Dois cegos estavam sentados à beira do caminho e, ao ouvirem que Jesus passava, gritaram: “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!”
1. Introdução
Dois homens estão sentados onde todos os outros estão andando. Não veem a multidão que passa: ouvem dizer que Jesus está passando, e a informação chega pela boca de terceiros.
O que eles gritam é um título de rei. E o que eles pedem não tem objeto — não pedem vista, pedem misericórdia, e deixam para o outro decidir o que fazer com isso.
Mateus conta dois; Marcos e Lucas contam um. A diferença é real, tem várias explicações propostas e nenhuma decisiva.
2. Contexto Histórico e Cultural
A lei dispensava esses dois da viagem que todos em volta estavam fazendo
Este é o dado que a cena pressupõe e não enuncia, e ele é preciso.
Três vezes por ano o israelita devia “aparecer” diante do SENHOR em Jerusalém — na Páscoa, em Pentecostes e nas Tendas. A Mishná (a primeira coletânea da lei oral judaica, posta por escrito por volta do ano 200) abre o tratado Chagigá, que trata exatamente dessa obrigação, com a lista de quem está de fora dela. A frase inicial é: todos estão obrigados na aparição, exceto o surdo-mudo, o incapaz mental e o menor; o de sexo indefinido, o hermafrodita, as mulheres e os escravos não alforriados; o coxo, o cego, o doente, o velho, e quem não consegue subir com as próprias pernas.
Ou seja: os dois homens deste versículo estão sentados na margem da estrada que sobe para a festa, e eram justamente os dispensados de subir. A obrigação que move toda aquela multidão não era deles.
Dois cuidados, para não esticar o dado. Primeiro, a Mishná foi redigida gerações depois da cena e sistematiza discussões anteriores; ela não prova o que se pensava naquela estrada naquele dia. Segundo, dispensa não é proibição: a lista diz quem não é obrigado, e isso é matéria distinta das regras que limitavam o acesso de quem tinha defeito físico ao serviço do altar, tratadas no estudo de Mateus 15:30. O que se pode afirmar é que a categoria existia, e que estar fora da obrigação de peregrinar era a situação normal de um cego.
“Senhor, tem misericórdia” não era linguagem de especialista
A expressão soa hoje como fórmula de missa, e vale desfazer essa impressão.
Os gregos usavam esse par de palavras para pedir clemência a quem tinha poder — a um deus, a um magistrado, a um rei. Arriano, ao registrar as aulas de Epicteto (o filósofo estoico que ensinou em Roma e em Nicópolis no fim do primeiro século), preserva na segunda parte das Diatribes, capítulo 7, a observação de que, ao invocar a divindade, as pessoas dizem “kyrie eleēson” — literalmente “senhor, tem piedade”. O testemunho é citado nos estudos de liturgia desde o século XIX. Grau de certeza: que a fórmula circulava no grego comum é seguro; que esses dois a tomassem de um uso pagão, e não do modo de rezar de Israel, não é afirmável.
O destino da fórmula, esse é firme. Egéria, peregrina do Ocidente que esteve em Jerusalém por volta de 380 e deixou um diário minucioso das celebrações da cidade, descreve a oração da tarde na basílica da Ressurreição: o diácono ia lendo nomes, um por um, e a multidão de meninos que ficava sempre ali respondia a cada nome “Kyrie eleyson” — expressão que Egéria, estranhando-a, traduz para o latim dos seus leitores. Três séculos depois de Jericó, a resposta da assembleia em Jerusalém era a frase dos dois cegos.
Por que sentado, e por que na beira do caminho
A posição não é acidente de cenário; é a descrição de um ofício.
Quem dependia de esmola se instalava onde passava gente, e a estrada que saía de Jericó na semana da Páscoa concentrava o maior fluxo do ano naquela região. Dar esmola a caminho da festa era ato de piedade bem visto, e o peregrino levava dinheiro consigo — de modo que o ponto era, em termos práticos, o melhor disponível.
Marcos, no relato paralelo, acrescenta o verbo do ofício: Bartimeu estava ali mendigando. Mateus não diz isso em palavra nenhuma — o leitor de Mateus tem apenas dois homens sentados, e infere o resto.
