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Mateus 20:34

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✍️ Por Alberto Adriano·29 de setembro de 2026·⏱️ 28 min de leitura·👁 28 acessos
Cheio de compaixão, Jesus tocou nos olhos deles. Imediatamente eles recuperaram a visão e o seguiram.
Na beira da estrada de Jericó, Jesus encosta as mãos nos olhos de dois mendigos, que em seguida se levantam e caminham atrás dele na subida para Jerusalém.

Estudo


Cheio de compaixão, Jesus tocou nos olhos deles. Imediatamente eles recuperaram a visão e o seguiram.

1. Introdução

Três coisas acontecem numa frase: algo se move dentro de Jesus, a mão dele encosta nos olhos dos dois e os dois passam a ver. Depois vem uma quarta, que ninguém tinha pedido: eles o seguem.

O verbo da compaixão é o que os gregos formaram sobre a palavra das entranhas, e este é o último dos cinco lugares em que Mateus o usa. O toque repete, palavra por palavra, uma frase que o próprio Mateus já tinha escrito no capítulo 9. E o verbo de seguir é o mesmo que, cinco versículos antes, descrevia a multidão — a que mandara os dois se calarem.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um imperador que cuspiu nos olhos de um cego

No ano 69, em Alexandria, Vespasiano fez em público exatamente o que este versículo descreve: encostou num cego e o cego passou a ver. A cena está contada por dois historiadores romanos, e a comparação com o versículo é instrutiva pelo que difere, não pelo que coincide.

Tácito (historiador romano do início do século II) conta em Histórias 4.81 que um homem do povo, conhecido na cidade por ter perdido a vista, se lançou aos joelhos de Vespasiano e implorou a cura, dizendo que fora instruído a isso pelo deus Serápis num sonho. Junto dele havia um segundo homem, com a mão inutilizada. Vespasiano começou rindo e desprezando o pedido.

Então fez três coisas, e é aqui que a cena vira instrumento de medida. Primeiro, calculou: Tácito registra que ele oscilou entre o medo do descrédito de falhar e a esperança de acertar. Segundo, chamou os médicos e pediu parecer técnico — e eles responderam que no cego a força da visão não estava de todo consumida, e voltaria se os obstáculos fossem removidos. Só então fez o gesto, que, segundo Suetônio (biógrafo romano do início do século II, em Vespasiano 7), consistia em cuspir nos olhos do cego e tocar a perna do outro com o calcanhar.

Tácito acrescenta a sua própria avaliação: quem viu ainda contava o caso na época em que ele escrevia, “quando a mentira já não traz recompensa”.

O que a comparação mostra

Cinco elementos estão nos dois relatos: o cego, o pedido, o gesto de contato, a cura imediata e a multidão em volta. Nada disso é exclusivo dos evangelhos, e é bom que se saiba: no século I, um homem poderoso tocando os olhos de um cego era uma cena reconhecível, com uma gramática própria e uma função conhecida.

Essa função era política. Um deus indica a cura em sonho; o candidato ao trono executa; a cidade testemunha. O resultado do milagre não é o cego — é a legitimidade do homem que curou. Vespasiano estava em Alexandria disputando o império, e a cena o certificava.

Nesta chave, o que Mateus 20:34 não tem pesa mais que o que ele tem. Não há sonho, não há deus dando instruções, não há médicos consultados para saber se o caso era seguro, não há cálculo de descrédito, e não há plateia reunida para o teste. A única multidão presente é a que, em Mateus 20:31, tentava impedir o pedido. E o motivo declarado não é conveniência nem oráculo: é a primeira palavra do versículo, que descreve algo acontecendo dentro de quem cura.

O limite dessa comparação precisa ficar claro. Os dois relatos romanos são do ano 69, escritos décadas depois; o evangelho de Mateus é provavelmente da mesma geração. Não há dependência demonstrável em nenhuma direção, e não se está afirmando nenhuma. O caso de Vespasiano fornece o pano de fundo: mostra o que um leitor do Mediterrâneo do século I esperava de uma cena desse tipo, e isso permite ver quais peças Mateus não pôs.

