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Mateus 20:33

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✍️ Por Alberto Adriano·29 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 26 acessos
Eles responderam: “Senhor, queremos que os nossos olhos sejam abertos”.
Dois mendigos cegos, de pé na beira da estrada de Jericó, voltados para quem acabou de lhes falar, respondendo a uma pergunta enquanto a multidão parada observa.

Estudo


Eles responderam: “Senhor, queremos que os nossos olhos sejam abertos”.

1. Introdução

Perguntados sobre o que queriam, os dois respondem uma coisa e param. Não pedem esmola, não pedem lugar, não pedem que o pedido seja levado a ninguém: pedem que os olhos deles sejam abertos.

A frase tem particularidades que o estudo destrincha. No grego ela não tem verbo principal — é só a oração do fim, sem o “queremos” que a tradução precisa acrescentar para o português ficar de pé. E o verbo que ela traz está na voz passiva, sem dizer quem abre. Há ainda o fato de que Mateus já contara, em Mateus 9:27-31, uma cena de dois cegos que termina com a mesma frase realizada.

2. Contexto Histórico e Cultural

O tamanho do pedido, medido pelo que existia

Para saber o que os dois pediram, é preciso saber o que se podia pedir. E a resposta é pouca coisa.

Em toda a Bíblia hebraica não há um único caso de cegueira curada. Os olhos se abrem algumas vezes, mas em outro sentido: em 2 Reis 6:17 o servo de Eliseu passa a ver o exército de fogo que estava lá o tempo todo, e em 2 Reis 6:20 os arameus recuperam a vista depois de terem sido cegados de propósito. São episódios de percepção concedida e de castigo desfeito, não de doença tratada. O mais próximo de uma cura está em Tobias 11, livro escrito em grego e conservado na coleção grega do Antigo Testamento: o filho aplica no olho do pai a bílis de um peixe, a película branca se solta e o velho volta a ver. É uma receita, aplicada por um parente, com material comprado — e mesmo assim é o único caso.

Um cego do século I, portanto, não tinha precedente religioso para o que estava pedindo. Tinha precedente para pedir esmola.

O que a medicina da época podia fazer com um olho

Mais do que se imagina. Uma parte das cegueiras era operável, e havia técnica registrada.

Celso (enciclopedista romano do século I, autor de um tratado de medicina em latim) descreve, no livro VII da sua Da medicina, a operação da catarata: o paciente é imobilizado e sentado contra a luz, o cirurgião escolhe um ponto de entrada entre a íris e o canto do olho, atravessa as camadas externas com uma agulha e empurra o cristalino turvo para baixo, fora do campo da visão. A descrição é minuciosa, inclui o que fazer se a catarata voltar a subir, e agulhas compatíveis com ela foram encontradas em escavações de instalações militares romanas.

Isso muda a medida do pedido em duas direções. Primeira: “os nossos olhos sejam abertos” não era, na época, um pedido de impossível absoluto — havia gente que voltava a ver. Segunda, e mais pesada: a operação exigia um cirurgião treinado, instrumento de metal e a capacidade de pagar por ambos. Era coisa de quem tinha dinheiro. Para dois homens que viviam de pedir na beira da estrada, a técnica existir ou não existir dava no mesmo.

O lugar do cego na Lei e na rua

A Lei de Israel trata do cego duas vezes, e as duas como possível vítima: Levítico 19:14 proíbe pôr obstáculo diante dele, e Deuteronômio 27:18 lança maldição sobre quem o desvia do caminho. As duas proibições descrevem, por negação, o que acontecia — e as duas o imaginam exatamente onde estes dois estão, na beira de um caminho, dependendo de quem passa.