Como a notícia corria numa estrada de peregrinação
Com as caravanas. Quem passava contava, e a fama ia à frente do viajante: na semana da festa, o trecho entre Jericó e Jerusalém era a via de maior tráfego da região, e por ela circulava não só gente, mas tudo o que se dizia. A ligação desses dois homens com o mundo era feita dessa fala alheia — e a ordem que a multidão lhes dá, no versículo seguinte, é uma ordem de cortar a fala.
3. Análise Teológica do Versículo
“Dois cegos”
Mateus conta dois. Marcos 10:46 conta um, dá-lhe nome e dá o nome do pai: Bartimeu, filho de Timeu. Lucas 18:35 conta um, sem nome. A divergência está no primeiro substantivo da frase, e é melhor encará-la de frente.
Cinco leituras estão em circulação, e cada uma responde a uma parte do problema.
Primeira leitura: Marcos escolheu o mais conhecido. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) diz que, dos dois, aquele a quem Marcos dá nome era o mais notável. Agostinho já argumentava nessa direção, e com um detalhe forte: Marcos registra o nome do homem e o do pai, coisa que praticamente não acontece nas outras curas, sinal de que aquele mendigo era figura conhecida na cidade. O que a leitura explica: por que Marcos destaca um. O que ela não explica: por que Mateus conta dois.
Segunda leitura: nenhum dos dois disse “só um”. É o argumento de Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) e de Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII): mencionar um não é negar o outro, e os evangelistas omitem fatos o tempo todo. Está correto em lógica formal. O que ela não explica: por que um evangelho conta e os outros não, quando contar é tão fácil.
Terceira leitura: a tradição perde personagens, não os inventa. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) põe a questão em termos de probabilidade: é fácil que uma história em circulação deixe cair um dos dois sofredores, e improvável que multiplique um em dois. É um critério, não uma prova.
Quarta leitura: Mateus dobra. Esta é a mais interessante, porque não trata do caso isolado. Em Mateus 8:28 há dois endemoninhados em Gadara, onde Marcos 5:2 tem um. Em Mateus 9:27 há dois cegos que gritam pelo Filho de Davi, numa cena que repete esta quase palavra por palavra. Em Mateus 21:2 há dois animais na entrada em Jerusalém, onde Marcos 11:2 tem só o jumentinho — e Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo luterano alemão do século XVIII) já havia notado esse par. O padrão se repete o bastante para não ser acaso.
Duas explicações do padrão foram propostas, e nenhuma é demonstrável. A primeira: a lei de Israel exige duas testemunhas para que um fato se estabeleça (Deuteronômio 19:15), e um evangelho escrito para leitor judeu teria razão para apresentar o reconhecimento do Messias em duas bocas, não numa. A segunda: Mateus conta uma história muito parecida em Mateus 9:27-31 e conserva o par nas duas, de modo que o número não seria reivindicação teológica nenhuma — apenas a forma que a narrativa tomou nesse evangelho.
Quinta leitura: eram dois encontros. A Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) propõe que um cego falou com Jesus na entrada da cidade, não foi atendido ali e, na saída, voltou a pedir acompanhado de um segundo. Resolve de uma vez o número e a divergência sobre entrada e saída, e o preço é alto: nada disso está em nenhum dos três textos.
Não é possível decidir. E há um ponto de honestidade que vale mais do que a escolha: quem copiou e transmitiu esses evangelhos tinha como igualar o número, e não igualou. A dificuldade chegou até aqui intacta.
“estavam sentados à beira do caminho”
A frase divide o mundo da cena em dois. De um lado, uma estrada com gente se movendo. Do outro, a margem, com dois homens que não se movem.
Em Mateus, quem está sentado costuma ser quem permanece: o povo sentado em trevas, na citação de Isaías que abre o ministério (Mateus 4:16); o cobrador na sua mesa de impostos (Mateus 9:9); as crianças na praça (Mateus 11:16); os soldados que se assentam para vigiar o crucificado (Mateus 27:36).