3. Análise Teológica do Versículo

“Cheio de compaixão”

A frase começa por dentro. Antes de haver gesto, o texto informa o que houve em Jesus — e informa com o verbo que os gregos formaram sobre a palavra das vísceras, cujo dossiê de ocorrências está no estudo de Mateus 14:14.

O que é próprio deste versículo são duas coisas verificáveis. A primeira: Mateus usa esse verbo cinco vezes, e esta é a última. A segunda, e mais forte: nas outras quatro o objeto é coletivo ou ficcional — três multidões, em Mateus 9:36, Mateus 14:14 e Mateus 15:32, e um devedor de parábola, em Mateus 18:27. Aqui, e só aqui, o objeto são duas pessoas concretas, sem nome, paradas na frente dele.

Há ainda uma ausência que vale contra a leitura sentimental do episódio. Em Mateus 9:36 o texto diz por que houve compaixão: as multidões estavam exaustas e desamparadas. Em Mateus 15:32 é Jesus quem dá a razão em voz alta: três dias sem comer. Aqui não há razão declarada. O que antecede a compaixão não é uma descrição do estado dos dois — é a frase que eles acabaram de dizer.

E, em Mateus, é o único dos cinco casos em que o verbo é seguido imediatamente por um toque. Nos outros, o que se segue é curar os doentes, ensinar, alimentar, perdoar dívida.

“Jesus tocou nos olhos deles”

No grego do Textus Receptus, esta frase é idêntica, palavra por palavra, a uma frase de Mateus 9:29: “tocou os olhos deles”. É a segunda vez que este evangelho escreve exatamente isso, e nas duas vezes o objeto são dois cegos.

Que o toque seja o gesto de cura em Mateus é assunto do estudo de Mateus 17:7. O que este versículo acrescenta desmonta qualquer leitura mecânica: em Mateus, o toque não é necessário. O mesmo evangelho registra em Mateus 8:13 e em Mateus 15:28 duas curas feitas a distância, com o doente em outro lugar. Se o contato fosse o meio pelo qual a coisa funciona, essas duas seriam impossíveis.

O toque, então, não explica a cura. Ele responde ao pedido. Os dois disseram “os nossos olhos”, e é nos olhos que a mão vai — no ponto exato que eles nomearam, e no único canal que restava a quem não vê para saber que algo estava sendo feito neles.

“Imediatamente eles recuperaram a visão”

Entre o toque e a visão não há nada. Nenhum intervalo, nenhuma palavra, nenhuma condição, nenhum “vá e lave-se”. O advérbio fecha a porta a qualquer processo.

O verbo usado para a visão recuperada aparece três vezes em Mateus. Uma é em Mateus 14:19, e ali significa outra coisa: Jesus ergue os olhos ao céu antes de repartir os pães. As outras duas são esta e Mateus 11:5 — a resposta que ele mandou entregar a João Batista, cujo primeiro item é “os cegos veem”, com este mesmo verbo.

Ou seja: o evangelho anuncia o sinal no capítulo 11 usando esta palavra, e a narra acontecendo com esta palavra uma única vez, aqui, na última cidade antes de Jerusalém. E esta é a última cura que Mateus conta como cena, com diálogo e gesto; depois dela, as curas só aparecem em resumo, como em Mateus 21:14, onde “cegos e mancos” são curados no templo em meia linha.

A crux do texto: quantas vezes a palavra “olhos” está no versículo

As duas principais tradições do texto grego discordam aqui. O Textus Receptus, que a ABC segue, traz “olhos” duas vezes: ele tocou nos olhos deles, e os olhos deles recuperaram a visão. O texto crítico moderno usa outra palavra na primeira ocorrência e suprime a segunda. Os detalhes de manuscrito estão no estudo do original.

O efeito de cada leitura é este. Com o Textus Receptus, o versículo é a resposta literal ao anterior: eles pediram que “os nossos olhos” fossem abertos, e o texto repete a palavra deles duas vezes, grudando pedido e cumprimento pelo mesmo substantivo. Com o texto crítico, o eco se rompe duas vezes — a palavra do pedido não é a palavra do toque, e a segunda menção desaparece —, e o relato fica mais rápido e menos circular.

Não é possível decidir qual é original, e nenhuma das duas altera o que aconteceu. A escolha é sobre a forma da frase. E a versão mais conveniente para a interpretação é justamente a que o texto crítico rejeita — o que não é argumento a favor dela.

