Jesus parou, chamou-os e perguntou: “O que vocês querem que eu faça por vocês?”
1. Introdução
Uma coluna de gente subia para Jerusalém, e ela para. Jesus interrompe a marcha por causa de dois mendigos que a multidão tinha acabado de mandar calar, chama-os com a voz — a única coisa que chegava a quem não vê — e faz uma pergunta cuja resposta ele já tinha ouvido duas vezes aos gritos.
A pergunta é a mesma que ele fizera, onze versículos antes, à mãe dos filhos de Zebedeu, e o estudo mostra em que medida é a mesma e em que medida Mateus a encurtou naquele caso. Há também o verbo do parar, que em Mateus tem Jesus por sujeito em um único outro lugar, e o verbo do chamar, que fora deste versículo o evangelho reserva ao galo.
2. Contexto Histórico e Cultural
Parar um cortejo custava caro
Quem viajava com muita gente atrás não parava por vontade. Parava por cálculo.
Um grupo grande a pé, na subida de Jericó para Jerusalém, andava no ritmo do mais lento e tinha hora para chegar — e havia, nas semanas da Páscoa, dezenas de milhares de peregrinos na mesma estrada. Interromper a fila não afetava só quem interrompia: a coluna inteira se desmontava atrás.
Pedir a um poderoso que está de passagem
O mundo romano tinha um procedimento para isso. O pedido normal ao poder se fazia por escrito, num libellus (“libelo”, em latim — a folha dobrada em que se escrevia um requerimento), entregue a um funcionário; a resposta voltava dias, meses ou nunca depois, anotada abaixo do próprio pedido. O caminho burocrático exigia duas coisas que um cego mendigo não tinha: alguém que escrevesse e alguém que entregasse.
O outro caminho era o corpo. Atravessar-se na frente, agarrar os joelhos, gritar. Funcionava porque o poderoso que passa em público está sendo visto, e recusar um pedido diante de testemunhas tem preço.
Dião Cássio (senador romano do século III, autor de uma história de Roma escrita em grego) conta um caso que expõe a mecânica inteira. Uma mulher parou o imperador Adriano numa viagem, com um pedido. Ele respondeu que não tinha tempo. Ela retrucou: “Então deixa de ser imperador.” Adriano voltou e a ouviu (Dião Cássio, História Romana 69.6.3).
O argumento dela não foi jurídico. Foi este: quem ocupa o lugar de quem atende não pode alegar pressa, porque atender é o próprio conteúdo do cargo. E o que a anedota registra, na prática, é que a estrada era o único tribunal de quem não tinha advogado — e que os imperadores sabiam disso.
Havia proveito nisso, e é bom dizê-lo. A generosidade em público era moeda política no mundo greco-romano, e um grande homem que interrompe a marcha por um miserável era exatamente o tipo de cena que se contava depois. Mas a expectativa não se cumpre aqui por inteiro: quem assistia não era um público reunido para ver, e sim a mesma multidão que, um versículo antes, tinha tentado impedir o pedido.
Chamar quem não vê
Dois cegos sentados à beira da estrada não sabem que a coluna parou. Não veem o gesto de quem manda esperar, não veem a mão que chama, não veem para que lado ir.
Num mundo sem bengala regulamentada e sem qualquer sinalização, o cego se orientava pela voz e pela mão de um guia. A mendicância de cego era, por isso, quase sempre acompanhada — havia quem levasse, quem posicionasse, quem recolhesse. É o que torna significativo que o versículo não mencione nenhum intermediário. Quem os move é o som.
3. Análise Teológica do Versículo
“Jesus parou”
Em todo o evangelho de Mateus, Jesus é sujeito do verbo de ficar de pé, de deter-se, em dois lugares. Aqui, e em Mateus 27:11, diante de Pilatos.
A diferença entre os dois está na forma do verbo, e ela é grande. Aqui a forma é ativa: ele para. Em Mateus 27:11 a forma é passiva: ele foi posto de pé diante do governador. Quem o imobiliza no julgamento são os outros; o que o imobiliza na estrada é o grito de dois homens que a multidão queria calar.
