O senhor daquele escravo teve compaixão dele, soltou-o e lhe perdoou a dívida.
1. Introdução
O escravo pediu prazo. O senhor não dá prazo: tem compaixão, solta o homem e perdoa a dívida inteira.
O verbo de "perdoar a dívida" é o mesmo que os evangelhos usam para perdoar pecados. E a palavra grega para "dívida", aqui, é a de um empréstimo — um detalhe que muda o jeito de olhar a conta. Este é o gesto da parábola que mais se lê como gesto de Deus, e a própria parábola impede que ele seja lido sozinho.
2. Contexto Histórico e Cultural
Como se apagava uma dívida
No mundo greco-romano, a dívida vivia num documento. O empréstimo era registrado por escrito, muitas vezes de próprio punho pelo devedor, e o papel ficava com o credor. Em grego, esse reconhecimento de dívida se chamava cheirographon ("escrito à mão", o recibo assinado pelo devedor).
Quitar ou perdoar a dívida era fazer alguma coisa com esse papel: devolvê-lo ao devedor, rasgá-lo ou riscá-lo. Entre os papiros do Egito romano há contratos de empréstimo cancelados com um grande X traçado sobre o texto — a letra grega chi. O teólogo alemão Adolf Deissmann, que estudou os papiros no começo do século XX, chamou a atenção para esses documentos riscados.
É essa imagem que a Carta aos Colossenses usa para o perdão: Deus "riscou a certidão de nossa dívida" (Colossenses 2:14), com a mesma palavra, cheirographon.
A parábola não fala de documento. Mas os ouvintes sabiam o que significava, na prática, um credor "perdoar a dívida": o papel deixava de valer, e o devedor saía sem ele pendurado.
O perdão de um, não de todos
O mundo antigo conhecia o perdão de dívidas decretado por reis. Na Mesopotâmia, um rei podia proclamar a anulação geral das dívidas e a libertação dos escravizados por elas; como esses decretos funcionavam está no estudo de Êxodo 2:23, item 2.
O gesto do versículo é de outra natureza. Não é um decreto para todos, nem o costume de um começo de reinado. É uma decisão sobre um só devedor, tomada na hora, diante dele. A parábola não diz que o rei tinha motivo político ou regra a cumprir. Diz que ele teve compaixão.
3. Análise Teológica do Versículo
"O senhor daquele escravo teve compaixão dele"
O motivo vem antes do ato. O senhor não calcula, não negocia, não avalia a promessa do versículo 26. Ele se compadece.
O verbo é o mais forte que os evangelhos têm para a compaixão, aquele que em Mateus descreve Jesus diante das multidões e dos doentes (ver o item 10). Aqui ele é aplicado a um rei que, dois versículos antes, mandou vender uma família inteira. O mesmo homem, a mesma cena.
O texto não explica a mudança. Não diz que a súplica comoveu, nem que o rei reconsiderou. O versículo 32 dará uma pista, na boca do próprio senhor: "porque você me suplicou". Mas aqui, no momento do ato, a única razão registrada é a compaixão.
"soltou-o"
O primeiro efeito é a liberdade. A ordem de venda do versículo 25 fica anulada: o homem, a mulher e os filhos não serão vendidos. O escravo sai da presença do rei livre da execução.
O versículo 28 começa com ele "ao sair". A saída é imediata.
"e lhe perdoou a dívida"
O segundo efeito é maior que o primeiro, e maior que o pedido. O escravo pediu tempo para pagar tudo. Recebe o cancelamento de tudo. Não há prazo, não há parcelamento, não há desconto: a dívida deixa de existir.
O verbo "perdoar" é o mesmo que Mateus usa para os pecados: "os seus pecados estão perdoados" (Mateus 9:2), "todo pecado e blasfêmia serão perdoados" (Mateus 12:31), o sangue "derramado em favor de muitos, para o perdão dos pecados" (Mateus 26:28). Numa parábola sobre dinheiro, o texto usa a palavra da religião. E é assim que ela liga a dívida do escravo à pergunta de Pedro sobre o irmão que peca.
A palavra que Mateus escolhe para "dívida" é outra surpresa. Não é a palavra comum para o que se deve, e sim a de "empréstimo" (ver o item 10). Por que chamar de empréstimo uma dívida de dez mil talentos? Há duas leituras.
Primeira leitura: é um termo técnico, e a dívida era mesmo um empréstimo. O rei teria adiantado dinheiro ao administrador, e é isso que ele cancela. A palavra só descreve a operação.
Segunda leitura: é uma forma generosa de ver a conta. Um desvio ou um rombo de administração passa a ser tratado como empréstimo — algo que se concedeu e que, portanto, se pode abrir mão de cobrar.
Não é possível decidir. Nas duas leituras, o que o senhor perdoa é o que era dele.