Fora disso, a vida do cego era de dependência estruturada. Sem trabalho possível na maior parte dos ofícios, sem herança que sustentasse quem não era de família proprietária, o que restava era a mendicância num ponto de passagem — e o ponto de passagem valia mais em véspera de festa. A cegueira, no mundo antigo, era comum: tracoma, infecção não tratada, ferimento, catarata da velhice e a poeira constante produziam muitos cegos, e isso importa para ler a cena. Dois cegos juntos, na saída de uma cidade grande, não era coincidência notável. Era o normal.

3. Análise Teológica do Versículo

“Senhor”

É a terceira vez em quatro versículos que eles usam esse tratamento, e a primeira em que ele aparece sozinho: nos gritos de Mateus 20:30 e Mateus 20:31 vinha acompanhado, “Senhor, Filho de Davi”. Provavelmente é economia da narrativa. Mas o efeito é que, na hora de formular o pedido, o que sobra na boca deles é a palavra comum — o título grande ficou no clamor.

“queremos que os nossos olhos sejam abertos”

No grego, esta frase não tem verbo principal. Eles dizem, literalmente, “Senhor, que os nossos olhos sejam abertos” — a conjunção e a oração final, sem nada que as governe. O “queremos” da tradução não está no texto: é acréscimo necessário, porque em português a frase não fica de pé sem ele.

A construção tem duas explicações possíveis, e nenhuma delas é erro. A primeira é que a resposta continua a pergunta: ele perguntou “o que vocês querem que eu faça?”, e eles completam a frase dele — o verbo “querer” já está dito, não precisa ser repetido. A segunda é que assim se falava: no grego popular, pedidos apareciam nessa forma reduzida, e Meyer (Heinrich Meyer, exegeta alemão do século XIX) lê a frase como continuação direta do clamor por misericórdia, sem nova abertura.

Qualquer que seja a explicação, o resultado é o mesmo e é visível na página: a resposta é a coisa mais curta possível. Nenhuma introdução, nenhuma justificativa, nenhuma promessa em troca. Um vocativo e um pedido.

A voz passiva, e o que ela deixa aberto

Eles não dizem “abra os nossos olhos”. Dizem “que os nossos olhos sejam abertos”. Não há agente nomeado.

Isso é notável porque ele acabou de se oferecer como agente. A pergunta do versículo anterior punha o próprio Jesus dentro dela — “o que vocês querem que eu faça” — e a resposta desmonta essa parte. Eles pedem o resultado e não atribuem o ato a ninguém.

Há três leituras, e a pergunta que as separa é esta: por que não dizer “abra”?

Primeira leitura: é modo de falar. A passiva sem agente era a forma cortês normal de pedir, e permanece cortês em português — “que se faça” em lugar de “faça”. Nada se esconde nela.

Segunda leitura: é a linguagem em que o pedido é oração. Quando quem age é Deus, a passiva sem agente é a forma habitual da Bíblia de dizê-lo. Nesse caso o pedido é maior do que parece: os dois não estariam contratando um serviço, e sim pedindo algo que só se recebe.

Terceira leitura: eles não sabem como se faz. Ninguém nunca tinha visto aquilo ser feito, e pedir o resultado sem descrever o método é o que resta a quem não tem método para descrever.

Não é possível decidir entre as três. O dado, que é o que resta firme: o pedido nomeia o efeito e cala o autor.

Eles pediram uma coisa, e uma coisa que cabe no corpo

O pedido não tem apêndice. Nada sobre comida, dinheiro, casa, reputação, futuro. Nada sobre os outros cegos da estrada. Nada sobre o Reino.

Isso ganha relevo dentro deste capítulo, porque onze versículos antes a mesma pergunta — na forma curta — recebeu um pedido de outra natureza. Em Mateus 20:21 a mãe dos filhos de Zebedeu pediu dois assentos, à direita e à esquerda, num Reino que ainda não havia, para duas pessoas que não eram ela. Era um pedido por terceiros, por algo que dependia de terceiros, e sem prazo.