“e o seguiram”

Isto não estava no pedido. Eles pediram olhos; ganharam olhos; e a última informação do versículo é sobre os pés deles.

O verbo é o de seguir, e em Mateus ele é o verbo do discipulado — é com ele que Mateus 4:20 diz que os primeiros deixaram as redes. Mas o mesmo verbo serve, dezenas de vezes, para dizer que uma multidão ia atrás, e é esse o uso que aparece cinco versículos antes, em Mateus 20:29: “uma grande multidão seguiu Jesus”.

O episódio começa e termina com esse verbo, e ele troca de sujeito. No começo quem segue é a multidão — a mesma que, em Mateus 20:31, repreende os dois para que se calem. No fim quem segue são os dois. Mateus não comenta a troca e não diz o que a multidão fez depois.

Há um contraste a mais, e este é entre os dois episódios de cegos de Mateus. Em Mateus 9:30 Jesus adverte severamente os dois primeiros a não contar nada, e em Mateus 9:31 eles saem divulgando a fama dele por toda aquela terra — fizeram o contrário do que foi mandado. Aqui não há ordem nenhuma, e eles fazem algo que também não foi mandado: vão atrás.

Para onde, o texto sabe e não comenta. Mateus 20:17-19 já dissera que aquela estrada terminava em condenação, açoite e cruz. Os dois entram nela dois versículos depois de recuperar a vista.

O que o versículo não diz

Não diz nada sobre fé — nem aqui nem em nenhum dos cinco versículos do episódio, ao contrário de Marcos 10:52 e Lucas 18:42. Não diz os nomes dos dois, nem se chegaram a Jerusalém; eles nunca mais aparecem no evangelho. Não diz se a multidão viu, se se calou ou se mudou de opinião. E não diz que a compaixão foi a causa da cura: diz que ela veio antes, e deixa a ligação para quem lê.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os dois, no fim

Eles entram na cena sentados e saem andando. Não ganham nome, história nem uma palavra depois da cura — em Mateus eles nunca reaparecem. Em Marcos 10:52 o homem curado “seguia-o pelo caminho”; em Lucas 18:43 ele segue glorificando a Deus. Aqui só se diz que seguiram.

Bengel (Johann Albrecht Bengel, filólogo alemão do século XVIII, autor de um comentário famoso pela concisão) observa um detalhe que o texto não enuncia: eles seguiram sem ninguém para guiá-los. Antes precisavam de alguém que os pusesse no lugar e os tirasse de lá. A independência é consequência imediata da cura, e o versículo a mostra sem dizer que a mostra.

Jesus

É o sujeito das três primeiras ações do versículo e não é o da última: a frase termina com dois homens fazendo algo que ele não pediu, não ordenou e, pelo que o texto registra, não comentou. Ele estava no penúltimo trecho de uma viagem cujo fim havia descrito em Mateus 20:18-19, e o capítulo seguinte abre com a entrada em Jerusalém.

A multidão

Ela está presente e o versículo não fala dela. Tinha seguido Jesus desde Jericó, em Mateus 20:29, e tinha mandado os dois se calarem, em Mateus 20:31. Depois da cura, desaparece do relato sem uma linha.

O que acontece neste versículo

A compaixão, o toque, a visão e o seguimento — nessa ordem, sem intervalo marcado entre eles. É o fim do episódio, o fim do capítulo 20 e o último milagre que Mateus narra como cena.

5. Pontos de Ensino

A ordem das quatro coisas

O versículo não começa pelo poder. Começa pelo que aconteceu dentro de quem tinha o poder, e só depois vem a mão.

O gesto, aqui, é consequência e não demonstração. Quem narra um milagre para provar uma tese começa pelo efeito espetacular; aqui a primeira informação é invisível para todos os presentes, inclusive para os dois que não podiam ver nada.

O toque não era necessário — e foi feito

Mateus registra curas a distância, sem contato e sem presença. Portanto o contato não era o mecanismo.

O que fica é um gesto desnecessário feito no ponto exato que os dois haviam nomeado. Para quem não vê, um toque nos olhos é a única maneira de saber, antes do resultado, que alguém está atendendo — e atender bem inclui fazer o outro perceber que está sendo atendido.