Mateus não faz a ligação e não comenta nenhuma das duas. Mas o dado é verificável: nas duas únicas vezes em que este evangelho para Jesus no lugar, uma ele escolhe e a outra lhe é imposta — e a escolhida é esta. Ele estava subindo para Jerusalém, e Mateus 20:17-19 já dissera o que ia acontecer lá. O que interrompe a marcha para a própria execução são dois mendigos pedindo para ver.
“chamou-os”
O verbo escolhido não é o comum. Mateus tem o verbo de convocar, de chamar para si, e o usa dezenas de vezes — com os doze, com a multidão, com os discípulos. Aqui ele usa outro, que é o verbo de emitir som, de erguer a voz. Esse verbo aparece três vezes em Mateus: esta, e Mateus 26:34 e Mateus 26:75, onde o sujeito é o galo.
Não se deve construir doutrina sobre uma coincidência de concordância. O que se pode dizer é que este é o único lugar do evangelho em que uma pessoa chama alguém com o verbo do som puro — e que a escolha cai justamente sobre dois homens para quem o som era a única via de acesso. Gestos não serviam.
“O que vocês querem que eu faça por vocês?”
Onze versículos antes, neste mesmo capítulo, uma mulher se prostrou diante dele com um pedido, e ele perguntou antes de ouvi-lo. A pergunta de Mateus 20:21 e a pergunta deste versículo saem da mesma raiz e do mesmo verbo — o verbo de querer. Mas elas não são idênticas, e a diferença precisa ser dita com precisão, porque é dela que sai o achado.
À mãe, em Mateus 20:21, a pergunta tem duas palavras no grego: Tí théleis (“o que queres?”). Aos dois cegos, aqui, ela tem quatro: Tí thélete poiḗsō hymîn (“o que querem que eu faça a vocês?”). A forma curta pergunta o que a pessoa deseja. A forma longa pergunta o que a pessoa deseja que ele faça — ela põe o próprio Jesus dentro da pergunta, como executor, e deixa a outra pessoa dizer o serviço.
Em Mateus, a forma longa aparece uma única vez, e é aqui. A mãe recebeu a curta.
Marcos conta os dois episódios de outro jeito, e a comparação fecha o quadro. Em Marcos 10:35 quem pede os tronos não é a mãe, são os próprios filhos, e Jesus lhes faz a pergunta na forma longa e no plural (Marcos 10:36). Ao cego de Jericó, em Marcos 10:51, faz a pergunta na forma longa e no singular. Em Marcos, portanto, as duas perguntas são gêmeas palavra por palavra, mudando só o número. Em Mateus, o número está trocado — a mulher é uma, os mendigos são dois — e a forma longa foi reservada aos mendigos.
Há pelo menos três leituras dessa diferença, e não é possível decidir entre elas.
Primeira leitura: é só economia de palavras. Mateus resume muito, e cortar duas palavras de uma pergunta cujo objeto vem dito na frase seguinte é o tipo de corte que ele faz o tempo todo. A diferença não carregaria sentido nenhum.
Segunda leitura: a forma longa é oferta, e a curta é sondagem. Quem pergunta “o que você quer que eu faça?” já se comprometeu a fazer algo; quem pergunta “o que você quer?” ainda está descobrindo o que está em jogo. O desfecho apoia essa leitura: o pedido da mãe foi negado em parte e devolvido ao Pai, o dos cegos foi atendido no versículo seguinte.
Terceira leitura: a diferença está em quem fala. A mãe pedia por outros, e coisa que dependia de terceiros; os dois pedem por si, e coisa que está no corpo deles. É a mais frágil das três, porque supõe uma regra de uso que o evangelho não enuncia e que teria uma só ocorrência.
O que resta firme, sem escolher leitura, é isto: as duas perguntas estão no mesmo capítulo, saem da mesma boca, usam o mesmo verbo de querer, e o capítulo as pôs em ordem — primeiro os que queriam lugar, depois os que queriam enxergar. Uma foi corrigida antes de ser respondida; a outra foi executada sem uma palavra de correção.
Por que perguntar o que já tinha ouvido
Os dois já disseram o que queriam. Gritaram duas vezes, e a segunda mais alto, conforme Mateus 20:30-31. A pergunta não busca informação.