Os dois pedem o que está dentro do próprio crânio. Mateus não compara os dois pedidos e não diz que um é melhor que o outro — a comparação é do leitor, e ela existe porque o capítulo pôs os dois episódios em sequência. Convém não transformar isso em regra de conduta: o pedido da mãe foi ouvido e respondido com seriedade em Mateus 20:22-23, não ridicularizado.

Mateus já tinha contado esta cena

Há em Mateus 9:27-31 um episódio de dois cegos que gritam “tem misericórdia de nós, Filho de Davi”, que são atendidos, cujos olhos são tocados e de quem o texto diz, em Mateus 9:30, que “os olhos deles se abriram”. É palavra por palavra o que os dois pedem aqui.

Mateus é o único evangelho que traz os dois episódios. Marcos e Lucas contam só o de Jericó, e com um cego. As leituras possíveis são três, e a questão precisa ficar formulada com clareza: são dois acontecimentos, ou um contado duas vezes?

Primeira leitura: são dois acontecimentos distintos. Cegos eram muitos, e o clamor “Filho de Davi” era fórmula corrente. A repetição de vocabulário seria natural: o mesmo autor descreve casos parecidos com as mesmas palavras.

Segunda leitura: é a mesma tradição, contada duas vezes. Mateus teria antecipado, no capítulo 9, uma versão do episódio de Jericó, para compor ali o bloco de milagres — o que explicaria a coincidência de vocabulário e o fato de só Mateus ter dois.

Terceira leitura: o segundo relato foi escrito olhando para o primeiro. Sem decidir se os fatos são um ou dois, Mateus 20:29-34 reaproveita deliberadamente as palavras de Mateus 9:27-31 e as altera nos pontos que importam. É a leitura que mais rende, porque as alterações são verificáveis, e são estas: no capítulo 9 Jesus pergunta se eles creem que ele pode; aqui pergunta o que eles querem. No capítulo 9 ele diz “conforme a fé de vocês”; aqui não diz nada. No capítulo 9 ele os proíbe de contar, e eles contam; aqui não há proibição, e eles o seguem.

Não é possível decidir entre as três. O que se pode dizer sem escolher é que a segunda cena responde à primeira: o que em Mateus 9:30 é narrado como fato, aqui é posto na boca dos dois como pedido — e o pedido vem depois de uma pergunta, o que na primeira cena não havia.

O que falta nesta cena e estava em todas as outras

Falta a palavra “fé”, e a ausência é de Mateus.

Em Mateus 9:29, aos dois primeiros cegos, ele diz “conforme a fé de vocês, seja feito a vocês”. Em Marcos 10:52 e em Lucas 18:42, ao cego de Jericó, diz “a tua fé te salvou”. Neste episódio, de Mateus 20:29 a Mateus 20:34, a palavra não aparece uma vez.

Gill preenche a lacuna dizendo que a pergunta servia para tornar a fé deles manifesta, e o Expositor’s Greek Testament observa que pedir a abertura dos olhos mostra que eles já tinham os olhos da mente abertos quanto ao poder de Jesus. As duas são leituras razoáveis, e as duas acrescentam ao texto uma palavra que ele não usa. Registrar a ausência não é negar que houvesse fé; é notar que, na única versão do episódio que Mateus escreveu por último, o que move o milagre é dito no versículo seguinte com outra palavra — e essa palavra fala do que aconteceu dentro de Jesus, não dentro deles.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os dois, agora falando

Em todo o episódio eles têm três falas, e esta é a única que não é um grito. As duas primeiras, em Mateus 20:30 e Mateus 20:31, são a mesma frase repetida em voz alta contra a repreensão da multidão. Esta é dita a alguém que parou para ouvir.

Mateus não lhes dá nome. Marcos 10:46 nomeia um, Bartimeu, filho de Timeu, e registra que ele chamou Jesus de “Rabôni” — palavra aramaica que significa “meu mestre”. Nesta versão não há nome nem aramaico: só “Senhor”.