Não houve condição

Nada foi exigido. Não houve pergunta sobre merecimento, não houve tarefa a cumprir antes, não houve promessa cobrada depois, não houve ordem de silêncio.

Dentro deste capítulo o contraste é grande, porque Mateus 20 é um capítulo sobre o que se merece, sobre quem trabalhou mais e sobre quem tem direito a qual lugar. O episódio que o fecha não tem nada disso. Os dois não alegam merecimento nenhum e não são perguntados sobre isso.

O que veio depois não estava no pedido

Eles pediram vista e foram atrás. Ninguém mandou.

O ponto de ensino não é que todo favor recebido cria obrigação de seguir quem o concedeu — essa leitura transforma gratidão em dívida, e o texto não a formula. O que se pode dizer é o inverso: o que os dois fizeram com os olhos novos foi a primeira coisa que eles decidiram sozinhos em toda a cena. Até ali, tudo o que fizeram foi reagir — ao som de quem passava, à repreensão da multidão, à pergunta. O seguimento é a única iniciativa deles.

6. Aspectos Filosóficos

Onde ficava o sentimento, para quem escrevia em grego

A tradução diz “cheio de compaixão”, e isso descreve um estado de espírito. O grego diz outra coisa: diz que algo se moveu nas vísceras dele. São duas maneiras diferentes de localizar a vida interior — uma põe o sentimento numa pessoa, a outra põe num órgão.

O estudioso que fez dessa diferença o centro do seu trabalho foi Jean-Pierre Vernant (1914-2007), francês, helenista, professor no Collège de France e autor de Mito e pensamento entre os gregos (1965) e As origens do pensamento grego (1962).

O grego antigo não tinha um “dentro”

A tese de Vernant, defendida contra a leitura que projetava o indivíduo moderno sobre a Grécia, é que na poesia grega mais antiga não existe nem o conceito de corpo unificado nem o de pessoa interior.

Ele mostrou isso por análise de vocabulário. Em Homero não há palavra para o corpo vivo como totalidade: a que depois significaria “corpo” designa o cadáver, e o ser vivo é nomeado no plural — os membros, a pele, as articulações. Com o sentimento é igual. Não há um lugar único onde ele more; há órgãos, cada um com o seu nome e a sua função — o peito, o diafragma, o coração, as entranhas. A cólera sobe num deles, o medo aperta outro, a coragem enche um terceiro.

Daí o ponto de Vernant que este versículo torna palpável: nesse modo de falar, a emoção não é algo que um sujeito produz, é algo que passa por ele e move as suas partes. O homem arcaico não tem vida interior privada; tem um corpo atravessado por forças que chegam.

O que isso faz com a primeira palavra do versículo

O verbo grego daqui é construído sobre a palavra das vísceras, e está na voz passiva. Traduzido ao pé da letra, não diz que Jesus sentiu compaixão: diz que ele foi movido nas entranhas. Sujeito e órgão trocam de papel — quem age, na frase, é o que se move dentro; quem é movido é ele.

Duas consequências saem disso, e as duas são verificáveis na frase. A primeira é que a tradução portuguesa faz um trabalho que o grego não faz: converte um acontecimento do corpo num estado da alma e acrescenta um sujeito onde o grego pôs uma passiva. Não é erro — é o que qualquer língua moderna precisa fazer. Mas é bom saber que se está lendo uma conversão.

A segunda é que a estrutura da frase não separa o dentro do fora. A compaixão não é uma etapa que termina antes de a mão se mover: gramaticalmente, ela é a circunstância do toque, e há uma só ação na frase. O que a leitura moderna divide em três — primeiro sentiu, depois decidiu, depois agiu — o grego mantém como um movimento contínuo que começa nos órgãos e acaba na ponta dos dedos.

Os limites, e eles são grandes

Vernant estudou Homero e a Grécia arcaica, séculos antes de Mateus. No grego do século I já existia vocabulário abstrato para a vida interior — alma, consciência, mente —, e Mateus o usa em outros lugares. Portanto a linguagem visceral deste versículo não prova que ele pensasse como um poeta arcaico.