“ao ouvirem que Jesus passava”
Tudo nesta cena passa pelo ouvido. Eles não viram a multidão, ouviram-na; e não ouviram Jesus, ouviram dizer.
Repare na forma do relato: não “ouviram Jesus”, e sim “ouviram que Jesus passava”. É informação transmitida, com terceiros no meio. O que esses dois homens têm nas mãos é o que alguém lhes contou — e é sobre esse fundamento que eles gritam um título dinástico em plena estrada de Páscoa.
Costuma-se dizer que os cegos “viram” o que a multidão não viu, e a frase é bonita e imprecisa. Eles não tinham acesso privilegiado a nada: tinham menos dados do que qualquer pessoa em volta — nem rosto, nem expressão, nem gesto. Tinham um relato, e concluíram.
“gritaram”
O verbo é o do grito, não o do pedido — palavra forte, de quem levanta a voz para ser ouvido a distância.
E a escolha não é de temperamento. Quem está sentado e não vê não tem como se aproximar, não tem como ser apresentado por alguém, não tem como escolher o momento. O grito é o único instrumento disponível. Marcar isso desarma de saída a leitura que trata o episódio como lição sobre insistência na oração: a insistência, aqui, é consequência da posição, não virtude cultivada.
“Senhor, Filho de Davi”
O peso dinástico do título — a promessa de 2 Samuel 7, a expectativa do rei da linhagem, a tradição que ligava o filho de Davi ao poder de curar — está desenvolvido no estudo de Mateus 15:22, e não vale reabrir.
O que é próprio deste versículo é onde o título aparece em Mateus, e a lista surpreende. O evangelho abre com ele, na primeira linha do livro: “livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi”. Depois disso, até a chegada a Jerusalém, quem o pronuncia é quase sempre gente que não enxerga ou gente que está fora.
Em Mateus 9:27, dois cegos. Em Mateus 12:22-23, um homem cego e mudo é curado, e as multidões perguntam se aquele não seria o Filho de Davi. Em Mateus 15:22, uma mulher estrangeira. Aqui, dois cegos outra vez. E só no capítulo 21, dentro de Jerusalém, o título passa para a boca da multidão e das crianças no templo.
Segue-se disto um fato sobre a arquitetura do evangelho: antes de Jerusalém, o nome régio de Jesus é dito por pessoas sem visão e por uma estrangeira, e nunca pelos doze. Mateus não comenta isso em nenhuma linha. O padrão é verificável; a intenção é hipótese.
“tem misericórdia de nós”
Dois detalhes, e os dois contam.
O primeiro é o plural. Eles pedem juntos, um pelo outro e por si, e não há sinal de que um tenha falado antes. O pedido é de duas pessoas que estão na mesma situação e não competem pela atenção — o que, num capítulo em que dois irmãos disputam assentos, é um contraste que o texto monta sem apontar.
O segundo é a ausência de objeto. Eles não dizem o que querem. Pedem misericórdia, que é a palavra mais aberta possível: dela cabe esmola, cabe bênção, cabe cura. Quem pede misericórdia entrega ao outro a decisão sobre o que fazer. Dois versículos adiante Jesus vai precisar perguntar o que eles querem — e a pergunta só é necessária porque o grito não disse.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os dois cegos
Mateus não lhes dá nome, idade, história nem causa da cegueira. Dá a quantidade, a postura, o lugar e a fala. Eles agem sempre juntos: ouvem juntos, gritam juntos, pedem no plural. Em todo o evangelho não há outro par que funcione assim de modo tão completo.
Bartimeu
O nome só existe em Marcos 10:46, e é um caso raro: Marcos dá o nome do curado e o do pai. “Bar-Timeu” é formação aramaica que significa “filho de Timeu”, e Marcos, escrevendo para leitor que não sabia aramaico, traduz a própria palavra na frase seguinte. Como Mateus não o nomeia, é impossível dizer qual dos dois do seu relato seria ele.
Davi
O rei cuja casa dá o título. Não é personagem da cena; é a referência que a fala dos dois homens aciona, e é o primeiro nome próprio do evangelho depois do de Jesus.