Os comentaristas clássicos propõem finalidades diferentes. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) diz que a pergunta serve para tornar a fé deles manifesta e para preparar quem assistia. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) diz que ela força a confissão pública da necessidade. O Expositor’s Greek Testament (“Novo Testamento Grego do Expositor”, comentário inglês do fim do século XIX) faz uma observação mais seca e mais forte: a pergunta não era supérflua, porque eles eram mendigos, e um mendigo que grita por misericórdia está normalmente pedindo dinheiro.
Essa última leitura devolve à cena o que o costume tinha: “tem misericórdia de nós”, dito por um cego à beira da estrada, era a fórmula da esmola. Quem passasse e quisesse ser generoso daria uma moeda e teria atendido o pedido ao pé da letra. A pergunta impede esse desfecho. Ela obriga os dois a dizer se o que querem é o que se costuma pedir.
Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) generaliza a cena para a oração: Deus sabe o que se precisa antes do pedido, e pede o pedido de todo modo. É legítimo como aplicação, e não está no versículo — o texto não diz por que ele perguntou.
O limite
Três coisas o versículo não fornece. Não diz que Jesus os viu. Não diz que a multidão se calou, nem que abriu caminho. E não diz nada sobre o estado de espírito dele: a palavra que descreve o que se passou por dentro só aparece dois versículos depois, e ali vem colada a um gesto, não a uma fala.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os dois homens
Mateus não lhes dá nome, idade, procedência nem história. Dá a condição e a posição: cegos, sentados à beira do caminho. Nos três versículos em que agem, tudo o que se sabe deles é o que eles dizem e o que fazem depois.
Marcos 10:46 nomeia um deles — Bartimeu, filho de Timeu — e conta só um. Lucas 18:35 também conta um, e não o nomeia. A divergência de número entra no estudo de Mateus 20:30-31, onde ela se abre; para o que acontece aqui, o dado que importa é o do plural: a pergunta que Jesus faz está no plural, e a resposta do versículo seguinte também.
Jesus, e o que ele estava fazendo naquele momento
Ele estava no meio de uma viagem com destino declarado. Em Mateus 20:17-19, no mesmo capítulo, tinha dito aos doze o que ia acontecer em Jerusalém, com os detalhes: condenação, entrega aos gentios, zombaria, açoite, cruz e o terceiro dia. Jericó é a última cidade antes da subida.
Ou seja: o homem que para na estrada para atender dois mendigos acabou de dizer, para quem quisesse ouvir, que está indo ser executado. Os dois não sabem disso.
A multidão
A multidão aparece em Mateus 20:29 seguindo Jesus e em Mateus 20:31 mandando os dois se calarem. Quando ele para, ela para junto, por força da física da estrada. É o público involuntário do episódio.
O que acontece neste versículo
Três atos, na ordem: a marcha para, os dois são chamados, a pergunta é feita. O versículo termina na pergunta, e o silêncio entre ela e a resposta é o único intervalo que o texto deixa em aberto na cena.
5. Pontos de Ensino
Quem atende, para
A primeira palavra do versículo sobre Jesus não é uma palavra de poder. É uma palavra de imobilidade. O atendimento começa por uma perda: ele perde o passo, perde o lugar na fila, perde tempo de uma viagem com prazo. Não existe atender em movimento; quem não para, no máximo passa perto.
A pergunta não é sinal de ignorância
Ele já tinha ouvido o grito. Perguntar não foi descobrir — foi dar ao outro o direito de formular.
Há diferença prática entre resolver o problema de alguém e perguntar-lhe qual é o problema. A primeira atitude trata a pessoa como caso; a segunda, como interlocutor. Quem chega com a solução pronta economiza tempo e retira do outro a única coisa que ele ainda tinha: o direito de dizer o que lhe falta.
A pergunta do capítulo é uma só, e as respostas não são
No mesmo capítulo a mesma pessoa recebe dois pedidos: de um lado uma mãe pedindo dois tronos, do outro dois mendigos. A pergunta que abre os dois sai do mesmo verbo.
O ensino não está em depreciar o pedido da mãe — Mateus 20:20-23 mostra que ele foi ouvido, discutido e respondido com seriedade. Está em notar que a pergunta é a mesma para os dois, e que portanto ela não seleciona o interlocutor. Quem pergunta não escolheu de antemão quem merecia ser perguntado.