Há um complicador a mais, e ele é honesto: o verbo em questão é, com toda a probabilidade, criação do grego falado por judeus, e não herança da poesia grega antiga. O fundo dele é hebraico, não homérico. Isso não desfaz a comparação — as duas tradições localizavam a compaixão no ventre —, mas impede que se diga que Mateus está usando a psicologia de Homero.

O que a aproximação rende, então, é uma advertência de método: quem lê “cheio de compaixão” em português lê um sentimento; quem lê o grego encontra um órgão. A diferença não é enfeite. Ela decide se o versículo está descrevendo o que Jesus sentia ou registrando o que aconteceu com ele.

7. Aplicações Práticas

A causa grande não dispensa a pessoa que está na frente

A multidão deste episódio estava fazendo algo legítimo: subia para Jerusalém, na companhia de quem ela reconhecia como mestre, em véspera de festa. Foi essa multidão que tentou calar dois mendigos.

A aplicação é direta e incômoda, porque a armadilha não é a maldade: é a boa ocupação. Quem está no meio de um trabalho importante trata a interrupção como obstáculo, e pessoas chegam sempre na forma de interrupção. Uma pergunta útil, de vez em quando: quem foi mandado calar para que a coisa importante seguisse — em casa, no trabalho, numa igreja.

Faça o gesto, mesmo quando ele não é o mecanismo

O toque não era o que curava. Foi feito de todo modo, no ponto que os dois haviam nomeado.

Isso tem uso prático em qualquer situação de cuidado: avisar que se está fazendo, tocar o ombro, dizer o nome, olhar nos olhos. Nada disso resolve o problema, e quem trata só do problema costuma achar essas coisas perda de tempo. Para quem recebe, elas são a única informação disponível antes do resultado.

Não cobre o seguimento

Quem é atendido às vezes segue quem o atendeu. Aqui seguiram, e ninguém mandou.

A aplicação está no negativo, e vale para pais, professores, padrinhos, chefes e para quem faz caridade: o favor não gera dívida exigível. No momento em que se espera retorno, o que foi dado deixa de ter sido dado. O versículo mostra um seguimento que não foi pedido, e é exatamente por não ter sido pedido que ele significa algo.

Pedir sem argumentar merecimento

Num capítulo inteiro sobre o que cada um merece, os dois não alegam nada. Não dizem quanto tempo esperaram, não dizem que são justos, não comparam a própria situação com a de ninguém.

A quem pede: o histórico de sofrimento não é credencial, e recitá-lo consome o tempo em que se poderia dizer o que se quer. A quem atende: exigir credencial antes de atender é o comportamento que este episódio não tem.

Uma ressalva

Não se extrai daqui técnica de cura nem promessa de que pedidos assim sejam atendidos. O versículo narra uma cura imediata e completa, e o próprio evangelho, em Marcos 6:5, registra um lugar em que quase ninguém foi curado. Tomar este versículo como padrão do que se deve esperar é usá-lo contra o que ele é: um caso, contado uma vez, no fim de um capítulo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o texto informa o que Jesus sentiu, se ninguém podia ver isso?

É a pergunta mais estranha do versículo, e ela tem consequência. Os dois eram cegos e não viram a expressão dele; a multidão estava atrás; e o que a frase descreve é um movimento interno, sem sinal externo mencionado.

A informação, portanto, não vem de testemunha: vem de quem escreve. Em Mateus 15:32 esse problema não existe, porque a frase está na boca de Jesus — “tenho compaixão desta multidão”; nos outros quatro casos, e aqui, ela é afirmada de fora.

Não se conclua daí que a frase é invenção. Conclua-se o que é verificável: o evangelho se autoriza a dizer o que se passa dentro de Jesus, e usa essa autorização cinco vezes, sempre com o mesmo verbo.

Por que não houve ordem de silêncio, se no capítulo 9 houve?

Não se sabe. Em Mateus 9:30 a ordem é dada com severidade e é desobedecida no versículo seguinte; aqui não há ordem nenhuma.

Uma explicação plausível é de posição: no capítulo 9 Jesus está no começo da atividade pública na Galileia, e Mateus registra várias ordens de silêncio nessa fase. Aqui ele está a um dia de Jerusalém, e no capítulo seguinte entra na cidade sendo aclamado em público. Guardar segredo deixou de fazer diferença. É hipótese, e o texto não a enuncia.