A beira do caminho
Um lugar, no sentido pleno: o ponto onde quem não pode andar se instala para viver do que passa. Na semana da Páscoa, a margem da estrada de Jericó era o melhor posto da região — e continuava sendo margem.
O acontecimento
Um grito. Não há cura neste versículo, não há aproximação, não há toque. O que acontece é que dois homens sem acesso a nada usam a voz e nomeiam quem passa. Todo o resto do capítulo depende disso ter acontecido.
5. Pontos de Ensino
Quem não pode se levantar, grita
O grito desses dois homens não é excesso de fervor: é o único canal que a posição deles permitia. Vale desconfiar de qualquer leitura que transforme a insistência deles em técnica espiritual a ser imitada. O que o texto mostra é mais simples e mais duro — sem meio de se aproximar e sem quem os apresentasse, a voz era tudo.
Pedir misericórdia é deixar a decisão com o outro
Eles não formulam a demanda. Num capítulo em que uma mãe chega a especificar os assentos que quer para os filhos, dois mendigos gritam a palavra mais aberta da língua e param ali. É uma diferença de forma do pedido, e Mateus a deixa visível sem uma linha de comentário.
Estavam dispensados e não se dispensaram
A obrigação de subir à festa não recaía sobre eles. A estrada passava, e eles ficavam. Quando a oportunidade veio, porém, não foi por dever que gritaram — não havia dever nenhum ali.
6. Aspectos Filosóficos
O órgão decide o que se pode saber?
A cena coloca uma pergunta antiga de um jeito concreto. Dois homens sem visão recebem uma notícia pelo ouvido e tiram dela uma conclusão sobre quem está passando. A conclusão é a mesma a que a multidão em volta, com todos os olhos funcionando, não chegou. O que isso diz sobre conhecer?
A resposta piedosa é rápida: eles viram com a alma. É rápida e é rasa, e há um livro que a atravessa.
Diderot e a carta de 1749
Denis Diderot (1713-1784), o enciclopedista francês, publicou a Carta sobre os cegos para uso dos que veem em 1749 e foi preso em Vincennes por causa dela. O título já contém a tese: o livro não se propõe a explicar os cegos, e sim a mostrar aos que veem o quanto da sua metafísica é feito de olho.
Diderot parte de um homem concreto, o cego de Puiseaux, e descreve como ele organizava o mundo: julgava distância pelo som e pelo eco da própria voz, tinha uma noção de espelho coerente e diferente da nossa, e ideias de decência que não correspondiam às dos vizinhos. O ponto não é que soubesse menos: é que sabia por outro caminho e, por isso, chegava a conceitos diferentes com o mesmo direito.
Depois Diderot faz uma coisa mais ousada. Ele toma Nicholas Saunderson, matemático inglês cego que ocupou em Cambridge a cátedra que fora de Newton, e inventa para ele um discurso de leito de morte em que Saunderson recusa o argumento da existência de Deus tirado da ordem visível do mundo. Se você quer que eu creia, diz o personagem ao pastor que o assiste, faça-me tocar. O argumento que convence quem olha para o céu estrelado não tem como convencer quem nunca olhou. Foi essa página que levou Diderot à cadeia.
O que isso faz com o versículo
Ajuda em duas direções, e uma delas é desconfortável.
Primeiro, desmonta a moral fácil. Mateus não escreve que os dois percebiam melhor: escreve que ouviram uma notícia e gritaram. A diferença entre eles e a multidão não está no órgão — está no que cada lado fez com o pouco ou o muito que recebeu.
Segundo, e é a parte que Diderot dá e a devoção não dá: um modo diferente de acesso produz um mundo conceitual diferente, não um mundo deficiente. Aplicado aqui, isso significa que o grito dos dois homens não precisa ser explicado por um sexto sentido. Basta que a fala alheia, para quem vive de fala alheia, seja um instrumento afiado por uso constante.
Os limites
Dois, e ambos precisam ficar ditos. Diderot usa o cego como dispositivo de raciocínio, e a crítica moderna tem razão ao observar que tratar a cegueira como figura — da ignorância, da percepção superior, do que for — apaga pessoas cegas reais. A Bíblia faz esse uso figurado com frequência, e o próprio Mateus o faz em Mateus 15:14.