A outra dupla de cegos de Mateus

Mateus 9:27-31 conta um episódio com dois cegos que usam o mesmo clamor e cujos olhos se abrem. É o único outro lugar do evangelho com dois cegos ao mesmo tempo, e é material de comparação obrigatório para este versículo — o pedido feito aqui é a frase que lá já tinha sido cumprida.

O que acontece neste versículo

Só uma coisa: a resposta. O versículo não tem ação física nenhuma, nem gesto, nem movimento. É a única fala do episódio em que os dois não estão competindo com barulho.

5. Pontos de Ensino

Eles não pediram o que a profissão pedia

O ofício deles era pedir dinheiro, e a fórmula que gritaram — “tem misericórdia de nós” — era a fórmula do dinheiro. Quando lhes deram a chance de dizer outra coisa, disseram outra coisa.

O ponto de ensino é sobre o hábito, não sobre a pobreza. Quem passa anos pedindo a mesma coisa costuma continuar pedindo a mesma coisa, mesmo quando a porta que se abre é outra. Os dois mudaram o pedido quando o interlocutor mudou.

Um pedido, sem apêndice

Não há nada em torno. Nem argumento, nem histórico de sofrimento, nem oferta de recompensa, nem pedido secundário “já que estamos aqui”.

Isso é ensino de forma, e é utilizável: um pedido claro é curto. Quem acrescenta razões está, em geral, tentando comprar a resposta, e o acréscimo dilui o que se quer.

Pediram o que era deles para pedir

O pedido cabe inteiro no corpo dos dois. Não envolve terceiros, não altera a posição de ninguém, não pede que alguém saia do lugar para que eles entrem.

Dentro do capítulo isso tem eco, porque os pedidos anteriores todos mexiam com o lugar de outras pessoas — os primeiros da vinha reclamando do que os últimos receberam, a mãe pedindo dois assentos que alguém deixaria de ocupar, os dez indignados com os dois. Este pedido não tira nada de ninguém.

6. Aspectos Filosóficos

Dizer o que se quer é um ato, não um relato

Existe uma diferença entre ter um desejo e formulá-lo. Antes de formulado, o desejo é um estado; formulado, ele passa a existir para outra pessoa, e cria uma situação que não existia. Os dois homens deste versículo tinham um pedido pronto, que a rua lhes havia dado, e disseram outro, que precisaram montar na hora.

O filósofo que fez dessa diferença um conceito central foi Cornelius Castoriadis (1922-1997), grego radicado na França, economista de profissão, psicanalista de ofício e autor de A instituição imaginária da sociedade (1975).

Nomear não é descrever: é instituir

A tese de Castoriadis que interessa a este versículo é a de que dizer, em certos casos, faz existir. Ele a desenvolveu para sociedades: uma sociedade não descobre as suas leis prontas na natureza, ela as institui — e institui também os significados com que se entende, aquilo que ele chamava de imaginário social instituinte.

O que Castoriadis não aceitava era a ideia, corrente na filosofia e na psicanálise do seu tempo, de que o desejo é apenas a falta de um objeto que já estava lá, esperando. Para ele, a imaginação não encontra o objeto: forma-o. E, enquanto não é dito, o desejo não tem contorno nem endereço — ele é energia, não pedido.

Isso muda o que se pensa de uma frase como a deste versículo. Quando os dois dizem “que os nossos olhos sejam abertos”, eles não estão relatando um estado interno que já estava completo. Estão dando forma a ele pela primeira vez em voz alta, diante de alguém, e é esse ato que produz uma coisa nova: até a frase ser dita, havia dois mendigos gritando a fórmula de sempre; depois dela, há um pedido determinado, com objeto, feito a uma pessoa nomeada, que pode ser atendido ou recusado.

