o grego não escreve o objeto — diz “e fizeram sentar em cima deles”, sem o “o”. A ABC acrescentou o pronome, que está subentendido.

A forma plural é a do Textus Receptus na edição de Scrivener (1894) e, segundo o léxico de Thayer (Joseph Henry Thayer, lexicógrafo norte-americano do século XIX), também a da edição dos Elzevir (impressores holandeses do século XVII, de quem vem a própria expressão “texto recebido”). A edição de Stephanus (1550) traz o singular epekathisen, “sentou-se”, intransitivo, com Jesus por sujeito; é também a forma das edições críticas modernas.

Na Septuaginta, o verbo aparece exatamente nesta forma, epekathisan, em 1 Reis 1:38 e 1:44: os servos “fizeram Salomão sentar-se” sobre a mula de Davi. E a ordem de Davi, em 1 Reis 1:33, usa outro verbo, epibibazō (“fazer montar”) — que é precisamente o verbo de Lucas 19:35, “fizeram Jesus montar”. Os dois verbos da coroação de Salomão estão, assim, distribuídos entre Lucas e o Mateus do Scrivener. Se a semelhança foi buscada, não há como provar.

ἐπάνω αὐτῶν — epanō autōn, “em cima”. A repetição fecha o versículo. A ABC traduziu por “em cima”, sem pronome, e assim manteve aberta a pergunta que o grego deixa aberta: em cima das capas ou dos animais.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira: a entrada de Jesus em Jerusalém, em Mateus, começa como obra dos discípulos. São deles os verbos, as capas e, no texto que a ABC segue, o próprio gesto de pôr Jesus em cima. Antes de ser aclamação da multidão, a cena é um improviso de quem o seguia, feito com a roupa do corpo e sem instrução.

A segunda: o gesto tinha um precedente que qualquer israelita reconheceria — o filho de Davi posto pelos servos sobre a montaria do pai —, e no Scrivener o grego de Mateus coincide palavra por palavra com o da coroação de Salomão. Essa ligação é do texto escrito e do leitor, não da consciência de quem estava na estrada.

A terceira: em dois pontos o versículo não permite certeza, e não se deve fingir que permite. Não se sabe se Mateus escreveu “o fizeram sentar-se” ou “sentou-se”, e não se sabe se “sobre eles” fala das capas ou dos animais. O que se sabe é o suficiente para a cena: dois animais cobertos com mantos, e o mestre que andava a pé posto em cima, a três quilômetros da cidade.

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