O segundo limite é do texto. Nada aqui descreve um raciocínio. Mateus registra um grito, não um argumento, e qualquer reconstrução do que se passou na cabeça desses dois homens é reconstrução.
7. Aplicações Práticas
Pedir sem trazer o roteiro
A forma do pedido desses dois homens é aplicável e é rara: dizem a quem se dirigem, dizem o que sentem faltar de modo aberto, e não entregam a solução junto. Quem pede ajuda quase sempre chega com o problema já resolvido na cabeça e espera que o outro execute. Há situações — e quem cuida de alguém doente conhece isso — em que nomear a necessidade e deixar a decisão com quem tem meios é mais eficaz e mais honesto do que ditar o remédio.
Agir com o que se ouviu dizer
Quase nenhuma decisão importante é tomada com informação de primeira mão, e exigir evidência direta para tudo é uma forma de nunca agir. A aplicação está em distinguir o relato que vale de agir do que não vale — e o que esses dois tinham era muitos relatos convergentes sobre o mesmo homem.
Quem está na margem não é quem tem menos a dizer
Os dois nomes mais exatos dados a Jesus em Mateus antes de Jerusalém saem da beira da estrada e da boca de uma estrangeira. Numa reunião, numa família, numa equipe, quem está deslocado do centro costuma ver a configuração inteira com uma clareza que o centro não tem. A aplicação é simples de enunciar e difícil de praticar: ouvir quem está sentado na margem antes de o grupo decidir que ele está atrapalhando.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os dois cegos sabiam o que o título implicava?
O texto não diz, e a pergunta importa porque “Filho de Davi” não era um elogio inofensivo: era o nome de um pretendente ao trono, dito numa estrada cheia de peregrinos a poucos dias da Páscoa. Três posições são sustentáveis. Que eles soubessem e quisessem dizer isso mesmo. Que usassem o título como nome de poder, sem cálculo político. Que estivessem apenas repetindo como aquele homem era chamado por quem falava dele. Nada no versículo permite escolher, e as três podem valer ao mesmo tempo, que é o que normalmente acontece com quem fala em desespero.
Por que Mateus não dá o nome deles, se Marcos dá?
Não se sabe, e o silêncio tem efeito. Um nome individualiza: torna o curado uma pessoa com endereço, e em Marcos isso funciona — Bartimeu é conhecido, tem pai citado, e ao fim segue Jesus pelo caminho como um discípulo nomeado. Sem nome, os dois de Mateus ficam sendo o que a posição deles é: dois homens quaisquer sentados na margem.
Pedir sem especificar é falta de fé ou é confiança?
A pergunta costuma ser respondida com moral, e o texto não dá base para nenhuma das duas respostas. O que ele dá é a consequência: como o grito não nomeou o que se queria, alguém teve de perguntar. Quem lê o capítulo até o fim vê que a falta de objeto no pedido é justamente o que abre espaço para a pergunta que Jesus faz — e essa pergunta é matéria do estudo de Mateus 20:32.
Se a lei os dispensava de subir à festa, eles estavam fora do culto?
Não é a mesma coisa. Dispensa de obrigação não é interdição de participar: a lista arrola quem não é obrigado a comparecer, e não diz que essas pessoas estavam impedidas de ir. O alcance do dado é preciso e limitado — o dever que movia a multidão na estrada não pesava sobre esses dois. Estavam à margem da estrada e à margem da obrigação, e é nessa dupla margem que o grito acontece.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma história, contada antes no próprio Mateus
Mateus 9:27 — “E, partindo Jesus dali, seguiram-no dois cegos, clamando e dizendo: Tem compaixão de nós, Filho de Davi!”
Dois cegos, o mesmo verbo de grito, o mesmo título, a mesma fórmula de pedido. É o paralelo mais próximo que existe, e está no mesmo evangelho.