Autonomia e heteronomia — a distinção que mais serve aqui

Castoriadis chamava heteronomia a situação em que a lei vem de fora e a origem dela está encoberta, de modo que ninguém pode discuti-la. Chamava autonomia não o fazer o que se quer, mas a capacidade de pôr em palavras a própria regra sabendo que ela é própria — e insistia que o passo decisivo é o momento em que a pergunta pode ser formulada.

A cena tem exatamente esses dois momentos, um ao lado do outro. “Tem misericórdia de nós”, gritado duas vezes em Mateus 20:30 e Mateus 20:31, é palavra recebida: era a fórmula da mendicância, pronta, treinada, a mesma na boca de qualquer um que pedisse na beira de qualquer estrada. Quem a diz não escolheu nada — repete o que a profissão pôs na boca dele.

“Que os nossos olhos sejam abertos” é outra coisa. Não é fórmula de ninguém, não serve para pedir na estrada, e não teria funcionado com mais nenhum transeunte. Foi dita uma vez, para uma pessoa, e é a única frase do episódio que os dois tiveram de compor.

Os limites, e eles são sérios

Castoriadis escrevia sobre revoluções, instituições e o projeto de uma sociedade autônoma, num debate com o marxismo e com a psicanálise do século XX. Nada disso está em jogo na estrada de Jericó, e seria falso dizer que o versículo ilustra a teoria dele.

Há um limite mais específico, e ele é o que impede a aproximação de virar exagero. Os dois não inventaram o objeto do desejo deles: queriam ver, e querer ver não é uma criação da imaginação — é a falta de uma função do corpo. Nesse ponto o caso trabalha contra Castoriadis, não a favor. O que a teoria dele ilumina é apenas a metade linguística da cena: a passagem da fórmula recebida para a frase montada. Que essa passagem mude a situação é observável na página. Que ela seja um ato de instituição, no sentido técnico dele, é leitura — e discutível.

7. Aplicações Práticas

Diga uma coisa

A aplicação mais imediata é de linguagem, e ela serve para qualquer pedido: de emprego, de ajuda, de dinheiro, de perdão, de oração.

Um pedido que descreve um estado não pode ser atendido. “Preciso de uma orientação”, “queria que as coisas melhorassem”, “estou precisando de um apoio” são frases que transferem ao outro o trabalho de descobrir o que fazer — e o outro, quase sempre, resolve esse trabalho fazendo o mínimo. Dizer “os nossos olhos” é o oposto: nomeia o objeto e aceita ser recusado por ele.

Não repita o pedido do hábito

Quem pede a mesma coisa há muito tempo pede por reflexo. Os dois tinham uma fórmula pronta, treinada pela rua, que servia para conseguir moeda — e, quando a porta que se abriu foi outra, eles não usaram a fórmula.

Isso é aplicável em situações concretas: numa conversa em que finalmente se tem a atenção de alguém que pode decidir, pedir o de sempre é desperdiçar a ocasião. Vale preparar a pergunta antes, porque o momento em que ela é feita não é o momento de descobrir a resposta.

Peça o resultado, não o procedimento

Eles não disseram como. Quem pede e já traz o método amarra o outro a um caminho que talvez não exista — e, se o método falha, o pedido inteiro cai com ele.

Numa equipe, numa família, num pedido a um profissional, a diferença é prática e mensurável: “resolva isto” dá espaço; “faça assim” retira o espaço e transfere ao outro a culpa do método.

Não peça o que retira o lugar de alguém

O pedido dos dois não desloca ninguém. É o único pedido do capítulo do qual isso se pode dizer.

Isso não é regra moral universal — há pedidos legítimos que necessariamente mexem com a posição de outros, e o capítulo não condena o pedido da mãe. Mas vale como exame antes de pedir: o que estou pedindo custa o quê, e a quem?

Uma ressalva

Nada disto garante atendimento. O pedido dos dois foi atendido; o dos filhos de Zebedeu, formulado com igual clareza, recebeu por resposta que aquilo não cabia a quem estava sendo pedido conceder. O versículo ensina a formular. Não ensina a obter.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Eles pediram a vista de volta ou a vista pela primeira vez?