Eles seguiram até onde?

O texto não diz, e os dois não voltam a aparecer em Mateus. O capítulo seguinte começa com a aproximação de Jerusalém e com a multidão gritando “Hosana ao Filho de Davi” — o mesmo título que os dois estavam gritando na estrada. Se eles estavam ali, Mateus não informa.

A pergunta interessa porque a estrada que eles tomaram tinha destino declarado. Mateus 20:18-19 descreve o que aconteceria no fim dela. Quem segue, neste ponto do evangelho, segue para lá.

A cura foi física ou simbólica?

Foi contada como física, e a narrativa não dá margem a outra leitura: olhos que não funcionavam, um toque nos olhos, visão imediata. Não há no episódio nenhum vocabulário de dentro, nenhuma menção a entender, crer ou aprender.

Vários comentaristas leem a cena também como figura da cegueira espiritual — Matthew Henry é o exemplo mais influente em língua inglesa. Essa leitura tem base no próprio evangelho, que usa a imagem em outros lugares, e é leitura acrescentada: aqui o texto trata de dois corpos. Marcar essa diferença não empobrece o episódio; impede que a cura de duas pessoas concretas seja convertida em metáfora e desapareça.

9. Conexão com Outros Textos

A frase idêntica do capítulo 9

Mateus 9:29 — "Então tocou os olhos deles, dizendo: Conforme a fé de vocês, seja feito a vocês."

No grego do Textus Receptus, “tocou os olhos deles” é palavra por palavra o que este versículo diz. A diferença está no que acompanha: ali uma frase sobre a fé dos dois, aqui nada.

Mateus 9:30 — "E Jesus os advertiu severamente, dizendo: Vejam que ninguém saiba disto."

Mateus 9:31 — "Mas eles, saindo, divulgaram a fama dele por toda aquela terra."

O fecho do episódio gêmeo: ordem de silêncio, e desobediência. Aqui não há ordem, e o que os dois fazem — seguir — também não foi mandado.

O verbo do fim, cinco versículos antes

Mateus 20:29 — "Quando eles saíam de Jericó, uma grande multidão seguiu Jesus."

O mesmo verbo que fecha o versículo 34, aplicado à multidão. É a multidão que, dois versículos depois, manda os dois se calarem.

Mateus 4:20 — "E eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram."

O mesmo verbo no chamado dos primeiros discípulos, com o mesmo advérbio de imediatez deste versículo. Em Mateus ele cobre tanto o discipulado quanto o simples ir atrás, e o evangelho não marca a diferença com palavra nenhuma.

O sinal anunciado

Mateus 11:5 — "os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciada a boa-nova."

A lista que Jesus mandou levar a João Batista. O verbo de “os cegos veem” é o mesmo verbo deste versículo, e as duas passagens são as únicas de Mateus em que ele se refere a cegos.

Mateus 21:14 — "Cegos e mancos aproximaram-se dele no templo, e ele os curou."

A cura seguinte no evangelho, e o modo como ela é contada: em resumo, sem nomes, sem fala, sem gesto descrito. Depois deste versículo, Mateus não volta a narrar uma cura como cena.

O verbo da compaixão nos outros quatro lugares de Mateus

Mateus 9:36 — "E, vendo as multidões, teve compaixão delas, porque estavam exaustas e desamparadas, como ovelhas que não têm pastor."

Um dos dois lugares em que o motivo da compaixão é dito — o outro é Mateus 15:32, onde Jesus o declara em voz alta. Nos quatro casos anteriores o objeto é coletivo ou está dentro de uma parábola: multidões em Mateus 9:36, 14:14 e 15:32, e um devedor em Mateus 18:27. Neste versículo são duas pessoas.

O outro relato do mesmo dia

Marcos 10:52 — "E Jesus lhe disse: 'Vai, a tua fé te salvou'. E imediatamente ele recobrou a vista e seguia Jesus pelo caminho."