O mesmo episódio nos outros dois evangelhos
Marcos 10:47 — “E, ouvindo que era Jesus de Nazaré, começou a clamar, e a dizer: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”
Um homem, no singular, e com um acréscimo que Mateus não tem: “de Nazaré”, a informação que corria na estrada.
Lucas 18:36-38 — “E, ouvindo passar a multidão, perguntou que era aquilo. E disseram-lhe que Jesus Nazareno passava. Então clamou, dizendo: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”
Lucas é o único que mostra a pergunta: o cego ouve o ruído e pede explicação. A cadeia de informação aparece por inteiro.
O título antes e depois
Mateus 1:1 — “Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.”
A primeira linha do evangelho, e a primeira vez que o título aparece.
Mateus 12:23 — “Todas as multidões ficaram admiradas e diziam: ‘Não será este o Filho de Davi?’”
A pergunta da multidão, depois da cura de um homem cego e mudo. Aqui os cegos afirmam o que ali a multidão apenas aventou.
O pedido que nomeia o que quer
Mateus 20:21 — “Ele lhe perguntou: ‘O que você quer?’ Ela respondeu: ‘Ordena que estes meus dois filhos se sentem, um à Tua direita e outro à Tua esquerda, no Teu Reino’.”
No mesmo capítulo, um pedido com objeto detalhado. O contraste com o grito deste versículo é do próprio Mateus.
Os olhos que faltam, na Escritura de Israel
Jó 29:15 — “Eu fui os olhos do cego e os pés do aleijado.”
A descrição de um homem justo pelo que ele fazia por quem não vê e por quem não anda.
Salmo 146:8 — “O SENHOR abre os olhos aos cegos; o SENHOR levanta os abatidos.”
O ato atribuído diretamente a Deus, num salmo que não fala de Messias nenhum.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Dois cegos estavam sentados à beira do caminho e, ao ouvirem que Jesus passava, gritaram: “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!”
Texto grego (Textus Receptus)
καὶ ἰδού, δύο τυφλοὶ καθήμενοι παρὰ τὴν ὁδόν, ἀκούσαντες ὅτι Ἰησοῦς παράγει, ἔκραξαν, λέγοντες, Ἐλέησον ἡμᾶς, Κύριε, υἱὸς Δαβίδ.
Transliteração
kai idou, dyo typhloi kathēmenoi para tēn hodon, akousantes hoti Iēsous paragei, ekraxan, legontes, Eleēson hēmas, Kyrie, huios Dabid.
Análise palavra por palavra
καὶ ἰδού — kai idou, “e eis que”. Partícula de apresentação, marca registrada deste evangelho, que introduz o que entra em cena sem preparação. A tradução da ABC a suprime, como fazem quase todas as versões modernas em português, porque “eis que” soa arcaico.
δύο τυφλοί — dyo typhloi, “dois cegos”. O numeral, e o adjetivo usado como substantivo, no nominativo plural.
Typhlos liga-se, na etimologia que os léxicos dão, a typhō, “fazer fumaça, enfumaçar” — a imagem de algo turvado. Mateus emprega a palavra mais do que qualquer outro evangelho, de Mateus 9:27 até as cinco ocorrências da polêmica do capítulo 23, e nela os dois registros convivem: o físico e o figurado, com o contexto decidindo qual é qual.
καθήμενοι — kathēmenoi, “sentados”. Particípio presente médio de kathēmai, verbo que em grego não tem forma ativa. O presente descreve estado em curso: não é “sentaram-se”, é “estavam sentados”, e é assim que a ABC traduz.
παρὰ τὴν ὁδόν — para tēn hodon, “ao lado do caminho”. A preposição para com acusativo indica posição ao longo de algo, e não sobre ele: eles não estavam na estrada, estavam na margem dela. Hodos é a palavra comum para caminho, estrada e rota, e também, em sentido figurado, para modo de viver.
ἀκούσαντες ὅτι — akousantes hoti, “tendo ouvido que”. Particípio aoristo ativo seguido da conjunção que introduz discurso indireto. A construção é decisiva para a cena: não é “ouvindo Jesus”, com objeto direto, e sim “ouvindo que”, com uma informação por objeto. O que chegou até eles foi um relato.