O texto não diz. Mateus não informa se os dois nasceram cegos ou ficaram cegos, e o verbo que eles usam — “sejam abertos” — não decide a questão.

O verbo que aparece no versículo seguinte, quando o milagre acontece, pode significar tanto “voltar a ver” quanto “erguer os olhos”. Em João 9 a cegueira de nascimento é dita expressamente, porque interessa ao argumento daquele capítulo; aqui não é dita, e nada no episódio depende disso.

Por que a resposta é uma só, se são duas pessoas?

Porque Mateus registra os dois como um interlocutor do começo ao fim: os gritos são iguais, o pedido é no plural, a cura é no plural, e o seguimento é no plural. Em nenhum momento um deles diz algo que o outro não diga.

Isso é escolha de narrativa, não informação sobre o que aconteceu na estrada. Se um falou e o outro concordou, ou se falaram juntos, o texto não diz.

Eles sabiam que aquilo era possível?

Não é possível saber, e a pergunta merece ser levada a sério em vez de respondida por reflexo.

Do lado do que existia: não havia nas Escrituras hebraicas nenhum caso de cegueira curada, e o único relato de cura de cego na literatura judaica anterior aos evangelhos é o de Tobias 11, com uma receita de bílis de peixe. Do lado do que corria: Mateus 9:31 diz que os dois primeiros cegos curados divulgaram a fama dele “por toda aquela terra”, e Mateus 11:5 registra que “os cegos veem” estava entre as coisas que ele mandou dizer a João Batista.

Plausivelmente, portanto, os dois tinham ouvido falar. É plausível, não é afirmado — Mateus não diz o que eles sabiam nem como souberam.

Por que não pediram nada mais?

A pergunta não trazia limite. Não havia “até a metade do reino”, como em Ester 5:3, nem qualquer indicação do que era razoável.

Uma leitura possível é que a vista resolvia tudo o mais: quem vê pode trabalhar, e quem trabalha não precisa pedir. Nessa leitura o pedido é econômico no sentido estrito — eles pediram a causa, não os efeitos. É leitura plausível e o texto não a confirma: ele simplesmente não explica a escolha.

O pedido é uma oração?

A forma é a de uma oração: vocativo, passiva sem agente, pedido de resultado. É a forma em que a Bíblia costuma dirigir-se a Deus, e vários comentaristas tratam o versículo assim, tirando dele lições sobre como orar.

O que se pode dizer com segurança é menos que isso. Os dois se dirigem a um homem que está em pé na frente deles, chamam-no pelo tratamento que se usava com qualquer superior, e pedem uma coisa. Que a forma coincida com a da oração é fato observável; que eles estivessem orando é interpretação, e depende inteiramente do que se supõe que eles pensavam sobre quem era Jesus — coisa que Mateus não registra.

9. Conexão com Outros Textos

A frase já realizada em Mateus

Mateus 9:30 — "E os olhos deles se abriram. E Jesus os advertiu severamente, dizendo: Vejam que ninguém saiba disto."

O que os dois pedem aqui é, palavra por palavra no grego, o que Mateus já narrara como acontecido no capítulo 9. Lá o relato termina em ordem de silêncio; aqui não há ordem nenhuma.

Olhos que se abrem no Antigo Testamento — e o que isso significa lá

2 Reis 6:17 — "Então Eliseu orou e disse: SENHOR, abre os olhos dele, para que veja. E o SENHOR abriu os olhos do rapaz, e ele viu: o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo ao redor de Eliseu."

A expressão aparece, com o mesmo verbo na versão grega, mas o rapaz não era cego. O que lhe foi dado foi ver o que já estava lá.

Salmos 146:8 — "O SENHOR abre os olhos dos cegos, o SENHOR levanta os abatidos, o SENHOR ama os justos."