6. Aspectos Filosóficos
Um problema filosófico em duas partes: a pausa e a pergunta
O versículo é feito de dois gestos que a filosofia contemporânea tratou com bastante atenção, e o autor que os tratou juntos é Byung-Chul Han (filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, nascido em 1959).
A pausa como condição de perceber
Em Vita contemplativa: ou sobre a inatividade (“vida contemplativa”, em latim — o título é o nome clássico da vida dedicada a contemplar, em oposição à vida dedicada a agir), publicado em 2022, Han defende uma tese que parece paradoxal e não é: a inatividade não é descanso do trabalho, é a condição de haver percepção.
O argumento, em linguagem simples, é este. Perceber alguma coisa exige demorar-se nela. Quem está em movimento contínuo não percebe: registra. Reconhece objetos pelo tipo, o suficiente para desviar deles ou usá-los, e segue. A vida organizada só por atividade produz, então, uma cegueira específica — não a de quem não tem olhos, mas a de quem não tem tempo. Han desenvolve isso como crítica do que chama sociedade do desempenho, em que a pausa é sentida como perda e a única forma aceitável de parar é parar para recuperar-se e voltar a produzir.
O versículo põe a tese em cena sem enunciá-la. A multidão inteira estava em movimento e passou ao lado de dois homens que gritavam; não que não os ouvisse — Mateus 20:31 diz que os ouviu e mandou que se calassem. Ouviu e classificou: interrupção. O que torna os dois visíveis não é um dado novo, é a parada. A percepção chega depois da imobilidade, não antes.
A pergunta como forma de deixar o outro ser outro
Em A expulsão do outro (2016), Han sustenta que a época perdeu a experiência do outro, e não por falta de contato — por excesso. O outro chega já traduzido: perfilado, previsto, reduzido a informação sobre ele. Han chama a isso o inferno do igual, um mundo em que só se encontra o eco de si mesmo.
O antídoto, na argumentação dele, não é sentir mais. É escutar — e escutar começa por uma pergunta que quem pergunta não pode responder no lugar de quem é perguntado.
É a estrutura do versículo. Quem pergunta tinha, pela narrativa de Mateus, tudo o que precisava para dispensar a pergunta: ouviu o grito, conhecia a fórmula, e o evangelho já mostrou em Mateus 9:29 o que ele faz com cegos que lhe pedem. Ainda assim pergunta — e pergunta na forma longa, a que põe o outro no comando do que vai ser feito.
Onde a aproximação precisa parar
Han descreve o século XXI, com celular, produtividade e algoritmo. Nada disso existia na estrada de Jericó, e a multidão que mandou os dois se calarem não estava otimizando desempenho: provavelmente estava irritada, ou zelosa, ou apressada pela festa. Usar Han para explicar o comportamento dela seria anacronismo.
O que a comparação rende é outro: Han dá nome a dois gestos que o texto executa sem comentar. O texto diz “parou” e “perguntou”; a filosofia diz por que esses dois verbos, nessa ordem, são o começo de qualquer encontro — e por que são os primeiros a desaparecer quando há pressa.
7. Aplicações Práticas
Perguntar antes de resolver
A aplicação mais direta do versículo não é religiosa. É de conduta, e serve para quem cuida de alguém: pai, professor, médico, chefe, voluntário, filho de pessoa idosa.
Quem cuida aprende rápido a antecipar. Antecipar é útil, e é por isso que vira hábito — e, virando hábito, substitui a pergunta. A partir de certo ponto, quem cuida já sabe o que o outro precisa e deixa de perguntar; e o outro, que continua sendo uma pessoa, passa a receber aquilo que foi decidido sobre ele.
O versículo mostra a operação inversa feita por quem tinha ainda menos motivo para perguntar. A aplicação é literal: pergunte, mesmo quando você acha que sabe. E pergunte na forma longa — não “você está bem?”, que se responde com “estou”, mas “o que você quer que eu faça?”, que exige que o outro nomeie algo.
Parar de verdade, não desacelerar
Há diferença prática entre atender alguém enquanto se faz outra coisa e atender alguém. A primeira forma é a regra: ouve-se com o corpo já orientado para o próximo compromisso, e a pessoa percebe. O versículo separa os dois atos — ele parou, e só então chamou e perguntou. Isso é aplicável em escala pequena e mensurável: encerrar o que estava fazendo antes de começar a ouvir, e não depois.