O gesto e Deus
Este é o versículo que mais convida a ver Deus no rei, e a leitura tem apoio no fim da parábola: "assim também o meu Pai" (Mateus 18:35). Mas o mesmo senhor que perdoa aqui vai revogar o perdão e entregar o escravo aos torturadores no versículo 34. O texto não diz que o perdão do versículo 27 era provisório, nem que tinha condições no momento em que foi dado. Ler o versículo sozinho, como retrato completo de Deus, é tirar dele mais do que ele diz; lê-lo só à luz do versículo 34 é tirar dele menos. A parábola sustenta as duas coisas, e não as resolve aqui.
O pedido do Pai Nosso — "perdoa-nos as nossas dívidas" — usa a mesma imagem, e o seu sentido está no estudo de Mateus 6:12.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O senhor
O rei dos versículos 23 a 25. Neste versículo, é "o senhor daquele escravo": o título o prende à relação com o devedor.
O escravo perdoado
O devedor dos dez mil talentos, agora livre da venda e sem dívida. Sai da presença do rei no começo do versículo 28.
A família
A mulher e os filhos, incluídos na ordem de venda, ficam livres com ele. O texto não os menciona de novo.
5. Pontos de Ensino
O perdão vai além do pedido
O escravo pediu prazo; recebeu o cancelamento.
O motivo registrado é a compaixão
Não a promessa, nem um cálculo. O texto não dá outro motivo no momento do ato.
A dívida e o pecado estão na mesma palavra
O verbo de perdoar a dívida é o de perdoar pecados. A parábola liga as duas coisas pela língua.
O gesto não se lê sozinho
O mesmo senhor vai revogar o perdão no versículo 34. A parábola precisa ser lida até o fim.
6. Aspectos Filosóficos
Dívida, culpa e o perdão que desfaz a conta
O antropólogo norte-americano David Graeber, em Dívida: os primeiros 5.000 anos (2011), observa que a linguagem da dívida está no centro da moral e da religião de muitos povos: "dever", "culpa", "redenção" e "resgate" vêm, em várias línguas, do vocabulário do dinheiro emprestado. Para ele, isso não é inocente. O que diferencia uma dívida de qualquer outra obrigação é que ela pode ser medida com precisão. E uma obrigação medida pode ser cobrada friamente, transferida, executada — até a venda de uma família.
Graeber também mostra que o mundo antigo conhecia uma saída para esse sistema: o cancelamento. Os reis da Mesopotâmia decretavam o "zerar da conta", e a Bíblia tem o seu próprio ano de remissão (Deuteronômio 15:1-2). O perdão da dívida, nesses casos, não é um pagamento feito por outro meio; é a decisão de que a conta deixa de existir.
Lido com Graeber, o versículo faz exatamente isso. O senhor não recebe nada, não parcela, não troca a dívida por outra obrigação. Ele sai da lógica da medida. É por isso que o gesto não cabe na pergunta de Pedro, "quantas vezes?": quem cancela a conta não tem mais o que contar.
A leitura é do filósofo aplicada ao texto, não do texto. E ela tem um limite que a própria parábola impõe: no versículo 34, a conta volta a ser cobrada.
7. Aplicações Práticas
Perdoar é deixar de cobrar
O senhor não finge que a dívida não existiu. Ele sabe o valor exato. O que ele faz é abrir mão de cobrar. É uma descrição concreta do perdão que serve para situações comuns: a ofensa foi real, o prejuízo tem tamanho, e quem perdoa desiste de receber de volta.
Receber mais do que se pediu
O escravo pediu prazo e ganhou quitação. Quem já foi perdoado de algo que não tinha como reparar sabe a diferença entre ser tolerado e ser liberado. A parábola vai perguntar, nos versículos seguintes, o que essa pessoa faz com o que recebeu.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O escravo entendeu que foi perdoado?
O texto não diz. Ele pediu prazo, e a parábola não registra nenhuma reação dele ao cancelamento. O que ele faz em seguida, no versículo 28, é o único indício.
O perdão dependia de alguma condição?
No momento em que é dado, o texto não põe condição nenhuma. A revogação do versículo 34 vem depois, por causa do que o escravo fez. Se isso significa que o perdão sempre teve uma condição implícita, é questão discutida entre os intérpretes.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma compaixão em Jesus
Mateus 14:14 — "Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão, teve compaixão dela e curou os que estavam doentes."
O mesmo verbo para os pecados
Mateus 6:12 — "E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores."
Mateus 9:2 — "E eis que lhe trouxeram um paralítico, deitado numa cama. Vendo Jesus a fé deles, disse ao paralítico: Tenha bom ânimo, filho; os seus pecados estão perdoados."
Mateus 26:28 — "Isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado em favor de muitos, para o perdão dos pecados."
Outro credor que perdoa quem não pode pagar
Lucas 7:42 — "Como não tinham com que pagar, perdoou-lhes a dívida de ambos. Qual, pois, deles o amará mais?"