A afirmação de que quem faz isso é o SENHOR, na mesma construção. É o texto que dá peso ao que os dois pedem com a voz passiva, sem dizer quem abre.

O único cego curado antes dos evangelhos

Tobias 11:13 — "E a película se desprendeu dos cantos dos olhos dele; e, vendo o filho, abraçou-o."

Aplicada a bílis de peixe, receitada por um anjo e executada pelo filho. É a medida do que existia: uma cura de cegueira em toda a literatura das Escrituras antes dos evangelhos, e ela vem por remédio.

A Lei e o cego

Levítico 19:14 — "Não maldirás o surdo nem porás tropeço diante do cego; e temerás o teu Deus. Eu sou o SENHOR."

Deuteronômio 27:18 — "Maldito aquele que desviar o cego do caminho. E todo o povo dirá: Amém."

As duas únicas disposições da Lei sobre cegos, e as duas os supõem exatamente na situação em que estes dois estão: na beira de um caminho, dependendo da boa-fé de quem passa.

A mesma resposta em Marcos

Marcos 10:51 — "E Jesus lhe perguntou: 'O que você quer que eu lhe faça?' O cego respondeu: 'Rabôni, que eu volte a ver'."

Em Marcos o tratamento é aramaico e o pedido usa o verbo de recobrar a vista, no singular. Em Mateus o tratamento é grego e o pedido usa o verbo de abrir, no plural — e é a forma de Mateus que espelha o capítulo 9 dele mesmo.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Eles responderam: “Senhor, queremos que os nossos olhos sejam abertos”.

Texto grego

λέγουσιν αὐτῷ, Κύριε, ἵνα ἀνοιχθῶσιν ἡμῶν οἱ ὀφθαλμοί.

Transliteração

légousin autō̂i, Kýrie, hína anoichthō̂sin hēmō̂n hoi ophthalmoí.

A base é o Textus Receptus, que a versão ABC segue no Novo Testamento.

Palavra por palavra

λέγουσιν (légousin) — “eles dizem”

Presente do indicativo ativo, terceira pessoa do plural, do verbo dizer. É o único verbo no presente em toda a cena de Jericó — todos os outros estão no passado.

Trata-se do chamado presente histórico: o grego, como o português falado, às vezes conta fatos passados no presente para aproximá-los. “Aí eles dizem a ele…” O efeito é de imediatez, e a tradução da ABC o desfaz porque em português escrito ele soaria estranho no meio de uma narração no passado.

αὐτῷ (autō̂i) — “a ele”

Pronome no dativo, marcando o destinatário da fala.

Κύριε (Kýrie) — “Senhor”

Vocativo de kýrios. A palavra cobria uma faixa larga: do escravo ao dono, do cliente ao patrono, de qualquer inferior a qualquer superior — e era também o termo que a Septuaginta usava para traduzir o nome de Deus. A mesma forma serve para a cortesia e para o sentido religioso, sem nenhuma marca que os distinga, e por isso não é possível decidir pela palavra qual deles os dois tinham em mente.

ἵνα (hína) — “que”

Conjunção que normalmente introduz uma oração de finalidade — “para que”. Aqui ela abre a frase, sem que haja verbo principal antes dela.

Essa é a particularidade sintática do versículo. Em grego, a construção é aceitável e ocorre em pedidos: a oração com hína fica sozinha e funciona como o pedido inteiro, com o verbo de querer subentendido — subentendido, no caso, porque acabou de ser dito pelo próprio interlocutor no versículo anterior. Marcos 10:51 faz o mesmo: hína anablépsō, “que eu volte a ver”, sem verbo principal.

ἀνοιχθῶσιν (anoichthō̂sin) — “sejam abertos”

Aoristo do subjuntivo passivo, terceira pessoa do plural, do verbo anoígō — abrir. O verbo é formado do prefixo aná, que indica movimento para cima ou para trás, sobre oígō, abrir: a ideia original é a de destrancar, escancarar, tirar a tampa.