Falar pelo canal de quem ouve
Ele chamou dois cegos com a voz. Vale para qualquer situação em que o outro não dispõe do canal habitual: quem não lê, quem não ouve bem, quem não fala a língua, quem não entende o jargão, quem está com medo. Adaptar o meio não é condescendência; é a condição para que a mensagem chegue.
Nomear o que se pede
Do lado de quem pede, o versículo cobra trabalho. Os dois tinham um pedido genérico pronto, moldado pela rotina da mendicância, e foram obrigados a dizer outra coisa. Pedidos vagos protegem quem pede — quem não nomeia não pode ser recusado com precisão, nem descobrir que queria a coisa errada — e é por isso que costumam ser atendidos por baixo. Vale numa conversa de trabalho, num pedido de ajuda à família e numa oração.
Uma ressalva honesta
Não se deve tirar deste versículo a promessa de que pedidos bem formulados são atendidos. No próprio capítulo, em Mateus 20:22-23, um pedido perfeitamente formulado recebeu por resposta “vocês não sabem o que estão pedindo”. O versículo ensina como se atende e como se pede. Não garante o resultado.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que a multidão para quando ele para, se ela não queria parar?
Porque não tinha escolha física. Uma coluna a pé para inteira quando quem vai à frente para. A multidão tinha acabado de tentar impedir os gritos, e foi obrigada a assistir ao atendimento deles.
O texto não registra reação nenhuma dela a partir deste ponto. Ela desaparece da cena sem que se diga se aprovou, se murmurou ou se ficou quieta. É um silêncio que Mateus não explica.
Havia risco em parar?
Provavelmente sim, e de dois tipos. O primeiro é de tempo: o trecho até Jerusalém era de um dia de caminhada, e chegar depois do escuro tinha custo real numa estrada com histórico de assaltos.
O segundo é o de o título continuar sendo gritado. Os dois estavam chamando Jesus de “Filho de Davi” em voz alta, num caminho cheio de peregrinos, às portas da capital, e o próprio capítulo diz que ele ia para lá ser condenado. Atender publicamente quem o chama por um título com carga política é ato público. Mateus não explora isso, e por isso a observação fica como plausível, não como afirmação do texto.
Se ele já sabia, a pergunta não é encenação?
É a objeção mais séria que se pode levantar contra a cena, e ela merece resposta direta em vez de contorno.
Encenação seria se a pergunta não pudesse alterar nada. Podia. Os dois estavam gritando a fórmula da esmola, e o costume do lugar dava a essa fórmula um significado fixo: dinheiro. A pergunta abre a possibilidade de que eles respondessem “uma moeda” — e nesse caso teriam recebido uma moeda. O que o versículo seguinte mostra é que eles pediram outra coisa.
Isso não resolve a questão teológica de o que Jesus sabia e quando. Resolve a literária: na economia da narrativa, a pergunta tem consequência, porque a resposta não estava determinada pelo grito.
9. Conexão com Outros Textos
A outra pergunta do mesmo capítulo
Mateus 20:21 — "Ele lhe perguntou: 'O que você quer?' Ela respondeu: 'Ordena que estes meus dois filhos se sentem, um à Tua direita e outro à Tua esquerda, no Teu Reino'."
A forma curta da pergunta, feita onze versículos antes, a quem pedia lugares. As duas saem do mesmo verbo de querer; a deste versículo acrescenta “que eu faça”.
Mateus 20:22 — "Mas Jesus respondeu: 'Vocês não sabem o que estão pedindo. Vocês podem beber o cálice que eu vou beber?' Eles disseram: 'Podemos'."
O que se seguiu à pergunta curta: uma correção do pedido e uma contrapergunta. Nada disso se segue à pergunta feita aos dois cegos.
As duas versões de Marcos
Marcos 10:36 — "E ele lhes disse: 'O que vocês querem que eu lhes faça?'"
Em Marcos quem pede os tronos são os próprios filhos de Zebedeu, e a pergunta que recebem é a longa, no plural — a mesma forma que em Mateus só os mendigos recebem.