Marcos tem o seguimento e tem a fé nomeada; não tem a compaixão nem o toque. As três versões do episódio concordam no fecho — todos os três evangelhos terminam com o verbo de seguir — e divergem em tudo o que vem antes dele.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Cheio de compaixão, Jesus tocou nos olhos deles. Imediatamente eles recuperaram a visão e o seguiram.

Texto grego

σπλαγχνισθεὶς δὲ ὁ Ἰησοῦς ἥψατο τῶν ὀφθαλμῶν αὐτῶν, καὶ εὐθέως ἀνέβλεψαν αὐτῶν οἱ ὀφθαλμοί, καὶ ἠκολούθησαν αὐτῷ.

Transliteração

splanchnistheìs dè ho Iēsoûs hḗpsato tō̂n ophthalmō̂n autō̂n, kaì euthéōs anéblepsan autō̂n hoi ophthalmoí, kaì ēkoloúthēsan autō̂i.

A base é o Textus Receptus, que a versão ABC segue no Novo Testamento. Este é o versículo do capítulo em que as duas tradições do texto grego mais divergem depois do versículo 16, e a divergência tem seção própria abaixo.

Palavra por palavra

σπλαγχνισθεὶς (splanchnistheìs) — “tendo-se compadecido”

Particípio aoristo passivo, nominativo masculino singular. A raiz e o sentido visceral do verbo estão desenvolvidos no estudo de Mateus 14:14.

O que é próprio desta ocorrência é a forma. Nos cinco lugares em que Mateus usa o verbo, a construção varia: em Mateus 14:14 e Mateus 15:32 ele está no indicativo, isto é, é uma das ações da frase; em Mateus 9:36, Mateus 18:27 e aqui, é particípio. A diferença não é decorativa. No particípio, a compaixão não é um ato ao lado dos outros — é a circunstância sob a qual o ato principal acontece. Gramaticalmente, o que ele faz neste versículo é uma coisa só: tocar. A compaixão é o modo.

Há um segundo dado, de história da palavra. Na versão grega do Antigo Testamento esse verbo é raríssimo — registra-se em Provérbios 17:5 e em 2 Macabeus 6:8, e neste último ainda no sentido material de comer as vísceras do sacrifício —, e fora da literatura judaica e cristã o uso figurado praticamente não se documenta. Daí a hipótese, comum entre os lexicógrafos, de que se trata de uma criação do grego falado pelos judeus da diáspora, um verbo cunhado para dizer em grego uma ideia hebraica. É plausível e não é demonstrável: a ausência em textos pagãos pode ser efeito do que sobreviveu.

δὲ (dè) — “e”, “então”

Partícula de ligação, fraca. Não marca oposição forte nem consequência: apenas segue.

ἥψατο (hḗpsato) — “tocou”

Aoristo do indicativo médio, terceira pessoa do singular, do verbo háptomai. É o verbo grego comum de tocar, encostar, pegar — a raiz que o português conserva em “háptico”, relativo ao tato.

A voz média indica que o sujeito age com envolvimento próprio, e este verbo só existe nessa voz quando significa tocar: na forma ativa ele significa outra coisa, acender. Pede o objeto no genitivo, e é o caso aqui — construção que o português traduz por “tocou nos olhos”, com preposição.

τῶν ὀφθαλμῶν αὐτῶν (tō̂n ophthalmō̂n autō̂n) — “nos olhos deles”

Genitivo plural, regido pelo verbo de tocar. Ophthalmós é a palavra prosaica e corrente para olho, e é a mesma que os dois usaram no pedido do versículo anterior.

καὶ εὐθέως (kaì euthéōs) — “e imediatamente”

O advérbio vem de um adjetivo que significa reto, direto, sem desvio. Em Mateus ele é um marcador frequente dos relatos de cura, e a sua função aqui é fechar a porta a qualquer intervalo entre o gesto e o resultado.

ἀνέβλεψαν (anéblepsan) — “recuperaram a visão”

Aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do plural, de anablépō — composto do prefixo aná, que indica movimento para cima ou repetição, com blépō, ver.

Os dois valores do prefixo produzem dois sentidos que a palavra carrega ao mesmo tempo: “erguer os olhos” e “ver de novo”. Em Mateus 14:19 vale o primeiro, quando Jesus ergue os olhos ao céu; aqui e em Mateus 11:5 vale o segundo. São as três ocorrências do verbo no evangelho.