Aqui está o dado de crítica textual do versículo, e ele é pequeno. O Textus Receptus grafa anoichthō̂sin; o texto crítico moderno grafa anoigō̂sin. São duas formas do mesmo aoristo passivo do mesmo verbo — o grego tardio tinha duas maneiras concorrentes de formar esse tempo nesse verbo, e os copistas alternavam entre elas. Não há diferença de sentido, de pessoa, de número ou de voz. A única outra diferença entre as duas edições neste versículo é a ordem das palavras: o Textus Receptus põe “nossos” antes de “os olhos”, e o texto crítico depois. Nenhuma das duas coisas muda a tradução.

A voz passiva

A voz passiva significa que o sujeito da frase são os olhos, e que eles recebem a ação; quem a pratica não é nomeado. Existe na gramática bíblica a categoria da passiva usada para evitar nomear Deus, e este pedido tem a forma que ela toma — mas a passiva sem agente é também a forma cortês normal de qualquer pedido em grego, e portanto não decide se há reverência, cautela religiosa ou simples educação.

ἡμῶν (hēmō̂n) — “de nós”

Pronome de primeira pessoa do plural, no genitivo, com função de possessivo. O plural atravessa a cena inteira em Mateus.

οἱ ὀφθαλμοί (hoi ophthalmoí) — “os olhos”

Nominativo masculino plural, sujeito do verbo passivo. Ophthalmós é a palavra comum e prosaica para olho — a raiz que o português conserva em “oftalmologia”.

Essa escolha de palavra importa por comparação com o versículo seguinte, onde as duas edições do texto grego discordam sobre qual palavra para “olhos” usar. No Textus Receptus, os olhos que o pedido nomeia aqui são exatamente os olhos que o versículo 34 diz terem sido tocados e terem voltado a ver, com o mesmo substantivo três vezes seguidas. A discussão dessa diferença fica no estudo de Mateus 20:34.

“Abrir os olhos” na versão grega do Antigo Testamento

A combinação deste verbo com esta palavra é a fórmula fixa da Septuaginta para o assunto, e ela aparece em dois usos que o grego não distingue: aplicada a quem não vê, como na promessa de Isaías 35:5 e Isaías 42:7, e aplicada a quem tem vista normal e passa a perceber o que não percebia, como em 2 Reis 6:17.

Por isso a frase do pedido, tomada isoladamente, seria ambígua. O que a desambigua é a informação, dada em Mateus 20:30, de que os dois eram cegos.

11. Conclusão

Do que este versículo mostra, conclui-se primeiro que a pergunta do versículo anterior teve consequência real. Ela não confirmou o que já estava dito: mudou o objeto do pedido. O que estava sendo gritado era a fórmula da esmola, e o que veio na resposta foi outra coisa.

Conclui-se, em segundo lugar, que o pedido está formulado do modo mais econômico que o grego permite — sem verbo principal, sem agente, sem justificativa, sem apêndice. Um vocativo e um resultado. É a forma de quem sabe exatamente o que quer e não tem nada com que negociar.

Em terceiro lugar, conclui-se que Mateus construiu este episódio em diálogo com um episódio seu anterior. A frase que os dois pedem é a frase que Mateus 9:30 já dera como cumprida, e as diferenças entre as duas cenas — a pergunta trocada, a palavra “fé” ausente, a ordem de silêncio que não vem — são pontos de comparação verificáveis, não impressões. Se os fatos são dois ou um só contado duas vezes, não é possível decidir.

E conclui-se um limite, que é o mais importante para ler o versículo seguinte: os dois pediram um resultado e não indicaram meio nenhum. Tudo o que vai acontecer a partir daqui — o gesto, o toque, a ordem dos acontecimentos — é decisão de quem atende, e não cumprimento de instrução recebida.

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