Marcos 10:51 — "E Jesus lhe perguntou: 'O que você quer que eu lhe faça?'"
A mesma pergunta longa, no singular, ao cego de Jericó. Em Marcos as duas são gêmeas e só o número muda; em Mateus o número está trocado e a forma longa foi reservada a estes dois.
A fórmula no Antigo Testamento
2 Reis 2:9 — "Peça o que você quer que eu lhe faça, antes que eu seja tomado de você."
Elias a Eliseu, pouco antes de ser arrebatado. Na versão grega do Antigo Testamento, o miolo da frase — “o que eu faça a você” — é praticamente o mesmo deste versículo. É o paralelo mais próximo que a Bíblia hebraica oferece, e ele põe a pergunta na boca de um profeta que está se despedindo.
Ester 5:3 — "E o rei lhe disse: 'O que você quer, rainha Ester? Qual é o seu pedido? Até a metade do reino lhe será dada'."
A forma de corte, com um teto que torna a oferta segura porque já mede o máximo que ela pode custar. Neste versículo não há teto — e nisso ele se aproxima menos de Ester e mais de Marcos 6:22, onde Herodes usa a mesma fórmula numa festa e lhe pedem a cabeça de João Batista.
Os verbos deste versículo em outros lugares de Mateus
Mateus 27:11 — "Jesus foi posto diante do governador, que lhe perguntou: 'És Tu o rei dos judeus?' Jesus respondeu: 'Você o diz.'"
O único outro lugar de Mateus em que Jesus é sujeito do verbo de ficar de pé. Ali a forma é passiva, e ele é posto; aqui é ativa, e ele para.
Mateus 26:34 — "Respondeu-lhe Jesus: 'Eu lhe asseguro que, ainda esta noite, antes que o galo cante, você me negará três vezes'."
Junto com Mateus 26:75, que repete a frase, são as duas outras ocorrências em Mateus do verbo traduzido aqui por “chamou”. Nas duas o sujeito é o galo. Fora deste versículo, o evangelho não usa esse verbo para uma pessoa chamar outra.
A cena que Mateus já contara
Mateus 9:28 — "E, tendo ele entrado em casa, os cegos vieram a ele; e Jesus lhes disse: Vocês creem que posso fazer isto? Responderam-lhe: Sim, Senhor."
Também dois cegos, também uma pergunta antes da cura — mas a pergunta é outra. Ali ele pergunta se creem que ele pode; aqui pergunta o que querem que ele faça. A primeira testa o pedinte; a segunda entrega-lhe a decisão. A relação entre os dois episódios é tratada no estudo de Mateus 20:33.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Jesus parou, chamou-os e perguntou: “O que vocês querem que eu faça por vocês?”
Texto grego
καὶ στὰς ὁ Ἰησοῦς ἐφώνησεν αὐτούς, καὶ εἶπεν, Τί θέλετε ποιήσω ὑμῖν;
Transliteração
kaì stàs ho Iēsoûs ephṓnēsen autoús, kaì eîpen, Tí thélete poiḗsō hymîn?
A base é o Textus Receptus (“texto recebido”, em latim — a edição do Novo Testamento grego impressa a partir do século XVI, que a versão ABC segue no Novo Testamento). Neste versículo o texto crítico moderno não traz diferença que altere o sentido.
Palavra por palavra
στὰς (stàs) — “tendo parado”
Particípio aoristo ativo do verbo hístēmi, que significa pôr-se de pé, deter-se, ficar firme no lugar. O particípio aoristo indica ação pontual anterior à do verbo principal: primeiro ele para, depois chama. A raiz é das mais produtivas do grego e está por trás de “estático”, “sistema” e “estação”; o sentido primário não é estar em pé por oposição a estar sentado, é ocupar um lugar e não sair dele.
A voz é ativa, e é aqui que está o dado. O verbo tem duas construções possíveis: a ativa, em que o sujeito se põe de pé por si, e a passiva, em que ele é posto. Em Mateus 27:11 a forma escolhida para Jesus é a passiva — estáthē, “foi posto de pé” — diante de Pilatos. São os dois únicos lugares do evangelho em que ele é sujeito deste verbo.