A dívida riscada
Colossenses 2:14 — "Ele riscou a certidão de nossa dívida em ordenanças, a qual era contra nós, e a removeu, cravando-a na cruz;"
O ano do perdão das dívidas
Deuteronômio 15:2 — "E esta é a maneira da remissão: perdoará a seu devedor todo aquele que fez empréstimo de sua mão, com que obrigou a seu próximo: não o exigirá mais a seu próximo, ou a seu irmão; porque a remissão do SENHOR é proclamada."
10. Original Grego e Análise
Texto em português
O senhor daquele escravo teve compaixão dele, soltou-o e lhe perdoou a dívida.
Texto grego (Textus Receptus)
σπλαγχνισθεὶς δὲ ὁ κύριος τοῦ δούλου ἐκείνου ἀπέλυσεν αὐτόν, καὶ τὸ δάνειον ἀφῆκεν αὐτῷ.
Transliteração
splanchnistheis de ho kyrios tou doulou ekeinou apelysen auton, kai to daneion aphēken autō.
Diferenças entre manuscritos
Não há variante neste versículo: o Textus Receptus (a edição grega impressa que a ABC segue) coincide palavra por palavra com os manuscritos mais antigos.
Análise palavra por palavra
σπλαγχνισθεὶς — splanchnistheis, "tendo-se compadecido". Particípio aoristo de splanchnizomai, o verbo da compaixão sentida nas entranhas. A origem da palavra, a sua forma e as suas ocorrências estão no estudo de Mateus 14:14, item 10.
O que é próprio deste versículo: em Mateus, o verbo aparece quase sempre para Jesus (Mateus 9:36; 14:14; 15:32; 20:34). Esta é a única vez, no evangelho, em que ele é dito de outra pessoa — um personagem de parábola.
δὲ — de, "e", "mas". Partícula de ligação que marca uma virada. A ordem de venda do versículo 25 e a súplica do versículo 26 levam a este "mas".
ὁ κύριος τοῦ δούλου ἐκείνου — ho kyrios tou doulou ekeinou, "o senhor daquele escravo". Ekeinos, "aquele", aponta para o escravo já conhecido e, ao mesmo tempo, o distancia um pouco.
ἀπέλυσεν αὐτόν — apelysen auton, "soltou-o". Aoristo de apolyō, "soltar", "liberar", "despedir". Em Mateus, o verbo serve para despedir as multidões (Mateus 14:15, 22-23), para o marido que manda embora a mulher (Mateus 5:31-32) e para Pilatos soltando Barrabás (Mateus 27:15-26). Aqui, tem o sentido de libertar de uma sentença: a ordem de venda deixa de valer.
καὶ τὸ δάνειον — kai to daneion, "e o empréstimo". Daneion é a palavra técnica para "empréstimo", o dinheiro emprestado a ser devolvido, comum nos contratos dos papiros. Esta é a única vez que ela aparece em todo o Novo Testamento. O verbo da mesma família, daneizō, "emprestar", está em Mateus 5:42 ("não vire as costas a quem quiser de você tomar algo emprestado").
O contraste com o resto da parábola é visível no grego. No versículo 24, o homem é opheiletēs, "devedor", da família de "dever". No versículo 32, o senhor fala de "toda aquela dívida" com opheilē, a palavra comum para o que se deve. Só aqui, no momento do perdão, a dívida é chamada de "empréstimo". As leituras dessa escolha estão no item 3.
ἀφῆκεν αὐτῷ — aphēken autō, "perdoou-lhe", "deixou para ele". Aoristo de aphiēmi, "soltar", "deixar ir", "abrir mão", o verbo do perdão em todo o Novo Testamento.
A Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita antes de Cristo) usa o mesmo verbo, e o substantivo da família, aphesis, "remissão", para o ano em que as dívidas eram perdoadas: em Deuteronômio 15:2, o credor "perdoará" (aphēseis) o que emprestou. O verbo do perdão de pecados é, desde a origem, também o verbo do perdão de dívidas.
O aoristo apresenta o ato como completo: não é um perdão em andamento, nem parcial. A dívida foi deixada, de uma vez.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
O perdão do senhor é desproporcional ao pedido. O escravo pediu tempo e prometeu pagar; o senhor ignora a promessa e cancela tudo. O que resolve a dívida não é o esforço do devedor, e sim a decisão do credor de sair da conta.
A parábola fala de dinheiro com a palavra dos pecados. O verbo de "perdoar a dívida" é o do perdão de Deus nos evangelhos e o do ano de remissão na Lei. É por essa palavra que a história responde à pergunta de Pedro.
O gesto é o centro da parábola, mas não é o fim dela. O mesmo senhor que perdoa aqui vai cobrar de novo no versículo 34. O versículo 27 mostra o tamanho do perdão; o resto da história mostra o que se espera de quem o recebeu.