O sentido “ver de novo” traz embutida uma informação que a narrativa não confirma — a de que houve visão antes. O grego do período, porém, já usava o verbo para qualquer recuperação de vista, e por isso ele não decide se a cegueira era de nascimento.

αὐτῶν οἱ ὀφθαλμοί (autō̂n hoi ophthalmoí) — “os olhos deles”

Nominativo plural, sujeito do verbo anterior. Literalmente, portanto: “e imediatamente os olhos deles recuperaram a visão”. Quem vê, na frase, são os olhos, não os homens — e são os homens que passam a ser sujeito na oração seguinte.

καὶ ἠκολούθησαν αὐτῷ (kaì ēkoloúthēsan autō̂i) — “e o seguiram”

Aoristo do indicativo ativo, terceira pessoa do plural, de akolouthéō — andar junto, ir atrás, acompanhar. O verbo pede o objeto no dativo, e é essa a construção aqui.

Em Mateus ele aparece cerca de vinte e cinco vezes e cobre dois usos sem distinguir um do outro: o chamado dos discípulos e o movimento de multidões atrás de Jesus. A forma usada aqui é idêntica à de Mateus 20:29, mudando apenas o número.

A divergência entre as duas tradições do texto grego

O Textus Receptus, seguido pela ABC, traz “olhos” duas vezes, na forma reproduzida acima. O texto crítico moderno — Westcott e Hort, Nestle-Aland, a edição da Sociedade Bíblica — diverge em dois pontos.

Primeiro, no lugar de ophthalmō̂n ele lê ommátōn, genitivo de ómma, um segundo substantivo grego para olho: palavra de registro alto, de origem poética, que no Novo Testamento só aparece em mais um lugar — Marcos 8:23, também numa cura de cego. Mateus não a usa em parte nenhuma.

Segundo, ele suprime a segunda menção: onde o Textus Receptus diz “e imediatamente os olhos deles recuperaram a visão”, o texto crítico diz apenas “e imediatamente recuperaram a visão”, com os dois homens por sujeito.

A troca entre as duas palavras para olho é hábito conhecido de copista, e ocorre nas duas direções: Scrivener (Frederick Scrivener, crítico textual inglês do século XIX, editor da edição mais usada do Textus Receptus) registra que o Códice de Beza substitui ophthalmō̂n por ommátōn exatamente em Mateus 9:29, o versículo gêmeo deste.

Os argumentos dos dois lados são de tipos diferentes. A favor do texto crítico: a palavra rara é a leitura mais difícil, e copistas tendem a substituir o raro pelo corrente; a supressão da segunda menção segue a mesma lógica, porque acrescentar um eco é mais tentador do que apagá-lo. A favor do Textus Receptus: a palavra rara é estranha ao vocabulário de Mateus, e o eco de “olhos” liga este versículo ao pedido anterior do mesmo modo que o evangelho já fizera em Mateus 9:29-30. Não é possível decidir, e nada de substancial depende disso.

11. Conclusão

Do que este versículo mostra, conclui-se primeiro que o episódio se fecha por dentro, não por fora. A primeira informação da frase é invisível a todos os presentes — os dois eram cegos, a multidão estava atrás — e é dela que sai o gesto. O que move a cena não é um sinal público, e não é declarado por nenhuma testemunha.

Conclui-se, em segundo lugar, que o gesto responde ao pedido e não o executa. Mateus registra curas sem contato nenhum, e portanto o toque não era o meio pelo qual a coisa se fazia. Ele vai ao ponto que os dois haviam nomeado e chega pelo único canal que restava a quem não vê.

Em terceiro lugar, conclui-se que nada foi exigido em troca. Num capítulo inteiro construído sobre mérito, ordem de chegada e direito a lugares, o último episódio não tem cálculo, não tem condição, não tem ordem de silêncio e não tem cobrança.

Em quarto lugar, conclui-se que o fecho excede o pedido. Os dois pediram olhos, e o versículo termina com pés: o verbo que o episódio dera à multidão no versículo 29 passa, no versículo 34, para eles. Mateus não explica a troca e não diz por que eles foram atrás — a razão é leitura de quem lê.

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Mateus 20:34

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