παράγει — paragei, “passa”. Presente do indicativo ativo de paragō, composto de para (“ao lado de”) com agō (“conduzir, levar”): passar ao lado, transitar por perto. O presente dentro da fala indireta conserva o tempo do relato original — o que se disse a eles foi “Jesus está passando”, e o grego deixa isso audível.
A distribuição deste verbo em Mateus merece registro. Ele aparece em Mateus 4:18, quando Jesus passa junto ao mar e chama Pedro e André; em Mateus 9:9, quando passa e vê o cobrador de impostos; em Mateus 9:27, quando os dois cegos o seguem enquanto ele passa; e aqui. São quatro ocorrências, todas com Jesus por sujeito, e em todas alguém é alcançado por essa passagem. O padrão é verificável; o que Mateus quis com ele não está escrito.
ἔκραξαν — ekraxan, “gritaram”. Aoristo do indicativo ativo de krazō, verbo forte: berrar, clamar em voz alta. No grego clássico servia para o grasnar de aves, e não significa “dizer alto” — significa gritar. O aoristo apresenta a ação como um todo, um grito dado. Guarde a forma: no versículo 31 o Textus Receptus troca o tempo, e a troca tem efeito.
Ἐλέησον ἡμᾶς, Κύριε — eleēson hēmas, Kyrie, “tem misericórdia de nós, Senhor”. Imperativo aoristo ativo de eleeō, com o pronome de primeira pessoa do plural, e o vocativo de kyrios.
Há aqui uma diferença de ordem entre as edições, e é honesto mostrá-la. O Textus Receptus e o texto bizantino põem o pedido primeiro: “tem misericórdia de nós, Senhor, Filho de Davi”. Parte da tradição manuscrita, e com ela edições críticas, começa pelo vocativo. A ABC segue a ordem que o leitor de língua portuguesa conhece. Nada de sentido depende disso — e as próprias edições modernas não são uniformes entre si nos dois versículos.
υἱὸς Δαβίδ — huios Dabid, “Filho de Davi”. A forma está no nominativo, e não no vocativo, embora funcione como vocativo; esse uso do nominativo por vocativo no grego bíblico está tratado no estudo de Mateus 15:22.
O que cabe acrescentar é a grafia do nome. O Textus Receptus escreve Δαβίδ (Dabid) e as edições críticas escrevem Δαυίδ (Dauid). São dois modos de transpor o hebraico para o alfabeto grego, os manuscritos se dividem entre eles, e nenhum sentido depende da escolha. A ABC segue o Textus Receptus.
11. Conclusão
O versículo leva a três conclusões.
A primeira é sobre a divergência no número: ela não se resolve, e não precisa. O que se conclui dela é de outra ordem — o par não é peculiaridade desta cena, e sim hábito deste evangelho, de modo que a pergunta correta não é “quantos havia em Jericó” mas “por que Mateus escreve sempre em dois”. A pergunta correta ainda não tem resposta firme.
A segunda é sobre como esses dois homens chegaram ao título que gritam. Não foi por visão privilegiada: foi por notícia de terceiros, sobre um homem que eles nunca tinham visto. Quem tinha a cena inteira diante dos olhos era a multidão. Segue-se que o contraste do capítulo não é entre percepção espiritual e cegueira espiritual — é entre dois homens que agiram com pouca informação e um grupo que não agiu com muita. Essa é a consequência que o texto sustenta; qualquer coisa além disso é leitura.
A terceira é sobre a forma do pedido. Eles dizem a quem falam, dizem que precisam de misericórdia e não dizem o que querem. Num capítulo em que se pediram tronos com endereço exato, o pedido sem objeto é a única fala que deixa a decisão inteira com quem pode decidir. E é por isso que a cena precisa continuar: alguém vai ter de perguntar.
Fica aberto o que nenhuma pesquisa fecha: se aqueles dois homens mediam o alcance político do que estavam dizendo, ou se apenas repetiam o nome pelo qual ouviam chamá-lo. Mateus registra a fala e não descreve a intenção.