ὁ Ἰησοῦς (ho Iēsoûs) — “o Jesus”
O nome com artigo, no nominativo, como sujeito. O grego põe artigo antes de nome próprio com muito mais frequência que o português, e a tradução o descarta.
ἐφώνησεν (ephṓnēsen) — “chamou”
Aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do singular, do verbo phōnéō, formado sobre phōnḗ, o substantivo que significa som, voz, ruído — a mesma raiz de “fonética” e “sinfonia”. O sentido básico é produzir som com a voz, e daí chamar em voz alta. Aplicado a animais, é o verbo do canto do galo.
Convém separá-lo do sinônimo que Mateus usa quase sempre, kaléō e seus compostos, o verbo de convocar, de chamar para si, de dar nome. A troca não deve ser sobrecarregada: phōnéō era palavra corrente, e outros evangelhos a usam com Jesus por sujeito sem nenhuma intenção especial.
αὐτούς (autoús) — “eles”
Pronome no acusativo masculino plural, objeto direto de “chamou”. O plural corre por toda a cena e é o que distingue a narrativa de Mateus da de Marcos e da de Lucas.
εἶπεν (eîpen) — “disse”
Aoristo do indicativo ativo, do verbo dizer. A tradução da ABC usa “perguntou” porque o que vem a seguir é uma pergunta; o grego diz apenas “disse”.
Τί (Tí) — “o que”
Pronome interrogativo, acusativo neutro singular. Está no acusativo porque é o objeto de “querem”, não do verbo seguinte.
θέλετε (thélete) — “vocês querem”
Presente do indicativo ativo, segunda pessoa do plural, do verbo thélō. É o verbo comum da vontade em grego: querer, desejar, estar disposto a. Dele vem o nome de uma antiga disputa teológica, o monotelismo, que discutia se Cristo tinha uma vontade ou duas.
É o mesmo verbo, na mesma voz e no mesmo tempo, da pergunta feita em Mateus 20:21 — lá na segunda pessoa do singular, théleis, porque quem fala é uma mulher só.
ποιήσω (poiḗsō) — “que eu faça”
Aoristo do subjuntivo ativo, primeira pessoa do singular, do verbo poiéō, fazer — a raiz de “poesia”, que em grego significa literalmente fabricação.
A construção é irregular em português e comum em grego popular: dois verbos encostados, sem conjunção entre eles. Literalmente, “o que vocês querem eu faça a vocês”. O grego clássico esperaria aqui um infinitivo ou uma conjunção; o grego do Novo Testamento aceita o subjuntivo direto depois de thélō, e essa forma justaposta soa mais falada, menos escrita.
O efeito prático é que a frase já embute a execução. Não se pergunta só o desejo: pergunta-se o desejo mais o ato de quem vai realizá-lo, e quem responde nomeia o serviço.
ὑμῖν (hymîn) — “a vocês”
Pronome de segunda pessoa do plural, no dativo, marcando quem recebe a ação: fazer algo em benefício de alguém.
11. Conclusão
Do que este versículo mostra, conclui-se primeiro uma coisa sobre o capítulo inteiro, e ela é estrutural: Mateus 20 faz a mesma pessoa receber dois pedidos e usar, nos dois, o verbo de querer. O capítulo não opõe um pedido bom a um pedido ruim. Opõe duas respostas a uma pergunta que foi oferecida igualmente aos dois lados.
Conclui-se, em segundo lugar, que atender tem custo de tempo e de lugar, e que o texto começa o atendimento pelo custo: a primeira informação sobre Jesus aqui é que ele deixou de andar.
Em terceiro lugar, conclui-se que a pergunta feita a quem já gritou o que quer não é redundante, porque o grito estava em fórmula. “Tem misericórdia de nós” era o que se dizia para pedir moeda; a pergunta abre uma segunda chance de dizer outra coisa, e transfere a decisão sobre o que vai ser feito para quem não tinha decisão nenhuma na vida.
E conclui-se, por fim, um limite. O versículo termina numa pergunta, e portanto não conclui nada sozinho. O sentido de tudo o que ele faz depende inteiramente do que os dois homens vão responder — e essa resposta, que o versículo seguinte traz, é a única coisa em toda a cena que o texto não deixa nas mãos de Jesus.













